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Tuesday, January 31, 2012

A ÚLTIMA NOITE

A ÚLTIMA NOITE (The 25th hour, 2002, Touchstone Pictures, 135min) Direção: Spike Lee. Roteiro: David Benioff, romance de sua autoria. Fotografia: Rodrigo Prieto. Montagem: Barry Alexander Brown. Música: Terence Blanchard. Figurino: Sandra Hernandez. Direção de arte/cenários: James Chinlund/Ondine Karady. Produção executiva: Nick Weschler. Produção: Julia Chasman, Jon Kilik, Spike Lee, Tobey Maguire. Elenco: Edward Norton, Philip Seymour Hoffman, Barry Pepper, Brian Cox, Rosario Dawson, Anna Paquin. Estreia: 19/12/02

Desde que surgiu no cenário hollywoodiano, com seu genial trabalho em "As duas faces de um crime", que lhe deu uma merecida indicação ao Oscar de ator coadjuvante, Edward Norton teve uma trajetória exemplar. Trabalhou com cineastas acima de qualquer suspeita, como Woody Allen, Milos Forman e David Fincher, assumiu a cadeira de diretor com o simpático "Tenha fé" e entregou no mínimo uma atuação inesquecível, como o skinhead arrependido de "A outra história americana", de 1998. Depois de alguns filmes que não exploraram todo o potencial de seu talento - entre eles "Dragão vermelho", terceiro filme estrelado por Hannibal Lecter - ele voltou a encantar seu público com "A última noite", um potente e polêmico drama dirigido pelo não menos controverso Spike Lee.

Realizado sob a tensão pós-11 de setembro, "A última noite" é baseado em um romance de David Benioff, também autor do belo roteiro, que discute preconceito, lealdade, diferenças sociais e a força da amizade sem soar piegas ou condescendente. Contando com um protagonista falível e um time de coadjuvantes interessantes por si mesmos, é um filme que foge do panfletarismo barato que caracteriza a obra de seu diretor, atingindo seu público justamente por ser honesto em suas discussões e seu amor incondicional por Nova York e suas idiossincrasias culturais e sociais.

Quando o filme começa, o protagonista Monty Brogan (Edward Norton, ótimo) está às vésperas de ir para a cadeia, condenado a sete anos de prisão por tráfico de drogas. Sua última noite de liberdade será passada ao lado da namorada, Naturelle (Rosario Dawson) e dos melhores amigos, o yuppie Frank (Barry Pepper, excelente) e o professor de Literatura Jacob (Philip Seymour Hoffman). Enquanto se sente angustiado com a possibilidade de ter sido denunciado pela mulher que ama, Monty encara suas últimas horas de liberdade como uma espécie de despedida de uma vida com certo conforto e tranquilidade e questiona o estado em que está a cidade que ama após os atentados cometidos por Osama Bin Laden. Nesse meio-tempo, Frank tenta convencê-lo de que o ajudará após a temporada na prisão e Jacob foge da tentação sexual representada por uma aluna adolescente, Mary (Anna Paquin).



Apesar de sua trama ter elementos policiais - tráfico de drogas, traição - "A última noite" é, acima de tudo, um drama familiar (sendo o núcleo familiar tradicional subsituído pelos amigos) que retrata com acuracidade diferentes estilos de vida americanos. Frank é o arrogante executivo das finanças que se acha mais importante que os amigos porque tem um salário muito maior que o deles; Jacob é o professor solitário e idealista que se deixa seduzir por uma aluna que precisa de boas notas; e Monty representa o tipo de gente que se deixa levar pelo caminho mais fácil de atingir o sucesso, vendendo drogas a estudantes e tornando-se um traficante conhecido e bem-sucedido. Apesar de suas diferenças, eles tem uma convivência pacífica e quase terna, só abalada pela presença de Naturelle, uma presença dúbia e sexy que tanto pode ser a mulher confiável em que Monty acredita plenamente ou a traidora que seus amigos pintam.

Dirigido com fúria contida por um Spike Lee discreto mas eficaz em sua maneira pungente de fazer cinema, "A última noite" se beneficia amplamente de seu elenco, composto por atores em seus melhores dias. Se Norton e Seymour Hoffman não precisam provar nada a ninguém, a surpresa maior fica por conta de Barry Pepper, que por pouco não rouba as cenas em que aparece, em uma interpretação inspirada e sutil que vai se avolumando até estourar nas suas últimas cenas, em que precisa espancar o melhor amigo para ajudá-lo a sobreviver na prisão. E na pele de James, o calejado pai de Monty, o onipresente Brian Cox brinda o público com um trabalho delicado e emocionante.

Um dos filmes mais subestimados da temporada 2002, "A última noite" é fascinante, forte, impactante e comovente na medida certa. Um belíssimo filme, feito para adultos que gostam de cinema com consistência.

