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Wednesday, November 10, 2010

NEBLINA E SOMBRAS

NEBLINA E SOMBRAS (Shadows and fog, 1991, Orion Pictures, 85min) Direção e roteiro: Woody Allen. Fotografia: Carlo Di Palma. Montagem: Susan E. Morse. Figurino: Jeffrey Kurland. Direção de arte/cenários: Santo Loquasto/George DeTitta Jr., Amy Marshall. Casting: Juliet Taylor. Produção executiva: Charles H. Joffe, Jack Rollins. Produção: Robert Greenhut. Elenco: Woody Allen, Mia Farrow, John Malkovich, Madonna, Donald Pleasance, Lily Tomlin, Jodie Foster, Kathy Bates, John Cusack, John C. Reilly, Philip Bosco, Kurtwood Smith, Kate Nelligan, Fred Gwyne, William H. Macy, Wallace Shawn. Estreia: 05/12/91

Os detratores adoram dizer que os filmes de Woody Allen são repetitivos, que seu estilo não é exatamente criativo e que seu humor judaico/neurótico/nova-iorquino/sofisticado não sai do chove-não molha. No entanto, se o diretor não estivesse no elenco de "Neblina e sombras" - seu filme de maior orçamento até hoje - era bem pouco provável que qualquer crítico do cineasta pudesse reconhecer no filme qualquer das características que marcaram sua carreira. Com exceção da inteligência - e da marca registrada de usar nomes famosos em papéis pequenos ou quase pontas - nada nessa bela homenagem ao expressionismo alemão do início do século XX aponta para o fato que seu diretor é Allen.

A primeira diferença entre "Neblina e sombras" e o resto da filmografia de Woody diz respeito à geografia. Enquanto a vasta maioria de seus filmes se passa em Nova York e arredores, aqui a história acontece em uma pequena cidade da Alemanha aterrorizada por um assassino serial que mata suas vítimas estranguladas. Para caçar o criminoso vários grupos se formam, com moradores buscando resolver a situação com as próprias mãos, uma vez que o governo parece não se importar com os trágicos acontecimentos. Kleinman (vivido pelo diretor) é um homem comum - preocupado em ser deixado em uma promoção no trabalho - que é escalado por uma dessas facções, que pedem sua ajuda, sem nunca lhe explicar sua missão. Enquanto vaga pela cidade, envolta em neblina e sombras como o título do filme sugere, ele dá de cara com Irmy (Mia Farrow), a engolidora de espadas de um circo que está se apresentando na cidade. Depois de flagrar o marido, o palhaço do circo (John Malkovich) nos braços de sua sedutora colega Marie (Madonna), Irmy encontra abrigo no bordel da cidade, onde desperta o desejo do jovem estudante Jack (John Cusack). Ao lado de Kleinman, ela tentará manter-se longe do assassino e reconstruir sua vida.



Fotografado em belíssimo preto-e-branco por Carlo Di Palma, "Neblina e sombras" também foge do estilo forjado pelo cineasta em décadas de experiência ao evitar piadas intelectualizadas demais - talvez Allen já soubesse que o projeto em si já era suficientemente arriscado comercialmente para que ele confiasse na fidelidade cega de seu público. Ao misturar um humor muito disfarçado e um suspense sem sustos, ele criou um gênero híbrido que, obviamente, não encontrou sua audiência e nem encantou a crítica. Motivos não faltam para essa frieza toda, mas não deixa de ser um exagero essa absoluta apatia em relação ao filme.

Sem dúvida nenhuma, "Neblina e sombras" não é nem de longe um Woody Allen das melhores safras: não é particularmente engraçado, nem denso ou mesmo leve. Mas é inteligente como qualquer trabalho seu - com ecos de "O processo", de Kafka e do filme "M, o vampiro de Dusseldorf", de Fritz Lang -, é extraordinariamente bem realizado - os sets foram construídos especificamente - e só o fato de reunir o elenco que reuniu é de aplaudir entusiasticamente: ao lado dos já citados, desfilam pela tela Jodie Foster, Kathy Bates, Kate Nelligan, Lily Tomlin e Donald Pleasance. Mas aparenta ser mais longo, talvez culpa da morosidade do roteiro e tem um clímax um tanto quanto fraco em relação ao que promete em seu promissor começo.

Para os fãs de Woody Allen, é obrigatório como todos os seus filmes. Para aqueles que acreditam que ele é sempre o mesmo, é necessário. Mas para quem simplesmente não gosta do diretor, não é a maneira correta de começar a gostar.

Wednesday, October 27, 2010

SIMPLESMENTE ALICE

SIMPLESMENTE ALICE (Alice, 1990, Orion Pictures, 102min) Direção e roteiro: Woody Allen. Fotografia: Carlo di Palma. Montagem: Susan E. Morse. Figurino: Jeffrey Kurland. Direção de arte/cenários: Santo Loquasto/Susan Bode. Casting: Juliet Taylor. Produção executiva: Charles H. Joffe, Jack Rollins. Produção: Robert Greenhut. Elenco: Mia Farrow, Alec Baldwin, Blythe Danner, Judy Davis, William Hurt, Joe Mantegna, Cybill Sheperd, Gwen Verdon, Julie Kavner. Estreia: 25/12/90

Indicado ao Oscar de Roteiro Original

Que Woody Allen é um cineasta autoral, independente e criativo todo mundo sabe! Dono de uma carreira que, a despeito de não ter nenhum êxito comercial retumbante é absolutamente respeitada pela integridade, ele é capaz de equilibrar pequenas obras-primas como "Crimes e pecados" com filmes que não obtiveram o mesmo sucesso entre a crítica e o público, como é o caso de "Simplesmente Alice". Mesmo tendo sido indicado ao Oscar de roteiro original, o 21º longa-metragem de Allen não tem o mesmo frescor que a maioria de seus trabalhos, utilizando elementos de outros filmes com a sua assinatura ao lado de um elemento novo:a fantasia.

