Showing posts with label ADAPTAÇÕES LITERÁRIAS. Show all posts
Showing posts with label ADAPTAÇÕES LITERÁRIAS. Show all posts

Friday, February 10, 2012

COMO PERDER UM HOMEM EM DEZ DIAS

COMO PERDER UM HOMEM EM DEZ DIAS (How to lose a guy in 10 days, 2003, Paramount Pictures, 116min) Direção: Donald Petrie. Roteiro: Kristen Buckley, Brian Regan, Burr Steers, livro de Michele Alexander, Jeannie Long. Fotografia: John Bailey. Montagem: Debra Neil-Fisher. Música: David Newman. Figurino: Karen Patch. Direção de arte/cenários: Thérèse DePrez. Produção executiva: Richard Vane. Produção: Robert Evans, Christine Peters, Lynda Obst. Elenco: Kate Hudson, Matthew McConaughey, Adam Goldberg, Bebe Neuwirth, Celia Weston, Thomas Lennon, Michael Michele, Shalom Harlow. Estreia: 07/02/03

Uma das maiores dores-de-cabeça dos produtores de comédias românticas deve ser encontrar material que pareça novidade, uma vez que é raro, dentro do gênero, que uma história já não tenha sido contada uma infinidade de vezes, mesmo que de formas variadas. Por isso, não deixa de ser compreensível que a origem de “Como perder um homem em 10 dias” seja um bem-humorado livro de auto-ajuda escrito pelas jornalistas Michelle Alexander e Jeannie Long, que analisa os erros mais graves cometidos pelas mulheres quando iniciam um relacionamento amoroso. Adaptado com um senso de humor impecável e dirigido com relativo bom-gosto por Donald Petrie, o filme fez um inesperado sucesso de bilheteria, rendendo mais de 100 milhões de dólares somente nos EUA, comprovando a tese de que comédias românticas – em especial as de qualidade – têm um público cativo.

A protagonista do filme é a jornalista Andie Anderson (Kate Hudson, a eterna Penny Lane de “Quase famosos”, substituindo a primeira escolha, Gwyneth Paltrow), que sonha escrever sobre assuntos socialmente relevantes mas que não consegue convencer sua chefe (a ótima Bebe Neuwirth) a liberá-la de seus artigos fúteis na revista feminina onde trabalha. Sua chance vem quando ela recebe a promessa de escolher o tema de seu próximo texto desde que consiga, com sucesso, escrever um artigo chamado “Como perder um homem em dez dias”. Para dar veracidade a sua dissertação, Andie resolve escolher um homem ao acaso, cometer as atrocidades que as mulheres de sua geração costumam cometer e afastá-lo no prazo de pouco mais de uma semana. A vítima escolhida, no entanto, não é o que parece à primeira vista. Benjamin Barry (Matthew McConaughey) é um publicitário que tenciona dar um salto na carreira, deixando pra trás os comerciais de produtos esportivos e assumindo a conta de uma joalheria sofisticada. Para isso ele precisa provar que é capaz de manter uma relação estável por no mínimo dez dias, o prazo proposto por seu chefe para que ele demonstre a capacidade de se envolver com uma mulher. Quando conhece Andie, ele acha que seus desejos se realizaram, mas logo descobre que por trás da carinha de anjo da jovem se esconde um monstro inseguro e obsessivo.
         

Uma das grandes sacadas do filme – e elas são muitas – é deixar com que o público saiba de antemão os objetivos de seus protagonistas, fazendo com que todo mundo se divirta ao máximo com os exageros de Andie e a paciência hercúlea de Benjamin, que, logicamente, se apaixonarão perdidamente durante o percurso para atingir suas expectativas profissionais. Sendo assim, os homens se identificarão com o desespero de Benjamin em perder suas partidas de basquete e suas noites com os amigos e as mulheres rirão de si mesmas ao perceber nas atitudes tresloucadas de Andie o quanto alguns erros são praticamente imperceptíveis em se tratanto de amor.
        
Mas sem dúvida nenhuma o grande trunfo de “Como perder um homem em 10 dias” é seu casal central. Mesmo que o visual moderno e atraente conferido pelo diretor seja extremamente responsável pelo clima romântico de sessão da tarde, é a química entre McConaughey – brilhando como no início de sua carreira – e Kate Hudson – que usa e abusa de seu carisma, improvisando em muitas cenas – que faz com que o filme decole com elegância e requinte. As cenas entre os dois – tanto as românticas quanto as cômicas, em que o timing de Hudson é absolutamente perfeito – são tão deliciosas que fica difícil tirar os olhos da tela. Uma das comédias românticas mais divertidas da última década, que ainda consegue brincar com propriedade com a famosa "You're so vain", de Carly Simon (composta como indireta ao ex Warren Beatty, segundo as más línguas).

PS - Pena que o casal protagonista se empolgou tanto com o sucesso desse filme que alguns anos depois realizou o tenebroso "Um amor de tesouro"...

Monday, February 6, 2012

CONFISSÕES DE UMA MENTE PERIGOSA

CONFISSÕES DE UMA MENTE PERIGOSA (Confessions of a dangerous mind, 2002, Miramax, 113min) Direção: George Clooney. Roteiro: Charlie Kaufman, livro de Chuck Barris. Fotografia: Newton Thomas Sigel. Montagem: Stephen Mirrione. Música: Alex Wurman. Figurino: Renée April. Direção de arte/cenários: James D. Bissell/Louis Dandonneau, Anne Galléa, Robert Greenfield. Produção executiva: Stephen Evans, Jonathan Gordon, Rand Ravich, Steven Soderbergh, Bob Weinstein, Harvey Weinstein. Produção: Andrew Lazar. Elenco: Sam Rockwell, George Clooney, Julia Roberts, Drew Barrymore, Maggie Gyllenhaal, Rutger Hauer. Estreia: 31/12/02

Urso de Ouro Melhor Ator (Festival de Berlim): Sam Rockwell

Normalmente o que leva um ator a assumir a cadeira de diretor é a vaidade. Somada à megalomania, ela pode levar a obras como "Dança com lobos" - que encantou milhares de pessoas e os votantes do Oscar de 1991, que o escolheram em detrimento do extremamente superior "Os bons companheiros" - ou "Coração valente" - que supreendeu todo mundo mostrando que Mel Gibson tinha mais talento como cineasta do que como ator dramático. Em 2003 um outro ator uniu-se à galeria de novos diretores - que inclui também Robert Redford, Danny DeVito, Robert DeNiro, Sean Penn, Edward Norton, Orson Welles e inúmeros outros menos cotados - e, para alívio geral, saiu-se muito melhor do que a encomenda. Já famoso como ator e galã, George Clooney assumiu as rédeas de "Confissões de uma mente perigosa", alucinante (e alucinada) versão para o cinema das memórias de Chuck Barris, um produtor de TV americano que, nas horas vagas, trabalhava como agente secreto da CIA. Brilhantemente escrito pelo demente (no bom sentido) Charlie Kaufman e apresentando um trabalho excepcional de Sam Rockwell no papel central, o filme colecionou elogios e prêmios - melhor ator no Festival de Berlim, melhor roteiro pelo National Board of Review - e confirmou Clooney como um diretor extremamente talentoso.

Dono de um apurado senso de humor, Clooney encontrou no tom sarcástico do script de Kaufman o material perfeito para sua estreia. Mesmo contando uma história séria, com toques de violência e até mesmo lances de grande dramaticidade, ele transformou seu filme em uma comédia original, criativa e imprevisível, que em nenhum momento dá pistas de tratar-se da obra de um iniciante. O ex-galã (que arrumou ainda espaço para uma participação como ator, talvez como chamariz de bilheteria) se utiliza de soluções bastante inteligentes no desenvolvimento da trama, demonstrando uma segurança ímpar. Contando ainda com a edição do experiente Stephen Mirrione (colaborador de seu amigo Steven Soderbergh), ele faz de "Confissões de uma mente perigosa" um divertido filme de espionagem onde a espionagem é quase uma coadjuvante de luxo. Nada é exatamente o que parece em seu filme, e é justamente aí que está toda a graça.



Sam Rockweel deita e rola como Chuck, um produtor de programas de televisão (criador do famoso "Namoro na TV") que é recrutado pelo misterioso Jim Byrd (Clooney) para trabalhar na CIA. A princípio pensando tratar-se de uma brincadeira, logo ele começa a perceber que está realmente envolvido em violentos trabalhos em várias partes do mundo, sempre acompanhado da bela Patricia Watson (Julia Roberts, se divertindo perceptivelmente no papel) e do sinistro Keeler (Rutger Hauer). Ao tentar equilibrar suas duas personalidades - empresário do show business e matador a serviço do governo - ele acaba entrando em um surto psicótico que o afasta da mulher que ama, Penny (Drew Barrymore).

Contando a coisa parece muito séria, mas não é. Realizado com um senso de ritmo invejável - para o que o roteiro magistral de Kaufman (que não gostou da maneira com que o cineasta tratou seu trabalho no corte final) colabora lindamente - "Confissões" não deixa a peteca cair em momento algum, surpreendendo a plateia constantemente (seja nas reviravoltas da trama ou na participação afetiva de Matt Damon e Brad Pitt em uma sequência hilariante). Fotografado com discrição por Newton Thomas Sigel (que assina a fotografia dos filmes de Bryan Singer) em tons pastéis que contrastam com o colorido exagerado dos cenários televisivos dos programas de Barris, o filme só peca em um detalhe: não é histericamente engraçado nem tampouco é um policial tradicional, e essa indecisão (ou transgressão das regras, o que soa mais apropriado) acabou lhe custando caro. Ao custo de quase 30 milhões de dólares, sua renda doméstica mal chegou aos 16. Felizmente o fracasso comercial não abalou o George Clooney diretor, que depois presentearia a plateia com filmes mais sérios e ainda mais elogiados, como "Boa noite, e boa sorte" (2005) e "Tudo pelo poder" (2011).

No final das contas, "Confissões de uma mente perigosa" é um dos mais empolgantes filmes de estreia que se tem notícia, que cresce a cada revisão. Quem não conhece não pode perder tempo! E, além do mais... quem pode resistir ao carinho do ator tornado diretor com a família, ao escolher uma canção de sua tia Rosemary Clooney para encerrar a projeção?

Sunday, February 5, 2012

AS HORAS


AS HORAS (The hours, 2002, Paramount Pictures, 114min) Direção: Stephen Daldry. Roteiro: David Hare, romance de Michael Cunningham. Fotografia: Seamus McGarvey. Montagem: Peter Boyle. Música: Philip Glass. Figurino: Ann Roth. Direção de arte/cenários: Maria Djurkovic/Philippa Hart. Produção executiva: Mark Huffam. Produção: Robert Fox, Scott Rudin. Elenco: Meryl Streep, Nicole Kidman, Julianne Moore, Ed Harris, Stephen Dillane, John C. Reilly, Toni Colette, Miranda Richardson, Jeff Daniels, Claire Danes, Allison Janney. Estreia: 25/12/02

9 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Stephen Daldry), Atriz (Nicole Kidman), Ator Coadjuvante (Ed Harris), Atriz Coadjuvante (Julianne Moore), Roteiro Adaptado, Montagem, Trilha Sonora Original, Figurino
Vencedor do Oscar de Melhor Atriz (Nicole Kidman)
Vencedor de 2 Golden Globes: Melhor Filme/Drama, Melhor Atriz/Drama (Nicole Kidman)

O livro pareceia infilmável. Com uma prosa densa e intimista e utilizando-se frequentemente do famigerado fluxo de consciência que torna qualquer adaptação literária para o cinema um pesadelo para os roteiristas, o romance "As horas", escrito por Michael Cunningham corria o sério risco de virar um filme hermético e pseudointelectual, daqueles que agradam à crítica mas que jamais ultrapassam seu potencial dramático. Felizmente, para a felicidade geral dos fãs, "As horas" não apenas manteve a qualidade arrasadora do romance vencedor do Pulitzer como atingiu um patamar altíssimo em termos de adaptações literárias. Dirigida por Stephen Daldry - elogiadíssimo por sua estreia no belo "Billy Elliot" - e com um elenco formado pelo melhor do melhor em Hollywood, a transposição do livro de Cunningham para as telas não poderia ter sido mais feliz.

