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Tuesday, April 12, 2011

O HOMEM QUE FAZIA CHOVER

O HOMEM QUE FAZIA CHOVER (The rainmaker, 1997, American Zoetrope/Constellation Entertainment/Douglas/Reuther Productions, 135min) Direção: Francis Ford Coppola. Roteiro: Francis Ford Coppola, Michael Herr, romance de John Grisham. Fotografia: John Toll. Montagem: Barry Malkin. Música: Elmer Bernstein. Figurino: Aggie Guerard Rodgers. Direção de arte/cenários: Howard Cummings/Barbara Munch. Produção: Michael Douglas, Fred Fuchs, Steven Reuther. Elenco: Matt Damon, Claire Danes, Danny DeVito, Mickey Rourke, Roy Scheider, Virginia Madsen, Mary Kay Place, Jon Voight, Dean Stockwell, Teresa Wright. Estreia: 18/11/97

Francis Ford Coppola é um cineasta de extremos. Ou tem lapsos da mais absoluta genialidade e produz filmes definitivos como "O poderoso chefão" e "Apocalypse now" ou assina fracassos estrondosos como "O fundo do coração" e "Tucker, um homem e seu sonho" (que, a despeito de sua qualidade fazem parte de uma nada lisonjeira lista de prejuízos absolutos). Por isso, não deixa de ser estranho ver seu nome estampado nos créditos de "O homem que fazia chover", mais uma adaptação para o cinema de um livro de John Grisham. Não que o filme tenha sido um erro total ou um furo comercial - mas porque em nenhum momento dos seus longos 135 minutos se percebe o talento visionário e a paixão que imprimiu em seus melhores trabalhos. "O homem que fazia chover" é um ótimo drama de tribunal - que felizmente não se resume somente às cenas do julgamento em si - mas, se é uma das melhores recriações da obra de Grisham para as telas, é apenas um filme correto dentro da filmografia genial de seu diretor.

Como sempre acontece nas histórias de Grisham, o protagonista é um advogado o jovem Rudy Baylor (Matt Damon) acaba de formar-se em Direito e, antes mesmo de passar no exame da Ordem, é contratado pela firma do misterioso Bruiser Stone (Mickey Rourke), para onde leva dois casos dos quais já cuidava; o testamento da velha senhora Birdie (Teresa Wright) - em cujo apartamento dos fundos ele mora, e um importante caso contra uma empresa de planos de saúde, que se recusa a pagar o tratamento de leucemia do jovem Donny Ray Black (Johnny Whitworth). Enquanto tenta levar o poderoso à julgamento - contando com a ajuda do colega Deck Shifflet (Danny DeVito),cujo maior talento é aliciar possíveis clientes em hospitais e delegacias - Baylor se apaixona por Kelly Riker (Claire Danes), uma jovem vítima de um marido abusivo.


O que há de melhor em "O homem que fazia chover" é a sua narrativa clássica e linear. Diferentemente do que fez em "Drácula de Bram Stoker", quando abusou de sua veia criativa em sequência de poesia ímpar que expandiam a trama criada pelo autor irlandês, aqui o cineasta se atém a contar a história imaginada por Grisham, sem apelar para efeitos de luz e sombra ou subterfúgios outros. O público que se dispor a assistir ao filme é presenteado com uma história simples de bem contra o mal - um tanto maniqueísta, sim, mas interessante o suficiente para manter a atenção até o final. E é fundamental para que a audiência torça por seu protagonista que ele seja vivido por um ator como Matt Damon. Em vias de tornar-se queridinho de Hollywood por "Gênio indomável" - que lhe deu um Oscar de roteiro original - Damon é a perfeita encarnação do rapaz boa-pinta, de bom coração e sensível com que a plateia pode (e deve) identificar-se. Sua escalação, um golpe de mestre de Coppola, dá o tom exato do que é "O homem que fazia chover": um filme simples, sem maiores sofisticações.

Mas por simples que não se entenda simplório. Apesar de não buscar soluções inéditas ou enquadramentos mirabolantes de câmera, Coppola não se descuida do roteiro - que ele mesmo adaptou. Ainda que as personagens não sejam exatamente multidimensionais, elas proporcionam a seus atores boas oportunidades de demonstrar seu talento. Mary Kay Place dá o tom exato a sua Dot Black, a mãe do jovem Donny Ray, uma mulher determinada a não deixar que o sofrimento de seu filho passe em branco. Danny DeVito brilha como o divertido Deck Shifflet e até mesmo coadjuvantes rápidos - como Dean Stockwell e Virginia Madsen - estão em momentos bastante inspirados. Talvez nesse cuidado com a direção de atores esteja mais claro o envolvimento do cineasta com o projeto, cujo resultado final recebeu a total aprovação de seu criador. De todas as adaptações de livros seus feitos por Hollywood, "O homem que fazia chover" é a preferida de John Grisham.

"O homem que fazia chover" é competente, é extremamente bem feito e tem um elenco exemplar. Não é nem de longe o melhor Francis Ford Coppola da história, mas é entretenimento de primeira linha e é bem capaz de empolgar os fãs do gênero.

