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Tuesday, April 19, 2011

AMISTAD

AMISTAD (Amistad, 1997, Dreamworks SKG, 155min) Direção: Steven Spielberg. Roteiro: David Franzoni. Fotografia: Janusz Kaminski. Montagem: Michael Kahn. Música: John Williams. Figurino: Ruth E. Carter. Direção de arte/cenários: Rick Carter/Rosemary Brandenburg. Produção executiva: Laurie MacDonald, Walter Parkes. Produção: Debbie Allen, Steven Spielberg, Colin Wilson. Elenco: Matthew McConaughey, Morgan Freeman, Djimon Hounson, Anthony Hopkins, Nigel Hawthorne, David Paymer, Pete Postletwhaite, Stellan Skarsgard, Anna Paquin, Paul Guilfoyle, Xander Berkeley, Arliss Howard. Estreia: 04/12/97

4 indicações ao Oscar: Ator Coadjuvante (Anthony Hopkins), Fotografia, Trilha Sonora Original/Drama, Figurino

Chega a ser inacreditável que o diretor de "Amistad" seja o mesmo Steven Spielberg que assinou filmes como "Os caçadores da Arca Perdida" e "ET, o extra-terrestre", filmes que, apesar de escapistas e estritamente comerciais, tinham a noção exata de ritmo. Arrastado, monotóno e em muitos momentos simplesmente desinteressante, o longa de Spielberg é uma prova cabal de que até mesmo os aparentemente infalíveis tem seus momentos equivocados.

Feito com a intenção de abocanhar uma penca de Oscar - objetivo que Spielberg nunca deixou de lado mesmo depois do sucesso de "A lista de Schindler" - "Amistad" decepcionou tanto aqueles que esperavam mais uma obra-prima do cineasta quanto os fãs de dramas épicos históricos, uma vez que não atinge o mesmo nível emocional de seus melhores filmes. Inspirado em uma história real - retratada no livro "Echo of lions", cuja autora Barbara Chase-Riboud moveu um processo contra os produtores - é um filme que tinha um enorme potencial, mas que ficou muito aquém de suas possibilidades. Culpa da opção de Spielberg em concentrar-se nas maquinações políticas da trama ao invés de seguir seu habitual caminho de comover o público.

A sequência inicial é poderosa e impressiona pelo cuidado visual (cortesia da belíssima fotografia de Janusz Kaminski e pela forte trilha sonora de John Williams): o ano é 1839 e o navio Amistad, indo de Cuba em direção aos EUA vê sua carga (escravos negros viajando para serem vendidos) iniciar uma violenta rebelião. Liderados por Cinque (Djimon Houson) - que deixou em sua terra natal uma história de crueldade e sofrimento contra sua família - os negros matam a maior parte da tripulação e exigem dos sobreviventes que os levem de volta para casa. Enganados, eles acabam aportando nos EUA, onde são presos acusados de assassinato. Sem falar uma palavra de inglês, eles vem seu caso ser assumido pelo advogado abolicionista Roger Sherman Baldwin (Matthew McConaughey). Aos poucos o caso ganha contornos outros - com vários países alegando a propriedade dos réus - e sofre uma reviravolta com a adesão do ex-presidente John Quincy Adams (Anthony Hopkins), também um fervoroso político anti-escravagista.



Tecnicamente "Amistad" é admirável como qualquer produto com a griffe de Spielberg. Da fotografia espetacular (que vai do escuro claustrofóbico às explosivas cores libertárias) à reconstituição de época detalhista, tudo é de encher os olhos. O elenco super estelar que desfila pela tela também chama a atenção pela diversidade: estão presentes desde veteranos consagrados como Anthony Hopkins (que concorreu ao Oscar por sua pequena participação) e Morgan Freeman até jovens promessas, como é o caso de Matthew McConaughey e de Djimon Houson (modelo sul-africano que ficou com o papel recusado por Denzel Washington e Cuba Gooding Jr. e que impressiona pela expressividade corporal). A trilha sonora de John Williams mais uma vez é adequada e delicada. Mas falta o essencial ao filme: coração.

É difícil de entender como Spielberg - que tem no currículo o sensível "A cor púrpura", que também toca na ferida do racismo - errou tanto a mão em "Amistad". Nem mesmo as cenas com mais potencial dramático (o passado de Cinque e a maneira cruel com que a tripulação tratava os escravos) conseguem emocionar a plateia, sedenta por boas cenas de impacto. Mesmo quando a plateia consegue ser arrebatada, a sensação é tão efêmera que não justifica duas horas e meia de duração. Isso sem falar em longas cenas em que as personagens discutem política americana do século XIX, que, mais do que interesse, desperta somente sono.

