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Wednesday, February 2, 2011

CORAÇÃO VALENTE


CORAÇÃO VALENTE (Braveheart, 1995, Icon Entertainment International, 177min) Direção: Mel Gibson. Roteiro: Randall Wallace. Fotografia: John Toll. Montagem: Steven Rosenblum. Música: James Horner. Figurino: Charles Knode. Direção de arte/cenários: Tom Sanders/Peter Howitt. Produção executiva: Stephen McEveety, Elisabeth Robinson. Produção: Bruce Davey, Mel Gibson, Alan Ladd Jr. Elenco: Mel Gibson, Sophie Marceau, Patrick McGoohan, Angus McFayden, James Cosmo, Stephen Billington. Estreia: 24/5/95

10 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Mel Gibson), Roteiro Original, Fotografia, Montagem, Trilha Sonora Original/Drama, Figurino, Som, Efeitos Sonoros, Maquiagem
Vencedor de 5 Oscar: Melhor Filme, Diretor (Mel Gibson), Fotografia, Efeitos Sonoros, Maquiagem
Vencedor do Golden Globe de Melhor Diretor (Mel Gibson)

Atores transformados em diretores tem uma grande simpatia dos eleitores da Academia, fazendo parte de uma quase tradição não oficial que frequentemente os premia com uma baciada de Oscar. Foi assim, por exemplo, com Robert Redford, Kevin Costner e Clint Eastwood, só pra citar alguns nomes nas últimas décadas. Quem também se beneficiou dessa boa vontade foi Mel Gibson: astro de filmes de ação como a série "Máquina mortífera" , o ator americano criado na Austrália começou a se reinventar nos anos 90, mostrando um lado sensível que seus trabalhos anterior jamais deixavam antever. Depois de dividir a crítica como a personagem-título de "Hamlet", de Franco Zefirelli e estrear atrás das câmeras com o belo "O homem sem face", Gibson pegou o mundo de surpresa com o ambicioso "Coração valente", um épico de quase três horas de duração em que conta a história de William Wallace, o maior herói da independência da Escócia. Indicado a dez Oscar e premiado em cinco categorias - inclusive as cobiçadas de melhor filme e diretor - o filme ainda arrecadou mais de 75 milhões de dólares no mercado doméstico, provando que, por trás do polêmico e rude ator de "Mad Max" escondia-se um talentoso e delicado cineasta.


Assumindo o papel central mesmo considerando-se velho demais para isso - ele queria o ator Jason Patric como protagonista - Gibson provou-se, também, bastante esperto. Para garantir a distribuição do filme nos EUA pela Paramount, ele aceitou enfeitar com seu nome os cartazes, sabendo que isso atrairia a audiência, que, do contrário, poderia passar ao largo de uma obra de longa duração cujo protagonista não era exatamente um mito mundial. Idolatrado na Escócia, o herói do filme é retratado pelo roteiro de Randall Wallace de forma mitológica, o que colabora para o envolvimento emocional da plateia. Ao equilibrar com inteligência sequências abismais de batalhas violentíssimas com uma fictícia história de amor e intrigas palacianas, Gibson e Wallace acertam em cheio: apesar de chegar perto de três horas de duração, "Coração valente" flui com uma velocidade ímpar, graças ao ritmo imposto pelo roteiro, ora contemplativo, ora alucinante.


As primeiras cenas já demonstram o cuidado do Gibson diretor, ao estabelecer, em poucos minutos, a personalidade de seu protagonista e sua relação com as demais personagens: ainda criança, o jovem William (interpretado pelo carismático James Robinson) perde o pai e vai morar com o tio, Malcolm (Sean Lawlor), que o ensina a ler, falar outras línguas e utilizar o cérebro com mais frequência do que a força física. Ao retornar ao vilarejo de sua infância (já na pele do Gibson ator), ele a encontra em crise, com a população revoltada com a lei da Primeira Noite, que dá aos nobres o direito de passar a noite de núpcias com as jovens noivas. A morte cruel de sua amada Murron (Catherine McCormack) o empurra indelevelmente à luta contra o governo inglês, na forma do déspota Edward Longshanks (Patrick McGoohan). Juntando um exército inferior em número mas superior em coragem e estratégia, Wallace torna-se uma lenda e desperta a paixão da princesa Isabelle (Sophie Marceau), nora do rei.


Para o público médio, que pouco se importa com licenças históricas, "Coração valente" é uma obra-prima. Ágil, belissimamente fotografado e dirigido com um cuidado evidente, é um filme realizado com alma e que remete aos épicos clássicos dos tempos áureos do cinema - não à toa, seu grande sucesso incentivou outras produções do estilo, quase todas sem a mesma qualidade. A maior diferença entre o filme de Gibson e seus congêneres é que o cineasta realmente sabia o que queria. Editada sem pressa mas nunca com uma lentidão exagerada, a história de William Wallace conquista a audiência justamente por jamais se permitir fugir de seu maior objetivo: contar uma bela história para um público o mais amplo possível. Sintomaticamente, algumas cenas até soam didáticas, mas sem ofender a inteligência dos espectadores.


