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Thursday, February 16, 2012

X-MEN 2

X-MEN 2 (X2, 2003, 20th Century Fox, 133min) Direção: Bryan Singer. Roteiro: Michael Dougherty, Dan Harris, David Hayter, estória de Zak Penn, David Hayter, Bryan Singer. Fotografia: Newton Thomas Sigel. Montagem e Música: John Ottman. Figurino: Louise Mingenbach. Direção de arte/cenários: Guy Hendrix Dyas/Elizabeth Wilcox. Produção executiva: Avi Arad, Tom DeSanto, Stan Lee, Bryan Singer. Produção: Lauren Shuler Donner, Ralph Winter. Elenco: Patrick Stewart, Ian McKellen, Hugh Jackman, Hale Berry, Famke Janssen, James Marsden, Brian Cox, Rebecca Romjin-Stamos, Anna Paquin, Ellen Page, Alan Cumming, Aaron Stanford, Shawn Ashmore. Estreia: 28/4/03

Nada como um sucesso arrebatador de crítica e público pra dar confiança a um diretor ainda hesitante. Quando dirigiu o primeiro “X-Men” Bryan Singer ainda titubeava em sua busca de agradar aos fãs – fanáticos seria uma palavra mais adequada – dos quadrinhos e atingir a uma plateia maior, cujo acesso às histórias publicadas em revistas é mais restrito. O resultado foi elogiado por gregos e troianos, rendeu milhares de dólares e deu ao cineasta – cujo talento já havia sido reconhecido massivamente com “Os suspeitos” – a confiança necessária para que, na continuação inevitável ele realmente fizesse o filme que sonhava. Da maneira que está, “X-Men 2” não é apenas o filme que ELE sonhava e sim o filme que todos os fãs esperavam ansiosamente.

Sem a necessidade de apresentar seus personagens, já conhecidos e aprovados em seus respectivos intérpretes, a trama já começa a todo vapor. A invasão da Casa Branca por um novo mutante – vivido por Alan Cumming – empurra a narrativa em várias direções, todas absolutamente bem dosadas e equilibradas pelo roteiro extraordinário. Graças a este roteiro, várias histórias paralelas começam e terminam – algumas de maneira bastante instigantes – sem que nunca nenhuma delas perca o interesse do público. Sendo assim, vemos desde o início da transformação de Jean Grey (Famke Jansen) em Fênix até a união efêmera mas crucial entre os mutantes do mal, liderados por Magneto (o esplêndido Ian McKellen) com a turma pacífica do Professor Xavier (Patrick Stewart) para impedir que as ideias malévolas do cientista William Striker (Brian Cox) os destruam. Striker, aliás, é uma das personagens mais importantes do novo longa, uma vez que tem ligação com a origem de Wolverine (Hugh Jackman, ainda roubando a cena), que finalmente tem a oportunidade de mostrar toda a sua raiva contida em cenas de mais absoluta adrenalina.

Adrenalina, aliás, é o que não falta em “X-Men 2”. Repleto de cenas espetaculares de ação – incluindo uma luta entre Wolverine e a bela e fatal Lady Letal e um clímax extremamente mais potente do que o mostrado no primeiro filme –, a obra de Singer não decepciona nem aos mais afoitos fãs do material original. E se não bastasse corrigir tudo que não era perfeito no primeiro capítulo – efeitos mais elaborados, uma duração maior, mais cenas de ação – o roteiro da segunda parte ainda se dá ao luxo de criar cenas de relevância muito maior do que poderia se esperar, dando ressonância àquele que é provavelmente o subtema mais importante de toda a série: a tolerância às diferenças, tão perfeitamente representadas pelos mutantes e de forma tão divertida.

Mostrando-se uma gloriosa exceção à regra, “X-Men 2” consegue ser ainda melhor que sua primeira parte e escancarou as portas para uma nova continuação. Um filme de ação absolutamente perfeito!

Wednesday, November 30, 2011

A IDENTIDADE BOURNE

A IDENTIDADE BOURNE (The Bourne identity, 2002, Universal Pictures, 119min) Direção: Doug Liman. Roteiro: Tony Gilroy, W. Blake Herron, romance de Robert Ludlum. Fotografia: Oliver Wood. Montagem: Saar Klein. Música: John Powell. Figurino: Pierre-Yves Gayraud. Direção de arte/cenários: Dan Weil/Alexandrine Mauvezin. Produção executiva: Robert Ludlum, Frank Marshall. Produção: Patrick Crowley, Richard N. Gladstein, Doug Liman. Elenco: Matt Damon, Franka Potente, Chris Cooper, Clive Owen, Brian Cox, Adewale Akinnouye-Agbaje, Julia Stiles. Estreia: 14/6/02

Em 1988, uma minissérie feita para a TV americana adaptou o romance "A identidade Bourne", do escritor Robert Ludlum. Estrelada por Richard Chamberlain - conhecido como o ator central da famosa "Pássaros feridos" - a adaptação seguiu fielmente o livro de Ludlum e fez relativo sucesso. Quatorze anos depois, Hollywood resolveu contar a sua versão da história, contando com Doug Liman - da comédia independente "Vamos nessa" - na direção. Depois de ter Brad Pitt e Matthew McConaughey (as primeiras escolhas para o papel central) fora da jogada, Liman não poderia ter tido mais sorte com a escolha de seu protagonista: em seu primeiro papel em filmes de ação, Matt Damon criou um novo modelo a ser seguido em termos de adrenalina.

Ao custo de 60 milhões de dólares, a versão livre de "A identidade Bourne" rendeu mais de 120 milhões somente nos EUA, calando a boca daqueles que não acreditavam que uma trama que mistura espionagem, amnésia e um ator mais conhecido por papéis dramáticos do que por tiroteios e altamente coreografadas cenas de luta não tinha como dar certo. Mas justamente a ousadia na escolha do ator central é que faz toda a diferença: ao contrário de outros filmes de ação em que o protagonista serve apenas e unicamente para quebrar ossos e salvar o mundo, Jason Bourne é uma personagem crível e até certo ponto trágica. E ter um ator competente como Damon o interpretando deixa tudo ainda mais interessante.

Quando o filme começa, um grupo de marinheiros recolhe do Mar Mediterrâneo o corpo inconsciente de um rapaz baleado. Sem memória alguma de sua identidade e de seus passos até o momento, o rapaz tem apenas uma pista a respeito de sua origem: uma tatuagem subcutãnea com o número de uma conta bancária em Zurique. Recuperado dos ferimentos, o jovem segue então em direção à tentativa de descobrir sua origem e, no caminho, topa com a alemã Marie (Franka Potente), que tenta regularizar sua situação no país. Enquanto foge de homens misteriosos que aparentemente querem vê-lo morto (por razões absolutamente desconhecidas por ele), o agora nomeado Jason Bourne (ao menos é o que dizem alguns dos documentos encontrados no cofre do banco suíço) e a assustada Marie partem atrás da solução de um quebra-cabeças que parece ter desdobramentos em altos escalões do governo americano e em um tal projeto Treadstone.

 

A maior qualidade do roteiro de Tony Gilroy - que poucos anos mais tarde disputaria o Oscar de direção por "Conduta de risco" - é o fato de apresentar aos poucos os fatos que levaram o protagonista à situação extrema em que se encontra nas primeiras cenas. É  junto com Bourne que o público vai juntando todos os elementos, todas as ligações queo fizeram passar à condição de fugitivo de algo que ele nem mesmo sabe o que é. E, se ele desperta gradualmente para sua agitada vida pregressa, a edição impressionante de Saar Klein não deixa ninguém chegar perto do tédio: a impressionante perseguição nas estreitas ruas de Paris é uma das mais impactantes cenas do cinema de ação da década, de se assistir com a respiração suspensa e todas as cenas em que Bourne precisa utilizar da força física para manter-se em fuga são extremamente bem dirigidas e realistas. Precisa mais? Pois tem: até mesmo a relação entre Bourne e Marie, ainda que apresentada de maneira rápida demais, soa verdadeira.

"A identidade Bourne" é entretenimento de primeira, entregando ao público ação e inteligência na medida correta. Suas continuações, "A supremacia Bourne" e principalmente "O ultimato Bourne" são ainda melhores, mas é preciso que se tire o chapéu para um dos filmes mais empolgantes de 2002.

Tuesday, November 29, 2011

A SOMA DE TODOS OS MEDOS

A SOMA DE TODOS OS MEDOS (The sum of all fears, 2002, Paramount Pictures, 124min) Direção: Phil Alden Robinson. Roteiro: Paul Attanasio, Daniel Pyne, romance de Tom Clancy. Fotografia: John Lindley. Montagem: Nicholas de Toth, Neil Travis. Música: Jerry Goldsmith. Figurino: Marie-Sylvie Deveau. Direção de arte/cenários: Jeannine Oppewall/Cindy Carr. Produção executiva: Tom Clancy, Sttarton Leopold. Produção: Mace Neufeld. Elenco: Ben Affleck, Morgan Freeman, James Cromwell, Ken Jenkins, Ron Rifkin, Bridget Monayhan, Liev Schreiber, Philip Baker Hall, Bruce McGill. Alan Bates, Colm Feore. Estreia: 31/5/02

Jack Ryan, fictício analista da CIA criado pelo escritor Tom Clancy apareceu pela primeira vez nas telas de cinema na pele de Alec Baldwin. Era 1990 e o filme "A caçada ao Outubro Vermelho" fez um enorme sucesso. Não demorou para que outros livros de Clancy protagonizados por Ryan chegassem às telas, mas como quem manda em Hollywood é o dinheiro, em "Jogos patrióticos" (1992) e "Perigo real e imediato" (1994) ele tinha o rosto ainda mais popular de Harrison Ford. Em 2002, porém, Ford estava um pouco velho demais para voltar à personagem e saiu de fininho de um novo filme estrelado pela personagem, sem divulgar os seus motivos. A despeito das qualidades e carisma de Ford, porém, sua substituição pelo bem mais jovem Ben Affleck mostrou-se acertada. "A soma de todos os medos" é um belo thriller de ação que joga com os temores de uma guerra nuclear de grandes proporções a seu favor. E é também uma das poucas vezes em que Affleck não consegue estragar um filme com sua costumeira apatia.

Quando a empolgante trama criada por Clancy - que queixou-se depois de inúmeros erros técnicos cometidos pelo roteiro - começa, os EUA estão em sério conflito com a Rússia a respeito da Chechênia. Quando o presidente russo morre repentinamente e é substituído pelo discreto Nemerov (Ciaran Hinds), a paranoia se instala em todos os setores do governo americano. O presidente, Robert Fowler (James Cromwell) logo passa a ser aconselhado por seus assessores diretos, que insistem no fato de que uma guerra nuclear é iminente. Quem não compartilha dessa opinião é o jovem analista Jack Ryan (Ben Affleck), mas quando uma bomba explode em Baltimore ele precisa provar que sua teoria - a de que uma facção terrorista tenciona iniciar uma guerra entre os dois países - é correta, antes que o mundo corra o risco de um holocausto nuclear.



