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Wednesday, February 1, 2012

PRENDA-ME SE FOR CAPAZ

PRENDA-ME SE FOR CAPAZ (Catch me if you can, 2002, Dreamworks SKG, 141min) Direção: Steven Spielberg. Roteiro: Jeff Nathanson, livro de Frank Abgnale Jr., Stan Redding. Fotografia: Janusz Kaminski. Montagem: Michael Kahn. Música: John Williams. Figurino: Mary Zophres. Direção de arte/cenários: Jeannine Oppewall/Claudette Didul, Leslie A. Pope. Produção executiva: Barry Kemp, Laurie MacDonald, Tony Romano, Michael Shane. Produção: Walter F. Parkes, Steven Spielberg. Elenco: Tom Hanks, Leonardo DiCaprio, Christopher Walken, Martin Sheen, Nathalie Baye, Amy Adams, Jennifer Garner, James Brolin. Estreia: 25/12/02

2 indicações ao Oscar: Ator Coadjuvante (Christopher Walken), Trilha Sonora Original

Juntar no mesmo filme Steven Spielberg, Tom Hanks e Leonardo DiCaprio não tinha como dar errado. E não deu. No entanto, apesar da renda mundial de mais de 350 milhões de dólares, "Prenda-me se for capaz" desconcertou a crítica por sua mistura de gêneros. Ora uma comédia despretensiosa, ora um filme de ação com momentos dramáticos, a transposição para as telas da história real do Frank Abgnale Jr. não conquistou tantos prêmios quanto merecia. No mesmo ano em que "Chicago" fez a festa na cerimônia do Oscar, o filme de Spielberg teve que contentar-se com meras duas indicações: ator coadjuvante para Christopher Walken e trilha sonora original para o veterano John Williams.

Realizado por Spielberg logo depois de "A.I. - Inteligência artificial", "Prenda-me se for capaz" é nitidamente menos ambicioso em termos visuais e dramáticos. Assumindo a direção depois da desistência de David Fincher, Gore Verbinski, Cameron Crowe e Lasse Halstrom, o cineasta demonstra ter retomado o tom leve e divertido do início de sua carreira, deixando de lado os temas pesados de seus filmes dramáticos e com intenções a Oscar - incluindo aí o malfadado "Amistad", que morreu na praia de suas boas intenções. Da música espirituosa de Williams à fotografia esplêndida de Janusz Kaminski (que evita as sombras e apresenta um filme solar e alto-astral) tudo parece dizer ao público que sim, o diretor é o mesmo homem que esteve por trás (como produtor) de filmes essenciais ao entretenimento dos anos 80 e 90 que visavam a diversão pura e simples.



Baseado no livro autobiográfico escrito por Abgnale e Stan Redding, "Prenda-me se for capaz" começa em 1963, quando o jovem Frank (Leonardo DiCaprio) está com 19 anos e seus pais (Christopher Walken e Nathalie Baye) se separam. Abalado com a situação, o rapaz foge para Nova York, onde começa uma carreira como falsificador utilizando cheques que ganhou de presente de seu pai, a quem idolatra. Em pouco tempo ele consegue mais de 2 milhões de dólares e passa a ser perseguido pelo FBI, na figura de Carl Hanrattu (Tom Hanks), que fica obcecado em caçá-lo. Para fugir da polícia - e continuar sua vida de luxo e conforto- Frank se faz passar por piloto da Pan Am e médico, chegando a ficar noivo da tímida Brenda (Amy Adams). Entre ele e Hanratty surge, surpreendentemente, uma relação de admiração mútua.

É interessante como o roteiro de Jeff Nathanson tenta estabelecer uma espécie de relação paternal entre seus dois protagonistas, sem que para isso precise apelar para conceitos freudianos que fatalmente afastariam o grande público. Nas mãos experientes de Spielberg tudo soa menos sério e mais divertido. Mesmo que não seja exatamente uma comédia - ao menos não uma comédia de gargalhadas - "Prenda-me se for capaz" tem um clima de sessão da tarde descompromissada. O humor impresso por Nathanson é sutil e irônico e encontra no timing perfeito de Tom Hanks um intérprete ideal, enquanto DiCaprio deita e rola com uma personagem que é o sonho de qualquer jovem ator. Mesmo que contracenem bem pouco, os dois protagonistas são os principais responsáveis por elevar o nível de qualidade do filme, em performances exatas, seguradas por um elenco coadjuvante que jamais deixa a peteca cair: não apenas ChristopherWalken está soberbo como Frank Abgnale pai, mas também Nathalie Baye e Martin Sheen apresentam trabalhos dignos de nota - e até mesmo a participação rápida de Jennifer Garner não deixa de ser uma delícia.

"Prenda-me se for capaz" é mais uma prova de que Steven Spielberg é um diretor versátil, capaz de cativar o espectador contando qualquer tipo de história. E é um dos mais divertidos filmes de 2002, injustamente esquecido pelo Oscar.