E seria de uma injustiça imperdoável não louvar o realismo das cenas de batalha orquestradas por Mel Gibson. Realizadas em grande escala, as sequências que contrapoem ingleses e escoceses - violentas, bárbaras e sangrentas - enchem os olhos e os ouvidos, hipnotizando o público na mesma medida em que o diverte. Sim, o roteiro encontra espaço - ainda que pequeno - para um pouco de humor, mais um acerto da produção, que, assim, dá um alívio depois de alguns momentos bastante fortes.


"Coração valente" mereceu ser o vencedor do Oscar de 1995, ainda que tenha disputado a estatueta com os belos "Razão e sensibilidade" e "O carteiro e o poeta". Agradou a crítica, o público e os eleitores da Academia por seu perfeito equilíbrio entre ação, romance e história. Um épico digno da ser assim chamado!

Sunday, June 27, 2010

GANDHI


GANDHI (Gandhi, 1982, Columbia Pictures, 191min) Direção: Richard Attenborough. Roteiro: John Briley. Fotografia: Ronnie Taylor, Billy Williams. Montagem: John Bloom; Música: Ravi Shankar. Figurino: Bhanu Athaiya, John Mollo. Direção de arte/cenários: Stuart Craig/Michael Seirton. Casting: Susie Figgis. Produção executiva: Michael Stanley-Evans. Produção: Richard Attenborough. Elenco: Ben Kingsley, Candice Bergen, Edward Fox, John Gielgud, Trevor Howard, John Mills, Martin Sheen, Nigel Hawthorne. Estreia: 08/12/82

11 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Richard Attenborough), Ator (Ben Kingsley), Roteiro Original, Fotografia, Montagem, Trilha Sonora, Figurino, Direção de arte, Maquiagem, Som

Vencedor de 8 Oscar: Melhor Filme, Diretor (Richard Attenborough), Ator (Ben Kingsley), Roteiro Original, Fotografia, Montagem, Figurino, Direção de arte

Vencedor de 5 Golden Globes: Melhor Filme Estrangeiro, Ator/Drama (Ben Kingsley), Diretor (Richard Attenborough), Roteiro, Melhor Estreia Masculina (Ben Kingsley)


Mahatma ("Grande Espírito") Gandhi foi uma das personaliades mais fascinantes do mundo, um advogado inteligente e sensível que, baseado em sua filosofia de não-violência liderou a batalha pela independência da Índia das mãos do império britânico. Assassinado em 1948, tornou-se símbolo da luta pela paz e pela igualdade. E é a personagem principal da cinebiografia que, dirigida por Richard Attenborough, foi um dos maiores papa-Oscar da década de 80. Disputando o prêmio máximo com obras como "ET", de Steven Spielberg e "Tootsie", de Sydney Pollack (ambos grandes sucessos de bilheteria), "Gandhi" levou a a estatueta de Melhor Filme e foi premiado em outras sete categorias. Prova tanto do poder de seu gênero - cinebiografias épicas - em fascinar a Academia quanto da beleza e da importância de sua história.

Projeto de estimação do diretor inglês Attenborough (que dez anos mais tarde comandaria o menos bem-sucedido "Chaplin"), a biografia do pacifisita indiano não despertou muito interesse dos estúdios hollywoodianos, o que o obrigou a recorrer a artifícios variados, como vender sua parte dos direitos sobre a peça de teatro "A ratoeira", de Agatha Christie. Além de comprometer-se em dirigir outros dois filmes para o produtor Joseph E. Levine, ele contou com a ajuda do amigo e produtor executivo Jake Eberts e de companhias de cinema inglesas. O custo do filme, de 22 milhões de dólares foi coberto - principalmente depois dos Oscar, quando sua bilheteria chegou perto de 53 milhões. Comparando com "ET", por exemplo, que rendeu mais de 300 milhões não chega a ser uma marca impressionante, mas o é levando-se em consideração vários aspectos de sua natureza.

Primeiro, "Gandhi" não é um filme de puro entretenimento. Apesar de ser tranquilamente recomendável para qualquer idade, uma vez que não abusa de violência desnecessária nem tampouco utiliza de sexo e palavrões para conquistar uma audiência menos intelectualizada, o filme de Attenborough é bastante lento (dura mais de três horas), tem um assunto um bocado específico (e muitas vezes exige um certo conhecimento histórico do público) e foge do tradicional "final edificante e moralizador", uma vez que o filme todo passa uma mensagem de paz e tolerância. "Gandhi" é um filme adulto, feito para adultos e com intenções bem mais nobres do que simplesmente angariar fortunas. E nesse objetivo ele acerta magistralmente.

