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Sunday, February 5, 2012

AS HORAS


AS HORAS (The hours, 2002, Paramount Pictures, 114min) Direção: Stephen Daldry. Roteiro: David Hare, romance de Michael Cunningham. Fotografia: Seamus McGarvey. Montagem: Peter Boyle. Música: Philip Glass. Figurino: Ann Roth. Direção de arte/cenários: Maria Djurkovic/Philippa Hart. Produção executiva: Mark Huffam. Produção: Robert Fox, Scott Rudin. Elenco: Meryl Streep, Nicole Kidman, Julianne Moore, Ed Harris, Stephen Dillane, John C. Reilly, Toni Colette, Miranda Richardson, Jeff Daniels, Claire Danes, Allison Janney. Estreia: 25/12/02

9 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Stephen Daldry), Atriz (Nicole Kidman), Ator Coadjuvante (Ed Harris), Atriz Coadjuvante (Julianne Moore), Roteiro Adaptado, Montagem, Trilha Sonora Original, Figurino
Vencedor do Oscar de Melhor Atriz (Nicole Kidman)
Vencedor de 2 Golden Globes: Melhor Filme/Drama, Melhor Atriz/Drama (Nicole Kidman)

O livro pareceia infilmável. Com uma prosa densa e intimista e utilizando-se frequentemente do famigerado fluxo de consciência que torna qualquer adaptação literária para o cinema um pesadelo para os roteiristas, o romance "As horas", escrito por Michael Cunningham corria o sério risco de virar um filme hermético e pseudointelectual, daqueles que agradam à crítica mas que jamais ultrapassam seu potencial dramático. Felizmente, para a felicidade geral dos fãs, "As horas" não apenas manteve a qualidade arrasadora do romance vencedor do Pulitzer como atingiu um patamar altíssimo em termos de adaptações literárias. Dirigida por Stephen Daldry - elogiadíssimo por sua estreia no belo "Billy Elliot" - e com um elenco formado pelo melhor do melhor em Hollywood, a transposição do livro de Cunningham para as telas não poderia ter sido mais feliz.

Na verdade, o filme é tão bom que vale por três. São três histórias, sobre três mulheres em momentos cruciais de suas vidas, interligadas por sentimentos de melancolia, solidão acompanhada e insatisfação. São três existências que muitas vezes não demonstram todo o turbilhão que lhes machuca a alma. E são três atrizes espetaculares em momentos mágicos de suas carreiras, entregando atuações tão avassaladoras quanto as personagens que interpretam. Somente Nicole Kidman levou um Oscar, mas não seria nada injusto que dividisse a estatueta com suas colegas de elenco Meryl Streep e Julianne Moore. E alguém tem dúvidas de que, apesar de suas qualidades, o vencedor do ano, "Chicago" não tem 1/10 de seu impacto emocional e artístico?

 

"As horas" conta um dia de três mulheres divididas pelo tempo mas unidas por detalhes coincidentes (mostrados com maestria pela edição inteligente de Peter Boyle). Em 1923, em uma pequena cidade do interior para onde foi para tratar de uma forte depressão, a escritora Virginia Woolf (Nicole Kidman, irreconhecível) começa a escrever seu novo romance, intitulado "Mrs. Dalloway", que conta a história de uma mulher de aparente controle emocional que está organizando uma grande festa. Quem tem aparente controle emocional e está preparando um bolo para o marido aniversariante em 1951, em Los Angeles, é a dona de casa Laura Brown (Julianne Moore, que disputou um polêmico Oscar de coadjuvante mesmo sendo tão protagonista quanto Kidman). Grávida do segundo filho, ela está lendo e se identificando com o livro deWoolf e com sua personagem-título, a tal ponto de planejar o suicídio em um quarto de hotel. E em 2001, em Nova York, a editora Clarissa Vaughan (Meryl Streep, espetacular como sempre), que vive confortavelmente com a esposa Sally (Allison Janney) - e que ganhou na juventude a alcunha de Mrs. Dalloway por causa do romance de Virginia - também está em vias de homenagear o melhor amigo e ex-amante Richard (Ed Harris), poeta e escritor premiado por sua obra. A partir dessa similaridade dramática, o roteiro delicado de David Hare tece uma teia de sutilezas comentada pela trilha sonora impiedosa de Philip Glass e por coadjuvantes nunca menos que brilhantes.

Ed Harris chegou perto de ganhar seu Oscar de coadjuvante por seu trabalho como o poeta soropositivo e com tendências suicidas que abala a estrutura de sua amiga Clarissa - "Você, Mrs. Dalloway, sempre dando festas para encobrir o silêncio!", ele afirma em determinado momento. Claire Danes vive a filha de Clarissa, Julia, que, apesar de ter uma história mais interessante no livro tem a função de situar a mãe em um momento de crise. E Jeff Daniels brilha como Louis Waters, que envolveu-se com ele na juventude e tenta recuperar sua jovialidade iniciando um caso com um jovem aluno. No núcleo de Laura Brown, John C. Reilly exercita seu estilo cool de interpretação como o marido paciente e amoroso e Toni Collette deita e rola em uma única cena que mostra todo o seu talento, na pele de Kitty, a vizinha cuja doença aciona os mecanismos de tristeza da protagonista. E Nicole Kidman tem a valiosa companhia luxuosa de Stephen Dillane e Miranda Richardson, como o marido e a irmã de Virginia, que a tiram de seu transe criativo para mudar os rumos de sua obra-prima.

