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Monday, January 23, 2012

DRAGÃO VERMELHO

DRAGÃO VERMELHO (Red dragon, 2002, Universal Pictures, 124min) Direção: Brett Ratner. Roteiro: Ted Tally, romance de Thomas Harris. Fotografia: Dante Spinotti. Montagem: Mark Helfrich. Música: Danny Elfman. Figurino: Betsy Heinman. Direção de arte/cenários: Kristi Zea/Karen O'Hara. Produção executiva: Andrew Z. Davis. Produção: Dino de Laurentiis, Martha de Laurentiis. Elenco: Anthony Hopkins, Edward Norton, Ralph Fiennes, Harvey Keitel, Philip Seymour Hoffman, Emily Watson, Mary-Louise Parker, Anthony Heald, Bill Duke. Estreia: 30/9/02

Em 1991 o cineasta Jonathan Demme - mais conhecido pela comédia de humor negro "Totalmente selvagem" - pegou todo mundo de surpresa com o aterrador "O silêncio dos inocentes", suspense de primeira linha adaptado do romance de Thomas Harris que não só fez enorme sucesso de bilheteria e papou as cinco principais estatuetas do Oscar - deixando filmes mais "acadêmicos" como "Bugsy" comendo poeira - como também ressuscitou a carreira do ator galês Anthony Hopkins, que entrou instantaneamente para o panteão dos grandes vilões da história do cinema. Como em Hollywood a ganância fala muito mais alto do que a integridade artística, em 2001 foi lançado "Hannibal", uma tenebrosa continuação dirigida por Ridley Scott, que substituía Jodie Foster por Julianne Moore e a sutileza pelo horror explícito. A galinha dos ovos de ouro ainda dava grana (mais de 160 milhões arrecadados nos EUA pela segunda parte) e ninguém se surpreendeu quando "Dragão vermelho" estreou, ainda com Hopkins no papel do canibal Hannibal Lecter. Dirigido pelo eficiente porém jamais brilhante Brett Ratner, o filme chegou a um meio-termo interessante: não é genial como o primeiro e tampouco sofrível como o segundo.

O fato de "Dragão vermelho" já ter sido adaptado para as telas antes - mais precisamente em 1986, com o título de "Manhunter", dirigido por um Michael Mann na fase "Miami Vice" e estrelado por Brian Cox e William Petersen - não foi problema para os produtores dessa nova versão, que presumiram (com certa razão) que o público não tinha  isso registrado na memória. Sendo assim, com um novo título (o original do romance publicado em 1981), o filme chegou às telas cercado de razoável expectativa, em parte devido à personagem Lecter e em parte por causa do elenco excepcional reunido por Ratner: além de Hopkins desfilam pela tela Edward Norton, Ralph Fiennes, Emily Watson, Philip Seymour Hoffman e Harvey Keitel, todos velhos conhecidos do Oscar (com exceção de Hoffman, que levaria sua estatueta três anos depois). Juntos, eles dão consistência a uma história interessante o bastante para apagar a má impressão causada pelo trabalho de Ridley Scott.



"Dragão vermelho" se passa antes dos acontecimentos de "O silêncio dos inocentes" e começa quando o jovem agente do FBI Will Graham (um Edward Norton jovial que aproveitou o cachê do filme para financiar o ótimo "A última noite") é procurado por seu antigo chefe Jack Crawford (Harvey Keitel) para colaborar na elaboração do perfil psicológico de um serial killer apelidado de "Fada do Dente". Aposentado desde que foi seriamente ferido pelo psiquiatra Hannibal Lecter (a quem capturou), Graham se recusa a participar de mais uma caçada, mas é convencido a voltar atrás e contar com a ajuda do canibal para chegar até o novo assassino. Assim como em "O silêncio dos inocentes", o roteiro não se preocupa em esconder a identidade do criminoso. Francis Dolarhyde (Ralph Fiennes em papel que interessava a Michael Jackson (!!)) trabalha em um laboratório de revelação de filmes fotográficos e, com um passado traumático, é um assassino frio e meticuloso que se envolve romanticamente com uma colega de trabalho cega (Emily Watson) que não vê os defeitos físicos que ele julga ter. Enquanto chega cada vez mais perto do assassino, o detetive tem que preocupar-se também com o fato de sua família estar desprotegida na ilha onde isolou-se depois da aposentadoria.

Como dito anteriormente, Brett Ratner não é um Jonathan Demme e isso fica claro na maneira quase quadradinha com que move sua história (novamente adaptada pelo oscarizado Ted Tally). O tom sufocante e opressivo de "O silêncio dos inocentes" foi substituído por um clima menos sombrio, mais comercial, sem maiores ouadias. Até mesmo Anthony Hopkins parece estar no piloto automático, não acrescentando à sua brilhante personagem nenhuma nuance a mais (o que não significa que não esteja ótimo como sempre, mas apenas acomodado). O mesmo acontece com Edward Norton, que não precisa muito para convencer em seu papel, ainda que pareça jovem demais para viver um agente aposentado. Sobressai-se então, mais uma vez, o excelente Ralph Fiennes, vivendo um Francis Dolarhyde bem mais complexo e digno de compaixão do que o Buffalo Bill interpretado por Ted Levine no filme de Demme. Suas cenas com Emily Watson são as mais interessantes da obra, em uma dinâmica dramática que envolve muito mais do que a trama policial (cujo clímax não deixa de ser quase requentado).