Mia Farrow é novamente a protagonista em "Simplesmente Alice". Ela vive Alice Tate, uma mulher que vive dividida entre compromissos sociais, visitas ao shopping e aos salões de beleza e um casamento morno com o bem-sucedido Doug (William Hurt). Sofrendo de constantes dores nas costas, ela visita o afamado Dr. Yang (Keye Luke), acunpunturista recomendado por todas as suas amigas. Surpreendida pelo tratamento do médico oriental, que lhe oferece os mais variados tipos de ervas naturais - que permitem que ela fique invisível, que fale com um ex-namorado morto (Alec Baldwin) e que se torne menos tímida - ela aproveita o momento para levar adiante um hesitante romance com Joe Ruffalo (Joe Mantegna), músico divorciado, pai de uma colega de seus filhos pequenos. Além disso, passa a questionar suas escolhas em abandonar tudo para tornar-se esposa e mãe.

A trama lembra "A outra", filme bastante superior dirigido por Allen em 1988. No entanto, o cineasta não é feliz em lançar mão de alguns artifícios que não combinam com seu estilo. Ver Alice voando sobre Nova York ao lado do falecido namorado não encanta como deveria e sim torna-se bobo. Até mesmo o fato de conseguir ficar invisível para espionar a vida do amante, das melhores amigas e do marido infiel soa como uma solução fácil e sem imaginação. Suas dúvidas a respeito de seguir uma nova carreira como escritora e sua relação mal-resolvida com a irmã advogada (Blythe Danner, mãe da atriz Gwyneth Paltrow) são extremamente semelhantes às questões levantadas por Gena Rowlands em "A outra", mas sem o peso e a densidade do filme anterior.

Sendo assim, "Simplesmente Alice" é um filme ruim? De jeito nenhum. Woody Allen é incapaz de criar alguma coisa que seja menos do que interessante. Mia Farrow novamente entrega uma atuação consistente, mesmo quando sua personagem passa por situações quase inverossímeis. O elenco coadjuvante também não atrapalha nem um pouco - até mesmo Joe Mantegna consegue apagar sua imagem de "gângster" e William Hurt, apesar de não ter muito o que fazer, pontua com correção mais uma grande interpretação de Mia. Nem mesmo o final um tanto abrupto consegue esconder o fato, no entanto, de que Allen tem o que dizer em qualquer trabalho que assine.

"Simplesmente Alice" não é um dos mais populares trabalhos de Woody Allen. Ao assistí-lo logo se vê os motivos. Não é particularmente engraçado nem especialmente sério. Mas é Woody Allen é sempre Woody Allen, quer seja para o bem ou para o mal.

Thursday, September 30, 2010

CRIMES E PECADOS

CRIMES E PECADOS (Crimes and misdemeanors, 1989, Orion Pictures, 104min) Direção e roteiro: Woody Allen. Fotografia: Sven Nykvist. Montagem: Susan E. Morse. Figurino: Jeffrey Kurland. Direção de arte/cenários: Santo Loquasto/Susan Bode. Casting: Juliet Taylor. Produção executiva: Charles H. Joffe, Jack Rollins. Produção: Robert Greenhut. Elenco: Woody Allen, Mia Farrow, Alan Alda, Martin Landau, Anjelica Huston, Claire Bloom, Sam Waterston, Jerry Orbach. Estreia: 13/10/89

3 indicações ao Oscar: Diretor (Woody Allen), Ator Coadjuvante (Martin Landau), Roteiro Original

Em sua vasta carreira como cineasta, onde comédias sofisticadas dividem espaço com dramas existenciais profundos e densos, Woody Allen criou quase que um universo próprio, facilmente reconhecível dentro de sua ... Mesmo que nem sempre acerte em cheio - ainda que até mesmo seus filmes menores sejam excelentes -, Allen de vez em quando aparece no auge de seu ofício, entregando à plateia filmes tão sensacionais que é difícil não reconhecer sua importância seminal no cinema americano. Um desses exemplos é "Crimes e pecados", um trabalho impecável de roteiro e direção, que é quase que uma reunião do que de melhor ele pode oferecer ao público. Um certo senso de humor melancólico, neuroses urbanas e uma dose de pessimismo (realismo?) fazem do ... do diretor uma de suas obras-primas. E para isso, ele não precisou nem de grandes astros nem de um orçamento estratosférico. Não foi ao Vietnã (como em "Nascido em 4 de julho"), não assumiu nenhum tom paternalista em relação à velhice (como em "Conduzindo Miss Daisy") nem falou de superações pessoais (como em "Em nome do pai"). "Crimes e pecados" fala de pessoas simples, com problemas que lhes atormentam a alma. Talvez por isso não tenha encontrado lugar entre os finalistas ao Oscar principal - ainda que tenha concorrido nas categorias de diretor, roteiro original e ator coadjuvante.

Retomando a ciranda de relacionamentos com que já havia brincado em "Hannah e suas irmãs" - com matizes mais leves e também bem-sucedidos - Allen conta várias histórias paralelas que se encontram sutilmente, graças a um roteiro bem costurado. O próprio diretor interpreta Cliff Stern um documentarista que se vê obrigado a ir contra os próprios ideais ao aceitar conduzir um programa de TV enfocando seu cunhado, o produtor de televisão Lester (Alan Alda, sensacional). Durante o processo, ele se apaixona pela produtora do show, Halley Reed (Mia Farrow), em quem reconhece uma alma parecida com a sua. Além de Lester, Cliff é também cunhado de Ben (Sam Waterston), um rabino sábio e inteligente que está em vias de perder a visão. Por isso, ele frequenta o consultório do renomado Judah Rosentahl (Martin Landau, indicado ao Oscar de coadjuvante), um homem aparentemente em paz com a vida mas que esconde uma terrível angústia: sua amante Delores Paley (Anjelica Huston) está ameaçando revelar seu caso com ele e ainda por cima denunciar uma fraude cometida anos antes.