Monday, January 23, 2012

DRAGÃO VERMELHO

DRAGÃO VERMELHO (Red dragon, 2002, Universal Pictures, 124min) Direção: Brett Ratner. Roteiro: Ted Tally, romance de Thomas Harris. Fotografia: Dante Spinotti. Montagem: Mark Helfrich. Música: Danny Elfman. Figurino: Betsy Heinman. Direção de arte/cenários: Kristi Zea/Karen O'Hara. Produção executiva: Andrew Z. Davis. Produção: Dino de Laurentiis, Martha de Laurentiis. Elenco: Anthony Hopkins, Edward Norton, Ralph Fiennes, Harvey Keitel, Philip Seymour Hoffman, Emily Watson, Mary-Louise Parker, Anthony Heald, Bill Duke. Estreia: 30/9/02

Em 1991 o cineasta Jonathan Demme - mais conhecido pela comédia de humor negro "Totalmente selvagem" - pegou todo mundo de surpresa com o aterrador "O silêncio dos inocentes", suspense de primeira linha adaptado do romance de Thomas Harris que não só fez enorme sucesso de bilheteria e papou as cinco principais estatuetas do Oscar - deixando filmes mais "acadêmicos" como "Bugsy" comendo poeira - como também ressuscitou a carreira do ator galês Anthony Hopkins, que entrou instantaneamente para o panteão dos grandes vilões da história do cinema. Como em Hollywood a ganância fala muito mais alto do que a integridade artística, em 2001 foi lançado "Hannibal", uma tenebrosa continuação dirigida por Ridley Scott, que substituía Jodie Foster por Julianne Moore e a sutileza pelo horror explícito. A galinha dos ovos de ouro ainda dava grana (mais de 160 milhões arrecadados nos EUA pela segunda parte) e ninguém se surpreendeu quando "Dragão vermelho" estreou, ainda com Hopkins no papel do canibal Hannibal Lecter. Dirigido pelo eficiente porém jamais brilhante Brett Ratner, o filme chegou a um meio-termo interessante: não é genial como o primeiro e tampouco sofrível como o segundo.

O fato de "Dragão vermelho" já ter sido adaptado para as telas antes - mais precisamente em 1986, com o título de "Manhunter", dirigido por um Michael Mann na fase "Miami Vice" e estrelado por Brian Cox e William Petersen - não foi problema para os produtores dessa nova versão, que presumiram (com certa razão) que o público não tinha  isso registrado na memória. Sendo assim, com um novo título (o original do romance publicado em 1981), o filme chegou às telas cercado de razoável expectativa, em parte devido à personagem Lecter e em parte por causa do elenco excepcional reunido por Ratner: além de Hopkins desfilam pela tela Edward Norton, Ralph Fiennes, Emily Watson, Philip Seymour Hoffman e Harvey Keitel, todos velhos conhecidos do Oscar (com exceção de Hoffman, que levaria sua estatueta três anos depois). Juntos, eles dão consistência a uma história interessante o bastante para apagar a má impressão causada pelo trabalho de Ridley Scott.



"Dragão vermelho" se passa antes dos acontecimentos de "O silêncio dos inocentes" e começa quando o jovem agente do FBI Will Graham (um Edward Norton jovial que aproveitou o cachê do filme para financiar o ótimo "A última noite") é procurado por seu antigo chefe Jack Crawford (Harvey Keitel) para colaborar na elaboração do perfil psicológico de um serial killer apelidado de "Fada do Dente". Aposentado desde que foi seriamente ferido pelo psiquiatra Hannibal Lecter (a quem capturou), Graham se recusa a participar de mais uma caçada, mas é convencido a voltar atrás e contar com a ajuda do canibal para chegar até o novo assassino. Assim como em "O silêncio dos inocentes", o roteiro não se preocupa em esconder a identidade do criminoso. Francis Dolarhyde (Ralph Fiennes em papel que interessava a Michael Jackson (!!)) trabalha em um laboratório de revelação de filmes fotográficos e, com um passado traumático, é um assassino frio e meticuloso que se envolve romanticamente com uma colega de trabalho cega (Emily Watson) que não vê os defeitos físicos que ele julga ter. Enquanto chega cada vez mais perto do assassino, o detetive tem que preocupar-se também com o fato de sua família estar desprotegida na ilha onde isolou-se depois da aposentadoria.

Como dito anteriormente, Brett Ratner não é um Jonathan Demme e isso fica claro na maneira quase quadradinha com que move sua história (novamente adaptada pelo oscarizado Ted Tally). O tom sufocante e opressivo de "O silêncio dos inocentes" foi substituído por um clima menos sombrio, mais comercial, sem maiores ouadias. Até mesmo Anthony Hopkins parece estar no piloto automático, não acrescentando à sua brilhante personagem nenhuma nuance a mais (o que não significa que não esteja ótimo como sempre, mas apenas acomodado). O mesmo acontece com Edward Norton, que não precisa muito para convencer em seu papel, ainda que pareça jovem demais para viver um agente aposentado. Sobressai-se então, mais uma vez, o excelente Ralph Fiennes, vivendo um Francis Dolarhyde bem mais complexo e digno de compaixão do que o Buffalo Bill interpretado por Ted Levine no filme de Demme. Suas cenas com Emily Watson são as mais interessantes da obra, em uma dinâmica dramática que envolve muito mais do que a trama policial (cujo clímax não deixa de ser quase requentado).