Porém, como filme de suspense "Dragão vermelho" não apenas convence como é bastante superior à média. Compará-lo com "O silêncio dos inocentes" chega a ser covardia. Mas que deixa "Hannibal" bem pra trás em matéria de qualidade não há como negar. Não ousa, mas não estraga. O que já é muito bom.

Monday, June 13, 2011

ENCONTRO MARCADO

ENCONTRO MARCADO (Meet Joe Black, 1998, Universal Pictures, 178min) Direção: Martin Brest. Roteiro: Ron Osborn, Jeff Reno, Kevin Wade, Bo Goldman. Fotografia: Emmanuel Lubezki. Montagem: Joe Hutsching, Michael Tronick. Música: Thomas Newman. Figurino: Aude Bronson-Howard, David C. Robinson. Direção de arte/cenários: Dante Ferretti/Leslie Bloom. Produção executiva: Ronald L. Schwary. Produção: Martin Brest. Elenco: Brad Pitt, Anthony Hopkins, Claire Forlani, Marcia Gay Harden, Jake Weber. Estreia: 13/11/98

Alguém deveria matricular Martin Brest em algum curso que ensine a ser conciso. Em "Perfume de mulher", seu filme mais famoso - e que concorreu ao Oscar de melhor filme, além de ter premiado Al Pacino com a estatueta - ele estendeu a história central da relação entre seu protagonista cego com um jovem estudante ao máximo, acrescentando ao filme uma desnecessária trama paralela que só se justifica por sua vontade de dar ao veterano ator mais um momento de brilho. Em "Encontro marcado", seu filme seguinte, ele novamente comete o mesmo erro de estender-se em demasia, dando importância exagerada a cenas que poderiam facilmente ter sido limadas na edição. Ao contrário de "Perfume", porém, nessa refilmagem livre de um clássico dos anos 40 as coisas não funcionaram tão bem. Nem em termos críticos - foi ignorado nas cerimônias de premiação - nem tampouco perante o público: custou quase 100 milhões de dólares e rendeu menos da metade, apesar do apelo do nome de Brad Pitt nos cartazes.

É fácil entender os motivos que levaram "Encontro marcado" a bombar nas bilheterias. É sabido que o público médio americano não é chegado a filmes com duração excessiva - e quase três horas de duração sem que haja necessidade para isso testa a paciência de qualquer um - e além do mais, desta vez Brest realmente errou a mão. Apesar da presença sempre carismática de Pitt e Anthony Hopkins, a refilmagem de "Uma sombra que passa" (estrelado por Fredric March em 1934) é arrastada, pouco emocionante e o que é ainda pior: não explora nem a metade do talento de seus atores principais (que voltam a contracenar depois do sucesso de "Lendas da paixão"). Tudo bem, é visualmente lindo, mas nem mesmo a beleza de Pitt e de Claire Forlani consegue evitar que a audiência boceje a cada vez que a história central se desvia para a desnecessária subtrama envolvendo os negócios de William Parrish (o magnata vivido por Hopkins no piloto automático).


William Parrish é um multimilionário que, às vésperas de completar 65 anos, recebe a visita da morte. Na pele de um jovem galante e sedutor - que se apresenta como Joe Black - a morte deseja levá-lo, mas adia o desfecho de sua missão quando se apaixona pela filha caçula do empresário, a bela Susan (Claire Forlani). Enquanto o dia da morte de Parrish se aproxima, o romance entre Joe e Susan assume ares de amor impossível e, antes de ir embora, Joe ajuda o milionário a perceber os reais interesses de seu braço-direito Drew (Jake Weber), que quer casar-se com Susan para assumir o controle de suas empresas de comunicação (a tal história paralela que não precisava estar no roteiro).

"Encontro marcado" tem uma direção de arte esplendorosa, que retrata com exatidão todo o glamour e o luxo que cerca os Parrish e uma fotografia deslumbrante de Emmanuel Lubezki (em especial em sua sequência final, de tirar o fôlego). A trilha sonora imponente de Thomas Newman dá o clima romântico necessário às cenas entre Joe e Susan - que, justiça seja feita, formam um lindo casal. E a trama central é interessante e adequada a esses tempos "espiritualizados" (além de alguns diálogos realmente bem escritos). Mas quando o filme acaba - aparentemente muito tempo depois de ter começado - a impressão que fica é que poderia ter sido muito mais bem-sucedido. Agrada aos mais românticos, mas perde a oportunidade de ser um belíssimo e inesquecível drama romântico.