 


Na verdade, a versão cinematográfica de "As horas" é tão repleta de acertos que é difícil escolher um destaque. O roteiro conciso, poético e construído com linhas de ouro pelo dramaturgo David Hare é fiel ao estilo intelectual de Cunningham sem nunca deixar de ser também extremamente emocional. A música de Philip Glass é arrepiante, dando sustentação aos silêncios doloridos. Os diálogos são fascinantes, assim como a ideia por trás de toda a trama - que envolve assuntos tabu como suicídio, AIDS, homossexualidade sem fazer julgamentos morais. E a direção de Daldry é, talvez, uma das mais injustiçadas da história do Oscar: perder para Roman Polanski por "O pianista" chega a ser quase piada - ainda mais se pensarmos que o filme também tirou sua estatueta de roteiro adaptado.

Falar de "As horas" e de todas as suas implicações dramáticas e ideológicas - além dos elogios infindos que merecem suas atrizes centrais - nunca seria demais. Mas é fato indiscutível que é uma das melhores e mais sensacionais adaptações literárias já feitas por Hollywood. Um filme raro e inesquecível, que fica para sempre na alma do espectador.

Friday, January 27, 2012

LONGE DO PARAÍSO

LONGE DO PARAÍSO (Far from heaven, 2002, Focus Features, 107min) Direção e roteiro: Todd Haynes. Fotografia: Edward Lachman. Montagem: James Lyons. Música: Elmer Bersntein. Figurino: Sandy Powell. Direção de arte/cenários: Mark Friedberg/Ellen Christiansen. Produção executiva: George Clooney, Eric Robison, John Sloss, Steven Soderbergh, John Wells. Produção: Jody Patton, Christine Vachon. Elenco: Julianne Moore, Dennis Quaid, Dennis Haysbert, Patricia Clarkson, James Rebhorn, Viola Davis. Estreia: 22/11/02

4 indicações ao Oscar: Atriz (Julianne Moore), Roteiro Original, Fotografia, Trilha Sonora Original

Um dos mais populares cineastas da década de 50, o alemão Douglas Sirk teve uma história dramática o suficiente para chegar às telas: quando o nazismo começou a ameaçar o mundo, em 1937, ele teve que abandonar seu país devido às perseguições a sua segunda mulher, a atriz de teatro Hilde Jary. Quem a denunciou (obrigando o casal a fugir para a Itália) foi a primeira esposa de Sirk, a mãe do seu filho (que ele nunca mais viu). O cineasta que, por ironia, era admirado por Goebbels, chegou em Hollywood em 1941, mas foi depois de 1950 que tornou-se uma espécie de marca registrada. Seus filmes estrelados por Rock Hudson ("Sublime obsessão", de 1954, "Tudo que o céu permite", de 1955 e "Palavras ao vento", de 1956), além do clássico "Imitação da vida", que Lana Turner estrelou em 1959 tinham como assinatura um visual extravagante (hoje denominado "kitsch") e um pendor para o melodrama que, apesar do sucesso comercial, só começou a ser reconhecido como estilo a partir dos anos 60, pela prestigiosa revista francesa "Cahiers du Cinéma".

Um dos maiores admiradores de Sirk, o cineasta Todd Haynes encontrou, em 2002, uma maneira de homenageá-lo. "Longe do paraíso", estrelado por Julianne Moore em um momento de grande inspiração, foi um dos filmes mais elogiados do ano, chegando a concorrer a quatro Oscar: além de Moore, a trilha sonora de Elmer Bernstein, a fotografia de Edward Lachman e o roteiro do diretor também foram indicados, mas todos acabaram perdendo as estatuetas. Mesmo assim, o filme de Haynes é um dos mais bem-acabados exemplares de um gênero que era extremamente popular há 60 anos mas que, com o advento do que convencionou-se chamar de "cinema moderno" caiu no limbo: o melodrama. Dono de um visual caprichadíssimo e uma trama que explora os preconceitos e as relações sociais da época, "Longe do paraíso" é uma poderosa vitrine para o talento de todos os envolvidos.



Julianne Moore - no mesmo ano em que também concorreu ao Oscar como coadjuvante por "As horas" - vive Cathy Whitaker, uma dona-de-casa perfeita dos anos 50. Sua vida consiste em cuidar da casa, dos filhos e do marido, o executivo Frank (Dennis Quaid, na melhor atuação de sua carreira), além de ser uma espécie de exemplo para todas as amigas. Seu mundo cor-de-rosa vira do avesso, porém, quando ela descobre que seu marido é homossexual - fato que levará o casal a tentar até mesmo eletrochoques - e começa uma amizade desinteressada por Raymond Deagan (Dennis Haysbert, o presidente dos EUA nas primeiras temporadas da série "24 horas"), o jardineiro de sua casa. Sua relação com um homem negro choca a sociedade e a leva a questionar a fragilidade de sua vida aparentemente intocável.

