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Thursday, December 1, 2011

MINORITY REPORT, A NOVA LEI

MINORITY REPORT, A NOVA LEI (Minority report, 2002, 20th Century Fox/Dreamworks SKG, 145min) Direção: Steven Spielberg. Roteiro: Scott Frank, Jon Cohen, conto de Philip K. Dick. Fotografia: Janusz Kaminski. Montagem: Michael Kahn. Música: John Williams. Figurino: Deborah L. Scott. Direção de arte/cenários: Alex McDowell/Anne Kuljian. Produção executiva: Gary Goldman, Ronald Shusett. Produção: Bonnie Curtis, Gerald R. Molen, Walter F. Parkes. Elenco: Tom Cruise, Colin Farrell, Max Von Sydow, Samantha Morton, Lois Smith, Tim Blake Nelson, Peter Stormare. Estreia: 17/6/02

Indicado ao Oscar de Edição de Som

É o ano de 2054, e o índice de criminalidade da cidade de Washington despencou vertiginosamente. O responsável por esse milagre é um projeto chamado "Pré-crime", que permite à força policial antecipar-se aos homicídios premeditados e evitar os crimes graças às premonições de três poderosos videntes, mantidos em constante cuidado pelo departamento de polícia. O chefe da equipe "Pré-crime" é o detetive John Anderton (Tom Cruise), um homem assombrado pelo desaparecimento do filho pequeno anos antes e que encontra no vício em drogas uma forma de escapar da depressão. Às vésperas de uma votação popular que irá consagrar definitivamente o projeto e torná-lo nacional, Anderton - um policial de extrema competência e ética - se vê envolvido em um apavorante pesadelo kafkiano: em menos de 36 horas ele será o responsável pelo assassinato de um homem cuja existência ele nem mesmo tem conhecimento. Desesperado para provar sua inocência (em um crime ainda não cometido), ele sequestra Agatha (Samantha Morton), a mais dotada das videntes e parte em busca da verdade. Atrás dele está principalmente Danny Witwer (Colin Farrell), que quer encontrar falhas no sistema.

Baseado em um conto do escritor Philip K. Dick - cuja mente fértil deu ao cinema as histórias de "Blade Runner" e "O vingador do futuro" - "Minority report, a nova lei" marca o reencontro de Steven Spielberg com a ficção científica, gênero do qual estava afastado desde seu megasucesso "ET", de 1982 - isso se "Jurassic Park" não for considerado como tal. Nos vinte anos que separam os dois filmes, a tecnologia do cinema alterou-se drasticamente - boa parte devido aos filmes do próprio cineasta - e Spielberg tornou-se um diretor respeitado, vencedor de 2 Oscar. Portanto, é lógico que exista uma diferença abissal entre a ingenuidade oitentista da clássica história da amizade entre o menino Elliot e seu extra-terrestre de estimação e a distópica visão de mundo do filme estrelado por Cruise. Realizado a um custo altíssimo - mais de cem milhões de dólares - "Minority report" é uma ficção científica noir, ao estilo de "Blade runner", mas sem espaço para a filosofia melancólica do filme de Ridley Scott.



Se dá para comparar "Minority report" com algum outro filme baseado em Dick, este é "O vingador do futuro", estrelado por Arnold Schwarzenegger em 1990, mas mesmo assim o trabalho de Spielberg ganha pontos em não se deixar contaminar pelo certo ar cafona da produção dirigida pelo holandês Paul Verhoeven. Seus efeitos especiais são mais discretos, dando espaço bem mais à história complexa (bastante modificada do conto original, diga-se de passagem) do que a mirabolantes pirotecnias visuais, que estão presentes mas em um nível muito mais sutil. A fotografia espetacular do premiado Janusz Kaminski é estourada, dando à imagem um aspecto feio e descuidado que combina à perfeição com o objetivo do cineasta de passar ao público uma sensação de angústia. E angústia é o que não falta: durante suas mais de duas horas e meia de duração, "Minority report" não dá tréguas ao espectador, levando-o como testemunha do calvário de seu protagonista em direção à verdade. O roteiro cria transplantes de olhos, aranhas que dão choque, propagandas personalizadas, caixas de cereais animadas e tudo que um escritor criativo pode imaginar, mas não se deixa nunca fugir do mais importante: a história empolgante e surpreendente.

