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Thursday, December 1, 2011

MINORITY REPORT, A NOVA LEI

MINORITY REPORT, A NOVA LEI (Minority report, 2002, 20th Century Fox/Dreamworks SKG, 145min) Direção: Steven Spielberg. Roteiro: Scott Frank, Jon Cohen, conto de Philip K. Dick. Fotografia: Janusz Kaminski. Montagem: Michael Kahn. Música: John Williams. Figurino: Deborah L. Scott. Direção de arte/cenários: Alex McDowell/Anne Kuljian. Produção executiva: Gary Goldman, Ronald Shusett. Produção: Bonnie Curtis, Gerald R. Molen, Walter F. Parkes. Elenco: Tom Cruise, Colin Farrell, Max Von Sydow, Samantha Morton, Lois Smith, Tim Blake Nelson, Peter Stormare. Estreia: 17/6/02

Indicado ao Oscar de Edição de Som

É o ano de 2054, e o índice de criminalidade da cidade de Washington despencou vertiginosamente. O responsável por esse milagre é um projeto chamado "Pré-crime", que permite à força policial antecipar-se aos homicídios premeditados e evitar os crimes graças às premonições de três poderosos videntes, mantidos em constante cuidado pelo departamento de polícia. O chefe da equipe "Pré-crime" é o detetive John Anderton (Tom Cruise), um homem assombrado pelo desaparecimento do filho pequeno anos antes e que encontra no vício em drogas uma forma de escapar da depressão. Às vésperas de uma votação popular que irá consagrar definitivamente o projeto e torná-lo nacional, Anderton - um policial de extrema competência e ética - se vê envolvido em um apavorante pesadelo kafkiano: em menos de 36 horas ele será o responsável pelo assassinato de um homem cuja existência ele nem mesmo tem conhecimento. Desesperado para provar sua inocência (em um crime ainda não cometido), ele sequestra Agatha (Samantha Morton), a mais dotada das videntes e parte em busca da verdade. Atrás dele está principalmente Danny Witwer (Colin Farrell), que quer encontrar falhas no sistema.

Baseado em um conto do escritor Philip K. Dick - cuja mente fértil deu ao cinema as histórias de "Blade Runner" e "O vingador do futuro" - "Minority report, a nova lei" marca o reencontro de Steven Spielberg com a ficção científica, gênero do qual estava afastado desde seu megasucesso "ET", de 1982 - isso se "Jurassic Park" não for considerado como tal. Nos vinte anos que separam os dois filmes, a tecnologia do cinema alterou-se drasticamente - boa parte devido aos filmes do próprio cineasta - e Spielberg tornou-se um diretor respeitado, vencedor de 2 Oscar. Portanto, é lógico que exista uma diferença abissal entre a ingenuidade oitentista da clássica história da amizade entre o menino Elliot e seu extra-terrestre de estimação e a distópica visão de mundo do filme estrelado por Cruise. Realizado a um custo altíssimo - mais de cem milhões de dólares - "Minority report" é uma ficção científica noir, ao estilo de "Blade runner", mas sem espaço para a filosofia melancólica do filme de Ridley Scott.



Se dá para comparar "Minority report" com algum outro filme baseado em Dick, este é "O vingador do futuro", estrelado por Arnold Schwarzenegger em 1990, mas mesmo assim o trabalho de Spielberg ganha pontos em não se deixar contaminar pelo certo ar cafona da produção dirigida pelo holandês Paul Verhoeven. Seus efeitos especiais são mais discretos, dando espaço bem mais à história complexa (bastante modificada do conto original, diga-se de passagem) do que a mirabolantes pirotecnias visuais, que estão presentes mas em um nível muito mais sutil. A fotografia espetacular do premiado Janusz Kaminski é estourada, dando à imagem um aspecto feio e descuidado que combina à perfeição com o objetivo do cineasta de passar ao público uma sensação de angústia. E angústia é o que não falta: durante suas mais de duas horas e meia de duração, "Minority report" não dá tréguas ao espectador, levando-o como testemunha do calvário de seu protagonista em direção à verdade. O roteiro cria transplantes de olhos, aranhas que dão choque, propagandas personalizadas, caixas de cereais animadas e tudo que um escritor criativo pode imaginar, mas não se deixa nunca fugir do mais importante: a história empolgante e surpreendente.

Muito mais inteligente do que a maioria dos filmes de ação com pretensões comerciais que aportam nos cinemas americanos na temporada de verão - bem na época em que foi lançado - "Minority report" tem a seu favor também o carisma de Tom Cruise, ainda no auge de seu sucesso. Ainda que não explore como poderia as possibilidades dramáticas de sua complexa personagem, Cruise é competente o bastante para conquistar a simpatia do público, fator essencial para o êxito do filme, mesmo porque seu rival em cena é o irlandês Colin Farrel - que, em 2002 era considerado a grande promessa do início do século. É Cruise quem sustenta toda a mirabolante trama - que envolve até mesmo o veterano Max Von Sydow - e mantém a atenção da plateia suspensa até os minutos finais. O equilíbrio exato entre cenas da mais alta ação (inclusive com uma sequência que Hitchcock declarou certa vez que sonhava fazer, em uma fábrica de automóveis) com o misterioso homicídio a ser perpetrado por John Anderton é que faz com que o filme seja mais do que um simples entretenimento passageiro.

E seria injusto elogiar "Minority report" sem citar Samantha Morton. Na pele de Agatha, a talentosa vidente que desencadeia todo o drama (e cujo nome é uma homenagem à escritora Agatha Christie), a jovem atriz nem precisa falar muito para transmitir toda a vasta gama de emoções que permeia sua personalidade. Vinda de uma indicação ao Oscar de coadjuvante (pelo ótimo "Poucas e boas", de Woody Allen), Morton consegue roubar a cena e ser tão memorável quanto os inventivos efeitos visuais e a rocambolesca trama central.

Monday, June 27, 2011

MATRIX

MATRIX (The Matrix, 1999, Warner Bros, 136min) Direção e roteiro: Andy Wachowski, Lana Wachowski. Fotografia: Bill Pope. Montagem: Zach Staenberg. Música: Don Davis. Figurino: Kym Barrett. Direção de arte/cenários: Owen Paterson/Lisa Brennan, Tim Ferrier, Marta McElroy. Produção executiva: Bruce Berman, Andrew Mason, Barrie M. Osborne, Erwin Stoff, Andy Wachowski, Larry Wachowski. Produção: Joel Silver. Elenco: Keanu Reeves, Laurence Fishburne, Hugo Weaving, Joe Pantoliano, Carrie-Anne Moss, Gloria Foster, Marcus Chong, Julian Arahanga. Estreia: 31/3/99

Vencedor de 4 Oscar: Montagem, Som, Efeitos Sonoros, Efeitos Visuais

Quando “Matrix” estreou, em março de 1999 nada se sabia sobre seus diretores (os misteriosos Irmãos Wachowski) nem tampouco havia muita clareza sobre o assunto do filme em si. Depois de sua estreia – e de uma renda de mais de 170 milhões só nos cinemas americanos – a obra estrelada por Keanu Reeves virou mania, marco inicial de uma trilogia e uma das ficções científicas mais bem-sucedidas da história do cinema. Isso sem mencionar o status de cult que adquiriu, ao misturar em seu roteiro extraordinárias cenas de ação com efeitos visuais de cair o queixo (merecidamente premiados com o Oscar da categoria) e uma história com toques de filosofia, destino e críticas não muito veladas à sociedade de sua época e ao conformismo em
geral.
Keanu Reeves, no papel da sua vida, vive Neo, um trabalhador burocrático durante o dia e um hacker talentosíssimo à noite, que é procurado por um misterioso grupo liderado pelo sinistro Morpheus (Laurence Fishburne, excelente) para assumir seu lugar como o líder escolhido para lutar contra a Matrix, que mantém o povo como escravo, vivendo das aparências de um passado menos opressor e depressivo. Para isso, Neo precisa lutar contra um exército comandado pelo temível Agente Smith (Hugo Weaving) e conta com a ajuda da bela Trinity (Carrie-Anne Moss), por quem se apaixona.
       
A trama de “Matrix” é complicada, mesmo, especialmente contada sem as imagens espetaculares criadas pelos cineastas, que contam com a ajuda da fotografia estilosa de Bill Pope, o figurino de Kym Barrett (que virou moda) e os efeitos visuais,  surpreendentes e copiados à exaustão após seu sucesso. No entanto, depois que o filme acaba, deixando o público salivando por mais produtos com sua qualidade e inteligência, o que fica na cabeça da plateia não são as ruidosas cenas de destruição nem o visual que enche os olhos. O que diferencia “Matrix” das dezenas de congêneres é a profundidade que seus criadores foram capazes de inserir em meio aos tiroteios e às piruetas que abundam em suas duas horas de duração.

