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Thursday, June 2, 2011

CARTAS NA MESA

CARTAS NA MESA (Rounders, 1998, Miramax Films, 121min) Direção: John Dahl. Roteiro: David Levien, Brian Koppelman. Fotografia: Jean-Yves Escoffier. Montagem: Scott Chestnut. Música: Christopher Young. Figurino: Terry Dresbach. Direção de arte/cenários: Rob Pearson/Beth Kushnick. Produção executiva: Bobby Cohen, Harvey Weinstein, Bob Weinstein. Produção: Ted Demme, Joel Sttilerman. Elenco: Matt Damon, Edward Norton, Gretchen Mol, John Turturro, John Malkovich, Martin Landau, Famke Janssen. Estreia: 11/9/98

Em 1994, o cineasta americano John Dahl recebeu os maiores elogios de sua carreira graças a um filme cuja estreia na televisão o impediu de percorrer as cerimônias de premiação. "O poder da sedução", além de dar um impulso à carreira da atriz Linda Fiorentino (carreira essa que não correspondeu às expectativas), mostrou que Dahl tinha um grande potencial para conduzir tramas rocambolescas com estilo noir. Depois de assinar o suspense "Inesquecível" - estrelado pela mesma Linda Fiorentino e Ray Liotta - ele assumiu a direção de "Cartas na mesa", um drama de suspense passado no mundo do pôquer que teve a sorte suprema de contar com dois atores em franca ascensão: Matt Damon e Edward Norton. São os dois, em atuações inspiradas, que transformaram um filme de interesse limitado em um relativo sucesso.

Mike McDermott (vivido por um Matt Damon dando seguimento a  uma carreira consistente) é um jovem estudante de Direito que, após perder fortunas em mesas de pôquer, deixou o jogo de lado e leva uma vida regrada ao lado da namorada Jo (Gretchen Moll), que sabe de seu passado e o incentiva a manter-se na linha. Tudo corre bem em sua vida tranquila até que ele reencontra seu amigo Lester "Worm" Murphy (Edward Norton), que sai da cadeia já completamente endividado e enrascado com o assustador Teddy KGB (John Malkovich), integrante da máfia russa. Para ajudar o amigo, Mike volta às rodas de jogo, redescobrindo seu prazer e sua tensão.


Belamente fotografado por Jean-Yves Escoffier, "Cartas na mesa" sofre do mesmo problema de todos os filmes cujo tema é algo muito específico - a falta de interesse do resto do público - mas tem a seu favor o talento de Dahl e de sua dupla central de atores (além de um elenco coadjuvante que por pouco não rouba a cena). Mesmo que em vários momentos seja atrapalhado por sua lentidão, é um filme que foge das tradicionais reviravoltas do gênero, preferindo contar sua história aos poucos. Se ganha em consistência dramática, perde em ritmo. No entanto, apresenta atuações tão inteligentes que fica difícil desgrudar os olhos da tela.

Se Matt Damon segura muito bem seu papel principal, ele é amparado por um elenco notável. Martin Landau e John Turturro estão irretocáveis em suas participações, mas são as interpretações de Edward Norton e John Malkovich que fascinam a audiência. Aparentemente dono de um talento inesgotável, o jovem Norton cria um Lester Murphy que mescla a arrogância da juventude com o desespero de um ex-presidiário e Malkovich utiliza de detalhes cênicos para construir um vilão apavorante, ainda que bastante verossímil. Seu sotaque russo e seus olhares são o que há de mais marcante no filme, a despeito da qualidade de seus colegas de cena.

"Cartas na mesa" não é um filme genial (e mesmo que não seja crucial o conhecimento das regras de pôquer ele ocupa um lugar de muito destaque no roteiro), mas é entretenimento de qualidade, em especial devido a seu elenco bem dirigido e ao cuidado em não afastar o público para quem jogos de carta não significam absolutamente nada. Ainda que seja razoavelmente previsível em seu terço final, é um belo exemplo de como um cineasta eficiente e atores inspirados podem fazer toda a diferença.