Na verdade, o filme é tão bom que vale por três. São três histórias, sobre três mulheres em momentos cruciais de suas vidas, interligadas por sentimentos de melancolia, solidão acompanhada e insatisfação. São três existências que muitas vezes não demonstram todo o turbilhão que lhes machuca a alma. E são três atrizes espetaculares em momentos mágicos de suas carreiras, entregando atuações tão avassaladoras quanto as personagens que interpretam. Somente Nicole Kidman levou um Oscar, mas não seria nada injusto que dividisse a estatueta com suas colegas de elenco Meryl Streep e Julianne Moore. E alguém tem dúvidas de que, apesar de suas qualidades, o vencedor do ano, "Chicago" não tem 1/10 de seu impacto emocional e artístico?

 

"As horas" conta um dia de três mulheres divididas pelo tempo mas unidas por detalhes coincidentes (mostrados com maestria pela edição inteligente de Peter Boyle). Em 1923, em uma pequena cidade do interior para onde foi para tratar de uma forte depressão, a escritora Virginia Woolf (Nicole Kidman, irreconhecível) começa a escrever seu novo romance, intitulado "Mrs. Dalloway", que conta a história de uma mulher de aparente controle emocional que está organizando uma grande festa. Quem tem aparente controle emocional e está preparando um bolo para o marido aniversariante em 1951, em Los Angeles, é a dona de casa Laura Brown (Julianne Moore, que disputou um polêmico Oscar de coadjuvante mesmo sendo tão protagonista quanto Kidman). Grávida do segundo filho, ela está lendo e se identificando com o livro deWoolf e com sua personagem-título, a tal ponto de planejar o suicídio em um quarto de hotel. E em 2001, em Nova York, a editora Clarissa Vaughan (Meryl Streep, espetacular como sempre), que vive confortavelmente com a esposa Sally (Allison Janney) - e que ganhou na juventude a alcunha de Mrs. Dalloway por causa do romance de Virginia - também está em vias de homenagear o melhor amigo e ex-amante Richard (Ed Harris), poeta e escritor premiado por sua obra. A partir dessa similaridade dramática, o roteiro delicado de David Hare tece uma teia de sutilezas comentada pela trilha sonora impiedosa de Philip Glass e por coadjuvantes nunca menos que brilhantes.

Ed Harris chegou perto de ganhar seu Oscar de coadjuvante por seu trabalho como o poeta soropositivo e com tendências suicidas que abala a estrutura de sua amiga Clarissa - "Você, Mrs. Dalloway, sempre dando festas para encobrir o silêncio!", ele afirma em determinado momento. Claire Danes vive a filha de Clarissa, Julia, que, apesar de ter uma história mais interessante no livro tem a função de situar a mãe em um momento de crise. E Jeff Daniels brilha como Louis Waters, que envolveu-se com ele na juventude e tenta recuperar sua jovialidade iniciando um caso com um jovem aluno. No núcleo de Laura Brown, John C. Reilly exercita seu estilo cool de interpretação como o marido paciente e amoroso e Toni Collette deita e rola em uma única cena que mostra todo o seu talento, na pele de Kitty, a vizinha cuja doença aciona os mecanismos de tristeza da protagonista. E Nicole Kidman tem a valiosa companhia luxuosa de Stephen Dillane e Miranda Richardson, como o marido e a irmã de Virginia, que a tiram de seu transe criativo para mudar os rumos de sua obra-prima.

 


Na verdade, a versão cinematográfica de "As horas" é tão repleta de acertos que é difícil escolher um destaque. O roteiro conciso, poético e construído com linhas de ouro pelo dramaturgo David Hare é fiel ao estilo intelectual de Cunningham sem nunca deixar de ser também extremamente emocional. A música de Philip Glass é arrepiante, dando sustentação aos silêncios doloridos. Os diálogos são fascinantes, assim como a ideia por trás de toda a trama - que envolve assuntos tabu como suicídio, AIDS, homossexualidade sem fazer julgamentos morais. E a direção de Daldry é, talvez, uma das mais injustiçadas da história do Oscar: perder para Roman Polanski por "O pianista" chega a ser quase piada - ainda mais se pensarmos que o filme também tirou sua estatueta de roteiro adaptado.

Falar de "As horas" e de todas as suas implicações dramáticas e ideológicas - além dos elogios infindos que merecem suas atrizes centrais - nunca seria demais. Mas é fato indiscutível que é uma das melhores e mais sensacionais adaptações literárias já feitas por Hollywood. Um filme raro e inesquecível, que fica para sempre na alma do espectador.

Wednesday, February 1, 2012

PRENDA-ME SE FOR CAPAZ

PRENDA-ME SE FOR CAPAZ (Catch me if you can, 2002, Dreamworks SKG, 141min) Direção: Steven Spielberg. Roteiro: Jeff Nathanson, livro de Frank Abgnale Jr., Stan Redding. Fotografia: Janusz Kaminski. Montagem: Michael Kahn. Música: John Williams. Figurino: Mary Zophres. Direção de arte/cenários: Jeannine Oppewall/Claudette Didul, Leslie A. Pope. Produção executiva: Barry Kemp, Laurie MacDonald, Tony Romano, Michael Shane. Produção: Walter F. Parkes, Steven Spielberg. Elenco: Tom Hanks, Leonardo DiCaprio, Christopher Walken, Martin Sheen, Nathalie Baye, Amy Adams, Jennifer Garner, James Brolin. Estreia: 25/12/02

2 indicações ao Oscar: Ator Coadjuvante (Christopher Walken), Trilha Sonora Original

Juntar no mesmo filme Steven Spielberg, Tom Hanks e Leonardo DiCaprio não tinha como dar errado. E não deu. No entanto, apesar da renda mundial de mais de 350 milhões de dólares, "Prenda-me se for capaz" desconcertou a crítica por sua mistura de gêneros. Ora uma comédia despretensiosa, ora um filme de ação com momentos dramáticos, a transposição para as telas da história real do Frank Abgnale Jr. não conquistou tantos prêmios quanto merecia. No mesmo ano em que "Chicago" fez a festa na cerimônia do Oscar, o filme de Spielberg teve que contentar-se com meras duas indicações: ator coadjuvante para Christopher Walken e trilha sonora original para o veterano John Williams.

Realizado por Spielberg logo depois de "A.I. - Inteligência artificial", "Prenda-me se for capaz" é nitidamente menos ambicioso em termos visuais e dramáticos. Assumindo a direção depois da desistência de David Fincher, Gore Verbinski, Cameron Crowe e Lasse Halstrom, o cineasta demonstra ter retomado o tom leve e divertido do início de sua carreira, deixando de lado os temas pesados de seus filmes dramáticos e com intenções a Oscar - incluindo aí o malfadado "Amistad", que morreu na praia de suas boas intenções. Da música espirituosa de Williams à fotografia esplêndida de Janusz Kaminski (que evita as sombras e apresenta um filme solar e alto-astral) tudo parece dizer ao público que sim, o diretor é o mesmo homem que esteve por trás (como produtor) de filmes essenciais ao entretenimento dos anos 80 e 90 que visavam a diversão pura e simples.



Baseado no livro autobiográfico escrito por Abgnale e Stan Redding, "Prenda-me se for capaz" começa em 1963, quando o jovem Frank (Leonardo DiCaprio) está com 19 anos e seus pais (Christopher Walken e Nathalie Baye) se separam. Abalado com a situação, o rapaz foge para Nova York, onde começa uma carreira como falsificador utilizando cheques que ganhou de presente de seu pai, a quem idolatra. Em pouco tempo ele consegue mais de 2 milhões de dólares e passa a ser perseguido pelo FBI, na figura de Carl Hanrattu (Tom Hanks), que fica obcecado em caçá-lo. Para fugir da polícia - e continuar sua vida de luxo e conforto- Frank se faz passar por piloto da Pan Am e médico, chegando a ficar noivo da tímida Brenda (Amy Adams). Entre ele e Hanratty surge, surpreendentemente, uma relação de admiração mútua.

É interessante como o roteiro de Jeff Nathanson tenta estabelecer uma espécie de relação paternal entre seus dois protagonistas, sem que para isso precise apelar para conceitos freudianos que fatalmente afastariam o grande público. Nas mãos experientes de Spielberg tudo soa menos sério e mais divertido. Mesmo que não seja exatamente uma comédia - ao menos não uma comédia de gargalhadas - "Prenda-me se for capaz" tem um clima de sessão da tarde descompromissada. O humor impresso por Nathanson é sutil e irônico e encontra no timing perfeito de Tom Hanks um intérprete ideal, enquanto DiCaprio deita e rola com uma personagem que é o sonho de qualquer jovem ator. Mesmo que contracenem bem pouco, os dois protagonistas são os principais responsáveis por elevar o nível de qualidade do filme, em performances exatas, seguradas por um elenco coadjuvante que jamais deixa a peteca cair: não apenas ChristopherWalken está soberbo como Frank Abgnale pai, mas também Nathalie Baye e Martin Sheen apresentam trabalhos dignos de nota - e até mesmo a participação rápida de Jennifer Garner não deixa de ser uma delícia.

"Prenda-me se for capaz" é mais uma prova de que Steven Spielberg é um diretor versátil, capaz de cativar o espectador contando qualquer tipo de história. E é um dos mais divertidos filmes de 2002, injustamente esquecido pelo Oscar.

Tuesday, January 31, 2012

A ÚLTIMA NOITE

A ÚLTIMA NOITE (The 25th hour, 2002, Touchstone Pictures, 135min) Direção: Spike Lee. Roteiro: David Benioff, romance de sua autoria. Fotografia: Rodrigo Prieto. Montagem: Barry Alexander Brown. Música: Terence Blanchard. Figurino: Sandra Hernandez. Direção de arte/cenários: James Chinlund/Ondine Karady. Produção executiva: Nick Weschler. Produção: Julia Chasman, Jon Kilik, Spike Lee, Tobey Maguire. Elenco: Edward Norton, Philip Seymour Hoffman, Barry Pepper, Brian Cox, Rosario Dawson, Anna Paquin. Estreia: 19/12/02

Desde que surgiu no cenário hollywoodiano, com seu genial trabalho em "As duas faces de um crime", que lhe deu uma merecida indicação ao Oscar de ator coadjuvante, Edward Norton teve uma trajetória exemplar. Trabalhou com cineastas acima de qualquer suspeita, como Woody Allen, Milos Forman e David Fincher, assumiu a cadeira de diretor com o simpático "Tenha fé" e entregou no mínimo uma atuação inesquecível, como o skinhead arrependido de "A outra história americana", de 1998. Depois de alguns filmes que não exploraram todo o potencial de seu talento - entre eles "Dragão vermelho", terceiro filme estrelado por Hannibal Lecter - ele voltou a encantar seu público com "A última noite", um potente e polêmico drama dirigido pelo não menos controverso Spike Lee.