Em resumo, "Amistad" é um filme lindamente fotografado, com uma trama socialmente importante, realizado com todos os recursos milionários de Hollywood. Mas lhe falta o essencial: alma. E em um filme que fala sobre um tema tão caro quanto liberdade, isso é um pecado mortal.

Saturday, March 12, 2011

ROMEU + JULIETA

ROMEU + JULIETA (William Shakespeare's Romeo and Juliet, 1996, 20th Century Fox, 120min) Direção: Baz Luhrmann. Roteiro: Baz Luhrmann, Craig Pearce, peça teatral de William Shakespeare. Fotografia: Donald McAlpine. Montagem: Jill Bilcock. Música: Nellee Hooper. Figurino: Kym Barrett. Direção de arte/cenários: Catherine Martin/Brigitte Broch. Produção: Baz Luhrmann, Gabriella Martinelli. Elenco: Leonardo DiCaprio, Claire Danes, John Leguizamo, Paul Rudd, Pete Postletwhaite, Paul Sorvino, Brian Dennehy, Diane Venora, Christina Pickles, Harold Perrineau Jr., Vondie Curtis-Hall, Miriam Margoyles, Jamie Kennedy, Jesse Bradford. Estreia: 01/11/96

Indicado ao Oscar de Direção de Arte/Cenários
Festival de Berlim - Melhor Diretor (Baz Luhrmann), Melhor Ator (Leonardo DiCaprio) 

A primeira cena já dá uma pista sobre o que vem pela frente: em vez de empolados arautos em roupas de época, uma apresentadora de telejornal anuncia o que a plateia verá nas próximas duas horas. Com uma montagem frenética e ruidosa, Baz Luhrmann desconstrói o preconceito contra a tradição e entrega sua versão lisérgica, sexy e violenta de uma das mais famosas histórias de amor da história do teatro. "Romeu + Julieta" é mais do que uma refilmagem da mais clássica obra de Shakespeare: é a reinvenção em formato MTV de uma trama universal que vem emocionando gerações há muitos séculos. E como não poderia deixar de ser, a ousadia do cineasta australiano encontrou tanto admiradores apaixonados quanto detratores ferrenhos.

Não é de admirar que os puristas tenham se chocado com a coragem de Luhrmann (diretor do divertidamente brega "Vem dançar comigo"): apesar de manter o texto de Shakespeare intacto, ele substituiu espadas por armas de grosso calibre, transformou Mercúcio em uma drag-queen negra, apresenta um padre Lourenço tatuado e, no primeiro encontro do casal de protagonistas, o herói (vivido por um Leonardo DiCaprio em vias de tornar-se coqueluche mundial graças à "Titanic") está sob o efeito de ecstasy. Somadas a uma edição alucinante, um desenho de som que atinge os mais altos decibéis e uma direção de arte que eleva o kitsch a um status de arte (algo que Luhrmann já havia feito antes, e atingiria seu ápice em "Moulin Rouge" cinco anos depois), essas "transgressões" do cineasta australiano fizeram de "Romeu + Julieta" um dos filmes mais comentados do início da segunda metade da década de 90.

Para quem não sabe do que se trata - ou seja, quem não esteve no planeta Terra nos últimos quatrocentos anos - "Romeu + Julieta" (assim mesmo, com um sinal de adição ao invés do tradicional '&') conta a trágica história de amor proibida entre Romeu Montéquio (Leonardo DiCaprio) e Julieta Capuleto (a ótima Claire Danes). Herdeiros únicos de duas famílias cuja inimizade já vem de longa data - e que se transmite aos agredados dos clãs - eles se conhecem e se apaixonam durante uma festa à fantasia na Mansão Capuleto. Cientes dos problemas que seu romance irá enfrentar, o jovem casal conta com a ajuda do Frei Lourenço (Pete Postletwhaite), que acredita que o nascente amor poderá finalmente trazer paz à cidade de Verona (aqui transposta da Itália para uma praia ao estilo Miami). Mas as coisas saem do controle quando um primo de Julieta, Teobaldo (John Leguizamo) mata Mercúcio (Harold Perrineau Jr., da série "Lost"), melhor amigo de Romeu, o que precipitará uma tragédia de grandes proporções.