Tuesday, February 22, 2011

NIXON

NIXON (Nixon, 1995, Cinergi Pictures/Hollywood Pictures, 192min) Direção: Oliver Stone. Roteiro: Oliver Stone, Stephen J. Rivele, Christopher Wilkinson. Fotografia: Robert Richardson. Montagem: Brian Berdan, Hank Corwin. Música: John Williams. Figurino: Richard Hornung. Direção de arte/cenários: Victor Kempster/Merideth Boswell. Produção: Oliver Stone, Clayton Townsend, Andrew G. Vajna. Elenco: Anthony Hopkins, Joan Allen, Powers Boothe, Ed Harris, Bob Hoskins, E.G. Marshall, David Paymer, Paul Sorvino, Mary Steenburgen, David Hyde Pierce, J.T.Walsh, James Woods, Dan Hedaya, Saul Rubinek. Estreia: 20/12/95

4 indicações ao Oscar: Ator (Anthony Hopkins), Atriz Coadjuvante (Joan Allen), Roteiro Original, Trilha Sonora Original

Oliver Stone tem a obsessão de dissecar a alma ianque através de seus ídolos ("The Doors"), seus traumas ("Platoon" e "Nascido em 4 de julho") e - a julgar pelo recente "W" e por "Nixon", lançado em 1995 - de seus líderes. Polêmico como sempre, o cineasta vencedor de dois Oscar de direção encontrou na história do mais controverso dos presidentes norte-americanos o material ideal para exercitar seus radicais pontos de vista. Apedrejado pelos puristas - que o acusaram de distorcer fatos históricos em prol de suas teorias - o filme tampouco encontrou seu público, não rendendo nem metade de seu orçamento e dividindo a crítica. Apesar disso - e da sua duração excessiva - é um importante e interessante documento sobre uma das figuras mais complexas da história dos EUA, que comandou seu país durante alguns de seus mais sombrios momentos.

O roteiro do filme, indicado ao Oscar por sua complexa estrutura - que apresenta acontecimentos verídicos mesclados com uma grande parcela de licenças poéticas - começa às vésperas da renúncia do presidente Richard Nixon (Anthony Hopkins), consequência direta do malfadado escândalo Watergate. Enquanto fica remoendo suas culpas e tentando encontrar uma maneira de sair intacto do processo de impeachment pelo qual está passando, Nixon passa em revista toda a sua vida, desde a infância pobre - e a perda precoce dos dois irmãos - até a reeleição para presidente da República, passando pelos inúmeros fracassos políticos e pelo relacionamento com seu porto seguro, a esposa Pat (Joan Allen). Extremamente talentoso como orador, Nixon sofria, no entanto, de uma rejeição grande por parte do eleitorado. Como diz um de seus assessores em determinado momento, "é de se imaginar o quão grande ele seria se as pessoas gostassem dele."

O retrato que Oliver Stone faz de seu biografado não é exatamente agradável, ainda que tente, em certas ocasiões, fugir da crítica explícita. O que provavelmente desagradou aos fãs do ex-presidente foi sua caracterização como um homem inseguro, egocêntrico e por vezes até mesmo covarde. Como um Narciso às avessas, Nixon, apesar de considerar-se (e ser) o homem mais poderoso do mundo jamais conseguiu desvencilhar-se do misto de admiração e inveja que sentia por John Kennedy. Em uma sintomática afirmação, ele declara a um quadro do mais querido líder da história americana: "Quando eles olham pra você, eles veem o que querem ser. Quando olham para mim, veem o que eles são." Na voz poderosa e na atuação inacreditável de Anthony Hopkins, essa talvez seja a frase que melhor define a personalidade dúbia do homem que, mesmo depois de ter sido praticamente escorraçado da Casa Branca, foi enterrado com pompas de grande estadista.


Usando e abusando de seu estilo próprio de contar uma história - estilo este que tem tantos fãs ardorosos quanto detratores aguerridos - Oliver Stone transforma "Nixon" em um exercício de paciência. São mais de três horas de duração que, ao contrário de "JFK", não passam voando. A trajetória de Nixon é tão repleta de acontecimentos importantes que fez-se necessário ao roteiro um número infindo de detalhes que, para quem não é especialista em história dos EUA (ou seja, a maioria esmagadora da audiência) soam como grego. Ao fugir do didatismo, Stone esbarra justamente nesse grande senão: são tantos nomes, tantas personagens e tantas datas que fica difícil ao público médio acompanhar tudo da maneira ideal. Enquanto o filme trata da vida pessoal do protagonista - em um belo preto-e-branco - não há maiores problemas, mas toda vez que o roteiro se concentra nas reuniões políticas entre o presidente e seus correligionários a coisa começa a ficar lenta demais, mesmo com a edição ágil e a trilha sonora impecável de John Williams ajudando o máximo possível. Dirigindo o filme como se fosse um suspense, Stone mais uma vez acerta na técnica, mas peca no excesso de informações.

Para sua sorte - e da plateia - novamente o cineasta escalou um elenco acima de qualquer crítica. Joan Allen foi indicada ao Oscar de coadjuvante por seu retrato de Pat Nixon, mesmo que, segundo pessoas próximas da real primeira-dama tenham discordado da forma com que o roteiro a tratou. Paul Sorvino - irreconhecível sob pesada maquiagem - vive com absurda propriedade Henry Kissinger e Bob Hoskins rouba a cena na pele do chefão do FBI J. Edgar Hoover. Mas nada é mais impressionante do que a interpretação extraordinária de Hopkins no papel-título. Mesmo sendo britânico - o que causou uma onda de protestos - Hopkins deixou pra trás americanos típicos para ficar com o papel central e não apenas conquistou elogios rasgados como também concorreu ao Oscar. Dificilmente Jack Nicholson, John Malkovich, Tom Hanks, Robin Williams e Warren Beatty, por melhores atores que sejam, seriam capazes da entrega que Hopkins apresenta em cena. As sequências em que, tal como uma trágica personagem shakespereana, o presidente sente-se traído, solitário e abandonado mostram um dos grandes atores do mundo em um de seus trabalhos mais ricos.