As personagens de "Crimes e pecados" estão entre as melhores já criadas por Woody Allen. O roteiro investiga, de forma concisa e inteligente, os questionamentos humanos em relação à fé e a justiça divina. A visita de Judah à casa onde passou a infância (homenagem explícita a Ingmar Bergman), por exemplo, é um primor, assim como a conversa imaginária que ele tem com o rabino Ben, quando decide finalmente eliminar seus problemas da maneira menos ética possível, recorrendo a um assassinato. Segundo o filme, "o olho de Deus tudo vê", mas também segundo o roteiro, Deus pode ser apenas uma ideia, o que concede à humanidade e a seus atos uma aleatoriedade triste mas realista. Fugindo do otimismo de "Hannah", Allen é cético e quase cínico em sua abordagem sobre as pessoas e suas relações, o que se retrata na opção de Halley em abandonar seus ideais em nome do sucesso e na escolha de Judah em seguir o caminho mais "fácil" para sentir-se livre das pressões que o afligem.

Poucas vezes o cinema de Woody Allen foi tão contundente quanto em "Crimes e pecados". Infelizmente!

Sunday, September 12, 2010

OS SAFADOS


OS SAFADOS (Dirty rotten scoundrels, 1988, Orion Pictures, 110min) Direção: Frank Oz. Roteiro: Dale Launer, Stanley Shapiro, Paul Henning. Fotografia: Michael Ballhaus. Montagem: Stephen A. Rotter, William Scharf. Música: Miles Goodman. Figurino: Marit Allen. Direção de arte/cenários: Roy Walker/Rosalind Shingleton. Casting: Donna Isaacson, John Lyons. Produção executiva: Charles Hirschlorn, Dale Launer. Produção: Bernard Williams. Elenco: Steve Martin, Michael Caine, Glenne Headley, Anton Rodgers, Barbara Harris, Dana Ivey. Estreia: 14/12/88

Uma coisa é certa: para que uma comédia funcione de verdade (o que significa permanecer engraçada mesmo depois de um primeiro contato) é necessário que seu roteiro seja realmente interessante ou que a química entre seus atores esteja além do estritamente corriqueiro. Quando esses dois fatores acontecem simultaneamente, não tem erro: diversão garantida para a plateia. E é exatamente isso que acontece com "Os safados". Dirigida por Frank Oz, essa refilmagem de "Dois farristas irresistíveis", estrelado em 1964 por Marlon Brando e David Niven consegue o feito de ser tão hilariante hoje quanto à época de seu lançamento. Tudo responsabilidade do roteiro impecável e de sua dupla de protagonistas. Juntos pela primeira e até agora única vez, Michael Caine e Steve Martin encantam a audiência da primeira à última cena.

A trama de "Os safados" se passa em um Beaumont Sur Mer, uma paradisíaca cidade litorânea da Riviera francesa. É lá que o inglês Lawrence Jamieson (Michael Caine, se divertindo claramente em cena) vive confortavelmente, às custas dos inúmeros golpes que aplica em milionárias carentes. Seu reinado e sua paz passam a ser ameaçados quando entra em cena Freddy Benson (Steve Martin), um escroque americano nem um pouco sofisticado que chega à cidade para buscar novas vítimas para suas armações. A princípio inimigos declarados, logo eles mudam de status: Benson pede a Jamieson que o ensine a ser mais sofisticado, sutil e elegante. Quando chega à cidade a "Rainha do Sabonete", Janet Colgate (Glenne Headly), eles tem a ideia perfeita para resolver sua rivalidade: uma aposta. Quem conseguir arrancar 50 mil dólares da milionária obriga o outro a ir embora para sempre.

A partir daí, o filme transforma-se em um show de seus protagonistas. Enquanto Michael Caine usa e abusa da fleuma britânica, Steve Martin mostra porque era o ator cômico mais festejado dos anos 80. O choque entre a elegância de Jamieson e a gaiatice de Benson, no entanto, é apenas uma das várias razões que fazem de "Os safados" uma das melhores comédias da década. A essa união entre dois tipos de humor une-se um roteiro inteligente, uma paisagem charmosa e cenas que buscam a graça mais nas situações do que em escatologia ou piadas regadas a sexo ou fluidos corpóreos. Politicamente incorreto, o roteiro brinca com doenças mentais, desigualdades sociais e invalidez física com a mesma desenvoltura com que cativa sua audiência fazendo-a se apaixonar por dois protagonistas totalmente sem caráter.

E talvez seja justamente a absoluta falta de caráter das personagens centrais que faz com que "Os safados" brilhe mais do que seus congêneres (tanto comédias quanto "filmes de golpistas"). A plateia se mantém concentrada em cada minuto da projeção, esperando os novos golpes que fazem com que Jamieson e Benson nunca sejam completamente vítimas ou totalmente vencedores. As incríveis - e surpreendentes - reviravoltas são a cereja de um bolo saboroso, capaz de botar um sorriso no rosto até mesmo dos mais exigentes espectadores.

Planejado para promover o encontro cinematográfico entre Mick Jagger e David Bowie, "Os safados" acabou se beneficiando muito da escalação de seus dois atores centrais. Dificilmente ele seria tão bom e tão memorável com qualquer outro elenco.