Wednesday, January 25, 2012

O CHAMADO

O CHAMADO (The ring, 2002, Dreamworks SKG, 115min) Direção: Gore Verbinski. Roteiro: Ehren Kruger, romance de Koji Suzuki, roteiro original de Hiroshi Takahashi. Fotografia: Bojan Bazelli. Montagem: Craig Wood. Música: Hans Zimmer. Figurino: Julie Weiss. Direção de arte/cenários: Tom Duffield/Rosemary Brandenburg. Produção executiva: Doug Davison, Roy Lee, Mike Macari, Michele Weisler. Produção: Laurie MacDonald, Walter F. Parkes. Elenco: Naomi Watts, Martin Henderson, David Dorfman, Brian Cox, Jane Alexander, Daveigh Chase. Estreia: 18/10/02

No início dos anos 2000, Hollywood, dando mais uma prova de sua crônica falta de criatividade, passou a buscar nos filmes de terror orientais a matéria-prima para alguns de seus maiores sucessos do gênero. O responsável por tal tendência - e que acabou tornando-se vítima dela quando gerou uma continuação desnecessária - foi "O chamado", remake que, por incrível que pareça, melhorou bastante seu original, dirigido por Hideo Nakata (por sua vez, baseado em um romance de Kôji Suzuki). Comandada por Gore Verbinski (em alta pelo sucesso de sua versão cinematográfica de "Piratas do Caribe"), a versão ianque consegue ter clima apropriado, um elenco afiado e, melhor ainda, mantém o suspense em alta até suas cenas finais.

O remake americano de "O chamado" é bastante fiel a sua origem japonesa, seguindo quase à risca o roteiro do filme de Nakata. Naomi Watts (recém saída dos elogios por "Cidade dos sonhos", de David Lynch) é a protagonista, a jornalista Rachel Keller, mãe solteira do precoce Aidan (David Dorfman). Dedicada à profissão (e curiosa como uma boa repórter deve ser), Rachel inicia uma investigação inusitada depois da morte inesperada da sobrinha adolescente: ela segue os rastros de uma fita de vídeo que, segundo consta, mata quem a assiste, depois de sete dias. Após assistir à tal fita (que encontra na pousada onde sua sobrinha passou seu último fim de semana), Rachel começa uma corrida contra o tempo para evitar sua morte e a do filho, que também assistiu às desconexas imagens. Com a ajuda do ex-namorado Noah (Martin Henderson), ela tenta descobrir as razões por trás do filme e descobre, aterrorizada, uma trágica história familiar com fim trágico.



Fotografado com competência por Bojan Bazelli - que mistura o tom sombrio da história com a umidade constante de Seattle, cenário da trama - "O chamado" tem a seu favor, também, a direção competente de Verbinski, que, mesmo que esteja longe de ser um cineasta original ou ousado, narra com correção e seriedade um filme que inteligentemente foge da tendência de apelar para o humor (característica esta que marcou uma fase do gênero terror no final dos anos 90). Para o bem do espectador que gosta de sentir medo (e assustar-se), o cineasta mantém sempre a sensação de perigo constante e chega ao luxo de enganar a plateia, aparentemente terminando a história para então apresentar seu desfecho pessimista. Ainda que não chegue a ser exatamente surpreendente (sempre é bom deixar um gancho para uma sequência, ensinam os executivos de Hollywood), essa opção encerra o filme com coerência e elegância.

Apesar das explicações meio capengas para mostrar os motivos que levaram a vilã Samara Morgan (interpretada pela pequena e assustadora Daveigh Chase) a tornar-se vingativa - culpa mais da história original em si do que de seu remake - "O chamado" é um dos mais decentes filmes de terror dos anos 2000, dando a chance a Naomi Watts de comprovar o talento mostrado em seu inesquecível trabalho em "Cidade dos sonhos". Um filme imperdível para os fãs do gênero!

Monday, December 5, 2011

ESTRADA PARA PERDIÇÃO

ESTRADA PARA PERDIÇÃO (Road to Perdition, 2002, Dreamworks SKG, 117min) Direção: Sam Mendes. Roteiro: David Self, HQ de Max Allan Collins, Richard Piers Rayner. Fotografia: Conrad L. Hall. Montagem: Jill Bilcock. Música: Thomas Newman. Figurino: Albert Wolsky. Direção de arte/cenários: Dennis Gassner/Nancy Haigh. Produção executiva: Joan Bradshaw, Walter F. Parkes. Produção: Sam Mendes, Dean Zanuck, Richard D. Zanuck. Elenco: Tom Hanks, Paul Newman, Jude Law, Tyler Hoechlin, Stanley Tucci, Daniel Craig, Jennifer Jason Leigh, Ciaran Hinds, Dylan Baker, Liam Aiken. Estreia: 12/7/02

6 indicações ao Oscar: Ator Coadjuvante (Paul Newman), Fotografia, Trilha Sonora Original, Direção de Arte/Cenários, Som, Edição de Som
Vencedor do Oscar de Fotografia

Quem achava que o Oscar de direção por "Beleza americana" tinha sido sorte de principiante do inglês Sam Mendes foi obrigado a segurar o queixo com o lançamento de "Estrada para Perdição", seu segundo longa. Enquanto seu filme de estreia analisava com um olhar estrangeiro as entranhas dos subúrbios ianques sua adaptação da HQ de Max Allan Collins investiga a fundo os elementos básicos de outro gênero caro à plateia norte-americana (e a todas aquelas que cultuam o cinema hollywoodiano): os filmes de gângster. Ao lançar um olhar europeu sobre essa história de traição, vingança e violência (vagamente baseada em uma história real ocorrida com o gângster irlandês John Looney nos anos 30), Mendes construiu uma peça rara de ourivesaria visual e dramática, provando que, além de sensibilidade para as mazelas humanas, tem um apuradíssimo senso estético. "Estrada para Perdição" é um dos filmes mais deslumbrantes de seu tempo, e a fotografia do veterano Conrad R. Hall (que morreu logo após as filmagens) não mereceu seu Oscar injustamente.