O maior acerto de "A soma de todos os medos" seja justamente o de privilegiar o suspense em detrimento da ação pura e simples. As intrigas político-governamentais assumem relevância crucial na história, assim como as sequências extremamente bem realizadas de explosões e destruição que fazem a glória do gênero. Para isso, é louvável a escalação de um elenco coadjuvante repleto de atores excepcionais como Morgan Freeman, James Cromwell e Liev Schreiber, bem como a escolha certeira do irlandês Ciarán Hinds para o central papel do presidente russo Nemerov. Com seu olhar misterioso e sua voz aterrorizante, o ator rouba as cenas em que aparece e até faz a audiência esquecer que o pretenso protagonista (Jack Ryan) aparece bem menos do que nos outros filmes da série. E para quem questiona o fato de Affleck viver Ryan mesmo sendo bem mais jovem do que Harrison Ford a resposta parece ser uma só: assim como acontece volta e meia no cinema, "A soma de todos os medos" não é nem uma continuação nem um prequel e sim uma espécie de novo início (como aconteceu com "Superman" nos anos 2000).

"A soma de todos os medos" pode não ser o melhor filme do gênero realizado em Hollywood, mas é inegável que tem qualidades redentoras e uma tensão quase palpável. Convenhamos, é muito mais do que se pode esperar de produções comerciais que normalmente só oferecem violência e piadinhas infames.

Tuesday, November 22, 2011

HOMEM-ARANHA

HOMEM-ARANHA (Spiderman, 2002, Columbia Pictures/Marvel Enterprises, 121min) Direção: Sam Raimi. Roteiro: David Koepp, HQ de Stan Lee, Steve Ditko. Fotografia: Don Burgess. Montagem: Arthur Coburn, Bob Murawski. Música: Danny Elfman. Figurino: James Acheson. Direção de arte/cenários: Neil Spisak/Karen O'Hara. Produção executiva: Avi Arad, Stan Lee. Produção: Ian Bryce, Laura Ziskin. Elenco: Tobey Maguire, Kirsten Dunst, Willem Dafoe, James Franco, Rosemary Harris, Dylan Baker, J.K. Simmons, Cliff Robertson. Estreia: 03/5/02

2 indicações ao Oscar: Efeitos Visuais, Som

Tudo começou com "X-Men". O enorme sucesso de bilheteria do filme que contava as aventuras dos mutantes criados por Stan Lee deu coragem à Columbia Pictures para tocar adiante um projeto ainda mais ambicioso: levar às telas uma adaptação de uma das mais queridas e famosas personagens do universo Marvel, o Homem-aranha. Depois de anos no limbo - durante o qual foram considerados para a direção nomes díspares como James Cameron, Ang Lee, David Fincher e Tony Scott - a história do adolescente nerd que se torna super-herói chegou aos cinemas americanos cercada de grandes expectativas e não decepcionou nem ao mais ambicioso produtor: ao redor do mundo, mais de 800 milhões de dólares foram arrecadados, dando início a uma espécie de fenômeno pop. A partir daí, histórias em quadrinhos e cinema se tornaram definitivamente parceiros muito rentáveis.

O maior sucesso de bilheteria de 2002 mereceu o barulho que fez. Deliciosamente pop, agradável, engraçado e leve, é um filme que consegue agradar espectadores de todas as idades, em especial àqueles que se permitem embarcar sem medo no mais puro entretenimento hollywoodiano. Ao assumir as rédeas do filme, o diretor Sam Raimi (responsável pela bizarra e popular série "Evil Dead", que mudou a forma de fazer cinema de terror) imprimiu à história de Peter Parker um senso de diversão descompromissada e quase auto-paródica que faz dele um programa imperdível (e que ficaria ainda melhor no segundo episódio, mais caro e que fez ainda mais sucesso). E é necessário que se elogie a escalação certeira de Tobey Maguire para o papel central.

Mais conhecido por seus trabalhos sérios em filmes oscarizados como "Regras da vida" e "Garotos incríveis", Maguire ficou com um dos papéis jovens mais cobiçados da época (que quase ficou nas mãos de Leonardo DiCaprio) e não fez feio. Com seu jeito aparvalhado, ele criou um Peter Parker bastante próximo do público adolescente que lotou as salas de exibição (apesar de já estar com 25 anos durante a produção). Seu Peter Parker frágil, tímido e apaixonado caiu como uma luva em seu tipo físico franzino e seu alter-ego heroico é convincente a ponto de a audiência comprar o conceito do filme sem pestanejar. Com um roteiro dinâmico e esperto, "Homem-Aranha" é uma aventura perfeita.


Pra quem não sabe - se é que existe alguém que não saiba - o protagonista é Peter Parker, um estudante órfão que mora com os tios idosos (Cliff Robertson e Rosemary Harris) e é apaixonado pela vizinha, a bela Mary Jane Watson (Kirsten Dunst), cujo histórico de problemas domésticos não a impede de sonhar em tornar-se atriz. Durante uma excursão da escola, Parker - que é hostilizado pelos colegas e tem apenas um grande amigo Harry Osborn (James Franco) - é mordido por uma aranha geneticamente modificada e, a partir daí, passa a desenvolver poderes tais como escalar paredes e soltar teias de aranha, além de aumentar sua velocidade e força. Após praticamente testemunhar o assassinato do tio, ele decide dedicar-se à luta contra a violência, tornando-se herói da noite para o dia. Enquanto tenta esconder sua dupla personalidade da garota que ama - que começa a namorar Harry - Parker também precisa combater o cruel Duende Verde, a personalidade psicótica adquirida pelo milionário Norman Osborn (Willem Dafoe) após um acidente com suas experiências científicas.

A trama de "Homem-Aranha" é a desculpa ideal para Sam Raimi exercitar sua veia de fã de quadrinhos. Sua direção é respeitosa mas nunca quadrada, dando espaço para improvisos e mudanças que não ofendem os mais xiitas leitores do gênero (ainda que sempre haja algum espírito de porco disposto a discordar de algum detalhe). As cenas de ação, mesmo que não sejam impactantes ou inovadoras, são adequadas ao ritmo da trama e não chamam mais a atenção do que a trama que fala de responsabilidades e de renúncia. Esse subtexto - que também era o melhor que havia em "X-Men" - é o que faz com que "Homem-Aranha" escape lindamente da vala onde se encontram produções ambiciosas e sem fundamentos.

O sucesso de "Homem-Aranha" foi merecido. É um entretenimento inteligente e divertido, capaz de alegrar sessões da tarde por anos a fio. É a prova inconteste de que a soma de um bom diretor, um elenco adequado e um roteiro bem escrito podem efetuar milagres até mesmo com a pressão dos grandes estúdios.

Friday, September 9, 2011

O TIGRE E O DRAGÃO

O TIGRE E O DRAGÃO (Crouching tiger, hidden dragon, 2000, Sony Pictures Classic, 120min) Direção: Ang Lee. Roteiro: Hui-Ling Wang, James Schamus, Kuo Jung Tsai, romance de Du Lu Wang. Fotografia: Peter Pau. Montagem: Tim Squyres. Música: Tan Dun. Figurino: Tim Yip. Direção de arte/cenários: Tim Yip/Jian-Quo Wang. Produção executiva: David Linde, James Schamus. Produção: Ang Lee. Elenco: Chow Yun-Fat, Michelle Yeoh, Ziyi Zhang, Pei-pei Cheng, Chen Chang, Sihung Lung. Estreia: 09/10/00

10 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Melhor Filme Estrangeiro, Diretor (Ang Lee), Roteiro Adaptado, Fotografia, Montagem, Trilha Sonora Original, Canção ("A love before time"), Figurino, Direção de Arte/Cenários
Vencedor de 4 Oscar: Melhor Filme Estrangeiro, Fotografia, Trilha Sonora Original, Direção de Arte/Cenários
Vencedor de 2 Golden Globes: Melhor Filme Estrangeiro, Diretor (Ang Lee)

Foi preciso um diretor de Taiwan para devolver aos fãs de cinema a magia com que a sétima arte sempre brindou seu público. Depois de bem sucedidas incursões ao cinema de Hollywood - em especial os belos "Razão e sensibilidade" e "Tempestade de gelo", que captaram com inteligência as culturas inglesa e americana, respectivamente - o cineasta Ang Lee não foi feliz com o pouco visto e muito criticado "Cavalgada com o diabo" e resolveu retornar às origens. Para isso, assumiu as rédeas da adaptação do quarto volume de uma pentalogia chamada Crane/Iron, escrita por Du Lu Wang, um conhecido mestre chinês de kung-fu. Tendo seu habitual parceiro James Schamus entre os roteiristas, Lee construiu uma fábula majestosa e emocionante que recebeu o título ocidental de "Crouching tiger, hidden dragon", ou, como conhecido no Brasil, "O tigre e o dragão".

Não é difícil compreender o porquê da comoção em torno do filme de Lee desde sua estreia, no Festival de Cannes de 2000, quando foi ovacionado por uma legião de críticos deslumbrados. Sua obra simplesmente tira o espectador de sua zona de conforto, jogando-o em um universo particular, em que personagens ignoram a lei da gravidade e onde todas as excepcionalmente bem coreografadas lutas não são apenas desnecessários desvios da ação e sim parte integrante e indispensável da narrativa, repleta de poesia visual - cortesia da magnífica fotografia de Peter Pau, vencedor do Oscar da categoria. Não foi à toa que "O tigre e o dragão" tornou-se o primeiro filme de língua não-inglesa a ultrapassar a barreira dos 100 milhões de dólares de arrecadação em território americano, além de sair vitorioso em 4 categorias na festa do Oscar de 2001. O filme de Ang Lee é uma festa para os olhos e um admirável espetáculo para todos que consideram o cinema como um refúgio.




Passado em uma China antiga, "O tigre e o dragão" começa com o retorno do famoso guerreiro Li Mui Bai (Chow Yun-Fat) à terra de seus antepassados. Aposentado, ele dá de presente a um velho amigo sua poderosa espada, a Destino Verde, que logo em seguida é roubada. Enquanto tenta recuperá-la, ele não consegue deixar de lado o desejo de vingar a morte de seu mestre pelas mãos da temida Jade Fox (Pei-pei Cheng). Contando com a ajuda da mulher que ama em segredo, Shu Lien (Michelle Yeoh), ele também encontra, em seu caminho, a bela Jiao Long Yu (Ziyi Zhang), filha de uma respeitada família e que, mesmo em vias de casar-se, mantém um amor explosivo por um cigano do deserto.

Dirigido com maestria por um Ang Lee extremamente à vontade e no auge de sua criatividade como cineasta, "O tigre e o dragão" tem a seu favor, além de tudo, uma equipe que transmite paixão a cada polegada de celulóide. O elenco é impecável - com destaque para Michelle Yeoh, cujo rosto expressivo casa com naturalidade com uma força física impressionante - e é impossível não admirar a belíssima trilha sonora (composta em apenas duas semanas por Tin Dau, que acabou com uma estatueta do Oscar), a fotografia etérea e a direção de arte caprichada. No fundo uma bela história de amor emoldurada por uma trama que envolve sentimentos como honra, lealdade e amizade à toda prova - e um discreto discurso feminista - "O tigre e o dragão" é uma obra-prima incontestável e um dos melhores filmes já produzidos fora de Hollywood.

