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Tuesday, February 7, 2012

O NOVATO

O NOVATO (The recruit, 2003, Touchstone Pictures, 115min) Direção: Roger Donaldson. Roteiro: Roger Towne, Kurt Wimmer, Mitch Glazer. Fotografia: Stuart Dryburgh. Montagem: David Rosenbloom. Música: Klaus Badelt. Figurino: Beatrix Pasztor. Direção de arte/cenários: Andrew McAlpine/Peter P. Nicolakakos. Produção executiva: Jonathan Glickman, Ric Kidney. Produção: Jeff Apple, Gary Barber, Roger Birnbaum. Elenco: Al Pacino, Colin Farrell, Bridget Moynahan, Gabriel Macht. Estreia: 28/01/03

Revelado por Joel Schumacher no injustamente ignorado “Tigerland – A caminho da guerra”, o irlandês Colin Farrell tornou-se uma das promessas mais quentes de Hollywood. Dirigido por Steven Spielberg em “Minority Report – A nova lei” – onde atuou ao lado de ninguém menos que Tom Cruise – e co-astro de Bruce Willis no drama de guerra militar “A guerra de Hart”, Farrell contracena, em “O novato”, com um dos maiores monstros sagrados do cinema,  Al Pacino. Demonstrando uma segurança ímpar, o jovem ator faz de seu duelo com o veterano astro a maior razão para se assistir a um filme que, a despeito de não ser o filmaço que poderia, cumpre bastante bem seu objetivo de entreter. Assinado pelo mesmo Roger Donaldson do surpreendente "Sem saída" (com um Kevin Costner pré-superapreciação), "O novato" é quase formulaico, mas envolve.

No roteiro, escrito por Robert Towne, Kurt Wimmer e Mitch Glazer, Farrell vive o jovem James Douglas Clayton, um gênio da informática que complementa a renda trabalhando como bartender. Sua vida começa a mudar quando ele é procurado por Walter Burke (um Al Pacino à vontade, mas repleto dos tiques e cacoetes que o vem acompanhando há alguns anos), um chefão da CIA que o recruta para um treinamento na agência. A princípio relutante em aceitar a proposta, Clayton topa o convite quando percebe que ele pode ser a sua chance de desvendar os segredos que cobrem a morte misteriosa de seu pai, que ele acredita ter sido também agente secreto.



 
Levado para o campo de treinamento da agência, conhecido como “A Fazenda”,  Clayton conhece e se envolve com uma colega, a misteriosa Layla Moore (a insípida Bridget Moynahan), enquanto toma conhecimento dos esquemas e das regras que são impostas pela CIA. Depois de ter falhado em uma missão de ensaio, ele volta a sua vida normal, até que Burke mais uma vez o procura, lhe oferecendo uma missão verdadeira, mas potencialmente perigosa: descobrir o nome de um agente duplo que anda contrabandeando informações sigilosas. Entrando no jogo, o rapaz descobre que a principal suspeita é justamente a mulher por quem está apaixonado.  

A bem da verdade, “O novato” começa muito bem, com um empolgante clima de espionagem e uma edição primorosa. O treinamento dos aspirantes a agentes são de deixar qualquer um grudado na poltrona, com diálogos interessantes e atuações hipnotizantes. A segunda metade do filme, no entanto, cai na besteira de tentar surpreender a audiência, com reviravoltas nem sempre bem sucedidas e um final bastante previsível. No entanto, o carisma de Pacino e a estrela ascendente de Farrell (esbanjando charme antes de começar a se perder em inúmeras escolhas equivocadas) seguram com dignidade o rojão e transformam um policial corriqueiro em um filme acima da média.

Tuesday, July 26, 2011

UM DOMINGO QUALQUER

UM DOMINGO QUALQUER (Any given sunday, 1999, Warner Bros, 150min) Direção: Oliver Stone. Roteiro: Oliver Stone, John Logan, história de John Logan e Daniel Pyne. Fotografia: Salvatore Totino. Montagem: Stuart Levy, Tom Nordberg, Keith Salmon, Stuart Waks. Música: Richard Horowitz, Paul Kelly. Figurino: Mary Zophres. Direção de arte/cenários: Victor Kempster/Ron Reiss, Ford Wheeler. Produção executiva: Richard Donner, Oliver Stone. Produção: Dan Halstead, Lauren Shuler Donner, Clayton Towsend. Elenco: Al Pacino, Cameron Diaz, Dennis Quaid, Jamie Foxx, Anne-Margret, Charlton Heston, James Woods, LL Cool J, Matthew Modine, Lauren Holly, Aaron Eckhart. Estreia: 22/12/99

Oliver Stone pode ser considerado o mais americano dos cineastas. Basta dar uma olhada para trás em sua filmografia para constatar sua obsessão com temas intimamente ligados ao interesse de seu país natal. Filmes como “Platoon” e “Nascido em 4 de julho” versavam sobre a guerra do Vietnã. “JFK” contava a conspiração que culminou na morte do presidente John Kennedy e “Assassinos por natureza” brincava com a fascinação pela violência – talvez seu filme com maior alcance universal. Em “Um domingo qualquer” mais uma vez Stone utiliza um tema tipicamente ianque – o futebol americano – para exibir sua técnica invejável, mesmo que para contar uma história sem maiores novidades.

Al Pacino (em mais uma de suas atuações nervosas) vive Tony D’Amato, o técnico do Miami Sharks, um time que anda em uma maré de derrotas consecutivas. Não bastasse os problemas em campo, como o acidente com o capitão do time (um surpreendente Dennis Quaid), ele ainda tem que enfrentar a pressão da dona do time, a ganaciosa Christina Pagliacci (Cameron Diaz canastra ao extremo), que precisa de uma vitória para acalmar seus investidores e a arrogância do novo astro do time, o talentoso mas arredio Will Beamean (Jamie Foxx, espetacular).



Ao situar sua trama em um terreno praticamente desconhecido do público não-americano, Stone acaba perdendo muito da identificação que talvez pudesse ambicionar com os demais espectadores. Apesar de muitas situações serem plenamente similares com outros esportes – e os personagens-clichês abundam, desde o médico mau-caráter vivido por James Woods à esposa ambiciosa do jogador afastado, interpretada por Lauren Holly – o filme ainda tem uma personalidade extremamente nacionalista que incomoda mais do que agrada. O inegável talento de Stone, no entanto, deixa tudo mais atraente ao consumidor normal. Tudo que o diretor se acostumou a entregar à platéia está em doses quase exageradas.

A fotografia realista de Salvatore Totino, a edição alucinada e o desenho de som acachapante fazem com que se tenha a impressão de estar no meio do gramado, junto com os jogadores. O ritmo, alucinante em alguns momentos e quase contemplativo em outros, pode deixar os mais sensíveis tontos - e Stone nem se importa em mostrar um jogador perdendo um olho durante um jogo ou esportistas cheirando cocaína e fazendo sexo com prostitutas em festas regadas à álcool e drogas. As metáforas estão por toda parte – a citação ao clássico “Ben-hur” chega ao requinte de contar com o próprio astro do filme, Charlton Heston, em participação especial – e o trabalho de Pacino, Foxx e Quaid equilibram como podem os exageros histriônicos de Cameron Diaz. O final chega perto do clichê, mas espertamente consegue fugir dele com classe e ironia.

“Um domingo qualquer” não é nem de longe o melhor trabalho de Oliver Stone mas tem qualidades suficientes para garantir o interesse por suas longas duas horas e meia. Basta ter um pouco de paciência.