Muito se discutiu à sua época a trama bem construída pelos irmãos roteiristas - que incluía uma complexa teoria de que o mundo em que vivemos é apenas uma ilusão criada por um governo ditatorial e violento. Ao contrário do que dizia José Wilker - que como crítico de cinema é um ator apenas razoável - o filme não conta a história de um homem que aprende a lutar karatê rapidamente. É um filme de inteligência rara e de qualidade técnica invejável, que deu ao normalmente fraco Keanu Reeves a chance (mais uma) de tornar-se um ícone do cinema de ação. Ao lado de Laurence Fishburne e Carrie-Anne Moss, Reeves estampou as principais publicações do gênero e voltou a ser (cinco anos após "Velocidade máxima") uma aposta quente para os executivos dos estúdios hollywoodianos. Como ator não é dos melhores, mas funciona muito bem em filmes como "Matrix".

"Matrix" originou ainda mais dois filmes que deram continuidade à sua história e que, apesar do sucesso de bilheteria não atingiram a qualidade e originalidade de seu primeiro capítulo. Mais uma vez a vontade de ganhar dinheiro foi mais forte do que a de manter a integridade artística. Uma pena"

Thursday, May 26, 2011

ARQUIVO X, O FILME

ARQUIVO X, O FILME (The X Files - Fight the future, 1998, 20th Century Fox, 121min) Direção: Rob Bowman. Roteiro: Chris Carter, história de Chris Carter e Frank Spotnitz. Fotografia: Ward Russell. Montagem: Stephen Mark. Música: Mark Snow. Figurino: Marlene Stewart. Direção de arte/cenários: Christopher Nowak/Jackie Carr. Produção executiva: Lata Ryan. Produção: Chris Carter, Daniel Sackheim. Elenco: David Duchovny, Gillian Andersen, John Neville, Martin Landau, William B. Davis, Armin Mueller-Stahl, Mitch Pilleggi, Blythe Danner, Terry O'Quinn, Lucas Black, Glenne Headly. Estreia: 19/6/98

Em 1993, antes que os seriados televisivos alcançassem o status de entretenimento de qualidade, um programa a respeito de conspirações governamentais, abduções alienígenas, monstros misteriosos e fenômenos inexplicáveis virou febre entre os espectadores. Criado por Chris Carter, "Arquivo X" não demorou muito a cair no gosto do público e da crítica, amealhando prêmios, prestígio e muito sucesso de audiência. Uma versão para o cinema, então, tornou-se questão de tempo e, depois do final da quinta temporada, na metade de 1998, finalmente "Arquivo X, o filme" chegou às telas americanas, cercado de grande expectativa. Contando com um roteiro escrito pelo próprio criador da série, a aventura dos agentes do FBI Fox Mulder (David Duchovny) e Dana Scully (Gillian Andersen) não decepcionou nem o estúdio - mais de 80 milhões de dólares arrecadados somente nos EUA - nem tampouco os devotos fãs: é um filme que respeita a audiência do programa e não confunde nem aborrece os espectadores ocasionais.

Para quem não sabe,  o Arquivo X da série (e do filme, consequentemente) é uma divisão dentro do FBI responsável pela investigação de acontecimentos inexplicáveis (leia-se sobrenaturais). No início da série, a médica patologista Dan Scully é escalada por seus superiores da agência a unir-se ao detetive Fox Mulder, não muito benquisto, para, com sua racionalidade científica, desacreditar suas conclusões tidas como absurdas. Depois dos cinco primeiros anos do programa, após ter testemunhado inúmeras situações bizarras e ter sido ela mesma vítima de uma estranha, Scully aproximou-se de Mulder a ponto de quase compactuar com suas teorias. No final da quinta temporada, a divisão é fechada (por motivos que não vem ao caso contar para não estragar o prazer de quem ainda nunca assistiu às aventuras da dupla) e os dois detetives são relegados a um nível inferior de investigação. E é aí que começa a versão para o cinema.

Como normalmente acontece na televisão, a primeira cena não conta com os protagonistas. O público é levado para o período pré-histórico, onde um homem, ainda em seu caminho para a evolução, é violentamente atacado por um ser alienígena. O roteiro dá um salto para o Texas de 1998, onde um pré-adolescente é atacado pela mesma substância que vitimou seu antepassado. Logo em seguida, Mulder e Scully testemunham a explosão de uma bomba que destrói um prédio do governo, em Dallas. Aparentemente sem conexão alguma, esses dois fatos passam a se ligar quando o detetive é procurado pelo misterioso cientista Alvin Kurtzweil (Martin Landau), que tem informações a respeito de uma conspiração governamental que utilizou a explosão para encobrir o que realmente aconteceu com o jovem morto. A partir daí, a dupla de policiais inicia uma procura incessante pela verdade, que os leva até a Antártida.

Para quem não é assíduo espectador, "Arquivo X" é um filme de ficção científica acima da média, com uma trama bem armada e intrigante, além de efeitos de maquiagem eficientes. Mas é impossível negar que existe um gostinho extra para aqueles que passavam uma hora por semana acompanhando as aventuras de Mulder e Scully na televisão. A tensão sexual entre as personagens (que chega ao ápice em uma cena de quase beijo mais aterrorizante, para os fãs, do que qualquer extraterrestre) soa como um romance descartável para o público em geral e eles também ficarão sem saber a importância, dentro da história, de personagens cruciais para a mitologia da série, como o misterioso Homem das Unhas Bem Feitas (vivido por John Neville). Porém, Chris Carter sabe muitíssimo bem como envolver a plateia com um roteiro cuidadoso e detalhista que não decepcionará ninguém.

Faz sentido dizer que "Arquivo X, o filme" é um episódio estendido da série. Assim acontece com todos os programas de TV que passaram à tela grande posterioremente e não chega a ser um demérito, mesmo porque, dos anos 90 em diante, a televisão americana apresentou produtos de extrema qualidade. Mas é preciso também que se reconheça que poucos filmes de ficção científica são tão sérios e interessantes quanto a obra de Chris Carter e companhia.

Friday, April 15, 2011

ALIEN: A RESSURREIÇÃO

ALIEN: A RESSURREIÇÃO (Alien: resurrection, 1997, 20th Century Fox, 109min) Direção: Jean-Pierre Jeunet. Roteiro: Joss Whedon, personagens criadas por Dan O'Bannon, Ronald Shusett. Fotografia: Darius Khondji. Montagem: Hervé Schneid. Música: John Frizzell. Figurino: Bob Ringwood. Direção de arte/cenários: Nigel Phelps/John M. Dwyer. Produção: Bill Badalato, Gordon Carroll, David Giler, Walter Hill. Elenco: Sigourney Weaver, Winona Ryder, Dominique Pinon, Ron Perlman, Michael Wincott, Dan Hedaya. Estreia: 26/11/97

A maior tradição em relação à série de filmes "Alien" - iniciada em um longínquo 1979 - diz respeito a nunca repetir diretores, dando ao espectador visões diferentes dos roteiros, desde em seu clima até em suas resoluções dramáticas. Sendo assim, em 1997, o francês Jean-Pierre Jeunet - que, ao lado de Marc Caro havia presenteado a audiência com os visualmente belíssimos "Delicatessen" e "Ladrões de sonhos" - reuniu-se ao time que já contava com Ridley Scott, James Cameron e David Fincher. Com a árdua missão de recuperar os fãs perdidos com as ousadias de "Alien 3", Jeunet entregou ao público um filme que, se não chega a empolgar como os dois primeiros capítulos, ao menos é fiel ao estilo claustrofóbico de seu filme original.

A trama, mais uma vez, usa e abusa do escapismo e da criatividade para dar continuidade ao inesperado final do terceiro episódio, lançado em 1992. Nessa nova aventura, a Tenente Ripley (mais uma vez vivida por Sigourney Weaver) é ressuscitada através de um processo de clonagem e os cientistas responsáveis pelo feito conseguem tirar a Rainha Mãe dos alienígenas de dentro dela. Acontece que as coisas não são assim tão simples, e Ripley passa a apresentar algumas características do monstro, como força descomunal e um sangue ácido, devido à mistura de seus DNAS. Tudo se complica quando os alienígenas que estão sendo criados em cativeiro pelo ambicioso Dr. Jonathan Gediman (Brad Dourif) conseguem escapar e mais uma vez começam a atacar os humanos que estão dentro da nave espacial - dentre os quais um grupo de mercenários que inclui a misteriosa Call (Winona Ryder). Cabe mais uma vez à Ripley impedir que os seres cheguem à Terra, mas dessa vez ela tem sentimentos dúbios em relação a eles.