Tecnicamente "Gandhi" é uma maravilha. Belissimamente fotografado e com uma reconstituição histórica e épica impecáveis, é um trabalho cuidadoso, feito notadamente com um carinho e uma dedicação raras. Narrado de forma quase didática, a trajetória de seu protagonista em direção a uma Índia mais igualitária e menos opressiva tenta seduzir sua audiência pela beleza, pela delicadeza, pela sinceridade, e para isso conta com uma atuação irretocável de Ben Kingsley, ele próprio descendente de indianos. Ao ficar com o papel cobiçado por Alec Guinness, Anthony Hopkins, John Hurt e até mesmo Dustin Hoffman (!!) ele entregou uma interpretação quase mediúnica de Gandhi, um trabalho inesquecível e comovente.

"Gandhi" não é um filme perfeito. Muitas vezes um tanto cansativo - culpa talvez do roteiro que insiste em mostrar prisões e greves de fome de sua personagem central repetidas vezes -, é uma obra que exige de sua plateia uma dedicação e uma entrega maiores do que o que acontece normalmente. Mas é, sem sombra de dúvida, um filme que precisa ser visto e aplaudido, pelo que ele é e principalmente pela personalidade que retrata.

Sunday, May 9, 2010

DOUTOR JIVAGO


DOUTOR JIVAGO (Doctor Zhivago, 1965, MGM Pictures,197min) Direção: David Lean. Roteiro: Robert Bolt, baseado no romance de Boris Pasternak. Fotografia: Freddie Young. Montagem: Norman Savage. Música: Maurice Jarre. Figurino: Phyllis Dalton. Direção de arte/cenários: John Box / Dario Simoni. Produção: Carlo Ponti. Elenco: Omar Sharif, Julie Christie, Rod Steiger, Tom Courtenay, Geraldine Chaplin, Alec Guinness, Klaus Kinski, Ralph Richardson. Estreia: 22/12/65

10 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (David Lean), Ator Coadjuvante (Tom Courtenay), Roteiro Adaptado, Fotografia em Cores, Montagem, Trilha Sonora Original, Figurino em Cores, Direção de arte/Cenários em Cores, Som

Vencedor de 5 Oscar: Roteiro Adaptado, Fotografia, Trilha Sonora Original, Figurino em Cores, Direção de Arte/Cenários em Cores


Vencedor de 5 Golden Globes: Filme/Drama, Diretor (David Lean), Ator/Drama (Omar Sharif), Roteiro, Trilha Sonora

Houve um tempo em Hollywood que a palavra "épico" sempre vinha acompanhada do nome do diretor David Lean, e não era para menos. Basta assistir a qualquer um de seus filmes mais famosos - "A ponte do Rio Kwai" e "Lawrence da Arábia", por exemplo, para ficar apenas nas obras que lhe deram o Oscar - para perceber que o cineasta inglês tinha uma fascinação mais do que corriqueira por histórias que exigissem vastas paisagens, personagens apaixonadas - por uma causa, por uma missão, por uma pessoa - e principalmente histórias que se prestassem a longas durações. Exagero? "Lawrence" tem 216 minutos, "Rio Kwai" tem 161. Tendo isso tudo em vista, não é nada surpreendente que ele tenha se interessado pela adaptação cinematográfica do romance "Doutor Jivago", escrito por Boris Pasternak. Afinal de contas, além de todos os ingredientes citados acima, o livro de Pasternak - publicado em 1958 apenas fora da União Soviética, que só o pode ler em 1989 - ainda tinha um viés social que aumentava consideravelmente seu poder de sedução junto a uma plateia que dava seus primeiros passos em direção à consciência política. Sintomaticamente, "Doutor Jivago" foi o filme mais popular de Lean, arrecadando sozinho mais do que todos os seus trabalhos anteriores somados.

"Doutor Jivago" começa pra valer em 1912, às vésperas da I Guerra Mundial, em Moscou. É lá que o poeta e estudante de Medicina Yuri Jivago (Omar Sharif) toma contato com as diferenças sociais que empurram aos poucos a Rússia a uma revolução. Noivo de sua irmã de criação, Tonya (Geraldine Chaplin), ele conhece a bela Lara (Julie Christie), uma jovem que desperta os desejos lascivos do poderoso Komarovsky (Rod Steiger) que, entre outras mulheres, também é amante de sua mãe. Lara é noiva de Pasha (Tom Courtenay), um dos mais engajados membros do partido que tenciona tomar o poder russo. Quando a Guerra realmente chega, Lara e Jivago se reencontram em circunstâncias bastante dramáticas - ele como médico e ela como enfermeira voluntária - e se apaixonam, apesar de seus compromissos sentimentais (embora ela nunca mais tenha visto seu marido, um dos líderes do movimento que em pouco tempo forçará a Revolução Russa). Ao retornar para Moscou, Jivago encontra seu país em estado crítico, tendo a própria mansão de sua família invadida por dezenas de famílias. Ao recolher-se ao interior da Rússia com a mulher, o sogro e o filho, ele volta a encontrar Lara, e dessa vez eles se entregam ao forte sentimento que nutrem um pelo outro. A felicidade, no entanto, é efêmera, uma vez que a guerra civil que divide o país eclode e ameaça seu relacionamento.