Muito mais inteligente do que a maioria dos filmes de ação com pretensões comerciais que aportam nos cinemas americanos na temporada de verão - bem na época em que foi lançado - "Minority report" tem a seu favor também o carisma de Tom Cruise, ainda no auge de seu sucesso. Ainda que não explore como poderia as possibilidades dramáticas de sua complexa personagem, Cruise é competente o bastante para conquistar a simpatia do público, fator essencial para o êxito do filme, mesmo porque seu rival em cena é o irlandês Colin Farrel - que, em 2002 era considerado a grande promessa do início do século. É Cruise quem sustenta toda a mirabolante trama - que envolve até mesmo o veterano Max Von Sydow - e mantém a atenção da plateia suspensa até os minutos finais. O equilíbrio exato entre cenas da mais alta ação (inclusive com uma sequência que Hitchcock declarou certa vez que sonhava fazer, em uma fábrica de automóveis) com o misterioso homicídio a ser perpetrado por John Anderton é que faz com que o filme seja mais do que um simples entretenimento passageiro.

E seria injusto elogiar "Minority report" sem citar Samantha Morton. Na pele de Agatha, a talentosa vidente que desencadeia todo o drama (e cujo nome é uma homenagem à escritora Agatha Christie), a jovem atriz nem precisa falar muito para transmitir toda a vasta gama de emoções que permeia sua personalidade. Vinda de uma indicação ao Oscar de coadjuvante (pelo ótimo "Poucas e boas", de Woody Allen), Morton consegue roubar a cena e ser tão memorável quanto os inventivos efeitos visuais e a rocambolesca trama central.

Monday, June 6, 2011

AMOR ALÉM DA VIDA

AMOR ALÉM DA VIDA (What dreams may come, 1998, Polygram Filmed Entertainment, 113min) Direção: Vincent Ward. Roteiro: Ron Bass, romance de Richard Matheson. Fotografia: Eduardo Serra. Montagem: David Brenner, Maysie Hay. Música: Michael Kamen. Figurino: Yvonne Blake. Direção de arte/cenários: Eugenio Zanetti/Cindy Carr, Josh Fifarek. Produção executiva: Ted Field, Erica Huggins, Scott Kroopf. Produção: Barnet Bain, Stephen Simon. Elenco: Robin Williams, Annabella Sciorra, Cuba Gooding Jr., Max Von Sydow. Estreia: 28/9/98

2 indicações ao Oscar: Direção de Arte/Cenários, Efeitos Visuais
Vencedor do Oscar de Efeitos Visuais

 Normalmente, quando um filme leva o Oscar de efeitos visuais logo se imagina que seja uma obra de ação recheada de explosões, alienígenas ou monstros assustadores. No entanto, felizmente os recursos com que o cinema brinda seus espectadores também podem servir a histórias com alto teor humano. É o que acontece com "Amor além da vida", belíssima história de amor, com toques espirituais dirigida com extrema sensibilidade pelo neozelandês Vincent Ward. Baseado em um romance de Richard Matheson - mesmo autor de "Em algum lugar do passado" - o filme é uma viagem pictória e emocional valorizado pela atuação delicada de Robin Williams, pelo visual arrebatador e pelo teor espiritualista capaz de emocionar qualquer espectador.

Williams, contido e carismático, vive o médico Chris Nelson, que vive uma felicidade de cartão postal com a esposa Annie (Annabella Sciorra), uma dedicada marchand. A harmonia da família é brutalmente interrompida quando eles perdem o casal de filhos pequenos em um acidente de carro. Depois de anos tentando fazer com que a esposa pare de se culpar pelo acidente, ele mesmo acaba se tornando vítima de um desastre automobilístico. Assim que chega no paraíso, que ele descobre ser particular (ou seja, criado por sua própria mente), ele reconhece um antigo mentor na pele de um jovem negro (Cuba Gooding Jr.), que lhe serve como cicerone. Enquanto encanta-se com a vida após a morte apresentada a ele, Chris fica sabendo de uma tragédia: não conseguindo sobreviver à falta que sente da família, Annie cometeu suicídio e, como consequência, não pode sair do inferno. Contando com a ajuda de um velho bibliotecário (Max Von Sydow), ele resolve buscar a mulher que ama, desafiando as regras estabelecidas. Em seu caminho à procura de Annie, novas e dramáticas revelações serão feitas e mais reencontros acontecerão.