Realizado sob a tensão pós-11 de setembro, "A última noite" é baseado em um romance de David Benioff, também autor do belo roteiro, que discute preconceito, lealdade, diferenças sociais e a força da amizade sem soar piegas ou condescendente. Contando com um protagonista falível e um time de coadjuvantes interessantes por si mesmos, é um filme que foge do panfletarismo barato que caracteriza a obra de seu diretor, atingindo seu público justamente por ser honesto em suas discussões e seu amor incondicional por Nova York e suas idiossincrasias culturais e sociais.

Quando o filme começa, o protagonista Monty Brogan (Edward Norton, ótimo) está às vésperas de ir para a cadeia, condenado a sete anos de prisão por tráfico de drogas. Sua última noite de liberdade será passada ao lado da namorada, Naturelle (Rosario Dawson) e dos melhores amigos, o yuppie Frank (Barry Pepper, excelente) e o professor de Literatura Jacob (Philip Seymour Hoffman). Enquanto se sente angustiado com a possibilidade de ter sido denunciado pela mulher que ama, Monty encara suas últimas horas de liberdade como uma espécie de despedida de uma vida com certo conforto e tranquilidade e questiona o estado em que está a cidade que ama após os atentados cometidos por Osama Bin Laden. Nesse meio-tempo, Frank tenta convencê-lo de que o ajudará após a temporada na prisão e Jacob foge da tentação sexual representada por uma aluna adolescente, Mary (Anna Paquin).



Apesar de sua trama ter elementos policiais - tráfico de drogas, traição - "A última noite" é, acima de tudo, um drama familiar (sendo o núcleo familiar tradicional subsituído pelos amigos) que retrata com acuracidade diferentes estilos de vida americanos. Frank é o arrogante executivo das finanças que se acha mais importante que os amigos porque tem um salário muito maior que o deles; Jacob é o professor solitário e idealista que se deixa seduzir por uma aluna que precisa de boas notas; e Monty representa o tipo de gente que se deixa levar pelo caminho mais fácil de atingir o sucesso, vendendo drogas a estudantes e tornando-se um traficante conhecido e bem-sucedido. Apesar de suas diferenças, eles tem uma convivência pacífica e quase terna, só abalada pela presença de Naturelle, uma presença dúbia e sexy que tanto pode ser a mulher confiável em que Monty acredita plenamente ou a traidora que seus amigos pintam.

Dirigido com fúria contida por um Spike Lee discreto mas eficaz em sua maneira pungente de fazer cinema, "A última noite" se beneficia amplamente de seu elenco, composto por atores em seus melhores dias. Se Norton e Seymour Hoffman não precisam provar nada a ninguém, a surpresa maior fica por conta de Barry Pepper, que por pouco não rouba as cenas em que aparece, em uma interpretação inspirada e sutil que vai se avolumando até estourar nas suas últimas cenas, em que precisa espancar o melhor amigo para ajudá-lo a sobreviver na prisão. E na pele de James, o calejado pai de Monty, o onipresente Brian Cox brinda o público com um trabalho delicado e emocionante.

Um dos filmes mais subestimados da temporada 2002, "A última noite" é fascinante, forte, impactante e comovente na medida certa. Um belíssimo filme, feito para adultos que gostam de cinema com consistência.

Monday, January 30, 2012

ADAPTAÇÃO

ADAPTAÇÃO (Adaptation, 2002, Good Machine, 114min) Direção: Spike Jonze. Roteiro: Charlie Kaufman, David Kaufman, livro "O ladrão de orquídeas", de Susan Orlean. Fotografia: Lance Acord. Montagem: Eric Zumbrunnen. Música: Carter Burwell. Figurino: Casey Storm. Direção de arte/cenários: K.K. Barrett/Gene Serdena. Produção executiva: Charlie Kaufman, Peter Saraf. Produção: Jonathan Demme, Edward Saxon. Elenco: Nicolas Cage, Meryl Streep, Chris Cooper, Brian Cox, Maggie Gyllenhaal, Ron Livingstone, Tilda Swinton, Cara Seymour, Judy Greer. Estreia: 06/12/02

4 indicações ao Oscar: Ator (Nicolas Cage), Ator Coadjuvante (Chris Cooper), Atriz Coadjuvante (Meryl Streep), Roteiro Adaptado
Vencedor do Oscar de Ator Coadjuvante (Chris Cooper)
Vencedor de 2 Golden Globes: Ator Coadjuvante (Chris Cooper), Atriz Coadjuvante (Meryl Streep)

Depois de fazer sucesso como roteirista de “Quero ser John Malkovich”, pelo qual foi até mesmo indicado ao Oscar, o escritor Charlie Kaufman (Nicolas Cage) recebe a proposta de adaptar para as telas o livro “O ladrão de orquídeas”, da jornalista Susan Orlean (Meryl Streep). Ao ler a obra, no entanto, Kaufman entra em pânico: o livro, que conta a história do botânico John Laroche (Chris Cooper) não tem uma forma linear, ou pior ainda, não tem nem história. Em total crise de criatividade, Charlie ainda tem que aturar em sua própria casa as idéias de Donald (novamente Cage), seu irmão gêmeo, que também ambiciona a carreira de roteirista e está escrevendo um filme completamente sem pé nem cabeça, mas que, por ironia, agrada em cheio aos executivos de Hollywood. Sem saber que rumo tomar, Charlie chega a criar uma inexistente história de amor entre a escritora e seu objeto de estudo e, em momento de total desamparo, a procurar a ajuda de um professor de cursos de roteiro, um charlatão profissional que vive de ensinar aos sonhadores autores de cinema a fórmula do sucesso (vivido magistralmente por Brian Cox). No ápice do desespero, Charlie tenta, então, sua cartada mais absurda: pede ajuda a seu irmão, que transforma o livro de Orlean em uma trama de tráfico de drogas, violência e sexo.

Neste brilhante exercício de metalinguagem, o excepcional Charlie Kaufman conseguiu superar a si próprio. Enquanto “Quero ser John Malkovich” era um primor de criatividade e humor negro, “Adaptação” é a afinação de uma mente no mínimo enlouquecida. Ao criticar a própria indústria hollywoodiana com todas as suas idiossincrasias e incoerências, ele criou um filme que todos os roteiristas de cinema poderiam sonhaR criar: inteligente, engraçado e absolutamente inovador, pra não dizer quase esquizofrênico. Quando a agente do roteirista Kaufman, vivida no filme por Tilda Swinton diz, a certo momento que adoraria entrar na sua mente, só o que podemos pensar é que ela não é a única. Charlie Kaufman é tão louco que assina seu roteiro como se o tivesse escrito ao lado do irmão Donald, que na verdade nem existe. E pensar que a Academia indicou (a ambos) para um Oscar.

 

“Adaptação” não é um filme para qualquer público. Suas sutilezas são tantas que só mesmo aqueles que conhecem razoavelmente as engrenagens do cinema conseguem captar de imediato. Um exemplo claro: quando Donald, o irmão enlouquecido de Charlie começa a ajudar no processo de escrita do filme, a obra de Jonze muda totalmente de estilo. De uma narrativa clássica e com intenções sérias, vira um samba do crioulo doido, com direito a perseguições de carro, tiroteios e até um jacaré salvador. Erro de direção? Não, erro de percepção do público. E é aí que entra o talento do diretor Spize Jonze, que já havia trabalhado com um texto de Kaufman no supra citado “Quero ser John Malkovich”.
Egresso de videoclipes, Jonze parece não dar a mínima para as regras de se fazer cinema. Criativo, ousado, por vezes delirante, o cineasta não busca as soluções mais fáceis. Ele quer complicar, quer fazer o povo pensar e rir de si mesmo. E o faz com a ajuda inenarrável de seu elenco. Nicolas Cage nunca esteve melhor em sua carreira (nem mesmo em “Despedida em Las Vegas”, que lhe deu um Oscar), em uma atuação dupla absurdamente engraçada; Chris Cooper levou sua estatueta pelo complexo John Laroche, que dependendo do ponto de vista de cada autor, tinha uma personalidade distinta. E Meryl Streep prova mais uma vez porque é a melhor atriz americana em atividade. Na pele da sensível escritora Susan Orlean (cujo livro existe de verdade, mas não tem absolutamente nada a ver com o filme), Streep rouba todas as cenas em que aparece, fazendo uma personagem totalmente distante do que estamos acostumados a vê-la.
“Adaptação” é tão bom que até mesmo seu trailer vale a pena assistir, de tão irônico. Não é um humor de fácil assimilação, mas é uma aula de roteiro e metalinguagem como raramente se vê nesses tempos em que tudo vem mastigadinho.

Wednesday, January 25, 2012

O CHAMADO

O CHAMADO (The ring, 2002, Dreamworks SKG, 115min) Direção: Gore Verbinski. Roteiro: Ehren Kruger, romance de Koji Suzuki, roteiro original de Hiroshi Takahashi. Fotografia: Bojan Bazelli. Montagem: Craig Wood. Música: Hans Zimmer. Figurino: Julie Weiss. Direção de arte/cenários: Tom Duffield/Rosemary Brandenburg. Produção executiva: Doug Davison, Roy Lee, Mike Macari, Michele Weisler. Produção: Laurie MacDonald, Walter F. Parkes. Elenco: Naomi Watts, Martin Henderson, David Dorfman, Brian Cox, Jane Alexander, Daveigh Chase. Estreia: 18/10/02

No início dos anos 2000, Hollywood, dando mais uma prova de sua crônica falta de criatividade, passou a buscar nos filmes de terror orientais a matéria-prima para alguns de seus maiores sucessos do gênero. O responsável por tal tendência - e que acabou tornando-se vítima dela quando gerou uma continuação desnecessária - foi "O chamado", remake que, por incrível que pareça, melhorou bastante seu original, dirigido por Hideo Nakata (por sua vez, baseado em um romance de Kôji Suzuki). Comandada por Gore Verbinski (em alta pelo sucesso de sua versão cinematográfica de "Piratas do Caribe"), a versão ianque consegue ter clima apropriado, um elenco afiado e, melhor ainda, mantém o suspense em alta até suas cenas finais.

O remake americano de "O chamado" é bastante fiel a sua origem japonesa, seguindo quase à risca o roteiro do filme de Nakata. Naomi Watts (recém saída dos elogios por "Cidade dos sonhos", de David Lynch) é a protagonista, a jornalista Rachel Keller, mãe solteira do precoce Aidan (David Dorfman). Dedicada à profissão (e curiosa como uma boa repórter deve ser), Rachel inicia uma investigação inusitada depois da morte inesperada da sobrinha adolescente: ela segue os rastros de uma fita de vídeo que, segundo consta, mata quem a assiste, depois de sete dias. Após assistir à tal fita (que encontra na pousada onde sua sobrinha passou seu último fim de semana), Rachel começa uma corrida contra o tempo para evitar sua morte e a do filho, que também assistiu às desconexas imagens. Com a ajuda do ex-namorado Noah (Martin Henderson), ela tenta descobrir as razões por trás do filme e descobre, aterrorizada, uma trágica história familiar com fim trágico.