"Nixon" talvez não interesse à grande maioria do público, aquela que lota as salas de cinema em busca de divertimento. É um filme forte, realizado com um senso estético apurado e um tema relevante e controverso. Pode não dialogar o tempo todo com a verdade, mas até mesmo essa dubiedade combina com a personalidade que retrata.

Wednesday, January 26, 2011

LENDAS DA PAIXÃO

 

LENDAS DA PAIXÃO (Legends of the fall, 1994, TriStar Pictures, 133min) Direção: Edward Zwick. Roteiro: Susan Shilliday, William D. Wittliff, romance de Jim Harrison. Fotografia: John Toll. Montagem: Steven Rosenblum. Música: James Horner. Figurino: Deborah Scott. Direção de arte/cenários: Lilly Kilvert/Dorree Cooper. Produção executiva: Patrick Crowley. Produção: Marshall Herskovitz, William D. Wittliff, Edward Zwick. Elenco: Brad Pitt, Anthony Hopkins, Aidan Quinn, Julia Ormond, Henry Thomas, Karina Lombard, Christina Pickles. Estreia: 16/12/94

3 indicações ao Oscar: Fotografia, Direção de arte/cenários, Som
Vencedor do Oscar de Fotografia


Se naqueles livros que ensinam como escrever roteiros para cinema existisse um capítulo chamado "Como transformar um livro de homem em uma telenovela para mulheres" provavelmente ele estaria ilustrado com uma foto enorme do filme "Lendas da paixão". Baseado em um romance do escritor Jim Harrison - famoso por criar personagens fortes e rudes, que lidam com as adversidades do mundo rural de forma estóica - o filme de Edward Zwick transformou a história da família Ludlow e suas tragédias em um dramalhão água-com-açúcar cujo principal objetivo parece ser elevar o então ascendente Brad Pitt a astro de primeira grandeza. A julgar pela bilheteria generosa, pelos baldes de lágrimas vertidos pela plateia e pelo sucesso do ator junto ao público feminino, a missão foi plenamente cumprida. Pena que o resultado final enterre o espírito do livro junto com todas as personagens que morrem no decorrer do filme.

"Lendas da paixão" começa no início da I Guerra Mundial, quando o jovem Samuel Ludlow (Henry Thomas, o menininho de "ET", crescido e mau-ator) retorna à fazenda onde vivem seu pai, o Coronel aposentado William Ludlow (Anthony Hopkins) e seus dois irmãos mais velhos, o correto e maduro Alfred (Aidan Quinn) e o selvagem e rebelde Tristan (Brad Pitt). Mesmo ciente das contrariedades do pai a respeito do conflito que começa a tomar o mundo, o rapaz decide alistar-se e partir para a guerra. Para proteger o caçula, tanto Alfred quanto Tristan juntam-se a ele, mas a união aparentemente inquebrantável dos três irmãos sofre um abalo quando Alfred se apaixona por Susanna (Julia Ormond), a noiva de Samuel, que, por sua vez, não resiste aos encantos do indomável Tristan. Quando uma tragédia no campo de batalha muda drasticamente as relações entre Tristan e Alfred, a família inteira se vê envolvida em uma história de amor, lealdade e traição.


É inegável o cuidado da produção: a fotografia deslumbrante de John Toll - premiada com o Oscar - dá o tom exato entre o clima claustrofóbico da guerra e a vastidão das montanhas de Nevada (filmadas no Canadá). A imponente música de James Horner comenta a ação de maneira eficientíssima e a reconstituição de época é discreta e eficaz (não à toa também concorreu ao prêmio da Academia). Mas não dá para ignorar o fato de que Zwick, ao invés de privilegiar a interrelação entre os irmãos preferiu dar vazão ao romance entre Tristan e Susanna. Enquanto Pitt faz pouco mais do que deixar a longa cabeleira ao vento para seduzir a mulherada a péssima Julia Ormond tenta convencer a audiência de que uma mulher tão sem graça e sem carisma possa ter conquistado todos os homens da família Ludlow. Esse defeito é a maior pedra no sapato de "Lendas da paixão" e a que mais atrapalha em suas intenções de ser um trabalho inesquecível.

Projetado como veículo para Sean Connery e Tom Cruise - ou seja, poderia ser muito pior - "Lendas da paixão" é um filme que emociona e enche os olhos. Apesar de Anthony Hopkins estar no pior momento de sua carreira, o elenco conta com o ótimo Aidan Quinn, que tenta dar dignidade e consistência a uma personagem relegada a um melancólico segundo plano - ainda que seja responsável por algumas das mais comoventes cenas do filme. É um dramalhão realizado com tudo de melhor que Hollywood pode oferecer, mas que prefere o caminho mais fácil para atingir seu público. É bonito, mas poderia ter sido inesquecível!