Thursday, September 9, 2010

MISSISSIPI EM CHAMAS


MISSISSIPI EM CHAMAS (Mississippi burning, 1988, Orion Pictures, 128min) Direção: Alan Parker. Roteiro: Chris Gerolmo. Fotografia: Peter Biziou. Montagem: Gerry Hambling. Música: Trevor Jones. Figurino: Aude Bronson-Howard. Direção de arte/cenários: Philip Harrison, Geoffrey Kirkland/Jim Erickson. Casting: Howard Feuer, Juliet Taylor. Produção: Robert F. Colesberry, Frederick Zollo. Elenco: Gene Hackman, Willem Dafoe, Frances McDormand, Brad Dourif, R. Lee Ermey, Stephen Tobolowski, Michael Rooker, Pruitt Taylor Vince, Tobin Bell. Estreia: 09/12/88

7 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Alan Parker), Ator (Gene Hackman), Atriz Coadjuvante (Frances McDormand), Fotografia, Montagem, Som

Vencedor do Oscar de Fotografia


Alan Parker não é de brincar em serviço. O inglês que chocou o mundo com "O expresso da meia-noite" e depois transformou Robert DeNiro no demônio encarnado, em "Coração satânico" mostra mais uma vez, em "Mississipi em chamas", porque contundência é uma das características mais marcantes de seu trabalho como cineasta. Inspirado em fatos reais - disfarçados ou, como preferem os puristas, distorcidos -, o roteiro de Chris Gerolmo é forte o suficiente para transformar-se em matéria-prima ideal para um diretor inquieto e feroz. Ao tocar o dedo na profunda ferida do racismo no sul dos EUA em plenos efervescentes anos 60, Parker assinou um de seus filmes mais radicais e elogiados, merecidamente indicado a sete Oscar - inclusive filme e diretor.

A trama do filme se passa em 1964 e começa quando três jovens ativistas dos direitos civis - um deles negro - são violentamente assassinados em uma pequena cidade do Mississipi. Tidos como desaparecidos, eles chamam a atenção do FBI, que manda para a localidade dois agentes com diferentes métodos de trabalho. Alan Ward (Willem Dafoe, em papel desejado por Don Johnson) é relativamente jovem, idealista e crente na aproximação pacífica e civilizada. Anderson (Gene Hackman, genial), criado na região e bem mais cínico e experiente, acredita na força física e não dá muita importância a coisas como ética. Tão logo chegam ao local das investigações, os dois policiais passam a testemunhar o aumento exponencial das atividades da Ku Klux Klan, cuja violência é não apenas vista com condescêndia pelas autoridades locais, mas incentivada. Não demora muito para que Ward autorize Anderson a trabalhar como sabe, o que os envolve em uma guerra declarada.

A fotografia de Peter Biziou, vencedora do Oscar, é um primor. Quente e sólida, ela colabora para passar a sensação de claustrofobia almejada pela história contada sem meio-tons por Gerolmo e Parker. A violência do racismo não é enfeitada ou amenizada pelo diretor, que faz questão de esfregar na cara da plateia a fealdade do preconceito - a começar pela eficaz imagem de abertura do filme, que mostra bebedouros diferenciados para brancos e negros. Não faz parte das ideias do cineasta fugir muito do maniqueísmo, ainda que a forma com que Anderson lida com sua missão esteja longe de ser exemplar. No mundo retratado em "Mississipi em chamas", os vilões tem cara de vilões, falam com tal e não hesitam em espancar as próprias esposas (Frances McDormand concorreu a seu primeiro Oscar na pele da mulher do delegado da cidade, vivido por um eficiente Brad Dourif, cujo embate com Hackman em uma barbearia chega a ser quase antológica).

A história de "Mississipi em chamas" pode até não ter sido exatamente como narrada no filme de Alan Parker. Mas sua força reside mais no que ele quer denunciar do que em verdades absolutas, e assim sendo, é construído como um libelo contra o racismo. Como tal, beira a perfeição.

Tuesday, September 7, 2010

A OUTRA


A OUTRA (Another woman, 1988, Orion Pictures, 81min) Direção e roteiro: Woody Allen. Fotografia: Sven Nykvist. Montagem: Susan E. Morse. Figurino: Jeffrey Kurland. Direção de arte/cenários: Santo Loquasto/George DeTitta Jr. Casting: Juliet Taylor. Produção executiva: Charles H. Joffe, Jack Rollins. Produção: Robert Greenhut. Elenco: Gena Rowlands, Mia Farrow, Ian Holm, Gene Hackman, Blythe Danner Martha Plimpton, Frances Conroy, Sandy Dennis, Philip Bosco, Betty Buckley. Estreia: 18/11/88

Emulando mais uma vez Ingmar Bergman, um de seus ídolos máximos (de quem conseguiu inclusive o diretor de fotografia Sven Nykvist), Woody Allen entrega, em “A outra” um de seus mais interessantes trabalhos de sua fase “séria”. Deixando de lado seu humor paranóico-judeu, o cineasta nova-iorquino criou uma pequena obra-prima (e pequena também é sua duração – meros 81 minutos, pouco menos de duas sessões de tearapia).

É justamente sobre terapia seu filme. A protagonista é Marion Post (uma sensacional Gena Rowlands), uma especialista em filosofia, que vive um segundo casamento estável e leva uma vida tranqüila e sem maiores sobressaltos. Para escrever seu novo livro, ela aluga um pequeno apartamento em uma rua tranqüila de Nova York. Para sua surpresa, no entanto, pelo aparelho de ventilação do apartamento, ela consegue ouvir todas as consultas do psicanalista que trabalha ao lado. A princípio incomodada com o fato, ela logo muda de idéia quando começa a ouvir o trabalho do médico com uma jovem grávida (Mia Farrow, que não poderia faltar), cujos problemas refletem aqueles que ela mesma tem e deixa guardados em seu inconsciente. A partir daí, Marion começa a examinar sua vida atual e pregressa, tentando resolver sua relação com o irmão, com o ex-marido, o pai e principalmente revendo seu casamento e seu acabado caso de amor com o melhor amigo de seu marido (em participação pequena mas marcante de Gene Hackman).

Allen consegue, em menos de hora e meia, levar o espectador para dentro da mente da personagem de Rowlands (ajudado, é claro pela performance espetacular da atriz), utilizando de idéias criativas, como uma peça de teatro e idas e vindas no tempo, bem ao gosto de seu mentor Bergman. Pode parecer difícil e pesado. Certamente, leve e divertido como a maioria dos trabalhos do diretor não é. Mas “A outra” tem uma qualidade redentora, além de seu roteiro brilhante e de seu elenco perfeito – é inteligente, faz pensar e não sai da mente do espectador por um bom tempo, como uma boa consulta ao terapeuta.