Saturday, December 11, 2010

NA LINHA DE FOGO

NA LINHA DE FOGO (In the line of fire,1993, Columbia Pictures, 128min) Direção: Wolfgang Petersen. Roteiro: Jeff Maguire. Fotografia: John Bailey. Montagem: Anne V. Coates. Música: Ennio Morricone. Figurino: Erica Edell Phillips. Direção de arte/cenários: Lilly Kilvert/Kara Lindstrom. Casting: Janet Hirshenson, Jane Jenkins. Produção executiva: Gail Katz, Wolfgang Petersen, David Valdes. Produção: Jeff Apple. Elenco: Clint Eastwood, Rene Russo, John Malkovich, Dylan McDermott, Gary Cole, John Mahoney, Tobin Bell, John Heard. Estreia: 09/7/93

3 indicações ao Oscar: Ator Coadjuvante (John Malkovich), Roteiro Original, Montagem

Quando fez o filme "Na linha de fogo", dirigido pelo alemão Wolfgang Petersen, o ator/diretor/produtor Clint Eastwood já tinha 62 anos, ao contrário de sua personagem, o agente do Serviço Secreto americano Frank Horrigan, de cinquenta e poucos. Explica-se: quando o projeto do filme surgiu entre os estúdios de Hollywood (depois de o roteiro passar cerca de uma década flutuando entre um e outro), Robert Redford era o mais cotado para o papel de protagonista. Depois que nomes como Dustin Hoffman e Sean Connery também saíram de cena, o veterano Eastwood embarcou no projeto, levando o diretor Petersen a tiracolo. A entrada dos dois não poderia ter sido mais providencial: com quaisquer outros nomes em seus créditos, é pouco provável que "Na linha de fogo" ficasse melhor do que está. 

Como já dizia Hitchcock, um filme é tão bom quanto seu vilão. E o vilão aqui não está para brincadeiras: vivido por um genial John Malkovich (merecidamente indicado ao Oscar de coadjuvante), Mitch Leary é um dos mais interessantes bandidos do cinema americano dos anos 90, roubando descaradamente todas as cenas em que aparece. Leary é um vingativo ex-funcionário do governo americano que tem como missão de vida assassinar o presidente dos EUA. Para isso - e para sua maior diversão - ele precisa entrar em um jogo de gato e rato com Frank Horrigan (Eastwood), que, em 1963, era responsável pela segurança de John Kennedy. Sentindo-se pessoalmente atacado pelas ameaças de Leary, Horrigan solicita sua volta à equipe de proteção do líder máximo do país, contando com o apoio da bela agente Lilly Raines (Rene Russo).
 
O roteiro de Jeff Maguire - que perdeu o Oscar para o prestigiado "O piano" - é esperto o bastante para jamais subestimar a inteligência da plateia. Horrigan é um homem de idade, e isso é frequentemente lembrado, impedindo-o de assumir o papel de um herói infalível. Até mesmo seu romance com Lilly é plenamente aceitável, uma vez que não é empurrado garganta abaixo do espectador - e a beleza de Rene Russo apenas colabora em seduzir a audiência (em um papel recusado por Glenn Close e Sharon Stone). Mas é seu relacionamento com Mitch Leary quem impulsiona "Na linha de fogo": os diálogos entre os dois protagonistas são tensos e mantem o nível de suspense em alta, até o clímax interessante e eficiente.

John Malkovich - especializado em papéis de vilões - tem em Mitch Leary o papel de sua vida. Mesmo que tenha brilhado intensamente como o Visconde de Valmont em "Ligações perigosas", é na pele do psicótico assassino de "Na linha de fogo" que ele tem a oportunidade de demonstrar toda a extensão do seu talento: irônico, debochado e perigoso - com a ajuda dos vários disfarces proporcionados pela maquiagem - ele transmite toda sua crueldade e a frieza em poucas (mas muito bem declamadas) palavras. Seu olhar desequilibrado encontra na serenidade e na paciência de Clint Eastwood um contraponto perfeito, que empolga o público como poucos policiais - e a renda de mais de 100 milhões de dólares no mercado doméstico apenas comprova este fato óbvio.