O roteiro, escrito pelo mesmo Ronald Bass que levou o Oscar por "Rain Man" pode até ser descrita como piegas e um tanto exagerada. As tragédias que rondam a família Nelson soam um tanto forçadas, mas não há como negar que a maneira com que o roteirista desenvolve a odisséia do protagonista encontra um respaldo mais do que suficiente nos espetaculares efeitos criados para o filme. Poucas vezes se viu no cinema um visual tão deslumbrante e criativo (ainda que um pouco brega em determinados momentos). No filme de Ward, cada pessoa escolhe seu próprio paraíso, e Chris, ligado à arte e à pintura, tem um Éden majestoso, delicado e colorido. O destino de Annie, porém, bem mais trágico e pesado, dá lugar a um assustador inferno, que remete diretamente à "Divina Comédia", de Dante. O paraíso de sua filha, por sua vez, repete uma maquete que ela adorava quando criança, e assim por diante.

Tudo bem que o dramalhão corre solto em boa parte do filme, mas o esforço de Robin Williams em fugir de seu estereótipo de palhaço de plantão, os efeitos visuais inesquecíveis, o belíssimo desfecho e a atuação sensível de Annabella Sciorra (que ficou com um papel cobiçado por Annette Bening) compensam os escorregões e levam às lágrimas. Sem dúvida "Amor além da vida" é uma alternativa bem mais consistente ao xaroposo "Ghost, do outro lado da vida", que também trata do tema de vida após a morte mas sem o mesmo grau de sofisticação e inteligência.

Monday, July 19, 2010

HANNAH E SUAS IRMÃS


HANNAH E SUAS IRMÃS (Hannah and her sisters, 1986, Orion Pictures, 103min) Direção e roteiro: Woody Allen. Fotografia: Carlo Di Palma. Montagem: Susan E. Morse. Figurino: Jeffrey Kurland. Direção de arte/Cenários: Stuart Wurtzel/Carol Joffe. Casting: Juliet Taylor. Produção executiva: Charles H. Joffe, Jack Rollins. Produção: Robert Greenhut. Elenco: Woody Allen, Mia Farrow, Michael Caine, Barbara Hershey, Dianne Wiest, Max Von Sydow, Maureen O'Sullivan, Julia Louis-Dreyfus, Carrie Fisher, J.T. Walsh, John Turturro. Estreia: 07/02/86

7 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Woody Allen), Ator Coadjuvante (Michael Caine), Atriz Coadjuvante (Dianne Wiest), Roteiro Original, Montagem, Direção de arte/cenários

Vencedor de 3 Oscar: Ator Coadjuvante (Michael Caine), Atriz Coadjuvante (Dianne Wiest), Roteiro Original

Vencedor do Golden Globe de Melhor Filme Comédia/Musical


Um ano depois do emocionante “A rosa púrpura do Cairo”, o cineasta Woody Allen volta às origens com “Hannah e suas irmãs”, onde apresenta seus tradicionais elementos de estilo em um filme que pode tranqüilamente constar na lista de seus melhores trabalhos. Ao misturar com equilíbrio invejável o drama e a comédia fina, Allen criou um espetáculo adulto e verdadeiro, sem os apelos emocionais e fantasiosos de seu excelente trabalho anterior.

Mia Farrow novamente é a protagonista, se é que pode-se dizer que existe um protagonista. Hannah é uma atriz que está de volta aos palcos depois de um retiro opcional. Dedicada à família, ela nem sequer percebe que seu marido, Elliot (um Michael Caine exemplar, vencedor do Oscar de ator coadjuvante) está caindo de amores por sua irmã caçula, a perdida Lee (Barbara Hershey), que vive com um artista plástico mais velho e isolado (Max Von Sydow). Enquanto Elliot e Lee vivem seu hesitante caso extra-conjugal, Hannah tem que lidar também com a falta de rumo profissional de sua irmã do meio (Dianne Wiest, impecável e premiada com o Oscar de atriz coadjuvante) e a busca de seu ex-marido (o próprio Allen), que, ao julgar-se fatalmente doente, parte em busca de uma nova religião que lhe dê as respostas que ele procura.

"Hannah e suas irmãs" é um filme delicioso, um drama leve que usa e abusa de seu elenco formidável e da veia cômico/dramática de Allen, em um momento inspiradíssimo de sua carreira. Ao optar por ser um coadjuvante e abrir espaço para um trio de atrizes espetaculares, ele mostra sua generosidade e talento em criar personagens complexas e verossímeis, além de nunca abandonar a ironia característica de seus melhores trabalhos. E a química invejável entre Mia Farrow (dona do apartamento de Hannah na vida real), Barbara Hershey (em papel oferecido a Brooke Shields) e Dianne Wiest transforma a experiência de assistir ao filme em uma delícia.