Quem espera ver na versão de Baz Luhrmann a delicadeza lírica da idealizada por Franco Zefirelli em 1968 certamente levará um susto. Na concepção anos 90 da história do bardo não há espaço para tempos mortos e até mesmo os belíssimos diálogos românticos entre os protagonistas são declamados de uma forma que soa nova, moderna e jamais vista. A famosa cena do balcão, por exemplo, tem lugar na piscina da casa de Julieta, filmada com precisão por Lurhmann e seu diretor de fotografia Donald McAlpine, aqui realizando um trabalho excepcional que explora a luz natural com sensibilidade ímpar: o auge do amor entre Romeu e Julieta é colorido, romântico, com belos crepúsculos, mas quando a desgraça se aproxima é a chuva agressiva e a noite mais negra que tomam seu lugar. E na dolorosa cena final é impressionante a soma perfeita entre o cenário ultra-colorido, a fotografia sóbria, a trilha sonora delicada de Neellee Hooper e as interpretações perfeitas do casal central. A química entre DiCaprio e Claire Danes (saindo da série de TV "Minha vida de cão") é tão sensacional que dá pra perdoar facilmente os momentos iniciais do filme, tão rápidos e barulhentos que talvez incomodem o público mais tradicional - e vale lembrar que Natalie Portman quase ficou com o papel de Julieta, só sendo substituída por Danes porque é baixinha demais perto de seu galã, o que, segundo a produção, poderia soar como pedofilia...

Mesmo com seus pequenos defeitos - mais culpa do estilo exagerado de seu diretor do que por falta de talento ou ambição - "Romeu + Julieta" cumpre tudo o que promete: é comovente, é moderno, tem uma trilha sonora espetacular - o filme se encerra com a magnífica "Exit music (for a film), do grupo inglês Radiohead - e preparou Leonardo DiCaprio para o megaestrelato que viria muito a seguir. Um drama romântico indispensável"

Wednesday, February 9, 2011

OS SUSPEITOS

OS SUSPEITOS (The usual suspects, 1995, Polygram Filmed Entertainment, 106min) Direção: Bryan Singer. Roteiro: Christopher McQuarrie. Fotografia: Thomas Newton Sigel. Montagem e música: John Ottman. Figurino: Louise Mingenbach. Direção de arte/cenários: Howard Cummings/Sara Andrews. Produção executiva: Hans Brockmann, François Duplat, Art Horan, Robert Jones. Produção: Michael McDonnell, Bryan Singer. Elenco: Gabriel Byrne, Kevin Spacey, Stephen Baldwin, Kevin Pollack, Chazz Palminteri, Benicio Del Toro, Pete Postletwhaite, Suzy Amis, Dan Hedaya, Giancarlo Esposito. Estreia: 16/8/95

Vencedor de 2 Oscar: Ator Coadjuvante (Kevin Spacey), Roteiro Original

"O maior truque do diabo foi convencer o mundo de que ele não existe". A máxima do poeta francês Charles Baudelaire nunca foi usada com tanta propriedade e conveniência quanto em "Os suspeitos", filmaço de 1995 que levou os merecidos Oscar de roteiro original e ator coadjuvante (um Kevin Spacey absolutamente impecável) e colocou seu jovem diretor Bryan Singer na lista dos cineastas mais promissores da década - ele ainda faria o sufocante "O aprendiz" antes de aderir de vez ao mainstream com os dois primeiros capítulos da série "X-Men". Inteligente, dono de um clima de suspense irresistível e interpretado por um elenco nunca aquém de fascinante, "Os suspeitos" foi um cartão de visitas e tanto para um diretor que assinava recém seu segundo trabalho.

É impossível negar que o brilhante roteiro de Christopher McQuarrie seja talvez o maior responsável pelo burburinho todo em relação ao filme, que, assim como "Traídos pelo desejo" havia feito dois anos antes, exigia uma espécie de pacto de silêncio em relação a seu final inesperado. Contada de forma criativa, a busca pela identidade do famigerado criminoso húngaro Keyser Soze - o demônio em pessoa segundo uma testemunha ocular de seus feitos violentos - pega a plateia pelo cérebro e não a larga mais. No final de seus 106 minutos de projeção, fica impraticável não admirar a engenhosidade de uma trama que, mais do que surpreender, conquista pela absoluta simplicidade. Sim, todas as pistas estão aos olhos do público, que, intrigado, não resiste a uma segunda espiada. E se surpreende novamente.