Não deixa de ser bastante esperto o artifício criado pelo roteirista Joss Whedon de mixar o sangue (e a personalidade) de Ripley com a raça alienígena que ela vem perseguindo há séculos (a trama começa 200 anos depois do fim do último filme). Ao unir a heroína da série a seu maior vilão de forma inexorável, a trama caminha para um desfecho onde tudo pode acontecer. Infelizmente Whedon não vai muito longe na ousadia, deixando a relação de Ripley com o alien esfriar da metade pro fim do filme, quando ele se transforma em mais um produto de ação estritamente comercial, com cenas milimetricamente calculadas para injetar adrenalina na plateia. Nesse ponto, diga-se de passagem, Jeunet não é tão feliz quanto foi James Cameron, que tem uma tendência bem mais explícita ao superespetáculo. Ainda assim, é bastante impressionante a sequência subaquática que apresenta já em sua reta final. O cineasta francês é um esteta de extremo bom-gosto (como fica claro com sua fotografia e sua caprichada direção de arte)e faz questão de mostrar essa sua faceta em planos bem desenhados. Infelizmente, o capricho visual não encontra eco na trama, que não desperta tanto interesse quanto seus primeiros dois capítulos.

Quanto ao elenco, é preciso que se louve mais uma vez a atuação de Sigourney Weaver, que consegue, novamente, dar nuances surpreendentes à sua Ripley. Winona Ryder está talvez no pior momento de sua carreira, fazendo caras e bocas com uma personagem chatinha e cuja existência se deve principalmente à tentativa do estúdio em arrecadar mais alguns milhares de dólares com a presença de uma atriz jovem e em ascensão como ela era à época do lançamento (e não deixa de ser um tanto forçada a relação entre sua Call e a protagonista, em cenas que foram vendidas como se tivessem um homoerotismo que não existe). Brad Dourif exagera novamente em seus trejeitos, dessa vez como uma nova versão de cientista louco e somente escapa do overacting geral (assim como Weaver, esteja bem claro).

No final das contas, "Alien: a ressurreição" vale por uma ou outra cena bem realizada e pela presença sempre forte de Sigourney Weaver. Jean-Pierre Jeunet ainda demoraria uns bons cinco anos para dar ao mundo sua obra-prima, "O fabuloso destino de Amélie Poulain".

Wednesday, March 30, 2011

CONTATO

CONTATO (Contact, 1997, Warner Bros, 150min) Direção: Robert Zemeckis. Roteiro: James V. Hart, Michael Goldenberg, romance de Carl Sagan, história de Carl Sagan, Ann Druyan. Fotografia: Don Burgess. Montagem: Arthur Schmidt. Música: Alan Silvestri. Figurino: Joanna Johnston. Direção de arte/cenários: Ed Verreaux/Michael J. Taylor. Produção executiva: Joan Bradshaw, Lynda Obst. Produção: Steve Starkey, Robert Zemeckis. Elenco: Jodie Foster, Matthew McConaughey, David Morse, Jena Malone, William Fichtner, Rob Lowe, Tom Skerritt, Angela Bassett, John Hurt. Estreia: 11/7/97

Indicado ao Oscar de Som

Um dos mais populares escritores e astrônomos do mundo, Carl Sagan, autor da famosa série "Cosmos", morreu no final de 1996, quando as filmagens de um de seus mais estimados projetos ainda em andamento. Concebido no início dos anos 80 já em formato de filme e posteriormente transformado em romance, "Contato" chegou às telas alguns meses depois da morte de Sagan, arrancando elogios unânimes da crítica e amealhando nada desprezíveis 100 milhões de dólares somente no mercado doméstico americano. Levando-se em consideração que seu diretor é Robert Zemeckis - que fez com que "Forrest Gump", a história simples de um rapaz com problemas mentais se tornasse uma das maiores bilheterias da história - não chega a ser surpresa o sucesso do filme. Surpresa é o fato de o filme ter alcançado tamanho êxito sem apelar para efeitos visuais desnecessários nem tampouco descaracterizar a trama criada por Sagan. Apesar de classificar-se, sim, como uma ficção científica, "Contato" expande os limites do gênero ao tratar a busca por vida em outros planetas de uma maneira completamente diferente do mostrado até então.

A principal preocupação do roteiro de "Contato" não é levar o espectador à Marte ou planetas outros ao lado de personagens engraçadinhos e forjados sem a menor sutileza. A conversa aqui é bem outra, graças à inteligência da história criada por Sagan. A protagonista do filme é Ellie Arroway (vivida por uma Jodie Foster madura e sempre competente), uma astrônoma dedicada a sua busca por provas de vida fora da Terra. Lutando contra seus financiadores, que acreditam que ela está perdendo dinheiro com suas pesquisas, ela conta com a ajuda de seus colegas para manter viva a esperança de fazer a grande descoberta de sua vida. Um dia, finalmente ela ouve ruídos em seu rádio e descobre, sem sombra de dúvida, que tais sons são a prova da existência de alienígenas inteligentes. Ainda através de contatos sonoros, tais seres enviam  instruções para a construção de uma máquina que permitirá a um terráqueo viajar até eles. Quando tal nave fica pronta, porém, uma dúvida surge: quem é realmente digno de representar o planeta?


É a partir desse questionamento filosófico/religioso que "Contato" sai do lugar-comum dos filmes de ficção científica e penetra em um nível bem mais superior de entretenimento. Sem nunca descuidar do desenvolvimento dramático da história - que inclui a interessante relação entre a intelectual Ellie e o teólogo Joss Palmer (Matthew McConaughey) - o roteiro dá ao público um vasto material para discussões sem, por causa disso, confundí-lo com complexidades inúteis. Está tudo acomodado de forma sutil e convincente, principalmente porque, além de tudo, Zemeckis tem o dom de sempre escalar um elenco preciso. Logicamente, a dona da festa é Jodie Foster, que conduz toda a história com a majestade de sempre, mas seus coadjuvantes não podem jamais ser acusados de ficarem eclipsados por seu enorme talento.

Enquanto Matthew McConaughey aproveita seu status de "novo galã da hora em Hollywood" - foi seu primeiro trabalho após o sucesso de "Tempo de matar" - William Fichtner tem a maior chance de sua carreira ao interpretar o braço direito de Ellie, Kent, um cientista cego de importância fundamental na narrativa e John Hurt quase rouba a cena na pele de S.R. Hadden, o excêntrico milionário que possibilita à protagonista realizar seu sonho - em uma sequência belíssima realizada com extremo bom-gosto. Não bastasse isso, ainda fazem pequenas participações Tom Skerritt, Angela Bassett, Rob Lowe e até mesmo o presidente Bill Clinton, cujo discurso foi utilizado sem prévia permissão e causou controvérsia. E é inadmissível não lembrar das ótimas participações de Jena Malone e David Morse nas cenas iniciais, como a menina Ellie e seu pai, cuja morte tem ressonância em todo o filme.

"Contato" é, portanto, uma ficção científica com os dois pés na realidade. Não é um filme para o público que lotou as salas de cinema para assistir a bobagens indescritíveis como "Independence Day", mas para aquela plateia que gosta de ter seu cérebro bem tratado por duas horas e meia.

Sunday, February 20, 2011

OS 12 MACACOS

OS DOZE MACACOS (Twelve monkeys, 1995, Universal Pictures, 129min) Direção: Terry Gilliam. Roteiro: David Peoples, Janet Peoples, roteiro original de Chris Marker. Fotografia: Roger Pratt. Montagem: Mick Audsley. Música: Paul Buckmaster. Figurino: Julie Weiss. Direção de arte/cenários: Jeffrey Beecroft/Crispian Sallis. Produção executiva: Robert Cavallo, Robert Kosberg, Gary Levinsohn. Produção: Charles Roven. Elenco: Bruce Willis, Madeleine Stowe, Brad Pitt, Christopher Plummer, David Morse, Christopher Meloni. Estreia: 27/12/95

2 indicações ao Oscar: Ator Coadjuvante (Brad Pitt), Figurino
Vencedor do Golden Globe de Ator Coadjuvante (Brad Pitt)

Quando os estúdios de Hollywood passam por crises criativas - e isso ocorre com uma frequência alarmante - o jeito é apelar a qualquer ideia que possa transformar-se em um filme razoavelmente interessante. Refilmar obras estrangeiras, então, passou a ser uma opção recorrente para sanar os bloqueios artísticos ianques. Foi assim com "Sommersby, o retorno de um estranho", que diluiu o impacto do original com Gerard Depardieu e com "True lies", que melhorou bastante o original francês, adicionando muito mais humor e ação à sua trama original. Em 1995, o prestigiado Terry Gilliam provou que até mesmo cineastas mais conhecidos por sua ojeriza ao sistema também fazer concessões ao comercial. "Os doze macacos" é a releitura do curta-metragem francês "La jetèe", lançado em 1962, mas sob a ótica de um dos fundadores do Monthy Phyton - e realizador do onírico "Brazil, o filme" - apenas a ideia central do original se mantém intacta.