Fotografado com competência por Bojan Bazelli - que mistura o tom sombrio da história com a umidade constante de Seattle, cenário da trama - "O chamado" tem a seu favor, também, a direção competente de Verbinski, que, mesmo que esteja longe de ser um cineasta original ou ousado, narra com correção e seriedade um filme que inteligentemente foge da tendência de apelar para o humor (característica esta que marcou uma fase do gênero terror no final dos anos 90). Para o bem do espectador que gosta de sentir medo (e assustar-se), o cineasta mantém sempre a sensação de perigo constante e chega ao luxo de enganar a plateia, aparentemente terminando a história para então apresentar seu desfecho pessimista. Ainda que não chegue a ser exatamente surpreendente (sempre é bom deixar um gancho para uma sequência, ensinam os executivos de Hollywood), essa opção encerra o filme com coerência e elegância.

Apesar das explicações meio capengas para mostrar os motivos que levaram a vilã Samara Morgan (interpretada pela pequena e assustadora Daveigh Chase) a tornar-se vingativa - culpa mais da história original em si do que de seu remake - "O chamado" é um dos mais decentes filmes de terror dos anos 2000, dando a chance a Naomi Watts de comprovar o talento mostrado em seu inesquecível trabalho em "Cidade dos sonhos". Um filme imperdível para os fãs do gênero!

Tuesday, January 24, 2012

DEIXE-ME VIVER

DEIXE-ME VIVER (White oleander, 2002, Warner Bros, 109min) Direção: Peter Kosminsky. Roteiro: Mary Agnes Donoghue, romance de Janet Fitch. Fotografia: Elliott Davis. Montagem: Chris Risdale. Música: Thomas Newman. Figurino: Susie DeSanto. Direção de arte/cenários: Donald Graham Burt/Bryony Foster. Produção executiva: Stacy Cohen, E.K. Gaylord II, Kristin Harms, Patrick Markey. Produção: Hunt Lowry, John Wells. Elenco: Michelle Pfeiffer, Alison Lohmann, Renée Zellweger, Robin Wright-Penn, Patrick Fugit, Noah Wyle, Cole Hauser. Estreia: 11/10/02

Em 2002, a incansável máquina de fabricar novas estrelas que Hollywood jamais abandona encontrou um novo nome a ser explorado: com meros 13 anos de idade (mas trabalhando como atriz desde a mais tenra infância), a delicada Alison Lohman conquistou a simpatia do público e da crítica no papel de uma frágil pré-adolescente lutando para fugir do jugo de uma mãe dominadora condenada por homicídio. Depois de sua convincente atuação em "Deixe-me viver", adaptado de um romance de Janet Fitch, a jovem Lohman pavimentou seu caminho para trabalhar com diretores do porte de Ridley Scott e Tim Burton - e foi mais um exemplo de que pouca idade não é desculpa para falta de talento: mesmo bastante jovem, ela enfrentou sem medo o desafio de atuar com atrizes consagradas já em seu primeiro filme de grande visibilidade.

Aliás, grande visibilidade em termos. Aposta certeira para a temporada de prêmios - em especial era considerada certeza a indicação de Michelle Pfeiffer ao Oscar de coadjuvante - o filme de Peter Kosminsky acabou morrendo na praia, sem tornar-se nem um êxito de crítica nem o sucesso comercial que se esperava. Porém, a despeito dessa frustrada ambição por estatuetas, "Deixe-me viver" é um filme com belas qualidades. E a maior delas já está estampada no cartaz: o elenco feminino acima de qualquer suspeita.



Em uma interpretação surpreendente, Michelle Pfeiffer vive Ingrid Magnussen, uma artista plástica tão talentosa quanto temperamental que vê sua vida virar de cabeça pra baixo quando mata um ex-amante que a trocou por outra mulher. Condenada à prisão, ela perde a guarda da filha única, Astrid, uma adolescente introvertida que tinha na imagem materna um exemplo a ser seguido. A falta de referências da jovem aumenta ainda mais quando ela passa a viver em consecutivos lares provisórios, tomando contato com realidades distintas da que vivia até então. É assim que ela vai morar, entre outras, com Starr (a excelente Robin Wright), uma mulher que se diz religiosa mas não concebe sua vida sem estar atrelada a um homem e com Claire Richards (Renee Zelwegger), uma atriz decadente com o casamento em frangalhos. Enquanto tenta manter um equilíbrio em seu mundo já bastante bagunçado, Astrid ainda precisa lidar com o fato de não conseguir fugir dos domínios de sua mãe, uma mulher ardilosa e inteligente que tem na filha o único contato com o mundo exterior.

Não se pode dizer que "Deixe-me viver" seja psicologicamente acurado ou tenha personagens brilhantemente desenhados. Seu formato episódico de certa forma prejudica o envolvimento do espectador com suas personagens, que poderiam ser melhor desenvolvidas. É lamentável, por exemplo, que Robin Wright-Penn, uma atriz tão sensacional, fique tão pouco tempo em cena. Mas o roteiro consegue fazer com que a história nunca perca seu interesse e seu foco central (a relação entre Astrid e sua mãe) e, além de tudo, não caia nos exageros melodramáticos que a história fatalmente poderia apresentar devido ao tema. Essa opção por não cair no piegas valoriza o resultado final, ainda que não o torne especialmente marcante. Ainda assim, é um drama competente e que apresentou uma jovem atriz ao mundo. Já está de bom tamanho!

Monday, January 23, 2012

DRAGÃO VERMELHO

DRAGÃO VERMELHO (Red dragon, 2002, Universal Pictures, 124min) Direção: Brett Ratner. Roteiro: Ted Tally, romance de Thomas Harris. Fotografia: Dante Spinotti. Montagem: Mark Helfrich. Música: Danny Elfman. Figurino: Betsy Heinman. Direção de arte/cenários: Kristi Zea/Karen O'Hara. Produção executiva: Andrew Z. Davis. Produção: Dino de Laurentiis, Martha de Laurentiis. Elenco: Anthony Hopkins, Edward Norton, Ralph Fiennes, Harvey Keitel, Philip Seymour Hoffman, Emily Watson, Mary-Louise Parker, Anthony Heald, Bill Duke. Estreia: 30/9/02

Em 1991 o cineasta Jonathan Demme - mais conhecido pela comédia de humor negro "Totalmente selvagem" - pegou todo mundo de surpresa com o aterrador "O silêncio dos inocentes", suspense de primeira linha adaptado do romance de Thomas Harris que não só fez enorme sucesso de bilheteria e papou as cinco principais estatuetas do Oscar - deixando filmes mais "acadêmicos" como "Bugsy" comendo poeira - como também ressuscitou a carreira do ator galês Anthony Hopkins, que entrou instantaneamente para o panteão dos grandes vilões da história do cinema. Como em Hollywood a ganância fala muito mais alto do que a integridade artística, em 2001 foi lançado "Hannibal", uma tenebrosa continuação dirigida por Ridley Scott, que substituía Jodie Foster por Julianne Moore e a sutileza pelo horror explícito. A galinha dos ovos de ouro ainda dava grana (mais de 160 milhões arrecadados nos EUA pela segunda parte) e ninguém se surpreendeu quando "Dragão vermelho" estreou, ainda com Hopkins no papel do canibal Hannibal Lecter. Dirigido pelo eficiente porém jamais brilhante Brett Ratner, o filme chegou a um meio-termo interessante: não é genial como o primeiro e tampouco sofrível como o segundo.

O fato de "Dragão vermelho" já ter sido adaptado para as telas antes - mais precisamente em 1986, com o título de "Manhunter", dirigido por um Michael Mann na fase "Miami Vice" e estrelado por Brian Cox e William Petersen - não foi problema para os produtores dessa nova versão, que presumiram (com certa razão) que o público não tinha  isso registrado na memória. Sendo assim, com um novo título (o original do romance publicado em 1981), o filme chegou às telas cercado de razoável expectativa, em parte devido à personagem Lecter e em parte por causa do elenco excepcional reunido por Ratner: além de Hopkins desfilam pela tela Edward Norton, Ralph Fiennes, Emily Watson, Philip Seymour Hoffman e Harvey Keitel, todos velhos conhecidos do Oscar (com exceção de Hoffman, que levaria sua estatueta três anos depois). Juntos, eles dão consistência a uma história interessante o bastante para apagar a má impressão causada pelo trabalho de Ridley Scott.



"Dragão vermelho" se passa antes dos acontecimentos de "O silêncio dos inocentes" e começa quando o jovem agente do FBI Will Graham (um Edward Norton jovial que aproveitou o cachê do filme para financiar o ótimo "A última noite") é procurado por seu antigo chefe Jack Crawford (Harvey Keitel) para colaborar na elaboração do perfil psicológico de um serial killer apelidado de "Fada do Dente". Aposentado desde que foi seriamente ferido pelo psiquiatra Hannibal Lecter (a quem capturou), Graham se recusa a participar de mais uma caçada, mas é convencido a voltar atrás e contar com a ajuda do canibal para chegar até o novo assassino. Assim como em "O silêncio dos inocentes", o roteiro não se preocupa em esconder a identidade do criminoso. Francis Dolarhyde (Ralph Fiennes em papel que interessava a Michael Jackson (!!)) trabalha em um laboratório de revelação de filmes fotográficos e, com um passado traumático, é um assassino frio e meticuloso que se envolve romanticamente com uma colega de trabalho cega (Emily Watson) que não vê os defeitos físicos que ele julga ter. Enquanto chega cada vez mais perto do assassino, o detetive tem que preocupar-se também com o fato de sua família estar desprotegida na ilha onde isolou-se depois da aposentadoria.

Como dito anteriormente, Brett Ratner não é um Jonathan Demme e isso fica claro na maneira quase quadradinha com que move sua história (novamente adaptada pelo oscarizado Ted Tally). O tom sufocante e opressivo de "O silêncio dos inocentes" foi substituído por um clima menos sombrio, mais comercial, sem maiores ouadias. Até mesmo Anthony Hopkins parece estar no piloto automático, não acrescentando à sua brilhante personagem nenhuma nuance a mais (o que não significa que não esteja ótimo como sempre, mas apenas acomodado). O mesmo acontece com Edward Norton, que não precisa muito para convencer em seu papel, ainda que pareça jovem demais para viver um agente aposentado. Sobressai-se então, mais uma vez, o excelente Ralph Fiennes, vivendo um Francis Dolarhyde bem mais complexo e digno de compaixão do que o Buffalo Bill interpretado por Ted Levine no filme de Demme. Suas cenas com Emily Watson são as mais interessantes da obra, em uma dinâmica dramática que envolve muito mais do que a trama policial (cujo clímax não deixa de ser quase requentado).

Porém, como filme de suspense "Dragão vermelho" não apenas convence como é bastante superior à média. Compará-lo com "O silêncio dos inocentes" chega a ser covardia. Mas que deixa "Hannibal" bem pra trás em matéria de qualidade não há como negar. Não ousa, mas não estraga. O que já é muito bom.