Friday, July 15, 2011

O INFORMANTE

O INFORMANTE (The insider, 1999, Spyglass Entertainment/Touchstone Pictures, 157min) Direção: Michael Mann. Roteiro: Michael Mann, Eric Roth, artigo "The man who knew too much", de Marie Brenner. Fotografia: Dante Spinotti. Montagem: William Goldenberg, David Rosenbloom, Paul Rubell. Música: Pieter Bourke, Lisa Gerrard. Figurino: Anna Sheppard. Direção de arte/cenários: Brian Morris/Marjorie McShirley. Produção: Pieter Jan Brugge, Michael Mann. Elenco: Al Pacino, Russell Crowe, Christopher Plummer, Diane Venora, Philip Baker Hall, Lindsay Crouse, Debi Mazar, Stephen Tobolowsky, Colm Feore, Bruce McGill, Gina Gershon, Rip Torn. Estreia: 28/10/99

7 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Michael Mann), Ator (Russell Crowe), Roteiro Adaptado, Fotografia, Montagem, Som

Sem medo de soar machista, pode-se dizer tranqüilamente que Michael Mann é um diretor de filmes de homem. Obras como “O último dos moicanos” (a versão anabolizada com Daniel Day-Lewis) e “Fogo contra fogo” (o primeiro encontro em cena dos monstros Al Pacino e Robert DeNiro) são pistas que levam sem medo à esta afirmação. “O informante” confirma a teoria. Baseado em um fato real, contado em um artigo da revista Vanity Fair, o filme tem uma força masculina que independe de músculos. Estrelado por Al Pacino e Russell Crowe - ambos em um grande momento - o filme de Mann é uma crítica feroz à mídia e a indústria tabagista e sua contundência arrancou elogios unânimes, a ponto de chegar à corrida do Oscar em sete categorias - incluindo as importantíssimas Melhor Filme, Diretor, Ator e Roteiro Adaptado.

"O informante" começa quando Jeffrey Wingand (Crowe, em uma atuação nervosa que lhe rendeu uma merecida indicação ao Oscar), executivo de primeiro escalão de uma indústria de cigarros é demitido e obrigado a assinar um contrato que o proíbe de revelar segredos da empresa. Por mero acaso ele é procurado por Lowell (Pacino, brilhando em cada cena em uma interpretação menos exagerada do que de costume), o produtor do popular programa de TV 60 Minutes, para ser o consultor de um outro programa. Com o seu faro de repórter, Lowell logo descobre que Wingand tem muito a falar e o convence a dar um entrevista exclusiva. A entrevista, que faz sérias revelações sobre mentiras contadas pela indústria do tabaco, acaba sendo gravada, mas impedida de ir ao ar pela alta cúpula da emissora do programa. Enquanto isso, a vida de Wingand se deteriora progressivamente: seu casamento entra em crise e ele passa a ser ameaçado de morte.



Narrando sua história em tom quase documental, para o qual colaboram a sóbria fotografia do veterano Dante Spinotti e a ágil edição de William Goldenberg e Paul Rubell, Mann utiliza sua experiência de forma a nunca julgar os atos nem as personalidades de suas personagens, ambas em seus limites, sejam eles pessoais ou profissionais. Sem a pressa que poderia atabalhoar o desenvolvimento a contento da trama, seu roteiro (escrito a quatro mãos com o oscarizado Eric Roth) é forte e contundente, sem nunca escorregar na denúncia vazia ou no sentimentalismo barato, ainda que essa opção em diminuir o ritmo deixe o filme um tanto quanto arrastado em alguns momentos. Pode-se até dizer que "O informante" é um filme dois em um primeiro conta a história de Lowell em busca de um furo e depois mostra os dramas na vida de Wingand. Felizmente ambos são da mais alta qualidade.

Afinal de contas, é no show de seus atores que reside a força de “O informante”, Russell Crowe à frente. É quase impossível lembrar da truculência de Crowe em “Los Angeles, cidade proibida” quando se assiste à sua espetacular atuação como Jeffrey Wingand, um homem frágil e impotente diante da ruína de tudo que construiu em vida. Seu trabalho é tão consistente que consegue ofuscar um dos melhores desempenhos de Al Pacino, absolutamente generoso em dividir o palco com o colega neo-zelandês. Um grande drama jornalístico sobre ética e verdade!

Monday, April 18, 2011

ADVOGADO DO DIABO

ADVOGADO DO DIABO (Devil's advocate, 1997, Warner Bros/Regency Enterprises, 144min) Direção: Taylor Hackford. Roteiro: Jonathan Lemkin, Tony Gilroy, romance de Andrew Neiderman. Fotografia: Andrzej Bartkowiak. Montagem: Mark Warner. Música: James Newton Howard. Figurino: Judianna Makovsky. Direção de arte/cenários: Bruno Rubeo/Roberta Holinko. Produção executiva: Barry Bernardi, Taylor Hackford, Erwin Stoff, Michael Tadross, Steve White. Produção: Anne Kopelson, Arnold Kopelson, Arnon Milchan. Elenco: Al Pacino, Keanu Reeves, Charlize Theron, Judith Ivey, Jeffrey Jones, Delroy Lindo, Connie Nielsen, Craig T. Nelson, Heather Matarazzo. Estreia: 17/10/97

Representantes de uma das classes mais respeitadas e paradoxalmente mais detestadas dos EUA, os advogados são personagens recorrentes no cinema, normalmente como exemplos de idealismo (ao menos quando retratados pelo escritor John Grisham, ele próprio formado em Direito). O lado escuso dos representantes da lei (normalmente relegados aos vilões) é o ponto de partida de "Advogado do diabo", um aterrador suspense baseado em um livro de Andrew Neiderman. No filme, dirigido por Taylor Hackford, não há heróis de caráter impoluto e sentimentos nobres. O bem é representado por um jovem advogado ambicioso vivido por Keanu Reeves e o mal... bem, o mal é representado por Satanás em pessoa, na pele de um poderoso e implacável Al Pacino.

Em desenvolvimento desde 1994, quando seria dirigido por Joel Schumacher e estrelado por Brad Pitt, "Advogado do diabo" encontrou em Taylor Hackford o diretor ideal. Discreto e elegante, ele orquestrou uma sinfonia de horrores com a delicadeza de um ourives, ainda que suas cenas (e principalmente o que acontece em consequência delas) tenham um efeito devastador sobre suas personagens. Ao fugir do óbvio (leia-se efeitos visuais exagerados e maquiagem nauseante), Hackford ganha em credibilidade e principalmente seriedade. Nadando contra a maré - que assustava a audiência sem o menor traço de sutileza - ele prefere tirar o sono do espectador colocando em sua mente questões muito mais intensas. Em um tempo onde a fama, o poder e o dinheiro são as pedras fundamentais da sociedade, até onde se pode ir em busca de atingir a tão sonhada "felicidade"? E essa busca desenfreada pelo sucesso justifica a perda daquilo que faz de todos nós seres humanos, ou seja, a alma??

O jovem Kevin Lomax (Keanu Reeves) é um ambicioso advogado que vive em uma pequena cidade do interior dos EUA. Seu talento em ganhar até mesmo os casos considerados perdidos chama a atenção de uma poderosa firma de advocacia de Nova York, comandada pelo misterioso John Milton (Al Pacino). Seduzido por todo um mundo novo de sofisticação, dinheiro, poder e luxo, ele junta-se ao conglomerado de Milton, com braços por todo o planeta. Enquanto se dedica cada vez mais a casos bastante polêmicos e complicados - incluindo um homícido cujo cliente é claramente culpado - Kevin passa a negligenciar seu relacionamento com a bela esposa, Mary Ann (Charlize Theron), que, obcecada em dar um filho ao marido, mergulha gradativamente em um grave desequilíbrio psicológico.

A quase literal descida de Kevin ao inferno - fazendo de sua esposa a maior vítima de sua ambição desmedida - é narrada com elegância por Taylor Hackford, que opta por construir uma tensão quase palpável em detrimento de um festival de violência. A forma com que ele empurra seu protagonista em direção ao lado mais negro de sua alma é sutil, marcada por sustos esparsos mas consistentes (nada de gatos pulando do vazio, por exemplo) e um visual deslumbrante. A fotografia de Andrzej Bartkowiak foge do lugar-comum ao mostrar uma Nova York luminosa e nunca sombria e opressiva como se espera em um filme do gênero. Nem mesmo a música de James Newton Howard é explicitamente agressiva, sendo percebida em toda sua opulência somente no clímax, quando as origens de Kevin finalmente são explicadas e o filme apresenta uma reviravolta de telenovela que quase enfraquece seu resultado final.

