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Monday, May 23, 2011

UM CRIME PERFEITO

UM CRIME PERFEITO (A perfect murder, 1998, Warner Bros, 108min) Direção: Andrew Davis. Roteiro: Patrick Smith Kelly, peça teatral "Dial M for Murder", de Frederick Knott. Fotografia: Darius Wolski. Montagem: Dov Hoenig. Música: James Newton Howard. Figurino: Ellen Mirojnick. Direção de arte/cenários: Philip Rosenberg/Debra Schutt. Produção executiva: Stephen Brown. Produção: Anne Kopelson, Arnold Kopelson, Peter Macgregor-Scott, Christopher Mankiewicz. Elenco: Michael Douglas, Gwyneth Paltrow, Viggo Mortensen. Estreia: 05/6/98

Em 1954, o diretor inglês Alfred Hitchcock lançou "Disque M para matar", hoje um de seus trabalhos mais conhecidos. Baseado em uma peça de teatro de Frederick Knott, o filme estrelado por Ray Milland e Grace Kelly já utilizava elementos de 3D e contava com o habitual talento do cineasta para manter a plateia grudada na cadeira. Mais de 40 anos depois, o americano Andrew Davis - que comandou a versão para o cinema da telessérie "O fugitivo" e encheu os bolsos dos executivos da Warner - resolveu contar a mesma história, justificando a refilmagem com um batido "queremos ser mais fieis ao texto original". O resultado, por incrível que pareça, não é o desastre que se poderia esperar (como aconteceria com o remake de "Psicose", de Gus Van Sant), mas sim um filme elegante, de sustos discretos e reviravoltas bastante interessantes. Na verdade, é um filme muito diferente de seu original, o que é um elogio e tanto.

Fugindo da claustrofobia do original, que se passava quase que exclusivamente no apartamento dos protagonistas, a versão de Davis amplia o alcance da trama, levando suas personagens a galerias de arte, festas chiques e às ensolaradas ruas de Nova York. Michael Douglas, em uma atuação discreta, vive Steven Taylor, um aparentemente bem-sucedido empresário do mundo das finanças que, endividado, planeja o assassinato de sua esposa, a bela e mais jovem Emily (Gwyneth Paltrow). Para isso, ele chantageia o amante dela, o artista plástico David Shaw (Viggo Mortensen), que tem um histórico de golpes em mulheres ricas. Armando um plano meticulosamente calculado, Taylor precisa lidar com a frustração e a investigação policial quando as coisas fogem a seu controle.



Circulando pela sofisticação da alta sociedade nova-iorquina, Andrew Davis constrói um suspense eficiente, onde os acontecimentos importam mais do que os sustos ou a violência. Praticamente ignorando o filme de Hitchcock - com bastante propriedade - o cineasta conta sua história sem pressa, preferindo criar um clima sexy e opressivo. A química entre Gwyneth Paltrow - sempre de uma classe inquestionável - e Viggo Mortensen chama a atenção e proporciona algumas cenas bastante quentes, em especial na primeira metade do filme. Michael Douglas, por sua vez, brilha no papel de vilão sinistro, quase fazendo com que a audiência compactue com sua personagem. É preciso dizer, inclusive, que o trabalho de Douglas é tão interessante que, mesmo sendo o vilão do filme, é mais simpático do que a dupla Paltrow/Mortensen. A atriz está linda como sempre, mas sua personagem é quase apática, enquanto Mortensen não faz com que seu David Shaw conquiste o público, talvez por não ser exatamente o mocinho tradicional.

No final das contas, "Um crime perfeito" é um suspense que cumpre o que promete, mas que jamais atinge o nível de brilhantismo que poderia. Davis comprova seu talento em construir sequências de grande tensão, mas ao mesmo tempo deixa claro que lhe falta um talento maior para desenvolver personagens mais complexos - ainda que em seu filme ninguém seja exatamente santo. Essa falta de maniqueísmo o diferencia do corriqueiro, mas atrapalha suas intenções em fazer com que a audiência média se sinta absolutamente capaz de tomar partido de um dos lados da história. Gwyneth não está particularmente simpática nem Douglas completamente vilanesco. Se por um lado isso é bom (afinal de contas a realidade nunca é tão transparente) por outro foge dos padrões comerciais. "Um crime perfeito" é uma ótima opção para quem gosta do gênero, mas perde a chance de ser sensacional.