Porém, como filme de suspense "Dragão vermelho" não apenas convence como é bastante superior à média. Compará-lo com "O silêncio dos inocentes" chega a ser covardia. Mas que deixa "Hannibal" bem pra trás em matéria de qualidade não há como negar. Não ousa, mas não estraga. O que já é muito bom.

Monday, July 11, 2011

CLUBE DA LUTA

CLUBE DA LUTA (Fight club, 1999, Fox 2000 Pictures, 139min) Direção: David Fincher. Roteiro: Jim Uhls, romance de Chuck Palahniuk. Fotografia: Jeff Cronenweth. Montagem: James Haygood. Música: The Dust Brothers. Figurino: Michael Kaplan. Direção de arte/cenários: Alex McDowell/Jay R. Hart. Produção executiva: Arnon Milchan. Produção: Ross Grayson Bell, Cean Chaffin, Art Linson. Elenco: Edward Norton, Brad Pitt, Helena Bonham Carter, Jared Leto, Meat Loaf. Estreia: 15/10/99

Indicado ao Oscar de Efeitos Sonoros

Poucas vezes um filme consegue ser tão fiel à sua origem literária quanto “Clube da luta”, um petardo estilístico dirigido pelo genial David Fincher baseado no livro do ex-mecânico Chuck Palahniuk que deixou meio mundo de queixo caído com suas idéias radicais contra a propriedade, a sociedade e o governo e por essa mesma razão fracassou vergonhosamente nas bilheterias americanas, apesar do apelo do nome Brad Pitt nos cartazes. A vergonha, no caso, não é de Fincher, que forjou uma pequena obra-prima do inconformismo. A vergonha é do público, que mostrou-se medíocre a ponto de deixar passar um dos filmes mais inteligentes dos anos 90, tanto em conteúdo quanto em visual. O filme só não passou totalmente em branco porque acabou sendo acusado de incitar a violência – o que também foi dito de “Laranja mecânica”, no início dos anos 70, diga-se de passagem -, no que não foi ajudado com o fato de que várias pessoas foram assassinadas em um cinema que apresentava o filme. Coincidência ou não, a trágica notícia eclipsou as inúmeras qualidades da obra, de longe um dos melhores trabalhos tanto de Fincher quanto de Brad Pitt.

Na verdade a história é sobre um jovem executivo (vivido com a habitual competência por Edward Norton) que, em crises cada vez mais assustadoras de insônia encontra a solução frequentando sessões de ajuda para doentes (câncer, enfisema e afins). Na mesma época em que conhece outra fraude nas sessões a intrigante Marla Singer (dando um adeus vitorioso aos filmes de época pelos quais ficou conhecida) ele perde seu apartamento, repleto de objetos caros e vai morar com Tyler Durden (um Brad Pitt hilário, sexy e notadamente divertindo-se a cada cena), um misterioso vendedor de sabonetes caseiros que o ensina a não dar valor a coisas materiais. Sua amizade com Durden evolui a ponto de eles juntos criarem o “Clube da Luta”, onde um grupo de homens se reune para brigar entre si. No momento em que o clube toma proporções gigantescas, o rapaz começa a perceber que os planos de Tyler Durden não resumem-se à auto-destruição e podem levar a uma catástrofe econômica e social.



Nada é o que parece em “Clube da luta”. Não é apenas sobre um grupo de homens se espancando mutuamente – pelo menos não é somente sobre isso. Não é a respeito de um homem buscando sua própria identidade – isso é apenas o começo da história. E não fala do amor entre dois seres desajustados, ainda que seja o amor por Marla que balança as estruturas do protagonista. “Clube da luta” é um happening cinematográfico. É um ataque verbal, visual e estilístico contra o establishment – seja ele econômico, cultural ou social. O roteiro de Jim Ulhs, que traduz com precisão cirúrgica a prosa caótica de Palahniuk, não deixa pedra sobre pedra em seu discurso contra a mídia, o governo e Deus. A anarquia controlada de Fincher, que encontra estofo na fotografia de Jeff Cronenweth e na edição espirituosa e criativa de James Haygood, conta ainda com o trabalho mais inspirado da carreira de Brad Pitt, que constrói um Tyler Durden impecável em sua canalhice e falta de respeito com toda e qualquer instituição. Seus diálogos são tão cáusticos, cruéis e por isso mesmo realistas que fica difícil não acreditar neles.

Pode-se dizer, sim, que "Clube da luta" é um filme perigoso. É um filme que faz pensar, que questiona, que choca com sua violência verdadeira. Conectá-lo à crueldade humana é simplificá-lo de maneira burra. Mas um fato é inquestionável: quando as caixas de som começam a tocar Pixies, no final da exibição da história contada por Palanhiuk, Fincher & cia, o público não é o mesmo que era no início da sessão. Ele acaba de testemunhar o cinema em seu melhor.