Gilliam nem mesmo assistiu ao curta francês, dando atenção exclusiva ao roteiro distópico de David e Janet Peoples, que amplia a ideia complexa de viagens no tempo. Livre das amarras de ter que realizar uma refilmagem no sentido mais pleno do termo, o cineasta encontra espaço o bastante para suas excentricidades visuais - que encontra a expressão exata na direção de arte claustrófica e no figurino de Julie Weiss, indicado merecidamente ao Oscar. Explorando com perfeição a fotografia expressionista de Roger Pratt e a trilha sonora vibrante de Paul Buckmaster - que conquista a plateia já nos créditos iniciais, com um tango arrebatador que retorna sempre nos momentos mais emocionantes -  Gilliam faz mais do que apenas divertir sua audiência: ele a faz exercitar o cérebro, deixando-a com um ponto de interrogação até suas (tensas) cenas finais.



De acordo com a trama do filme, a população da Terra será dizimada por um vírus fatal, que vitimará mais de 5 bilhões de pessoas no ano de 1996. Em um futuro não determinado, um grupo de cientistas resolve enviar um apenado para alguns meses antes da pandemia, para que ele colete dados que possibilitem uma reversão da tragédia. O escolhido é o violento James Cole (Bruce Willis), que, mesmo sem saber direito em que consiste sua missão, vai parar em Baltimore, Atlanta, no ano de 1990 por um erro de cálculo. Preso como indigente, ele trava conhecimento com a psiquiatra Kathryn (Madeleine Stowe) e, no hospital onde é internado, com o alucinado Jeffrey Goines (Brad Pitt), filho de um conhecido virólogo. Depois de um retorno antecipado a seu período de origem, logo Cole volta à Terra, dessa vez realmente para o ano correto. Ao lado de Kathryn, Cole tentará impedir que o exército de ecoterroristas liderados por Goines - chamado de 12 macacos - libere o vírus que destruirá a humanidade.

Propositalmente confuso - talvez como forma de identificar a plaeia com seu protagonista atônito e quase impotente diante de um cataclisma de proporções gigantescas - "Os 12 macacos" força o espectador a estar atento durante toda a sua duração, uma vez que dá detalhes visuais, auditivos e verbais de seu desfecho a cada instante. Cada linha de díálogo e cada imagem são importantíssimos para que a experiência seja compreendida de todo. E é bem possível que essa necessidade de comprometimento extra com o cérebro que tenha sido a responsável pela bilheteria abaixo do esperado no mercado norte-americano. Para um filme que unia Bruce Willis com o ascendente Brad Pitt - vindo de sucessos consecutivos - uma renda de menos de 60 milhões, ainda que respeitável, soou como um pequeno fracasso comercial. Fazer o que se o público prefere filmes-pipoca com roteiro qualquer nota?

"Os 12 macacos" é uma aventura de ficção científica que foge dos padrões a que todos estamos acostumados. Não busca a aprovação da plateia com sequências de tirar o fôlego nem tampouco a confunde com termos absurdos inventados por fãs de "Star Trek" ou "Star Wars". É um suspense aterrador, que, apesar do tom negativista que imprime em quase toda a sua duração - graças ao visual feio proposto pelo desenhista de produção - termina com uma lufada de otimismo e e alívio. E ainda mostrou que, além de um galã feito sob medida para o século XXI, Brad Pitt é também um ator seguro e competente, que não se importa em abdicar de sua beleza para construir uma personagem forte e marcante.

Thursday, November 18, 2010

ALIEN 3

ALIEN 3 (Alien 3, 1992, 20th Century Fox, 114min) Direção: David Fincher. Roteiro: David Giler, Walter Hill, Larry Ferguson, história de Vincent Ward. Fotografia: Alex Thomson. Montagem: Terry Rawlings. Música: Elliot Goldenthal. Figurino: David Perry, Bob Ringwood. Direção de arte/cenários: Norman Reynolds/Belinda Edwards. Produção executiva: Ezra Swerdlow. Produção: Gordon Carroll, David Giler, Walter Hill. Elenco: Sigourney Weaver, Charles S. Dutton, Charles Dance, Paul McGann, Lance Henriksen, Pete Postletwhaite. Estreia: 22/5/92

Indicado ao Oscar de Efeitos Visuais

Depois que James Cameron continou o tenso "Alien, o oitavo passageiro" com o espetaculoso e adrenalínico "Aliens, o resgate", era bastante esperado o retorno da Tenente Ripley em sua tentativa de exterminar o alienígena que aniquilou sua equipe inteira nos dois primeiros filmes. Depois de anos de negociações - em que estrela da série, Sigourney Weaver hesitava em voltar à personagem - finalmente o terceiro capítulo chegou às telas, dirigido por David Fincher, um novato que tinha no currículo alguns dos melhores videoclipes de Madonna e George Michael, por exemplo. Ao optar pelo caminho claustrofóbico do primeiro em detrimento da ação desenfreada do segundo, Fincher arrumou detratores furiosos. Depois de brigas homéricas com os produtores, o cineasta não supervisionou a edição final e "Alien 3" chegou às telas quase órfão. O resultado é visível: apesar de muitas boas ideias, a terceira parte da saga de Ripley não empolgou nem o público nem a crítica. Mas não é tão ruim quanto se falou à época de seu lançamento. 

A história dessa nova aventura começa logo após o final do segundo filme. Sem saber que não está a salvo da ameaça alienígena dos capítulos anteriores, Ripley acorda em Fiorina 161, um planeta-prisão, onde ficam encarcerados prisioneiros sexualmente agressivos e violentos. Informada por Clemens (Charles Dance), o médico local, de que toda sua tripulação morreu, ela imediatamente percebe que tudo está para acontecer novamente. Única mulher em meio a homens carregados de testosterona, ela precisa convencê-los do perigo que correm, proteger-se deles e lutar, mais uma vez, para matar seu inimigo. Dessa vez, no entanto, ela não tem nenhuma arma.


Com a cabeça raspada - o presídio está passando por uma epidemia de piolhos - Sigourney Weaver segura, novamente, toda a responsabilidade de carregar o filme nas costas. Ao contrário das ocasiões anteriores, porém, dessa vez Ripley tem mais cenas dramáticas do que de ação, consequência da opção de David Fincher em privilegiar o aspecto mais tenso da trama. Até mesmo um arremedo de romance surge entre Ripley e Clemens, ousadia que pegou os fãs de surpresa - ainda que tudo seja extremamente discreto. E discreto também é o ritmo do filme: demora quase uma hora para que a ação realmente comece e o sangue jorre em Fiorina 161. Na verdade, a lentidão é parte da personalidade do filme, que prefere estabelecer sua história antes da violência. Pouca gente compreendeu isso e se recusou a perceber suas qualidades.



Sim, apesar da gritaria contra si - e da saída de David Fincher do projeto em seu estágio de finalização - "Alien 3" tem qualidades. A ousadia talvez seja a maior delas. Ao praticamente lutar por suas ideias e com isso renegar a receita que estava fazendo sucesso há quinze anos, David Fincher começou uma carreira marcada pela personalidade. Visualmente impecável - a fotografia escura e pesada unida à agressividade estética das personagens - o filme de Fincher transmite a exata sensação de claustrofobia pretendida e, se não busca atingir seu público com efeitos visuais exagerados, tenta (às vezes com sucesso, outras nem tanto) assustar sem apelar para o fácil e o corriqueiro. Talvez por isso tenha afastado a audiência fiel das primeiras partes.


Tudo bem que "Alien 3" não passa a sensação de terror do primeiro nem empolga em termos de aventura do segundo. Tudo bem também que seu terço final não acrescenta muito à saga - apesar de antes de chegar a ele algumas cenas sejam sensacionais. E tudo bem que não ver Ripley empunhando armas é um tanto frustrante. Mas, mesmo que seja rejeitado por David Fincher, é um exemplar bastante - BASTANTE! - decente da série. Digam o que quiserem, "Alien 3" me agrada.