Além de seu elenco impecável - que também conta com a sempre ótima Patricia Clarkson - "Longe do paraíso" conta com um visual deslumbrante, que remete diretamente ao estilo de cinema que se pretende louvar. Cada cena, milimetricamente elaborada, é uma festa para os olhos, de um colorido obtido através do uso dos mesmos equipamentos utilizados na época em que se passa a trama de Haynes. O technicolor brilhante não apenas conta à audiência como eram os filmes então, e sim a mergulha diretamente no universo de Cathy, de cores exageradas que escondem a escuridão de sua vida matrimonial. Em conjunto com a grandiloquente música do maestro Elmer Bernstein (em seu último trabalho), a reconstituição de época detalhista, a fotografia e o roteiro (que consegue fugir da simples homenagem para ter uma potente vida própria), o filme do diretor de "Velvet goldmine" é um presente para os fãs do cinemão hollywoodiano que não se faz mais no século XXI. E talvez por isso possa parecer tão restrito.

"Longe do paraíso" não foi um sucesso de bilheteria, tendo rendido pouco mais de 15 milhões de dólares no mercado doméstico, o que não deixa de ser esperado. Mas é um dos dramas mais interessantes dos anos 2000, tanto em termos visuais quanto dramáticos. E Julianne Moore é um espetáculo à parte.

Thursday, October 27, 2011

CHEGADAS E PARTIDAS

CHEGADAS E PARTIDAS (The shipping news, 2001, Miramax Films, 111min) Direção: Lasse Halstrom. Roteiro: Robert Nelson Jacobs, romance de Annie Proulx. Fotografia: Oliver Stapleton. Montagem: Andrew Mondsheim. Música: Christopher Young. Figurino: Renee Ehrlich Kalfus. Direção de arte/cenários: David Gropman/Patricia Larman, Gretchen Rau. Produção executiva: Meryl Poster, Bob Weinstein, Harvey Weinstein. Produção: Rob Cowan, Linda Goldstein Knowlton, Leslie Holleran, Irwin Winkler. Elenco: Kevin Spacey, Julianne Moore, Judi Dench, Cate Blanchett, Pete Postlethwaite, Scott Glenn, Rhys Ifans, Jason Behr, Larry Pine. Estreia: 25/12/01

Não tinha como dar errado: o diretor sueco Lasse Halstrom, que vinha de dois filmes indicados ao Oscar máximo - "Regras da vida" e "Chocolate" -, uma trama dramática com personagens densos e segredos familiares tenebrosos e um elenco de sonhos - Kevin Spacey, Julianne Moore, Judi Dench e Cate Blanchett apenas para citar os mais conhecidos e premiados. Por que, então, "Chegadas e partidas" deixa um sabor tão grande de decepção quando acaba? A culpa é do roteiro, que nunca chega a emocionar? Da direção surpreendentemente distante de Halstrom? Ou será que o principal erro do filme é justamente o que, em tese, seria seu maior trunfo: o elenco?

Kevin Spacey - recém saído do Oscar merecido por "Beleza americana" - é o protagonista, mas exagera na sutileza e parece apático demais como Quoyle, um zé-ninguém que, depois da morte trágica da esposa Petal (Cate Blanchett, a melhor coisa do filme mas que, no entanto, desaparece depois de 15 minutos), vai morar em uma ilha de pescadores de onde se origina sua família. Ao lado da filha pequena e de sua aparentemente gélida tia Agnis (Judi Dench) - que esconde um segredo devastador - ele tenta reconstruir sua vida, trabalhando como o responsável pelas notícias náuticas do pequeno jornal da cidade, dirigido por um pescador pouco preocupado com seu negócio (Scott Glenn). Enquanto tenta esquecer a esposa - que amava apesar da relação horrível que tinham, ele se envolve com Wavey Prowse (Julianne Moore), uma solitária viúva mãe de um menino com problemas de saúde.



Talvez o grande problema de "Chegadas e partidas" nem seja o elenco - que tenta tirar leite de pedra - nem a direção distante de Halstron, que provavelmente quis retratar com o máximo de exatidão o clima frio onde situa sua história. O que acontece é que, por alguma razão misteriosa (ou nem tão misteriosa assim, já que o filme tem um ritmo pouco convidativo), as personagens não cativam o público, ao contrário do que aconteceu em "Regras da vida", por exemplo. O protagonista vivido por Kevin Spacey é de uma apatia irritante, o que acaba prejudicando seu diálogo com a plateia, e nem mesmo seu hesitante romance com Moore - mais bela do que nunca - consegue empolgar o espectador. Resta o show de Judi Dench, roubando todas as cenas em que aparece, com a personagem mais forte e bem desenhada do roteiro esquemático e pouco caloroso (inspirado em um romance da mesma autora que legou o conto que deu origem ao premiado "O segredo de Brokeback Mountain" cinco anos depois).

"Chegadas e partidas" poderia ter sido um grande filme se seguisse o tom emotivo dos trabalhos anteriores de seu diretor. Como está é mais uma produção com cara de filme feito para a TV, apesar de seu elenco multi-premiado.