Friday, November 26, 2010

DRÁCULA DE BRAM STOKER

DRÁCULA DE BRAM STOKER (Bram Stoker's Dracula, 1992; American Zoetrope/Columbia Pictures, 128min) Direção: Francis Ford Coppola. Roteiro: James V. Hart, romance de Bram Stoker. Fotografia: Michael Ballhaus. Montagem: Anne Goursaud, Glen Scantlebury, Nicholas C. Smith. Música: Wojciceh Kilar. Figurino: Eiko Ishioka. Direção de arte/cenários: Thomas Sanders/Garrett Lewis. Casting: Victoria Thomas. Produção executiva: Michael Apted, Robert O'Connor. Produção: Fred Fuchs, Francis Ford Coppola, Charles Mulvehill. Elenco: Gary Oldman, Winona Ryder, Anthony Hopkins, Keanu Reeves, Tom Waits, Richard E. Grant, Cary Elwes, Bill Campbell, Sadie FrostMonica Bellucci. Estreia: 13/11/92

4 indicações ao Oscar: Figurino, Direção de Arte/cenários, Maquiagem, Efeitos Sonoros
Vencedor de 3 Oscar: Figurino, Maquiagem, Efeitos Sonoros

Quem tem coragem de dizer que todos os filmes de vampiro são iguais - ou acha que a série "Crepúsculo" tem qualquer qualidade além de ser uma vitrine para a "beleza" de seus astros - provavelmente não assistiu a "Drácula de Bram Stoker", mais uma obra-prima de Francis Ford Coppola. Só mesmo um cineasta de seu porte, que encontrou humanidade nos mafiosos de "O poderoso chefão", que quase foi à falência com o esteticamente ousado "O fundo do coração" e deu uma nova visão à guerra do Vietnã em "Apocalypse now", poderia orquestrar, sem soar repetitivo, essa ambiciosa adaptação quase operística da história do mais famoso vampiro da literatura, escrita pelo irlandês Bram Stoker no século XIII.

O toque de mestre do diretor já dá as caras no prólogo, inédito no livro e que conta as origens do sanguessuga - inspirado em uma personalidade real. O conde Vlad Dracul (o espetacular inglês Gary Oldman) torna-se conhecido como sanguinário devido a sua luta para defender a Igreja católica durante as Cruzadas. Ao retornar para casa, ele descobre que sua amada Elisabeta (Winona Ryder, linda mas quase inexpressiva) havia cometido suicídio, ao acreditar-lhe morto. Revoltado com a Igreja, que se recusa a sepultar suicidas, ele se entrega às trevas. Essas cenas, faladas em romeno e filmadas com criatividade e elegância, dão o tom barroco e épico pretendido pelo cineasta. O que vem pela frente é a mais perfeita tradução do universo gótico e assustador da obra.

Séculos depois da sequência de abertura, o Conde vive isolado em seu castelo na Transilvânia e recebe a visita do agente imobiliário Jonathan Harker (Keanu Reeves, o único elo fraco do filme), que chega disposto a fechar negócio com o idoso e misterioso milionário, depois que seu colega anterior, Reinfield (o cantor Tom Waits em participação especial extremamente eficiente) saiu de cena devido a um grave desequilíbrio mental. As coisas parecem estar indo bem até que o Conde reconhece em uma imagem de Mina, a noiva de Harker, a reencarnação de sua amada. Trancando o jovem em seu castelo, ele embarca para a Inglaterra com a intenção de reconquistar sua felicidade. Em Londres, ele parte em busca de Mina, mesmo que para isso tenha que sacrificar a melhor amiga desta, a desinibida Lucy (Sadie Frost) e enfrentar o conhecido médico Abraham Van Helsing (Anthony Hopkins), estudioso de ocultismo e caçador de vampiros nas horas vagas.

 A atmosfera lúgubre criada por Coppola e seu diretor de fotografia Michael Ballhaus encanta até o mais renitente dos espectadores. Ao utilizar-se de técnicas rudimentares de cinema para contar sua história - contrariando a nascente tendência de CGI - o cineasta parece querer convidar a plateia a entrar em um universo carregado de simbolismos onde a escuridão revela mais que a claridade, onde o vermelho do sangue grita a cada frame, onde cada transição de cena é meticulosamente cuidada. O visual carregado - justamente como se fosse uma ópera - é impecável: a direção de arte e o figurino (premiado com um justíssimo Oscar) não ficam nunca aquém do fantástico. Mais do que pretender assustar, o que Coppola quer é pegar o espectador pela mão e apresentá-lo a uma história de amor que não deixa o tempo, a religião ou a morte lhe diminuir. Ao contrário de outras versões cinematográficas, onde o protagonista era retratado ora como monstro ora como galã, aqui o Conde Drácula tem uma personalidade bem mais complexa: sim, ele é um monstro sanguinário e impiedoso, mas é também um homem traído pela sua fé e acima de tudo, um amante caloroso e dedicado que atravessa séculos em busca de sua amada.


Na pele do exímio Gary Oldman, Drácula é um herói trágico. Oldman não erra o tom de sua personagem em momento algum, equilibrando magistralmente o sarcasmo, o romance e a violência que lhe são características sem deixar que uma anule a outra. Sob a pesada maquiagem (também premiada com um Oscar), Oldman se transforma em ancião, em lobo e em vampiro sem nunca perder a essência, e aproveita cada cena para demonstrar seu grande talento. Destaque absoluto do elenco, ele precisa, no entanto, contracenar com um apático Keanu Reeves e uma Winona Ryder que, apesar de esforçada, não atinge o potencial dramático de sua personagem, ao contrário de uma desconhecida Sadie Frost que pinta e borda com sua fogosa Lucy, dona de algumas das mais belas cenas do filme. Anthony Hopkins, como Van Helsing, também encontra o tom exato de sua atuação, entre o trágico e o cômico, e até mesmo Tom Waits revela-se um ator eficaz, transmitindo a sensação de perigo que a chegada do Conde anuncia.


Belamente concebido - a trilha sonora forte de Wojciech Kilar ajuda a estabelecer também o clima quase surreal da visão de Coppola - e encenado como uma angustiante peça de teatro - e é genial a inserção do cinematógrafo na cena do primeiro encontro entre Drácula e Mina - "Drácula de Bram Stoker" é a visão definitiva de uma das mais duradouras histórias de amor e perda da literatura mundial. É também mais uma poderosa prova do talento visionário de Francis Ford Coppola, em seu, até agora, último trabalho digno de figurar no rol de suas obras-primas.