Não existe nenhum plano ou sequência de "Estrada para Perdição" que não seja claramente planejado para causar um efeito específico na audiência (mesmo que às vezes esse objetivo seja bastante discreto a ponto de não ser percebido em uma primeira sessão) ou reiterar a visão de Mendes do roteiro de David Self (um exemplo disso é a maneira como os closes nos protagonistas vão se tornando frequentes à medida em que a relação entre eles também começa a se estreitar). Esse cuidado extremo do cineasta em encantar pelo visual em detrimento de um ritmo mais ágil e uma violência mais gráfica é, ao mesmo tempo, a qualidade maior de seu filme e seu calcanhar de Aquiles. Aparentemente Mendes nega aos fãs do gênero os tiroteios sangrentos que fizeram a glória de nomes como James Cagney e Paul Muni nos primórdios do cinema (e de banhos de sangue como o hiperbólico "Scarface" de Brian de Palma), porém o que ele faz (com invejável competência) é revestir-lhes com um uma poesia em forma de imagens. E, ao contar mais do que uma simples história de revanche - preferindo focalizar seus trunfos na relação conflitante entre um pai distante e silencioso e um filho pré-adolescente que anseia por uma figura paterna mais acessível e próxima.



A trama de "Estrada para Perdição" se passa em 1931, quando os EUA estão passando pela Grande Depressão causada pela queda da bolsa de valores de 1929. É a época da Lei Seca, onde gente como Al Capone faz fortuna em negócios escusos. Em Illinois, quem manda neste setor é o irlandês John Rooney (Paul Newman em sua última e esplêndida atuação, que lhe rendeu uma indicação ao Oscar de coadjuvante), um homem que não se conforma com a falta de talento e personalidade do único filho, Connor (Daniel Craig) e vê em seu protegido Michael Sullivan (Tom Hanks) a esperança de um substituto à sua altura. Sua atitude em relação a ele irá se transformar radicalmente quando Connor mata um empregado suspeito de roubo e o filho mais velho de Sullivan, Mike (Tyler Hoechlin) testemunha o crime às escondidas. Temendo as consequências que a situação pode trazer, o veterano gângster manda exterminar o menino, mas quem acaba morto por engano é seu irmão caçula, em companhia da mãe. Desesperado pela tragédia, Sullivan une-se ao filho em uma viagem na qual pretende vingar a morte de sua família. No caminho, ele acaba se aproximando do garoto, com quem sempre teve uma relação quase fria e precisa protegê-lo de um matador contratado pelos Rooney, o apavorante fotógrafo Harlen Maguire (Jude Law, irreconhecível).

"Estrada para Perdição" funciona lindamente em todos os seus níveis dramáticos. Enquanto filme de gângster é formalmente tradicional, apesar de evitar ferozmente a violência explícita. Como conflito familiar emociona ao aproximar pai e filho de maneira delicada e melancólica (ainda que sua opção por não exagerar no dramalhão o afaste um pouco de um público desacostumado a sutilezas). Visualmente é um espetáculo (cortesia também da direção de arte e do figurino caprichados). A trilha sonora de Thomas Newman é marcante e adequada e o elenco é de aplaudir de pé: Tom Hanks escapa pela primeira vez de sua persona carismática para viver um Michael Sullivan fechado e sorumbático (mesmo que esteja longe de ser um vilão como parte da mídia pintou è época da estreia do filme) e Jude Law mostra que não precisa mostrar seu sorriso luminoso para chamar a atenção. Mas é, acima de tudo, um belíssimo filme que melhora a cada revisão e marca o adeus de um mito absoluto, o grande Paul Newman. Convenhamos, não é pouca coisa!!!

Wednesday, November 9, 2011

DIRIGINDO NO ESCURO

DIRIGINDO NO ESCURO (Hollywood ending, 2002, DreamWorks SKG, 112min) Direção e roteiro: Woody Allen. Fotografia: Wedigo von Schultzendorff. Montagem: Alisa Lepselter. Figurino: Melissa Toth. Direção de arte/cenários: Santo Loquasto/Regina Graves. Produção executiva: Stephen Tenembaum. Produção: Letty Aronson. Elenco: Woody Allen, Téa Leoni, Treat Williams, Mark Rydell, George Hamilton, Debra Messing, Aaron Stanford. Estreia: 03/5/02

Quando Woody Allen resolve falar sério e evoca um de seus ídolos máximos, Ingmar Bergman, ele conquista pela profundidade e por seu surpreendente entendimento da alma humana. Quando pretende apenas fazer rir, no entanto, é que o diretor nova-iorquino mostra porque é um dos mais prestigiados cineastas em atividade, capaz de arregimentar astros de todos os quilates para suas produções. Em "Dirigindo no escuro", ele não apenas faz rir como utiliza sua experiência de mais de três décadas no mundo do cinema para alfinetar a própria indústria.

O próprio Allen vive o protagonista, Val Waxman, um cineasta vencedor de dois Oscar que, em desgraça devido a seus ataques de estrelismo, tem a grande chance de voltar ao topo ao ser contratado para dirigir uma nova - e cara - produção. A princípio relutante em aceitar o trabalho - o produtor do filme, Hal Yaeger (Treat Williams) é o novo marido de sua ex-mulher (Téa Leoni) - Waxman acaba embarcando no projeto, disposto a tentar a ressurreição de sua carreira. Depois de contratar toda a equipe (inclusive um diretor de fotografia asiático cheio de manias e que não fala nenhuma palavra em inglês), ele descobre, na véspera do início das filmagens, que ficou cego. Impedido por seu agente (o cineasta Mark Rydell, de "A rosa") de desistir do trabalho, Waxman dá início à produção do filme, sem contar à ninguém sua condição, contando apenas com a ajuda do intérprete contratado para auxiliar na comunicação com o fotógrafo.