Friday, June 10, 2011

A OUTRA HISTÓRIA AMERICANA

A OUTRA HISTÓRIA AMERICANA (American History X, 1998, New Line Cinema, 119min) Direção: Tony Kaye. Roteiro: David McKenna. Fotografia: Tony Kaye. Montagem: Jerry Greenberg, Alan Heim. Música: Anne Dudley. Figurino: Doug Hall. Direção de arte/cenários: Jon Gary Steele/Tessa Posnansky. Produção executiva: Bill Carraro, Keari Peak, Steve Tisch, Lawrence Turman. Produção: John Morrissey. Elenco: Edward Norton, Edward Furlong, Beverly D'Angelo, Elliot Gould, Fairuza Balk, Avery Brooks, Ethan Suplee, Stacy Keach, Guy Torry. Estreia: 30/10/98

Indicado ao Oscar de Melhor Ator (Edward Norton)

Os verdadeiros fãs de cinema - aqueles que realmente gostam de bons filmes, histórias bem contadas e atuações poderosas - ainda devem ter a esperança de que um dia a Academia venha à público revelar que sua cerimônia de entrega do Oscar de 1999 não passou de uma grande brincadeira de mau-gosto. Afinal de contas, não é possível que no mesmo ano em que Gwyneth Paltrow tenha levado seu prêmio de melhor atriz (batendo as superiores Cate Blanchett, Fernanda Montenegro, Meryl Streep e Emily Watson) a estatueta de melhor ator tenha ficado com Roberto Benigni, a versão italiana de Renato Aragão. Não só Benigni é constrangedor (como comprovou sua exagerada e patética reação ao anúncio de seu nome) como sua vitória deixou de lado duas interpretações masculinas extraordinárias da disputa: Ian McKellen como o cineasta Frank Whaley de "Deuses e monstros" e Edward Norton por seu assombroso Derek Vinyard de "A outra história americana", um dos filmes mais chocantes e socialmente relevantes do ano.

Talvez tenha sido exatamente essa característica polêmica que tenha deixado "A outra história americana" no limbo onde se encontram os pequenos grandes filmes que são quase ignorados por um público que prefere passar os finais de semana lotando salas para assistir a coisas como "A múmia". Forte e impactante, o filme de Tony Kaye - que praticamente recusou-se a assinar o filme depois de uma rusga bastante grave com o ator central - é, acima de tudo, um entretenimento que faz pensar e levanta discussões que vão muito mais além do que o tradicional bate-papo em mesas de bares. É pouco provável que seus espectadores consigam esquecer facilmente tudo que o filme transmite, seja através de cenas de grande impacto visual, seja por diálogos que - surpreendentemente em se tratando de um trabalho de cunho tão social - tocam em feridas e pensamentos que muita gente prefere esconder atrás de piadas ou apatia.


Derek Vinyard, o protagonista, vivido impecavelmente por um Edward Norton repleto de nuances, é uma das personagens mais complexas que o cinema americano criou em muito tempo. Apesar de vituperar impropérios e destilar discriminação durante praticamente toda a projeção, Derek tem sua própria verdade, cultivada por anos de exposição às ideias racistas do pai e pelas tragédias da vida. Ainda que seja desagradável testemunhar alguns absurdos que ele comete, é inegável que, em sua mente distorcida, tudo faz sentido. E é preciso aplaudir de pé os diálogos brilhantes de David McKenna, que questiona os preconceitos mesmo de uma plateia politicamente correta - é exemplar a cena em que Derek desafia o namorado judeu de sua mãe em pleno jantar, utilizando o caso de Rodney King (um homem negro espancado pela polícia em um epísódio infame acontecido nos EUA) como base para suas teorias racistas. Mesmo que seja assustador, seu pensamento faz um sentido amedrontador.

A trama de "A outra história americana" é forte por si mesma. Depois de anos preso pelo assassinato de dois jovens negros que tentavam arrombar seu carro (em uma cena impressionante), o jovem Derek Vinyard é solto e volta para o lar de sua família. Seu retorno acontece justamente no momento em que seu irmão menor, Daniel (Edward Furlong, bastante eficiente) está seguindo seus passos, tornando-se parte de um grupo cada vez maior de skinheads, liderado por Cameron Alexander (Stacy Keach). Apavorado com a ideia de que o rapaz se transforme em um homem dominado por ódios irracionais, ele chega à conclusão que precisa revelar a ele tudo porque passou em seu tempo na prisão. A seu lado, está o inspetor de sua antiga escola, o professor Bob Sweeney (Avery Brooks) e sua mãe, Doris (Beverly D'Angelo, provando que consegue ir bem mais além do que em seu papel como a mulher de Chevy Chase na série "Férias frustradas").

Segundo fofocas de bastidores, o diretor Tony Kaye praticamente abandonou o filme em sua fase de edição, contrariado com as intervenções de Norton - descrito por ele como "babaca egocêntrico". Seja verdade ou não, é fato consumado que o ator é o destaque absoluto de "A outra história americana", entregando a ele uma interpretação poucas vezes vista no cinema. Norton consegue viver três Dereks diferentes - o adolescente ainda ingênuo em busca de influências, o skinhead raivoso e o ex-presidiário arrasado com sua experiência - com a desenvoltura dos grandes atores. É ele quem comanda o baile de dor e desespero que atinge o público como um soco no estômago. E é seu rosto transfigurado (de ódio e de pânico) que ficará na mente do espectador por um bom tempo.