Thursday, December 8, 2011

POSSESSÃO

POSSESSÃO (Possession, 2002, USA Films/Warner Bros, 102min) Direção: Neil Labute. Roteiro: David Henry Hwang, Laura Jones, Neil LaBute, romance de A.S. Byatt. Fotografia: Jean-Yves Scoffier. Montagem: Claire Simpson. Música: Gabriel Yared. Figurino: Jenny Beavan. Direção de arte/cenários: Luciana Arrighi/Ian Whittaker. Produção executiva: Len Amato, David Barron. Produção: Barry Levinson, Paula Weinstein. Elenco: Gwyneth Paltrow, Aaron Eckhart, Jeremy Northam, Jennifer Ehle, Lena Headey. Estreia: 16/8/02

Quem diria? Neil LaBute, o responsável pela misoginia em estado puro de "Na companhia de homens", também tem um coração e sabe falar de amor... Diferente de todos os seus trabalhos anteriores - e a lista inclui o chato "Seus vizinhos, seus amigos" e a brilhante comédia "A enfermeira Betty" - o drama romântico "Possessão", baseado em um livro de A.S. Byatt, não apenas costura duas histórias de amor separadas por gerações mas também dá ao ator-fetiche de LaBute, o competente Aaron Eckhart, a chance de mostrar seu lado galante e sedutor sem ter que utilizar de seu charme cafajeste. Fracasso de bilheteria nos EUA (onde arrecadou menos da metade de seu orçamento relativamente pequeno de 25 milhões de dólares), é um filme com personagens reprimidas e aprisionadas a suas próprias regras de conduta. Não é exatamente o tipo de romance que os fãs de Meg Ryan consideram popular.

A despeito do título - idêntico ao do elogiado francês estrelado por Isabelle Adjani em 1981 - "Possessão" não é um filme de terror e nem ao mesmo flerta com qualquer ideia de reencarnação ou ideias afins. O roteiro apresenta ao público duas relações amorosas aparentemente sem maiores ligações que convergem para um final que equilibra o feliz com o melancólico. Eckhart está à vontade como Roland Michell, um americano com ambições de tornar-se um nome respeitado junto aos acadêmicos de literatura britânicos. Em uma pesquisa quase banal, ele dá de cara com um conjunto de cartas de amor escritas pelo poeta Randolph Ash (Jeremy Northam) na era vitoriana. O conteúdo das cartas leva Roland a suspeitar que a destinatária de tal dedicação não era a esposa de Ash mas sim outra poeta de renome, Christabell LaMotte (Jennifer Ehle). Para provar sua teoria, ele procura uma especialista na escritora, a inglesa Maude Bailey (Gwyneth Paltrow), que a princípio desacredita no romance por saber que Christabella tinha uma relação com outra mulher, a possessiva Blanche Glover (Lena Headey). Quando as investigações avançam e o relacionamento entre os dois poetas se transforma de uma possibilidade em uma certeza, os dois estudiosos acabam por perceber que também estão se apaixonando.

 

Neil LaBute consegue, em "Possessão", unir duas maneiras aparentemente conflitantes de narrativa sem tornar-se confuso ou incoerente. Enquanto investiga a trágica e romanesca relação entre Ash e Christabella ele se serve de todo a tonalidade dramática que a trama exige, usando e abusando da trilha sonora claustrofóbica de Gabriel Yared para sublinhar a sensação de sufocamento que o amor impossível entre os dois causa a eles e àqueles a seu redor. Quando concentra sua atenção no titubeante romance entre Roland e Maude, porém, ele dá à fotografia e à direção de arte tons menos quentes e mais sóbrios, com o objetivo de reiterar a distância imposta pela britânica em relação ao americano, a quem ela considera alguém inferior culturalmente (suposição que se torna cada vez mais forte conforme ele vai mostrando suas atitudes pouco éticas mas muito passionais em relação ao objetivo de sua busca). Talvez essa frieza seja um tanto excessiva (mas muito bem representada por Paltrow, com um belo sotaque em cena) a ponto de fazer com que a química entre a atriz e Aaron Eckhart não seja tão poderosa quanto deveria, mas de certa forma serve de contraponto ao vulcão prestes a explodir entre os dois poetas vitorianos. É quase como se o roteiro quisesse dizer que os dois modernos, jovens e atraentes pesquisadores do século XXI não sabem aproveitar a sorte que tem de poder viver sua história sem devastar as vidas de outras pessoas.

O fracasso de "Possessão" não foi justo. É um romance elegante, sofisticado e adulto que merecia mais sorte e menos críticas negativas. Tem defeitos, sim (e eles são nítidos, em especial quando se percebe a quase falta de jeito de seu diretor em abraçar a tragédia), mas levando-se em consideração a péssima qualidade da maioria dos filmes que tentam conquistar o público através de amores proibidos (quase sempre apelando para os mais vergonhosos clichês), eles são ínfimos. É difícil não se emocionar com o belo final (que proporciona à audiência uma pequena surpresa) e é sempre um prazer ver Gwyneth Paltrow e Aaron Eckhart em cena.

Monday, December 5, 2011

ESTRADA PARA PERDIÇÃO

ESTRADA PARA PERDIÇÃO (Road to Perdition, 2002, Dreamworks SKG, 117min) Direção: Sam Mendes. Roteiro: David Self, HQ de Max Allan Collins, Richard Piers Rayner. Fotografia: Conrad L. Hall. Montagem: Jill Bilcock. Música: Thomas Newman. Figurino: Albert Wolsky. Direção de arte/cenários: Dennis Gassner/Nancy Haigh. Produção executiva: Joan Bradshaw, Walter F. Parkes. Produção: Sam Mendes, Dean Zanuck, Richard D. Zanuck. Elenco: Tom Hanks, Paul Newman, Jude Law, Tyler Hoechlin, Stanley Tucci, Daniel Craig, Jennifer Jason Leigh, Ciaran Hinds, Dylan Baker, Liam Aiken. Estreia: 12/7/02

6 indicações ao Oscar: Ator Coadjuvante (Paul Newman), Fotografia, Trilha Sonora Original, Direção de Arte/Cenários, Som, Edição de Som
Vencedor do Oscar de Fotografia

Quem achava que o Oscar de direção por "Beleza americana" tinha sido sorte de principiante do inglês Sam Mendes foi obrigado a segurar o queixo com o lançamento de "Estrada para Perdição", seu segundo longa. Enquanto seu filme de estreia analisava com um olhar estrangeiro as entranhas dos subúrbios ianques sua adaptação da HQ de Max Allan Collins investiga a fundo os elementos básicos de outro gênero caro à plateia norte-americana (e a todas aquelas que cultuam o cinema hollywoodiano): os filmes de gângster. Ao lançar um olhar europeu sobre essa história de traição, vingança e violência (vagamente baseada em uma história real ocorrida com o gângster irlandês John Looney nos anos 30), Mendes construiu uma peça rara de ourivesaria visual e dramática, provando que, além de sensibilidade para as mazelas humanas, tem um apuradíssimo senso estético. "Estrada para Perdição" é um dos filmes mais deslumbrantes de seu tempo, e a fotografia do veterano Conrad R. Hall (que morreu logo após as filmagens) não mereceu seu Oscar injustamente.

Não existe nenhum plano ou sequência de "Estrada para Perdição" que não seja claramente planejado para causar um efeito específico na audiência (mesmo que às vezes esse objetivo seja bastante discreto a ponto de não ser percebido em uma primeira sessão) ou reiterar a visão de Mendes do roteiro de David Self (um exemplo disso é a maneira como os closes nos protagonistas vão se tornando frequentes à medida em que a relação entre eles também começa a se estreitar). Esse cuidado extremo do cineasta em encantar pelo visual em detrimento de um ritmo mais ágil e uma violência mais gráfica é, ao mesmo tempo, a qualidade maior de seu filme e seu calcanhar de Aquiles. Aparentemente Mendes nega aos fãs do gênero os tiroteios sangrentos que fizeram a glória de nomes como James Cagney e Paul Muni nos primórdios do cinema (e de banhos de sangue como o hiperbólico "Scarface" de Brian de Palma), porém o que ele faz (com invejável competência) é revestir-lhes com um uma poesia em forma de imagens. E, ao contar mais do que uma simples história de revanche - preferindo focalizar seus trunfos na relação conflitante entre um pai distante e silencioso e um filho pré-adolescente que anseia por uma figura paterna mais acessível e próxima.



A trama de "Estrada para Perdição" se passa em 1931, quando os EUA estão passando pela Grande Depressão causada pela queda da bolsa de valores de 1929. É a época da Lei Seca, onde gente como Al Capone faz fortuna em negócios escusos. Em Illinois, quem manda neste setor é o irlandês John Rooney (Paul Newman em sua última e esplêndida atuação, que lhe rendeu uma indicação ao Oscar de coadjuvante), um homem que não se conforma com a falta de talento e personalidade do único filho, Connor (Daniel Craig) e vê em seu protegido Michael Sullivan (Tom Hanks) a esperança de um substituto à sua altura. Sua atitude em relação a ele irá se transformar radicalmente quando Connor mata um empregado suspeito de roubo e o filho mais velho de Sullivan, Mike (Tyler Hoechlin) testemunha o crime às escondidas. Temendo as consequências que a situação pode trazer, o veterano gângster manda exterminar o menino, mas quem acaba morto por engano é seu irmão caçula, em companhia da mãe. Desesperado pela tragédia, Sullivan une-se ao filho em uma viagem na qual pretende vingar a morte de sua família. No caminho, ele acaba se aproximando do garoto, com quem sempre teve uma relação quase fria e precisa protegê-lo de um matador contratado pelos Rooney, o apavorante fotógrafo Harlen Maguire (Jude Law, irreconhecível).

"Estrada para Perdição" funciona lindamente em todos os seus níveis dramáticos. Enquanto filme de gângster é formalmente tradicional, apesar de evitar ferozmente a violência explícita. Como conflito familiar emociona ao aproximar pai e filho de maneira delicada e melancólica (ainda que sua opção por não exagerar no dramalhão o afaste um pouco de um público desacostumado a sutilezas). Visualmente é um espetáculo (cortesia também da direção de arte e do figurino caprichados). A trilha sonora de Thomas Newman é marcante e adequada e o elenco é de aplaudir de pé: Tom Hanks escapa pela primeira vez de sua persona carismática para viver um Michael Sullivan fechado e sorumbático (mesmo que esteja longe de ser um vilão como parte da mídia pintou è época da estreia do filme) e Jude Law mostra que não precisa mostrar seu sorriso luminoso para chamar a atenção. Mas é, acima de tudo, um belíssimo filme que melhora a cada revisão e marca o adeus de um mito absoluto, o grande Paul Newman. Convenhamos, não é pouca coisa!!!