Épico no sentido mais amplo do termo, "Doutor Jivago" é um espetáculo para ser degustado com admiração incondicional. A impressionante fotografia de Freddie Young, premiada com o Oscar, é uma das mais extraordinárias da história do cinema, marcando com eficiência e sensibilidade a passagem do tempo e o estado de espírito das personagens - não foi à toa que as filmagens sofreram grande atraso devido ao perfeccionismo de Lean, que fez questão de filmar cada cena dentro de seu respectivo período de tempo. A neve, que é visão constante ao espectador nunca foi tão linda, assim como a areia do deserto nunca esteve tão fotogênica quanto em "Lawrence da Arábia" . E os inúmeros closes nos olhos azuis de Christie apenas reforçam sua beleza e sua fragilidade, que se transforma em uma força inesperada em momentos extremos. Mas apesar do talento tanto de Julie quanto de Sharif, o romance entre suas personagens talvez seja o elo mais fraco de toda a trama.



Por incrível que pareça quando se trata de um épico romântico, a história de amor entre Jivago e Lara não chega a conquistar o público tanto quanto o cenário político-social em que ela se desenrola. Mesmo que as cenas entre os dois sejam de uma beleza inegável - culpa também da extraordinária e consagrada trilha sonora de Maurice Jarre - o interesse da plateia acaba sendo muito maior na trama política do filme e em suas consequências. Algumas cenas bastante violentas - mas ainda assim de uma poesia dolorosa - são magistralmente dirigidas por Lean em contraponto à placidez silenciosa de outras sequências.O roteiro, que condensa um livro de mais de 600 páginas em pouco mais de três horas de duração, busca fazer milagres. Ao mesmo tempo que foge gloriosamente do didatismo - o que de certa forma deixa a plateia um pouco perdida em alguns momentos - tenta fazer acreditar no romance entre seus protagonistas. Não é tarefa das mais fáceis e nem sempre seu objetivo é atingido plenamente - nas páginas escritas por Pasternak a paixão entre Jivago e Lara soa mais crível e avassaladora do que na tela, onde Sharif e Julie - atraentes, sem dúvida, mas um tanto apáticos - não transmitem o amor intenso de suas personagens. Comparados com a fúria de Rod Steiger e Tom Courtenay (o último indicado ao Oscar de coadjuvante) eles empalidecem bastante, mas ainda assim conquistam a cumplicidade do espectador. Em todo caso, poderia ter sido pior, já que o produtor Carlo Ponti queria que sua esposa Sophia Loren interpretasse a protagonista (dá pra imaginar a voluptuosa Loren na pele da sentimental Lara?)

"Doutor Jivago" é um grande filme. Soa moderno ainda hoje, graças à direção de Lean, que mescla seu estilo clássico com a garra e o perfeccionismo costumeiros. Embala os corações mais sensíveis com sua história de amor e enche os olhos daqueles que apreciam um cinema-espetáculo com seu visual arrebatador. Boris Pasternak ganhou o Nobel de Literatura por seu trabalho. E David Lean o adaptou à altura. Um filme para ver e rever!

Tuesday, April 27, 2010

REI DOS REIS


REI DOS REIS (King of kings, 1961, MGM Pictures, 159min) Direção: Nicholas Ray. Roteiro: Philip Yordan. Fotografia: Manuel Berenguer, Milton Krasner, Franz F. Planer. Montagem: Harold F. Kress. Música: Miklos Rozsa. Produção: Samuel Bronston. Elenco: Jeffrey Hunter, Ron Randell, Hurd Hatfield, Frank Thring, Rip Torn, Viveca Lindfords, Siobhan McKenna, Brigid Bazlen, Robert Ryan, Royal Dano. Estreia: 11/10/61

Com a gloriosa exceção do ultra-violento "A paixão de Cristo", lançado por Mel Gibson em 2004, filmes que retratam a passagem de Jesus pela Terra tendem a ser tão sonolentos quanto uma aula mal dada de Religião. Sem muita criatividade, os cineastas que se aventuraram a discorrer sobre o assunto sempre acabaram apelando para roteiros repletos de clichês e que, no fundo, nunca acrescentavam nada à história mais conhecida do mundo. Por essa razão, não deixa de ser louvável a coragem do cineasta Nicholas Ray em realizar, em 1961, o que talvez seja o menos previsível dos filmes sobre o assunto à chegar às telas até que Martin Scorsese abalasse o altar com "A última tentação de Cristo", 27 anos depois. Ao optar por um viés mais político e social do que religioso, o diretor de "Juventude transviada" reiterou sua fama de outsider, mas em compensação, viu seu filme ser praticamente ignorado em todas as cerimônias de premiação da temporada. Somente a sua hoje clássica trilha sonora (composta pelo prestigiado Miklos Rozsa) foi lembrada com uma indicação ao Golden Globe, o que, em comparação com a enxurrada de Oscar do religiosamente correto "Ben-hur" dois anos antes, apenas demonstra o quanto a visão um tanto quanto rebelde do cineasta incomodou a tradicional crítica da época.