Thursday, July 28, 2011

MAGNÓLIA

MAGNÓLIA (Magnolia, 1999, New Line Cinema, 188min) Direção e roteiro: Paul Thomas Anderson. Fotografia: Robert Elswit. Montagem: Dylan Tichenor. Música: Jon Brion. Figurino: Mark Bridges. Direção de arte/cenários: William Arnold, Mark Bridges/Chris Spellman. Produção executiva: Michael De Luca, Lynn Harris. Produção: Paul Thomas Anderson, JoAnne Sellar. Elenco: Jason Robards, Julianne Moore, Philip Seymour Hoffman, Tom Cruise, John C. Reilly, Melora Walters, William H. Macy, Philip Baker Hall, Melinda Dillon, Alfred Molina, Luiz Guszman, Jeremy Blackman. Estreia: 17/12/99

3 indicações ao Oscar: Ator Coadjuvante (Tom Cruise), Roteiro Original, Canção Original ("Save me")
Vencedor do Golden Globe de Ator Coadjuvante (Tom Cruise)

Quando trata-se de cinema normalmente a palavra “épico” vem acompanhada de cenários grandiosos, uma fotografia esplendorosa cobrindo vastas paisagens, uma trilha sonora grandiloquente e personagens heróicos lutando por causas nobres e altruístas em espetáculos longos e empolgantes. Por isso não deixa de ser um choque assistir a “Magnólia”, de Paul Thomas Anderson, descrito por seu criador como um “épico sobre pessoas comuns”. Épico? Os cenários são apartamentos à meia-luz, auditórios de programas de TV, bares freqüentados por perdedores. A fotografia é sutil, discreta, tenuamente iluminada. A trilha sonora é composta por canções que falam de dor, rejeição, insegurança interpretadas por uma cantora folk de voz delicada. E os personagens podem ser considerados tudo menos nobres e altruístas, porque lutam pela própria felicidade e contra a solidão e o arrependimento. Excetuando-se a longa duração (quase três horas), nada em “Magnólia” corresponde ao conceito de “filme épico”. E talvez por isso, por essa distorção, o trabalho de Anderson seja um dos melhores filmes da década de 90.
Anderson, também diretor do ótimo “Boogie nights, prazer sem limites” não tem medo de ousar em sua nova obra. Nada em “Magnólia” acontece da maneira que acontece em outros filmes e sim da maneira como ocorre na vida real. A história de amor contada no decorrer de sua duração - entre o policial  Jim (John C. Reilly) e a viciada em cocaína Claudia (Melora Walters, a grande revelação do filme) -  não ocorre entre dois exemplos de beleza em busca de uma felicidade de comercial de margarina e sim entre duas pessoas adultas e inseguras, com um belo histórico de problemas e personalidades conflitantes de verdade. Donnie Smith, o gênio mirim do passado (o ótimo William H. Macy) não quer ganhar dinheiro para viajar para Aspen e sim para colocar um aparelho nos dentes e assim conquistar a atenção e quem sabe o amor de um garçom mais jovem e atraente. Stanley Spector (Jeremy Blackman), o gênio mirim do presente, quer conquistar o amor do ambicioso pai e ter o direito de ir ao banheiro no momento em que precisar. O empresário moribundo Earl Partridge (o veterano Jason Robards em seu último e grande trabalho) não quer morrer em paz e sim obter o perdão do filho que abandonou, o guru de autoajuda sexual Frank T. Mackey(Tom Cruise em seu melhor trabalho, indicado ao Oscar de ator coadjuvante) e sua mulher, Linda (Julianne Moore nunca aquém de espetacular), que casou-se com ele por dinheiro, descobre, na iminência de sua morte, que o ama de verdade.



Cada cena em “Magnólia” surpreende por sua capacidade de emocionar sem apelar para o trivial e em buscar sempre a solução menos convencional, fato que fica evidente em seu clímax – uma chuva de sapos aparentemente sem qualquer explicação racional – e em uma das cenas mais comentadas de seu tempo – uma bela seqüência onde todos os personagens entoam a bela “Wise up”, da cantora Aimée Mann. A edição ágil de Dylan Tichenor colabora com a intenção do diretor em demonstrar o estado de excitação e angústia de seu grande número de personagens, todos envolvidos em momentos de total e dolorida verdade, seja ela o reencontro com um pai cuja imagem nunca foi positiva ou a revelação de um passado pouco agradável.

Contando com um elenco impecável (onde até mesmo Tom Cruise se sai bem, apesar da personagem irritante) e com uma trilha sonora que dificilmente pode ser excluída do rol de personagens devido à sua importância capital no desenrolar das cenas - mais do que simplesmente comentá-las, a trilha surge quase como uma espécie de consciência - "Magnólia" talvez seja o melhor exemplo de como um filme pode ser denso sem ser petulante e triste sem ser piegas. Envolvente desde sua fascinante sequência de abertura, é também a prova viva de quem nem sempre a palavra "épico" precisa estar necessariamente ligada a vastas paisagens (ainda que a alma humana muitas vezes seja tão seca e árida quanto o maior deserto).