Tudo começa quando uma chacina no porto de Los Angeles deixa apenas dois sobreviventes. Um deles está com a maior parte do corpo queimada e não fala inglês. O outro é Verbal Kint (Kevin Spacey), um bandido pé-de-chinelo aleijado e falante como seu apelido evidencia. Interrogado pelo detetive Dave Kujan (Chazz Palminteri), responsável pela investigação da tragédia, Kint conta como foi parar no cais, iniciando sua história seis semanas antes, quando conheceu quatro homens em uma ação policial. Dean Keaton (Gabriel Byrne), Fred Fenster (Benicio Del Toro), Todd Hockney (Kevin Pollak), Michael McManus (Stephen Baldwin) e ele foram reunidos em uma delegacia, uniram-se para dar um golpe na polícia e depois descobriram que sua união fora planejada por Keyser Soze, um mafioso húngaro a quem todos deviam alguma coisa. Chantageados a cumprirem uma missão para o misterioso chefe, eles acabam vítimas de uma emboscada e cabe a Kujan desenredar o nó da história contada em detalhes por Kint.


É preciso assistir a "Os suspeitos" com olhos muito atentos. Cada cena, cada detalhe, cada linha de diálogo ajuda a montar o quebra-cabeças montado pelo roteiro, que vai e vem cronologicamente - influência de "Pulp fiction"? - e ainda consegue manter seu clima de absoluto suspense até os minutos finais. A segunda metade do filme - quando a audiência toma contato com o passado trágico de Soze - é tão sufocante, tão empolgante e tão elétrica que é não é difícil entender porque ele está em uma invejável 25ª colocação entre os 250 melhores filmes do site IMDB. A edição de John Ottman - também autor da climática trilha sonora - é ágil, complexa e jamais se perde em seus descaminhos e, mais do que tudo, o elenco fantástico escalado por Singer dá conta do recado mais do que lindamente.

Por incrível que pareça, o elenco de "Os suspeitos" consegue ser homogeneamente brilhante. Mesmo unindo nomes que seriam posteriormente consagrados - como Benicio Del Toro - com galãs buscando o respeito artístico - Stephen Baldwin - não há desníveis no casting do filme. O veterano Gabriel Byrne assume o papel do mais perseguido dos criminosos, mas é discreto o bastante para não tentar ofuscar seus colegas de cena - e entre os coadjuvantes estão dois indicados ao Oscar por papéis outros, Pete Postletwhaite e Chazz Palminteri. E talvez justamente por esse alto nível de atuações é que fica ainda mais patente o trabalho excepcional e acima de qualquer crítica de Kevin Spacey no crucial papel de Verbal Kint.

Coroando um ano que iniciaria sua consagração como um dos melhores atores americanos de sua geração - ele ainda estaria no elenco do inesquecível "Seven" - Spacey levou o Oscar de ator coadjuvante por um trabalho irretocável. Compondo uma personagem repleta de nuances físicas e emocionais, Spacey rouba o filme todo para si, mesmo que pareça não fazer muita força para isso - e talvez o segredo esteja exatamente aí. Ele é um ator tão fabuloso que sua simples presença em cena já convence a plateia de qualquer coisa, o que é essencial para sua personagem, que revela, aos poucos, toda a teia de mentiras, pistas falsas e armações espalhadas pelo caminho. É Verbal Kint - e consequentemente Kevin Spacey - que dá sentido e unidade a "Os suspeitos".

Hoje em dia é pouco provável que ainda haja pessoas no mundo que não conheçam a identidade de Kayser Soze. Mas mesmo de posse dessa informação desde os créditos iniciais de "Os suspeitos" é impossível não se deixar enredar pela genial obra de Singer, que fica melhor a cada revisão.

Saturday, December 18, 2010

EM NOME DO PAI

EM NOME DO PAI (In the name of the father, 1993, Universal Pictures, 133min) Direção: Jim Sheridan. Roteiro: Jim Sheridan, Terry George, livro "Proved innocent", de Gerry Conlon. Fotografia: Peter Biziou. Montagem: Gerry Hambling. Música: Trevor Jones. Figurino: Joan Bergin. Direção de arte/cenários: Caroline Amies/Rick Butler. Produção executiva: Gabriel Byrne. Produção: Jim Sheridan. Elenco: Daniel Day-Lewis, Pete Postletwhaite, Emma Thompson, Anthony Brophy, Corin Redgrave. Orçamento: U$ 13 milhões. Bilheteria doméstica: U$ 25.096.862. Estreia: 29/12/93