A ousadia de Ray começa pelo fato de seu protagonista ser praticamente ignorado durante um bom tempo da primeira parte de projeção. Somente depois de 30 minutos de filme é que Jesus Cristo finalmente aparece de verdade, sendo batizado por João Batista (Robert Ryan) e na figura atraente de Jeffrey Hunter (o nativo que acompanhava John Wayne pelo deserto, em "Rastros de ódio"). Até então, o roteiro de Philip Yordan se concentrava em manobras políticas e em estabelecer - de forma um pouco maçante, diga-se de passagem - o panorama social de seu cenário (Jerusalém, Belém, Nazaré, etc). O surgimento de Jesus em cena é o clímax do que os governantes supunham ser uma rebelião iniciada por João Batista e que tinha em Barrabás (Harry Guardino) outro importante líder. Vincular Barrabás e seus seguidores a Jesus e seus apóstolos é outro golpe de mestre de Ray, que, ao invés de focar-se apenas nos ensinamentos de Cristo (coisa que inúmeros outros filmes fizeram), o coloca no meio do fogo cerrado entre os desmandos de Herodes Antipas e a insatisfação de seu povo. Nem mesmo a traição de Judas Iscariotes (Rip Torn) é vista de maneira convencional através dos olhos do cineasta, o que faz de REI DOS REIS o mais transgressor dos filmes religiosos realizados pela MGM.

Logicamente, a opção de Nicholas Ray pelo ângulo político-social da história de Jesus acarreta problemas outros além do repúdio do público mais conservador. Ao concentrar-se muitas vezes nas manobras estratégicas de Barrabás e seu grupo, o roteiro estende-se desnecessariamente, apresentando longas e um tanto cansativas sequências que de certa forma, desviam a atenção do que realmente importa, ou seja, a história em si, não tanto de Jesus Cristo, mas também das engrenagens que o levaram à crucificação e morte. Aliás, Ray parece tão pouco preocupado com o desfecho de sua história que os momentos que normalmente ocupam a maior parte dos filmes do gênero - a paixão em si, a morte e a ressurreição - são mostrados rapidamente, sem maiores detalhes (ao contrário da obra-prima de Gibson) e de maneira sintomaticamente despida de qualquer violência exagerada, quase asséptica. É tudo tão limpo na versão de Ray que Hunter chegou mesmo a ser depilado para as cenas de crucificação (tudo porque em exibições-teste o público não gostou de ver Jesus Cristo com pelos no peito). A impressão que fica é a de que o cineasta parecia gritar a seu público que não lhe interessava sangue, suor e lágrimas e sim o tortuoso caminho que levou a tudo isso.

Reprisado constantemente em feriados religiosos - em especial a Páscoa - "Rei dos reis" não é exatamente um filme religioso na acepção mais aceita do termo, assim como tampouco é um épico grandioso e inesquecível. É, isso sim, mais um documento da fé que Nicholas Ray tinha em realizar os filmes que queria e do jeito que queria. Pode não ser uma obra-prima, mas tem personalidade.

Wednesday, April 21, 2010

BEN-HUR


BEN-HUR (Ben-hur, 1959, MGM Pictures, 212min) Direção: William Wyler. Roteiro: Karl Turnberg, baseado no romance de Lew Wallace. Fotografia: Robert L. Surtees. Montagem: John D. Dunning, Ralph E. Winters. Música: Miklos Rosza. Produção: Sam Zimbalist. Elenco: Charlton Heston, Stephen Boyd, Jack Hawkings, Haya Harareet, Hugh Griffith, Martha Scott, Cathy O'Donnell. Estreia: 18/11/59

12 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (William Wyler), Ator (Charlton Heston), Ator Coadjuvante (Hugh Griffith), Roteiro Adaptado, Fotografia, Montagem, Trilha Sonora, Figurino Cores, Direção de Arte Cores, Som, Efeitos Especiais

Vencedor de 11 Oscar: Melhor Filme, Diretor (William Wyler), Ator (Charlton Heston), Ator Coadjuvante (Hugh Griffith), Fotografia, Montagem, Trilha Sonora, Figurino Cores, Direção de Arte Cores, Som, Efeitos Especiais

Vencedor de 3 Golden Globes: Melhor Filme/Drama, Diretor (William Wyler), Ator Coadjuvante (Stephen Boyd)


Quem achava que depois de "Os dez mandamentos" e a aposentadoria de Cecil B. de Mille os filmes de temática religiosa seriam coisa do passado em Hollywood deve ter ficado de queixo caído quando o remake de um filme lançado em 1925 em uma versão muda estreou nos cinemas, no final de 1959. Adaptado do romance cristão de Lew Wallace publicado em 1880, "Ben-hur" não só pagou seu orçamento estratosférico para a época (U$ 15 milhões) como tornou-se o recordista de estatuetas da Academia por quase 40 anos, com 11 prêmios no currículo ("Titanic" e "O Senhor dos Anéis, o retorno do rei" igualaram a marca em 1998 e 2003, respectivamente). O fato é que, mesmo que não se tenha simpatia pela propaganda do cristianismo feita pelo filme (motivo pelo qual o abertamente ateu Burt Lancaster recusou o papel-título), não se pode deixar de admirar suas inúmeras qualidades e mais ainda, de reconhecê-lo como o mais fascinante, empolgante e emocionante épico religioso de todos os tempos.