Tuesday, August 23, 2011

X-MEN, O FILME

X-MEN (X-Men, 2000, 20th Century Fox/Marvel Enterprises/Donner's Company, 104min) Direção: Bryan Singer. Roteiro: David Hayter, estória de Tom DeSanto, Bryan Singer. Fotografia: Newton Thomas Sigel. Montagem: Steven Rosenblum, Kevin Stitt, John Wright. Música: Michael Kamen. Figurino: Louise Mingenbach. Direção de arte/cenários: John Myhre/James Edward Ferrell. Produção executiva: Avi Arad, Tom DeSanto, Richard Donner, Stan Lee. Produção: Lauren Shuler Donner, Ralph Winter. Elenco: Patrick Stewart, Ian McKellen, Hugh Jackman, Hale Berry, Anna Paquin, James Mardsen, Famke Janssen, Rebecca Romijn-Stamos, Bruce Davison. Estreia: 14/7/00

Até o dia 14 de julho de 2000, o destino dos filmes baseados em histórias em quadrinhos era sempre uma incógnita. Para cada “Superman” de Richard Donner ou “Batman” de Tim Burton surgiam aberrações como os filmes do homem-morcego dirigidos por Joel Schumacher – que humilhavam seu herói impiedosamente com roteiros deploráves e produções vexaminosas. Foi somente quando um grupo de mutantes chegou às telas de cinema sob o comando de um diretor improvável e um elenco desprovido de astros de primeira grandeza que a porta para o sucesso constante do universo dos famigerados comic books foi finalmente aberta (ou seria melhor até dizer, escancarada). “X-Men, o Filme” foi a prova que todo mundo precisava de que, adaptados em um roteiro inteligente e dirigidos por gente criativa e talentosa, os quadrinhos poderiam – e até mesmo deveriam, dada a sua importância dentro do universo pop – ser uma matéria-prima quase infinita para a sétima arte.

Relativamente fiel a suas origens, “X-Men” é um êxito absoluto, principalmente se for levado em conta que seu diretor não era exatamente um fã nem da série nem tampouco do gênero. Revelado por obras fortes e dotadas de grande poder dramático – “Os suspeitos” e “O aprendiz” – Bryan Singer assumiu as rédeas do filme depois que nomes conhecidos dos fãs de ação - como John McTiernan, James Cameron, Richard Donner e Joel Schumacher – foram sendo sistematicamente deixados de lado (até mesmo Danny Boyle, Robert Rodriguez e Tim Burton estiveram na lista de possíveis diretores). Ao sentar na cadeira de diretor, porém, o jovem Singer (na época com apenas 34 anos) não se fez de rogado e criou o filme que todos os fãs dos mutantes esperavam (pelo menos até o segundo capítulo, também dirigido por ele e lançado três anos depois, que expandiu ainda mais as qualidades da história). Levando a trama extremamente a sério, Singer não dirigiu apenas um entretenimento escapista de verão: ele criou um clássico pop que, além de divertir o suficiente, apresenta uma metáfora bastante pertinente a respeito de preconceito e tolerância.

Quando o filme começa, o público fica sabendo que há muitos anos milhares de mutantes transitam pela Terra, convivendo de forma pacífica e discreta com seres humanos convencionais, ainda que muitos escondam seus dons para que possam viver normalmente. O sensato Professor Xavier (Patrick Stewart) comanda uma escola para jovens mutantes (disfarçada como escola para superdotados), onde eles podem aprender a controlar seus poderes e utilizá-los de forma apropriada. Porém, um senador da República (Bruce Davison) dá início a uma campanha nacional que pede a todos os mutantes que se identifiquem. Com medo da discriminação que tal lei poderia causar, Magneto (Ian McKellen), um mutante com poder de manipular metais com o poder da mente, pretende começar uma guerra contra os humanos. Sobrevivente de um campo de concentração na II Guerra, Magneto conhece as conseqüências de ser “diferente” e entra em conflito direto com Xavier, que acredita que a tolerância e o diálogo são os melhores meios para lidar com a situação. Para impedir Magneto de principiar sua sangrenta e violenta guerra, Xavier conta com o auxílio do misterioso Wolverine (Hugh Jackman) – um homem cujas garras de adamantium são apenas uma parte de seu misterioso passado – a belas Tempestade (Hale Berry) e Jean Grey (Famke Janssen), o jovem Ciclope (James Mardsen) e a adolescente Vampira (Anna Paquin) – que une-se ao grupo como forma de auto-aceitação.


Além do roteiro enxuto que apresenta de forma quase didática seus personagens e situações – além de deixar um bela porta aberta para sua brilhante continuação – “X-Men” ainda por cima com um elenco excepcional. Sir Ian McKellen mais uma vez rouba a cena como o vilão Magneto, cuja maldade é compreensível em grande parte pelo talento do ator. As oscarizadas Anna Paquin e Hale Berry (que levaria a estatueta pouco depois de sua atuação como Tempestade) dão estofo artístico ao projeto e Patrick Stewart (fã dos quadrinhos) é a escolha ideal para Xavier. Mas é o então desconhecido Hugh Jackman que mais chama a atenção da plateia, com sua perfeita criação de Wolverine, uma personagem que parece ter sido criada para ele (e no entanto seria de Dougray Scott, que perdeu o papel por estar preso nas atrasadas filmagens de “Missão: Impossível 2”. Mesmo que não parecesse a escolha ideal para os fãs dos quadrinhos (o Wolverine original é baixinho e Jackman tem quase 1,90m), o ator australiano não deixou pedra sobre pedra com seu trabalho impecável – que garantiu inclusive um filme solo para seu personagem, o fraquinho “Wolverine: Origens”, de 2009.

Com efeitos visuais discretos mas eficientes, humor nas horas certas (e em quantidade limitada) e um roteiro esperto mas nunca bobo ou querendo ser alternativo e/ou artístico, “X-Men” conquistou seu público como uma das melhores traduções do universo dos quadrinhos para a tela do cinema, alterando definitivamente – para o bem e para o mal – o panorama do entretenimento no século XXI.

Thursday, August 11, 2011

GLADIADOR

GLADIADOR (Gladiator, 2000, Dreamworks SKG/Universal Pictures, 155min) Direção: Ridley Scott. Roteiro: David Franzoni, John Logan, William Nicholson, estória de David Franzoni. Fotografia: John Mathieson. Montagem: Pietro Scalia. Música: Hans Zimmer, Lisa Gerrard. Figurino: Janty Yates. Direção de arte/cenários: Arthur Max/Crispian Sallis. Produção executiva: Laurie MacDonald, Walter F. Parkes. Produção: David Franzoni, Branko Lustig, Douglas Wick. Elenco: Russell Crowe, Joaquin Phoenix, Connie Nielsen, Oliver Reed, Richard Harris, Derek Jacobi, Djimon Hounson, Tomas Arana, Spencer Treat Clark. Estreia: 05/5/00

12 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Ridley Scott), Ator (Russell Crowe), Ator Coadjuvante (Joaquin Phoenix), Roteiro Original, Fotografia, Montagem, Trilha Sonora Original, Figurino, Direção de Arte/Cenários, Efeitos Visuais, Som
Vencedor de 5 Oscar: Melhor Filme, Ator (Russell Crowe), Figurino, Efeitos Visuais, Som
Vencedor de 2 Golden Globes: Melhor Filme/Drama, Trilha Sonora Original

Houve uma época em que Hollywood adorava filmes de gladiadores, que constituíam uma espécie de gênero próprio dentro da indústria. Filmes como "Ben-hur", o recordista em número de Oscar por quarenta anos, lotavam salas e mais salas de cinema, criavam astros e solidificavam carreiras (ainda que Paul Newman tenha renegado eternamente sua estreia em "O manto sagrado"). Com o tempo, heróis vestindo sandálias deixaram de agradar a audiência, que ansiava por personagens mais próximos à sua realidade. Foi somente às vésperas do século XXI, com todos os recursos tecnológicos disponíveis, que um estúdio resolveu ressuscitar o gênero. Aliás, um estúdio não, e sim dois: assustados com o orçamento, que ultrapassou os 100 milhões de dólares, os executivos da DreamWorks (Steven Spielberg entre eles) resolveram unir-se à Universal Pictures para produzir o arriscado "Gladiador".

Arriscado? Sim. Décadas separavam "Gladiador" de seus antecessores bem-sucedidos e, a bem da verdade, pouca gente acreditava que o filme, dirigido por Ridley Scott e estrelado por Russell Crowe (no auge da carreira graças ao sucesso de "Los Angeles, cidade proibida" e "O informante") pudesse tornar-se um êxito. Com mais de 450 milhões de dólares arrecadados pelo mundo e cinco Oscar na prateleira, incluindo Melhor Filme e Ator (mas não de diretor, em mais uma injustiça histórica), hoje é difícil não admirar e se apaixonar pela história concebida pelo roteirista David Franzoni nos anos 70. Grandiloquente, fascinante e emocionante, "Gladiador" é uma das obras-primas com que Hollywood brindou seu público no final dos anos 90, um espetáculo para os olhos e a alma.


Russell Crowe - substituindo Mel Gibson e Antonio Banderas, que foram sondados para o papel - vive Maximus Decimus Meridius, um poderoso e bem-quisto general que é escolhido pelo Imperador Marcus Aurelius (Richard Harris) como seu substituto para governar Roma. Sentindo-se traído, o filho do imperador, Commodus (Joaquin Phoenix) toma atitudes radicais: asfixia o próprio pai e manda executar Maximus e sua família. Sobrevivendo ao plano do ambicioso novo governante, o ex-general caído em desgraça é capturado e transformado em um escravo utilizado para lutar em arenas espanholas. Com o codinome de "Espanhol", ele torna-se um dos mais populares astros do entretenimento mais adorado pelo povo, enquanto planeja vingar-se do homem que destruiu sua vida. A chance acontece quando seu treinador, Proximus (Oliver Reed, que morreu antes do término das filmagens) recebe o convite para participar de um torneio na Itália. Maximus tem, então, a possibilidade de encarar seu maior inimigo frente a uma plateia de centenas de pessoas.

O roteiro de Franzoni (co-escrito por John Logan e William Nicholson) é um achado de simplicidade e fluência. Direto e sem firulas, ele consegue ser ágil sem parecer apressado, ser contemplativo sem parecer monótono e empolgante sem deixar de lado cenas mais emotivas, em especial quando o foco da narrativa passa a ser a relação entre Maximus e Lucilla (Connie Nielsen), irmã de Commodus que teve uma história de amor com o gladiador (e que tem um filho pequeno cuja paternidade nem chega a ser exatamente dúbia). Crowe e Nielsen transmitem uma paixão reprimida que impulsiona o lado mais romântico e sexy da trama, sem que isso prejudique o desenvolvimento daquilo que mais impressionou as multidões: as espetaculares cenas de ação, desde a batalha que dá início ao filme até as sangrentas lutas nas arenas, filmadas com competência absurda por um Ridley Scott no auge de seu vigor criativo. Scott comanda com firmeza milhares de figurantes, efeitos visuais premiados com o Oscar e um elenco de atores em dias inspirados. Se apenas Crowe ganhou sua estatueta - como prêmio de consolação por ter perdido no ano anterior por "O informante" e que lhe impediu de vencer no ano seguinte por "Uma mente brilhante" - tudo não passa de injustiça. Joaquin Phoenix está perfeito como o venal e covarde Commodus, Richard Harris brilha nas poucas cenas em que aparece como Marcus Aurelius e Oliver Reed comove com seu último trabalho na pele do amigo e protetor Proximus. Atuando em um cenário nunca aquém de deslumbrante e sob a trilha sonora inesquecível e arrepiante de Hans Zimmer e Lisa Gerrard - cuja canção final é de uma beleza tocante - o elenco escolhido por Ridley Scott não tem sequer uma falha, um exemplo que deveria ter sido seguido por todos os subprodutos que vieram no rastro do sucesso do filme.