Thursday, June 2, 2011

CARTAS NA MESA

CARTAS NA MESA (Rounders, 1998, Miramax Films, 121min) Direção: John Dahl. Roteiro: David Levien, Brian Koppelman. Fotografia: Jean-Yves Escoffier. Montagem: Scott Chestnut. Música: Christopher Young. Figurino: Terry Dresbach. Direção de arte/cenários: Rob Pearson/Beth Kushnick. Produção executiva: Bobby Cohen, Harvey Weinstein, Bob Weinstein. Produção: Ted Demme, Joel Sttilerman. Elenco: Matt Damon, Edward Norton, Gretchen Mol, John Turturro, John Malkovich, Martin Landau, Famke Janssen. Estreia: 11/9/98

Em 1994, o cineasta americano John Dahl recebeu os maiores elogios de sua carreira graças a um filme cuja estreia na televisão o impediu de percorrer as cerimônias de premiação. "O poder da sedução", além de dar um impulso à carreira da atriz Linda Fiorentino (carreira essa que não correspondeu às expectativas), mostrou que Dahl tinha um grande potencial para conduzir tramas rocambolescas com estilo noir. Depois de assinar o suspense "Inesquecível" - estrelado pela mesma Linda Fiorentino e Ray Liotta - ele assumiu a direção de "Cartas na mesa", um drama de suspense passado no mundo do pôquer que teve a sorte suprema de contar com dois atores em franca ascensão: Matt Damon e Edward Norton. São os dois, em atuações inspiradas, que transformaram um filme de interesse limitado em um relativo sucesso.

Mike McDermott (vivido por um Matt Damon dando seguimento a  uma carreira consistente) é um jovem estudante de Direito que, após perder fortunas em mesas de pôquer, deixou o jogo de lado e leva uma vida regrada ao lado da namorada Jo (Gretchen Moll), que sabe de seu passado e o incentiva a manter-se na linha. Tudo corre bem em sua vida tranquila até que ele reencontra seu amigo Lester "Worm" Murphy (Edward Norton), que sai da cadeia já completamente endividado e enrascado com o assustador Teddy KGB (John Malkovich), integrante da máfia russa. Para ajudar o amigo, Mike volta às rodas de jogo, redescobrindo seu prazer e sua tensão.


Belamente fotografado por Jean-Yves Escoffier, "Cartas na mesa" sofre do mesmo problema de todos os filmes cujo tema é algo muito específico - a falta de interesse do resto do público - mas tem a seu favor o talento de Dahl e de sua dupla central de atores (além de um elenco coadjuvante que por pouco não rouba a cena). Mesmo que em vários momentos seja atrapalhado por sua lentidão, é um filme que foge das tradicionais reviravoltas do gênero, preferindo contar sua história aos poucos. Se ganha em consistência dramática, perde em ritmo. No entanto, apresenta atuações tão inteligentes que fica difícil desgrudar os olhos da tela.

Se Matt Damon segura muito bem seu papel principal, ele é amparado por um elenco notável. Martin Landau e John Turturro estão irretocáveis em suas participações, mas são as interpretações de Edward Norton e John Malkovich que fascinam a audiência. Aparentemente dono de um talento inesgotável, o jovem Norton cria um Lester Murphy que mescla a arrogância da juventude com o desespero de um ex-presidiário e Malkovich utiliza de detalhes cênicos para construir um vilão apavorante, ainda que bastante verossímil. Seu sotaque russo e seus olhares são o que há de mais marcante no filme, a despeito da qualidade de seus colegas de cena.

"Cartas na mesa" não é um filme genial (e mesmo que não seja crucial o conhecimento das regras de pôquer ele ocupa um lugar de muito destaque no roteiro), mas é entretenimento de qualidade, em especial devido a seu elenco bem dirigido e ao cuidado em não afastar o público para quem jogos de carta não significam absolutamente nada. Ainda que seja razoavelmente previsível em seu terço final, é um belo exemplo de como um cineasta eficiente e atores inspirados podem fazer toda a diferença.

Thursday, March 24, 2011

O POVO CONTRA LARRY FLYNT

O POVO CONTRA LARRY FLYNT (The People vs. Larry Flynt, 1996, Columbia Pictures, 129min) Direção: Milos Forman. Roteiro: Larry Alexander, Scott Karaszewski. Fotografia: Phillippe Rousselot. Montagem: Christopher Tellefsen. Música: Thomas Newman. Figurino: Arianne Philipps, Theodor Pistek. Direção de arte/cenários: Patrizia Von Brandenstein/Maria A. Nay, Amy Wells. Produção: Michael Hausman, Oliver Stone, Janet Yang. Elenco: Woody Harrelson, Edward Norton, James Cromwell, Courtney Love, Brett Harrelson, Crispin Glover. Estreia: 25/12/96


2 indicações ao Oscar: Diretor (Milos Forman), Ator (Woody Harrelson)
Vencedor de Melhor Diretor (Milos Forman) no Festival de Berlim
Vencedor de 2 Golden Globes: Melhor Diretor (Milos Forman), Roteiro

Apesar de ter seu nome no título o verdadeiro protagonista de "O povo contra Larry Flynt" não é o editor da "Hustler", uma das revistas pornográficas mais populares dos EUA. Quem realmente é a personagem principal do filme do tcheco Milos Forman é uma entidade abstrata chamada "liberdade de expressão". É esse conceito, tão valorizado mas tão seriamente ameaçado até mesmo nas mais liberais democracias, o verdadeiro astro do filme que deu a Woody Harrelson sua primeira indicação ao Oscar. É o direito a essa tal liberdade, garantida na Constituição americana, o santo graal perseguido por Larry Flynt e seu advogado, o jovem Alan Isaacman. E é justamente por lutar por esse direito sagrado a todos que o filme do diretor de "Um estranho no ninho" conquista até mesmo a mais conservadora das plateias.