Quem gosta de filmes policiais não pode perder "Na linha de fogo". É inteligente, interessante e tenso, intercalando cenas de ação bem dirigidas com diálogos bem escritos e convincentes. Além de tudo, ainda conta com Clint Eastwood - um dos mais confiáveis atores de Hollywood - e John Malkovich na melhor atuação de sua carreira. 

Wednesday, November 10, 2010

NEBLINA E SOMBRAS

NEBLINA E SOMBRAS (Shadows and fog, 1991, Orion Pictures, 85min) Direção e roteiro: Woody Allen. Fotografia: Carlo Di Palma. Montagem: Susan E. Morse. Figurino: Jeffrey Kurland. Direção de arte/cenários: Santo Loquasto/George DeTitta Jr., Amy Marshall. Casting: Juliet Taylor. Produção executiva: Charles H. Joffe, Jack Rollins. Produção: Robert Greenhut. Elenco: Woody Allen, Mia Farrow, John Malkovich, Madonna, Donald Pleasance, Lily Tomlin, Jodie Foster, Kathy Bates, John Cusack, John C. Reilly, Philip Bosco, Kurtwood Smith, Kate Nelligan, Fred Gwyne, William H. Macy, Wallace Shawn. Estreia: 05/12/91

Os detratores adoram dizer que os filmes de Woody Allen são repetitivos, que seu estilo não é exatamente criativo e que seu humor judaico/neurótico/nova-iorquino/sofisticado não sai do chove-não molha. No entanto, se o diretor não estivesse no elenco de "Neblina e sombras" - seu filme de maior orçamento até hoje - era bem pouco provável que qualquer crítico do cineasta pudesse reconhecer no filme qualquer das características que marcaram sua carreira. Com exceção da inteligência - e da marca registrada de usar nomes famosos em papéis pequenos ou quase pontas - nada nessa bela homenagem ao expressionismo alemão do início do século XX aponta para o fato que seu diretor é Allen.

A primeira diferença entre "Neblina e sombras" e o resto da filmografia de Woody diz respeito à geografia. Enquanto a vasta maioria de seus filmes se passa em Nova York e arredores, aqui a história acontece em uma pequena cidade da Alemanha aterrorizada por um assassino serial que mata suas vítimas estranguladas. Para caçar o criminoso vários grupos se formam, com moradores buscando resolver a situação com as próprias mãos, uma vez que o governo parece não se importar com os trágicos acontecimentos. Kleinman (vivido pelo diretor) é um homem comum - preocupado em ser deixado em uma promoção no trabalho - que é escalado por uma dessas facções, que pedem sua ajuda, sem nunca lhe explicar sua missão. Enquanto vaga pela cidade, envolta em neblina e sombras como o título do filme sugere, ele dá de cara com Irmy (Mia Farrow), a engolidora de espadas de um circo que está se apresentando na cidade. Depois de flagrar o marido, o palhaço do circo (John Malkovich) nos braços de sua sedutora colega Marie (Madonna), Irmy encontra abrigo no bordel da cidade, onde desperta o desejo do jovem estudante Jack (John Cusack). Ao lado de Kleinman, ela tentará manter-se longe do assassino e reconstruir sua vida.



Fotografado em belíssimo preto-e-branco por Carlo Di Palma, "Neblina e sombras" também foge do estilo forjado pelo cineasta em décadas de experiência ao evitar piadas intelectualizadas demais - talvez Allen já soubesse que o projeto em si já era suficientemente arriscado comercialmente para que ele confiasse na fidelidade cega de seu público. Ao misturar um humor muito disfarçado e um suspense sem sustos, ele criou um gênero híbrido que, obviamente, não encontrou sua audiência e nem encantou a crítica. Motivos não faltam para essa frieza toda, mas não deixa de ser um exagero essa absoluta apatia em relação ao filme.