Tuesday, July 19, 2011

FIM DE CASO

FIM DE CASO (The end of the affair, 1999, Columbia Pictures, 102min) Direção: Neil Jordan. Roteiro: Neil Jordan, romance de Graham Greene. Fotografia: Roger Pratt. Montagem: Tony Lawson. Música: Michael Nyman. Figurino: Sandy Powell. Direção de arte/cenários: Anthony Pratt/John Bush, Joanne Woolard. Produção: Neil Jordan, Stephen Wooley. Elenco: Ralph Fiennes, Julianne Moore, Stephen Rea, Ian Hart, Jason Isaacs. Estreia: 02/12/99

2 indicações ao Oscar: Atriz (Julianne Moore), Fotografia


Publicado em 1951 e adaptado por Hollywood em 1955 com Deborah Kerr e Van Johson com o nome de “Pelo amor de meu amor”, o romance “Fim de caso”, do inglês Graham Greene é conciso (tem pouco mais de 230 páginas), mas dotado de uma grande força dramática. Quem percebeu isso foi o cineasta irlandês Neil Jordan, que em 1999 lançou sua própria versão do livro. Elogiadíssimo pela crítica e indicado a dois Oscar, o filme não foi bem-sucedido comercialmente, como normalmente acontece com bons filmes direcionados ao público maduro – nem chegou a cobrir seu orçamento de 23 milhões no mercado americano – mas é um espetáculo imperdível. Adaptado pelo próprio Jordan, o filme não é apenas uma pungente e arrasadora história de amor. É também um estudo sobre o ciúme, a fé, a fidelidade e, pode-se dizer sem medo, Deus. Realizado com sensibilidade e inteligência, “Fim de caso” é o filme que qualquer cineasta de bom gosto gostaria de assinar.

A trama começa no final dos anos 40, quando o escritor Maurice Bendrix (Ralph Fiennes, em atuação mais do que inspirada) reencontra um amigo, o político Henry Miles (Stephen Rea) em uma noite de chuva. Miles está plenamente convencido de que sua esposa, a bela Sarah (Julianne Moore, indescritível) o está traindo e Bendrix, solícito, se oferece para contratar um detetive para seguí-la. Na verdade, o escritor tem seus próprios motivos para o interesse: descobrir o motivo que levou Sarah a abandonar, sem nenhuma razão aparente, o romance secreto que eles mantinham durante a guerra. Quando põe os olhos no diário da mulher que ainda ama, Bendrix descobre que o fim do caso entre eles tem uma razão aparentemente banal, mas extremamente forte em seu íntimo.


Elegante sem ser chato, romântico sem ser piegas, quente sem ser pornográfico e comovente ao extremo sem ser apelativo, “Fim de caso” é um filme feito para quem gosta de uma boa história, contada com categoria e talento. Tudo funciona às mil maravilhas no conjunto. A primorosa fotografia de Roger Pratt, a belíssima música de Michael Nyman, a reconstituição de época impecável e a montagem inteligente de Tony Lawson tecem um quadro tão coeso e admirável que não deixa de ser empolgante e até mesmo chocante. São vários detalhes deixados cuidadosamente por Jordan em cada cena que, em seu final, fazem um sentido avassalador. A bela sequência em que Bendrix finalmente descobre o porquê de ter sido abandonado, por exemplo, é de uma simplicidade tocante, com um diálogo belo porque simples e recitado por um casal de atores em seus melhores dias. Não à toa Julianne Moore foi indicada ao Oscar por sua magnífica performance. Quando o filme assume seu ponto de vista, na segunda metade, a audiência experimenta um dos mais dolorosos romances da década de 90.

A adaptação de Jordan não chega a ser extremamente fiel ao livro de Greene – e algumas diferenças até podem incomodar os fãs da obra literária, ainda que a versão cinematográfica suscite algumas discussões muito interessante sobre fé – mas é impossível ficar indiferente à química explosiva entre Ralph Fiennes e Julianne Moore, em atuações antológicas. O único problema de “Fim de caso” é que raramente produções tão boas chegam às telas e fica difícil assistir aos romances pasteurizados que desfilam pelas telas sem fazer comparações com sua força.

Monday, March 28, 2011

BOOGIE NIGHTS, PRAZER SEM LIMITES

BOOGIE NIGHTS, PRAZER SEM LIMITES (Boogie nights, 1997, New Line Cinema, 155min) Direção e roteiro: Paul Thomas Anderson. Fotografia: Robert Elswit. Montagem: Dylan Tichenor. Música: Michael Penn. Figurino: Mark Bridges. Direção de arte/cenários: Bob Ziembicki/Sandy Struth. Produção executiva: Lawrence Gordon. Produção: Paul Thomas Anderson, Lloyd Levin, John Lyons, Joanne Sellar. Elenco: Mark Wahlberg, Burt Reynolds, Julianne Moore, John C. Reilly, Heather Graham, Phillip Seymour Hoffman, William H. Macy, Don Cheadle, Joanna Gleason, Thomas Jane, Alfred Molina, Luis Guzman, Melora Walters, Philip Baker Hall. Estreia: 10/10/97

3 indicações ao Oscar: Ator Coadjuvante (Burt Reynolds), Atriz Coadjuvante (Julianne Moore), Roteiro Original
Vencedor do Golden Globe de Ator Coadjuvante (Burt Reynolds)

Em 1988 um ainda adolescente Paul Thomas Anderson escreveu e dirigiu um falso documentário em curta-metragem chamado "The Dirk Diggler story", que narrava a ascensão e a queda de um ator pornô. Menos de dez anos depois, Anderson já era um cineasta - seu primeiro filme "Jogada de risco" havia sido lançado em ... - mas a história de seu curta ainda martelava em sua cabeça. Assim, com um orçamento um pouco mais generoso (mas ainda irrisório em comparação com outras produções da época) ele dirigiu seu segundo longa, que expandia - e muito - a história de Diggler. "Boogie Nights, prazer sem limites" acabou deslumbrando a crítica especializada e mostrou que Anderson era um cineasta já pronto antes mesmo dos 30 anos de idade.