7 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Jim Sheridan), Ator (Daniel Day-Lewis), Ator Coadjuvante (Pete Postletwhaite), Atriz Coadjuvante (Emma Thompson), Roteiro Adaptado, Montagem
Vencedor do Urso de Ouro do Festival de Berlim: Melhor Diretor (Jim Sheridan)

Para fins dramáticos, muitas vezes histórias reais são vítimas de alterações das mais variadas em sua transposição para o cinema. Provavelmente "Em nome do pai", filmaço do diretor irlandês Jim Sheridan poderia servir como um dos exemplos máximos disso que é carinhosamente chamado de "licença poética". As diferenças entre os fatos verídicos e os mostrados no filme são tão radicais que nem mesmo seu produtor executivo, o ator Gabriel Byrne, concordou com a visão de Sheridan e afastou-se do projeto. A despeito das discrepâncias entre o real e o filmado, porém, "Em nome do pai" é o melhor trabalho do cineasta e a atuação mais arrasadora de Day-Lewis.

O filme já começa mostrando a que veio quando um pub londrino vai pelos ares e a bela canção-tema (cantada por Bono, do U2) invade os créditos iniciais. Quando os créditos acabam o público fica sabendo  - através de uma fita gravada à advogada Gareth Pierce (Emma Thompson)  - a triste e quase inacreditável história de Gerry Conlon (Day-Lewis), um jovem irlandês condenado à prisão perpétua, acusado de ter planejado o atentado à bomba mostrado na cena inicial. Além de ser inocente - na noite da tragédia ele estava dormindo em um parque ao lado do melhor amigo - Gerry vê uma injustiça ainda maior ser cometida: não só ele e seus amigos são presos, mas também sua tia (acusada de fabricar bombas), seus primos pequenos e seu próprio pai, Giuseppe (Pete Postletwhaite), um homem religioso e correto com quem ele não tem uma relação das mais carinhosas. Forçados a dividir uma cela, pai e filho finalmente começam a criar sentimentos de admiração e amor. Quando Gareth entra em suas vidas - a pedido de um Giuseppe velho e doente - as irregularidades do julgamento começam a aparecer e eles passam a ter esperanças de ver sua sentença anulada.


A maior gritaria a respeito de "Em nome do pai" diz respeito à invenção do roteiro de Sheridan e Terry George - que seria o cineasta de "Hotel Ruanda", de 2004 - de fazer com que Gerry e Giuseppe dividam a mesma cela, fato que jamais ocorreu na história verdadeira. Realmente não é admirar a ira (desculpem o trocadilho infame) dos puristas, mas é impossível negar que, do ponto de vista dramatúrgico, a sacada do roteiro foi de mestre: além de contar uma história forte e revoltante de injustiça jurídica e social (e aí inclui-se preconceito contra hippies e irlandeses em geral), Sheridan também brinda o público com uma trama de alcance emocional de âmbito mais pessoal, que ressoa junto a qualquer espectador mais sensível. Para isso, o cineasta teve a sorte de contar com um elenco de sonhos.


Todos os três atores centrais do filme foram indicados ao Oscar e se premiados tivessem sido, não teria havido injustiça. Então praticamente desconhecido do grande público, Pete Postletwhaite teve aqui o papel mais marcante de sua carreira, criando um Giuseppe estóico e dono de uma fé inabalável. Emma Thompson, ainda que só entre de verdade no filme nos últimos trinta minutos, mostra porque é uma das atrizes britânicas mais competentes de sua geração (e que merece uma ressurreição artística urgente). Mas é Daniel Day-Lewis o corpo e a alma de "Em nome do pai".

Mesmo os detratores do ator são obrigados a tirar o chapéu para seu desempenho impecável. Day-Lewis vive (literalmente) Gerry Conlon, desde sua juventude irresponsável até seus dias de maturidade emocional e racional - passando por uma cena de interrogatório das mais tensas da história. Sem tentar apelar para a compaixão do público, uma vez que a história já é suficientemente revoltante, ele conquista pela inteligência de sua atuação, uma das mais consistentes da década de 90. Day-Lewis pega o público pela mão e o leva a testemunhar seu vasto leque de nuances: debochado, rebelde, revoltado, triste, corajoso. E o faz com a segurança de um grande ator.

Ficar indignado com a história contada em "Em nome do pai" é fácil - e a fotografia de Peter Biziou, a montagem de Gerry Hambling e a música de Trevor Jones apenas colaboram para isso. Difícil é esquecer a monstruosa interpretação de Day-Lewis e a força de sua história.