"Gladiador" é um exemplo perfeito de tudo que Hollywood tem de bom a oferecer em termos de entretenimento. Funciona como aventura, como drama, como romance e como uma aula de narrativa clássica. Seu protagonista é carismático e convence como herói, dono de uma verdade que a estampa viril de Russell Crowe apenas confirma - que atire a primeira pedra quem não se arrepia com seu reencontro com Commodus. Seu vilão é cruel, cínico e vil como todos os bons antagonistas. E seu visual acachapante (e seu desenho de som sensacional) são uma festa para os sentidos. Uma obra-prima que dá muito orgulho a seus (bons) antecessores.

Thursday, August 4, 2011

A PRAIA

A PRAIA (The beach, 2000, 20th Century Fox, 119min) Direção: Danny Boyle. Roteiro: John Hodge, romance de Alex Garland. Fotografia: Darius Khondji. Montagem: Masahiro Irakubo. Música: Angelo Badalamenti. Figurino: Rachael Fleming. Direção de arte/cenários: Andrew McAlpine/Anna Pinnock. Produção: Andrew McDonald. Elenco: Leonardo DiCaprio, Tilda Swinton, Robert Carlyle, Virginie Ledoyen, Guillaume Canet, Lars Arentz-Hansen. Estreia: 02/02/00

Depois do sucesso inesperado – e merecido – de seu “Trainspotting, sem limites” e o convite recusado para dirigir “Alien, a ressurreição”, o cineasta escocês Danny Boyle deu sua primeira escorregada artística com o fracasso comercial de sua comédia romântica de humor negro “Por uma vida menos ordinária”, que não agradou nem a crítica nem o público. Talvez para minimizar o estrago ele tenha aceitado fazer inúmeras concessões ao estúdio produtor de seu novo projeto. O principal deles, e o que provou-se o mais equivocado, foi limar do papel principal o alter ego do diretor, o ator Ewan McGregor, que rompeu a parceria com o diretor e foi aventurar-se no mainstream cinematográfico como Obi Wan Kenobi na segunda trilogia “Star Wars”.

Na verdade, McGregor até teve sorte de não ter seu nome relacionado a mais uma decepção comercial. Mesmo com Leonardo DiCaprio no papel principal – em seu primeiro filme de verdade desde o mega-sucesso “Titanic” -, o que parecia um tiro certeiro em termos de bilheteria, “A praia”, baseado em um livro de Alex Garland, não conseguiu nem cobrir seu orçamento de 50 milhões de dólares nas bilheterias americanas. O resultado decepcionante é parte culpa do diretor, parte culpa do projeto em si e boa parte da escolha de seu ator central. Mostrando-se não tão infalível assim (tanto em termos financeiros quanto artísticos) DiCaprio prejudica "A praia" em um papel inadequado a seu tipo físico franzino e ainda adolescente apesar de seus 25 anos de idade à época do lançamento.



“A praia” até que começa muito bem. DiCaprio é Richard, um mochileiro que vive viajando pelo mundo em busca do prazer absoluto. Em sua procura hedonista ele encontra, em plena Bangcock, o misterioso e alucinado Daffy (Robert Carlyle, em participação pequena mas marcante), que lhe garante a existência de uma ilha paradisíaca não muito longe dali. Antes de cometer suicídio, o inglês desenha um mapa da tal ilha para Richard, que acompanhado de um jovem casal de franceses (por cuja metade feminina ele imediatamente se sente atraído), parte atrás da realização do seu sonho. Quando ele finalmente torna-se realidade, as coisas parecem ser perfeitas: a ilha existe, e é a casa de uma comunidade alegre, leve e sem grandes preocupações. Liderada pela quase despótica Sal (a excelente Tilda Swinton), a comunidade tem apenas uma regra: manter segredo absoluto de sua existência e localização. Não demora muito e o sonho dourado torna-se um pesadelo depois de envolver-se com sua amiga e com a própria Sal em uma viagem, ele vira um proscrito e tem que lutar pela própria sobrevivência. E é justamente a partir dessa segunda metade, quando o sonho de uma vida alternativa dá lugar a um pesadelo violento, que o filme se perde.

Sem as ousadias visuais que lhe trouxeram glória, Danny Boyle transforma-se, como diretor de “A praia”, em um cineasta mediano, que não lembra quase em nenhum momento o criativo autor de cenas marcantes dos anos 90 como a overdose de Ewan McGregor em “Trainspotting”. Preso a um academicismo quase tedioso, ele ainda tenta agradar os fãs em sequências pretensamente alucinantes, como Leonardo DiCaprio como personagem de vídeo-game e a cena de amor entre DiCaprio e a bela Virginie Ledoyen no oceano (que, justiça seja feita, é visualmente deslumbrante). Enquanto apresenta seus personagens e suas belíssimas locações – fotografadas magnificamente por Darius Khondji – ele conquista e desperta o interesse. Na segunda parte, no entanto, ao entregar a um Leonardo DiCaprio sem maior estofo dramático o papel de herói acossado, ele derrapa em momentos quase constrangedores. Felizmente, as cenas finais, a trilha sonora sensacional e a fotografia esplendorosa conseguem salvar o filme de um desastre. É um entretenimento eficaz. Mas em nenhum momento deixa-se de pensar em como Boyle já foi melhor e como tudo seria muito melhor se Ewan McGregor estivesse em cena.

Tuesday, May 31, 2011

CORRA LOLA, CORRA

CORRA LOLA, CORRA (Lola Rennt, 1998, 81min) Direção e roteiro: Tom Tykwer. Fotografia: Frank Griebe. Montagem: Mathilde Bonnefoy. Figurino: Monika Jacobs. Direção de arte/cenários: Alexander Manasse/Irene Otterpoh. Produção: Stefan Arndt. Elenco: Franka Potente, Moritz Bleibetreu, Nina Petri, Herbert Knaup. Estreia (Alemanha): 20/8/98

Ainda bem que não só de Wim Wenders vive o cinema alemão! Deixando de lado a imagem soporífera e intelectualóide das produções alemãs que alcançaram o grande público mundial, o divertido "Corra Lola, corra" rompe radicalmente com seus antepassados. Ágil, moderno e criativo, o filme de Tom Tykwer conquista a audiência justamente por ser absolutamente desligado de qualquer obrigação sócio-filosófica que o cinema europeu "engajado" empurra garganta abaixo do público. É entretenimento puro e simples, conectado absurdamente com a audiência jovem que fez dele um grande sucesso.

Apresentando o que convencionou-se chamar de "estética de videoclipe" (sem o sentido pejorativo do termo), "Corra Lola, corra" é praticamente isso, mesmo: um videoclipe estiloso e divertido que utiliza um fiapo de enredo para seduzir uma audiência sedenta por novidades na sétima arte. Pode ser quase fútil e até mesmo raso em termos de conteúdo, mas é tão fascinante que a falta de uma trama consistente quase nem é sentida. O truque é entrar na viagem de Tykwer e, ao lado da bela Franka Potente (que logo foi importada por Hollywood nos dois primeiros filmes da série Bourne), correr adoidado pelas ruas de uma Berlim bem diferente daquela mostrada pelos cineastas "sérios".


Lola, a protagonista vivida com garra e carisma por Potente, é uma jovem alemã que, na primeira cena do filme, recebe um angustiado telefonema do namorado Mannie (Moritz Bleibetreau), que acaba de perder uma sacola contendo 100 mil marcos que pertencem a seu chefe, um marginal perigoso e truculento. Para impedir que o rapaz assalte um supermercado, ela precisa arrumar a grana dentro de vinte minutos. A partir daí, a correria começa e o roteiro conta a mesma história três vezes, sempre com desdobramentos diferentes, tanto para Lola e Mannie quanto para as pessoas com as quais eles tem contato - entre elas, o pai de Lola (envolvido em uma relação extraconjugal) e o mendigo que encontrou a sacola com o dinheiro de Mannie.

Ao ritmo de música techno de qualidade (composta pelo próprio diretor e com vocais de Potente), "Corra Lola, corra" é dinâmico e imprevisível, utilizando-se de vários formatos para contar sua história, como animação e flashes fotográficos (que mostram o futuro das pessoas que cruzam o caminho da personagem central). Mesmo que os protagonistas não tenham exatamente um teor psicológico mais aprofundado - uma vez que a trama concentra-se basicamente nos vinte minutos cruciais de suas vidas - não é justo apedrejar o roteiro do cineasta, que brinca com todas as possibilidades do destino sem tentar ser filosófico ou sério demais. Isso o cinema alemão encontra em Wim Wenders, afinal...

"Corra Lola, corra" é um filme delicioso, com um visual atraente (é um achado a cabeleira vermelha de Lola esvoaçando enquanto ela percorre a passos largos as ruas de sua cidade) e um senso de timing extraordinário. Curto e enxuto (dura menos de hora e meia), é um filme com a cara de seu tempo, e é também um belo cartão de visitas para seu diretor, que, em Hollywood, assinaria o belo mas pouco visto "Paraíso", estrelado por Cate Blanchett e Giovanni Ribisi, com roteiro do polonês Krzystof Kieslowski.

Wednesday, April 6, 2011

O PACIFICADOR

O PACIFICADOR (The Peacemaker, 1997, Dreamworks SKG, 124min) Direção: Mimi Leder. Roteiro: Michael Schiffer, artigo de Leslie Cockburn, Andrew Cockburn. Fotografia: Dietrich Lohmann. Montagem: David Rosenbloom. Música: Hans Zimmer. Figurino: Shelley Komarov. Direção de arte/cenários: Leslie Dilley/Rosemary Brandenburg. Produção executiva: Michael Grillo, Laurie Macdonald. Produção: Branko Lustig, Walter Parkes. Elenco: Nicole Kidman, George Clooney, Armin Mueller-Stahl, Marcel Iures, Aleksandr Baluev, Goran Visnjic. Estreia: 26/9/97

Uma mulher dirigir um filme de ação é algo tão raro que, quando acontece, é visto com olhos atentos por todo mundo. No entanto, isso não aconteceu como deveria com "O pacificador", filme de estreia do estúdio DreamWorks SKG - de propriedade de Steven Spielberg, Jeffrey Katzenberg e David Geffen. Dirigido por Mimi Leder, que comandou vários episódios da série de TV "Plantão médico" - produzido por Spielberg - o filme estrelado por George Clooney e Nicole Kidman não fez o barulho esperado nas bilheterias americanas, apesar de suas qualidades. Diferentemente de outros filmes do gênero, que dão mais valor às cenas de explosões e tiroteios, o trabalho de Leder se concentra também na história e nas personagens, o que desacelera seu ritmo. Quem prefere um pouco de inteligência em vez de pura correria, no entanto, não tem do que reclamar. "O pacificador" é um filme de ação com cérebro.