A história começa em 1977, quando o adolescente Eddie Adams (Mark Wahlberg) é convidado pelo diretor de filmes "para adultos" Jack Horner (Burt Reynolds) a juntar-se à sua já consagrada equipe. Trabalhando como auxiliar de cozinha de uma casa noturna e em constante atrito com a família, Eddie identifica na relação de Horner e seus empregados um núcleo familiar mais saudável do que o seu e, com a ambição de ficar rico e famoso, assume o nome de Dirk Diggler e torna-se o maior astro pornô da época. Dotado de um instrumento de trabalho invejável, ele ganha todos os prêmios da indústria, cria personagens históricos e se envolve no mundo das drogas, iniciando então uma decadência física e moral.

Utilizando a meteórica ascensão de Diggler, o diretor/roteirista/produtor Anderson faz um inventário de uma das épocas mais queridas do imaginário americano e mundial. Os anos 70, com seus excessos, glamour e liberdade sexual, é uma personagem a mais na trama de "Boogie nights", tendo papel de fundamental importância para o desenvolvimento do roteiro - cujas 300 páginas iniciais foram diminuídas para 180 no produto final. A trilha sonora escolhida pelo diretor, por exemplo, jamais chama a atenção para si: é orgânica, parte essencial da narrativa, como um papel de parede (ou um dos pôsters do quarto do jovem Eddie). Da mesma forma, a direção de arte kitsch e o figurino espalhafatoso ajudam a contar a história, situando cada momento de forma inconfundível. É brilhante a maneira com que todos os elementos de "Boogie nights" estão absolutamente conectados, como peças interdependentes que se unem para formar um painel gigante. E para isso, além do visual, Paul Thomas Anderson conta com um elenco de causar inveja a Quentin Tarantino.



Assim como na filmografia de Tarantino, não há, em "Boogie nights", um protagonista absoluto. Ainda que Dirk Diggler seja o objeto da trama e seu catalisador, a narrativa do filme se estende além de sua trajetória. Anderson é um roteirista inspirado e inteligente, que dá a seus coadjuvantes histórias próprias que os elevam acima da condição de meras escadas. Julianne Moore está em uma de suas melhores atuações como Amber Waves, a estrela da companhia de Jack Horner, uma mulher madura, delicada e intensa que luta pela guarda do filho pequeno ao mesmo tempo em que, em sua vida paralela, pratique cenas de sexo explícito e consuma quilos e mais quilos de cocaína. Burt Reynolds - no papel de sua vida - dá a Jack Horner um intenso senso de desejo artístico (sua personagem quer mais do que simplesmente ganhar dinheiro com cinema pornô, ele quer ser reconhecido como um artista...) Heather Graham faz de sua Rollergirl (papel recusado por Gwyneth Paltrow) uma jovem tentando encontrar seu caminho na vida e até mesmo o produtor dos filmes de Horner, Coronel James, do alto de sua pedofilia, é capaz de despertar uma certa compaixão no espectador. Esse talento de Anderson em dar uma aura humana a qualquer personagem faz de "Boogie nights" um dos melhores dramas intimistas da década de 90 (a despeito de não ser tratado como tal). Melhor que ele, somente "Magnólia", lançado dois anos depois e também assinado por ele.

Mas falar de "Boogie nights" sem falar de seu tema central seria absurdo. Mesmo que suas personagens secundárias sejam tão interessantes quanto a trama principal, é sobre a indústria pornô dos anos 70 que versa "Boogie nights". A era disco - retratada de maneira carinhosa mas ainda assim com um certo ar de decadência depressiva - é a espinha dorsal do filme, o cenário sobre o qual se desenvolvem todos os dramas criados por Anderson: a entrega de Dirk às drogas, a luta de Amber pelo filho, a tragédia envolvendo Little Bill (William H. Macy) - que mata a mulher adúltera em plena festa de Reveillon - e a substituição do filme por videotape no início da década de 90 são narrados com maestria por um jovem cineasta no auge de sua energia. A primeira cena - um plano-sequência de cerca de 3 minutos que apresenta as principais personagens em um clube noturno - já demonstra, de cara, que Paul Thomas Anderson não é um cineasta qualquer.

E boa parte da energia que "Boogie nights" transmite ao espectador se deve à presença de Mark Wahlberg. Desacreditado como ator e vindo de uma carreira como modelo de cuecas Calvin Klein e como o rapper Marky Mark, o quase estreante ficou com o papel oferecido a Leonardo DiCaprio e não poderia ter se saído melhor. Não é um grande ator, mas tem uma presença cênica forte o bastante para jamais comprometer - além de ter uma estampa bagaceira que casa perfeitamente com o protagonista que interpreta. É ele o rosto (e o corpo) de "Boogie nights" e, se o filme é tão bom muito da responsabilidade é de sua entrega ao papel e da direção nervosa de Paul Thomas Anderson.

"Boogie nights" é um dos melhores filmes dos anos 90 e ponto final. É forte, é audacioso, é inteligente e tem um senso de humor dos mais macabros. Obra de gênio!