Tuesday, October 26, 2010

O PODEROSO CHEFÃO - PARTE III

O PODEROSO CHEFÃO PARTE III (The godfather, part III, 1990, Paramount Pictures/American Zoetrope Studios, 169min) Direção: Francis Ford Coppola. Roteiro: Francis Ford Coppola, Mario Puzo. Fotografia: Gordon Willis. Montagem: Lisa Fruchtman, Barry Malkin, Walter Murch. Música: Carmine Coppola. Figurino: Milena Canonero. Direção de arte/cenários: Dean Tavoularis/Gary Fettis. Casting: Janet Hirshenson, Jane Jenkins, Roger Mussenden. Produção executiva: Fred Fuchs, Nicholas Gage. Produção: Francis Ford Coppola. Elenco: Al Pacino, Diane Keaton, Talia Shire, Andy Garcia, Eli Wallach, Joe Mantegna, George Hamilton, Bridget Fonda, Sofia Coppola, John Savage. Estreia: 25/12/90

7 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Francis Ford Coppola), Ator Coadjuvante (Andy Garcia), Fotografia, Montagem, Trilha Sonora Original, Direção de arte/cenários

Uma obra-prima com falhas ainda pode ser considerada uma obra-prima? Essa é a grande pergunta que fica no ar depois dos créditos de encerramento de "O poderoso chefão parte III", o final da saga da família Corleone, realizado dezesseis anos depois do segundo capítulo e dirigido pelo mesmo Francis Ford Coppola. Feito para sanar as dificuldades financeiras da produtora do cineasta - dificuldades recorrentes, aliás, em sua genial carreira - o encerramento da história de Michael Corleone dividiu a crítica, não fez o mesmo sucesso de bilheteria de seus antecessores e falhou em conquistar os Oscar a que foi indicado - incluindo Melhor Filme e diretor. Mas mesmo que não repita o brilhantismo dos dois primeiros filmes é um capítulo final emocionalmente poderoso e inesquecível. Tem falhas - principalmente uma que atende pelo nome de Sofia Coppola - mas fascina, envolve e surpreende como toda boa obra-prima.

A trama de "O poderoso chefão parte III" se passa em 1979 e começa quando Michael Corleone (Al Pacino, no auge do talento), envelhecido, tenta apagar seu passado sangrento iniciando uma relação de negócios com o Vaticano. Buscando fugir da vida repleta de violência em que viveu até então, ele almeja limpar o nome da família, deixando assim um legado de respeitabilidade aos filhos - o rebelde Anthony (Franc D'Ambrosio), que abandona a faculdade de Direito para tornar-se cantor lírico e a delicada Mary (Sofia Coppola, o nêmesis do filme). No entanto, o rastro de sangue deixado por seu passado não o deixa seguir tranquilamente seus planos quando Vincent Mancini (Andy Garcia), filho bastardo de seu irmão mais velho, Sonny, assume o posto como seu segurança pessoal. Temperamental e impulsivo como o pai, Vincent se apaixona por Mary e, com a fragilidade cada vez maior da saúde de Michael, começa a comandar uma feroz vingança contra os traidores da família. Para isso, conta com a ajuda da até então neutra Connie (Talia Shire).

É impressionante como "O poderoso chefão parte III" não se utiliza de meias-palavras. Enquanto o primeiro filme não mencionava a palavra máfia e jamais ousava sair do circuito familiar dos negócios dos Corleone, aqui Coppola e Mario Puzo vão até Wall Street e o Vaticano para deixar bem claras as implicações e as conexões entre a Igreja, as finanças e os negócios escusos da família. O cineasta não tem medo de explicitar a hipocrisia do catolicismo - dinheiro em troca de perdão incondicional - nem tampouco de especular sobre a morte do Papa então no poder. As sequências religiosas do filme, aliás, estão entre as mais espetaculares do filme, em especial a emocionante confissão de Michael, arrependido e cheio de remorsos pelas mortes que carrega nas costas, em especial a do irmão Fredo - é arrepiante quando, em uma de suas crises de saúde, ele grita seu nome, em uma espécie de delírio que somente um ator do porte de Pacino é capaz de transmitir sem soar patético ou forçado. Absolutamente ciente de seu poder como intérprete, ele é, inclusive, a razão de ser de todo o filme, uma força catalisadora que transforma tudo em um espetáculo de encher a alma e os olhos.
Visualmente, o terceiro capítulo da saga dos Corleone é o mais bem-acabado. Lindamente fotografado por Gordon Willis e com uma direção de arte impecável, o filme de Coppola seduz com seus enquadramentos meticulosamente planejados, realizados com uma competência ímpar - coisa de quem sabe o que faz! A estética chiaroscuro de algumas cenas casa com perfeição às incoerências do coração de Michael - um homem torturado por um passado negro que não o deixa vislumbrar um futuro brilhante, uma personagem de Shakespeare perdida em algum canto da Sicília. E é na Sicília, inclusive, que Coppola encerra sua história, em quarenta minutos dos mais excitantes que o cinema pode produzir.
 