Tuesday, August 3, 2010

A ERA DO RÁDIO


A ERA DO RÁDIO (Radio days, 1987, Orion Pictures, 88min) Direção e roteiro: Woody Allen. Fotografia: Carlo Di Palma. Montagem: Susan E. Morse. Figurino: Jeffrey Kurland. Direção de arte/cenários: Santo Loquasto/Les Bloom, Carol Joffe. Casting: Juliet Taylor. Produção executiva: Charles H. Joffe, Jack Rollins. Produção: Robert Greenhut. Elenco: Seth Green, Mia Farrow, Dianne Wiest, Danny Aiello, Wallace Shawn, Julie Kavner, Mike Starr. Estreia: 30/01/87

2 indicações ao Oscar: Roteiro Original, Direção de arte/cenários

Nada como um bom Woody Allen engraçado e nostálgico! Emulando o Fellini de "Amarcord", o cineasta nova-iorquino, acostumado a presentear seus fãs com sofisticadas e neuróticas comédias de costumes e/ou densos e profundos dramas psicológicos mostra, em "A era do rádio", que sabe como poucos ter também a saudável melancolia que as memórias de infância sempre proporcionam. "A era do rádio" é um dos mais deliciosos filmes de Allen, mesclando um humor inocente com um delicado retrato de uma época que, apesar dos pesares - e uma grande guerra mundial está entre eles - legou à humanidade muitos talentos artísticos.

O alter-ego de Allen em "A era do rádio" é Joe, um garotinho judeu criado com dificuldades econômicas mas muito amor pelos pais e pela numerosa família, que inclui a casadoira tia Bea (Dianne Wiest, colaboradora constante do cineasta). Vivido por Seth Green - que na década de 90 ficaria conhecido como Scott Evil na série "Austin Powers" - com um misto de ingenuidade e deslumbramento, Joe é testemunha de fatos marcantes (ao menos para seu universo restrito), como a tragédia que envolve uma menina presa em um bueiro e os programas radiofônicos que encantavam sua família. É Joe - adulto, e em uma narração inteligente - que conta também a história de Sally White (Mia Farrow), uma vendedora de cigarros que sonha com o estrelato.

"A era do rádio" é nostalgia pura! Ao evocar um período específico de tempo, Woody Allen destrincha carinhosamente os sentimentos das pessoas da época, retratando a família de Joe de forma emocionante e extremamente engraçada - graças principalmente aos diálogos geniais e o elenco em ótima forma. Apesar de não haver exatamente um protagonista em cena, o diretor dá espaço a excelentes coadjuvantes e participaçõe especialíssimas: rapidamente aparecem no filme Diane Keaton, Jeff Bridges e Danny Aiello, entre outros. Até mesmo o Brasil é homenageado no filme: Denise Dummont aparece cantando "Tico-tico no fubá" e uma cena alto-astral ouve-se a voz de Carmen Miranda...

"A era do rádio" é mais uma pequena obra-prima de Woody Allen, para se assistir com um enorme sorriso no rosto e talvez uma ou outra lágrima nos olhos...

Monday, August 2, 2010

PLATOON


PLATOON (Platoon, 1986, Orion Pictures, 120min) Direção e roteiro: Oliver Stone. Fotografia: Robert Richardson. Montagem: Claire Simpson. Música: Georges Delerue. Direção de arte: Bruno Rubeo. Casting: Pat Golden, Warren McLean, Bob Morones. Produção executiva: John Daly, Derek Gibson. Produção: Arnold Kopelson. Elenco: Charlie Sheen, Tom Berenger, Willem Dafoe, Keith David, Forest Whitaker, Kevin Dillon, Johnnny Depp. Estreia: 19/12/86

8 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Oliver Stone), Ator Coadjuvante (Tom Berenger, Willem Dafoe), Roteiro Original, Fotografia, Montagem, Som

Vencedor de 4 Oscar: Melhor Filme, Diretor (Oliver Stone), Montagem, Som

Festival de Berlim: Melhor Diretor (Oliver Stone)

Vencedor de 3 Golden Globes: Filme/Drama, Diretor (Oliver Stone), Ator Coadjuvante (Tom Berenger)

Até 1986, a visão do público americano frequentador de cinema sobre a guerra do Vietnã havia sido do teor intimista de Michael Cimino e do estilo lisérgico de Francis Ford Coppola. Foi preciso que um ex-combatente de nome Oliver Stone (vencedor de um Oscar de roteiro por "O expresso da meia-noite") comandasse um filme sobre o assunto para que finalmente a plateia tivesse uma visão realista do conflito. Os elogios rasgados da crítica, o sucesso de bilheteria e os 4 Oscar conquistados (inclusive de filme e direção) por seu "Platoon" mostraram que já estava mais do que na hora.

Utilizando de sua experiência em combate e de suas lembranças pessoais, Stone carregou "Platoon" de um humanismo e uma violência física e psicológica que, ao contrário de filmes como "O franco-atirador" e "Apocalypse now" não busca subterfúgios românticos ou psicodélicos: seu ponto de vista da guerra mais vergonhosa perdida pelos EUA é seco e contundente, ainda que não totalmente desprovido de uma espécie de sentimentalismo que fala direto ao coração do público - em especial o americano.

"Platoon" é narrado através do ponto de vista do novato Chris Taylor (Charlie Sheen em papel que ecoa o trabalho de seu pai Martin em "Apocalypse"), um jovem voluntário que, tão logo chega ao Camboja, em setembro de 1967, vê o tamanho da encrenca em que se meteu. A princípio descrevendo o tédio e os horrores que dividem seu tempo em cartas à avó, ele desiste de mantê-la informada da real face da guerra quando percebe que, mais do que um violento conflito entre dois países, ele está testemunhando um drama bem mais pessoal: uma rixa pessoal entre o beligerante Sargento Barnes (Tom Berenger) e o ético Sargento Elias (Willem Dafoe).