Até mesmo Oliver Stone, chegado que é em uma polêmica, declinou da ideia de dirigir "O povo contra Larry Flynt", preferindo manter-se no menos ostensivo papel de produtor. O explosivo material, escrito pela mesma dupla que deu a Tim Burton o belo roteiro de "Ed Wood", provocou controvérsia antes mesmo de estrear, tendo seu cartaz banido e severamente criticado: no criativo poster, o protagonista tinha o corpo em formato de Jesus crucificado, mas no corpo de uma mulher. Substituído por uma outra propaganda mais comportada, foi apenas o princípio de uma gritaria dos setores conservadores da pudica América do Norte, que não aceitavam de bom grado a ideia de ter um pornógrafo como herói de um filme. Escandalizados ou não, o fato é que os detratores de Larry Flynt não conseguiram ofuscar o brilho do resultado final. Dirigido com uma ironia deliciosa e interpretado por um excelente Woody Harrelson, "O povo contra Larry Flynt" é um dos melhores filmes de 1996 - e poderia muito bem ter ficado com uma vaga entre os indicados ao Oscar principal, já que tanto Harrelson quanto Milos Forman conseguiram ficar entre os finalistas em suas respectivas categorias.

"O povo contra Larry Flynt" começa mostrando a origem do império do protagonista, desde suas ambições infantis até a criação de um boletim (repleto de fotos de mulheres nuas) a ser distribuído aos frequentadores de seu bar de striptease chamado Hustler. Aos poucos, sentindo-se traído pela sutileza e pela delicadeza das fotos de sua rival "Playboy" transforma seu boletim em uma revista mensal, com um grande diferencial: nas páginas da "Hustler" os leitores não encontrariam matérias de interesse geral e sim uma boa e velha pornografia explícita. Chocando a ala conservadora dos EUA, Flynt torna-se figurinha fácil nos tribunais, acusado de incitar a pornografia e principalmente processado por difamação e danos morais pelo respeitável Reverendo Jerry Falwell (Richard Paul), vítima de uma de suas piadas de incrível mau-gosto. Quem o defende em seus julgamentos é seu jovem advogado, Alan Isaacman (Edward Norton), recém-formado e que, apesar de ter aversão às publicações do cliente, jamais deixa de estar ao seu lado.


O ritmo é uma das maiores qualidades em "O povo contra Larry Flynt". Mesmo quando o filme corre o risco de tornar-se repetitivo devido às idas e vindas do protagonista aos tribunais, o roteiro jamais cai na armadilha de deixar-se levar pelos fatos históricos puros e simples, além de presentear o público com um humor cruel extremamente engraçado. O Larry Flynt criado por Scott Alexander e Larry Karazsewski é um anti-herói absoluto, escória da sociedade, mas dotado de uma personalidade e um carisma inegáveis, além de um senso de humor irresistível. Nem mesmo depois de ficar paraplégico devido a um atentado contra sua vida - um evento nunca devidamente esclarecido - ele deixou-se levar pelo negativismo e a depressão, praticamente usando suas limitações como uma medalha de honra. Sua defesa ferrenha pela liberdade de expressão é também a defesa de um direito inalienável de qualquer cidadão. Como ele mesmo declara em determinado momento, "se a Primeira Emenda pode proteger a um lixo como eu, poderá proteger a todos vocês." É fascinante seu discurso quando compara a pornografia com a guerra e a violência e deixa na cabeça de todos a pergunta que jamais quer calar: o que é mais ofensivo, um corpo feminino ou uma criança morta???


Woody Harrelson tem, aqui, um dos ápices de sua carreira desigual. Elevando à máxima potência a promessa com que acenava desde seu Mickey Knox de "Assassinos por natureza", ele transcende sua personagem, transformando-se em Larry Flynt de forma arrebatadora. Ao acrescentar ao papel sua própria personalidade anárquica e controversa, Harrelson mereceu a indicação ao Oscar e não teria sido injusta sua vitória. Ele está tão bem que consegue ofuscar até mesmo ao ótimo Edward Norton, que não tem muito o que fazer como Isaacman a não ser pontuar com correção o show do colega de cena. Em compensação, não dá para acreditar em todos os prêmios arrebatados por Courtney Love. A roqueira - viúva de Kurt Cobain e então líder da banda Hole - recebeu elogios rasgados da crítica e chegou a vencer disputas importantes, como dos críticos de Nova York e Boston por sua atuação como Althea, a esposa e musa de Flynt, que morreu de AIDS depois de ter se viciado em morfina. Péssima e sem nenhum carisma, Love tem a seu favor apenas o visual bagaceiro que combina com a personagem, mas está longe de ser uma atriz de respeito. Não é exagero afirmar que seu trabalho é o único ponto fraco do filme...