Ao reunir todos os protagonistas de seu filme na apresentação da ópera "Cavalleria Rusticana", de Mascagni - que versa basicamente sobre vendetta - Coppola e Puzo praticamente montaram um ato final que beira à perfeição cinematográfica e emocional. A edição excepcional, a música poderosa e os desdobramentos de toda uma vida dedicada ao crime, ao sangue e à vingança são apresentados à plateia de forma arrebatadora, culminando na provavelmente mais angustiante cena de desespero de toda a série (e mais uma vez é Al Pacino o responsável por tamanho show). Poucas vezes foi visto no cinema uma conjunção de fatores tão alinhada quanto nessa derradeira meia-hora, em que fica patente o talento descomunal de Coppola de transformar em arte uma necessidade financeira. E quando o filme acaba, ao som da melancólica música de Nino Rota, até mesmo os pecados cometidos por ele acabam sendo perdoados, inclusive a escalação de sua filha Sofia no crucial papel de Mary Corleone. Mas, afinal, ela mereceu toda essa malhação plena, geral e irrestrita? A resposta é uma só: SIM.
 
Ao assumir o papel que até às vésperas do início das filmagens era de Winona Ryder - que teria sua chance de trabalhar com Coppola em "Drácula de Bram Stoker", dois anos depois - a filha do diretor colocou em risco toda a credibilidade do projeto e de um trabalho árduo, minucioso e adorado tanto por crítica quanto por público - a própria série "O poderoso chefão". E mesmo que, justiça seja feita, hoje em dia ela seja uma cineasta sensível e competente - "As virgens suicidas" e "Encontros e desencontros" estão aí para comprovar a afirmação - como atriz Sofia é um fiasco. Ela é o único elo perigosamente fraco do filme, e levando-se em conta que sua personagem é vital para o desenrolar da trama, ela quase compromete todo o resultado final. Suas cenas românticas com Andy Garcia e dramáticas com Al Pacino são constrangedoras e é difícil não ficar pensando em como as coisas poderiam ter sido bem melhores se Winona não tivesse se afastado do projeto. Sofia é, sim, a pior coisa de "O poderoso chefão parte III". Felizmente o resto é tão bom que não nos resta alternativa a não ser perdoar Francis por tamanho erro.

Contemplativo, triste, melancólico e saudosista, "O poderoso chefão parte III" encerra com coerência e pompa um dos trabalhos mais sensacionais produzidos pela história de Hollywood. Ainda bem que filmes duram para sempre!

Wednesday, September 22, 2010

CONTOS DE NOVA YORK


CONTOS DE NOVA YORK (New York Stories, 1989, Touchstone Pictures, 124min) Estreia: 01/3/89

"Lições de vida" (Life lessons) Direção: Martin Scorsese. Roteiro: Richard Price. Fotografia: Nestor Almendros. Montagem: Thelma Schoonmaker. Direção de arte/cenários: Kristi Zea/Nina F. Ramsey. Casting: Ellen Lewis. Produção: Barbara DeFina. Elenco: Nick Nolte, Rosanna Arquette, Steve Buscemi

"A vida sem Zoe" (Life without Zoe") Direção: Francis Ford Coppola. Roteiro: Francis Ford Coppola & Sofia Coppola. Fotografia: Vittorio Storaro. Montagem: Barry Malkin. Música: Carmine Coppola. Direção de arte/cenários: Dean Tavoularis/George DeTitta Jr. Casting: Aleta Chappelle. Produção executiva: Produção: Fred Fuchs, Fred Roos. Elenco: Heather McComb, Talia Shire, Giancarlo Giannini

"Édipo arrasado" (Oedipus wrecks) Direção e roteiro: Woody Allen. Fotografia: Sven Nykvist. Montagem: Susan E. Morse. Direção de arte/cenários: Santo Loquasto/Susan Bode. Casting: Juliet Taylor. Produção executiva: Charles H. Joffe, Jack Rollins. Produção: Robert Greenhut. Elenco: Woody Allen, Mia Farrow, Julie Kavner, Mae Questel


A ideia parecia genial e infalível: reunir 3 dos maiores cineastas americanos em atividade no mesmo filme, cada um contando uma história curta passada no mesmo cenário natural preferido por 10 entre 10 diretores, a bela Nova York. No entanto, mesmo com o talento inegável dos escolhidos para a empreitada, "Contos de Nova York" sofre do mesmo mal de quase todos os filmes do mesmo formato: irregularidade. E se Francis Ford Copolla e Martin Scorsese tiveram a coragem de afastar-se dos estilos pelos quais ficaram consagrados, é Woody Allen quem se sai melhor, justamente por apresentar mais do mesmo de maneira engraçada e refrescante.

O filme começa bem, com a belíssima canção "A whiter shade of pale", do grupo Procol Harum, tocando durante os créditos de abertura de "Lições de vida", orquestrado por Scorsese. Dessa vez, o nova-iorquino que mostra o lado obscuro da Grande Maçã conta uma história de amor e criatividade: o pintor Lionel Dobie (vivido com garra por Nick Nolte) não consegue superar o fim de seu relacionamento com a aprendiz e assistente (Rosanna Arquette), que o abandonou para ficar com um performer (o ótimo Steve Buscemi). Ainda dividindo com ela o enorme loft que habita, ele trabalha furiosamente como forma de sublimar o despeito e o sofrimento. Contando com a ajuda de uma caprichada trilha sonora (que inclui Rolling Stones, entre outros), Scorsese deixa de lado a violência e a vida marginal de seus protagonistas anteriores para mergulhar na mente de um homem talentoso mas um tanto auto-destrutivo, que vê no amor sua maior inspiração. Apesar da forma elegante com que o diretor conta sua história, no entanto, ela não consegue seduzir a audiência, em parte pela falta de carisma de Lionel Dobie, um anti-herói romântico, que busca conquistar a amada da maneira menos adequada possível. Também não ajuda a quase apatia de Rosanna Arquette, insípida como sempre. É um Scorsese com qualidades, mas bastante aquém do esperado.

