Saturday, April 3, 2010

OS DEZ MANDAMENTOS


OS DEZ MANDAMENTOS (The ten commandments, 1956, Paramount Pictures, 220min) Direção e produção: Cecil B. DeMille. Roteiro: Aeneas McKenzie, Jesse Lasky Jr., Jack Gariss, Fredric M. Frank. Fotografia: Loyal Griggs. Montagem: Anne Bauchens. Música: Elmer Bernstein. Elenco: Charlton Heston, Yul Brinner, Anne Baxter, Edward G. Robinson, Yvonne de Carlo, John Derek, Vincent Price, Nina Foch. Estreia: 05/10/56

7 indicações ao Oscar: Melhor filme, Fotografia, Montagem, Figurino, Direção de Arte, Som, Efeitos Visuais

Vencedor do Oscar de Efeitos Visuais


"Os dez mandamentos" é um exagero! Exagero de intenções, de tempo de duração (mais de três horas e meia), de tempo de filmagem (cerca de cinco anos), de elenco (mais de 70 personagens com falas) e de orçamento (U$ 13 milhões em 1956). É também a despedida de seu diretor e produtor Cecil B. DeMille do cinema e o seu legado para as gerações posteriores. Pro bem e pro mal, é o filme que melhor representa o estilo grandiloquente da obra do cineasta, e só isso já o torna obrigatório para os fãs de cinema.

Com os dois pés fincados na estética kitsch - provavelmente antes mesmo que o termo passasse a ser usado em referência à cinema -, deMille construiu, em "Os dez mandamentos" quase uma ópera religiosa, fugindo das atuações naturalistas que ameaçam enterrar a "velha Hollywood". Em cena, diálogos empolados, quase teatrais, contrastam com os maneirismos que atores como Marlon Brando, James Dean e Montgomery Clift começavam a tornar populares. É difícil crer que "Os dez mandamentos" tenha sido lançado praticamente junto com "Juventude transviada", tamanha a distância entre suas intenções e resultados. Em comparação com o que o cinema americano começava a almejar - falar sobre problemas sociais, aproximar-se da realidade de seu público, por exemplo - o filme de DeMille chega a ser um retrocesso, tanto em termos plásticos quanto políticos. Beira a cafonice em vários momentos, e sua religiosidade levada quase ao limite do fanatismo (culpa do catolicismo exarcebado do diretor) incomodam justamente porque o filme não parece ser um produto de seu tempo. Se soava antiquado em 1956, imaginem agora.

Deixando de lado suas implicações sociais, políticas e/ou religiosas, é impossível negar que "Os dez mandamentos" tem algumas qualidades redentoras. Se os efeitos visuais - premiados com o Oscar da categoria - hoje parecem fakes, é preciso lembrar que na década de 50, eles ainda estavam engatinhando, buscando seu lugar ao sol na indústria do cinema. E são eles - mais do que qualquer outro aspecto do filme - é que são lembrados hoje em dia pela maioria do público. Cenas como aquela em que o Mar Vermelho se abre para a passagem dos hebreus em direção à Terra Prometida não deixam de ser impressionantes, principalmente se levado em conta o fato de que foram realizadas quase meio século antes do advento da computação gráfica. Isso também pode ser dito e louvado quando se percebe a multidão arrebanhada por DeMille em algumas de suas cenas: aquelas pessoas realmente estavam ali e não foram adicionadas na pós-produção, como normalmente se faz hoje em dia. Admirável, no mínimo!

No entanto, "Os dez mandamentos" sofre - e muito - com a megalomania de seu diretor. Uns bons 90 minutos poderiam tranquilamente ter sido deixados na mesa de edição, especialmente quando se percebe que o cineasta preferiu dar importância exagerada ao romance entre Josué (John Derek) e Lilia (Debra Paget), ao invés de concentrar-se em fatos determinantes da história - as pragas que assolam o Egito são apenas citadas em off quando deveriam ter sido mostradas. E pensando bem, a história só começa realmente depois de mais de 2 horas de projeção, quando finalmente Moisés (Charlton Heston, se preparando para ganhar o Oscar por "Ben-hur", três anos depois) assume seu posto como o Libertador do povo judeu e começa a desafiar o poder de Ramsés (Yul Brynner). Até então, é impossível negar que o filme é um tanto aborrecido, forçado, antigo mesmo. Não foi à toa que, apesar de seu sucesso de bilheteria, dividiu a crítica e nem teve o êxito que se esperava nas cerimônias de premiação do ano - indicado ao Oscar de Melhor Filme (mas não de Diretor), saiu apenas com a estatueta de Efeitos Visuais, um raro acerto da Academia, que nesse mesmo ano, esnobou "Assim caminha a humanidade", dando o prêmio máximo a "A volta ao mundo em 80 dias".

Gostar de "Os dez mandamentos" de forma incondicional diz muito sobre seu caráter religioso. Como cinema, impressiona em alguns momentos e decepciona em outros tantos. Como discurso teológico emociona os convertidos, mas dificilmente convence ateus. É uma bela história, sem dúvida, contada com tanto luxo que chega às raias do brega. Mas é também um bocado arrastado, com um ritmo lento e algumas atuações bastante antiquadas. É um filme que se pretendia uma obra-prima, mas que ficou no meio do caminho rumo a suas intenções. Ainda assim, é o testamento de um cineasta dos mais importantes da história do cinema.