A bem da verdade, o militar Lew Wallace começou a pesquisar a vida de Jesus Cristo porque queria escrever um romance que desmentisse Sua existência ou qualquer outro dogma da Igreja católica. Reza a lenda que, depois de exaustivas pesquisas, ele chegou à conclusão não só de que Ele havia existido mas de que era realmente filho de Deus. A partir daí, logicamente, criou um dos mais populares livros de ficção a enfocar (ainda que de forma sutil) a passagem de Cristo pela Terra. Sutil, sim, afinal, apesar da presença dEle em momentos-chave da trama, "Ben-hur" não conta Sua história. O protagonista do filme dirigido por William Wyler - que aceitou fazer o filme por querer fazer algo do estilo de DeMille e porque recebeu o polpudo salário de um milhão de dólares - não faz milagres nem tampouco pode ser considerado um santo ou um líder de multidões. Ben-hur, a personagem, é um homem simples que se vê em uma situação de desespero ímpar e que tem a oportunidade de resgatar sua humanidade e sua dignidade perdidas, mesmo que para isso tenha que apelar para uma sangrenta vingança. Mais humano impossível.


Ben-hur (vivido com garra pelo vencedor do Oscar Charlton Heston)é um jovem e rico judeu que se recusa a delatar aqueles que planejam uma rebelião contra Roma. Considerado traidor pelo seu melhor amigo, Messala (Stephen Boyd), um aristocrata romano, ele tem sua propriedade confiscada e vê sua mãe e irmã aprisionadas. Condenado a servir de escravo em galés, Ben-hur passa três anos trabalhando como remador (daí a famosa expressão cunhada por Nelson Rodrigues, "trabalhava como um remador de 'Ben-hur') e vê sua vida ser novamente transformada quando, durante uma batalha no mar, ele salva a vida do oficial romano Quintus Arrius (Jack Hawkins). Agradecido, o oficial o liberta e lhe dá trabalho como condutor de sua quadriga. Quando se reencontra com Messala, Ben-hur o desafia a uma corrida de quadrigas, onde a rivalidade entre os dois ex-melhores amigos de infância irá chegar a seus níveis mais extremos.

O que é mais fascinante em "Ben-hur" é seu equilíbrio perfeito entre ação e emoção. As sequências mais empolgantes (em que se destaca a até hoje impressionante corrida de quadrigas) se encaixam magistralmente aos momentos mais dramáticos da trama, que envolvem o relacionamento do protagonista com a família e - e aí entra o aspecto religioso do filme que tanto incomodou Burt Lancaster - com um misterioso homem que atravessa seu caminho por duas vezes e transforma sua vida. Em nenhum diálogo o nome de Jesus Cristo é citado, mas não é preciso ser muito inteligente para perceber quem é o misterioso transeunte.

"Ben-hur" é um espetáculo grandioso, que, no entanto, não deixa jamais de dar importância a seu roteiro em vez de dedicar-se somente a seu visual. Não é à toa que, mesmo perdendo o Oscar (única indicação não convertida em estatueta), o script de Karl Turnberg seja até hoje um exemplo de ritmo, estrutura e bons diálogos. Os diálogos, aliás, merecem um capítulo à parte. O escritor Gore Vidal, abertamente homossexual, declarou, no documentário "Celulóide secreto" - que investiga a visão do cinema sobre os gays - que muitos dos diálogos entre Ben-hur e Messala foram escritos por ele e que, nas entrelinhas, faziam menção a um relacionamento de amantes entre os dois amigos. Segundo Vidal, a ira de Messala contra Ben-hur não advinha apenas de motivos políticos e sim do fato de ter sido rejeitado pelo amante. Assistir ao filme tendo essa informação abre portas imensas na compreensão da personalidade de Messala, vivido com gosto por um Stephen Boyd que sabia dessa mensagem subliminar que foi escondida de Charlton Heston, que jamais se submeteria a ela, haja visto sua visão conservadora da vida e da política.

"Titanic" e "O Senhor dos Anéis, o retorno do rei" podem ter empatado em número de Oscar com "Ben-hur", mas ninguém pode negar a supremacia artística do trabalho de William Wyler em relação a eles. Basta lembrar que nenhum dos dois primeiros levou estatuetas de atuação, atendo-se principalmente a prêmios técnicos, ao contrário deste clássico absoluto, que deu prêmios a Heston e Hugh Griffith por suas soberbas interpretações.