Coppola, por sua vez, apela para um tom infanto-juvenil em seu segmento. Em seu roteiro, "A vida sem Zoe", co-escrito por sua filha Sofia - que levaria um Oscar quinze anos depois por "Encontros e desencontros" - ele utiliza elementos de fábula ao contar a história da pré-adolescente Zoe (Heather McComb), que vive confortavelmente em um hotel de Manhattan enquanto seus ocupados e milionários pais - um flautista internacional e uma fotógrafa - vivem em constantes viagens. Quando faz amizade com um novo colega de escola - mais rico ainda do que ela -, Zoe tem a oportunidade de salvar o casamento dos pais. Simplista e quase raso, o desenvolver da trama é sonolento, prejudicado por uma protagonista sem carisma e uma trama sem maiores interesses. O visual também não é exatamente atraente, o que deixa no público a sensação de que falta alguma coisa, quando finalmente os créditos finais aparecem. É, das três histórias a menos bem-sucedida, ainda que não deixe de ser simpática, em certos momentos.

E chegamos a Woody Allen e seu "Édipo arrasado". Desde o início, com os créditos inconfundíveis de seus filmes, percebe-se que Allen não quis inovar em absolutamente nada: temática, elenco e equipe técnicas de seus trabalhos anteriores comparecem fielmente e dão à plateia os melhores momentos do longa. A trama busca o surreal, mas ainda assim, o estilo claro do diretor é facilmente percebível. O próprio Allen interpreta o protagonista, um advogado relativamente bem-sucedido que no entanto não consegue livrar-se do assédio exagerado da mãe (Mae Questel), uma típica mãe judia que o super-protege e lhe causa extremos embaraços. Um dia, em um programa familiar com ela, sua nova namorada (Mia Farrow) e os filhos pequenos desta, ele vê seus sonhos se realizarem: sua mãe desaparece durante um truque de mágica. Mas como nada é perfeito, ela reaparece, nos céus de Nova York, falando com ele e quem quiser ouvir, além de mostrar fotos e contar histórias vergonhosas de sua infância. Só quem parece poder lhe ajudar é uma confusa esotérica (Julie Kavner). Às vésperas de lançar "Crimes e pecados", uma de suas obras-primas um tanto pessimistas, Allen brinca com sua persona cinematográfica, levando a plateia ao riso fácil e descompromissado do início de sua carreira, e dando à ótima Julie Kavner a oportunidade de demonstrar seu grande talento (como já havia feito em "A era do rádio").

No final das contas, "Contos de Nova York" não é exatamente um filme genial, a despeito de seus créditos. Mas é sempre interessante perceber que até mesmo os mais talentosos cineastas do mundo conseguem ser simples e delicados.

Wednesday, June 9, 2010

APOCALYPSE NOW


APOCALYPSE NOW (Apocalypse now, 1979, United Artists/Miramax, 202min) Direção e produção: Francis Ford Coppola. Fotografia: Vittorio Storaro. Montagem: Lisa Fruchtman, Gerald B. Greenberg, Walter Murch. Música: Carmine Coppola e Francis Ford Coppola. Direção de arte/cenários: Dean Tavoularis/George R. Nelson. Casting: Terry Liebling, Vic Ramos. Elenco: Marlon Brando, Martin Sheen, Robert Duvall, Dennis Hopper, Sam Bottoms, Laurence Fishburne, Harrison Ford. Estreia: 10/5/79

8 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Francis Ford Coppola), Ator Coadjuvante (Robert Duvall), Roteiro Adaptado, Fotografia, Montagem, Direção de arte, Som

Vencedor de 2 Oscar: Fotografia, Som

Vencedor da Palma de Ouro em Cannes: Melhor Filme

Vencedor de 3 Golden Globes: Diretor (Francis Ford Coppola), Ator Coadjuvante (Robert Duvall), Trilha Sonora


Alguns filmes tem bastidores tão ou mais interessantes do que o produto que chega às telas dos cinemas. Um exemplo óbvio dessa afirmação é "Apocalypse now", que, lançado no festival de Cannes de 1979 tornou-se o primeiro - e até hoje único - filme a abocanhar a Palma de Ouro sem estar terminado. E se for levado em consideração que as filmagens começaram em 1976 nas Filipinas e que foram mais turbulentas que a própria guerra do Vietnã que retrata, percebe-se claramente que a adaptação livre de Francis Ford Coppola do livro "O coração das trevas", de Joseph Conrad é uma das mais problemáticas que se tem notícia. O inferno, no entanto, nesse caso, levou ao paraíso. Eleito em 2007 pelo American Film Institute como o 30º melhor filme da história, além de frequentar com assiduidade as listas dos melhores de qualquer instituição especializada em cinema, "Apocalypse now" é um dos filmes mais importantes realizados em Hollywood, e uma prova do poder de fogo de seu diretor.

Cheio de moral graças ao sucesso merecido dos dois primeiros capítulos da série "O poderoso chefão", Coppola viajou para as Filipinas - mesmo indo contra os conselhos de Roger Corman - para transformar a África do livro de Conrad no Vietnã, cuja guerra estava recém acabada e ainda dolorosamente na vida dos americanos. Seu plano era passar seis semanas filmando. Acabou passando 16 meses de crises pessoais, atrasos no cronograma, estouro de orçamento, imprevistos técnicos e artísticos e principalmente graves problemas de saúde - o ator principal, Martin Sheen, chegou a ter um enfarte (aos 36 anos), devidamente escondido dos executivos que produziam o filme. A epopeia de Coppola em realizar seu filme acabou devidamente registrado por sua esposa, Eleanor, que em 1991 lançou o documentário "O apocalipse de um cineasta", um precioso retrato de uma das mais complicadas filmagens da história do cinema.