Tuesday, November 30, 2010

CHAPLIN

CHAPLIN (Chaplin, 1992, Carolco Pictures, 143min) Direção: Richard Attenborough. Roteiro: William Boyd, Bryan Forbes, William Goldman, história de Diana Hawkins, livros "Chaplin: his life and art", de David Robinson e "My autobiography", de Charles Chaplin. Fotografia: Sven Nykvist. Montagem: Anne V. Coates. Música: John Barry, José Padilla. Figurino: Ellen Mirojnick, John Mollo. Direção de arte/cenários: Stuart Craig/Norman Dorme. Casting: Mike Fenton, Susie Figgis, Valorie Massalas. Produção: Richard Attenborough, Mario Kassar. Elenco: Robert Downey Jr., Geraldine Chaplin, Anthony Hopkins, Moira Kelly, Dan Aykroyd, Marisa Tomei, Penelope Ann Miller, Kevin Kline, Maria Pitillo, Milla Jovovich, Diane Lane, Nancy Travis, James Woods. Estreia: 25/12/92

3 indicações ao Oscar: Ator (Robert Downey Jr.), Trilha Sonora Original, Direção de arte/cenários

Que Charles Chaplin foi um dos maiores gênios da história da humanidade é impossível discordar. Diretor e intérprete de clássicos absolutos como "O garoto", "Luzes da cidade" e "O grande ditador" - apenas para citar alguns de inúmeros títulos sensacionais - o ator inglês é uma das figuras mais reconhecidas da sétima arte, principalmente através de Carlitos, o vagabundo criado por ele e protagonista de muitos de seus filmes. Como a personagem foi criada, como algumas ideias para suas obras surgiram e principalmente como ele foi injustamente expulso dos EUA, acusado de ser simpatizante do comunismo, no entanto, não é material tão conhecido assim. Por isso, o cineasta Richard Attenborough resolveu que era hora de homenagear um de seus maiores ídolos com uma cinebiografia e lançou "Chaplin" no 15º aniversário de sua morte. Porém, ao contrário de sua obra mais famosa  -"Gandhi" - seu filme não apenas ficou aquém do esperado em termos de crítica, mas bombou feio nas bilheterias.

O papel principal de "Chaplin" ficou com o americano Robert Downey Jr., antes que seus problemas com drogas o tirasse das páginas de entretenimento e o colocasse na seção policial. Em uma atuação impressionante, Downey mostra que é, sim, um extraordinário ator, tirando leite de pedra de um roteiro capenga - inspirado em duas biografias do artista - que não ilustra a contento nem a carreira nem a vida pessoal de Charlie. Narrado em flashback, uma vez que a história é contada pelo diretor a um biógrafo (Anthony Hopkins), "Chaplin" começa mostrando a infância miserável do protagonista, que, abandonado pelo pai, substituiu a mãe com problemas mentais (Geraldine Chaplin interpretando sua avó) em um show de vaudeville e conheceu o gosto do sucesso. Contratado para fazer filmes em Hollywood - em saltos temporais que mais prejudicam do que ajudam na compreensão do todo - ele chega à conclusão que precisa de controle total sobre sua obra, entrando em rota de colisão com o então todo poderoso Mack Sennet (Dan Aykroyd) e a cineasta Mabel Normand (Marisa Tomei). De posse de seu talento e de sua fama, ele galga rapidamente os degraus do sucesso, emendando um sucesso atrás do outro. No entanto, sua predileção por mulheres mais jovens - e às vezes menores de idade - e o fato de ter comprado briga com o criador do FBI, J.Edgar Hoover (Kevin Dunn) os leva a ter sérios problemas com a justiça americana, culminando com sua expulsão do país.


"Chaplin" poderia ter sido contado com dois enfoques diferentes e bastante interessantes: Attenborough (que demonstrou um pouco de preguiça na direção) poderia ter explorado os bastidores da Hollywood do início do século XX, com suas brigas por poder, suas fofocas, seu glamour e a construção do cinema mais popular do biografado. Ou poderia ter optado por narrar as aventuras amorosas e sexuais de Chaplin e suas eventuais complicações - o relacionamento com a perturbada Joan Barry (Nancy Travis), o casamento feliz com Paulette Godard (Diane Lane) e a felicidade ao lado de Oona O'Neil (Moira Kelly), por exemplo. Ao tentar reunir tanta informação em um filme de duração comercial - menos de 2 horas e meia - o roteiro impede o espectador de ter um contato mais profundo com qualquer personagem e situação. Fica-se, então, privado do ótimo trabalho de Kevin Kline como Douglas Fairbanks Jr. ou de Diane Lane como Paulette Goddard - sem falar que a simpatia de Chaplin em relação ao povo judeu (e sua subsequente fama de "comunista") tem muita origem em seu casamento com ela. Logicamente seria impossível dentro dos limites do tempo equilibrar tudo que precisa ser contado, mas um pouco de foco não faria mal nenhum e ainda ajudaria na contemplação dos destaques da produção, essa sim, digna de nota.