Friday, April 1, 2011

ATÉ O LIMITE DA HONRA

ATÉ O LIMITE DA HONRA (G.I. Jane, 1997, Hollywood Pictures/Caravan Pictures/First Independent Films, 125min) Direção: Ridley Scott. Roteiro: David Twohy, Danielle Alexandra, história de Danielle Alexandra. Fotografia: Hugh Johnson. Montagem: Pietro Scalia. Música: Trevor Jones. Figurino: Marilyn Vance. Direção de arte/cenários: Arthur Max/Cindy Carr. Produção executiva: Danielle Alexandra, Julie Bergman Sender, Chris Zarpas. Produção: Roger Birnbaum, Demi Moore, Ridley Scott, Suzanne Todd. Elenco: Demi Moore, Anne Bancroft, Viggo Mortensen, Jason Beghe, Daniel Von Bargen, Jim Caviezel. Estreia: 22/8/97

Vencedor do Framboesa de Ouro de Pior Atriz (Demi Moore)

Mais do que as críticas à sua qualidade ou ao salário milionário de sua protagonista, "Até o limite da honra" ficou conhecido como "o filme em que Demi Moore raspou a cabeça". Vinda do fracasso absoluto de "Stritpease", uma pretensa comédia pela qual recebeu o estratosférico cachê de 12 milhões de dólares - o mais alto pago a uma atriz até então - Moore precisava urgentemente de um sucesso de bilheteria que a fizesse merecer o status de estrela que lhe escapava rapidamente das mãos. O projeto escolhido - e no qual ela assumiu também o papel de produtora - foi um filme onde ela poderia testar seu poder de atração junto ao público sem precisar tirar a roupa. Com um diretor de categoria como Ridley Scott no comando da brincadeira, era de se esperar que tudo desse muito certo. Mas não deu. Apesar de não ser o fiasco que muitos previam, "Até o limite da honra" ficou longe de ser o êxito que Demi necessitava e de certa forma abalou a carreira de Scott, cujo filme anterior, "Tormenta", também havia fracassado comercialmente.

Honestamente, não se pode dizer que "Até o limite da honra" seja um grande filme, assim como é injusto apedrejá-lo como muitos fizeram - e o Framboesa de Ouro de Pior Atriz para Demi Moore é mais implicância do que exatamente justiça. Seu problema maior é o excesso de clichês no qual ele se atola, sem que tenha o distanciamento crítico para ao menos não levar-se a sério. Não há nenhum senso de humor no roteiro feminista e seu ritmo sofre um sério abalo na segunda metade, precisamente quando tinha tudo para conquistar a plateia com cenas de ação que Scott sabe dirigir muito bem - como comprovou em filmes posteriores como "Gladiador" e "Falcão negro em perigo". Tudo é feito com grande competência, desde a fotografia inspirada de Hugh Johnson até a bela música de Trevor Jones, mas falta coração a "Até o limite da honra". Coração e paixão.


Demi Moore - bela como sempre e evitando o uso de dublês - vive Jordan O'Neil, uma especialista em topologia que é escolhida para ser a primeira mulher a enfrentar o treinamento mais radical dos fuzileiros americanos, do qual 60% dos inscritos desiste antes do final. Sua escolha é menos altruísta do que interesseira: quem está por trás de tudo é a senadora Lilian DeHaven (Anne Bancroft), uma raposa velha política que vê na mudança das atitudes da Marinha americana em relação às mulheres um benefício para sua própria carreira. Hostilizada pelos colegas de treinamento - que não sabem nem ao menos como lidar com sua presença entre eles - O'Neil aos poucos passa a ganhar o respeito e a admiração de todos, ao mostrar-se tão forte, corajosa e persistente quanto qualquer um. Sua trajetória, porém, fica ameaçada quando a própria senadora tenta puxar-lhe o tapete, lançando boatos sobre sua sexualidade.