O pacto mefistofélico entre Kevin e John Milton - batizado em homenagem ao autor de Paraíso Perdido - é tratado de maneira adulta pelo roteiro, que não se furta a criticar nem a falta de ética dos advogados nem a imprensa marrom. Felizmente é tudo muito sutil, realizado com bom-gosto e principalmente com o cuidado de não ofender a inteligência da plateia. Até mesmo quando recorre ao grotesco Hackford o faz de forma a não parecer a seus congêneres menos bem-sucedidos. Tudo em "Advogado do diabo" é visualmente apurado e isso faz toda a diferença (é de encher os olhos, por exemplo, a sequência em que Milton se revela a Kevin, onde uma escultura na parede do escritório se movimenta delicadamente). O único senão do filme, no entanto, é crucial e, se não estraga tudo, ao menos enfraquece o que poderia ser ainda melhor. Seu nome: Keanu Reeves.

É de se imaginar como "Advogado do diabo" poderia ter ficado caso Edward Norton (testado para o papel) ou Brad Pitt (escolha inicial dos produtores) fossem os protagonistas. A interpretação de Reeves é de uma fragilidade que incomoda, em especial quando comparada com as de seus colegas. Se Al Pacino dispensa comentários com uma composição acertada de John Milton (assim batizado em homenagem ao autor de "Paraíso perdido"), é a quase estreante Charlize Theron quem rouba toda a atenção do espectador. Belíssima, ela não se permite confiar apenas no sorriso e no corpo e entrega uma atuação visceral, que explode em uma sensacional cena dentro de uma igreja (onde fica completamente nua mas sem nenhum viés erótico). A delicadeza com que explora o desequilíbrio de sua Mary Ann demonstra que a sul-africana já dava sinais claros de seu grande talento, que seria recompensado em poucos anos com um Oscar pelo filme "Monster, desejo assassino".

"Advogado do diabo" é um filme de suspense feito para adultos e como tal merece ser admirado. Não pretende assustar a plateia com artifícios banais, mas sim com ideias (o que é muito mais apavorante). E é pouco provável que o espectador não se sinta satisfeito quando surgem os créditos finais ao som de "Paint in black", dos Rolling Stones. Um filme de suspense que faz pensar. Raridade!

Wednesday, December 15, 2010

O PAGAMENTO FINAL

O PAGAMENTO FINAL (Carlito's way, 1993, Universal Pictures, 144min) Direção: Brian DePalma. Roteiro: David Koepp, romances "Carlito's way" e "After Hours", de Edwin Torres. Fotografia: Stephen H. Burum. Montagem: Kristina Boden, Bill Pankow. Música: Patrick Doyle. Figurino: Aude Bronson-Howard. Direção de arte/cenários: Richard Sylbert/Leslie A. Pope. Casting: Bonnie Timmermann. Produção executiva: Ortwin Freyermuth, Louis A. Stroller. Produção: Willi Baer, Martin Bregman, Michael S. Bregman. Elenco: Al Pacino, Penelope Ann Miller, Sean Penn, John Leguizamo, Viggo Mortensen, Luis Guzman, James Rebhorn. Estreia: 10/11/93

2 indicações ao Golden Globe: Ator Coadjuvante (Sean Penn), Atriz Coadjuvante (Penelope Ann Miller)

Dez anos separam "Scarface" de "O pagamento final". Nesse meio-tempo, Brian DePalma conheceu a frieza da crítica com os fracassados "A fogueira das vaidades" e "Síndrome de Caim", enquanto Al Pacino se afastava do cinema e retornava em grande estilo, chegando a ganhar seu merecido Oscar, por "Perfume de mulher". O reencontro de diretor e ator não poderia ter chegado em melhor hora. E não poderia ter sido mais bem-sucedido. Ainda que a bilheteria não tenha correspondido à altura, "O pagamento final" é um dos melhores policiais dos anos 90. Novamente reunidos pelo produtor Martin Bregman, DePalma e Pacino demonstram uma maturidade muito bem-vinda ao contar uma trágica história sobre a força do ambiente sobre os indivíduos.

Baseado em dois romances do Juiz Edwin Torres - que os escreveu inspirado em suas lembranças do Brooklyn nova-iorquino - "O pagamento final" começa em 1975, quando o porto-riquenho Carlito Brigante (Al Pacino, excelente) é libertado da cadeia depois de manobras de seu ambicioso advogado David Kleinfeld (um irreconhecível e estupendo Sean Penn). Poupado de permanecer 15 anos preso, Brigante deve sua liberdade ao jovem e um tanto corrupto advogado, mas ao voltar às ruas onde cresceu, decide afastar-se da vida do crime. Assumindo a sociedade de uma boate, ele resiste bravamente a todas as ofertas de negócios escusos, dedicando-se a guardar dinheiro suficiente para ir embora para um paraíso tropical ao lado da mulher que ama, a dançarina Gail (Penelope Ann Miller). Porém, quando, por dívida moral, ele aceita ajudar Kleinfeld em uma manobra perigosa para tirar um assassino da cadeia, ele vê todo seu esforço em seguir uma vida honesta correr sérios riscos. Traído por todos em quem confia, só resta a ele mais uma vez apelar para a violência.

O Carlito Brigante criado por Al Pacino tem ecos gritantes com seu Michael Corleone. Ambos sofrem de paranoia justificada - assim como Tony Montana, de "Scarface" - e ambos tentam infrutiveramente escapar de um destino trágico e sangrento. Mas enquanto Corleone jamais suja suas mãos, Brigante vai à luta por si mesmo, empunhando armas e literalmente correndo para sobreviver. Enquanto Corleone tem poderes que se estendem ao Vaticano e a Wall Street, Brigante esconde seu suado dinheiro em um cofre da boate que comanda. Enquanto Corleone é incapaz de amar verdadeiramente uma mulher, Brigante é apaixonado por Gail acima de tudo. E mais importante: enquanto Michael Corleone sabe muito bem com quem está lidando, Brigante tem - apesar de sua malandragem de calçada - uma certa ingenuidade e um rígido padrão ético, apesar disso não o impedir de vingar-se quando estritamente necessário.

Menos propenso a movimentos mirabolantes de câmera - que fizeram sua fama no início da carreira - DePalma orquestra, em "O pagamento final" uma de suas mais afinadas sinfonias. Inteligentemente, o cineasta proporciona pequenas doses de suspense no decorrer do filme - o primeiro tiroteio é um exemplo bem acabado dessa afirmação - enquanto acompanha sem pressa o caminho do protagonista a seu destino. Nesse caminho, Carlito Brigante trava contato com antigos comparsas (um deles vivido por Viggo Mortensen em início de carreira), pequenos contraventores e ambiciosos criminosos (entre eles, o sinistro "Benny Blanco, from the Bronx", interpretado magistralmente por John Leguizamo). Nenhum deles, no entanto, mais perigoso do que seu advogado de confiança.


Personificado com maestria por um Sean Penn começando uma caminhada rumo ao respeito absoluto da crítica e do público, David Kleinfeld é uma das personagens mais fascinantes do filme - repleto de bons papéis. Viciado em cocaína, corrupto, covarde e sem o menor senso de ética ou moral, ele não é exatamente um retrato agradável da profissão de advogado, mas na pele de Penn é impossível não ter compaixão em seus momentos de puro desespero. Fisicamente irreconhecível, o ator - injustamente esquecido pelo Oscar de coadjuvante - tem a personagem que move o filme, empurrando todo mundo em direção ao clímax espetacular imaginado pelo roteiro de David Koepp e filmado com precisão cirúrgica por De Palma.