Thursday, December 1, 2011

MINORITY REPORT, A NOVA LEI

MINORITY REPORT, A NOVA LEI (Minority report, 2002, 20th Century Fox/Dreamworks SKG, 145min) Direção: Steven Spielberg. Roteiro: Scott Frank, Jon Cohen, conto de Philip K. Dick. Fotografia: Janusz Kaminski. Montagem: Michael Kahn. Música: John Williams. Figurino: Deborah L. Scott. Direção de arte/cenários: Alex McDowell/Anne Kuljian. Produção executiva: Gary Goldman, Ronald Shusett. Produção: Bonnie Curtis, Gerald R. Molen, Walter F. Parkes. Elenco: Tom Cruise, Colin Farrell, Max Von Sydow, Samantha Morton, Lois Smith, Tim Blake Nelson, Peter Stormare. Estreia: 17/6/02

Indicado ao Oscar de Edição de Som

É o ano de 2054, e o índice de criminalidade da cidade de Washington despencou vertiginosamente. O responsável por esse milagre é um projeto chamado "Pré-crime", que permite à força policial antecipar-se aos homicídios premeditados e evitar os crimes graças às premonições de três poderosos videntes, mantidos em constante cuidado pelo departamento de polícia. O chefe da equipe "Pré-crime" é o detetive John Anderton (Tom Cruise), um homem assombrado pelo desaparecimento do filho pequeno anos antes e que encontra no vício em drogas uma forma de escapar da depressão. Às vésperas de uma votação popular que irá consagrar definitivamente o projeto e torná-lo nacional, Anderton - um policial de extrema competência e ética - se vê envolvido em um apavorante pesadelo kafkiano: em menos de 36 horas ele será o responsável pelo assassinato de um homem cuja existência ele nem mesmo tem conhecimento. Desesperado para provar sua inocência (em um crime ainda não cometido), ele sequestra Agatha (Samantha Morton), a mais dotada das videntes e parte em busca da verdade. Atrás dele está principalmente Danny Witwer (Colin Farrell), que quer encontrar falhas no sistema.

Baseado em um conto do escritor Philip K. Dick - cuja mente fértil deu ao cinema as histórias de "Blade Runner" e "O vingador do futuro" - "Minority report, a nova lei" marca o reencontro de Steven Spielberg com a ficção científica, gênero do qual estava afastado desde seu megasucesso "ET", de 1982 - isso se "Jurassic Park" não for considerado como tal. Nos vinte anos que separam os dois filmes, a tecnologia do cinema alterou-se drasticamente - boa parte devido aos filmes do próprio cineasta - e Spielberg tornou-se um diretor respeitado, vencedor de 2 Oscar. Portanto, é lógico que exista uma diferença abissal entre a ingenuidade oitentista da clássica história da amizade entre o menino Elliot e seu extra-terrestre de estimação e a distópica visão de mundo do filme estrelado por Cruise. Realizado a um custo altíssimo - mais de cem milhões de dólares - "Minority report" é uma ficção científica noir, ao estilo de "Blade runner", mas sem espaço para a filosofia melancólica do filme de Ridley Scott.



Se dá para comparar "Minority report" com algum outro filme baseado em Dick, este é "O vingador do futuro", estrelado por Arnold Schwarzenegger em 1990, mas mesmo assim o trabalho de Spielberg ganha pontos em não se deixar contaminar pelo certo ar cafona da produção dirigida pelo holandês Paul Verhoeven. Seus efeitos especiais são mais discretos, dando espaço bem mais à história complexa (bastante modificada do conto original, diga-se de passagem) do que a mirabolantes pirotecnias visuais, que estão presentes mas em um nível muito mais sutil. A fotografia espetacular do premiado Janusz Kaminski é estourada, dando à imagem um aspecto feio e descuidado que combina à perfeição com o objetivo do cineasta de passar ao público uma sensação de angústia. E angústia é o que não falta: durante suas mais de duas horas e meia de duração, "Minority report" não dá tréguas ao espectador, levando-o como testemunha do calvário de seu protagonista em direção à verdade. O roteiro cria transplantes de olhos, aranhas que dão choque, propagandas personalizadas, caixas de cereais animadas e tudo que um escritor criativo pode imaginar, mas não se deixa nunca fugir do mais importante: a história empolgante e surpreendente.

Muito mais inteligente do que a maioria dos filmes de ação com pretensões comerciais que aportam nos cinemas americanos na temporada de verão - bem na época em que foi lançado - "Minority report" tem a seu favor também o carisma de Tom Cruise, ainda no auge de seu sucesso. Ainda que não explore como poderia as possibilidades dramáticas de sua complexa personagem, Cruise é competente o bastante para conquistar a simpatia do público, fator essencial para o êxito do filme, mesmo porque seu rival em cena é o irlandês Colin Farrel - que, em 2002 era considerado a grande promessa do início do século. É Cruise quem sustenta toda a mirabolante trama - que envolve até mesmo o veterano Max Von Sydow - e mantém a atenção da plateia suspensa até os minutos finais. O equilíbrio exato entre cenas da mais alta ação (inclusive com uma sequência que Hitchcock declarou certa vez que sonhava fazer, em uma fábrica de automóveis) com o misterioso homicídio a ser perpetrado por John Anderton é que faz com que o filme seja mais do que um simples entretenimento passageiro.

E seria injusto elogiar "Minority report" sem citar Samantha Morton. Na pele de Agatha, a talentosa vidente que desencadeia todo o drama (e cujo nome é uma homenagem à escritora Agatha Christie), a jovem atriz nem precisa falar muito para transmitir toda a vasta gama de emoções que permeia sua personalidade. Vinda de uma indicação ao Oscar de coadjuvante (pelo ótimo "Poucas e boas", de Woody Allen), Morton consegue roubar a cena e ser tão memorável quanto os inventivos efeitos visuais e a rocambolesca trama central.

Wednesday, November 30, 2011

A IDENTIDADE BOURNE

A IDENTIDADE BOURNE (The Bourne identity, 2002, Universal Pictures, 119min) Direção: Doug Liman. Roteiro: Tony Gilroy, W. Blake Herron, romance de Robert Ludlum. Fotografia: Oliver Wood. Montagem: Saar Klein. Música: John Powell. Figurino: Pierre-Yves Gayraud. Direção de arte/cenários: Dan Weil/Alexandrine Mauvezin. Produção executiva: Robert Ludlum, Frank Marshall. Produção: Patrick Crowley, Richard N. Gladstein, Doug Liman. Elenco: Matt Damon, Franka Potente, Chris Cooper, Clive Owen, Brian Cox, Adewale Akinnouye-Agbaje, Julia Stiles. Estreia: 14/6/02

Em 1988, uma minissérie feita para a TV americana adaptou o romance "A identidade Bourne", do escritor Robert Ludlum. Estrelada por Richard Chamberlain - conhecido como o ator central da famosa "Pássaros feridos" - a adaptação seguiu fielmente o livro de Ludlum e fez relativo sucesso. Quatorze anos depois, Hollywood resolveu contar a sua versão da história, contando com Doug Liman - da comédia independente "Vamos nessa" - na direção. Depois de ter Brad Pitt e Matthew McConaughey (as primeiras escolhas para o papel central) fora da jogada, Liman não poderia ter tido mais sorte com a escolha de seu protagonista: em seu primeiro papel em filmes de ação, Matt Damon criou um novo modelo a ser seguido em termos de adrenalina.

Ao custo de 60 milhões de dólares, a versão livre de "A identidade Bourne" rendeu mais de 120 milhões somente nos EUA, calando a boca daqueles que não acreditavam que uma trama que mistura espionagem, amnésia e um ator mais conhecido por papéis dramáticos do que por tiroteios e altamente coreografadas cenas de luta não tinha como dar certo. Mas justamente a ousadia na escolha do ator central é que faz toda a diferença: ao contrário de outros filmes de ação em que o protagonista serve apenas e unicamente para quebrar ossos e salvar o mundo, Jason Bourne é uma personagem crível e até certo ponto trágica. E ter um ator competente como Damon o interpretando deixa tudo ainda mais interessante.

Quando o filme começa, um grupo de marinheiros recolhe do Mar Mediterrâneo o corpo inconsciente de um rapaz baleado. Sem memória alguma de sua identidade e de seus passos até o momento, o rapaz tem apenas uma pista a respeito de sua origem: uma tatuagem subcutãnea com o número de uma conta bancária em Zurique. Recuperado dos ferimentos, o jovem segue então em direção à tentativa de descobrir sua origem e, no caminho, topa com a alemã Marie (Franka Potente), que tenta regularizar sua situação no país. Enquanto foge de homens misteriosos que aparentemente querem vê-lo morto (por razões absolutamente desconhecidas por ele), o agora nomeado Jason Bourne (ao menos é o que dizem alguns dos documentos encontrados no cofre do banco suíço) e a assustada Marie partem atrás da solução de um quebra-cabeças que parece ter desdobramentos em altos escalões do governo americano e em um tal projeto Treadstone.

 

A maior qualidade do roteiro de Tony Gilroy - que poucos anos mais tarde disputaria o Oscar de direção por "Conduta de risco" - é o fato de apresentar aos poucos os fatos que levaram o protagonista à situação extrema em que se encontra nas primeiras cenas. É  junto com Bourne que o público vai juntando todos os elementos, todas as ligações queo fizeram passar à condição de fugitivo de algo que ele nem mesmo sabe o que é. E, se ele desperta gradualmente para sua agitada vida pregressa, a edição impressionante de Saar Klein não deixa ninguém chegar perto do tédio: a impressionante perseguição nas estreitas ruas de Paris é uma das mais impactantes cenas do cinema de ação da década, de se assistir com a respiração suspensa e todas as cenas em que Bourne precisa utilizar da força física para manter-se em fuga são extremamente bem dirigidas e realistas. Precisa mais? Pois tem: até mesmo a relação entre Bourne e Marie, ainda que apresentada de maneira rápida demais, soa verdadeira.

"A identidade Bourne" é entretenimento de primeira, entregando ao público ação e inteligência na medida correta. Suas continuações, "A supremacia Bourne" e principalmente "O ultimato Bourne" são ainda melhores, mas é preciso que se tire o chapéu para um dos filmes mais empolgantes de 2002.

Tuesday, November 29, 2011

A SOMA DE TODOS OS MEDOS

A SOMA DE TODOS OS MEDOS (The sum of all fears, 2002, Paramount Pictures, 124min) Direção: Phil Alden Robinson. Roteiro: Paul Attanasio, Daniel Pyne, romance de Tom Clancy. Fotografia: John Lindley. Montagem: Nicholas de Toth, Neil Travis. Música: Jerry Goldsmith. Figurino: Marie-Sylvie Deveau. Direção de arte/cenários: Jeannine Oppewall/Cindy Carr. Produção executiva: Tom Clancy, Sttarton Leopold. Produção: Mace Neufeld. Elenco: Ben Affleck, Morgan Freeman, James Cromwell, Ken Jenkins, Ron Rifkin, Bridget Monayhan, Liev Schreiber, Philip Baker Hall, Bruce McGill. Alan Bates, Colm Feore. Estreia: 31/5/02

Jack Ryan, fictício analista da CIA criado pelo escritor Tom Clancy apareceu pela primeira vez nas telas de cinema na pele de Alec Baldwin. Era 1990 e o filme "A caçada ao Outubro Vermelho" fez um enorme sucesso. Não demorou para que outros livros de Clancy protagonizados por Ryan chegassem às telas, mas como quem manda em Hollywood é o dinheiro, em "Jogos patrióticos" (1992) e "Perigo real e imediato" (1994) ele tinha o rosto ainda mais popular de Harrison Ford. Em 2002, porém, Ford estava um pouco velho demais para voltar à personagem e saiu de fininho de um novo filme estrelado pela personagem, sem divulgar os seus motivos. A despeito das qualidades e carisma de Ford, porém, sua substituição pelo bem mais jovem Ben Affleck mostrou-se acertada. "A soma de todos os medos" é um belo thriller de ação que joga com os temores de uma guerra nuclear de grandes proporções a seu favor. E é também uma das poucas vezes em que Affleck não consegue estragar um filme com sua costumeira apatia.