A primeira parte de "Até o limite da honra" é a melhor. Apesar de usar e abusar de todos os clichês do gênero, o treinamento de Jordan e seus colegas consegue ser interessante, principalmente por contar com a atuação vigorosa de Viggo Mortensen como o comandante John Urgayle - que, honrando a tradição máxima do lugar-comum é um brucutu que recita T.E. Lawrence e se desmancha de admiração pela heroína nas cenas finais. Antes de sua consagração com a trilogia "O Senhor dos anéis", Mortensen já mostrava que tinha um talento incomum, conseguindo fazer o possível e o impossível com uma personagem unidimensional. Sua participação engrandece o filme, assim como o trabalho mais uma vez irrepreensível de Anne Bancroft, que rouba todas as (infelizmente poucas) cenas em que aparece. São eles que dão sustentação à Demi Moore, cuja protagonista, apesar de forte e determinada não é desenvolvida a contento pelo roteiro. Ainda assim, a então esposa de Bruce Willis merece elogios por sua dedicação e pela coragem de arriscar-se em um terreno dominado quase exclusivamente pelos homens.

Sem maiores expectativas pode-se gostar bastante de "Até o limite da honra" - que apresenta inclusive uma bela canção original interpretada pela banda The Pretenders em seus créditos finais. É um exemplar muito digno de seu gênero, ainda que fique muito aquém de tudo já realizado por Ridley Scott. E tem Demi Moore botando muito homem no chinelo, o que sempre é muito interessante...

Wednesday, December 15, 2010

O PAGAMENTO FINAL

O PAGAMENTO FINAL (Carlito's way, 1993, Universal Pictures, 144min) Direção: Brian DePalma. Roteiro: David Koepp, romances "Carlito's way" e "After Hours", de Edwin Torres. Fotografia: Stephen H. Burum. Montagem: Kristina Boden, Bill Pankow. Música: Patrick Doyle. Figurino: Aude Bronson-Howard. Direção de arte/cenários: Richard Sylbert/Leslie A. Pope. Casting: Bonnie Timmermann. Produção executiva: Ortwin Freyermuth, Louis A. Stroller. Produção: Willi Baer, Martin Bregman, Michael S. Bregman. Elenco: Al Pacino, Penelope Ann Miller, Sean Penn, John Leguizamo, Viggo Mortensen, Luis Guzman, James Rebhorn. Estreia: 10/11/93

2 indicações ao Golden Globe: Ator Coadjuvante (Sean Penn), Atriz Coadjuvante (Penelope Ann Miller)

Dez anos separam "Scarface" de "O pagamento final". Nesse meio-tempo, Brian DePalma conheceu a frieza da crítica com os fracassados "A fogueira das vaidades" e "Síndrome de Caim", enquanto Al Pacino se afastava do cinema e retornava em grande estilo, chegando a ganhar seu merecido Oscar, por "Perfume de mulher". O reencontro de diretor e ator não poderia ter chegado em melhor hora. E não poderia ter sido mais bem-sucedido. Ainda que a bilheteria não tenha correspondido à altura, "O pagamento final" é um dos melhores policiais dos anos 90. Novamente reunidos pelo produtor Martin Bregman, DePalma e Pacino demonstram uma maturidade muito bem-vinda ao contar uma trágica história sobre a força do ambiente sobre os indivíduos.

Baseado em dois romances do Juiz Edwin Torres - que os escreveu inspirado em suas lembranças do Brooklyn nova-iorquino - "O pagamento final" começa em 1975, quando o porto-riquenho Carlito Brigante (Al Pacino, excelente) é libertado da cadeia depois de manobras de seu ambicioso advogado David Kleinfeld (um irreconhecível e estupendo Sean Penn). Poupado de permanecer 15 anos preso, Brigante deve sua liberdade ao jovem e um tanto corrupto advogado, mas ao voltar às ruas onde cresceu, decide afastar-se da vida do crime. Assumindo a sociedade de uma boate, ele resiste bravamente a todas as ofertas de negócios escusos, dedicando-se a guardar dinheiro suficiente para ir embora para um paraíso tropical ao lado da mulher que ama, a dançarina Gail (Penelope Ann Miller). Porém, quando, por dívida moral, ele aceita ajudar Kleinfeld em uma manobra perigosa para tirar um assassino da cadeia, ele vê todo seu esforço em seguir uma vida honesta correr sérios riscos. Traído por todos em quem confia, só resta a ele mais uma vez apelar para a violência.