O mais inteligente no roteiro de "Platoon" é a sua capacidade de equilibrar a disputa entre Barnes e Elias pela "alma" de Taylor e a maneira com que o rapaz vai tomando contato com toda a truculência e inutilidade da guerra. Cenas de grande impacto visual e emocional são apresentadas por Stone sem sentimentalismo, em tom quase documental, conduzindo o espectador a uma viagem sem escalas rumo a um inferno real e, pior ainda, quase palpável, graças à fotografia de Robert Richardson. A edição, também premiada com um Oscar, dá um ritmo angustiante à narrativa, assim como a trilha sonora escolhida pelo cineasta, que dialoga magistralmente com as imagens ora úmidas ora sufocantes captadas pela câmera nervosa de Stone.

Mas é em seu elenco que "Platoon" brilha ainda mais intensamente. Espertamente, Oliver Stone embaralhou as cartas na hora de escolher seus protagonistas, oferecendo ao galã Tom Berenger o papel mais odioso - um homem raivoso, cheio de cicatrizes e impiedoso - e ao normalmente vilão Willem Dafoe a compreensiva e honrada personagem que retratava o bem. Nitidamente à vontade, os dois conquistaram indicações ao Oscar por seu trabalho, e fascinam a audiência sempre que estão em cena.

"Platoon" é um dos melhores filmes de guerra da história do cinema - e abriu a trilogia do diretor sobre o Vietnã (completada com "Nascido em 4 de julho" e "Entre o céu e a terra"). Feito com o coração mais do que com a técnica, é uma experiência que transcende o gosto da platéia pelo gênero: é cinema da mais alta qualidade.

Monday, July 19, 2010

HANNAH E SUAS IRMÃS


HANNAH E SUAS IRMÃS (Hannah and her sisters, 1986, Orion Pictures, 103min) Direção e roteiro: Woody Allen. Fotografia: Carlo Di Palma. Montagem: Susan E. Morse. Figurino: Jeffrey Kurland. Direção de arte/Cenários: Stuart Wurtzel/Carol Joffe. Casting: Juliet Taylor. Produção executiva: Charles H. Joffe, Jack Rollins. Produção: Robert Greenhut. Elenco: Woody Allen, Mia Farrow, Michael Caine, Barbara Hershey, Dianne Wiest, Max Von Sydow, Maureen O'Sullivan, Julia Louis-Dreyfus, Carrie Fisher, J.T. Walsh, John Turturro. Estreia: 07/02/86

7 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Woody Allen), Ator Coadjuvante (Michael Caine), Atriz Coadjuvante (Dianne Wiest), Roteiro Original, Montagem, Direção de arte/cenários

Vencedor de 3 Oscar: Ator Coadjuvante (Michael Caine), Atriz Coadjuvante (Dianne Wiest), Roteiro Original

Vencedor do Golden Globe de Melhor Filme Comédia/Musical


Um ano depois do emocionante “A rosa púrpura do Cairo”, o cineasta Woody Allen volta às origens com “Hannah e suas irmãs”, onde apresenta seus tradicionais elementos de estilo em um filme que pode tranqüilamente constar na lista de seus melhores trabalhos. Ao misturar com equilíbrio invejável o drama e a comédia fina, Allen criou um espetáculo adulto e verdadeiro, sem os apelos emocionais e fantasiosos de seu excelente trabalho anterior.

Mia Farrow novamente é a protagonista, se é que pode-se dizer que existe um protagonista. Hannah é uma atriz que está de volta aos palcos depois de um retiro opcional. Dedicada à família, ela nem sequer percebe que seu marido, Elliot (um Michael Caine exemplar, vencedor do Oscar de ator coadjuvante) está caindo de amores por sua irmã caçula, a perdida Lee (Barbara Hershey), que vive com um artista plástico mais velho e isolado (Max Von Sydow). Enquanto Elliot e Lee vivem seu hesitante caso extra-conjugal, Hannah tem que lidar também com a falta de rumo profissional de sua irmã do meio (Dianne Wiest, impecável e premiada com o Oscar de atriz coadjuvante) e a busca de seu ex-marido (o próprio Allen), que, ao julgar-se fatalmente doente, parte em busca de uma nova religião que lhe dê as respostas que ele procura.

"Hannah e suas irmãs" é um filme delicioso, um drama leve que usa e abusa de seu elenco formidável e da veia cômico/dramática de Allen, em um momento inspiradíssimo de sua carreira. Ao optar por ser um coadjuvante e abrir espaço para um trio de atrizes espetaculares, ele mostra sua generosidade e talento em criar personagens complexas e verossímeis, além de nunca abandonar a ironia característica de seus melhores trabalhos. E a química invejável entre Mia Farrow (dona do apartamento de Hannah na vida real), Barbara Hershey (em papel oferecido a Brooke Shields) e Dianne Wiest transforma a experiência de assistir ao filme em uma delícia.

Sem buscar alcançar objetivos maiores do que um bom par de horas com diálogos inteligentes e personagens bem delineados, Allen mostra mais uma vez sua força em escrever roteiros. Não à toa, ele também levou seu Oscar na categoria, o que prova que filmes adultos, bem escritos e dirigidos também têm seu lugar garantido entre os fãs de cinema. E uma prova da qualidade de seu roteiro é o fato do mesmo ter sido considerado para um Pulitzer, o que nunca aconteceu com scripts cinematográficos até hoje. Prestígio merecido!