Sunday, November 7, 2010

O EXTERMINADOR DO FUTURO 2, O JULGAMENTO FINAL

O EXTERMINADOR DO FUTURO 2, O JULGAMENTO FINAL (Terminator 2, the judgment day, 1991, Carolco Pictures, 137min) Direção: James Cameron. Roteiro: James Cameron, William Wisher. Fotografia: Adam Greenberg. Montagem: Conrad Buff, Mark Goldblatt, Richard A. Harris. Música: Brad Fiedel. Figurino: Marlene Stewart. Direção de arte/cenários: Joseph P. Lucky/John M. Dwyer. Casting: Mali Finn. Produção executiva: Gale Anne Hurd, Mario Kassar. Produção: James Cameron. Elenco: Arnold Schwarzenegger, Linda Hamilton, Edward Furlong, Robert Patrick, Xander Berkeley. Estreia: 01/7/91

6 indicações ao Oscar: Fotografia, Montagem, Maquiagem, Som, Efeitos Sonoros, Efeitos Visuais
Vencedor de 4 Oscar: Maquiagem, Som, Efeitos Sonoros, Efeitos Visuais 

Muito se reclamava, em 1991, da quantidade de dinheiro que se gastava em filmes de ação. O diretor James Cameron fez ouvidos de mercador à gritaria e gastou absurdos 100 milhões de dólares na continuação de seu "O exterminador do futuro", feito em 1984 com alguns trocados. O resultado, tanto em termos financeiros quanto de qualidade, calou a boca dos detratores: "O exterminador do futuro 2, o julgamento final" é, sem a mais remota dúvida, um dos filmes mais espetaculares já realizados em Hollywood, mostrando tudo de melhor que a indústria do entretenimento pode oferecer quando a questão é diversão.

Enquanto no primeiro filme Arnold Schwarzenegger era o vilão agora ele é o herói. Dono de uma popularidade enorme na época do lançamento do filme, Schwarza - que hoje todos sabemos, almejava vôos políticos - não poderia repetir o papel de exterminador do primeiro capítulo da saga criada por Cameron. O resultado disso ficou melhor que a encomenda. Desta vez, T-800 é enviado à Los Angeles de 1991 não para matar o jovem John Connor (Edward Furlong), futuro líder da resistência ao domínio das máquinas depois de um holocausto nuclear, mas sim para protegê-lo de um robô ainda mais perigoso e indestrutível, T-1000 (Robert Patrick), um modelo mais adiantado, capaz de auto-regenerar-se, transmutar-se em outras formas e, mais importante ainda, totalmente dedicado à sua missão. Acompanhado de Connor e de sua mãe, a corajosa e determinada Sarah (Linda Hamilton, musculosa ao extremo), o modelo de exterminador previamente programado para matá-los irá ajudá-los a livrar-se da ameaça de uma morte violenta.
É difícil dizer o que funciona mais em "O exterminador 2". O roteiro de Cameron e William Wisher tem um senso de ritmo admirável, que não deixa o espectador respirar mais que alguns minutos entre uma sequência de ação e outra - sendo que todas são nunca menos do que espetaculares. A parte técnica - que fez a festa na cerimônia do Oscar de 92 - é impecável e de deixar qualquer plateia de queixo caído ainda hoje. É de tirar o fôlego, por exemplo, a longa sequência em que John Connor encontra T-800 pela primeira vez e fica sabendo, através de uma violenta perseguição pelas ruas de Los Angeles, que está seriamente ameaçado de morrer. A relação entre o adolescente e a máquina de matar, aliás, é o trunfo secreto de James Cameron. Enquanto se delicia com os efeitos visuais embasbacantes criados para o filme, o público também se deixa envolver pela história de amizade e admiração entre um ser humano e um robô. Tudo isso sem sentimentalismos baratos ou lágrimas forçadas.

"O exterminador do futuro 2" merece o lugar de destaque que ocupa entre os melhores filmes de ação de todos os tempos. Inteligente, tecnicamente impecável, emocionante em vários níveis e revolucionário - além de ser um dos mais caros filmes da história, o que fica fácil de perceber com seu cuidado com os detalhes - o segundo capítulo de uma série que foi se desgastando com o tempo ainda é um perfeito exemplo de bom cinema. Até mesmo os mais intelectuais fãs de cinema são obrigados a aplaudir a história contada por James Cameron e Arnold Schwarzenegger.

Saturday, October 9, 2010

O VINGADOR DO FUTURO


O VINGADOR DO FUTURO (Total recall, 1990, Carolco International, 113min) Direção: Paul Verhoeven. Roteiro: Ronald Shusett, Dan O'Bannon, Gary Goldman, conto "We can remember if you wholesale", de Philip K. Dick. Fotografia: Jost Vacano. Montagem: Carlos Puente, Frank J. Urioste. Música: Jerry Goldsmith. Figurino: Erica Edell Phillips. Direção de arte/cenários: William Sandell/Robert Gould. Casting: Mike Fenton, Valorie Messalas, Judy Taylor. Produção executiva: Mario Kassar, Andrew Vajna. Produção: Buzz Feitshans, Ronald Shusett. Elenco: Arnold Schwarzennegger, Rachel Ticotin, Sharon Stone, Ronny Cox, Michael Ironside. Estreia: 01/6/90

2 indicações ao Oscar: Som, Efeitos Sonoros


Oscar especial de Efeitos Visuais

Uma das mais famosas obras do escritor Philip K. Dick deu origem ao clássico "Blade Runner, o caçador de andróides", que é lembrado bem mais por sua inteligência do que por seu teor adrenalínico. Um dos mais bem-sucedidos filmes do cineasta holandês Paul Verhoeven é "Robocop, o policial do futuro", blockbuster que usou e abusou de ação, violência e efeitos visuais para atingir seu público. O que resulta na união entre esses dois estilos tão diferentes de se contar uma história  é justamente "O vingador do futuro", um filme de ficção científica quase cerebral, caríssimo e estrelado pelo astro-mor do gênero "pancadaria": Arnold Schwarzenegger. E é justamente essa diferença de estilos que ajuda - e também atrapalha um pouco - no resultado final.

Anos-luz à frente de outros filmes de aventura que são lançados nos verões americanos, "O vingador do futuro" tem a seu favor uma história bem mais interessante e intrigante do que o normal: em 2084, Marte é uma colônia da Terra, governada pelo déspota Connhagen (Ronny Cox) e em vias de eclodir em uma guerra civil. Praticamente escravizados e sem direito nem mesmo à quantidade básica de oxigênio, os rebeldes são liderados por um misterioso líder, que vive escondido. Schwarzenegger vive Doug Quaid, um operário da construção civil que, intrigado por constantes pesadelos que os colocam em Marte acompanhado de uma morena desconhecida, resolve implantar em seu cérebro - através de uma agência de viagens virtuais - , lembranças de uma viagem de férias ao planeta. Acontece que, durante o processo, algo dá muito errado e Quaid descobre que na verdade ele não só já esteve em Marte como também teve sua memória apagada po razões que ele terá que descobrir antes que seja executado. E nem mesmo sua bela esposa, a misteriosa Lori (uma Sharon Stone pré-"Instinto selvagem") parece ser totalmente inocente.
A trama de "O vingador do futuro" é intrincada mesmo, assim como parece. E é essa complexidade em sua história que faz com que o filme de Verhoeven saia da vala comum dos filmes de verão descerebrados. As cenas repletas de violência e ação comandadas pelo cineasta dividem um espaço generoso com um roteiro repleto de pistas falsas, reviravoltas e até mesmo uma espécie de metáfora a respeito do fascismo - sim, Schwarzenegger, futuro governador da Califórnia, fez um filme onde o fascismo, ainda que mal disfarçado, era o vilão. A violência, aliás, é outra qualidade de "Total recall": enquanto hoje em dia qualquer cena mais forte logo vira motivo de gritaria, o filme de Schwarza e companhia não tem medo de pegar pesado, já que até mesmo um cadáver é utilizado como escudo humano. Tudo bem que o filme recebeu cortes e até a temível ameaça de um selo "X" da censura americana, mas é corajoso o bastante para ser elogiado.

O problema de "O vingador do futuro", no entanto, começa em seu terço final. A impressão nítida que se tem é que Verhoeven deixou de pensar nas implicações político/sociais da trama para concentrar-se  em cenas de ação de cair o queixo, violência desmedida e efeitos visuais caprichados - ainda que muito datados hoje em dia (e não pode-se deixar de falar do visual extremamente cafona...) Essa decisão enfraquece o que poderia ser ainda o melhor filme da carreira de Schwarzenegger (título que "O exterminador do futuro 2" mantém com louvor). Como está, é uma ficção científica bem acima da média, mas muito aquém do que poderia ter sido e muito longe de tornar-se um clássico como o já citado "Blade Runner".