Assim como "Os intocáveis" tem no tiroteio na estação de trens sua sequência mais lembrada e comemorada - aliás, chupada do clássico "Encouraçado Potenkim", de Sergei Eisenstein - os vinte minutos finais de "O pagamento final" são de figurar em qualquer antologia de cinema. Fugindo dos mafiosos que querem sua cabeça - por motivos que não convém contar para não estragar o prazer de quem ainda (imperdoavelmente) não assistiu ao filme - Brigante foge em direção à estação central de NY para embarcar com Gail em uma viagem sem volta. Sua fuga - tensa, angustiante e magnificamente editada - mantém o espectador grudado na poltrona até seus últimos momentos, quando tudo faz um sentido avassalador.

"O pagamento final" é um filme que merece ser redescoberto. Maltratado pela crítica à época de sua estreia, se mantém com um frescor e uma força até os dias de hoje, além de contar com um Al Pacino no auge de sua forma como ator e personalidade. E, por mais intenso que "Scarface" seja, ele consegue ser ainda melhor.

Monday, November 29, 2010

PERFUME DE MULHER


PERFUME DE MULHER (Scent of a woman, 1992, Universal Pictures, 157min) Direção: Martin Brest. Roteiro: Bo Goldman, romance de Giovanni Arpino. Fotografia: Donald E. Thorin. Montagem: Harvey Rosenstock, William Steinkamp, Michael Tronick. Música: Thomas Newman. Figurino: Aude Bronson-Howard. Direção de arte/cenários: Angelo Graham/George DeTitta Jr. Casting: Ellen Lewis. Produção executiva: Ronald L. Schwary. Produção: Martin Brest. Elenco: Al Pacino, Chris O'Donnell, Gabrielle Anwar, Philip Seymour Hoffman, Todd Louiso, Bradley Whitford, James Rebhorn, Frances Conroy, Ron Eldard. Estreia: 23/12/92

4 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Martin Brest), Ator (Al Pacino), Roteiro Adaptado
Vencedor do Oscar de Melhor Ator (Al Pacino)
Vencedor de 3 Golden Globes: Melhor Filme/Drama, Ator/Drama (Al Pacino), Roteiro

Em tese, este "Perfume de mulher" é a refilmagem de um já clássico italiano de 1974 dirigido por Dino Risi e estrelado por Vittorio Gassman. Em tese. Na realidade, apenas a ideia central do filme de Risi é aproveitada nessa releitura do americano Martin Brest, que deu o tão esperado e aclamado Oscar de melhor ator a Al Pacino. E é Pacino, do alto de seu talento indiscutível, que faz com que um drama acadêmico e quase previsível caia no gosto da audiência, em mais uma atuação antológica em sua brilhante carreira.

O jovem Chris O'Donnell - que ficou com um papel para o qual até mesmo Chris Rock foi testado - vive Charlie Simms, um jovem e dedicado estudante de uma escola preparatória das mais tradicionais dos EUA. Sem recursos financeiros, ele vê sua bolsa de estudos correr risco de ser cancelada quando testemunha, ao lado de um colega milionário (interpretado por um jovem Philip Seymour Hoffman) um grupo de alunos aprontando um trote contra o diretor da instituição. Pressionado a contar em juízo o que testemunhou - sob pena de ser expulso da escola - Charlie vai passar o feriado de Ação de Graças fazendo um trabalho extra (para juntar dinheiro e passar o Natal com a família). O trabalho, que aparentemente seria fácil, torna-se complicado, porém: contratado para tomar conta de Frank Slade (Al Pacino), coronel do exército aposentado por cegueira, Charlie se vê acompanhando o veterano a uma viagem inesperada a Nova York. Lá, hospedado em um hotel cinco estrelas, Charlie frequenta restaurantes chiques, dirige uma Ferrari, visita a família do irmão do militar e, deslumbrado, o vê dançar tango com uma bela mulher. Fascinado com a maneira de Slade de levar a vida, Charlie fica chocado quando descobre que ele pretende cometer suícídio no final do feriado.

"Perfume de mulher" é inegavelmente um bom filme. Qualquer fã de cinema é obrigado a tirar o chapéu para a performance única de Pacino, entregue de corpo e alma à sua personagem irascível mas ao mesmo tempo apaixonante. O problema maior é que, ao seguir passo a passo a cartilha de como escrever um roteiro, Bo Goldman (também autor do sublime "Um estranho no ninho") não surpreende o espectador em momento algum. Desde o início é bastante óbvio, por exemplo, que a relação entre Slade e o jovem Charlie passará do profissional para o quase paternal e que o clímax, em uma reunião na instituição educacional onde começa o filme, será a grande cena do protagonista, aquela que justifica a premiação da Academia. As engrenagens do roteiro são quase visíveis demais para serem ignoradas e isso, dependendo de cada espectador, é claro, incomoda em grau maior ou menor.


Se essa questão um tanto técnica for deixada de lado, no entanto, "Perfume de mulher" é um espetáculo. Dirigido com sobriedade e interpretado com paixão - até mesmo o normalmente apático Chris O'Donnell entrega uma atuação passional - a versão de Brest do romance de Giovanni Arpino é o típico filme que os membros da Academia adoram: um protagonista com uma deficiência, lições de moral, dramas não muito pesados e um final "feliz". Se não fosse o ano de "Os imperdoáveis", era bem possível que tivesse levado o Oscar principal para casa, tamanha a sua adequação às normas hollywoodianas. Apesar de ter um linguajar barato e ter entre seus últimos desejos uma noite de sexo com uma prostituta, o contato mais erótico de Slade em relação a uma mulher é o belíssimo tango que dança com uma desconhecida - Gabrielle Anwar, que não fez a carreira que prometia aqui. Aliás, a cena do tango - que levou 3 dias para ser filmada - é, sem dúvida, a mais marcante do filme, digna de figurar em qualquer antologia dos momentos mágicos do cinema.

Apesar dos pequenos defeitos - que incomodam somente aos mais críticos, diga-se de passagem, uma vez que o público médio não se importa nem um pouco com detalhes técnicos - "Perfume de mulher" é um drama dos melhores, para se assistir ao lado da família. E é um dos trabalhos mais fascinantes de um dos melhores atores que o cinema americano produziu em sua história.

Tuesday, October 26, 2010

O PODEROSO CHEFÃO - PARTE III

O PODEROSO CHEFÃO PARTE III (The godfather, part III, 1990, Paramount Pictures/American Zoetrope Studios, 169min) Direção: Francis Ford Coppola. Roteiro: Francis Ford Coppola, Mario Puzo. Fotografia: Gordon Willis. Montagem: Lisa Fruchtman, Barry Malkin, Walter Murch. Música: Carmine Coppola. Figurino: Milena Canonero. Direção de arte/cenários: Dean Tavoularis/Gary Fettis. Casting: Janet Hirshenson, Jane Jenkins, Roger Mussenden. Produção executiva: Fred Fuchs, Nicholas Gage. Produção: Francis Ford Coppola. Elenco: Al Pacino, Diane Keaton, Talia Shire, Andy Garcia, Eli Wallach, Joe Mantegna, George Hamilton, Bridget Fonda, Sofia Coppola, John Savage. Estreia: 25/12/90

7 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Francis Ford Coppola), Ator Coadjuvante (Andy Garcia), Fotografia, Montagem, Trilha Sonora Original, Direção de arte/cenários

Uma obra-prima com falhas ainda pode ser considerada uma obra-prima? Essa é a grande pergunta que fica no ar depois dos créditos de encerramento de "O poderoso chefão parte III", o final da saga da família Corleone, realizado dezesseis anos depois do segundo capítulo e dirigido pelo mesmo Francis Ford Coppola. Feito para sanar as dificuldades financeiras da produtora do cineasta - dificuldades recorrentes, aliás, em sua genial carreira - o encerramento da história de Michael Corleone dividiu a crítica, não fez o mesmo sucesso de bilheteria de seus antecessores e falhou em conquistar os Oscar a que foi indicado - incluindo Melhor Filme e diretor. Mas mesmo que não repita o brilhantismo dos dois primeiros filmes é um capítulo final emocionalmente poderoso e inesquecível. Tem falhas - principalmente uma que atende pelo nome de Sofia Coppola - mas fascina, envolve e surpreende como toda boa obra-prima.