Sunday, December 12, 2010

O FUGITIVO

O FUGITIVO (The fugitive, 1993, Warner Bros, 130min) Direção: Andrew Davis. Roteiro: Jeb Stuart, David Twohy, história de David Twohy, personagens criadas por Roy Huggins. Fotografia: Michael Chapman. Montagem: Don Brochu, David Finfer, Dean Goodhill, Dov Hoenig, Richard Nord, Dennis Virkler. Música: James Newton Howard. Figurino: Aggie Guerard Rodgers. Direção de arte/cenários: Dennis Washington/Rick Gentz. Casting: Amanda Mackey, Cathy Sandrich. Produção executiva: Keith Barish, Roy Huggins. Produção: Arnold Kopelson. Elenco: Harrison Ford, Tommy Lee Jones, Sela Ward, Julianne Moore, Joe Pantoliano, Andreas Katsulas, Jeroen Krabbe. Estreia: 06/8/93

7 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Ator Coadjuvante (Tommy Lee Jones), Fotografia, Montagem, Trilha Sonora Original, Som, Efeitos Sonoros
Vencedor do Oscar de Ator Coadjuvante (Tommy Lee Jones)
Vencedor do Golden Globe de Ator Coadjuvante (Tommy Lee Jones)

Dentre os indicados ao Oscar de Melhor Filme de 1993, um estranho no ninho disputava a estatueta contra dramas sérios e socialmente relevantes, como "A lista de Schindler" e "Em nome do pai". Inspirado em uma série transmitida pela TV americana nos anos 60, "O fugitivo" era o representante, no ano, dos filmes-entretenimento que tanto faziam sorrir os produtores hollywoodianos - vale lembrar que "Jurassic Park" não teria muitas chances na categoria principal. Estrelado pelo "astro do século" Harrison Ford e dirigido pelo pouco conhecido Andrew Davis, "O fugitivo" não só concorreu ao Oscar e rendeu mais de 180 milhões de dólares nas bilheterias, mas foi também o pontapé inicial de uma tendência da segunda metade da década: as adaptações para o cinema de seriados televisivos - tendência esta que originou, entre outros, o bem-sucedido "Missão impossível".

"O fugitivo" já começa bem, sem muita enrolação. Nos primeiros minutos de filme, enquanto se desenrolam os créditos iniciais, Richard Kimble (intepretado com a habitual falta de emoção de Harrison Ford), um médico respeitado de Chicago, é acusado do assassinato da esposa (Sela Ward), julgado e condenado à morte. No caminho para o presídio, um acidente com o ônibus que o transportava (e a outros presos) lhe possibilita uma fuga espetacular. Enquanto foge do obstinado agente federal Sam Gerard (Tommy Lee Jones), ele tenta provar sua inocência, procurando descobrir o paradeiro do real criminoso, um homem com uma prótese no lugar de um dos braços.

Diretor de filmes de ação descerebrados como "Nico, acima da lei" e "Força em alerta", ambos estrelados por Steven Seagal, Andrew Davis encontrou em "O fugitivo" o material ideal para carimbar seu passaporte em direção ao respeito crítico. Mesmo que não se detenha em trabalhar psicologicamente suas personagens - o que, no caso, não faz muita diferença - ele consegue ser eficiente a ponto de não permitir descanso à plateia. Do primeiro ao último minuto de projeção não há um único momento fraco ou dispensável. Todas as cenas de ação apresentadas por Davies são fabulosas e excepcionalmente dirigidas, equilibrando com maestria ação e suspense. E, ao contrário de muitos filmes do gênero, que utilizam de sequências repletas de adrenalina com o intuito único de disfarçar a fragilidade de sua história, aqui a coisa é bem diferente: cada passo dado por Kimble impulsiona a trama em direção a uma resolução que agrada pela coerência e pela surpresa.


E as cenas orquestradas por Davis são de tirar o chapéu: do acidente do ônibus que transportava Kimble até o tiroteio final - passando por um inacreditável salto em uma barragem e por perseguições em uma parada e dentro de uma delegacia - tudo é realizado com grande competência, empolgando até mesmo o mais cético dos espectadores. Logicamente a presença de Ford no papel central colabora muito para isso: dono de uma persona icônica e inconfundível, o eterno Indiana Jones conquista a simpatia de todos logo no início do filme - o que, levando-se em consideração a quase preguiça dramática do ator é algo surpreeendente. O público acredita em qualquer exagero que o filme possa cometer, desde que o herói seja Ford. Por isso, não deixa de ter sido um golpe de sorte o fato de as primeiras escolhas para o papel terem desistido do projeto: provavelmente Kevin Costner, Alec Baldwin ou Andy Garcia não teriam feito o filme ter tido o mesmo desempenho comercial...