Saturday, April 3, 2010

OS DEZ MANDAMENTOS


OS DEZ MANDAMENTOS (The ten commandments, 1956, Paramount Pictures, 220min) Direção e produção: Cecil B. DeMille. Roteiro: Aeneas McKenzie, Jesse Lasky Jr., Jack Gariss, Fredric M. Frank. Fotografia: Loyal Griggs. Montagem: Anne Bauchens. Música: Elmer Bernstein. Elenco: Charlton Heston, Yul Brinner, Anne Baxter, Edward G. Robinson, Yvonne de Carlo, John Derek, Vincent Price, Nina Foch. Estreia: 05/10/56

7 indicações ao Oscar: Melhor filme, Fotografia, Montagem, Figurino, Direção de Arte, Som, Efeitos Visuais

Vencedor do Oscar de Efeitos Visuais


"Os dez mandamentos" é um exagero! Exagero de intenções, de tempo de duração (mais de três horas e meia), de tempo de filmagem (cerca de cinco anos), de elenco (mais de 70 personagens com falas) e de orçamento (U$ 13 milhões em 1956). É também a despedida de seu diretor e produtor Cecil B. DeMille do cinema e o seu legado para as gerações posteriores. Pro bem e pro mal, é o filme que melhor representa o estilo grandiloquente da obra do cineasta, e só isso já o torna obrigatório para os fãs de cinema.

Com os dois pés fincados na estética kitsch - provavelmente antes mesmo que o termo passasse a ser usado em referência à cinema -, deMille construiu, em "Os dez mandamentos" quase uma ópera religiosa, fugindo das atuações naturalistas que ameaçam enterrar a "velha Hollywood". Em cena, diálogos empolados, quase teatrais, contrastam com os maneirismos que atores como Marlon Brando, James Dean e Montgomery Clift começavam a tornar populares. É difícil crer que "Os dez mandamentos" tenha sido lançado praticamente junto com "Juventude transviada", tamanha a distância entre suas intenções e resultados. Em comparação com o que o cinema americano começava a almejar - falar sobre problemas sociais, aproximar-se da realidade de seu público, por exemplo - o filme de DeMille chega a ser um retrocesso, tanto em termos plásticos quanto políticos. Beira a cafonice em vários momentos, e sua religiosidade levada quase ao limite do fanatismo (culpa do catolicismo exarcebado do diretor) incomodam justamente porque o filme não parece ser um produto de seu tempo. Se soava antiquado em 1956, imaginem agora.

Deixando de lado suas implicações sociais, políticas e/ou religiosas, é impossível negar que "Os dez mandamentos" tem algumas qualidades redentoras. Se os efeitos visuais - premiados com o Oscar da categoria - hoje parecem fakes, é preciso lembrar que na década de 50, eles ainda estavam engatinhando, buscando seu lugar ao sol na indústria do cinema. E são eles - mais do que qualquer outro aspecto do filme - é que são lembrados hoje em dia pela maioria do público. Cenas como aquela em que o Mar Vermelho se abre para a passagem dos hebreus em direção à Terra Prometida não deixam de ser impressionantes, principalmente se levado em conta o fato de que foram realizadas quase meio século antes do advento da computação gráfica. Isso também pode ser dito e louvado quando se percebe a multidão arrebanhada por DeMille em algumas de suas cenas: aquelas pessoas realmente estavam ali e não foram adicionadas na pós-produção, como normalmente se faz hoje em dia. Admirável, no mínimo!

No entanto, "Os dez mandamentos" sofre - e muito - com a megalomania de seu diretor. Uns bons 90 minutos poderiam tranquilamente ter sido deixados na mesa de edição, especialmente quando se percebe que o cineasta preferiu dar importância exagerada ao romance entre Josué (John Derek) e Lilia (Debra Paget), ao invés de concentrar-se em fatos determinantes da história - as pragas que assolam o Egito são apenas citadas em off quando deveriam ter sido mostradas. E pensando bem, a história só começa realmente depois de mais de 2 horas de projeção, quando finalmente Moisés (Charlton Heston, se preparando para ganhar o Oscar por "Ben-hur", três anos depois) assume seu posto como o Libertador do povo judeu e começa a desafiar o poder de Ramsés (Yul Brynner). Até então, é impossível negar que o filme é um tanto aborrecido, forçado, antigo mesmo. Não foi à toa que, apesar de seu sucesso de bilheteria, dividiu a crítica e nem teve o êxito que se esperava nas cerimônias de premiação do ano - indicado ao Oscar de Melhor Filme (mas não de Diretor), saiu apenas com a estatueta de Efeitos Visuais, um raro acerto da Academia, que nesse mesmo ano, esnobou "Assim caminha a humanidade", dando o prêmio máximo a "A volta ao mundo em 80 dias".

Gostar de "Os dez mandamentos" de forma incondicional diz muito sobre seu caráter religioso. Como cinema, impressiona em alguns momentos e decepciona em outros tantos. Como discurso teológico emociona os convertidos, mas dificilmente convence ateus. É uma bela história, sem dúvida, contada com tanto luxo que chega às raias do brega. Mas é também um bocado arrastado, com um ritmo lento e algumas atuações bastante antiquadas. É um filme que se pretendia uma obra-prima, mas que ficou no meio do caminho rumo a suas intenções. Ainda assim, é o testamento de um cineasta dos mais importantes da história do cinema.