A trama de "O poderoso chefão parte III" se passa em 1979 e começa quando Michael Corleone (Al Pacino, no auge do talento), envelhecido, tenta apagar seu passado sangrento iniciando uma relação de negócios com o Vaticano. Buscando fugir da vida repleta de violência em que viveu até então, ele almeja limpar o nome da família, deixando assim um legado de respeitabilidade aos filhos - o rebelde Anthony (Franc D'Ambrosio), que abandona a faculdade de Direito para tornar-se cantor lírico e a delicada Mary (Sofia Coppola, o nêmesis do filme). No entanto, o rastro de sangue deixado por seu passado não o deixa seguir tranquilamente seus planos quando Vincent Mancini (Andy Garcia), filho bastardo de seu irmão mais velho, Sonny, assume o posto como seu segurança pessoal. Temperamental e impulsivo como o pai, Vincent se apaixona por Mary e, com a fragilidade cada vez maior da saúde de Michael, começa a comandar uma feroz vingança contra os traidores da família. Para isso, conta com a ajuda da até então neutra Connie (Talia Shire).

É impressionante como "O poderoso chefão parte III" não se utiliza de meias-palavras. Enquanto o primeiro filme não mencionava a palavra máfia e jamais ousava sair do circuito familiar dos negócios dos Corleone, aqui Coppola e Mario Puzo vão até Wall Street e o Vaticano para deixar bem claras as implicações e as conexões entre a Igreja, as finanças e os negócios escusos da família. O cineasta não tem medo de explicitar a hipocrisia do catolicismo - dinheiro em troca de perdão incondicional - nem tampouco de especular sobre a morte do Papa então no poder. As sequências religiosas do filme, aliás, estão entre as mais espetaculares do filme, em especial a emocionante confissão de Michael, arrependido e cheio de remorsos pelas mortes que carrega nas costas, em especial a do irmão Fredo - é arrepiante quando, em uma de suas crises de saúde, ele grita seu nome, em uma espécie de delírio que somente um ator do porte de Pacino é capaz de transmitir sem soar patético ou forçado. Absolutamente ciente de seu poder como intérprete, ele é, inclusive, a razão de ser de todo o filme, uma força catalisadora que transforma tudo em um espetáculo de encher a alma e os olhos.
Visualmente, o terceiro capítulo da saga dos Corleone é o mais bem-acabado. Lindamente fotografado por Gordon Willis e com uma direção de arte impecável, o filme de Coppola seduz com seus enquadramentos meticulosamente planejados, realizados com uma competência ímpar - coisa de quem sabe o que faz! A estética chiaroscuro de algumas cenas casa com perfeição às incoerências do coração de Michael - um homem torturado por um passado negro que não o deixa vislumbrar um futuro brilhante, uma personagem de Shakespeare perdida em algum canto da Sicília. E é na Sicília, inclusive, que Coppola encerra sua história, em quarenta minutos dos mais excitantes que o cinema pode produzir.
 
Ao reunir todos os protagonistas de seu filme na apresentação da ópera "Cavalleria Rusticana", de Mascagni - que versa basicamente sobre vendetta - Coppola e Puzo praticamente montaram um ato final que beira à perfeição cinematográfica e emocional. A edição excepcional, a música poderosa e os desdobramentos de toda uma vida dedicada ao crime, ao sangue e à vingança são apresentados à plateia de forma arrebatadora, culminando na provavelmente mais angustiante cena de desespero de toda a série (e mais uma vez é Al Pacino o responsável por tamanho show). Poucas vezes foi visto no cinema uma conjunção de fatores tão alinhada quanto nessa derradeira meia-hora, em que fica patente o talento descomunal de Coppola de transformar em arte uma necessidade financeira. E quando o filme acaba, ao som da melancólica música de Nino Rota, até mesmo os pecados cometidos por ele acabam sendo perdoados, inclusive a escalação de sua filha Sofia no crucial papel de Mary Corleone. Mas, afinal, ela mereceu toda essa malhação plena, geral e irrestrita? A resposta é uma só: SIM.
 
Ao assumir o papel que até às vésperas do início das filmagens era de Winona Ryder - que teria sua chance de trabalhar com Coppola em "Drácula de Bram Stoker", dois anos depois - a filha do diretor colocou em risco toda a credibilidade do projeto e de um trabalho árduo, minucioso e adorado tanto por crítica quanto por público - a própria série "O poderoso chefão". E mesmo que, justiça seja feita, hoje em dia ela seja uma cineasta sensível e competente - "As virgens suicidas" e "Encontros e desencontros" estão aí para comprovar a afirmação - como atriz Sofia é um fiasco. Ela é o único elo perigosamente fraco do filme, e levando-se em conta que sua personagem é vital para o desenrolar da trama, ela quase compromete todo o resultado final. Suas cenas românticas com Andy Garcia e dramáticas com Al Pacino são constrangedoras e é difícil não ficar pensando em como as coisas poderiam ter sido bem melhores se Winona não tivesse se afastado do projeto. Sofia é, sim, a pior coisa de "O poderoso chefão parte III". Felizmente o resto é tão bom que não nos resta alternativa a não ser perdoar Francis por tamanho erro.

Contemplativo, triste, melancólico e saudosista, "O poderoso chefão parte III" encerra com coerência e pompa um dos trabalhos mais sensacionais produzidos pela história de Hollywood. Ainda bem que filmes duram para sempre!

Tuesday, September 28, 2010

VÍTIMAS DE UMA PAIXÃO

VÍTIMAS DE UMA PAIXÃO (Sea of love, 1989, Universal Pictures, 112min) Direção: Harold Becker. Roteiro: Richard Price. Fotografia: Ronnie Taylor. Montagem: David Bretherton. Música: Trevor Jones. Figurino: Betsy Cox. Direção de arte/cenários: John Jay Moore/Gordon Sim. Casting: Mary Colquhoun. Produção: Martin Bregman, Louis A. Stroller. Elenco: Al Pacino, Ellen Barkin, John Goodman, Richard Jenkins, Michael Rooker, William Hickey, Samuel L. Jackson. Estreia: 15/9/89

Foi preciso 4 anos para que Al Pacino se recuperasse do trauma de "Revolução", lançado em 1985. Fracasso de crítica e de público, o filme  afastou Pacino das telas por um longo período, em que o ator que deu vida a personagens antológicas como Michael Corleone e Serpico, dedicou-se ao teatro, sua maior paixão. Seu retorno, em 1989, pode não ter sido em um filme com potencial de Oscar ou algo parecido, mas provou que seu carisma ainda tinha fãs o suficiente para lotar salas de cinema. "Vítimas de uma paixão", o veículo que o devolveu às telas, é um policial eficiente que adiciona ao gênero um elemento que viraria moeda corrente poucos anos depois: uma alta carga erótica.

Ainda que bem menos explícito do que "Instinto selvagem", por exemplo, "Vítimas de uma paixão" recorre a tórridas cenas entre seus protagonistas, mas, ao contrário do filme que elevou Sharon Stone ao status de musa sexy absoluta dos anos 90, aqui as cenas de sexo funcionam não para estabelecer um estado de dominação física, mas principalmente como um canal para deixar claro as carências de suas personagens centrais, ambos perdidos em um mar não de amor como diz a canção-título, mas de solidão e melancolia. Se não, vejamos.