Sem dúvida nenhuma, "Neblina e sombras" não é nem de longe um Woody Allen das melhores safras: não é particularmente engraçado, nem denso ou mesmo leve. Mas é inteligente como qualquer trabalho seu - com ecos de "O processo", de Kafka e do filme "M, o vampiro de Dusseldorf", de Fritz Lang -, é extraordinariamente bem realizado - os sets foram construídos especificamente - e só o fato de reunir o elenco que reuniu é de aplaudir entusiasticamente: ao lado dos já citados, desfilam pela tela Jodie Foster, Kathy Bates, Kate Nelligan, Lily Tomlin e Donald Pleasance. Mas aparenta ser mais longo, talvez culpa da morosidade do roteiro e tem um clímax um tanto quanto fraco em relação ao que promete em seu promissor começo.

Para os fãs de Woody Allen, é obrigatório como todos os seus filmes. Para aqueles que acreditam que ele é sempre o mesmo, é necessário. Mas para quem simplesmente não gosta do diretor, não é a maneira correta de começar a gostar.

Saturday, September 18, 2010

LIGAÇÕES PERIGOSAS


LIGAÇÕES PERIGOSAS (Dangerous liaisons, 1988, Warner Bros, 119min) Direção: Stephen Frears. Roteiro: Christopher Hampton, romance de Choderlos de Laclos, peça teatral de Christopher Hampton. Fotografia: Philippe Rousselot. Montagem: Mick Audsley. Música: George Fenton. Figurino: James Acheson. Direção de arte/cenários: Stuart Craig/Gérard James. Casting: Howard Feuer, Juliet Taylor. Produção: Norma Heyman, Hank Moonjean. Elenco: Glenn Close, John Malkovich, Michelle Pfeiffer, Uma Thurman, Keanu Reeves, Swoosie Kurtz, Mildred Natwick. Estreia: 21/12/88

7 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Atriz (Glenn Close), Atriz Coadjuvante (Michelle Pfeiffer), Roteiro Adaptado, Trilha Sonora, Figurino, Direção de arte/cenários

Vencedor de 3 Oscar: Roteiro Adaptado, Figurino, Direção de arte/cenários


"Crueldade" é a palavra preferida da Marquesa de Merteuil. Uma mulher em um mundo dominado por homens, ela vê na sua possibilidade de manipular aqueles a quem considera inferiores sua vingança contra a humanidade em geral. Com o rosto de Glenn Close, ela é a personificação do mal em "Ligações perigosas", brilhante adaptação do romance epistolar de Choderlos de Laclos dirigida pelo inglês Stephen Frears e que concorreu a merecidos 7 Oscar em 1988. Escrito pelo mesmo Christopher Hampton que fez a transição do livro para os palcos londrinos, o roteiro excepcional (vencedor de uma estatueta dourada) consegue transpor para a tela, com perfeição, a futilidade, a maldade e a falta de escrúpulos de nobres franceses entediados que se divertem às custas do sofrimento alheio.

Na interpretação mais espantosa de sua carreira, Close interpreta uma venal Marquesa que, sentindo-se traída em seus brios por um antigo amante, propõe a seu colega de egocentrismo e vaidade Visconde de Valmont (John Malkovich) um jogo de sedução que ele quase descarta como sendo "fácil demais": levar para a cama a inocente e virginal Cécile de Volanges (Uma Thurman, em um papel para o qual foram testadas Drew Barrymore e Sarah Jessica Parker), que está de casamento marcado com um homem que não apenas abandonou a Marquesa como traiu-a com uma amante do Visconde. Para recuperar sua fama de conquistador, o cínico aristocrata concorda com o plano, mas também se dedica a uma sedução muito mais desafiadora. Encorajado por Merteuil - que lhe promete uma tórrida noite caso ele seja bem-sucedido em seus intentos - ele ambiciona levar para sua alcova a virtuosa Madame de Tourvel (Michelle Pfeiffer), uma mulher casada e religiosa.