É difícil ficar incólume a "Dirigindo no escuro", especialmente quando se é fã de cinema e percebe nele referências nominais - aos irmãs Weinstein, donos da então poderosa Miramax, por exemplo - e piadas geniais sobre a própria Hollywood e suas engrenagens mercenárias. Ao eleger como protagonista um cineasta que conduz um filme sem enxergar absolutamente nada, Allen mostra, com seu característico senso de humor, que nem é preciso ter uso de todos os cinco sentidos para ser um cineasta na terra do cinema.


Com um final irônico e à altura do desenvolvimento do roteiro, repleto de diálogos engraçadíssimos e piadas visuais há muito ausente das obras de Woody Allen - e com um elenco que conta com Debra Messing, a gracinha protagonista do seriado "Will & Grace" - "Dirigindo no escuro" pode não ser o mais popular entre seus filmes, mas está (como sempre) muito à frente de comédias sem-graça que são servidas semanalmente ao público. Hilariante!

Monday, October 24, 2011

UMA MENTE BRILHANTE

UMA MENTE BRILHANTE (A beautiful mind, 2001, Universal Pictures/Dreamworks SKG, Imagine Entertainment, 135min) Direção: Ron Howard. Roteiro: Akiva Goldsman, livro de Sylvia Nasar. Fotografia: Roger Deakins. Montagem: Dan Hanley, Mike Hill. Música: James Horner. Figurno: Rita Ryack. Direção de arte/cenários: Wynn Thomas/Leslie Rollins. Produção executiva: Todd Hallowell, Karen Kehela. Produção: Brian Grazer, Ron Howard. Elenco: Russell Crowe, Jennifer Connelly, Ed Harris, Christopher Plummer, Paul Bettany, Josh Lucas, Adam Goldberg, Judd Hirsch. Estreia: 13/12/01

8 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Ron Howard), Ator (Russell Crowe), Atriz Coadjuvante (Jennifer Connelly), Roteiro Adaptado, Montagem, Trilha Sonora Original, Maquiagem
Vencedor de 4 Oscar: Melhor Filme, Diretor (Ron Howard), Atriz Coadjuvante (Jennifer Connelly), Roteiro Adaptado
Vencedor de 4 Golden Globes: Melhor Filme/Drama, Ator/Drama (Russell Crowe), Atriz Coadjuvante (Jennifer Connelly), Roteiro

Grande vencedor do Oscar 2001 em quatro categorias - Filme, Diretor, Roteiro Adaptado e Atriz Coadjuvante - "Uma mente brilhante" conta a história do matemático John Nash causou polêmica em seu lançamento, o que em nada atrapalhou seu sucesso também nas bilheterias, com uma arrecadação de mais de 170 milhões de dólares somente no mercado americano (o que, se for levado em conta que não é um típico produto para consumo imediato é um estrondoso sucesso). O celeuma foi causado pela revelação de que o protagonista do filme tinha ideias antissemitas, o que foi convenientemente deixado de lado pelo premiado roteiro de Akiva Goldsman, assim como suas tendências homossexuais. O que os polemistas talvez não tenham percebido é que tais características da personagem não fazem muita diferença para o centro da história contada no filme. O que importa na obra de Ron Howard - um diretor até então de filmes comerciais sem maiores ambições artísticas - é a luta de Nash contra a esquizofrenia, travada durante décadas, e sua história de amor com a esposa Alicia - história essa bastante enfeitada na transposição para celulóide da extensa biografia escrita por Sylvia Nasar.

Vivido com um misto de garra e delicadeza surpreendente por um Russell Crowe provando seu imenso talento, John Nash é mostrado pela primeira vez em 1947, ainda na faculdade e buscando uma maneira de destacar-se de seus colegas, todos matemáticos brilhantes e um tanto arrogantes. Já professor, Nash conhece e se apaixona por uma aluna, a bela Alicia (Jennifer Connelly, linda e excelente no papel), com quem se casa, apesar de suas dificuldadades em relacionamentos sociais. Às vésperas de seu reconhecimento profissional, no entanto, ele é diagnosticado como esquizofrênico e, com a ajuda de Alicia e do psiquiatra Dr. Rosen (Christopher Plummer), ele tenta superar a doença e voltar a ser o gênio que prometia.



Russell Crowe foi injustiçado quando perdeu o Oscar de Melhor Ator para Denzel Washington. Seu trabalho como John Nash é infinitamente superior não somente ao de Denzel mas principalmente à sua própria atuação vencedora do prêmio da Academia pelo épico "Gladiador". Repleta de nuances e sutilezas que só os grandes atores conseguem, sua atuação comove, intriga e angustia na medida certa, impedindo a compaixão fácil e fazendo com que cada cena seja especial pelo simples fato de ele estar presente nela. Sua química exemplar com Jeniffer Connelly, seja em cenas românticas (criadas para agradar às plateias mais convencionais) ou nas mais dramáticas eleva o filme a um patamar de excelência que provavelmente foi o que conquistou o público sedento por um drama adulto de qualidade. É de questionar apenas os motivos que levaram Connelly a vencer na categoria de coadjuvante, uma vez que sua personagem é quase tão protagonista quanto a de Crowe. Somado a sua trama de superação - que além de tudo é verdadeira, apesar da supressão de fatos importantes e da simplificação de outros - o romance entre Nash e Alicia também seduziou os eleitores do Oscar que lhe deram quatro importantes estatuetas (e deveriam ter dado no mínimo mais uma, a Crowe, que acabou prejudicado pela mania do Oscar de corrigir injustiças fazendo outras....).