As discussões suscitadas por "O povo contra Larry Flynt" são legítimas e relevantes, o que faz do filme de Milos Forman politicamente indispensável. Mas, acima de tudo, seu trabalho é cinema da mais alta qualidade. Forman está nitidamente à vontade contando a trajetória de Flynt, ecoando a busca de liberdade de seu mais famoso protagonista - o falso desequilibrado mental vivido por Jack Nicholson em "Um estranho no ninho". Fascinado por personagens que fogem do convencional, Forman mais uma vez brinda seu público com uma obra cuja importância ressonará por muito tempo. Cinema e política andando juntos sem panfletarismo barato! Genial!

Friday, March 18, 2011

TODOS DIZEM EU TE AMO

TODOS DIZEM EU TE AMO (Everyone says I love you, 1996, Miramax Films/Buena Vista Pictures/Magnolia Productions, 101min) Direção e roteiro: Woody Allen. Fotografia: Carlo DiPalmo. Montagem: Susan E. Morse. Música: Dick Hyman. Figurino: Jeffrey Kurland. Direção de arte/cenários: Santo Loquasto/Elaine O'Donnell. Produção executiva: J.E. Beaucaire, Jean Doumanian. Produção: Robert Greenhut. Elenco: Woody Allen, Julia Roberts, Goldie Hawn, Alan Alda, Drew Barrymore, Edward Norton, Tim Roth, Natasha Lyonne, Lukas Haas, Natalie Portman, Billy Crudup, Gabby Hoffman. Estreia: 06/12/96

Imaginar um musical dirigido por Woody Allen pode parecer tão difícil quanto visualizar um filme de terror comandado por John Ford. Mas é exatamente isso que "Todos dizem eu te amo" é. Ao homenagear suas três cidades preferidas (Nova York, Paris e Veneza), Allen construiu uma deliciosa comédia musical, onde suas personagens cantam e dançam do nada - da mesma forma que ocorria nos clássicos do gênero - enquanto vivem suas histórias de amor, narradas no mesmo tom sarcástico e sofisticado de suas obras anteriores, que o colocaram na posição privilegiada de ser um dos mais autorais cineastas norte-americanos.

A bem da verdade, o único fator que diferencia "Todos dizem eu te amo" do resto da filmografia de Allen é sua opção em utilizar algumas clássicas canções populares dos EUA em diálogos - mas por "populares" entenda-se conhecidos dentro de um restrito nicho de eruditismo que de certa forma o afasta de um sucesso mais amplo junto ao público. As músicas entoadas pelos atores escolhidos pelo diretor - que mais uma vez utiliza-se de um elenco à prova de qualquer crítica - são pérolas do cancioneiro americano, com obras de Cole Porter e Rodgers & Hart, entre outros menos famosos. E são cantadas sem preocupações em encantar os ouvidos da audiência. A proposta de Allen é justamente o oposto dos musicais tradicionais: seus atores não treinaram a voz e só souberam que estavam escalados para um musical depois de ter o contrato assinado. Dessa forma, nomes como Edward Norton, Goldie Hawn e Julia Roberts entoam desajeitadamente suas dores de amor sem maiores enfeites de pós-produção (apenas Drew Barrymore salvou-se do drama, convencendo o diretor que não tinha a menor condição de cantar...) E, por incrível que pareça, justamente essa canhestra opção é que diverte o público.


A trama do filme segue o estilo Woody Allen de sempre: Steffi (Goldie Hawn) e Bob Dandridge (Alan Alda) formam um bem-sucedido casal que vive em um amplo apartamento muitíssimo bem localizado em Nova York. Sua numerosa família passa por problemas amorosos, narrados por DJ (Natasha Lyonne), filha de Steffi com seu ex-marido Joe Berlin (Woody Allen), que mora em Paris. A filha mais velha de Bob, Skylar (Drew Barrymore), acaba de ficar noiva do mauricinho Holden Spencer (Edward Norton), mas começa a ter dúvidas a respeito do relacionamento quando conhece Charles Ferry (Tim Roth), um ex-presidiário protegido por Steffi. Enquanto isso, Joe, durante uma viagem à Veneza com DJ, se encanta por Von (Julia Roberts), uma americana de cujos desejos e aspirações ele tem conhecimento através dos atos de espionagem da filha.

Com uma fotografia carinhosa que abraça com paixão as cidades escolhidas pelo cineasta, "Todos dizem eu te amo" é uma declaração de amor ao ato de estar-se apaixonado. As histórias românticas contadas pelo roteiro simples de Allen tem em comum a luta das personagens por sua felicidade, mesmo que para isso tenham que quebrar a cara constantemente. Apesar de alguns diálogos bastante espertos, dessa vez Woody não capricha no enredo, preferindo dedicar sua atenção aos números musicais agradáveis e ágeis - além de divertidamente próximos da realidade. Mesmo assim, a fantasia toma conta quando o fantasma do patriarca da família Dandridge une-se a outros espectros para cantar um hino à vida e Goldie Hawn flutua no ar durante um número de dança em Paris. Para os detratores de Allen, que o consideram maçante, é um prato cheio. Para os fãs, que admiram seu bom-gosto e delicadeza, é uma festa para os olhos.