Wednesday, July 14, 2010

A ROSA PÚRPURA DO CAIRO


A ROSA PÚRPURA DO CAIRO (The purple rose of Cairo, 1985, Orion Pictures, 82min) Direção e roteiro: Woody Allen. Fotografia: Gordon Willis. Montagem: Susan E. Morse. Música: Dick Hyman. Figurino: Jeffrey Kurland. Direção de arte/cenários: Stuart Wurtzel/Carol Joffe. Casting: Juliet Taylor. Produção executiva: Charles H. Joffe, Jack Rollins. Produção: Robert Greenhut. Elenco: Mia Farrow, Jeff Daniels, Danny Aiello, Dianne Wiest. Estreia: 01/3/85

Indicado ao Oscar de Roteiro Original

Vencedor do Golden Globe de Roteiro


Uma das obras-primas de Woody Allen, o curtinho (pouco mais de uma hora e dez minutos de filme) “A rosa púrpura do Cairo” é também uma das mais belas declarações de amor de um cineasta à sua arte. O cinema é um dos personagens mais importantes de um trabalhos mais queridos do diretor (inclusive por ele mesmo). E os fãs da sétima arte só podem agradecer, comovidos.

O cenário dessa vez não é Nova York e sim Nova Jersey, onde segundo um dos personagens, “tudo pode acontecer”. E a trama agora não é contemporânea e sim passada nos tristes anos da Grande Depressão americana, depois da queda da bolsa de valores de 1929. Cecília, a protagonista, vivida por Mia Farrow em mais uma colaboração com o diretor e provavelmente na melhor atuação de sua carreira, é uma sofrida garçonete que vive explorada e espancada pelo marido brucutu Monk (Danny Aiello). Seus únicos momentos de diversão são suas idas quase diárias ao cinema, onde é conhecida desde pela bilheteira até pelos lanterninhas. Um dia, ao assistir pela quinta vez a aventura romântica épica “A Rosa Púrpura do Cairo”, Cecília é notada por um dos personagens da trama, o explorador arqueólogo Tom Baxter (Jeff Daniels), que, encantado por ela, sai da tela para viver seu romance. Obviamente a situação surreal desgosta os colegas de cena de Baxter, que não conseguem dar prosseguimento à ação do seu filme. A confusão chega até Hollywood e Gil Shepperd (novamente Jeff Daniels), preocupado com a má reputação que a notícia pode causar à sua promissora carreira chega a Nova Jersey decidido a resolver o problema. O que não poderia jamais supor é que, ao conhecer Cecília, ela ficaria dividida entre o personagem e o ator.

Brilhante em sua idéia original, nos diálogos geniais que estão sem dúvida entre os melhores da carreira de Woody Allen e nos engraçados e irônicos insights sobre a dualidade realidade/ficção, “A rosa púrpura do Cairo” é pura magia. Ao utilizar uma fantasia de qualquer fã de cinema – o romance com um personagem de filme – Allen chega no coração e na mente de seu público sem apelar para filosofias complicadas e dramas bergmanianos que vinha utilizando em seus trabalhos imediatamente anteriores. Ele conta uma história enxuta, sem cenas desnecessárias e com um elenco de aplaudir de pé. Jeff Daniels, dividido entre seus dois papéis mostra uma evolução fantástica desde “Laços de ternura” e Danny Aiello, na pele do truculento Monk pontua com correção o trabalho espetacular de Mia Farrow, que compõe uma Cecília frágil, romântica mas ao mesmo tempo capaz de sustentar sozinha uma casa e com a coragem de romper com a inércia de sua rotina modorrenta para viver seu grande amor.

A seqüência final, ao som de Fred Astaire cantando “Cheek to cheek” é de encher os olhos de lágrimas, o peito de emoção e o cérebro de alegria, diante da sutileza e da inteligência de Allen. O cinema agradece a bela homenagem.

Saturday, July 10, 2010

O EXTERMINADOR DO FUTURO


O EXTERMINADOR DO FUTURO (The terminator, 1984, Orion Pictures, 108min) Direção: James Cameron. Roteiro: James Cameron, Gale Anne Hurd, diálogos adicionais de William Wisher. Fotografia: Adam Greenberg. Montagem: Mark Goldblatt. Música: Brad Fiedel. Figurino: Hilary Wright. Direção de arte/cenários: George Costello/Maria Rebman Caso. Produção executiva: John Daly, Derek Gibson. Produção: Gale Anne Hurd. Elenco: Arnold Schwarzenegger, Michael Bihen, Linda Hamilton, Paul Winfield, Lance Henriksen, Bill Paxton, Bess Motta. Estreia: 26/10/84

Antes de tornar-se multimilionário com "Titanic" e auto-conceder-se a pecha de visionário com o megalomaníaco "Avatar", James Cameron era um cara legal. A prova cabal dessa afirmação é "O exterminador do futuro", um filme realizado com alguns trocados - cuja primeira ideia foi vendida por um mísero dólar - e que não apenas firmou Arnold Schwarzenegger como astro número 1 do cinema de ação mas também mostrou que em cinema, uma ideia na cabeça é muito mais importante do que efeitos visuais de última ponta na mesa de pós-produção.

E a ideia na cabeça de Cameron quando criou a trama de "O exterminador" não poderia ter sido melhor e mais intrigante. Na Los Angeles de 1984, a garçonete Sarah Connor (Linda Hamilton) é caçada - sem ter a menor ideia do motivo - por um truculento e misterioso homem que ela nunca viu antes na vida. Totalmente perdida e sem saber o que está acontecendo, ela é protegida por outro desconhecido, Kyle Reese (Michael Biehn), que depois de salvá-la diversas vezes da morte, finalmente lhe explica o porquê de tanta violência: ela está sendo perseguida por um Exterminador (Arnold Schwarzenegger) que tem a missão de matá-la porque, no futuro, ela será a mãe do líder da resistência humana contra o domínio das máquinas. Ele, Kyle Reese, foi enviado, do futuro, pelo próprio John Connor, para protegê-la e evitar assim que seu nascimento seja impedido.