Além dos trabalhos exemplares de Crowe e Connelly, porém, seria injusto deixar de citar a maior qualidade de "Uma mente brilhante": o roteiro irretocável de Akiva Goldsman. Apesar das licenças poéticas (que incorreram na fúria dos puristas), seu script é capaz de conquistar pela delicadeza dos diálogos e pela reviravolta espetacular que proporciona depois de sua primeira hora de projeção e além de tudo, funciona como drama médico, como romance e como thriller de espionagem, sem nunca atropelar o ritmo e as personagens, sejam elas protagonistas ou coadjuvantes - e nessa categoria encontra-se atores de primeira linha, como Christopher Plummer, Paul Bettany e um arrepiante Ed Harris, perfeito em sua tétrica caracterização como um misterioso agente da CIA.

Com todas essas qualidades, não é de estranhar que "Uma mente brilhante" tenha passado incólume pelas polêmicas a seu respeito. Afinal, verdadeiras ou não, as acusações feitas são contra a personalidade de seu protagonista e não interferem no produto cinematográfico, dirigido com precisão por Ron Howard, até então mais afeito a produções mais lineares e menos, com o perdão do trocadilho, brilhantes. É aqui, com a parceria de Russell Crowe e Akiva Goldsman que ele atinge seu ápice, em um filme forte e que, apesar de parecer esquemático, consegue surpreender e emocionar.

Wednesday, July 6, 2011

BELEZA AMERICANA

BELEZA AMERICANA (American beauty, 1999, DreamWorks SKG, 122min) Direção: Sam Mendes. Roteiro: Alan Ball. Fotografia: Conrad L. Hall. Montagem: Tariq Anwar, Christopher Greenbury. Música: Thomas Newman. Figurino: Julie Weiss. Direção de arte/cenários: Naomi Shohan/Jan K. Bergstrom. Produção: Bruce Cohen, Dan Jinks. Elenco: Kevin Spacey, Annette Bening, Thora Birch, Chris Cooper, Wes Bentley, Mena Suvari, Peter Gallagher, Allison Janney, Scott Bakula. Estreia: 01/10/99

8 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Sam Mendes), Ator (Kevin Spacey), Atriz (Annette Bening), Roteiro Original, Fotografia, Montagem, Trilha Sonora Original
Vencedor de 5 Oscar: Melhor Filme, Diretor (Sam Mendes), Ator (Kevin Spacey), Roteiro Original, Fotografia
Vencedor de 3 Golden Globes: Melhor Filme/Drama, Diretor (Sam Mendes), Roteiro

No final dos anos 90, desmascarar a aparente normalidade do “american way of life” estava sendo uma obsessão do cinema. Todd Solondz criou “Felicidade” e depois o inglês Sam Mendes deu a sua visão do distorcido núcleo familiar ianque em "Beleza americana", que logo que estreou caiu nas graças da crítica e surpreendentemente do público, que ficou extasiado com sua visão menos crua e mais lúdica, mas extremamente contundente e realista (ainda que revestida de uma plasticidade que a torna mais poética). Vencedor de cinco Oscar (filme, diretor, roteiro, ator e fotografia), “Beleza americana” mereceu todo o auê com que foi recebido. Investiga, através do olhar irônico e até carinhoso do roteirista Alan Ball, a transformação de uma típica família suburbana, à primeira vista perfeita, mas que, como manda a campanha publicitária, vista de perto não é assim tão normal. Caetano Veloso assinaria embaixo.

Kevin Spacey, em uma atuação irretocável que lhe rendeu um segundo e merecido Oscar, vive Lester Durnham, um homem cuja vida é dar pena. Executivo de uma empresa que não lhe dá a menor possibilidade de um futuro auspicioso, com uma vida sexual letárgica cujo único momento de prazer é a masturbação matinal debaixo do chuveiro e tendo como ideia de diversão um festival de filmes de James Bond na televisão, Lester tem o vislumbre de uma vida mais completa e feliz quando conhece Angela Hayes (Mena Suvari), a amiga gostosona da filha adolescente, a complicada e quase desleixada Jane (Thora Birch). Com os hormônios a mil, Lester resolve dar um jeito na vida: deixa o emprego, passa a fazer exercícios físicos e, em um último lampejo de regresso à juventude, volta a fumar maconha. Quem não gosta nada dessa nova vida do marido é Caroline (Annette Bening), sua obcecada esposa. Corretora imobiliária, Caroline tenta manter seu casamento de aparências, sua família como um porta-retrato feliz e seu visual impecável e caprichado. Sofrendo com a falta de ambição do marido, ela inicia um romance extra-conjugal com seu rival profissional (Peter Gallagher) e nem percebe o romance da filha com o jovem vizinho Ricky (Wes Bentley), que faz bicos como garçom e nas horas vagas ganha dinheiro traficando drogas às escondidas de seu pai, um rígido militar aposentado (vivido por um extraordinário Chris Cooper).


Uma das maiores qualidades do roteiro de Ball (que o produtor Steven Spielberg mandou filmar sem mexer em uma linha) é o fato de que suas personagens são absolutamente humanos, reais e palpáveis - uma característica dos textos de Ball, criador da magnífica série "A sete palmos". Surpreendentes em suas atitudes, elas nunca fazem o que se espera delas, o que leva o público a surpresas constantes no desenrolar criativo da trama, que leva a um desfecho inesquecível e clássico de nascença - afinal, como não se emocionar com um filme que acaba com os quatro rapazes de Liverpool entoando a bela "Because"??