Thursday, November 18, 2010

ALIEN 3

ALIEN 3 (Alien 3, 1992, 20th Century Fox, 114min) Direção: David Fincher. Roteiro: David Giler, Walter Hill, Larry Ferguson, história de Vincent Ward. Fotografia: Alex Thomson. Montagem: Terry Rawlings. Música: Elliot Goldenthal. Figurino: David Perry, Bob Ringwood. Direção de arte/cenários: Norman Reynolds/Belinda Edwards. Produção executiva: Ezra Swerdlow. Produção: Gordon Carroll, David Giler, Walter Hill. Elenco: Sigourney Weaver, Charles S. Dutton, Charles Dance, Paul McGann, Lance Henriksen, Pete Postletwhaite. Estreia: 22/5/92

Indicado ao Oscar de Efeitos Visuais

Depois que James Cameron continou o tenso "Alien, o oitavo passageiro" com o espetaculoso e adrenalínico "Aliens, o resgate", era bastante esperado o retorno da Tenente Ripley em sua tentativa de exterminar o alienígena que aniquilou sua equipe inteira nos dois primeiros filmes. Depois de anos de negociações - em que estrela da série, Sigourney Weaver hesitava em voltar à personagem - finalmente o terceiro capítulo chegou às telas, dirigido por David Fincher, um novato que tinha no currículo alguns dos melhores videoclipes de Madonna e George Michael, por exemplo. Ao optar pelo caminho claustrofóbico do primeiro em detrimento da ação desenfreada do segundo, Fincher arrumou detratores furiosos. Depois de brigas homéricas com os produtores, o cineasta não supervisionou a edição final e "Alien 3" chegou às telas quase órfão. O resultado é visível: apesar de muitas boas ideias, a terceira parte da saga de Ripley não empolgou nem o público nem a crítica. Mas não é tão ruim quanto se falou à época de seu lançamento. 

A história dessa nova aventura começa logo após o final do segundo filme. Sem saber que não está a salvo da ameaça alienígena dos capítulos anteriores, Ripley acorda em Fiorina 161, um planeta-prisão, onde ficam encarcerados prisioneiros sexualmente agressivos e violentos. Informada por Clemens (Charles Dance), o médico local, de que toda sua tripulação morreu, ela imediatamente percebe que tudo está para acontecer novamente. Única mulher em meio a homens carregados de testosterona, ela precisa convencê-los do perigo que correm, proteger-se deles e lutar, mais uma vez, para matar seu inimigo. Dessa vez, no entanto, ela não tem nenhuma arma.


Com a cabeça raspada - o presídio está passando por uma epidemia de piolhos - Sigourney Weaver segura, novamente, toda a responsabilidade de carregar o filme nas costas. Ao contrário das ocasiões anteriores, porém, dessa vez Ripley tem mais cenas dramáticas do que de ação, consequência da opção de David Fincher em privilegiar o aspecto mais tenso da trama. Até mesmo um arremedo de romance surge entre Ripley e Clemens, ousadia que pegou os fãs de surpresa - ainda que tudo seja extremamente discreto. E discreto também é o ritmo do filme: demora quase uma hora para que a ação realmente comece e o sangue jorre em Fiorina 161. Na verdade, a lentidão é parte da personalidade do filme, que prefere estabelecer sua história antes da violência. Pouca gente compreendeu isso e se recusou a perceber suas qualidades.



Sim, apesar da gritaria contra si - e da saída de David Fincher do projeto em seu estágio de finalização - "Alien 3" tem qualidades. A ousadia talvez seja a maior delas. Ao praticamente lutar por suas ideias e com isso renegar a receita que estava fazendo sucesso há quinze anos, David Fincher começou uma carreira marcada pela personalidade. Visualmente impecável - a fotografia escura e pesada unida à agressividade estética das personagens - o filme de Fincher transmite a exata sensação de claustrofobia pretendida e, se não busca atingir seu público com efeitos visuais exagerados, tenta (às vezes com sucesso, outras nem tanto) assustar sem apelar para o fácil e o corriqueiro. Talvez por isso tenha afastado a audiência fiel das primeiras partes.


Tudo bem que "Alien 3" não passa a sensação de terror do primeiro nem empolga em termos de aventura do segundo. Tudo bem também que seu terço final não acrescenta muito à saga - apesar de antes de chegar a ele algumas cenas sejam sensacionais. E tudo bem que não ver Ripley empunhando armas é um tanto frustrante. Mas, mesmo que seja rejeitado por David Fincher, é um exemplar bastante - BASTANTE! - decente da série. Digam o que quiserem, "Alien 3" me agrada.