Antes que Coppola assumisse o posto de diretor, "Apocalypse now" correu o sério risco de ser assinado por um George Lucas pré-"Star Wars", até que a demora em sua produção acabou empurrando o filme para seu colo. A demora em encontrar um protagonista - Steve McQueen, Al Pacino, Jeff Bridges e um entusiasmado Nick Nolte foram cogitados - seria o menor dos problemas que Coppola iria enfrentar. Mesmo com a saída de Harvey Keitel (substituído por Martin Sheen), as coisas não davam a impressão de que iriam transformar-se no rolo compressor que se tornaram; Sam Bottoms fez a maioria de suas cenas chapado (de speed, LSD ou maconha), Laurence Fishburne mentiu a idade para entrar no elenco(tinha apenas 14 anos), James Caan cobrou demais para participar (um jovem Harrison Ford assumiu seu papel) e Marlon Brando, escalado para o crucial papel de Kurtz foi provavelmente a causa maior do fato do cineasta ter pensado seriamente em suicídio.

A história de "Apocalypse now" começa em 1969. O capitão Benjamin Willard (Martin Sheen) recebe a missão (absolutamente secreta) de localizar, no Cambodja, o Coronel Kurtz (Marlon Brando), um genial e condecorado soldado americano que, alegam seus superiores, perdeu a sanidade mental e, liderando um grupo de nativos, vem armando atos de violência e terrorismo nas florestas asiáticas. Willard não apenas tem de encontrar Kurtz, mas também matá-lo. Acompanhado de um grupo de soldados, ele atravessa um rio que não conhece absolutamente - testemunhando atos enlouquecidos de guerra - e chega até as matas onde está seu alvo. Surpreendido e pego como refém, ele vê no homem que procura o retrato do absurdo do conflito.

Na pele do Coronel Kurtz, Marlon Brando mostra porque é um nome ímpar na história da sétima arte. Ao chegar às Filipinas muitos quilos mais gordo, careca e sem ter lido uma única linha do romance de Conrad, o ator despertou a ira de Coppola, mas é inegável que, no momento em que entra em cena, na escuridão planejada por Vittorio Storaro (vencedor do Oscar de fotografia), ele rouba o filme descaradamente. Recitando T.S. Elliot, assustadoramente perturbado e expressando física e psicologicamente os horrores da guerra, seu Coronel Kurtz imediatamente gruda no inconsciente do público como uma das performances mais fascinantes do cinema, dando sentido ao que antes parecia uma viagem alucinógena de Coppola e cia.

Mas afinal de contas, "Apocalypse now" é realmente uma obra-prima? Sim. E não. Sim, porque qualquer filme que apresentasse a atuação arrebatadora de Brando e a fotografia deslumbrante de Storaro e gravasse na memória da audiência sequências tão brilhantes como o ataque aéreo ao som da "Cavalgada das Valquírias", de Wagner mereceria o título. E não, porque obras-primas com falhas dificilmente podem ser chamadas assim. E "Apocalypse" tem algumas falhas. Entre os momentos de brilho absoluto encontram-se cenas simplesmente aborrecidas e lentas, que quebram o ritmo da narrativa - e nem mesmo a versão "Redux" lançada em Cannes em 2001 consegue salvar esses momentos. Seus trinta minutos finais - justamente aqueles em que Brando bota o filme no bolso, apesar do trabalho excelente de Martin Sheen, Dennis Hopper (como um fotógrafo de guerra) e Robert Duvall (como um militar metido a surfista) - compensam qualquer sono, mas ainda assim é um filme que requer mais paciência do que o habitual.

Claustrofóbico, lisérgico, aterrador... são palavras que descrevem o inferno imaginado por Francis Ford Coppola. Mas é a voz de Marlon Brando como Coronel Kurtz que nunca mais sai da mente da audiência: "O horror... o horror..." E dizem que este é o filme que mais perto chega da verdadeira guerra do Vietnã...

Saturday, May 22, 2010

O PODEROSO CHEFÃO - PARTE II


O PODEROSO CHEFÃO - PARTE II (The godfather - Part II, 1974, Paramount Pictures, 200min) Direção: Francis Ford Coppola. Roteiro: Francis Ford Coppola, Mario Puzo, baseado no romance de Mario Puzo. Fotografia: Gordon Willis. Montagem: Barry Malkin, Richard Marks, Peter Ziner. Música: Nino Rota. Figurino: Theadora Von Runkle. Direção de arte/cenários: Dean Tavoularis/George R.Nelson. Casting: Jane Feinberg, Michael Fenton, Vic Ramos. Produção: Francis Ford Coppola. Elenco: Al Pacino, Robert DeNiro, Robert Duvall, John Cazale, Diane Keaton, Talia Shire, Lee Strasberg, Bruno Kirby, Troy Donahue, Michael V. Gazzo. Estreia: 20/12/74

11 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Francis Ford Coppola), Ator (Al Pacino), Ator Coadjuvante (Robert DeNiro, Michael V.Gazzo, Lee Strasberg), Atriz Coadjuvante (Talia Shire), Roteiro Adaptado, Trilha Sonora Original, Figurino, Direção de Arte

Vencedor de 6 Oscar: Melhor Filme, Diretor (Francis Ford Coppola), Ator Coadjuvante (Robert DeNiro), Roteiro Adaptado, Trilha Sonora Original, Direção de Arte

Vencedor de 6 Golden Globe: Melhor Filme/Drama, Diretor (Francis Ford Coppola), Ator/Drama (Al Pacino), Roteiro, Trilha Sonora, Most Promising Newcomer (Lee Strasberg)