Dois acontecimentos aparentemente sem conexão alguma dão partida à história: o assassinato de um diplomata iraniano e a trágica batida de dois trens em algum lugar da Rússia. O acidente causa a explosão de uma ogiva nuclear e logo a especialista Julia Kelly (Nicole Kidman) fica com a certeza de que tudo não passa de uma ação terrorista. Sua certeza é questionada pelo Tenente Coronel Thomas Devoe (George Clooney), que acredita que tudo é uma armação para esconder algo maior. Juntos, eles começam a investigar os rastros que o roubo de dez ogivas deixou para trás e descobrem que é tudo obra do iugoslavo Duan Gavri (Marcel Iure), que perdeu mulher e filha vítimas de um atirador de elite, em Sarajevo. Kelly e Devoe passam a dedicar-se, então, a impedir que ele detone uma bomba em uma conferência da ONU em Nova York.


Logicamente o público que prefere tiroteios sem sentido vai sentir falta de mais ação em "O pacificador", ainda que Mimi Leder dirija com segurança ímpar todas as sequências que exigem o máximo de adrenalina que o cinema americano pode oferecer. Ao contrário de produtos menos elaborados, porém, tudo aqui tem um motivo para acontecer, nenhuma cena é dispensável e os diálogos são tão importantes quanto os tiros. Ainda que não desenvolva as personagens psicologicamente - mesmo porque tal luxo não caberia na situação extrema pela qual todas estão passando - o roteiro se preocupa em não deixar que aconteça um romance entre os protagonistas (o que seria ridiculamente falso) e, melhor ainda, não forja nenhum tipo de heroísmo individual. Tudo que acontece em "O pacificador" soa real devido ao cuidado da diretora em jamais extrapolar na fantasia. E a escolha do elenco também foi acertada. Nicole Kidman, substituindo Annette Bening, tem o tipo ideal para a personagem, clássica e séria. E George Clooney - conhecido pela diretora através de "Plantão médico" - é o herói típico de filmes de ação, charmoso e dono de uma coragem à toda prova, em mais um papel que o elevou ao primeiro time de Hollywood.

Realizado de forma extremamente correta e competente, "O pacificador" pode até não empolgar a quem está mal-acostumado com a dieta de filmes sem conteúdo com que a indústria americana alimenta seu público. Mas é bastante superior - até mesmo em sua coragem em tocar em assuntos que ainda não eram tabu em Hollywood, como terrorismo - a qualquer subproduto que dispensa história e personagens em função de uma bilheteria mais gorda.

Friday, April 1, 2011

ATÉ O LIMITE DA HONRA

ATÉ O LIMITE DA HONRA (G.I. Jane, 1997, Hollywood Pictures/Caravan Pictures/First Independent Films, 125min) Direção: Ridley Scott. Roteiro: David Twohy, Danielle Alexandra, história de Danielle Alexandra. Fotografia: Hugh Johnson. Montagem: Pietro Scalia. Música: Trevor Jones. Figurino: Marilyn Vance. Direção de arte/cenários: Arthur Max/Cindy Carr. Produção executiva: Danielle Alexandra, Julie Bergman Sender, Chris Zarpas. Produção: Roger Birnbaum, Demi Moore, Ridley Scott, Suzanne Todd. Elenco: Demi Moore, Anne Bancroft, Viggo Mortensen, Jason Beghe, Daniel Von Bargen, Jim Caviezel. Estreia: 22/8/97

Vencedor do Framboesa de Ouro de Pior Atriz (Demi Moore)

Mais do que as críticas à sua qualidade ou ao salário milionário de sua protagonista, "Até o limite da honra" ficou conhecido como "o filme em que Demi Moore raspou a cabeça". Vinda do fracasso absoluto de "Stritpease", uma pretensa comédia pela qual recebeu o estratosférico cachê de 12 milhões de dólares - o mais alto pago a uma atriz até então - Moore precisava urgentemente de um sucesso de bilheteria que a fizesse merecer o status de estrela que lhe escapava rapidamente das mãos. O projeto escolhido - e no qual ela assumiu também o papel de produtora - foi um filme onde ela poderia testar seu poder de atração junto ao público sem precisar tirar a roupa. Com um diretor de categoria como Ridley Scott no comando da brincadeira, era de se esperar que tudo desse muito certo. Mas não deu. Apesar de não ser o fiasco que muitos previam, "Até o limite da honra" ficou longe de ser o êxito que Demi necessitava e de certa forma abalou a carreira de Scott, cujo filme anterior, "Tormenta", também havia fracassado comercialmente.

Honestamente, não se pode dizer que "Até o limite da honra" seja um grande filme, assim como é injusto apedrejá-lo como muitos fizeram - e o Framboesa de Ouro de Pior Atriz para Demi Moore é mais implicância do que exatamente justiça. Seu problema maior é o excesso de clichês no qual ele se atola, sem que tenha o distanciamento crítico para ao menos não levar-se a sério. Não há nenhum senso de humor no roteiro feminista e seu ritmo sofre um sério abalo na segunda metade, precisamente quando tinha tudo para conquistar a plateia com cenas de ação que Scott sabe dirigir muito bem - como comprovou em filmes posteriores como "Gladiador" e "Falcão negro em perigo". Tudo é feito com grande competência, desde a fotografia inspirada de Hugh Johnson até a bela música de Trevor Jones, mas falta coração a "Até o limite da honra". Coração e paixão.


Demi Moore - bela como sempre e evitando o uso de dublês - vive Jordan O'Neil, uma especialista em topologia que é escolhida para ser a primeira mulher a enfrentar o treinamento mais radical dos fuzileiros americanos, do qual 60% dos inscritos desiste antes do final. Sua escolha é menos altruísta do que interesseira: quem está por trás de tudo é a senadora Lilian DeHaven (Anne Bancroft), uma raposa velha política que vê na mudança das atitudes da Marinha americana em relação às mulheres um benefício para sua própria carreira. Hostilizada pelos colegas de treinamento - que não sabem nem ao menos como lidar com sua presença entre eles - O'Neil aos poucos passa a ganhar o respeito e a admiração de todos, ao mostrar-se tão forte, corajosa e persistente quanto qualquer um. Sua trajetória, porém, fica ameaçada quando a própria senadora tenta puxar-lhe o tapete, lançando boatos sobre sua sexualidade.

A primeira parte de "Até o limite da honra" é a melhor. Apesar de usar e abusar de todos os clichês do gênero, o treinamento de Jordan e seus colegas consegue ser interessante, principalmente por contar com a atuação vigorosa de Viggo Mortensen como o comandante John Urgayle - que, honrando a tradição máxima do lugar-comum é um brucutu que recita T.E. Lawrence e se desmancha de admiração pela heroína nas cenas finais. Antes de sua consagração com a trilogia "O Senhor dos anéis", Mortensen já mostrava que tinha um talento incomum, conseguindo fazer o possível e o impossível com uma personagem unidimensional. Sua participação engrandece o filme, assim como o trabalho mais uma vez irrepreensível de Anne Bancroft, que rouba todas as (infelizmente poucas) cenas em que aparece. São eles que dão sustentação à Demi Moore, cuja protagonista, apesar de forte e determinada não é desenvolvida a contento pelo roteiro. Ainda assim, a então esposa de Bruce Willis merece elogios por sua dedicação e pela coragem de arriscar-se em um terreno dominado quase exclusivamente pelos homens.

Sem maiores expectativas pode-se gostar bastante de "Até o limite da honra" - que apresenta inclusive uma bela canção original interpretada pela banda The Pretenders em seus créditos finais. É um exemplar muito digno de seu gênero, ainda que fique muito aquém de tudo já realizado por Ridley Scott. E tem Demi Moore botando muito homem no chinelo, o que sempre é muito interessante...

Tuesday, March 29, 2011

A OUTRA FACE


A OUTRA FACE (Face/Off, 1997, Touchstone Pictures/Paramount Pictures, 138min) Direção: John Woo. Roteiro: Mike Werb, Michael Colleary. Fotografia: Oliver Wood. Montagem: Steven Kemper, Christian Wagner. Música: John Powell. Figurino: Ellen Mirojnick. Direção de arte/cenários: Neil Spisak/Garrett Lewis. Produção executiva: Michael Douglas, Jonathan D. Krane, Steven Reuther. Produção: Terence Chang, Christopher Godsick, Barrie M. Osborne, David Permut. Elenco: John Travolta, Nicolas Cage, Joan Allen, Alessandro Nivola, Gina Gershon, Dominique Swain, Nick Cassavettes, Harve Pressnell, Colm Feore, John Carroll Lynch, CCH Pounder, Thomas Jane. Estreia: 27/6/97

Indicado ao Oscar de Efeitos Sonoros

O normal para um ator depois de ter ganho um Oscar e o respeito de seus pares é dedicar-se a uma carreira sólida, de preferência em filmes sérios e dramaticamente desafiadores. Comprovando sua aversão à normalidade, no entanto, Nicolas Cage resolveu seguir o caminho inverso. Premiado e elogiado por sua atuação no peso-pesado "Despedida em Las Vegas", o sobrinho de Francis Ford Coppola entrou de corpo e alma (mais corpo do que alma) em uma série de filmes de ação, frequentemente considerado pelos intelectuais como um gênero menor. Associando-se profissionalmente ao diretor Michael Bay e emprestando seu prestígio a filmes como o interessante "A rocha" e o óvio "Con Air, a rota da fuga", Cage completou seu ciclo de herói de filmes de ação com o melhor de todos eles, um filmaço capaz de deixar de queixo caído até o mais blasé dos espectadores: "A outra face", dirigido pelo chinês John Woo.

Considerado o mestre dos filmes de ação asiáticos, Woo chegou aos EUA pelas mãos do ator Jean-Claude Van Damme, para quem dirigiu "O alvo", um dos melhores filmes do belga que tencionava ameaçar a hegemonia de Stallone e Schwarzenegger no início dos anos 90. Admirado por nomes como Martin Scorsese e Quentin Tarantino, o cineasta já chegou à América com um respeitável currículo de nada menos que  25 filmes, dentre os quais algumas pérolas do gênero. Aqueles que assistiram a "O alvo" e gostaram não tinham nem ideia do que os esperava. Com um roteiro estupendo nas mãos - ainda que inverossímil em sua ideia central - Woo construiu uma verdadeira sinfonia onde até mesmo a extrema violência é revestida por uma poesia visual sem precedentes. Um exemplo dessa afirmação? Um longo tiroteio, perto do clímax do filme, quando, ao invés do barulho ensurdecedor de tiros e gritos, ouve-se a versão de Olivia Newton-John para "Over the rainbow". Assim é John Woo!