Frank Keller (vivido por um Pacino menos agressivo e mais sutil) é um policial de Nova York que ainda não aceitou o fato de perder a esposa para um colega de trabalho (Richard Jenkins). Utilizando o álcool como válvula de escape para suas noites tediosas, ele acaba envolvido na investigação de uma série de crimes: homens que publicaram anúncios em jornal procurando mulheres estão sendo assassinados a tiros, enquanto um disco de 48rpm com a canção "Sea of love" jaz no toca-discos. Para pegar a assassina, Keller e seu parceiro tem a ideia de publicar anúncios, também, e assim, de posse das impressões digitais das suspeitas, chegar até a criminosa. No entanto, o policial, solitário e triste, se apaixona por Helen (Ellen Barkin), uma mãe solteira que trabalha como vendedora de sapatos e, no auge de seus sentimentos, passa a negar, inclusive pra si mesmo, que ela pode ser a responsável por todas as mortes.

O mais inteligente do roteiro do escritor Richard Price é a sua opção em não fixar-se única e exclusivamente na investigação policial nem tampouco na relação íntima entre Keller e Helen. Ao equilibrar esses dois polos da ação, ele consegue tanto agradar aos fãs de filmes policiais quanto àqueles que procuram algo mais no gênero - no caso, um estudo, ainda que não exatamente profunda, como convém, da solidão. Os dois protagonistas são pessoas comuns que tentam, cada um a sua maneira, sobreviver em um mundo individualista, com seus problemas pessoais ameaçando perigosamente sua felicidade. Enquanto a plateia acompanha a busca pela violenta assassina de homens solitários, o filme de Harold Becker aproveita para contar uma pungente história de amor e falta de esperança.

"Vítimas de uma paixão" não é - e nem se pretende - um filme para ficar marcado na mente da audiência como uma obra-prima do gênero. Mas ao fugir do feijão-com-arroz básico, atinge um patamar acima dos seus congêneres. E contar com Al Pacino como protagonista é sempre uma ajuda e tanto!

Saturday, July 3, 2010

SCARFACE


SCARFACE (Scarface, 1983, Universal Pictures, 170min) Direção: Brian DePalma. Roteiro: Oliver Stone. Fotografia: John A. Alonzo. Montagem: Jerry Greenberg, David Ray. Música: Giorgio Moroder. Figurino: Patricia Norris. Direção de arte/cenários: Ed Richardson/Bruce Weintraub. Casting: Alixe Gordin. Produção executiva: Louis A. Stroller. Produção: Martin Bregman. Elenco: Al Pacino, Michelle Pfeiffer, Steven Bauer, Mary Elizabeth Mastrantonio, Robert Loggia, F. Murray Abraham. Estreia: 01/12/83

Em 1932, nos primórdios do cinema como o conhecemos hoje, Howard Hawks dirigiu o violento “Scarface, a vergonha de uma nação”, estrelado por Paul Muni. Na versão original, o protagonista tornava-se milionário durante a Lei Seca vigente na Chicago dos anos 20. Sinal dos tempos, a nova versão, dirigida por Brian de Palma e sua câmera nervosa, se passa na Miami dos anos 80 e faz uma radiografia tensa e sanguinolenta de um anti-herói que sobe na vida graças ao tráfico de cocaína. Se perde em charme, que Hawks imprimia em cada trabalho, ganha em realismo e ultraviolência.

Al Pacino, ainda que com muitos dos trejeitos de seu Michael Corleone, de “O Poderoso chefão”, brilha soberano como Tony Montana, um cubano que chega à Miami fugindo do regime totalitário de Fidel Castro. Insatisfeito com a vida quase marginal que vive, ele une-se a seu conterrâneo Manolo (o ótimo Steven Bauer) em um ambicioso negócio de tráfico de drogas que, mesmo dando errado – em uma sequência especialmente angustiante – o apresenta ao poderoso Frank (Robert Loggia), que logo o toma como homem de confiança. Apaixonado pela mulher de Frank, a bela e viciada Elvira (Michelle Pfeiffer, com pouca coisa a fazer a não ser desfilar sua figura esbelta pelas mansões do cenário), não demora muito para que Montana resolva pegar o negócio e o casamento de Frank. Enquanto enriquece vertiginosamente, vai perdendo a confiança em todos a seu redor, inclusive seu amigo Manolo, que, pra piorar ainda mais as coisas, se envolve com a única irmã de Tony, a jovem Gina (Mary Elizabeth Mastrantonio). Sua paranóia crescente e a violência que o cerca o acaba encurralando e o levando a um final trágico.

Não há como negar que Brian de Palma teve coragem em contar a história de Tony Montana sem rodeios nem firulas. O protagonista não é simpático nem tampouco coitadinho. Pacino se entrega furiosamente ao papel, especialmente nas seqüências finais, quando sua paranóia o leva ao isolamento em sua fortaleza, tal qual um personagem shakespereano. Nem o cenário propositalmente cafona consegue, no entanto, disfarçar a competência do diretor em realizar tomadas insuspeitas e criativas, principalmente nas cenas mais violentas e dramáticas. A trilha sonora de Giorgio Moroder, adequada mas quase irritante também cumpre seu papel, localizando o espectador nos aspectos mais regionais e temporais da trama. A edição alucinante - que acompanha a entrega de Montana ao vício - consegue ser impactante sem chamar atenção demasiada a si, o que sempre é sinal de competência. E o roteiro de Oliver Stone - que o escreveu lutando contra uma dependência de cocaína - não brinca em serviço, entregando à audiência um dos mais trágicos retratos do gangsterismo do cinema - e que quase levou um selo "X" à época de seu lançamento.

É notável, também, a coragem dos realizadores em quase explicitar o clima incestuoso entre Montana e Gina. O ciúme exagerado do protagonista em relação à irmã é bastante óbvia aqui, ao contrário do filme original - afinal, ele foi realizado em 1932!!!! E, como prova do talento de Stone como roteirista e polemista, ele aproveita para fazer severas críticas ao regime cubano, mesmo que estas passem batidas para quem se concentra única e exclusivamente à trama central, por si só já forte o bastante para manter a atenção durante suas longas três horas de duração.

Aliás, pode-se dizer que a duração excessiva é o pecado maior de "Scarface", um dos melhores "filmes de gângster" já realizados em Hollywood. Em nenhum momento essa nova versão mancha o nome da original, cujo diretor é devidamente homenageado com uma dedicatória no final. Vinte minutos a menos não trariam prejuízo à história e ajudaria no ritmo, mas mesmo assim é um filme obrigatório, mesmo porque Al Pacino e seu imenso talento sempre valem uma espiada.

Sunday, May 23, 2010

UM DIA DE CÃO


UM DIA DE CÃO (Dog day afternoon, 1975, Warner Bros, 125min) Direção: Sidney Lumet. Roteiro: Frank Pierson, inspirado em artigo de P.F.Kluge, Thomas Moore. Fotografia: Victor J. Kempster. Montagem: Dede Allen. Figurino: Anna Hill Johnstone. Direção de arte/cenário: Charles Bailey/Robert Drumheller. Casting: Michael Chinich, Don Phillips. Produção: Martin Bregman, Martin Elfand. Elenco: Al Pacino, John Cazale, Charles Durning, Chris Sarandon, Sully Boyar, Penelope Allen,Carol Kane, Lance Henriksen. Estreia: 21/9/75

6 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Sidney Lumet), Ator (Al Pacino), Ator Coadjuvante (Chris Sarandon), Roteiro Original, Montagem

Vencedor do Oscar de Roteiro Original


Ainda bem que não só de heróis bonzinhos e lindos vive o cinema americano e que, de vez em quando um diretor tem a coragem de fuçar nas feridas do mundo ocidental e expor suas mazelas e contradições. John Schlesinger fez isso em “Perdidos na noite” e, apesar das polêmicas, chegou a ganhar o Oscar de melhor filme. Em "Um dia de cão" quem resolveu dar a cara a tapa foi Sidney Lumet, diretor do ótimo “Doze homens e uma sentença”. E pra melhorar ainda mais a notícia, Lumet foi buscar inspiração em uma história real. Apesar de parecer inacreditável, a trama de “Um dia de cão” aconteceu de verdade. E isso faz da experiência de assisti-lo um prazer ainda maior.