Friday, February 12, 2010

... E O VENTO LEVOU



... E O VENTO LEVOU (Gone with the wind, 1939, Warner Bros., 224min) Direção: Victor Fleming. Roteiro: Sidney Howard, romance de Margareth Mitchell. Fotografia: Ernest Haller, Ray Rennahan. Montagem: Hal C. Kern, James E. Newcomb. Música: Max Steiner. Figurino: Walter Plunkett. Produção: David O. Selznick. Elenco: Vivien Leigh, Clark Gable, Olivia de Havilland, Leslie Howard, Hattie MacDaniel

12 indicações ao Oscar: Filme, Diretor (Victor Fleming), Ator (Clark Gable), Atriz (Vivien Leigh), Atriz Coadjuvante (Hattie McDaniel), Roteiro Adaptado, Fotografia, Montagem, Trilha Sonora Original, Direção de Arte, Som, Efeitos Visuais

Vencedor de 10 Oscar: Filme, Diretor (Victor Fleming), Atriz (Vivien Leigh), Atriz Coadjuvante (Hattie McDaniel), Roteiro Adaptado, Fotografia, Montagem, Direção de Arte, e mais 2 especiais: um para o produtor David O. Selznick e um para o uso da fotografia.


O que ainda não foi falado sobre "... E o vento levou"? Há mais de 70 anos encantando gerações e gerações, a obra-prima de Victor Fleming já foi objeto de estudos, teses, livros, homenagens e continua tão fascinante hoje quanto em 1939. Até poderia ser um desafio tentar entender esse fenômeno, mas basta assistir aos primeiros minutos do filme para que qualquer tentativa de ser razoável torne-se impossível. Assim como em toda e qualquer paixão, "...E o vento levou" foge do racional, conquistando o espectador pelo coração, pelos olhos e pelos ouvidos. Ser fã de cinema e não assistir a "...E o vento levou" é o mesmo que ser fã de futebol e não conhecer Pelé.

"...E o vento levou" é a mais perfeita tradução em imagens do melhor que Hollywood pode proporcionar em termos de espetáculo. A fotografia esplendorosa e a reconstituição de época impecável são referências absolutas até os dias de hoje, quando a palavra épico necessariamente traz à mente suas mais grandiosas cenas: o incêncio de Atlanta, a visão dos soldados feridos, os belíssimos crepúsculos em Technicolor... A trilha sonora imponente de Max Steiner, os figurinos caprichados de Walter Plunkett e o ritmo sem falhas do roteiro adaptado por Sidney Howard do romance de Margareth Mitchell completam o que pode ser chamado sem medo de obra-prima.


Mas nada disso seria suficiente se não fosse dois elementos-chave do sucesso e da perenidade do filme: sua história, forte e melodramática e seu elenco absolutamente perfeito. Com a possível exceção de Leslie Howard, que vive um Ashley Wilkes apático e sensaborão, todos os atores que fazem parte de "...E o vento levou" nunca estão aquém de fabulosos. O galã Clark Gable interpreta um Rhett Butler inesquecível; Olivia de Havilland vive uma Melanie impecável em sua delicadeza quase inumana e as coadjuvantes Hattie McDaniel (primeira negra a levar um Oscar) e Butterly McQueen roubam cada cena em que aparecem. No entanto, não seria equivocado afirmar que o filme pertence a Vivien Leigh. A atriz inglesa suplantou praticamente toda a população artística feminina de Hollywood para ficar com o papel da sulista Scarlett OHara - sem dúvida uma das personagens mais marcantes da história do cinema - e justifica sua escalação em cada um dos fotogramas em que aparece. Além de ser linda, dona de uma beleza clássica mas nunca datada, Leigh imprime a força necessária a sua personagem, uma pré-feminista das mais apaixonantes que se tem notícia.

Para quem ainda não sabe - se é que existe alguém que não sabe - "...E o vento levou" conta a história de Scarlett O'Hara (Leigh), uma jovem mimada e voluntariosa que vê seu mundo desmoronar quando o homem por quem é apaixonada, Ashley Wilkes (Howard) anuncia seu casamento com a meiga Melanie (de Havilland) pouco antes de partir para a Guerra de Secessão americana - que opunha o sul escravocrata contra o norte abolicionista. Mais do que afastá-la de Ashley, a guerra também leva às ruínas a fazenda de sua família - a imponente Tara - e, para salvá-la, Scarlett não hesita em utilizar de quaisquer artifícios, inclusive embarcando em casamentos por interesse. Sua obsessão por Ashley e sua luta pela manutenção de sua propriedade, no entanto, a cegam para a verdade que sempre esteve sua frente: o amor que desperta em Rhett Butler (Gable), que, por trás de um verniz de cínico e amoral, esconde um cavalheiro romântico e apaixonado.

"...E o vento levou" tem de tudo um pouco: é romance, é épico, tem cenas de legítima comédia, retrata os horrores da guerra - que transformam pessoas em animais - e conta uma história de amor que nunca soa falsa. Mas acima de tudo, é um filme que, como poucos, merece o título de "clássico".