Praticamente ao mesmo tempo em que "Ligações perigosas", uma outra versão da obra de Laclos também chegou aos cinemas. Dirigido pelo tcheco Milos Forman, "Valmont" não teve a mesma repercussão que o filme de Stephen Frears, apesar do elenco mais jovem (Annette Bening e Colin Firth foram os protagonistas, sendo que Bening substituiu Michelle Pfeiffer, que acertadamente preferiu viver outra personagem da história e foi indicada ao Oscar de coadjuvante por isso). Mas é certo que, mesmo com suas qualidades, a versão de Forman não tem o mesmo peso e a mesma qualidade quase literária e teatral da visão de Frears, injustamente deixado de lado na corrida ao Oscar de direção.

Apesar do roteiro de Hampton (inteligente e sagaz, mas nunca deixando de ser extremamente sexy) ser o sonho de qualquer cineasta que se preze, devido a suas inúmeras possibilidades, é Frears quem conduz com sutileza e elegância uma história calcada basicamente em sexo e suas consequências - quando foi publicado, em 1782, o romance que deu origem ao filme era considerado tão escandaloso que Maria Antonieta o lia às escondidas, com uma capa falsa. Esse conteúdo "picante" de "Ligações perigosas" é que faz, no entanto, que o filme seja tão, mas tão bom que deu origem a um filhote: sua versão modernizada, "Segundas intenções", com elenco adolescente, estreou em 1999 e fez grande sucesso junto a seu público alvo.

"Ligações perigosas" também pode se vangloriar de outras qualidades indispensáveis a um filme com suas pretensões artísticas - e essas qualidades também foram devidamente recompensadas com as estatuetas oferecidas pela Academia. A reconstituição de época é primorosa, tanto em termos visuais quanto quando se trata do comportamento da alta sociedade francesa pré-revolução. O cuidado de Frears em utilizar esses elementos para contribuir com a intrincada trama proposta pelo roteiro faz com que a plateia mergulhe intensamente nos sentimentos dos protagonistas, todos eles enredados em uma teia de luxúria e paixão desesperada.

Mas seria inútil um roteiro coeso e denso e um visual caprichado se Frears não tivesse escalado um elenco tão forte quanto o que escalou. Com exceção de um jovem Keanu Reeves que já mostrava a extrema fragilidade de seus dotes dramáticos, cada ator que surge em cena é de uma excelência a toda prova. Uma Thurman, jovial e ainda bela, apresenta a inocência de sua personagem com delicadeza e sensibilidade. Michelle Pfeiffer, linda como sempre, constrói a decadência amorosa de sua Madame de Tourvel com a firmeza de uma veterana e John Malkovich equilibra com maestria todas as nuances de um Visconde de Valmont venal, ególatra e até mesmo apaixonado. Sua ausência na lista dos indicados ao Oscar de melhor ator do ano ecoa a ausência de Frears na categoria de diretor. Mas é Glenn Close quem rouba descaradamente para si o filme todo, em uma atuação fascinante.

Depois de ter encarnado a psicótica Alex Forrest de "Atração fatal" e ter sido duramente criticada pelo exagero em sua interpretação - apesar da indicação ao Oscar - Close entrega, como a Marquesa de Merteuil uma atuação contida, discreta, quase silenciosa. Seu olhar de ódio, aliado a um tom de voz sussurrante e modos delicados enquanto maquina horrores em sua mente diabólica deram à atriz um dos papéis mais interessantes da história e ela não perde a oportunidade de mostrar seu talento. Em uma das cenais finais, em que ela simplesmente tropeça no salto do sapato diz mais - sem nenhuma palavra - do que páginas e páginas de diálogos seriam capazes. Suas conversas com Malkovich são, sem exagero nenhum, algumas das mais fascinantes que as telas de cinema mostraram ao público.