Continuações de filmes de sucesso são, via de regra, caça-níqueis realizados para salvar estúdios da bancarrota ou alimentar ainda mais seus cofres. A preocupação com a integridade obra original inexiste na maioria esmagadora dos casos, uma vez que normalmente as sequências de campeões de bilheteria esgotam a ideia central dos filmes e humilham suas personagens sem pena nem dó. Felizmente, toda regra tem exceção e, neste caso, nenhuma exceção é mais gloriosa do que "O poderoso chefão - Parte II" - , que, lançado meros dois anos depois da estreia de seu primeiro capítulo, não só o superou em sucesso artístico - inclusive dobrando o número de Oscar recebidos - como comprovou o talento e o gênio de seu diretor, roteirista e produtor Francis Ford Coppola. Em "O poderoso chefão - Parte II", ele não apenas continuou contando a trajetória de Michael Corleone rumo ao poder absoluto; ele intercalou a ela o início de toda a família, apresentando ao público a juventude do patriarca Don Vito Corleone, aqui interpretado por um jovem e já excelente Robert DeNiro.

Apesar de ter ganho o Oscar de roteiro adaptado, a segunda parte da saga Corleone não é totalmente baseada no livro "O chefão", que inspirou o filme original. Apenas um capítulo do livro, que conta a chegada de Vito à Nova York, em 1901, e o início de seu caminho ao poder já estabelecido no primeiro filme, foi utilizado no script do diretor e do autor do livro, Mario Puzo. Toda a trama envolvendo Michael Corleone e a família em Las Vegas e Cuba foi criado especificamente para o filme, e fortalece o conceito de máfia insinuado em 1972 e aqui abertamente declarado em cenas que mostram uma CPI a respeito das atividades dos Corleone. A genialidade desse segundo filme reside principalmente na divisão da história em dois núcleos separados que juntos, formam uma unidade coesa e sólida.

"O poderoso chefão - Parte II", começa em 1958, em Lake Tahoe, Nevada, na festa da primeira comunhão de Anthony, o filho mais velho de Michael (Al Pacino) e Kay (Diane Keaton). A reunião - não apenas familiar, mas que também junta no mesmo ambiente os diversos colaboradores do clã - ecoa o casamento de Connie (Talia Shire), que abria o primeiro "Chefão". Nessa festa, fica-se sabendo dos negócios de Michael em Las Vegas, dirigidos com mão não muito firme por Fredo (John Cazale), seu irmão mais velho. Enquanto tenta lidar com uma traição por parte do próprio irmão, Michael se vê cada vez mais solitário e afastando-se das pessoas que ama, além de participar ativamente da revolução cubana. Paralelamente, o filme narra a chegada de Vito Corleone (Robert DeNiro) aos EUA. Chegado da Sicília com apenas nove anos de idade, na juventude mesmo ele trava conhecimento com Clemenza (Bruno Kirby), um vizinho metido com tramoias escusas e que se tornará seu homem de confiança quando ele mata o chefe do bairro e assume seu lugar, dando origem a toda a saga contada por Coppola e Puzo.

Um pouco mais longo do que seu antecessor, mas ainda assim dono de um invejável ritmo, "O poderoso chefão - Parte II", tornou-se a primeira sequência a ganhar o Oscar de Melhor Filme (feito repetido apenas 30 anos depois com "O Senhor dos anéis - O retorno do rei"). E motivos para tal homenagem não faltam; poucas vezes o cinema conseguiu ser tão fascinante quanto aqui, com um primoroso roteiro que privilegia os detalhes mais do que a grandiosidade que um projeto dessa envergadura poderia pressupor. Da maneira como Coppola conta sua história os olhares são mais pungentes do que os tiros, o subtexto é mais claro do que discursos e as relações familiares são muito mais importantes do que os negócios financeiros - mesmo que essa teoria seja de certa forma derrubada com as cenas finais, dignas da mais trágica peça vitoriana.

E é aqui, em "O poderoso chefão - Parte II", que Michael Corleone assume de vez sua persona shakespereana. Envolvido em uma paranoia cada vez mais avassaladora, o rapaz idealista que defendeu seu país na II Guerra começa seu caminho indelével para a solidão. É admirável a maneira com que o diretor consegue equilibrar - sem perder o interesse da audiência - sequências absurdamente violentas (visual e psicologicamente falando) e cenas de partir o coração, interpretadas por atores no auge de seu domínio artístico. Na pele de um juvenil Vito Corleone, Robert DeNiro já demonstra o imenso talento que viria a consagrá-lo nos anos subsequentes como o melhor ator de sua geração, e o Oscar de ator coadjuvante apenas coroou seu desempenho irretocável. John Cazale, como Fredo, tem algumas das melhores cenas de sua curta carreira, em uma memorável e comovente atuação. Diane Keaton também tem, aqui, as maiores oportunidades de sua personagem na série e os dois veteranos atores que conquistaram indicações ao Oscar de coadjuvante (Lee Strasberg e Michael V.Gazzo) fazem jus a sua fama de mestres: Strasberg é, inclusive, um dos fundadores do Actors Studio, que formou nomes como os próprios Brando, DeNiro e Pacino.

Mas é Al Pacino o corpo e a alma de "O poderoso chefão - Parte II". Em uma interpretação silenciosa, raivosa, paranoica e melancólica, o ator transmite a variada gama de nuances de sua complexa personagem sem jamais perder sua essência. Michael Corleone e Al Pacino formam o exemplo mais impressionante de casamento entre ator e personagem da história do cinema. Ainda bem que se pode assistir a isso sempre que der vontade.