O Carlito Brigante criado por Al Pacino tem ecos gritantes com seu Michael Corleone. Ambos sofrem de paranoia justificada - assim como Tony Montana, de "Scarface" - e ambos tentam infrutiveramente escapar de um destino trágico e sangrento. Mas enquanto Corleone jamais suja suas mãos, Brigante vai à luta por si mesmo, empunhando armas e literalmente correndo para sobreviver. Enquanto Corleone tem poderes que se estendem ao Vaticano e a Wall Street, Brigante esconde seu suado dinheiro em um cofre da boate que comanda. Enquanto Corleone é incapaz de amar verdadeiramente uma mulher, Brigante é apaixonado por Gail acima de tudo. E mais importante: enquanto Michael Corleone sabe muito bem com quem está lidando, Brigante tem - apesar de sua malandragem de calçada - uma certa ingenuidade e um rígido padrão ético, apesar disso não o impedir de vingar-se quando estritamente necessário.

Menos propenso a movimentos mirabolantes de câmera - que fizeram sua fama no início da carreira - DePalma orquestra, em "O pagamento final" uma de suas mais afinadas sinfonias. Inteligentemente, o cineasta proporciona pequenas doses de suspense no decorrer do filme - o primeiro tiroteio é um exemplo bem acabado dessa afirmação - enquanto acompanha sem pressa o caminho do protagonista a seu destino. Nesse caminho, Carlito Brigante trava contato com antigos comparsas (um deles vivido por Viggo Mortensen em início de carreira), pequenos contraventores e ambiciosos criminosos (entre eles, o sinistro "Benny Blanco, from the Bronx", interpretado magistralmente por John Leguizamo). Nenhum deles, no entanto, mais perigoso do que seu advogado de confiança.


Personificado com maestria por um Sean Penn começando uma caminhada rumo ao respeito absoluto da crítica e do público, David Kleinfeld é uma das personagens mais fascinantes do filme - repleto de bons papéis. Viciado em cocaína, corrupto, covarde e sem o menor senso de ética ou moral, ele não é exatamente um retrato agradável da profissão de advogado, mas na pele de Penn é impossível não ter compaixão em seus momentos de puro desespero. Fisicamente irreconhecível, o ator - injustamente esquecido pelo Oscar de coadjuvante - tem a personagem que move o filme, empurrando todo mundo em direção ao clímax espetacular imaginado pelo roteiro de David Koepp e filmado com precisão cirúrgica por De Palma.

Assim como "Os intocáveis" tem no tiroteio na estação de trens sua sequência mais lembrada e comemorada - aliás, chupada do clássico "Encouraçado Potenkim", de Sergei Eisenstein - os vinte minutos finais de "O pagamento final" são de figurar em qualquer antologia de cinema. Fugindo dos mafiosos que querem sua cabeça - por motivos que não convém contar para não estragar o prazer de quem ainda (imperdoavelmente) não assistiu ao filme - Brigante foge em direção à estação central de NY para embarcar com Gail em uma viagem sem volta. Sua fuga - tensa, angustiante e magnificamente editada - mantém o espectador grudado na poltrona até seus últimos momentos, quando tudo faz um sentido avassalador.

"O pagamento final" é um filme que merece ser redescoberto. Maltratado pela crítica à época de sua estreia, se mantém com um frescor e uma força até os dias de hoje, além de contar com um Al Pacino no auge de sua forma como ator e personalidade. E, por mais intenso que "Scarface" seja, ele consegue ser ainda melhor.