"Ligações perigosas" é uma aula de como contar uma história utilizando classe, inteligência e sutileza. É o melhor filme de Stephen Frears e injustamente foi preterido no Oscar pelo correto mas não ousado "Rain Man".

Friday, August 13, 2010

IMPÉRIO DO SOL


IMPÉRIO DO SOL (Empire of the sun, 1987, Warner Bros, 152min) Direção: Steven Spielberg. Roteiro: Tom Stoppard, romance de J.G. Ballard. Fotografia: Allen Daviau. Montagem: Michael Kahn. Música: John Williams. Figurino: Bob Ringwood. Direção de arte/cenários: Norman Reynolds/Harry Cordwell, Michael D. Ford. Casting: Maggie Cartier. Produção executiva: Robert Shapiro. Produção: Kathleen Kennedy, Frank Marshall, Steven Spielberg. Elenco: Christian Bale, Miranda Richardson, John Malkovich, Joe Pantoliano, Ben Stiller. Estreia: 09/12/87

6 indicações ao Oscar: Fotografia, Montagem, Trilha Sonora, Figurino, Direção de arte/cenários, Som


Depois da frustração de ver seu “A cor púrpura” receber 13 indicações ao Oscar e nenhuma estatueta no final da festa e encher ainda mais os bolsos com a segunda aventura do arqueólogo Indiana Jones, Steven Spielberg tentou de novo comover os eleitores da Academia com um filme sério. Apesar de chegar perto, mais uma vez ele errou a mira. Apesar de belo, emocionante e adulto, “Império do sol”, baseado no livro homônimo do escritor inglês J.G. Ballard recebeu apenas indicações técnicas ao Oscar, o que não deixa de ser uma espécie de injustiça.

Apesar da temática adulta, “Império do sol” tem o ponto de vista de uma criança, no caso o mimado inglês James Graham (o ótimo Christian Bale), que tem sua vida confortável em Pequim abalada pelo ataque japonês a Pearl Harbor, que muda a dinâmica da II Guerra Mundial. Separado dos pais – em uma cena angustiante e bem dirigida – e enviado a um campo de prisioneiros, ele passa a sofrer os horrores da guerra na pele, passando fome, testemunhando violências impensáveis e aprendendo a crescer da pior maneira possível. Seus únicos amigos são um americano cínico (John Malkovich) e um soldado japonês, a quem encontra sempre em momentos inesperados. Encantado por uma inglesa casada (Miranda Richardson), James mantém, no entanto, a sua enorme paixão por aviões e a esperança de reencontrar sua família.

O esnobismo da Academia em relação a “Império do sol”, em um ano em que até mesmo o apenas correto e comercial “Atração fatal” encontrou lugar entre os candidatos a melhor filme só pode ser explicado por uma má vontade dos seus membros. Belissimamente fotografado por Allen Daviau, com uma reconstituição de época primorosa e um elenco em dias iluminados, a começar por um arrasador Christian Bale, de apenas 11 anos de idade e escolhido dentre 4000 crianças, o filme de Spielberg peca apenas, assim como aconteceu em “A cor púrpura”, por ser longo demais. Arrastada em alguns momentos, a saga de James perde o pique e o interesse depois de hora e meia de projeção, para reconquistar a emoção da platéia nos minutos finais, em algumas cenas construídas especificamente para arrancar lágrimas do espectador.

Talvez tenha sido o jogo sentimental de Spielberg que incomodou a Academia (que no entanto é capaz de dar o Oscar para obras como “Laços de ternura”, infinitamente mais explícito e manipulador em suas intenções de emocionar). Talvez o tema II Guerra estivesse cansando os eleitores (o que não explica a presença de “Esperança e glória” entre os finalistas ao Oscar do mesmo ano). O fato certo é que o diretor amadurecia a olhos vistos e, enquanto ficava mais rico a cada filme-pipoca que produzia e/ou dirigia, também adquiria experiência para entregar ao mundo, em pouco mais de cinco anos, a sua obra-prima, "A lista de Schindler".