Thursday, July 29, 2010

ALIENS, O RESGATE


ALIENS, O RESGATE (Aliens, 1986, 20th Century Fox, 137min) Direção: James Cameron. Roteiro: James Cameron, história de James Cameron, David Giler e Walter Hill, personagens criados por Dan O'Bannon e Ronald Shusett. Fotografia: Adrian Biddle. Montagem: Ray Lovejoy. Música: James Horner. Figurino: Emma Porteous. Direção de arte/cenários: Peter Lamont/Crispian Sallis. Produção executiva: Gordon Carroll, David Giler, Walter Hill. Produção: Gale Anne Hurd. Elenco: Sigourney Weaver, Carrie Henn, Michael Biehn, Lance Henriksen, Paul Reiser, Bill Paxton, William Hoppe. Estreia: 18/7/86

7 indicações ao Oscar: Atriz (Sigourney Weaver), Montagem, Trilha Sonora, Direção de arte, Som, Efeitos Sonoros, Efeitos Visuais

Vencedor de 2 Oscar: Efeitos Sonoros, Efeitos Visuais


Em 1979, o filme "Alien, o oitavo passageiro" empolgou plateias do mundo inteiro ao misturar com equilíbrio perfeito elementos de ficção científica com ingredientes de filmes de terror. O resultado foi uma bilheteria espantosa, sucesso de crítica e um inevitável segundo capítulo. Dirigida por James Cameron - vindo do grande êxito de "O exterminador do futuro" - , a continuação do filme de Ridley Scott abandonou a sensação claustrofóbica do original, substituindo-a pelas melhores cenas de ação que o dinheiro poderia comprar. Perdeu em tensão, mas ganhou em adrenalina. Os fãs do gênero formaram filas enormes, profundamente satisfeitos.

A trama desse segundo filme se passa cerca de 50 anos depois dos acontecimentos que levaram a Tenente Ripley (Sigourney Weaver) a testemunhar a aniquilação de seus companheiros de tripulação por um alienígena truculento e aparentemente invencível. Encontrada por uma nave de resgate, logo ela fica sabendo que o planeta que originou o monstro está colonizada pela Terra e, quando todo e qualquer contato com os humanos que o habitam é perdido, ela é enviada para descobrir o que aconteceu e, se for necessário, exterminar os algozes dos colonizadores.

Tudo em "Aliens, o resgate", é grande. A duração (mais de duas horas), os efeitos visuais, a violência. Navegando tranquilamente em sua tradicional mania de grandeza, Cameron oferece ao espectador um verdadeiro espetáculo de entretenimento. Seguindo a linha oposta ao trabalho de Ridley Scott - que optou pela sugestão em detrimento do explícito - o futuro vencedor do Oscar por "Titanic" não tem medo de orquestrar sequências de ação eletrizantes e de apavorar o público com criaturas asquerosas em número suficiente para justificar o Oscar de efeitos visuais que acabou conquistando. E além de tudo ainda encontra tempo para sentimentalismos, ao criar uma personagem que dá a Ripley um lado humano que lhe cai muito bem: uma menina órfã que vê na protagonista a figura materna que necessita para manter-se viva e amada.

É fato notável que a relação entre Ripley e sua pequena "filha" dá um gás novo e uma nuance inesperada que permite a "Aliens, o resgate" fugir da maldição das continuações. Humanizar Ripley foi um golpe de mestre de Cameron, que a aproxima mais da plateia antes de fazê-la barbarizar seus antagonistas, além, é claro, de permitir a Sigourney Weaver maiores vôos dramáticos de atuação - não à toa, ela foi surpreendentemente indicada ao Oscar por seu trabalho em um gênero que normalmente não é muito afeito a dramas pessoais.

"Aliens, o resgate" é o mais bem-sucedido comercialmente da série lançada em 1979, mas fica aquém do original no quesito suspense. É um extraordinário filme de ação, realizado com uma competência assustadora e talentos criativos inegáveis, que deixaria o mundo com água na boca, esperando um terceiro capítulo que, lançado em 1992, decepcionou público e crítica mesmo voltando às origens claustrofóbicas de sua origem.

Saturday, July 10, 2010

O EXTERMINADOR DO FUTURO


O EXTERMINADOR DO FUTURO (The terminator, 1984, Orion Pictures, 108min) Direção: James Cameron. Roteiro: James Cameron, Gale Anne Hurd, diálogos adicionais de William Wisher. Fotografia: Adam Greenberg. Montagem: Mark Goldblatt. Música: Brad Fiedel. Figurino: Hilary Wright. Direção de arte/cenários: George Costello/Maria Rebman Caso. Produção executiva: John Daly, Derek Gibson. Produção: Gale Anne Hurd. Elenco: Arnold Schwarzenegger, Michael Bihen, Linda Hamilton, Paul Winfield, Lance Henriksen, Bill Paxton, Bess Motta. Estreia: 26/10/84

Antes de tornar-se multimilionário com "Titanic" e auto-conceder-se a pecha de visionário com o megalomaníaco "Avatar", James Cameron era um cara legal. A prova cabal dessa afirmação é "O exterminador do futuro", um filme realizado com alguns trocados - cuja primeira ideia foi vendida por um mísero dólar - e que não apenas firmou Arnold Schwarzenegger como astro número 1 do cinema de ação mas também mostrou que em cinema, uma ideia na cabeça é muito mais importante do que efeitos visuais de última ponta na mesa de pós-produção.

E a ideia na cabeça de Cameron quando criou a trama de "O exterminador" não poderia ter sido melhor e mais intrigante. Na Los Angeles de 1984, a garçonete Sarah Connor (Linda Hamilton) é caçada - sem ter a menor ideia do motivo - por um truculento e misterioso homem que ela nunca viu antes na vida. Totalmente perdida e sem saber o que está acontecendo, ela é protegida por outro desconhecido, Kyle Reese (Michael Biehn), que depois de salvá-la diversas vezes da morte, finalmente lhe explica o porquê de tanta violência: ela está sendo perseguida por um Exterminador (Arnold Schwarzenegger) que tem a missão de matá-la porque, no futuro, ela será a mãe do líder da resistência humana contra o domínio das máquinas. Ele, Kyle Reese, foi enviado, do futuro, pelo próprio John Connor, para protegê-la e evitar assim que seu nascimento seja impedido.

Sem contar com os orçamentos milionários com os quais faria seus filmes seguintes - a começar por "Aliens, o resgate", em 1986 - Cameron demonstra, em "O exterminador do futuro" que é, sim, um cineasta talentoso, inteligente e, mais importante do que tudo, com um senso de ritmo impecável. As cenas de ação de "Exterminador" não tem efeitos visuais mirabolantes, mas são tão empolgantes quanto se tivessem. Por ter menos dinheiro - leia-se um orçamento quase ridículo em comparação com sua sequência rodada em 1991 - Cameron se viu obrigado a ser mais criativo e essa criatividade faz desse primeiro exemplar da série um clássico absoluto da ficção científica, capaz de ser ao mesmo tempo extremamente eficaz como filme de ação e nunca deixar de ser inteligente e intrigante.

É impossível, por exemplo, deixar de relacionar a caça à Sarah Connor com a matança ordenada por Herodes logo após o nascimento de Cristo e essa ressonância religiosa de certa forma eleva "O exterminador do futuro" a um patamar acima de seus congêneres, que normalmente apelam para a violência high-tech como forma de disfarçar sua falta de conteúdo. Aqui, Cameron usa e abusa da violência, aproveitando que ainda não havia em cima do cinema a pressão a favor do "politicamente correto". Schwarzenegger - em um papel oferecido a Sylvester Stallone - destrói uma delegacia de polícia, mata um grupo de punks, extermina meia dúzia de Sarahs Connors e não pensa duas vezes em arrasar o que passa à sua frente. Dá pra imaginar algo assim nos chatíssimos dias de hoje? Nem mesmo o próprio Schwarza quis comprar essa briga: na continuação, ele é o herói do filme, para não manchar sua imagem e estragar seu caminho rumo à política.

Mesmo com seu jeitão de primo pobre de suas continuações hiperbolizadas, o primeiro capítulo das aventuras de Sarah Connor e de seus exterminadores continua sendo uma origem digna e extremamente divertida. Responsabilidade da mistura perfeita entre um roteiro esperto, um diretor talentoso e um elenco perfeitamente escalado - apesar de ser uma atriz bastante limitada, Linda Hamilton segura bem as pontas de sua responsabilidade, a ponto de ter conquistado Cameron: eles se casaram um tempo depois da estreia do filme e mesmo que hoje estejam separados, ninguém tira de Hamilton o fato de ser a eterna Sarah Connor.