Quando a empolgante trama criada por Clancy - que queixou-se depois de inúmeros erros técnicos cometidos pelo roteiro - começa, os EUA estão em sério conflito com a Rússia a respeito da Chechênia. Quando o presidente russo morre repentinamente e é substituído pelo discreto Nemerov (Ciaran Hinds), a paranoia se instala em todos os setores do governo americano. O presidente, Robert Fowler (James Cromwell) logo passa a ser aconselhado por seus assessores diretos, que insistem no fato de que uma guerra nuclear é iminente. Quem não compartilha dessa opinião é o jovem analista Jack Ryan (Ben Affleck), mas quando uma bomba explode em Baltimore ele precisa provar que sua teoria - a de que uma facção terrorista tenciona iniciar uma guerra entre os dois países - é correta, antes que o mundo corra o risco de um holocausto nuclear.



O maior acerto de "A soma de todos os medos" seja justamente o de privilegiar o suspense em detrimento da ação pura e simples. As intrigas político-governamentais assumem relevância crucial na história, assim como as sequências extremamente bem realizadas de explosões e destruição que fazem a glória do gênero. Para isso, é louvável a escalação de um elenco coadjuvante repleto de atores excepcionais como Morgan Freeman, James Cromwell e Liev Schreiber, bem como a escolha certeira do irlandês Ciarán Hinds para o central papel do presidente russo Nemerov. Com seu olhar misterioso e sua voz aterrorizante, o ator rouba as cenas em que aparece e até faz a audiência esquecer que o pretenso protagonista (Jack Ryan) aparece bem menos do que nos outros filmes da série. E para quem questiona o fato de Affleck viver Ryan mesmo sendo bem mais jovem do que Harrison Ford a resposta parece ser uma só: assim como acontece volta e meia no cinema, "A soma de todos os medos" não é nem uma continuação nem um prequel e sim uma espécie de novo início (como aconteceu com "Superman" nos anos 2000).

"A soma de todos os medos" pode não ser o melhor filme do gênero realizado em Hollywood, mas é inegável que tem qualidades redentoras e uma tensão quase palpável. Convenhamos, é muito mais do que se pode esperar de produções comerciais que normalmente só oferecem violência e piadinhas infames.

Thursday, November 24, 2011

UM GRANDE GAROTO

UM GRANDE GAROTO (About a boy, 2002, Universal Pictures, 101min) Direção: Chris Weitz, Paul Weitz. Roteiro: Peter Hedges, Chris Weitz, Paul Weitz, romance de Nick Hornby. Fotografia: Remi Adefarasin. Montagem: Nick Moore. Música: Badly Drawn Boy. Figurino: Joanna Johnston. Direção de arte/cenários: Jim Clay/John Bush. Produção executiva: Lynn Harris, Nick Hornby. Produção: Tim Bevan, Eric Fellner, Robert De Niro, Brad Epstein,Jane Rosenthal. Elenco: Hugh Grant, Toni Colette, Nicholas Hoult, Rachel Weisz, Natalia Tena. Estreia: 08/5/02

Indicado ao Oscar de Roteiro Adaptado

"Todo homem é uma ilha. Eu sou Ibiza!" Assim se descreve Will Freeman, protagonista de "Um grande garoto", mais uma obra de Nick Hornby adaptada para o cinema, depois do pouco visto "Febre de bola" e do (merecidamente) cultuado "Alta fidelidade". Levado para as telas pelas mãos dos irmãos Chris e Paul Weitz - cujo passado inclui o infame mas imensamente popular "American pie" - o romance que fala da amizade inesperada entre Freeman - um solteirão convicto, rico e superficial - e o pré-adolescente Marcus Brewer- deslocado, solitário e desajustado - transformou-se em um filme legitimamente engraçado, surpreendentemente delicado e melhor ainda, palatável a todos os tipos de plateia.

Will Freeman é um bon-vivant que passa seus dias dedicando-se à pessoa que mais ama no mundo: ele mesmo. Vivendo dos direitos autorais de uma canção natalina composta por seu falecido pai, Freeman é também um mulherengo incorrigível, incapaz de envolver-se em um relacionamento sério (mais por opção do que por qualquer outro motivo). Quando o filme começa, ele tem a brilhante ideia de frequentar clubes de mães solteiras (ou abandonadas), com o objetivo de encontrar sexo fácil. O que poderia ser divertido, porém, torna-se mais complicado quando, durante um passeio dominical, ele trava conhecimento com Marcus (Nicholas Hoult), o filho da amiga de uma paquera. A mãe de Marcus, Fiona (Toni Colette, sempre competente), é depressiva com tendências suicidas e o jovem vê em Freeman a figura paterna que nunca teve. Chantageando-o após descobrir suas mentiras para conquistar as mulheres do clube, Marcus passa a frequentar o apartamento descolado de Will, que aos poucos inicia um processo de amadurecimento e conexão com o menino e sua mãe. Quando se apaixona por Rachel (Rachel Weisz), o eterno solitário percebe de vez que "ilhas fazem parte de arquipélagos".



É surpreendente que "Um grande garoto" tenha sido dirigido pelos irmãos Weitz: sua sutileza e elegância estão a anos-luz do humor vulgar e escatológico de "American pie", que a despeito de seu sucesso comercial não passa de uma chanchada adolescente. Nessa adaptação do livro de Hornby os cineastas demonstram uma mão leve ao tratar de assuntos espinhosos - depressão, suicídio, bulliyng - e um sofisticado timing cômico (o que deve ser muito legado ao trabalho extraordinário do escritor inglês ao tratar de relações humanas de maneira pop). Nada em "Um grande garoto" é exagerado ou de mau-gosto e, se as piadas podem não ser engraçadíssimas de um ponto de vista mais raso, elas são esplendidamente adequadas à trama e às personagens, tratadas com especial carinho pelo roteiro bastante fiel à sua origem literária, um dos melhores livros do homem que viria a escrever o excelente roteiro de "Educação", em 2009. Poucos escritores são tão simples e sarcásticos quanto Hornby quando se trata de pessoas de verdade, e isso fica lógico quando se lê seus trabalhos ou até quando se assiste a suas adaptações, mesmo quando alguns pontos cruciais são modificados.

Em "Um grande garoto" acontece uma dessas mudanças que, feitas de maneira leviana, poderia ser o tiro de misericórdia ao trabalho. Felizmente os roteiristas conseguiram evitar a tragédia de maneira criativa e, se não ficou tão bom quanto poderia, ao menos salvaram-se todos no final. Explica-se: o clímax do livro de Hornby acontece com o suicídio de Kurt Cobain, vocalista da banda Nirvana que era o ídolo de Ellie (Nat Gastian Tena), colega de escola por quem Marcus é apaixonado. A trama se encaminha para o final a partir daí (e o título original do livro é uma homenagem a uma canção do grupo, "About a girl"). Provavelmente devido a problemas de direitos autorais (Courteney Love, por exemplo) toda e qualquer menção a Cobain e sua banda foram devidamente limadas, e a menina virou fã de rap. Certamente a mudança enfraqueceu o universo do romance original, mas é preciso que se dê a mão à palmatória: o filme continua sendo muito bom.

E, logicamente seria injusto não louvar a atuação de Hugh Grant, perfeito no papel central - que chegou a ser oferecido a Brad Pitt. Will Freeman parece ter sido escrito especialmente para Grant, que se sai muito melhor que a encomenda com uma interpretação confortável e muito, mas muito engraçada. Sua parceria com o ótimo Nicholas Hoult é encantadora, assim como suas cenas com Rachel Weisz e Toni Colette, mais uma vez ameaçando roubar todas as sequências em que aparece. A trilha sonora moderna comenta a estória de forma suave e é difícil não se emocionar com o desfecho de toda a aventura romântico-pessoal de Will Freeman. A história é "sobre um garoto". Mas talvez este garoto não seja o adolescente Marcus e sim o eterno meninão Freeman, que se apaixona pela vida ao perceber como ela pode ser melhor quando dividida. Um belo filme, para ver e rever!

Thursday, November 17, 2011

FALCÃO NEGRO EM PERIGO

FALCÃO NEGRO EM PARIS (Black Hawk down, 2001, Jerry Bruckheimer Studios, 144min) Direção: Ridley Scott. Roteiro: Ken Nolan, livro de Mark Bowden. Fotografia: Slawomir Idziak. Montagem: Pietro Scalia. Música: Hans Zimmer. Figurino: David Murphy, Sammy Howarth-Sheldon. Direção de arte/cenários: Arthur Max/Eli Griff. Produção executiva: Branko Lustig, Chad Oman, Mike Stenson, Simon West. Produção: Jerry Bruckheimer, Ridley Scott. Elenco: Josh Hartnett, Ewan McGregor, Tom Sizemore, Eric Bana, William Fichtner, Ewen Bremner, Sam Shepard, Ron Eldard, Ioan Gruffud, Thomas Guiry, Jason Isaacs, Zeljo Ivanek, Orlando Bloom, Tom Hardy. Estreia: 28/12/01

4 indicações ao Oscar: Diretor (Ridley Scott), Fotografia, Montagem, Som
Vencedor de 2 Oscar: Montagem, Som

Depois de perder um Oscar quase certo pela direção de "Gladiador" - que levou pra casa os prêmios de Melhor Filme e Ator (Russell Crowe) - o cineasta inglês Ridley Scott embarcou numa canoa furada que parecia auspiciosa, a continuação de "O silêncio dos inocentes" chamada simplesmente "Hannibal". Apesar do sucesso comercial, porém, a crítica não gostou nem um pouco da sequência (e estava coberta de razão, uma vez que o filme é tenebroso na pior acepção do termo) e o homem que havia legado ao mundo filmes do porte de "Alien, o oitavo passageiro", "Blade Runner, o caçador de andróides" e "Thelma & Louise" estava em um perigoso momento da carreira (ainda que não pudesse reclamar da bilheteria de seus filmes). Foi então que mais uma vez surpreendeu os fãs com um imponente, violento e realista filme de guerra baseado em fatos reais. "Falcão negro em perigo" não apenas lhe devolveu elogios e uma bela carreira financeira, mas também lhe deu uma merecida indicação ao Oscar de direção.

Filmado no Marrocos (que faz o papel de Mogadishu, Somália), "Falcão negro em perigo" é um filme caro, produzido por Jerry Bruckheimer, que leu o livro escrito pelo jornalista Mark Bowden antes de sua publicação e adquiriu os direitos imediatamente. Dirigido com realismo e crueza por Scott, é também uma obra que não faz muitas concessões ao comercial, apresentando sequências dolorosas e chocantes e fugindo do tradicional final feliz. "Falcão negro em perigo" não é um filme de Oliver Stone, portanto não há sentimentalismo no roteiro de Ken Nolan, que faz o possível para reduzir 18 horas de combate em palatáveis 144 minutos de duração - e cerca de 100 personagens em aceitáveis 39, vividos por um elenco excelente onde não há protagonistas, ainda que alguns nomes não precisem fazer muito esforço para se destacar.