Sem buscar alcançar objetivos maiores do que um bom par de horas com diálogos inteligentes e personagens bem delineados, Allen mostra mais uma vez sua força em escrever roteiros. Não à toa, ele também levou seu Oscar na categoria, o que prova que filmes adultos, bem escritos e dirigidos também têm seu lugar garantido entre os fãs de cinema. E uma prova da qualidade de seu roteiro é o fato do mesmo ter sido considerado para um Pulitzer, o que nunca aconteceu com scripts cinematográficos até hoje. Prestígio merecido!

Friday, May 21, 2010

O EXORCISTA


O EXORCISTA (The exorcist, 1973, Warner Bros Pictures, 132min) Direção: William Friedkind. Roteiro: William Peter Blatty, baseado em seu romance homônimo. Fotografia: Owen Roizman. Montagem: Norman Gay, Evan Lottman. Figurino: Joe Fretwell. Direção de arte/cenários: Bill Malley/Jerry Wunderlich. Casting: Louis DiGiamo, Nessa Hyams, Juliet Taylor. Produção executiva: Noel Marshall. Produção: William Peter Blatty. Elenco: Ellen Burstyn, Max Von Sydow, Lee J. Cobb, Jason Miller, Linda Blair, Jack MacGowran, Kitty Winn. Estreia: 26/12/73

10 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (William Friedkin), Atriz (Ellen Burstyn), Ator Coadjuvante (Jason Miller), Atriz Coadjuvante (Linda Blair), Roteiro Adaptado, Fotografia, Montagem, Direção de Arte, Som

Vencedor de 2 Oscar: Roteiro Adaptado, Som

Vencedor de 4 Golden Globes: Melhor Filme/Drama, Diretor (William Friedkin), Atriz Coadjuvante (Linda Blair), Roteiro


Ao ganhar um prêmio de 10 mil dólares em um programa apresentado por Groucho Marx, um desconhecido chamado William Peter Blatty declarou que, com o dinheiro, ele tiraria um tempo de folga para escrever um romance. Publicado anos depois, este romance, chamado "O exorcista" assustaria milhares de pessoas, e não só através das palavras. Produzido pela Warner Bros e com produção e roteiro do próprio autor, "O exorcista" tornou-se um dos filmes de maior bilheteria da história do estúdio, ganhando em seguida, continuações, prequels e várias revisões, sempre com qualidade inferior.

Normalmente relegados a um inestimado segundo plano dentro da indústria cinematográfica, raramente os filmes de terror conseguem sair de dentro de seu gueto de fãs aficcionados e atingir não só uma plateia mais ampla mas também o reconhecimento devido junto à crítica. Por isso, não deixa de ser um fenômeno que "O exorcista" tenha conseguido essa façanha de forma tão absoluta e inegável. Incensado pela crítica e vencedor de 4 Golden Globes (inclusive melhor drama e diretor), logo a obra dirigida pelo mesmo William Friedkin do elogiado "Operação França" arrebataria surpreendentes 10 indicações ao Oscar, em especial nas categorias principais, tornando-se o primeiro filme de terror da história a conquistar tal honra. Não saiu vitorioso (o prêmio ficou com "Golpe de mestre"), mas, com milhões e milhões de dólares abarrotando seus cofres, a Warner definitivamente não tinha do que reclamar.

"O exorcista" se passa em Washington, onde a atriz Chris McNeil (Ellen Burstyn) está fazendo seu novo filme. Nos seus momentos livres, ela fica ao lado da filha adolescente Regan (Linda Blair) e dos colegas de produção. A relativa paz que reina entre ela e a filha começa a dar sinais de alarme quando a menina, normalmente doce e compassiva, começa a agir estranhamente: de uma hora pra outra, Regan começa a dizer palavrões, a comportar-se de forma agressiva e reclamar que sua cama fica pulando. Vários exames médicos depois, nada parece estar resolvido e as coisas ficam ainda piores. Inúmeros acontecimentos violentos e bizarros depois levam Chris a chegar à conclusão, com a ajuda do jovem Padre Karras (Jason Miller) - que trabalha com psicologia e está em uma crise de fé por causa da morte da mãe - que sua filha está possuida por um demônio. A única solução para o caso, seria, então, um exorcismo. A Igreja chama, para isso, o conceituado Padre Merrin (Max Von Sydow), que acaba de voltar aos EUA depois de uma escavação no Iraque.