Tuesday, May 18, 2010

O PODEROSO CHEFÃO


O PODEROSO CHEFÃO (The godfather, 1972, Paramount
Pictures, 175min) Direção: Francis Ford Coppola. Roteiro: Francis Ford Coppola, Mario Puzo, baseado no romance de Mario Puzo. Fotografia: Gordon Willis. Montagem: William Reynolds, Peter Zinner. Música: Nino Rota. Figurino: Anna Hill Johnstone. Direção de arte/cenários: Dean Tavoularis/Philip Smith. Casting: Louis DiGiaimo, Andrea Eastman, Fred Roos. Produção: Albert S. Ruddy. Elenco: Marlon Brando, Al Pacino, James Caan, Robert Duvall, Diane Keaton, John Cazale, Richard Castelano, Talia Shire, Sterling Hayden, John Marley, Al Lettieri, Abe Vigoda, Gianni Russo, Morgana King, Simonetta Stefanelli. Estreia: 24/3/72


11 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Francis Ford Coppola), Ator (Marlon Brando), Ator Coadjuvante (James Caan, Robert Duvall, Al Pacino), Roteiro Adaptado, Montagem, Trilha Sonora Original, Figurino, Som

Vencedor de 3 Oscar: Melhor Filme, Ator (Marlon Brando), Roteiro Adaptado

Vencedor de 5 Golden Globes: Melhor Filme/Drama, Diretor (Francis Ford Coppola), Ator/Drama (Marlon Brando), Roteiro, Trilha Sonora


Quantas vezes é preciso que um filme seja assistido para que deixe de hipnotizar sua audiência ou mesmo perca seu sabor de novidade? Se o filme em questão for "O poderoso chefão" ainda não existe uma resposta satisfatória a essa questão. Mesmo passados 38 anos de seu lançamento, a adaptação de Francis Ford Coppola para o livro de Mario Puzo ainda mantém intactos seu vigor, sua inteligência e sua aura de obra-prima absoluta. Um dos melhores filmes da história do cinema - se não O melhor - o início da saga da família Corleone é o mais perfeito exemplo de tudo que um filme deve ser para ficar marcado no inconsciente coletivo de forma indelével. Mas foi preciso muito esforço para que ele ficasse como é conhecido hoje em dia.

Não é novidade para ninguém a brava luta de Coppola para conseguir fazer com que a Paramount concordasse com as escalações de Marlon Brando como Vito Corleone - papel-chave na trama - e Al Pacino como Michael - o estúdio parecia querer qualquer um menos Pacino no papel do filho caçula do clã de mafiosos mais fascinante da história do cinema. Esse "qualquer um" incluía, entre outros, Warren Beatty, Jack Nicholson e Dustin Hoffman, além de James Caan, que ficou com o papel do filho mais passional de Don Corleone, Sonny. Toda a árdua batalha para Coppola finalmente fazer o filme do seu jeito está detalhada no disco de extras da exemplar edição comemorativa da saga, lançada em dvd, e, se por si só são interessantes o bastante para grudar o espectador no sofá de casa, servem apenas de aperitivo para o que realmente importa: a majestade do filme em si.

Pra quem ainda não sabe, "O poderoso chefão" começa em 1945, logo após o final da II Guerra Mundial. O jovem soldado Michael (Al Pacino no papel de sua vida) retorna à Nova York acompanhado da namorada, a professora Kay Adams (Diane Keaton), e chega a tempo do casamento de sua irmã caçula, Connie (Talia Shire, irmã do diretor) com o mau-caráter Carlo Rizzi (Gianni Russo). Sua chegada enche de alegria seu pai, Don Vito Corleone (um Marlon Brando com meros 47 anos e uma caracterização antológica), o chefão de uma das famílias mafiosas mais importantes da cidade. Quando Don Vito se recusa a juntar-se a outras famílias em negócios envolvendo drogas, acaba sofrendo um grave atentado que quase lhe tira a vida. Mesmo não querendo envolver-se nos negócios escusos do pai e dos irmãos, Michael não hesita em assassinar seus rivais e fugir para a Itália, onde se casa com a bela Apolonia (Simonetta Stefanelli). Quando mais uma vez retorna a seu país e sua casa, percebe estarrecido que não há como escapar da sina violenta de seu sangue, e assume a liderança dos Corleone.

Escolher a melhor cena de "O poderoso chefão" é tarefa ingrata e impossível. Coppola construiu seu filme como uma ópera grandiosa, grandiloquente, recheada de momentos de extrema violência ao lado de cenas dramaticamente estruturadas e interpretadas por um elenco onde ninguém está menos do que espetacular (não foi por acaso que 3 de seus coadjuvantes foram indicados ao Oscar). A fotografia escura de Gordon Willis (outro item questionado pelos executivos do estúdio durante as filmagens) expressa com maestria as ideias do roteiro, escrito a quatro mãos pelo diretor e pelo autor do romance em que baseia, Mario Puzo. A edição enxuta nunca deixa que se perceba que se trata de um épico de três horas de duração - que voam diante dos olhos incrédulos da plateia. A trilha sonora de Nino Rota é de uma pungência indescritível e até mesmo o glamour que o filme transmite - e que foi alvo de algumas críticas que não tinham do que reclamar da obra como um todo - tem um charme e um poder que muitos cineastas de hoje em dia dariam um braço para conseguir.

Qualquer coisa que se diga sobre "O poderoso chefão" é desnecessário. Inesquecível na pele de Don Corleone - que lhe deu o segundo Oscar, recusado através de uma índia mais falsa que nota de três dólares -, Marlon Brando é a cara dessa primeiro capítulo tão impecável que exigiu dois novos capítulos, em 1974 e 1990. A saga da família Corleone é mais do que simplesmente um filme de gângster. É o filme que mais se aproxima da perfeição em termos cinematográficos, e o culto a seu nome - por parte da crítica e do público - apenas confirma suas inumeráveis qualidades.