Oriundo dos palcos ingleses - onde dirigiu Nicole Kidman, por exemplo - Sam Mendes nitidamente tem um senso estético apuradíssimo, capaz de, com a ajuda do veterano diretor de fotografia Conrad Hall, dirigir cenas de visual belíssimo, além de contar com a trilha sonora marcante de Thomas Newman e com diálogos cortantes, bem-humorados e melancólicos. Os diálogos, aliás, são a alma do filme, recitados por um elenco sem um elo fraco sequer. Se apenas Spacey - capaz de transmutar-se em questão de segundos de quarentão excitado a pai zeloso sem dizer uma única palavra - levou o Oscar foi porque o ano realmente estava muito forte (e Deus nos proteja de pensar que a primeira opção para o papel era Chevy Chase (??!!)). Annette Bening está sensacional como a patética e sem esperança de salvação Caroline, o até então subaproveitado Chris Cooper tem uma atuação assustadora e antológica - quem duvida que espere a reveladora cena na garagem de Lester - e os adolescentes Thora Birch, Wes Bentley e Mena Suvari dão aulas de como comportar-se à altura de seus experientes colegas de cena. Tudo isso, logicamente, envolto em uma acurada percepção da alma humana, com todos os seus deslizes e grandezas.

Irônico, perturbador e extremamente comovente, "Beleza americana" é um dos filmes obrigatórios do final do século XX e um dos essenciais da história do cinema.




Monday, May 30, 2011

O RESGATE DO SOLDADO RYAN

O RESGATE DO SOLDADO RYAN (Saving Private Ryan, 1998, Amblin Entertainment/DreamWorks Pictures, 169min) Direção: Steven Spielberg. Roteiro: Robert Rodat. Fotografia: Janusz Kaminski. Montagem: Michael Kahn. Música: John Williams. Figurino: Joanna Johnston. Direção de arte/cenários: Tom Sanders/Lisa Dean Kavanaugh. Produção: Ian Bryce, Mark Gordon, Gary Levinsohn, Steven Spielberg. Elenco: Tom Hanks, Edward Burns, Tom Sizemore, Matt Damon, Jeremy Davies, Vin Diesel, Giovanni Ribisi, Dennis Farina, Paul Giamatti, Ted Danson, Adam Goldberg. Estreia: 24/7/98

11 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Steven Spielberg), Ator (Tom Hanks), Roteiro Original, Fotografia, Montagem, Trilha Sonora Original/Drama, Direção de arte/cenários, Som, Efeitos Sonoros, Maquiagem
Vencedor de 5 Oscar: Diretor (Steven Spielberg), Fotografia, Montagem, Som, Efeitos Sonoros
Vencedor de 2 Golden Globes: Melhor Filme/Drama, Diretor (Steven Spielberg)

Depois de ter ganho seus esperados (e merecidíssimos!) Oscar por "A lista de Schindler", era esperado que Steven Spielberg entrasse naquele limbo que muitas vezes aprisiona os escolhidos da Academia. A desnecessária continuação de "Jurassic Park" e o sonolento "Amistad" também acenavam em direção a essa possibilidade. Mas eis que, surpreendendo a todos, o homem que foi chamado de "o Peter Pan do cinema" mostrou que sua maturidade artística ainda estava por vir. Novamente visitando a II Guerra Mundial, mas sob uma nova ótica,  Spielberg lançou "O resgate do soldado Ryan", um dos mais espetaculares filmes de guerra da história. Indicado a 11 Oscar e favorito ao prêmio máximo, o assustador retrato do conflito que matou milhares de pessoas pelo mundo bateu de frente com o bonitinho "Shakespeare apaixonado" e foi relegado apenas a quatro prêmios técnicos e a estatueta de melhor diretor. Ainda que o vencedor do ano seja simpático e inteligente, são as imagens fortes e dolorosas de "Ryan" que vão ficar marcadas na história do cinema.

E essas imagens fortes e dolorosas já atingem a plateia em seus primeiros momentos, contrariando a regra de deixar-se o clímax para o final. São vinte minutos de extrema violência mostrada sem poesia e retoques: um pelotão de soldados americanos desembarca na Normandia em de junho de 1945, no famigerado Dia D, e a câmera nervosa de Spielberg e do diretor de fotografia Janusz Kaminski jogam o público em um confronto onde sangue, suor, mar e areia se confundem. E é nessa sequência impecável que é apresentando o protagonista, o Capitão John Miller, vivido por um intenso e discreto Tom Hanks, merecidamente indicado ao Oscar de melhor ator. É a Miller que caberá a missão que dará origem à verdadeira trama do filme, escrita com precisão por Robert Rodat (também concorrente à estatueta): como uma espécie de jogada de relações públicas, o exército norte-americano resolve tirar do conflito o único sobrevivente de uma família cujos filhos foram todos vitimados na mesma campanha. Para isso, ordena a Miller que, juntamente com um grupo de soldados escolhidos a dedo, saia à procura do jovem James Francis Ryan (Matt Damon). Mesmo questionando a lógica da missão (arriscar a vida de oito homens para salvar apenas um), Miller tem integridade o bastante para cumprí-la. Sendo assim, une-se a o Sargento Mike Horrath (Tom Sizemore) e a outros recrutas em busca do rapaz.