A trama de "A outra face" - aquela que é inverossímil mas ainda assim não incomoda o público por ser contada com sinceridade e seriedade - é rocambolesca e empolgante. Tendo seu filho assassinado em um atentado contra a sua própria vida, o policial Sean Archer (John Travolta) passa a dedicar-se obsessivamente à caça do criminoso, Castor Troy (Nicolas Cage), estudando cada movimento seu. Quando finalmente consegue alcançá-lo vê seu rival entrar em coma após uma violenta perseguição. Acontece que, antes de ir parar no hospital, Troy plantou uma bomba em um lugar cuja localização só quem sabe é seu irmão, Pollux (Alessandro Nivola). Para tentar impedir a explosão da bomba, a polícia propõe um perigoso jogo a Archer: fazer uma complexa cirurgia de transplante de rosto e, assumindo o lugar de seu inimigo, fazer com que Pollux entregue os detalhes do plano. Mesmo contra a vontade da esposa, Eve (Joan Allen), o detetive aceita a missão quase impossível e vai parar em uma prisão de segurança máxima. Enquanto está lá, porém, o impensável acontece: Troy acorda do coma e, ao saber dos planos da polícia, mata todos os envolvidos na trama e assume o lugar de Sean Archer.


O roteiro de "A outra face" é um primor de ritmo, mal deixando o público respirar entre uma sequência de ação e outra e surpreendendo-o com reviravoltas e surpresas realmente imprevisíveis. Mas o que chama a atenção daquela parcela da audiência que exige algo mais do que simplesmente injeções de adrenalina a cada quinze minutos é a maneira carinhosa com que John Woo trata suas personagens, dando a elas um senso de humanismo raro no gênero. Castor Troy, apesar de ser um criminoso sanguinário, quase pedófilo e debochado, nutre um verdadeiro afeto por Pollux e pelo filho pequeno - a maneira como amarra o cordão de seus sapatos, por exemplo, fala muito sobre sua personalidade. Sean Archer, apesar de ser um ótimo profissional e pai de família exemplar, lida de maneira quase fria e distante com a esposa e a filha Jamie (Dominique Swain, a Lolita da versão de Adrian Lyne), incapaz de lidar com o sentimento de culpa pela morte do filho pequeno. E a forma como John Woo orquestra a relação entre Eve e seu falso marido daria muito pano pra manga em discussões psicológicas. Ao contrário de frear o ritmo alucinante do roteiro, as pausas na correria apenas demonstram o cuidado com que tudo é tratado nas competentes mãos do diretor.

Idealizado como um projeto para a dupla Stallone/Schwarzenegger e posteriormente tendo o produtor Michael Douglas e Harrison Ford como prováveis protagonistas, "A outra face" encontrou em Nicolas Cage e John Travolta a dupla perfeita, especialmente Travolta. Usufruindo do respeito amealhado por seu trabalho em "Pulp fiction", o ator se diverte às pampas, principalmente quando adquire a personalidade do vilão Castor Troy e pode fazer uso de suas expressões canalhas e mau-caráter. Enquanto isso, Cage não tem medo de explorar toda a sua veia de canastrão, abusando das caras e bocas. No meio deles, sobressai mais uma vez a atuação sensível de Joan Allen e da revelação Alessandro Nivola, que constrói um Pollux cheio de sutilezas e olhares discretos. Sensível a seus atores, John Woo jamais os deixa de lado para construir ambiciosas cenas de explosões ou perseguições automobilísticas. E isso faz toda a diferença.

Mesmo com tantos filmes de aventura sendo lançados anualmente - e cada vez com uma quantidade maior de efeitos visuais e sonoros - "A outra face" se mantém como um dos seus exemplares mais perfeitos. Bem escrito, bem dirigido e com dois atores no auge de sua fama nos papéis centrais, é tão excitante em uma revisão quanto o foi em sua estreia.

Tuesday, March 1, 2011

MISSÃO IMPOSSÍVEL

MISSÃO IMPOSSÍVEL (Mission: impossible, 1996, Paramount Pictures, 110min) Direção: Brian De Palma. Roteiro: David Koepp, Robert Towne, história de David Koepp, Steven Zaillian, série de TV criada por Bruce Geller. Fotografia: Stephen H. Burum. Montagem: Paul Hirsch. Música: Danny Elfman. Figurino: Penny Rose. Direção de arte/cenários: Norman Reynolds/Peter Howitt. Produção executiva: Paul Hitchcock. Produção: Tom Cruise, Paula Wagner. Elenco: Tom Cruise, Jon Voight, Emmanuele Bèart, Henry Czerny, Jean Reno, Ving Rhames, Kristin Scott-Thomas, Vanessa Redgrave, Emilio Estevez. Estreia: 22/5/96

Na metade da década de 90, Tom Cruise já era um astro estabelecido e consagrado, tanto em termos comerciais quanto artísticos, tendo sido inclusive reconhecido com uma indicação ao Oscar por seu trabalho em "Nascido em 4 de julho". Adorado pelas fãs, bem casado - então com a bela Nicole Kidman - e poderoso, parecia que nada lhe faltava. Mas ambição pouca é bobagem e o galã de "Top Gun, ases indomáveis" deu, então, um passo adiante dentro da indústria: uniu-se a sua empresária Paula Wagner e tornou-se produtor de cinema. Sua estreia na função não poderia ter sido mais bem-sucedida: adaptado de uma famosa série de TV americana, "Missão impossível" não apenas rendeu milhares e milhares de dólares como também abriu uma lucrativa franquia e elevou Cruise a um improvável posto de herói de filmes de ação.

Lançada em 1966, no auge da Guerra Fria, a série criada por Bruce Geller durou 7 temporadas e empolgava a audiência com tramas bem elaboradas sobre espionagem e agentes secretos. Sua versão cinematográfica é feliz em modernizar o conceito da série sem perder sua essência, equilibrando sequências de ação bem cuidadas e cenas do mais puro suspense, o que trai a presença de Brian DePalma na cadeira de diretor. Acostumado a brincar com o público em cenas de absoluta tensão - que o digam "Os intocáveis" e "O pagamento final" - DePalma exercita mais uma vez seu lado hitchcockiano, sem, no entanto, esquecer em momento algum que está comandando um produto comercial caro e que tem por objetivo divertir acima de tudo. A violência gráfica e explícita de "Scarface", por exemplo, é deixada de lado, substituída por uma elegância concisa, que se estende ao elenco escalado em várias partes do mundo e que se mostra ideal para a trama desenvolvida especialmente para a versão cinematográfica do seriado.



O roteiro - escrito por David Koepp e Robert Towne, dois dos mais respeitados profissionais da área - começa em Praga, para onde a equipe de Jim Phelps (Jon Voight) é enviada com a missão de apossar-se de um disquete com informações fundamentais para o governo americano. As coisas, porém, dão muito errado e o time praticamente é exterminado sob os olhos do líder do grupo, o agente Ethan Hunt (Tom Cruise). Acusado de traição por um dos chefes da organização, Eugene Kittridge (Henry Czerny), cabe a Hunt provar sua inocência e descobrir quem é o verdadeiro agente duplo. Para isso, ele conta com a ajuda da mulher de Phelps, a bela Claire (Emmanuele Beart) e de dois agentes renegados, Franz Krieger (Jean Reno) e Luther Stickell (Ving Rhames, o Marcelus Wallace de "Pulp Fiction").

Filmado em locações na Tchecoslováquia, "Missão impossível" é um thriller empolgante, realizado com capricho - e um orçamento generoso. A trama intrincada criada por Towne e Koepp nada mais é do que a desculpa para algumas cenas de tirar o fôlego, sejam elas grandiosas (a luta final dentro de um túnel, com direito até mesmo a um helicóptero) ou minimalistas (já é antológica a cena em que Cruise, na pele de Hunt, fica pendurado a poucos centímetros do chão de uma sala milimetricamente à prova de intrusos). O tal disquete com informações políticas nada mais é do que um exemplar dos famosos "mcguffins" tão queridos a Alfred Hitchcock - elementos de importância vital às personagens, mas que servem apenas para justificar o andamento do roteiro. No caso de "Missão impossível", a lista capaz de corromper aos mais íntegros não é tão importante quanto a edição impecável e o cuidado com a parte técnica: é exemplar a maneira com que Brian DePalma lida com o desenho de som e com o uso parcimonioso dos efeitos visuais em seu filme. Eles fazem parte da trama e nunca são exagerados, nem mesmo no clímax final, em que o quase cerebralismo de sua primeira parte dá espaço à adrenalina total.

"Missão impossível" é diversão de primeira qualidade. Conta com um elenco escalado a dedo - que se dá ao luxo de ter Emilio Estevez, Kristin Scott-Thomas e Vanessa Redgrave como coadjuvantes de luxo - e não subestima a inteligência do espectador. Mesmo tendo gerado duas continuações que dão mais valor à pirotecnias visuais do que a tramas consistentes, é uma auspiciosa estreia de Tom Cruise como produtor.

Thursday, February 24, 2011

TORMENTA

TORMENTA (White squall, 1996, Hollywood Pictures/Largo Entertainment, 129min) Direção: Ridley Scott. Roteiro: Todd Robinson, livro "The last voyage of the Albatross", de Charles Gieg Jr., Felix Sutton. Fotografia: Hugh Johnson. Montagem: Gerry Hambling. Música: Jeff Rona. Figurino: Rand Sagers. Direção de arte/cenários: Peter J. Hampton, Leslie Tomkins/Rand Sagers. Produção executiva: Ridley Scott. Produção: Mimi Polk Gitlin, Rocky Lang. Elenco: Jeff Bridges, Caroline Goodall, John Savage, Scott Wolf, Jeremy Sisto, Ryan Phillippe, Balthazar Getty, Ethan Embry, James Rebhorn. Estreia: 02/02/96

Não é querer fazer nenhum tipo de piada infame, mas "Sociedade dos poetas mortos" fez escola. Desde que o belo filme de Peter Weir lotou cinemas em 1989 um novo tipo de super-herói, sem poderes extra-terrenos ganhou o imaginário popular: professores dispostos a inspirar seu grupo de alunos. Em 1996, até mesmo o bem-sucedido Ridley Scott aderiu à tendência e realizou um de seus trabalhos menos conhecidos pelo grande público. Apesar do fracasso de bilheteria e das críticas apáticas, "Tormenta", baseado em uma história real, é um filme com uma qualidade acima da média, ainda que escorregue em alguns lugares-comuns e soe como uma espécie de cópia da obra-prima estrelada por Robin Williams.

O maior atrativo de "Tormenta" é Jeff Bridges. Bom ator como nunca, ele dá vida e substância a Skipper Sheldon, o capitão do Albatross, um barco-escola que, no ano de 1960, sai de Miami em direção ao Caribe com o objetivo de, no caminho, ensinar a seus oito tripulantes/alunos bem mais do que disciplinas acadêmicas: os adolescentes que embarcam na viagem liderada por ele tem por objetivo forjar seu caráter. Ajudado por sua esposa Alice (Caroline Goodall) - professora de Matemática e Ciências ,  seu companheiro de viagem McCrea (John Savage) - que dá aulas de Inglês e declama Shakespeare no café-da-manhã - e do jovem Shay Jennings (Jason Marsden), seu imediato, Skipper dá a seus oito discípulos lições de hombridade e integridade. A história, contada em off por um dos alunos, Chuck Gieg (Scott Wolf), sofre uma reviravolta quando um trágico acidente provocado por uma tormenta - a "white squall" do título original - faz vítimas fatais e o capitão é levado a julgamento por negligência.