Filmado em 224 dias (em oposição a seu cronograma inicial de 85), "O exorcista", assim como todos os filmes da época, foi objeto de muita especulação antes de ser produzido, com muitos nomes de Hollywood envolvidos - ou apenas citados - como possíveis colaboradores. Antes que William Friedkin assumisse o posto de diretor, por exemplo, nomes como John Boorman e Stanley Kubrick foram cogitados para o posto - Kubrick não acertou com o estúdio porque queria produzir ele mesmo o filme Boorman recusou porque o roteiro era "muito cruel com uma criança", o que não o impediu de, quatro anos depois, sentar-se na cadeira de diretor de sua bem inferior continuação.

Para a pele de Chris McNeil, nomes importantes foram considerados. Jane Fonda e Shirley MacLaine se interessaram pelo roteiro. Audrey Hepburn quis fazê-lo, mas somente se fosse filmado em Roma. E Anne Bancroft abandonou o barco devido a sua primeira gravidez. Até mesmo o nome de Debbie Reynolds foi cogitado, com sua filha Carrie Fisher (que em seguida atingiria a fama como a Princesa Leia de "Star Wars") vivendo Regan. Mas é inegável que a contratação de Ellen Burstyn foi acertada. Às vésperas de ganhar um Oscar por "Alice não mora mais aqui" (lançado em 1974), Burstyn entrega uma atuação visceral e desesperada, que exigiu dela fortes doses de emoção e trabalho físico (ela chegou a machucar seriamente a coluna durante um take).

Para viver o veterano Padre Merrin a coisa também não foi diferente. Marlon Brando poderia ter interpretado o papel que foi de Max Von Sydow, mas os produtores acharam - com razão, diga-se de passagem - que a presença de Brando no elenco faria de "O exorcista" um "filme de Marlon Brando" antes de qualquer outra coisa, o que não os interessava. E para viver o jovem Padre Karras, nomes fortes como Gene Hackman e Jack Nicholson foram sondados. Dá pra imaginar como tudo ficaria com esse elenco de sonhos??

Mesmo que os créditos de "O exorcista" não tenha sido repleto de astros, é impossível negar que as opções dos produtores não poderiam ter sido melhores. Rígido e decidido, William Friedkin foi o diretor ideal do filme, fazendo prevalecer sua visão desde o início das filmagens. Max Von Sydow e Jason Miller (pai do ator Jason Patric) equilibram com perfeição as dualidades de suas personagens religiosas. E Linda Blair demonstra, aos 14 anos, que sabe interpretar como gente grande, o que seu Golden Globe e a indicação ao Oscar comprovaram, apesar das dúvidas suscitadas pela atriz Mercedes McCambridge depois dos elogios ao filme. McCambridge foi a responsável pela voz do demônio encarnado em Regan e alegou que merecia tanta glória quanto a adolescente. Coisas de Hollywood!

"O exorcista" é brilhante! Assustador como poucos, é um filme que conta sua história sem pressa, sem correria. Até que Regan comece realmente a demonstrar os efeitos da possessão em seu corpo passa-se quase uma hora, onde o roteiro trabalha com eficiência as personalidades das personagens envolvidas na questão. A subtrama que envolve o Padre Karras e seu questionamento da fé mostra-se essencial à história central, assim como a primeira sequência no Iraque, onde o Padre Merrin tem seu primeiro contato com o demônio que irá exorcisar tempos depois - aliás, é sensacional a maneira com que Friedkin acusa a presença do mal nas cenas. No Iraque, dois cães começam a brigar, assim como duas crianças no hospital onde Regan é examinada, o que amplia a tensão nas cenas. E a edição especial - com 11 minutos a mais do que a versão lançada em 1973 - acrescenta rápidas imagens do mal inseridas entre as cenas, no melhor estilo "piscou, perdeu", o que dá um clima mais do que propício à tensão criada pela música e pela fotografia majestosa de Owen Roizman. E isso que nem é preciso falar dos inúmeros acontecimentos quase inexplicáveis ocorridos durante as filmagens e dissecados em extraordinário documentário sobre a produção infelizmente disponível no Brasil apenas em VHS (é de apavorar tanto quanto o filme em si!!)

Assistir a "O exorcista" hoje ainda é extremamente impressionante! Poucas vezes o cinema de horror foi tão a fundo - e tão gráfico - em investigar o mal. Apesar de nunca poupar o espectador, ele jamais ultrapassa os limites do que é verdadeiramente útil para contar sua história, sem apelar para sustos desnecessários. Um exemplo a ser seguido pelos Eli Roth da vida...