Saturday, June 26, 2010

BLADE RUNNER, O CAÇADOR DE ANDRÓIDES


BLADE RUNNER, O CAÇADOR DE ANDRÓIDES (Blade Runner, 1982, Warner Bros, 117min) Direção: Ridley Scott. Roteiro: Hampton Fancher, David Peoples, conto "Do androids dream of eletric sheep?", de Philip K. Dick. Fotografia: Jordan Cronenweth. Montagem: Gillian L. Hutsching. Música: Vangelis. Figurino: Michael Kaplan, Charles Knode. Direção de arte/cenários: Lawrence G. Paull/Linda DeScenna. Casting: Jane Feinberg, Mike Fenton, Marci Liroff. Produção executiva: Hampton Francher, Brian Kelly. Produção: Michael Deeley. Elenco: Harrison Ford, Rutger Hauer, Sean Young, Edward James Olmos, Daryl Hannah, M. Emmet Walsh, Joanna Cassidy. Estreia: 25/6/82

2 indicações ao Oscar: Direção de arte, Efeitos Visuais

Definitivamente, quando o assunto é cinema, o tempo é um santo remédio. Quando estreou nos EUA, em 1982, o filme "Blade Runner, o caçador de andróides" foi um fiasco de bilheteria (mesmo estrelado pelo Indiana Jones em pessoa Harrison Ford) e praticamente expulso das salas de exibição devido a críticas negativas. Mesmo tornando-se cult por parte do público, entraria para a história como um dos maiores fracassos da história se, no final da década não fosse descoberta a cópia de uma outra versão do filme, sem as interferências do estúdio no trabalho de seu diretor, Ridley Scott. Essa nova versão tornou-se quase uma lenda urbana, e dez anos depois de sua estreia, voltou às telas de cinema e finalmente recebeu os aplausos que sempre mereceu. Hoje já é reconhecido como uma das obras-primas de seu gênero.

Gênero, aliás, é algo não extremamente rígido em se tratando de "Blade Runner". Apesar de ser nitidamente uma ficção científica - com tudo que isso lhe dá de direito - a visão de Scott (vindo direto do sucesso de "Alien, o oitavo passageiro") dialoga diretamente com os filmes noir que fizeram a glória do cinema americano dos anos 40. Tudo devido ao excelente roteiro inspirado livremente no conto "Do androis dream of eletric sheep?", de Philip K. Dick, que mistura elementos de uma trama policial a uma visão distópica da sociedade do futuro. Passado na Los Angeles de 2019 (ao contrário do conto original, que situava sua trama em 1992), "Blade Runner" mostra uma Terra ultrapovoada, úmida e claustrofóbica que há muito já coloniza outros planetas, através de escravos criados com as principais características humanas, mas com sua força e agilidade redobradas. Esses robôs são chamados "replicantes" e um motim deles deflagra uma caçada violenta e impiedosa, uma vez que suas mortes não são chamadas de assassinato e sim de "aposentadoria". Essa rebelião faz com que um grupo de replicantes volte à Terra e um antigo caçador de andróides, Deckard (Harrison Ford) seja chamado para eliminá-los. Em seu caminho, ele conhece a bela Rachael (Sean Young), secretária da imponente Tyrrell Corporations - que fabrica os replicantes - e se apaixona por ela, mesmo sabendo que ela não é humana. Ao mesmo tempo que lida com isso, ele chega mais e mais perto do líder da rebelião dos robôs, o temido Roy Batty (Rutger Hauer) e passa a questionar sua missão.

O mais impressionante no resultado final de "Blade Runner" é que, qualquer que seja a versão a ser assistida ele continua sendo magicamente fascinante. A narração em off da versão lançada em 1982, mesmo sendo desprezada por Harrison Ford, acrescenta um toque a mais de noir à trama e só peca por seu final feliz exigido pela Warner. A versão do diretor é mais "artística", com o acréscimo de alguns detalhes que fomentam a discussão crucial do filme: afinal de contas Deckard era ou não um replicante, também? Nenhuma conclusão definitiva pode ser considerada, uma vez que nem mesmo os criadores do filme chegam a um consenso. É preciso ver, rever e examinar com cuidado cada cena criada por Scott e companhia para que se tente chegar a um veredicto. Mas será que isso realmente importa?

"Blade Runner", mais do que um filme sobre um homem caçando andróides em um futuro nada auspicioso, é uma bela reflexão sobre os elementos que fazem o ser humano ser "humano", sobre a liberdade, sobre o amor e principalmente sobre a ambição dos homens em brincar de Deus. Ao inserir filosofia em uma trama que normalmente passaria como uma ficção científica com o objetivo de arrecadar fortunas, o inglês Ridley Scott brindou os fãs de cinema com um um filme de uma perenidade inegável. A bela trilha sonora de Vangelis, sua direção de arte high-tec mas nunca exagerada e a fotografia quase palpável de Jordan Cronenweth o elevam acima do corriqueiro. E não deixa de ser saudável perceber que, no mesmo ano em que "ET" - um filme puramente de entretenimento que utilizava elementos de ficção científica para emocionar sem exigir demais do cérebro - foi lançado, tenha chegado às telas um petardo como este, que não apenas faz pensar como ainda não busca a emoção fácil.

"Blade Runner" é, sim, uma obra-prima. Independente da leitura que se faça de suas intenções, é um filme que conseguiu sair do limbo dos fracassos comerciais para o paraíso do reconhecimento tardio. Afinal, nunca é tarde para reconhecer-se erros de julgamento...

Tuesday, June 8, 2010

ALIEN, O OITAVO PASSAGEIRO


ALIEN, O OITAVO PASSAGEIRO (Alien, 1979, 20th Century Fox, 117min) Direção: Ridley Scott. Roteiro: Dan O'Bannon, estória de Dan O'Bannon e Ronald Shusett. Fotografia: Derek Vanlint. Montagem: Terry Rawlings, Peter Weatherley. Música: Jerry Goldsmith. Figurino: John Mollo. Direção de arte/cenários: Michael Seymour/Ian Whittaker. Produção executiva: Ronald Shusett. Produção: Gordon Carroll, David Giler, Walter Hill. Elenco: Tom Skerrit, Sigourney Weaver, Ian Holm, John Hurt, Veronica Cartwright, Harry Dean Stanton, Yaphet Kotto. Estreia: 25/5/79

2 indicações ao Oscar: Direção de arte, Efeitos Visuais

Vencedor do Oscar de Efeitos Visuais


"Do espaço, ninguém pode ouvir você gritar!" Com esse slogan de efeito chegava às telas americanas, em maio de 1979, um filme que iria revolucionar a ficção científica, influenciando todas as posteriores produções do gênero - além de gerar, até agora, três sequências com diretores diferentes e resultados finais variados. Acrescentando elementos de suspense e terror aos tradicionais elementos que o gênero normalmente apresentava, "Alien, o oitavo passageiro", de Ridley Scott virou referência obrigatória. E prova, mais uma vez que os filmes originais são, via de regra, superiores a suas continuações.

A trama de Scott (substituindo o diretor original Walter Hill, que assumiu a produção do filme) se passa dentro da nave comercial Nostromo, que, a caminho de volta à Terra se vê compelida a investigar um pedido de SOS vindo de um planeta próximo à sua rota. Liderados por Dallas (Tom Skerrit), a tripulação de sete integrantes leva um susto quando uma forma de vida desconhecida ataca um de seus colegas, Kane (John Hurt), grudando-se em seu capacete. Ao ser examinado pelo cientista da equipe, Ash (Ian Holm), Kane é morto pelo invasor, que mistura-se às engrenagens da nave, aumentando assustadoramente de tamanho. Conforme todos os membros da tripulação começam a ser aniquilados pelo alien, resta à Tenente Ripley (Sigourney Weaver) lutar pela sua sobrevivência e pela destruição do monstro.

Grande sucesso de bilheteria em 1979, "Alien" deu à novata Sigourney Weaver a chance de sua carreira. Comparada com Jane Fonda pelos sortudos que assistiram a seu teste, ela ficou com o papel central - que era masculino nos primórdios do roteiro e que chegou a ser confirmado como sendo de Veronica Cartwright antes das filmagens - e tornou-se a heroína mais conhecida do cinema de ação hollywoodiano. Dona de um rosto de traços marcantes e exalando uma personalidade forte e corajosa - sem nunca deixar de lado as qualidades que a fazem ser também uma mulher - Weaver empresta à Ripley tudo que é necessário para convencer a plateia a ser seu cúmplice. E de certa forma isso é preciso, pois, apesar da truculência e da crueldade de seu rival, poucas vezes Hollywood construiu um vilão tão à altura dos mocinhos quanto o monstro criado pela imaginação de Dan O'Bannon e pelo talento visual de Carlo Rambaldi.