A bem da verdade, a direção de Ridley Scott está longe do brilhantismo de seus melhores filmes, como "Blade Runner" e "Thelma & Louise". Quase burocrático, Scott ainda assim mantém o domínio narrativo, nunca permitindo que o tédio se manifeste. Em forma de anedotas cotidianas, a primeira parte do filme apresenta suas personagens de forma dinâmica e até carinhosa. Mesmo sendo mais estereótipos do que personagens multidimensionais, o traumatizado Gil Martin (Ryan Phillipe em início de carreira), o garoto-problema Dean Preston (Eric Michael Cole), o mimado Frank Beaumont (Jeremy Sisto) e até mesmo o sensível Chuck conquistam a plateia sem muito esforço. Sua segunda parte - cujo clímax é a apavorante tormenta, em uma sequência que dura angustiantes quinze minutos - perde um pouco a força: o julgamento de Skipper não é muito convincente, talvez por lembrar demais o filme de Peter Weir, com direito inclusive à catarse emocional, que, aliás, mostra a fragilidade de Scott Wolf como ator.

Revelado na série televisiva "O quinteto", Wolf foi louvado, na segunda metade da década de 90, como um novo Tom Cruise, mas sem o carisma do galã dos anos 80 e tampouco sem seu talento em escolher os projetos mais adequados, se perdeu no meio do caminho. Em "Tormenta" ele se esforça visivelmente, mas, mesmo tendo o papel mais importante dentre os jovens do elenco, se deixa eclipsar por colegas com personagens de menor destaque, como Ryan Phillipe e Jeremy Sisto. Quando contracena com Jeff Bridges, então, praticamente desaparece diante de sua presença maciça e dominante. Bridges, aliás, é o motivo primordial para que se assista ao filme, em mais uma interpretação sensacional.

Não é difícil entender porque "Tormenta" foi praticamente ignorado em seu lançamento. A trama é um tanto derivativa, o roteiro não apela para pieguices exageradas e Jeff Bridges, por melhor ator que seja, não é um chamariz de público. Nem mesmo o nome de Ridley Scott nos créditos foi capaz de lhe dar uma sorte maior. Mas é um entretenimento honesto, realizado com o capricho técnico que se espera do cineasta e tem uma história interessante e bem contada. Vale a pena uma espiada sem maiores expectativas.

Wednesday, February 2, 2011

CORAÇÃO VALENTE


CORAÇÃO VALENTE (Braveheart, 1995, Icon Entertainment International, 177min) Direção: Mel Gibson. Roteiro: Randall Wallace. Fotografia: John Toll. Montagem: Steven Rosenblum. Música: James Horner. Figurino: Charles Knode. Direção de arte/cenários: Tom Sanders/Peter Howitt. Produção executiva: Stephen McEveety, Elisabeth Robinson. Produção: Bruce Davey, Mel Gibson, Alan Ladd Jr. Elenco: Mel Gibson, Sophie Marceau, Patrick McGoohan, Angus McFayden, James Cosmo, Stephen Billington. Estreia: 24/5/95

10 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Mel Gibson), Roteiro Original, Fotografia, Montagem, Trilha Sonora Original/Drama, Figurino, Som, Efeitos Sonoros, Maquiagem
Vencedor de 5 Oscar: Melhor Filme, Diretor (Mel Gibson), Fotografia, Efeitos Sonoros, Maquiagem
Vencedor do Golden Globe de Melhor Diretor (Mel Gibson)

Atores transformados em diretores tem uma grande simpatia dos eleitores da Academia, fazendo parte de uma quase tradição não oficial que frequentemente os premia com uma baciada de Oscar. Foi assim, por exemplo, com Robert Redford, Kevin Costner e Clint Eastwood, só pra citar alguns nomes nas últimas décadas. Quem também se beneficiou dessa boa vontade foi Mel Gibson: astro de filmes de ação como a série "Máquina mortífera" , o ator americano criado na Austrália começou a se reinventar nos anos 90, mostrando um lado sensível que seus trabalhos anterior jamais deixavam antever. Depois de dividir a crítica como a personagem-título de "Hamlet", de Franco Zefirelli e estrear atrás das câmeras com o belo "O homem sem face", Gibson pegou o mundo de surpresa com o ambicioso "Coração valente", um épico de quase três horas de duração em que conta a história de William Wallace, o maior herói da independência da Escócia. Indicado a dez Oscar e premiado em cinco categorias - inclusive as cobiçadas de melhor filme e diretor - o filme ainda arrecadou mais de 75 milhões de dólares no mercado doméstico, provando que, por trás do polêmico e rude ator de "Mad Max" escondia-se um talentoso e delicado cineasta.


Assumindo o papel central mesmo considerando-se velho demais para isso - ele queria o ator Jason Patric como protagonista - Gibson provou-se, também, bastante esperto. Para garantir a distribuição do filme nos EUA pela Paramount, ele aceitou enfeitar com seu nome os cartazes, sabendo que isso atrairia a audiência, que, do contrário, poderia passar ao largo de uma obra de longa duração cujo protagonista não era exatamente um mito mundial. Idolatrado na Escócia, o herói do filme é retratado pelo roteiro de Randall Wallace de forma mitológica, o que colabora para o envolvimento emocional da plateia. Ao equilibrar com inteligência sequências abismais de batalhas violentíssimas com uma fictícia história de amor e intrigas palacianas, Gibson e Wallace acertam em cheio: apesar de chegar perto de três horas de duração, "Coração valente" flui com uma velocidade ímpar, graças ao ritmo imposto pelo roteiro, ora contemplativo, ora alucinante.


As primeiras cenas já demonstram o cuidado do Gibson diretor, ao estabelecer, em poucos minutos, a personalidade de seu protagonista e sua relação com as demais personagens: ainda criança, o jovem William (interpretado pelo carismático James Robinson) perde o pai e vai morar com o tio, Malcolm (Sean Lawlor), que o ensina a ler, falar outras línguas e utilizar o cérebro com mais frequência do que a força física. Ao retornar ao vilarejo de sua infância (já na pele do Gibson ator), ele a encontra em crise, com a população revoltada com a lei da Primeira Noite, que dá aos nobres o direito de passar a noite de núpcias com as jovens noivas. A morte cruel de sua amada Murron (Catherine McCormack) o empurra indelevelmente à luta contra o governo inglês, na forma do déspota Edward Longshanks (Patrick McGoohan). Juntando um exército inferior em número mas superior em coragem e estratégia, Wallace torna-se uma lenda e desperta a paixão da princesa Isabelle (Sophie Marceau), nora do rei.


Para o público médio, que pouco se importa com licenças históricas, "Coração valente" é uma obra-prima. Ágil, belissimamente fotografado e dirigido com um cuidado evidente, é um filme realizado com alma e que remete aos épicos clássicos dos tempos áureos do cinema - não à toa, seu grande sucesso incentivou outras produções do estilo, quase todas sem a mesma qualidade. A maior diferença entre o filme de Gibson e seus congêneres é que o cineasta realmente sabia o que queria. Editada sem pressa mas nunca com uma lentidão exagerada, a história de William Wallace conquista a audiência justamente por jamais se permitir fugir de seu maior objetivo: contar uma bela história para um público o mais amplo possível. Sintomaticamente, algumas cenas até soam didáticas, mas sem ofender a inteligência dos espectadores.


E seria de uma injustiça imperdoável não louvar o realismo das cenas de batalha orquestradas por Mel Gibson. Realizadas em grande escala, as sequências que contrapoem ingleses e escoceses - violentas, bárbaras e sangrentas - enchem os olhos e os ouvidos, hipnotizando o público na mesma medida em que o diverte. Sim, o roteiro encontra espaço - ainda que pequeno - para um pouco de humor, mais um acerto da produção, que, assim, dá um alívio depois de alguns momentos bastante fortes.


"Coração valente" mereceu ser o vencedor do Oscar de 1995, ainda que tenha disputado a estatueta com os belos "Razão e sensibilidade" e "O carteiro e o poeta". Agradou a crítica, o público e os eleitores da Academia por seu perfeito equilíbrio entre ação, romance e história. Um épico digno da ser assim chamado!

Monday, January 3, 2011

TRUE LIES

TRUE LIES (True lies, 1994, 20th Century Fox/Lighstorm Entertainment, 141min) Direção: James Cameron. Roteiro: James Cameron, basedo no roteiro "La totale", de Claude Zidi, Simon Michael, Didier Kaminka. Fotografia: Russell Carpenter. Montagem: Conrad Buff, Mark Goldblatt, Richard A. Harris. Música: Brad Fiedel. Figurino: Marlene Stewart. Direção de arte/cenários: Peter Lamont/Cindy Carr. Produção executiva: Lawrence Kasanoff, Rae Sanchini, Robert Shriver. Produção: Stephanie Austin, James Cameron. Elenco: Arnold Schwarzenegger, Jamie Lee Curtis, Tom Arnold, Bill Paxton, Tia Carrére, Charlton Heston, Art Malik, Grant Heslov. Estreia: 15/7/94. Bilheteria EUA: U$ 146.261.000

Indicado ao Oscar de Efeitos Visuais
Vencedor do Golden Globe de Melhor Atriz Comédia/Musical (Jamie Lee Curtis)



Em 1994 a carreira de Arnold Schwarzenegger estava por um fio. O fracasso comercial de "O último grande herói", em que ele brincava com sua imagem de astro de filmes de ação o havia colocado em uma situação delicada dentro de uma indústria onde tudo é medido por dólares. Para recuperar seu prestígio - e uma bilheteria respeitável - ele reuniu-se ao cineasta que melhor havia sabido lidar com seu talento dramático limitado em seus maiores êxitos financeiros, os dois capítulos iniciais de "O exterminador do futuro". Com James Cameron na direção e Schwarza na liderança do elenco não havia como "True lies" dar errado. E não deu. Mesmo com um orçamento de 120 milhões de dólares, a refilmagem da desconhecida comédia francesa "La totale" - obviamente inchada com efeitos visuais de primeira qualidade - devolveu ao ator seu status de grande herói das telas, além de ter brindado o público com um dos mais divertidos filmes de sua carreira.


Brincando de James Bond, Schwarzenegger tem em "True lies" seu melhor papel, no qual ele consegue ultrapassar suas limitações e atingir um patamar inédito em sua carreira. Como Harry Tasker, um agente secreto do governo americano envolvido em uma perigosa trama de terrorismo nuclear, o monossilábico Exterminador não apenas explode automóveis, mas anda a cavalo pelo Central Park (e dentro de um elevador), pilota um avião de caça, fala árabe e dança tango. Tudo enquanto tenta salvar seu casamento.