Não foi à toa que "Chaplin" foi indicado ao Oscar de direção de arte. É visível o capricho na reconstituição da época mostrada no filme, assim como o figurino e a maquiagem. É fascinante a maneira com que Attenborough revela ao público alguns segredos de como eram realizados os filmes nos anos 10 e 20, bem como apresenta de maneira simpática a origem das ideias de Chaplin para resolver - de forma barata e eficiente - seus problemas criativos. Mas nem mesmo esse cuidado todo e a bela e delicada trilha sonora de John Barry - também indicada ao Oscar - não impedem que seja percebido o óbvio: "Chaplin" deve tudo o que é à interpretação arrebatadora de Robert Downey Jr.

Indicado ao Oscar por seu trabalho, Downey entrega uma atuação quase mediúnica. Ele desaparece dentro da personagem, fazendo com que o público esqueça que ali está um ator na pele de uma personalidade real. Para a audiência, Downey e Chaplin são a mesma pessoa, ao menos durante a duração do filme. É uma pena que ele tenha que arrancar essa atuação de dentro de si sem um roteiro que lhe faça jus. É de se imaginar o quão sensacional ele teria sido se tivesse uma base melhor!!!

Friday, November 26, 2010

DRÁCULA DE BRAM STOKER

DRÁCULA DE BRAM STOKER (Bram Stoker's Dracula, 1992; American Zoetrope/Columbia Pictures, 128min) Direção: Francis Ford Coppola. Roteiro: James V. Hart, romance de Bram Stoker. Fotografia: Michael Ballhaus. Montagem: Anne Goursaud, Glen Scantlebury, Nicholas C. Smith. Música: Wojciceh Kilar. Figurino: Eiko Ishioka. Direção de arte/cenários: Thomas Sanders/Garrett Lewis. Casting: Victoria Thomas. Produção executiva: Michael Apted, Robert O'Connor. Produção: Fred Fuchs, Francis Ford Coppola, Charles Mulvehill. Elenco: Gary Oldman, Winona Ryder, Anthony Hopkins, Keanu Reeves, Tom Waits, Richard E. Grant, Cary Elwes, Bill Campbell, Sadie FrostMonica Bellucci. Estreia: 13/11/92

4 indicações ao Oscar: Figurino, Direção de Arte/cenários, Maquiagem, Efeitos Sonoros
Vencedor de 3 Oscar: Figurino, Maquiagem, Efeitos Sonoros

Quem tem coragem de dizer que todos os filmes de vampiro são iguais - ou acha que a série "Crepúsculo" tem qualquer qualidade além de ser uma vitrine para a "beleza" de seus astros - provavelmente não assistiu a "Drácula de Bram Stoker", mais uma obra-prima de Francis Ford Coppola. Só mesmo um cineasta de seu porte, que encontrou humanidade nos mafiosos de "O poderoso chefão", que quase foi à falência com o esteticamente ousado "O fundo do coração" e deu uma nova visão à guerra do Vietnã em "Apocalypse now", poderia orquestrar, sem soar repetitivo, essa ambiciosa adaptação quase operística da história do mais famoso vampiro da literatura, escrita pelo irlandês Bram Stoker no século XIII.

O toque de mestre do diretor já dá as caras no prólogo, inédito no livro e que conta as origens do sanguessuga - inspirado em uma personalidade real. O conde Vlad Dracul (o espetacular inglês Gary Oldman) torna-se conhecido como sanguinário devido a sua luta para defender a Igreja católica durante as Cruzadas. Ao retornar para casa, ele descobre que sua amada Elisabeta (Winona Ryder, linda mas quase inexpressiva) havia cometido suicídio, ao acreditar-lhe morto. Revoltado com a Igreja, que se recusa a sepultar suicidas, ele se entrega às trevas. Essas cenas, faladas em romeno e filmadas com criatividade e elegância, dão o tom barroco e épico pretendido pelo cineasta. O que vem pela frente é a mais perfeita tradução do universo gótico e assustador da obra.

Séculos depois da sequência de abertura, o Conde vive isolado em seu castelo na Transilvânia e recebe a visita do agente imobiliário Jonathan Harker (Keanu Reeves, o único elo fraco do filme), que chega disposto a fechar negócio com o idoso e misterioso milionário, depois que seu colega anterior, Reinfield (o cantor Tom Waits em participação especial extremamente eficiente) saiu de cena devido a um grave desequilíbrio mental. As coisas parecem estar indo bem até que o Conde reconhece em uma imagem de Mina, a noiva de Harker, a reencarnação de sua amada. Trancando o jovem em seu castelo, ele embarca para a Inglaterra com a intenção de reconquistar sua felicidade. Em Londres, ele parte em busca de Mina, mesmo que para isso tenha que sacrificar a melhor amiga desta, a desinibida Lucy (Sadie Frost) e enfrentar o conhecido médico Abraham Van Helsing (Anthony Hopkins), estudioso de ocultismo e caçador de vampiros nas horas vagas.