A ação se passa em um único dia de verão de 1972, em um banco do Brooklyn. Com a intenção de assaltá-lo, os amigos Sonny (Al Pacino em uma interpretação consagradora) e Sal (John Cazale, excepcional) invadem o local e ao perceberem que escolheram o banco errado, uma vez que quase não há dinheiro para ser levado, descobrem que estão cercados pela polícia, representada pelo Capitão Moretti (Charles Durning). O que era para ser apenas mais um corriqueiro assalto a banco transforma-se aos poucos em um circo, transmitido inclusive pela televisão. Tudo se complica ainda mais quando se descobre que a principal razão de Sonny em roubar o dinheiro é financiar a operação de mudança de sexo de seu amante, o transexual Leon (Chris Sarandon, ex-marido de Susan e indicado ao Oscar de ator coadjuvante), o que ao mesmo tempo lhe transforma em alvo de chacota e ídolo do movimento gay. Aos poucos, Sonny passa de bandido a herói, sendo apoiado pelo público e até pelos funcionários mantidos como reféns.

Criando uma atmosfera claustrofóbica e ao mesmo tempo sem em nenhum momento perder as rédeas da narrativa, em parte devido ao surpreendente bom humor do roteiro premiado com o Oscar, o diretor Lumet mantém seus personagens sempre em uma constante tensão e desespero. A edição de Dede Allen também colabora para sustentar o ritmo sufocante da trama. Ao criticar a ação da mídia em transformar em entretenimento até mesmo o sofrimento alheio, o filme ainda dá um passo a frente de seus contemporâneos, com um senso de momento impressionante e surpreendente.

Mas nada adiantaria a inteligência do roteiro e a precisão da direção se na frente das câmeras não houvesse atores como os escolhidos por Lumet. Al Pacino e John Cazale, irmãos nos dois filmes “O poderoso chefão” sustentam uma química invejável e demonstram a segurança necessária para transmitir a insegurança e o desespero de seus personagens, tragicamente envolvidos em uma inesperada reviravolta do destino. São suas brilhantes atuações que transformam dois anti-heróis em seres humanos com falhas e qualidades como todo espectador. E talvez por isso em determinado momento do filme a plateia é surpreendida torcendo por dois assaltantes de banco a despeito de seu crime. Ainda bem que há filmes em que isso é possível, caso contrário o público de cinema ficaria seriamente tentado a crer que apenas homens loiros, altos e heróicos são capazes de protagonizar um filme de sucesso.

Saturday, May 22, 2010

O PODEROSO CHEFÃO - PARTE II


O PODEROSO CHEFÃO - PARTE II (The godfather - Part II, 1974, Paramount Pictures, 200min) Direção: Francis Ford Coppola. Roteiro: Francis Ford Coppola, Mario Puzo, baseado no romance de Mario Puzo. Fotografia: Gordon Willis. Montagem: Barry Malkin, Richard Marks, Peter Ziner. Música: Nino Rota. Figurino: Theadora Von Runkle. Direção de arte/cenários: Dean Tavoularis/George R.Nelson. Casting: Jane Feinberg, Michael Fenton, Vic Ramos. Produção: Francis Ford Coppola. Elenco: Al Pacino, Robert DeNiro, Robert Duvall, John Cazale, Diane Keaton, Talia Shire, Lee Strasberg, Bruno Kirby, Troy Donahue, Michael V. Gazzo. Estreia: 20/12/74

11 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Francis Ford Coppola), Ator (Al Pacino), Ator Coadjuvante (Robert DeNiro, Michael V.Gazzo, Lee Strasberg), Atriz Coadjuvante (Talia Shire), Roteiro Adaptado, Trilha Sonora Original, Figurino, Direção de Arte

Vencedor de 6 Oscar: Melhor Filme, Diretor (Francis Ford Coppola), Ator Coadjuvante (Robert DeNiro), Roteiro Adaptado, Trilha Sonora Original, Direção de Arte

Vencedor de 6 Golden Globe: Melhor Filme/Drama, Diretor (Francis Ford Coppola), Ator/Drama (Al Pacino), Roteiro, Trilha Sonora, Most Promising Newcomer (Lee Strasberg)


Continuações de filmes de sucesso são, via de regra, caça-níqueis realizados para salvar estúdios da bancarrota ou alimentar ainda mais seus cofres. A preocupação com a integridade obra original inexiste na maioria esmagadora dos casos, uma vez que normalmente as sequências de campeões de bilheteria esgotam a ideia central dos filmes e humilham suas personagens sem pena nem dó. Felizmente, toda regra tem exceção e, neste caso, nenhuma exceção é mais gloriosa do que "O poderoso chefão - Parte II" - , que, lançado meros dois anos depois da estreia de seu primeiro capítulo, não só o superou em sucesso artístico - inclusive dobrando o número de Oscar recebidos - como comprovou o talento e o gênio de seu diretor, roteirista e produtor Francis Ford Coppola. Em "O poderoso chefão - Parte II", ele não apenas continuou contando a trajetória de Michael Corleone rumo ao poder absoluto; ele intercalou a ela o início de toda a família, apresentando ao público a juventude do patriarca Don Vito Corleone, aqui interpretado por um jovem e já excelente Robert DeNiro.

Apesar de ter ganho o Oscar de roteiro adaptado, a segunda parte da saga Corleone não é totalmente baseada no livro "O chefão", que inspirou o filme original. Apenas um capítulo do livro, que conta a chegada de Vito à Nova York, em 1901, e o início de seu caminho ao poder já estabelecido no primeiro filme, foi utilizado no script do diretor e do autor do livro, Mario Puzo. Toda a trama envolvendo Michael Corleone e a família em Las Vegas e Cuba foi criado especificamente para o filme, e fortalece o conceito de máfia insinuado em 1972 e aqui abertamente declarado em cenas que mostram uma CPI a respeito das atividades dos Corleone. A genialidade desse segundo filme reside principalmente na divisão da história em dois núcleos separados que juntos, formam uma unidade coesa e sólida.

"O poderoso chefão - Parte II", começa em 1958, em Lake Tahoe, Nevada, na festa da primeira comunhão de Anthony, o filho mais velho de Michael (Al Pacino) e Kay (Diane Keaton). A reunião - não apenas familiar, mas que também junta no mesmo ambiente os diversos colaboradores do clã - ecoa o casamento de Connie (Talia Shire), que abria o primeiro "Chefão". Nessa festa, fica-se sabendo dos negócios de Michael em Las Vegas, dirigidos com mão não muito firme por Fredo (John Cazale), seu irmão mais velho. Enquanto tenta lidar com uma traição por parte do próprio irmão, Michael se vê cada vez mais solitário e afastando-se das pessoas que ama, além de participar ativamente da revolução cubana. Paralelamente, o filme narra a chegada de Vito Corleone (Robert DeNiro) aos EUA. Chegado da Sicília com apenas nove anos de idade, na juventude mesmo ele trava conhecimento com Clemenza (Bruno Kirby), um vizinho metido com tramoias escusas e que se tornará seu homem de confiança quando ele mata o chefe do bairro e assume seu lugar, dando origem a toda a saga contada por Coppola e Puzo.

Um pouco mais longo do que seu antecessor, mas ainda assim dono de um invejável ritmo, "O poderoso chefão - Parte II", tornou-se a primeira sequência a ganhar o Oscar de Melhor Filme (feito repetido apenas 30 anos depois com "O Senhor dos anéis - O retorno do rei"). E motivos para tal homenagem não faltam; poucas vezes o cinema conseguiu ser tão fascinante quanto aqui, com um primoroso roteiro que privilegia os detalhes mais do que a grandiosidade que um projeto dessa envergadura poderia pressupor. Da maneira como Coppola conta sua história os olhares são mais pungentes do que os tiros, o subtexto é mais claro do que discursos e as relações familiares são muito mais importantes do que os negócios financeiros - mesmo que essa teoria seja de certa forma derrubada com as cenas finais, dignas da mais trágica peça vitoriana.