Tasker é um agente do governo americano que esconde até mesmo da família sua verdadeira profissão. Sob o disfarce de um tedioso vendedor de computadores, ele leva uma vida repleta de adrenalina enquanto sua esposa, Helen (Jamie Lee Curtis) acredita que ele é um burocrata sonolento. Durante um de seus perigosos trabalhos, no entanto, Harry descobre que sua mulher está se envolvendo com outro homem, em busca de mais emoção para sua vida. Para salvar seu casamento, ele inventa uma missão para ela, mas eles acabam tendo que lidar de verdade com uma ameaça de terroristas árabes.

"True lies" é tudo que o cinema de entretenimento holywoodiano pode oferecer. É divertido do início ao fim, equilibrando com maestria sequências de ação realmente empolgantes com momentos extremamente engraçados. Jamie Lee Curtis - merecidamente premiada com o Golden Globe de melhor atriz em comédia ou musical - rouba a cena descaradamente, explorando cada diálogo e cada possibilidade de sua personagem. A cena em que Helen precisa forjar um striptease, por exemplo, é um primor de bom humor e tanto Curtis quanto Schwarzenegger deitam e rolam na pele de personagens que parecem feitos sob medida.  Tom Arnold e Bill Paxton, em papéis coadjuvantes, também colaboram para o alto astral do filme que, mesmo falando sobre assuntos um tanto polêmicos jamais deixa de ser o que se propõe: uma aventura delirante, alucinante e muito, muito cara.

O orçamento milionário de "True lies", ao contrário do que acontece em muitos filmes, é plenamente justificável quando se assiste a cada uma de suas cenas. Cada centavo gasto por Cameron - um cineasta com grande tendência à megalomania - é visível nas telas. Os 120 milhões gastos - que dariam para produzir quase quatro filmes como "Velocidade máxima" - nunca parecem supérfluos nas mãos de Cameron, que cuida de cada detalhe com mão de ferro. Pode ser um inferno para quem trabalha com ele, mas para o público que assiste a seus filmes, esse detalhismo todo faz toda a diferença.

É impossível não gostar de "True lies". Quem procura uma comédia irá dar altas gargalhadas com as desventuras do casal Tasker. Quem busca um filme de ação ficará grudado na poltrona ao assistir sequências criativas e aparentemente impossíveis. E quem gosta de esquecer dos problemas por duas horas de duração vai ter 140 minutos da diversão mais competente que o dinheiro pode comprar. Se todos os filmes de ação fossem como "True lies" o mundo seria um lugar mais inteligente.

Friday, December 31, 2010

VELOCIDADE MÁXIMA

VELOCIDADE MÁXIMA (Speed, 1994, 20th Century Fox, 120min) Direção: Jan De Bont. Roteiro: Graham Yost. Fotografia: Andrezj Bartkowiak. Montagem: John Wright. Música: Mark Mancina. Figurino: Ellen Mirojnick. Direção de arte/cenários: Jackson De Govia/K.C. Fox. Produção executiva: Ian Bryce. Produção: Mark Gordon. Elenco: Keanu Reeves, Dennis Hopper, Sandra Bullock, Jeff Daniels, Alan Ruck, Joe Morton. Estreia: 10/6/94

3 indicações ao Oscar: Montagem, Som, Efeitos Sonoros
Vencedor de 2 Oscar: Som, Efeitos Sonoros


Aqueles que acreditam que, para ser bom, um filme de ação precisa de um orçamento gigantesco e um astro de primeira grandeza devem ter ficado de queixo caído com o desempenho de "Velocidade máxima", lançado pela Fox em 1994. Ao custo de meros 25 milhões de dólares - menos que o salário de Arnold Schwarzenegger, por exemplo - e com um Keanu Reeves pré-Matrix como protagonista, o filme de estreia do diretor de fotografia Jan De Bont como cineasta rendeu pelo menos quatro vezes isso somente no mercado americano e transformou tanto Reeves como Sandra Bullock em ídolos, chegando inclusive a gerar uma tenebrosa continuação - que trocava Keanu por Jason Patric.

Escrito com um invejável senso de ritmo por Graham Yost, "Velocidade máxima" é um filme que funciona justamente por não querer inventar moda. Simples e direto, ele cumpre o que promete em suas duas horas de duração manter a plateia grudada na poltrona do eletrizante início em um elevador em vias de despencar de 40 andares ao climático final no metrô de Los Angeles. Contando ainda com um carismático herói, o policial Jack Traven - papel oferecido a nomes tão díspares quanto Alec Baldwin, Johnny Depp e Tom Hanks antes que Keanu Reeves o assumisse - o filme conquista também por sua despretensão. Apesar de parecer um filme caro (as sequências de ação são caprichadíssimas e em nenhum momento traem seu orçamento apertado), "Velocidade máxima" estreou sem maiores expectativas e talvez por isso mesmo tenha surpreendido tanta gente.


O início de "Velocidade máxima" já dá uma mostra do que vem pela frente quando dois policiais da SWAT, Jack Traven (Keanu Reeves) e Harry Temple (Jeff Daniels) se vêem obrigados a resgatar um grupo de pessoas de um elevador ameaçado de ir pelos ares por um psicopata que exige 3 milhões de dólares em troca de desarmar a bomba. Depois de ser bem-sucedido na missão, Traven é novamente desafiado pelo criminoso - na verdade um ex-policial de nome Howard Payne (Dennis Hopper) - quando fica sabendo que uma bomba está armada em um dos ônibus da cidade de Los Angeles. Uma vez que o ônibus não pode nunca andar a menos de 50 milhas por hora para que a bomba não exploda, ele conta com a ajuda da civil Annie (Sandra Bullock) - que perdeu a licença de motorista justamente por excesso de velocidade - para manter o veículo em movimento e salvar a vida dos passageiros.

A maior qualidade de "Velocidade máxima" é justamente a maneira com que o roteiro de Yost e a direção de Jan De Bont combinam de forma a jamais perder a atenção da audiência. Não há cenas desnecessárias e a edição enxuta de John Wright extrai o melhor de cada sequência, todas elas de perder o fôlego. Tecnicamente impecável - foi oscarizado em duas categorias sonoras - o filme não deixa espaço para questionamentos racionais, utilizando o escapismo com inteligência e parcimônia. O único escorregão talvez seja o romance pouco provável entre os protagonistas quem, em uma situação extrema como a mostrada no filme conseguiria cair de amores por quem quer que seja??

Aliás, é perceptível, já em "Velocidade máxima", o quanto Sandra Bullock é chata. Sua personagem é irritante, esganiçada e cansativa e Bullock - em vias de tornar-se uma espécie de namoradinha da América graças a filmes como "Enquanto você dormia" - não é muito diferente. A historinha de amor entre Annie e Traven é o único elo fraco de um filmaço de ação que nada deixa a dever a seus irmãos mais anabolizados. "Velocidade máxima" é um clássico dos anos 90!

Tuesday, December 7, 2010

JURASSIC PARK - PARQUE DOS DINOSSAUROS

JURASSIC PARK, PARQUE DOS DINOSSAUROS (Jurassic Park, 1993, Universal Pictures/Amblin Entertainment, 127min) Direção: Steven Spielberg. Roteiro: Michael Crichton, David Koepp, romance de Michael Crichton. Fotografia: Dean Cundey. Montagem: Michael Kahn. Música: John Williams. Direção de arte/cenários: Rick Carter/Jackie Carr. Casting: Janet Hirshenson, Jane Jenkins. Produção: Kathleen Kennedy, Gerald R. Molen. Elenco: Sam Neil, Richard Attenborough, Laura Dern, Jeff Goldblum, Ariana Richards, Joseph Mazzello, Samuel L. Jackson, Wayne Knight. Estreia: 11/6/93

Vencedor de 3 Oscar: Som, Efeitos Sonoros, Efeitos Visuais

Quando Steven Spielberg deixa de lado sua vontade de ser um cineasta sério ele não brinca em serviço. Pouco antes de ganhar seus sete Oscar por "A lista de Schindler", ele brindou seu público sedento por um bom filme-pipoca com uma legítima obra-prima do gênero: além de ganhar 3 merecidos prêmios da Academia (efeitos visuais, som e efeitos sonoros), "Jurassic Park" ainda foi responsável por quebrar recordes e mais recordes de bilheteria, tornando-se um dos maiores fenômenos da história do cinema. Apesar da maciça campanha de marketing que tornou impossível ignorar o filme no verão americano de 1993, vale dizer que a obra de Spielberg que trouxe os dinossauros de volta à Terra mereceu cada centavo que arrecadou ao redor do globo.

Baseado em um romance de Michael Crichton, "Jurassic Park" tem como protagonista o milionário John Hammond (o cineasta Richard Attenborough, brincando de ator) que, ambicioso, cria o parque temático do título, que recriou dinossauros a partir de cadeias do DNA conservados em âmbar. Para dar legitimidade à sua criação e conseguir o aval de seus advogados, ele chama dois paleontólogos, Alan Grant (Sam Neil) e Ellie Sattler (Laura Dern) e um cientista, Ian Malcolm (Jeff Goldblum) que, ao lado dos dois netos do magnata, farão a primeira excursão pelo parque. No entanto, um funcionário ganancioso, em uma tentativa de trair o patrão, acaba causando um desastre e todos os animais criados no parque ficam à solta, em busca de alimento: os seres humanos.


É inegável que a intenção de Spielberg  com "Jurassic Park" é tão-somente divertir o espectador. Se as personagens não são exatamente profundos e seus dramas são quase raros isso importa muito pouco diante do impressionante resultado final. Poucas vezes o cinema escapista teve um representante tão digno. Em sequências aterrorizantes, o diretor utiliza a mágica trilha sonora do mestre John Williams para grudar o público na poltrona, com taquicardia certa. Os efeitos visuais são impecáveis até hoje - como sempre, a parte técnica da obra do diretor não fica nunca aquém de perfeita - e o ritmo, especialmente na segunda metade não deixa espaço para as personagens (e os espectadores, por conseguinte) respirarem.


As subtramas de "Jurassic Park", por sinal, não deixam de manter o estilo "família" de Steven Spielberg. A mais divertida delas une Alan Grant - um solteirão nada confortável perto de crianças - aos dois netos de Hammond, sofrendo pelo divórcio dos pais e sendo perseguidos avidamente por tiranossauros-rex famintos. Logicamente, a aventura que ele compartilha com os meninos mudará sua maneira de encarar uma possível paternidade, bem ao gosto do diretor, que, de leve, ainda desperta uma discussão moral e ética a respeito das possibilidades do ser humano em brincar de ser Deus - obviamente sem forçar a plateia a maiores elocubrações mentais. Da plateia só o que ele espera é que embarque sem reservas em sua montanha-russa desgovernada.

"Jurassic Park" não é filme para mudar a vida de ninguém. Mas é fascinante - a cena em que Alan e Ellie dão de cara com os primeiros dinossauros, ao som da música de John Williams, é um primor, reiterando o poder que a sétima arte tem em encantar os espectadores. E é também um dos melhores filmes de entretenimento produzidos por Hollywood em toda a sua história. Infelizmente, perdeu seu vigor, por conta de suas desnecessárias continuações.