A equipe de Rambaldi levou o Oscar de efeitos especiais pela criação de seu alien, um monstro quase amorfo que é capaz de fundir-se à nave espacial que invade, sangra ácido e é dono de uma violência sem precedentes. O visual da criatura, que foi ficando maior e mais sofisticado conforme os anos iam passando e a série ia tornando-se mais e mais generosa em termos de orçamento, virou espécie de referência para qualquer ficção científica que se preze e é impossível, hoje em dia, tirar da cabeça sua forma assustadora e ameaçadora.

Ao contrário de sua primeira continuação, dirigida por James Cameron em 1986, que transformava a luta da Tenente Ripley em super-espetáculo, o primeiro capítulo da série opta pelo caminho menos fácil. É somente depois de seis silenciosos minutos que começamos a entender o que é a Nostromo, quem são seus tripulantes e passamos a saber mais sobre suas personalidades. É somente depois do primeiro ataque do monstro que ficamos sabendo que Ash não era o cientista original do grupo, que Dallas e Ripley tem uma relação a mais (a cena de sexo entre os dois foi escrita mas nunca filmada) e que a "Mãe" (computador que passa as coordenadas a serem seguidas) tem ideias diferentes a respeito da manutenção do alienígena dentro da nave. Ridley Scott leva tempo antes de começar a matança, extraindo o possível de cada cena, de cada clima, de cada personagem. E quando o suspense realmente começa, é impossível ficar tranquilo.

Mesmo depois de se assistir a "Alien" inúmeras vezes ainda é interessante perceber como Ridley Scott (que meros 3 anos depois legaria ao mundo o sensacional "Blade Runner") tem o dom de levar o espectador para onde ele quer. Apesar dos termos técnicos utilizados em alguns momentos do longa (problema inevitável em filmes do estilo) o público é seduzido logo de cara pelo intrigante roteiro, pela fotografia claustrofóbica e pela trilha sonora angustiante do mestre Jerry Goldsmith. Não bastasse tudo isso, a plateia ainda leva uma boa meia dúzia de sustos e fica o filme todo na ponta da cadeira. Precisa mais de um filme de terror?

Por mais que os filmes de James Cameron, David Fincher e Jean-Pierre Jeunet (todos cineastas criativos, inteligentes e talentosos) tenham cada um uma assinatura diferente e por conseguinte objetivos diversos, ainda é o escuro e apavorante primeiro capítulo de Ridley Scott que mantém a série "Alien" acima de qualquer suspeita.

Sunday, May 30, 2010

CONTATOS IMEDIATOS DE TERCEIRO GRAU


CONTATOS IMEDIATOS DE TERCEIRO GRAU (Close encounters of the third kind, 1977, Columbia Pictures, 135min) Direção e roteiro: Steven Spielberg. Fotografia: Vilmos Zsigmond. Montagem: Michael Kahn. Música: John Williams. Direção de arte/cenários: Joe Alves/Phil Abramson. Casting: Shari Rhodes, Juliet Taylor. Produção: Michael Phillips, Julia Phillips. Elenco: Richard Dreyfuss, Melinda Dillon, François Truffaut, Teri Garr, Bob Balaban, Lance Henriksen. Estreia: 15/11/77

8 indicações ao Oscar: Diretor (Steven Spielberg), Atriz Coadjuvante (Melinda Dillon), Fotografia, Montagem, Trilha Sonora, Direção de arte, Som, Efeitos Visuais

Vencedor de 2 Oscar: Fotografia e Efeitos Sonoros (especial)


Seis meses depois que George Lucas revolucionou os filmes de ficção científica com seu "Star Wars" - que se tornaria um dos maiores sucessos da história do cinema - seu amigo Steven Spielberg mostrou ao mundo uma nova visão do gênero. Com um ponto de vista totalmente diferente do que as aventuras de Luke Skywalker contra a Estrela da Morte - que bem ou mal soa um tanto infantilóide -, "Contatos imediatos de terceiro grau" conta uma história bem menos fantasiosa, ainda que esteja longe de ser chamada de realista. Grande sucesso de bilheteria, foi o segundo êxito consecutivo do diretor, que começava a tornar-se o mais bem sucedido cineasta de sua geração.

"Contatos" se utiliza de pessoas normais, que vivem vidas comuns, para contar sua história. Uma delas é Roy Neary (Richard Dreyfuss), um técnico em eletricidade que vive com a mulher (Teri Garr) e os filhos em uma cidade tranquila dos EUA. Em uma noite em que a energia da cidade simplesmente acabou ele tem a visão de um disco-voador e, apesar da desconfiança da família, descobre que várias outras pessoas da região também testemunharam o evento. Entre as pessoas que acreditam em sua história está Jillian Guiler (Melinda Dillon), uma mãe solteira que logo em seguida tem seu filho sequestrado por uma nave espacial. Tornando-se obcecado pela visão, Roy logo vê seu casamento entrar em crise, mas, ao lado de Jillian, descobre que o governo sabe muito mais do que quer revelar. Juntos, eles decidem ir até Devil's Peak, lugar onde, de acordo com as pistas deixadas pelos aliens, haverá um contato entre a Terra e eles.

Em "Contatos imediatos de terceiro grau" Steven Spielberg dá seu primeiro passo na direção de mostrar alienígenas pacíficos e bonzinhos (como o faria com mais propriedade ainda em "ET", cinco anos depois). Ainda que não se saiba as verdadeiras intenções dos visitantes até seus minutos finais (empolgantes, diga-se de passagem), o diretor/roteirista consegue manter o clima de suspense em um nível tolerável, senão quase morno. Em nenhum momento do filme existe a intenção de provocar sustos (como em seu sucesso anterior "Tubarão") ou mostrar sequências de ação (como o faria em seu filme seguinte, "Caçadores da Arca Perdida"). Aqui, Spielberg equilibra drama familiar, pesquisa científica e um suspense agradável, que vai envolvendo o público aos poucos, até chegar em seu clímax emocionante.

E é realmente emocionante a maneira com que o roteiro (originalmente concebido por Paul Schrader) se desenrola frente ao espectador. Tudo começa misteriosamente, quando um avião desaparecido durante a II Guerra subitamente aparece, com todos os seus tripulantes fisicamente intactos. Depois, há o blecaute. Mais tarde, a visita das naves espaciais. O sequestro do filho de Jillian. A descoberta de um canto secreto praticado na Índia, aparentemente mandado do céu (e que o menino abduzido tocava em seu instrumento de brincadeira). A obsessão de Roy com uma forma específica que se lhe revela a forma da montanha onde os extra-terrestres aparecerão para comunicar-se. Tudo é colocado bem devagar, na hora certa, sem pressa (daí a duração um tanto exagerada do filme). Em alguns momentos tem-se a impressão de que a história não está andando. E ai se chega à sequência final.

Logicamente tudo que aconteceu antes das cenas finais de "Contatos imediatos" foi apenas uma preparação para elas. A impressionante música composta por John Williams para o filme torna-se personagem indispensável no diálogo travado entre os humanos e seus misteriosos visitantes (diálogo liderado pela personagem do cineasta francês François Trufaut): é impossível ouvir os acordes da trilha de Williams sem lembrar imediatamente do filme de Spielberg (assim como acontece com todas as partituras do compositor para a obra do cineasta). Nos minutos finais de "Contatos" tudo parece maior, mais caprichado, mais detalhado. A bela fotografia de Vilmos Zsigmond é adequada ao clima de tensão e surpresa criado pela trama e nem mesmo o encerramento da história (que Spielberg já declarou que seria diferente se ele fizesse o filme nos dias de hoje) soa forçado. Tecnicamente perfeito, "Contatos" usa de seus efeitos visuais com parcimônia, concentrando seu esforço maior em construir uma boa e verossímil narrativa do que em surpreender com tecnologia de ponta.

Longe de ser o melhor filme de Steven Spielberg, "Contatos imediatos de terceiro grau" é uma divertida e admiravelmente bem contada sessão da tarde, capaz de seduzir os fãs do gênero e encantar aqueles que preferem histórias mais humanas. É um filme otimista, do tempo em que o cineasta ainda era o Peter Pan que a mídia descreveu. E como tal, não ofende nem machuca ninguém. Uma diversão de primeira categoria!