Também interessante - e inteligente da parte do roteiro - foi ter criado um carismático antagonista: Sam Gerard não é apenas um policial correndo atrás de um foragido da justiça. É um homem obstinado, dono de uma tenacidade a toda prova e que acredita, mais do que tudo, em fazer bem feito o seu serviço. A ele não importa se Kimble é culpado ou não - e ele o diz textualmente em um de seus encontros com o protagonista: ele tem como missão capturá-lo e levá-lo de volta à prisão, só isso. E para tal, não mede esforços, chegando a disfarçar-se de mendigo em determinado ponto do filme. São sensacionais os momentos em que Kimble e Gerard ficam frente a frente - e ver o policial chegar tão perto de executar sua missão sem conseguí-lo é igualmente divertido. No entanto, a interpretação de Tommy Lee Jones, ainda que correta, não justifica todo o auê que causou. O Oscar de ator coadjuvante que ele abocanhou - em um ano em que Ralph Fiennes e John Malkovich eram seus rivais, pelos filmes "A lista de Schindler" e "Na linha de fogo", respectivamente - possivelmente se deve à popularidade de sua personagem, que inclusive protagonizou uma espécie de sequência realizada alguns anos depois, "U.S. Marshals, os federais".

Resumindo, "O fugitivo" foi o filme certo na hora certa - um fator determinante para o sucesso de qualquer projeto. Divertido e empolgante, é tecnicamente perfeito - a edição, a trilha sonora e os efeitos sonoros são estupendos - e um dos melhores filmes policiais dos anos 90. Para assistir com um balde de pipocas nas mãos.

Saturday, November 13, 2010

A MÃO QUE BALANÇA O BERÇO

A MÃO QUE BALANÇA O BERÇO (The hand that rocks the cradle, 1992, Hollywood Pictures, 110min) Direção: Curtis Hanson. Roteiro: Amanda Silver. Fotografia: Robert Elswit. Montagem: John F. Link. Música: Graeme Revell. Figurino: Jennifer von Mayrhauser. Direção de arte/cenários: Edward Pisoni/Sandy Reynolds Wasco. Casting: Junie Lowry-Johnson. Produção executiva: Robert W. Cort, Ted Field, Rick Jaffa. Produção: David Madden. Elenco: Rebecca De Mornay, Annabella Sciorra, Matt McCoy, Ernie Hudson, Julianne Moore, Madeline Zima. Estreia: 10/01/92

No início dos anos 80, Tom Cruise revelou-se ao mundo dançando só de cuecas no filme "Negócio arriscado", uma comédia divertida onde ele contracenava com uma bela loura que parecia tão promissora quanto ele. O tempo passou, Cruise tornou-se um dos maiores astros de Hollywood e a loura desapareceu dentre as dezenas de promessas que surgem a cada ano. Em 1992, no entanto, ela voltou. Má, vingativa e cruel, a protagonista de "A mão que balança o berço" devolveu à bela Rebecca de Mornay a chance de brilhar - e por que não? - assustras plateias mundo afora.

Não que a obra de Curtis Hanson (que anos depois deixaria os cinéfilos de queixo caído com o sensacional "Los Angeles, cidade proibida") seja um filme para marcar a história do cinema, ou que a atuação de Rebecca seja digna de um Oscar (apesar de um prêmio da MTV americana como Melhor Vilã), mas os quase 90 milhões de dólares arrecadados somente nos EUA demonstraram sem sombra de dúvida a boa vontade do público de abraçar uma história que deixa de lado monstros mascarados e sangue aos borbotões para dar mais atenção à tensão psicológica que surge entre o bem e o mal, aqui divididos clara e maniqueistamente entre a dona de casa vivida por Annabella Sciorra e a insidiosa babá interpretada por De Mornay.



Sciorra vive Claire Bartel, uma mulher que divide seu tempo entre o trabalho e a família, formada por um marido apaixonado, uma filha encantadora e um bebê recém-nascido. É justamente para ajudá-la a cuidar de tudo isso que ela contrata a dedicada e angelical Peyton Flanders como babá de seu filho caçula. Aparentemente perfeita, aos poucos a nova funcionária começa a mostrar as garrinhas, tentando destruir a paz da casa, mesmo que tenha que prejudicar todas as pessoas que lhe pareçam ameaçadoras a seu objetivo. A razão para tamanho ódio? Ela é a viúva do ginecologista de Claire, que suicidou-se depois de ter sido acusado de abuso sexual pela própria. Após a morte do marido e a subseqüente perda do bebê que esperava, a loira tem certeza que vingar-se da família Bartel é a única coisa certa a fazer.

A partir daí é esperar a baixaria: Peyton dá em cima do marido de Claire, forja um relacionamento dele com a melhor amiga da esposa (uma Julianne Moore em início de carreira), amamenta o filho da inimiga e chega ao extremo de tentar mandar pra cadeia o empregado com problemas mentais contratado para serviços de jardinagem (o bom Ernie Hudson). A absoluta falta de remorso ou hesitação da protagonista é comparável a vilãs de novelas globais, que não permitem que ninguém ou nada atrapalhe seus objetivos - e o roteiro tampouco se preocupa em buscar profundidade em seus atos, tendo como finalidade absoluta levar a história a um clímax como manda qualquer curso para escritores de cinema. A escalada de maldades de Peyton é interpretada com visível gosto por Rebecca, que acaba sendo o destaque absoluto de um filme interessante mas que nunca ultrapassa as limitações do gênero a que pertence. Não deixa de ser um correto currículo para Hanson - que atingiria estágios extremamente superiores em seu ofício - e o destaque maior da carreira de De Mornay, que apesar do sucesso do filme não atingiu o patamar de estrela que prometia.

"A mão que balança o berço" é um suspense mediano, construído corretamente pelo talentoso diretor Cutis Hanson. Prende a atenção, mas não muda a vida de ninguém.