O principal destaque do elenco de "Falcão negro em perigo" é o australiano Eric Bana, fazendo sua estreia em Hollywood. Recomendado a Scott por Russell Crowe, Bana consegue chamar a atenção da plateia sempre que entra em cena, mesmo que sua personagem não seja exatamente protagonista. Seu carisma esmaga Josh Hartnett (cujo rosto estampa o cartaz, provavelmente na expectativa de chamar a atenção do público feminino) a tal ponto que seu trabalho lhe rendeu convites para protagonizar o "Hulk" de Ang Lee e antagonizar Brad Pitt em "Tróia" (onde mais uma vez roubou a cena com uma personagem e uma atuação muito mais interessantes do que o galã máximo da América). Mas não é apenas o nome de Bana que enfeita os créditos de "Falcão negro em perigo". A seu lado estão nomes fortes como Ewan McGregor, Tom Sizemore, Sam Shepard e Orlando Bloom (além dos ainda pouco conhecidos Ioan Gruffud, Tom Hardy, Jeremy Piven e Hugh Dancy), todos envolvidos em uma trama tão empolgante e tensa que é difícil de crer que realmente tenha acontecido.

Tudo acontece no dia 03 de outubro de 1993, em Mogadishu, na Somália dominada pelo ditador Mohammed Farah Aidid. Um grupo de soldados americanos comandado pelo Major William Garrison (Sam Shepard) é escalado para fazer de reféns dois homens de confiança do ditador, em uma missão que a princípio levaria apenas uma hora. Quando um dos aviões americanos - um Falcão Negro - é abatido, porém, as coisas se complicam e quase 24 horas se passam até que os soldados sejam resgatados das mãos da milícia somali.

É difícil resumir tudo que acontece em "Falcão negro em perigo". O roteiro eletrizante de Nolan, somado à direção inspirada de Scott - chamado pelo elenco de "maestro do caos" durante as filmagens - e à equipe técnica impecável (justamente premiada com os Oscar de edição e som) fazem dele um programa obrigatório aos aficcionados do gênero e àqueles que sabem reconhecer bom cinema.

Thursday, October 27, 2011

CHEGADAS E PARTIDAS

CHEGADAS E PARTIDAS (The shipping news, 2001, Miramax Films, 111min) Direção: Lasse Halstrom. Roteiro: Robert Nelson Jacobs, romance de Annie Proulx. Fotografia: Oliver Stapleton. Montagem: Andrew Mondsheim. Música: Christopher Young. Figurino: Renee Ehrlich Kalfus. Direção de arte/cenários: David Gropman/Patricia Larman, Gretchen Rau. Produção executiva: Meryl Poster, Bob Weinstein, Harvey Weinstein. Produção: Rob Cowan, Linda Goldstein Knowlton, Leslie Holleran, Irwin Winkler. Elenco: Kevin Spacey, Julianne Moore, Judi Dench, Cate Blanchett, Pete Postlethwaite, Scott Glenn, Rhys Ifans, Jason Behr, Larry Pine. Estreia: 25/12/01

Não tinha como dar errado: o diretor sueco Lasse Halstrom, que vinha de dois filmes indicados ao Oscar máximo - "Regras da vida" e "Chocolate" -, uma trama dramática com personagens densos e segredos familiares tenebrosos e um elenco de sonhos - Kevin Spacey, Julianne Moore, Judi Dench e Cate Blanchett apenas para citar os mais conhecidos e premiados. Por que, então, "Chegadas e partidas" deixa um sabor tão grande de decepção quando acaba? A culpa é do roteiro, que nunca chega a emocionar? Da direção surpreendentemente distante de Halstrom? Ou será que o principal erro do filme é justamente o que, em tese, seria seu maior trunfo: o elenco?

Kevin Spacey - recém saído do Oscar merecido por "Beleza americana" - é o protagonista, mas exagera na sutileza e parece apático demais como Quoyle, um zé-ninguém que, depois da morte trágica da esposa Petal (Cate Blanchett, a melhor coisa do filme mas que, no entanto, desaparece depois de 15 minutos), vai morar em uma ilha de pescadores de onde se origina sua família. Ao lado da filha pequena e de sua aparentemente gélida tia Agnis (Judi Dench) - que esconde um segredo devastador - ele tenta reconstruir sua vida, trabalhando como o responsável pelas notícias náuticas do pequeno jornal da cidade, dirigido por um pescador pouco preocupado com seu negócio (Scott Glenn). Enquanto tenta esquecer a esposa - que amava apesar da relação horrível que tinham, ele se envolve com Wavey Prowse (Julianne Moore), uma solitária viúva mãe de um menino com problemas de saúde.



Talvez o grande problema de "Chegadas e partidas" nem seja o elenco - que tenta tirar leite de pedra - nem a direção distante de Halstron, que provavelmente quis retratar com o máximo de exatidão o clima frio onde situa sua história. O que acontece é que, por alguma razão misteriosa (ou nem tão misteriosa assim, já que o filme tem um ritmo pouco convidativo), as personagens não cativam o público, ao contrário do que aconteceu em "Regras da vida", por exemplo. O protagonista vivido por Kevin Spacey é de uma apatia irritante, o que acaba prejudicando seu diálogo com a plateia, e nem mesmo seu hesitante romance com Moore - mais bela do que nunca - consegue empolgar o espectador. Resta o show de Judi Dench, roubando todas as cenas em que aparece, com a personagem mais forte e bem desenhada do roteiro esquemático e pouco caloroso (inspirado em um romance da mesma autora que legou o conto que deu origem ao premiado "O segredo de Brokeback Mountain" cinco anos depois).

"Chegadas e partidas" poderia ter sido um grande filme se seguisse o tom emotivo dos trabalhos anteriores de seu diretor. Como está é mais uma produção com cara de filme feito para a TV, apesar de seu elenco multi-premiado.

Monday, October 24, 2011

UMA MENTE BRILHANTE

UMA MENTE BRILHANTE (A beautiful mind, 2001, Universal Pictures/Dreamworks SKG, Imagine Entertainment, 135min) Direção: Ron Howard. Roteiro: Akiva Goldsman, livro de Sylvia Nasar. Fotografia: Roger Deakins. Montagem: Dan Hanley, Mike Hill. Música: James Horner. Figurno: Rita Ryack. Direção de arte/cenários: Wynn Thomas/Leslie Rollins. Produção executiva: Todd Hallowell, Karen Kehela. Produção: Brian Grazer, Ron Howard. Elenco: Russell Crowe, Jennifer Connelly, Ed Harris, Christopher Plummer, Paul Bettany, Josh Lucas, Adam Goldberg, Judd Hirsch. Estreia: 13/12/01

8 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Ron Howard), Ator (Russell Crowe), Atriz Coadjuvante (Jennifer Connelly), Roteiro Adaptado, Montagem, Trilha Sonora Original, Maquiagem
Vencedor de 4 Oscar: Melhor Filme, Diretor (Ron Howard), Atriz Coadjuvante (Jennifer Connelly), Roteiro Adaptado
Vencedor de 4 Golden Globes: Melhor Filme/Drama, Ator/Drama (Russell Crowe), Atriz Coadjuvante (Jennifer Connelly), Roteiro

Grande vencedor do Oscar 2001 em quatro categorias - Filme, Diretor, Roteiro Adaptado e Atriz Coadjuvante - "Uma mente brilhante" conta a história do matemático John Nash causou polêmica em seu lançamento, o que em nada atrapalhou seu sucesso também nas bilheterias, com uma arrecadação de mais de 170 milhões de dólares somente no mercado americano (o que, se for levado em conta que não é um típico produto para consumo imediato é um estrondoso sucesso). O celeuma foi causado pela revelação de que o protagonista do filme tinha ideias antissemitas, o que foi convenientemente deixado de lado pelo premiado roteiro de Akiva Goldsman, assim como suas tendências homossexuais. O que os polemistas talvez não tenham percebido é que tais características da personagem não fazem muita diferença para o centro da história contada no filme. O que importa na obra de Ron Howard - um diretor até então de filmes comerciais sem maiores ambições artísticas - é a luta de Nash contra a esquizofrenia, travada durante décadas, e sua história de amor com a esposa Alicia - história essa bastante enfeitada na transposição para celulóide da extensa biografia escrita por Sylvia Nasar.

Vivido com um misto de garra e delicadeza surpreendente por um Russell Crowe provando seu imenso talento, John Nash é mostrado pela primeira vez em 1947, ainda na faculdade e buscando uma maneira de destacar-se de seus colegas, todos matemáticos brilhantes e um tanto arrogantes. Já professor, Nash conhece e se apaixona por uma aluna, a bela Alicia (Jennifer Connelly, linda e excelente no papel), com quem se casa, apesar de suas dificuldadades em relacionamentos sociais. Às vésperas de seu reconhecimento profissional, no entanto, ele é diagnosticado como esquizofrênico e, com a ajuda de Alicia e do psiquiatra Dr. Rosen (Christopher Plummer), ele tenta superar a doença e voltar a ser o gênio que prometia.



Russell Crowe foi injustiçado quando perdeu o Oscar de Melhor Ator para Denzel Washington. Seu trabalho como John Nash é infinitamente superior não somente ao de Denzel mas principalmente à sua própria atuação vencedora do prêmio da Academia pelo épico "Gladiador". Repleta de nuances e sutilezas que só os grandes atores conseguem, sua atuação comove, intriga e angustia na medida certa, impedindo a compaixão fácil e fazendo com que cada cena seja especial pelo simples fato de ele estar presente nela. Sua química exemplar com Jeniffer Connelly, seja em cenas românticas (criadas para agradar às plateias mais convencionais) ou nas mais dramáticas eleva o filme a um patamar de excelência que provavelmente foi o que conquistou o público sedento por um drama adulto de qualidade. É de questionar apenas os motivos que levaram Connelly a vencer na categoria de coadjuvante, uma vez que sua personagem é quase tão protagonista quanto a de Crowe. Somado a sua trama de superação - que além de tudo é verdadeira, apesar da supressão de fatos importantes e da simplificação de outros - o romance entre Nash e Alicia também seduziou os eleitores do Oscar que lhe deram quatro importantes estatuetas (e deveriam ter dado no mínimo mais uma, a Crowe, que acabou prejudicado pela mania do Oscar de corrigir injustiças fazendo outras....).

Além dos trabalhos exemplares de Crowe e Connelly, porém, seria injusto deixar de citar a maior qualidade de "Uma mente brilhante": o roteiro irretocável de Akiva Goldsman. Apesar das licenças poéticas (que incorreram na fúria dos puristas), seu script é capaz de conquistar pela delicadeza dos diálogos e pela reviravolta espetacular que proporciona depois de sua primeira hora de projeção e além de tudo, funciona como drama médico, como romance e como thriller de espionagem, sem nunca atropelar o ritmo e as personagens, sejam elas protagonistas ou coadjuvantes - e nessa categoria encontra-se atores de primeira linha, como Christopher Plummer, Paul Bettany e um arrepiante Ed Harris, perfeito em sua tétrica caracterização como um misterioso agente da CIA.

Com todas essas qualidades, não é de estranhar que "Uma mente brilhante" tenha passado incólume pelas polêmicas a seu respeito. Afinal, verdadeiras ou não, as acusações feitas são contra a personalidade de seu protagonista e não interferem no produto cinematográfico, dirigido com precisão por Ron Howard, até então mais afeito a produções mais lineares e menos, com o perdão do trocadilho, brilhantes. É aqui, com a parceria de Russell Crowe e Akiva Goldsman que ele atinge seu ápice, em um filme forte e que, apesar de parecer esquemático, consegue surpreender e emocionar.