"Todos dizem eu te amo" é um típico filme de Woody Allen, ainda que, paradoxalmente, seja diferente de todos os demais. Não recomendável para iniciantes na obra do cineasta, é, no entanto, um oásis de criatividade diante da falta de originalidade do cinema americano. E não é sempre que vemos Edward Norton cantando e dançando "My baby just cares for me" em uma joalheria....

Monday, February 28, 2011

AS DUAS FACES DE UM CRIME

AS DUAS FACES DE UM CRIME (Primal fear, 1996, Paramount Pictures, 129min) Direção: Gregory Hoblit. Roteiro: Steve Shagan, Ann Biderman, romance de William Diehl. Fotografia: Michael Chapman. Montagem: David Rosenbloom. Música: James Newton Howard. Figurino: Betsy Cox. Direção de arte/cenários: Jeannine Oppewall/Cindy Carr. Produção executiva: Howard W. Koch Jr.. Produção: Gary Lucchesi. Elenco: Richard Gere, Laura Linney, Edward Norton, John Mahoney, Alfre Woodard, Frances McDormand, Terry O'Quinn, Andre Braugher, Steven Bauer, Maura Tierney, Jon Seda. Estreia: 03/4/96

Indicado ao Oscar de Ator Coadjuvante (Edward Norton)
Vencedor do Golden Globe de Ator Coadjuvante (Edward Norton)

Desde que teve sua carreira ressuscitada com os sucessos de "Justiça cega", de Mike Figgis e principalmente "Uma linda mulher", de Garry Marshall, o ator Richard Gere correu o sério risco de tê-la novamente perdido, devido a escolhas equivocadas como "Lancelot", com Sean Connery, "Mr. Jones", com Lena Olin e até mesmo o interessante mas fracassado comercialmente "Intersection", onde trabalhou ao lado de Sharon Stone. Para sua sorte, no entanto, um pouco ambicioso filme de tribunal devolveu a ele as boas graças da crítica e do público. Dirigido por um então desconhecido Gregory Hoblit, "As duas faces de um crime" é um policial que, a despeito de não fugir dos elementos tradicionais do gênero, o faz com respeito e sobriedade. Além disso, o filme, baseado no romance de William Diehl, tem para si a distinção de ter revelado um dos melhores jovens atores da década: Edward Norton.

Aos 26 anos, Norton é apenas o quinto nome a aparecer nos créditos de abertura de "As duas faces de um crime", mas quem assiste ao filme sabe que ele é seu maior trunfo. Desconhecido da audiência, ele ficou com um papel que foi oferecido a Leonardo DiCaprio e cobiçado por Matt Damon, e logo de cara recebeu uma merecida indicação ao Oscar de ator coadjuvante - que perdeu para a histérica atuação de Cuba Gooding Jr. em "Jerry Maguire". Sua interpretação, repleta de nuances, foge das armadilhas que o roteiro oferece e consegue fazer até com que o normalmente inexpressivo Gere saia de sua zona de conforto para entregar um trabalho bastante consistente.


Gere interpreta Martin Vail, um advogado narcisista e talentoso que não mede esforços para aparecer na mídia. Uma chance de ouro para aumentar sua popularidade surge quando um respeitado arcebispo é violentamente assassinado e um de seus coroinhas, o tímido Aron Stampler (Edward Norton) é preso e acusado pelo crime. Tentando inocentar seu cliente, Vail vai aos tribunais contra a promotora Janet Venable (Laura Linney), sua ex-amante. Conforme as investigações de Vail e seus assessores vão transcorrendo, novas revelações sobre a personalidade da vítima começam a aparecer, e ligações dele com poderosos homens de negócio - inclusive o procurador do Estado, John Shaugnessy (John Mahoney), o patrão de Janet - levam a outros e surpreendentes rumos.

A maior qualidade do roteiro de "As duas faces de um crime" é embaralhar as cartas de sua trama para jamais deixar o público matar a charada antes das cenas finais. Durante toda a projeção há sempre aquela virtual pulga atrás da orelha sobre quais os reais motivos que levaram o arcebispo a ser assassinado e Gregory Hoblit - demonstrando uma firmeza admirável na direção - conduz a audiência por vários caminhos até finalmente apresentar seu desfecho, coerente e um tanto chocante. Quem já assistiu não tem mais o elemento surpresa que lhe dá mais destaque ao lado de seus congêneres, mas mesmo quem o assiste mais de uma vez é obrigado a concordar que mesmo assim o filme é muito superior que a média. E novamente voltamos a Edward Norton.

A estreia alvissareira de Norton - que no mesmo ano seria dirigido por Milos Forman e Woody Allen - dá um charme especial a "As duas faces de um crime". Talentoso e inteligente, ele não confunde a fragilidade de sua personagem com fragilidade na atuação, apresentando uma atuação visceral e hipnotizante. Se Richard Gere e Laura Linney são os reais protagonistas do filme - e se saem bem, aliás - é Norton, com seu rosto capaz de expressar emoções díspares em questão de segundos que rouba o filme para si. Por ele, vale a pena ver e rever.