 A atmosfera lúgubre criada por Coppola e seu diretor de fotografia Michael Ballhaus encanta até o mais renitente dos espectadores. Ao utilizar-se de técnicas rudimentares de cinema para contar sua história - contrariando a nascente tendência de CGI - o cineasta parece querer convidar a plateia a entrar em um universo carregado de simbolismos onde a escuridão revela mais que a claridade, onde o vermelho do sangue grita a cada frame, onde cada transição de cena é meticulosamente cuidada. O visual carregado - justamente como se fosse uma ópera - é impecável: a direção de arte e o figurino (premiado com um justíssimo Oscar) não ficam nunca aquém do fantástico. Mais do que pretender assustar, o que Coppola quer é pegar o espectador pela mão e apresentá-lo a uma história de amor que não deixa o tempo, a religião ou a morte lhe diminuir. Ao contrário de outras versões cinematográficas, onde o protagonista era retratado ora como monstro ora como galã, aqui o Conde Drácula tem uma personalidade bem mais complexa: sim, ele é um monstro sanguinário e impiedoso, mas é também um homem traído pela sua fé e acima de tudo, um amante caloroso e dedicado que atravessa séculos em busca de sua amada.


Na pele do exímio Gary Oldman, Drácula é um herói trágico. Oldman não erra o tom de sua personagem em momento algum, equilibrando magistralmente o sarcasmo, o romance e a violência que lhe são características sem deixar que uma anule a outra. Sob a pesada maquiagem (também premiada com um Oscar), Oldman se transforma em ancião, em lobo e em vampiro sem nunca perder a essência, e aproveita cada cena para demonstrar seu grande talento. Destaque absoluto do elenco, ele precisa, no entanto, contracenar com um apático Keanu Reeves e uma Winona Ryder que, apesar de esforçada, não atinge o potencial dramático de sua personagem, ao contrário de uma desconhecida Sadie Frost que pinta e borda com sua fogosa Lucy, dona de algumas das mais belas cenas do filme. Anthony Hopkins, como Van Helsing, também encontra o tom exato de sua atuação, entre o trágico e o cômico, e até mesmo Tom Waits revela-se um ator eficaz, transmitindo a sensação de perigo que a chegada do Conde anuncia.


Belamente concebido - a trilha sonora forte de Wojciech Kilar ajuda a estabelecer também o clima quase surreal da visão de Coppola - e encenado como uma angustiante peça de teatro - e é genial a inserção do cinematógrafo na cena do primeiro encontro entre Drácula e Mina - "Drácula de Bram Stoker" é a visão definitiva de uma das mais duradouras histórias de amor e perda da literatura mundial. É também mais uma poderosa prova do talento visionário de Francis Ford Coppola, em seu, até agora, último trabalho digno de figurar no rol de suas obras-primas.

Friday, October 29, 2010

O SILÊNCIO DOS INOCENTES

O SILÊNCIO DOS INOCENTES (The silence of the lambs, 1991, Orion Pictures, 118min) Direção: Jonathan Demme. Roteiro: Ted Tally, romance de Thomas Harris. Fotografia: Tak Fujimoto. Montagem: Craig McKay. Música: Howard Shore. Figurino: Colleen Atwood. Direção de arte/cenários: Kristi Zea/Karen O'Hara. Produção executiva: Gary Goetzman. Produção: Ron Bozman, Edward Saxon, Kenneth Utt. Elenco: Jodie Foster, Anthony Hopkins, Scott Glenn, Ted Levine, Brooke Smith, Anthony Heald. Estreia: 30/01/91

7 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Jonathan Demme), Ator (Anthony Hopkins), Atriz (Jodie Foster), Roteiro Adaptado, Montagem, Som

Vencedor de 5 Oscar: Melhor Filme, Diretor (Jonathan Demme), Ator (Anthony Hopkins), Atriz (Jodie Foster), Roteiro Adaptado
Vencedor do Golden Globe de Melhor Atriz/Drama (Jodie Foster)

Urso de Ouro Festival de Berlim: Melhor Diretor (Jonathan Demme)

Em Hollywood, uma regra não escrita dita que filmes lançados no início do ano tem poucas - ou nenhuma - chances nas cerimônias de premiação que acontecem no ano seguinte. Levando-se em consideração a quantidade de produtos que chegam às telas durante o período de um ano e o fato de que os estúdios deixam suas apostas para estrearem na época de maior visibilidade para as premiações - a saber, entre o feriado de Ação de Graças e o Natal - não é de se duvidar da afirmação. Mas toda regra tem exceções e, vez ou outra, os normalmente bitolados eleitores da Academia, por exemplo, descobrem que alguns filmes são tão bons que sobrevivem ao tempo e merecem sua homenagem. É o caso de "O silêncio dos inocentes", filmaço de Jonathan Demme que estreou em fevereiro de 1991 e mais de um ano depois arrebatou não só o Oscar de Melhor Filme do ano como reuniu no pacote as estatuetas de diretor, ator, atriz e roteiro adaptado, feito só conquistado antes em duas ocasiões em 1935, com "Aconteceu naquela noite", de Frank Capra, e em 1975 com "Um estranho no ninho", dirigido por Milos Forman. Além de ter superado a barreira cronológica e entrar no seleto grupo vencedor do Big Five, porém, "O silêncio dos inocentes" alcançou outro destaque - até hoje é o único filme de suspense/horror a abiscoitar o prêmio máximo do cinema.