Sem contar com os orçamentos milionários com os quais faria seus filmes seguintes - a começar por "Aliens, o resgate", em 1986 - Cameron demonstra, em "O exterminador do futuro" que é, sim, um cineasta talentoso, inteligente e, mais importante do que tudo, com um senso de ritmo impecável. As cenas de ação de "Exterminador" não tem efeitos visuais mirabolantes, mas são tão empolgantes quanto se tivessem. Por ter menos dinheiro - leia-se um orçamento quase ridículo em comparação com sua sequência rodada em 1991 - Cameron se viu obrigado a ser mais criativo e essa criatividade faz desse primeiro exemplar da série um clássico absoluto da ficção científica, capaz de ser ao mesmo tempo extremamente eficaz como filme de ação e nunca deixar de ser inteligente e intrigante.

É impossível, por exemplo, deixar de relacionar a caça à Sarah Connor com a matança ordenada por Herodes logo após o nascimento de Cristo e essa ressonância religiosa de certa forma eleva "O exterminador do futuro" a um patamar acima de seus congêneres, que normalmente apelam para a violência high-tech como forma de disfarçar sua falta de conteúdo. Aqui, Cameron usa e abusa da violência, aproveitando que ainda não havia em cima do cinema a pressão a favor do "politicamente correto". Schwarzenegger - em um papel oferecido a Sylvester Stallone - destrói uma delegacia de polícia, mata um grupo de punks, extermina meia dúzia de Sarahs Connors e não pensa duas vezes em arrasar o que passa à sua frente. Dá pra imaginar algo assim nos chatíssimos dias de hoje? Nem mesmo o próprio Schwarza quis comprar essa briga: na continuação, ele é o herói do filme, para não manchar sua imagem e estragar seu caminho rumo à política.

Mesmo com seu jeitão de primo pobre de suas continuações hiperbolizadas, o primeiro capítulo das aventuras de Sarah Connor e de seus exterminadores continua sendo uma origem digna e extremamente divertida. Responsabilidade da mistura perfeita entre um roteiro esperto, um diretor talentoso e um elenco perfeitamente escalado - apesar de ser uma atriz bastante limitada, Linda Hamilton segura bem as pontas de sua responsabilidade, a ponto de ter conquistado Cameron: eles se casaram um tempo depois da estreia do filme e mesmo que hoje estejam separados, ninguém tira de Hamilton o fato de ser a eterna Sarah Connor.

Sunday, July 4, 2010

BROADWAY DANNY ROSE


BROADWAY DANNY ROSE (Broadway Danny Rose, 1984, Orion Pictures, 84 min) Direção e roteiro: Woody Allen. Fotografia: Gordon Willis. Montagem: Susan E. Morse. Figurino: Jeffrey Kurland. Direção de arte/cenários: Mel Bourne/Les Bloom. Casting: Juliet Taylor. Produção executiva: Charles H. Joffe, Jack Rollins. Produção: Robert Greenhut. Elenco: Woody Allen, Mia Farrow, Nick Apollo Forte. Estreia: 27/01/84

2 indicações ao Oscar: Diretor (Woody Allen), Roteiro Original

Depois de ser extremamente elogiado com "Zelig", um dos melhores filmes de sua carreira, Woody Allen resolveu que queria fazer uma comédia italiana ao estilo dos anos 50. Contando com o apoio de seu habitual diretor de fotografia Gordon Willis - que compreendeu exatamente o sentido da coisa toda, em termos pictórios - ele realizou então "Broadway Danny Rose", um feliz encontro entre a latinidade passional dos "carcamanos" com a intelectualidade sarcástica dos nova-iorquinos típicos.

Danny Rose (interpretado por Allen com a costumeira eficácia) é um agente de talentos cujos clientes estão longe de ser superstars: um escultor de balões, um hipnotizador ineficiente e um maestro de passarinhos estão em seu rol de contratados. Sua maior dedicação, no entanto, é ao cantor Lou Canova (Nick Apollo Forte), que teve seu momento de glória no passado e deseja voltar aos holofotes. Justamente na noite em que irá fazer uma apresentação que poderá devolver-lhe ao sucesso, Lou tem uma briga homérica com sua amante, a egoísta Tina Vitale (Mia Farrow) e exige que Danny a convença a assistir ao show, mesmo sabendo que sua mulher estará presente. Na tentativa de convencer a irredutível Tina, o agente acaba sendo confundido como seu amante pela vingativa família italiana de um apaixonado pela moça. Perseguido por gângsters e tentando arrastar a amante de seu agenciado para seu show, ele nem de longe desconfia que está sendo traído por ele, que, por intermédio de Tina, tenciona trocá-lo por um agente mais bem-relacionado.

Apesar de não ser um dos mais brilhantes trabalhos de Woody Allen, "Broadway Danny Rose" seduz por seu humor inteligente e pela imprevisibilidade de seu roteiro. Ao contar duas histórias paralelas - sua aventura com Tina e a traição de Lou - o cineasta/roteirista mistura gêneros com uma familiaridade invejável. Ainda que nem sempre funcione à perfeição - as cenas de ação soam um tanto forçadas - o desenvolvimento da história contada por ele (através da narração de um grupo de agentes que conheceu o protagonista) é suficientemente interessante para não deixar a peteca cair em momento algum - e para isso colabora muito a química perfeita entre ele e Mia Farrow.

Assim como acontecia com Diane Keaton em seus filmes anteriores, Allen encontrou em Farrow a musa perfeita de sua obra. Na pele de Tina Vitale, a atriz entrega um trabalho de composição que foge do seu padrão de atuação até então. Espalhafatosa, vulgar e sem um pingo de classe, sua Tina é uma espécie de mãe da Linda Ash que Mira Sorvino defendeu em "Poderosa Afrodite", dez anos mais tarde. Munida de um indefectível par de óculos escuros e um penteado exagerado, Farrow brilha como nunca e eleva a qualidade do filme, assim como Allen e um surpreendente Nick Apollo Forte - em um papel para o qual o cineasta pensou em Sylvester Stallone.

Dentre tantas obras-primas criadas por Woody Allen, "Broadway Danny Rose" quase se perde. Mas não deixa de ser admirável perceber que mesmo em seus filmes menos brilhantes ele consegue manter um nível de excelência com que a maioria dos cineastas apenas sonha