E é aqui, em "O poderoso chefão - Parte II", que Michael Corleone assume de vez sua persona shakespereana. Envolvido em uma paranoia cada vez mais avassaladora, o rapaz idealista que defendeu seu país na II Guerra começa seu caminho indelével para a solidão. É admirável a maneira com que o diretor consegue equilibrar - sem perder o interesse da audiência - sequências absurdamente violentas (visual e psicologicamente falando) e cenas de partir o coração, interpretadas por atores no auge de seu domínio artístico. Na pele de um juvenil Vito Corleone, Robert DeNiro já demonstra o imenso talento que viria a consagrá-lo nos anos subsequentes como o melhor ator de sua geração, e o Oscar de ator coadjuvante apenas coroou seu desempenho irretocável. John Cazale, como Fredo, tem algumas das melhores cenas de sua curta carreira, em uma memorável e comovente atuação. Diane Keaton também tem, aqui, as maiores oportunidades de sua personagem na série e os dois veteranos atores que conquistaram indicações ao Oscar de coadjuvante (Lee Strasberg e Michael V.Gazzo) fazem jus a sua fama de mestres: Strasberg é, inclusive, um dos fundadores do Actors Studio, que formou nomes como os próprios Brando, DeNiro e Pacino.

Mas é Al Pacino o corpo e a alma de "O poderoso chefão - Parte II". Em uma interpretação silenciosa, raivosa, paranoica e melancólica, o ator transmite a variada gama de nuances de sua complexa personagem sem jamais perder sua essência. Michael Corleone e Al Pacino formam o exemplo mais impressionante de casamento entre ator e personagem da história do cinema. Ainda bem que se pode assistir a isso sempre que der vontade.

Tuesday, May 18, 2010

O PODEROSO CHEFÃO


O PODEROSO CHEFÃO (The godfather, 1972, Paramount
Pictures, 175min) Direção: Francis Ford Coppola. Roteiro: Francis Ford Coppola, Mario Puzo, baseado no romance de Mario Puzo. Fotografia: Gordon Willis. Montagem: William Reynolds, Peter Zinner. Música: Nino Rota. Figurino: Anna Hill Johnstone. Direção de arte/cenários: Dean Tavoularis/Philip Smith. Casting: Louis DiGiaimo, Andrea Eastman, Fred Roos. Produção: Albert S. Ruddy. Elenco: Marlon Brando, Al Pacino, James Caan, Robert Duvall, Diane Keaton, John Cazale, Richard Castelano, Talia Shire, Sterling Hayden, John Marley, Al Lettieri, Abe Vigoda, Gianni Russo, Morgana King, Simonetta Stefanelli. Estreia: 24/3/72


11 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Francis Ford Coppola), Ator (Marlon Brando), Ator Coadjuvante (James Caan, Robert Duvall, Al Pacino), Roteiro Adaptado, Montagem, Trilha Sonora Original, Figurino, Som

Vencedor de 3 Oscar: Melhor Filme, Ator (Marlon Brando), Roteiro Adaptado

Vencedor de 5 Golden Globes: Melhor Filme/Drama, Diretor (Francis Ford Coppola), Ator/Drama (Marlon Brando), Roteiro, Trilha Sonora


Quantas vezes é preciso que um filme seja assistido para que deixe de hipnotizar sua audiência ou mesmo perca seu sabor de novidade? Se o filme em questão for "O poderoso chefão" ainda não existe uma resposta satisfatória a essa questão. Mesmo passados 38 anos de seu lançamento, a adaptação de Francis Ford Coppola para o livro de Mario Puzo ainda mantém intactos seu vigor, sua inteligência e sua aura de obra-prima absoluta. Um dos melhores filmes da história do cinema - se não O melhor - o início da saga da família Corleone é o mais perfeito exemplo de tudo que um filme deve ser para ficar marcado no inconsciente coletivo de forma indelével. Mas foi preciso muito esforço para que ele ficasse como é conhecido hoje em dia.

Não é novidade para ninguém a brava luta de Coppola para conseguir fazer com que a Paramount concordasse com as escalações de Marlon Brando como Vito Corleone - papel-chave na trama - e Al Pacino como Michael - o estúdio parecia querer qualquer um menos Pacino no papel do filho caçula do clã de mafiosos mais fascinante da história do cinema. Esse "qualquer um" incluía, entre outros, Warren Beatty, Jack Nicholson e Dustin Hoffman, além de James Caan, que ficou com o papel do filho mais passional de Don Corleone, Sonny. Toda a árdua batalha para Coppola finalmente fazer o filme do seu jeito está detalhada no disco de extras da exemplar edição comemorativa da saga, lançada em dvd, e, se por si só são interessantes o bastante para grudar o espectador no sofá de casa, servem apenas de aperitivo para o que realmente importa: a majestade do filme em si.

Pra quem ainda não sabe, "O poderoso chefão" começa em 1945, logo após o final da II Guerra Mundial. O jovem soldado Michael (Al Pacino no papel de sua vida) retorna à Nova York acompanhado da namorada, a professora Kay Adams (Diane Keaton), e chega a tempo do casamento de sua irmã caçula, Connie (Talia Shire, irmã do diretor) com o mau-caráter Carlo Rizzi (Gianni Russo). Sua chegada enche de alegria seu pai, Don Vito Corleone (um Marlon Brando com meros 47 anos e uma caracterização antológica), o chefão de uma das famílias mafiosas mais importantes da cidade. Quando Don Vito se recusa a juntar-se a outras famílias em negócios envolvendo drogas, acaba sofrendo um grave atentado que quase lhe tira a vida. Mesmo não querendo envolver-se nos negócios escusos do pai e dos irmãos, Michael não hesita em assassinar seus rivais e fugir para a Itália, onde se casa com a bela Apolonia (Simonetta Stefanelli). Quando mais uma vez retorna a seu país e sua casa, percebe estarrecido que não há como escapar da sina violenta de seu sangue, e assume a liderança dos Corleone.

Escolher a melhor cena de "O poderoso chefão" é tarefa ingrata e impossível. Coppola construiu seu filme como uma ópera grandiosa, grandiloquente, recheada de momentos de extrema violência ao lado de cenas dramaticamente estruturadas e interpretadas por um elenco onde ninguém está menos do que espetacular (não foi por acaso que 3 de seus coadjuvantes foram indicados ao Oscar). A fotografia escura de Gordon Willis (outro item questionado pelos executivos do estúdio durante as filmagens) expressa com maestria as ideias do roteiro, escrito a quatro mãos pelo diretor e pelo autor do romance em que baseia, Mario Puzo. A edição enxuta nunca deixa que se perceba que se trata de um épico de três horas de duração - que voam diante dos olhos incrédulos da plateia. A trilha sonora de Nino Rota é de uma pungência indescritível e até mesmo o glamour que o filme transmite - e que foi alvo de algumas críticas que não tinham do que reclamar da obra como um todo - tem um charme e um poder que muitos cineastas de hoje em dia dariam um braço para conseguir.

Qualquer coisa que se diga sobre "O poderoso chefão" é desnecessário. Inesquecível na pele de Don Corleone - que lhe deu o segundo Oscar, recusado através de uma índia mais falsa que nota de três dólares -, Marlon Brando é a cara dessa primeiro capítulo tão impecável que exigiu dois novos capítulos, em 1974 e 1990. A saga da família Corleone é mais do que simplesmente um filme de gângster. É o filme que mais se aproxima da perfeição em termos cinematográficos, e o culto a seu nome - por parte da crítica e do público - apenas confirma suas inumeráveis qualidades.