Como normalmente acontece em filmes de guerra, o destino não é tão importante quanto o percurso. Buscando o paradeiro de Ryan, o Capitão Miller e seus subordinados testemunham os horrores da guerra (como se já não o tivessem sofrido na pele, anteriormente), experimentando toda a sua glória e suas mesquinharias, sua grandiosidade e sua covardia. É sintomático que os próprios soldados tenham personalidades paradoxais, o que incentiva o conflito entre eles mesmo que eles precisem desesperadamente de uma união, por mais frágil que ela possa parecer. Sendo assim estão reunidos o fervoroso católico Daniel Jackson (Barry Pepper) e o furioso judeu Stanley Mellish (Adam Goldberg), o beligerante Adrian Caparzo (Vin Diesel em seu primeiro papel de destaque) e o inexperiente Timothy Upham (Jeremy Davies), o médico Irwin Wade (Giovanni Ribisi) e o implicante nova-iorquino Richard Reiben (o diretor e roteirista Edward Burns, muito bem em cena). Unidos como pelotão e sozinhos em suas individualidades, eles apresentam à audiência um retrato fiel e assustador da guerra, deixando pouco espaço para o sentimentalismo típico do cineasta.

A fúria com que "O resgate do soldado Ryan" atinge o espectador é comparável com o enorme sucesso de bilheteria do filme de Spielberg. Apesar de sua violência explícita, o filme arrecadou mais de 200 milhões de dólares somente no mercado americano, tendo mais do que dobrado sua renda ao redor do mundo. Dirigido com um domínio invejável da técnica cinematográfica - sem que a preocupação com as personagens fosse deixada de lado - e dotado de uma força dramática arrebatadora, é um dos filmes indispensáveis dos anos 90 e quiçá o melhor de seu gênero na história do cinema. É, também, o último grande filme de seu diretor até a data. Seu Oscar de direção foi mais do que merecido: foi obrigatório.

Tuesday, April 19, 2011

AMISTAD

AMISTAD (Amistad, 1997, Dreamworks SKG, 155min) Direção: Steven Spielberg. Roteiro: David Franzoni. Fotografia: Janusz Kaminski. Montagem: Michael Kahn. Música: John Williams. Figurino: Ruth E. Carter. Direção de arte/cenários: Rick Carter/Rosemary Brandenburg. Produção executiva: Laurie MacDonald, Walter Parkes. Produção: Debbie Allen, Steven Spielberg, Colin Wilson. Elenco: Matthew McConaughey, Morgan Freeman, Djimon Hounson, Anthony Hopkins, Nigel Hawthorne, David Paymer, Pete Postletwhaite, Stellan Skarsgard, Anna Paquin, Paul Guilfoyle, Xander Berkeley, Arliss Howard. Estreia: 04/12/97

4 indicações ao Oscar: Ator Coadjuvante (Anthony Hopkins), Fotografia, Trilha Sonora Original/Drama, Figurino

Chega a ser inacreditável que o diretor de "Amistad" seja o mesmo Steven Spielberg que assinou filmes como "Os caçadores da Arca Perdida" e "ET, o extra-terrestre", filmes que, apesar de escapistas e estritamente comerciais, tinham a noção exata de ritmo. Arrastado, monotóno e em muitos momentos simplesmente desinteressante, o longa de Spielberg é uma prova cabal de que até mesmo os aparentemente infalíveis tem seus momentos equivocados.

Feito com a intenção de abocanhar uma penca de Oscar - objetivo que Spielberg nunca deixou de lado mesmo depois do sucesso de "A lista de Schindler" - "Amistad" decepcionou tanto aqueles que esperavam mais uma obra-prima do cineasta quanto os fãs de dramas épicos históricos, uma vez que não atinge o mesmo nível emocional de seus melhores filmes. Inspirado em uma história real - retratada no livro "Echo of lions", cuja autora Barbara Chase-Riboud moveu um processo contra os produtores - é um filme que tinha um enorme potencial, mas que ficou muito aquém de suas possibilidades. Culpa da opção de Spielberg em concentrar-se nas maquinações políticas da trama ao invés de seguir seu habitual caminho de comover o público.

A sequência inicial é poderosa e impressiona pelo cuidado visual (cortesia da belíssima fotografia de Janusz Kaminski e pela forte trilha sonora de John Williams): o ano é 1839 e o navio Amistad, indo de Cuba em direção aos EUA vê sua carga (escravos negros viajando para serem vendidos) iniciar uma violenta rebelião. Liderados por Cinque (Djimon Houson) - que deixou em sua terra natal uma história de crueldade e sofrimento contra sua família - os negros matam a maior parte da tripulação e exigem dos sobreviventes que os levem de volta para casa. Enganados, eles acabam aportando nos EUA, onde são presos acusados de assassinato. Sem falar uma palavra de inglês, eles vem seu caso ser assumido pelo advogado abolicionista Roger Sherman Baldwin (Matthew McConaughey). Aos poucos o caso ganha contornos outros - com vários países alegando a propriedade dos réus - e sofre uma reviravolta com a adesão do ex-presidente John Quincy Adams (Anthony Hopkins), também um fervoroso político anti-escravagista.