Publicado em 1988, como uma espécie de sequência de "Dragão vermelho" - que por sua vez foi adaptado para o cinema em duas ocasiões, em 1986 (um fracasso) e em 2002 (um sucesso) - o livro de Thomas Harris logo chamou a atenção da atriz Jodie Foster, que apressou-se em comprar os direitos de adaptação. Porém, o ator Gene Hackman havia chegado na frente, pretendendo dirigir o filme e possivelmente estrelá-lo. Quando Hackman desistiu da ideia por não sentir-me mais à vontade participando de filmes violentos e Jonathan Demme - dono de um currículo que incluía mais claramente comédias como "Totalmente selvagem" e "De caso com a máfia" - assumiu o comando do projeto, Foster ofereceu-se para interpretar a protagonista, mas foi deixada de lado Demme queria Michelle Pfeiffer no papel. Depois que Pfeiffer, Meg Ryan e Melanie Griffith (!!!) também pularam fora devido ao tema um tanto quanto pesado do material, finalmente Jodie convenceu o cineasta de que era a atriz séria para viver Clarice Starling. Com o ator inglês Anthony Hopkins a bordo, na pele do vilão mais carismático da história do cinema, "O silêncio dos inocentes" estava pronto para estrear. O resto é história.


Pronto para estrear no outono de 1990, "O silêncio dos inocentes" teve sua estreia adiada pelo próprio estúdio - o já capenga Orion Pictures -, que preferiu focar seus esforços em promover o soporífero "Dança com lobos" junto aos eleitores da Academia. A estratégia funcionou - o filme de Kevin Costner levou 7 Oscar pra casa, a despeito de sua chatice - e a obra de Demme só foi ver a luz dos projetores no início de 1991. Mal sabia o estúdio que um ano depois estaria comemorando um bicampeonato - dessa vez muito mais justo - graças a um filme forte, tenso e sem concessões ao público médio. Um filme quase doentio e talvez justamente por isso, sensacional!

A aspirante a agente do FBI Clarice Starling (Jodie Foster) - cujo pai policial morreu quando ela ainda era criança - é chamada à sala de seu supervisor Jack Crawford (Scott Glenn) para que receba uma missão aparentemente banal e corriqueira entrevistar o famoso sociopata Hannibal Lecter (Anthony Hopkins), conhecido pela alcunha de Canibal, por degustar suas vítimas. A versão oficial é a de que a agência precisa de alguns dados dele para uma pesquisa, mas logo a jovem descobre que os interesses em Hannibal são bem outros cientes do brilhantismo do prisioneiro - um psiquiatra de QI muito acima da média - os membros do FBI querem que ele ajude na captura de um outro assassino serial que vem atacando mulheres e arrancando suas peles, apelidado de Buffalo Bill. Fascinado pela inteligência de Starling, Lecter aceita ajudá-la em sua missão, desde que ela compartilhe com ele seus pensamentos mais pessoais, como em uma espécie de sessão de terapia. Mesmo alertada dos perigos que corre aceitando a proposta de Lecter, ela aceita o desafio, iniciando um perigoso duelo mental.
Apedrejado por instituições de direitos aos gays, que viram nele mais um incitador ao preconceito - uma vez que seu vilão é um transexual violento - "O silêncio dos inocentes" acabou se beneficiando das polêmicas. Com mais de 130 milhões de dólares arrecadados nas bilheterias americanas, o filme de Demme arrancou elogios entusiasmados da crítica desde sua estreia e o prêmio de Melhor Diretor no Festival de Berlim de 1991 apenas reiterou as loas. Quando finalmente saiu da noite do Oscar multi-premiado (e já disponível no mercado de vídeo há um bom tempo), a história da fascinante relação entre uma agente do FBI com um psicopata canibal cimentou de vez sua importância na história do cinema.

Seguindo o material de origem com uma fidelidade quase canina, o roteiro de Ted Tally - merecidamente premiado com o Oscar - é um perfeito exemplo de como transportar um livro para as telas de cinema sem perder a sua essência. O clima de tensão constante que perpassa todo o romance de Thomas Harris nunca deixa de estar presente em sua versão cinematográfica. A direção firme e inteligente de Jonathan Demme respeita a história a as personagens acima de qualquer interesse em demonstrar versatilidade ou inovações. Ao confiar na trama e em seu desenrolar angustiante e excitante, Demme deixa que sua câmera discreta observe o embate entre Clarice e Hannibal - e posteriormente entre o FBI e Buffalo Bill - de forma seca, mas nunca indiferente. Jodie Foster entrega uma atuação arrebatadora, madura e corajosa como uma mulher sofrendo por demônios interiores enquanto caça os exteriores. Seu olhar expressivo consegue mixar terror, saudade e angústia na medida certa, sem exageros ou minimalismos estilísticos. Os olhos de Clarice são os olhos do público e como tal, são curiosos, nervosos, indagadores e se deixam hipnotizar por Lecter, em uma sublime interpretação de Anthony Hopkins, que teve sua carreira ressuscitada com seu Oscar, mas que depois de vários filmes repetindo a personagem acabou perdendo um pouco de seu fascínio. Na pele de Buffalo Bill, o ator Ted Levine - injustamente esquecido em todas as premiações do ano - consegue despertar pavor e asco, ainda que tenha que defender uma personagem praticamente indefensável. Somados à extraordinária trilha sonora de Howard Shore e à edição esperta de Craig McKay, a direção de Demme, o roteiro de Tally e o elenco impecável transformam "O silêncio dos inocentes" em um clássico moderno.