Tecnicamente "Amistad" é admirável como qualquer produto com a griffe de Spielberg. Da fotografia espetacular (que vai do escuro claustrofóbico às explosivas cores libertárias) à reconstituição de época detalhista, tudo é de encher os olhos. O elenco super estelar que desfila pela tela também chama a atenção pela diversidade: estão presentes desde veteranos consagrados como Anthony Hopkins (que concorreu ao Oscar por sua pequena participação) e Morgan Freeman até jovens promessas, como é o caso de Matthew McConaughey e de Djimon Houson (modelo sul-africano que ficou com o papel recusado por Denzel Washington e Cuba Gooding Jr. e que impressiona pela expressividade corporal). A trilha sonora de John Williams mais uma vez é adequada e delicada. Mas falta o essencial ao filme: coração.

É difícil de entender como Spielberg - que tem no currículo o sensível "A cor púrpura", que também toca na ferida do racismo - errou tanto a mão em "Amistad". Nem mesmo as cenas com mais potencial dramático (o passado de Cinque e a maneira cruel com que a tripulação tratava os escravos) conseguem emocionar a plateia, sedenta por boas cenas de impacto. Mesmo quando a plateia consegue ser arrebatada, a sensação é tão efêmera que não justifica duas horas e meia de duração. Isso sem falar em longas cenas em que as personagens discutem política americana do século XIX, que, mais do que interesse, desperta somente sono.

Em resumo, "Amistad" é um filme lindamente fotografado, com uma trama socialmente importante, realizado com todos os recursos milionários de Hollywood. Mas lhe falta o essencial: alma. E em um filme que fala sobre um tema tão caro quanto liberdade, isso é um pecado mortal.

Wednesday, April 6, 2011

O PACIFICADOR

O PACIFICADOR (The Peacemaker, 1997, Dreamworks SKG, 124min) Direção: Mimi Leder. Roteiro: Michael Schiffer, artigo de Leslie Cockburn, Andrew Cockburn. Fotografia: Dietrich Lohmann. Montagem: David Rosenbloom. Música: Hans Zimmer. Figurino: Shelley Komarov. Direção de arte/cenários: Leslie Dilley/Rosemary Brandenburg. Produção executiva: Michael Grillo, Laurie Macdonald. Produção: Branko Lustig, Walter Parkes. Elenco: Nicole Kidman, George Clooney, Armin Mueller-Stahl, Marcel Iures, Aleksandr Baluev, Goran Visnjic. Estreia: 26/9/97

Uma mulher dirigir um filme de ação é algo tão raro que, quando acontece, é visto com olhos atentos por todo mundo. No entanto, isso não aconteceu como deveria com "O pacificador", filme de estreia do estúdio DreamWorks SKG - de propriedade de Steven Spielberg, Jeffrey Katzenberg e David Geffen. Dirigido por Mimi Leder, que comandou vários episódios da série de TV "Plantão médico" - produzido por Spielberg - o filme estrelado por George Clooney e Nicole Kidman não fez o barulho esperado nas bilheterias americanas, apesar de suas qualidades. Diferentemente de outros filmes do gênero, que dão mais valor às cenas de explosões e tiroteios, o trabalho de Leder se concentra também na história e nas personagens, o que desacelera seu ritmo. Quem prefere um pouco de inteligência em vez de pura correria, no entanto, não tem do que reclamar. "O pacificador" é um filme de ação com cérebro.

Dois acontecimentos aparentemente sem conexão alguma dão partida à história: o assassinato de um diplomata iraniano e a trágica batida de dois trens em algum lugar da Rússia. O acidente causa a explosão de uma ogiva nuclear e logo a especialista Julia Kelly (Nicole Kidman) fica com a certeza de que tudo não passa de uma ação terrorista. Sua certeza é questionada pelo Tenente Coronel Thomas Devoe (George Clooney), que acredita que tudo é uma armação para esconder algo maior. Juntos, eles começam a investigar os rastros que o roubo de dez ogivas deixou para trás e descobrem que é tudo obra do iugoslavo Duan Gavri (Marcel Iure), que perdeu mulher e filha vítimas de um atirador de elite, em Sarajevo. Kelly e Devoe passam a dedicar-se, então, a impedir que ele detone uma bomba em uma conferência da ONU em Nova York.


Logicamente o público que prefere tiroteios sem sentido vai sentir falta de mais ação em "O pacificador", ainda que Mimi Leder dirija com segurança ímpar todas as sequências que exigem o máximo de adrenalina que o cinema americano pode oferecer. Ao contrário de produtos menos elaborados, porém, tudo aqui tem um motivo para acontecer, nenhuma cena é dispensável e os diálogos são tão importantes quanto os tiros. Ainda que não desenvolva as personagens psicologicamente - mesmo porque tal luxo não caberia na situação extrema pela qual todas estão passando - o roteiro se preocupa em não deixar que aconteça um romance entre os protagonistas (o que seria ridiculamente falso) e, melhor ainda, não forja nenhum tipo de heroísmo individual. Tudo que acontece em "O pacificador" soa real devido ao cuidado da diretora em jamais extrapolar na fantasia. E a escolha do elenco também foi acertada. Nicole Kidman, substituindo Annette Bening, tem o tipo ideal para a personagem, clássica e séria. E George Clooney - conhecido pela diretora através de "Plantão médico" - é o herói típico de filmes de ação, charmoso e dono de uma coragem à toda prova, em mais um papel que o elevou ao primeiro time de Hollywood.

Realizado de forma extremamente correta e competente, "O pacificador" pode até não empolgar a quem está mal-acostumado com a dieta de filmes sem conteúdo com que a indústria americana alimenta seu público. Mas é bastante superior - até mesmo em sua coragem em tocar em assuntos que ainda não eram tabu em Hollywood, como terrorismo - a qualquer subproduto que dispensa história e personagens em função de uma bilheteria mais gorda.