Showing posts with label STEPHEN DALDRY. Show all posts
Showing posts with label STEPHEN DALDRY. Show all posts

Sunday, February 5, 2012

AS HORAS


AS HORAS (The hours, 2002, Paramount Pictures, 114min) Direção: Stephen Daldry. Roteiro: David Hare, romance de Michael Cunningham. Fotografia: Seamus McGarvey. Montagem: Peter Boyle. Música: Philip Glass. Figurino: Ann Roth. Direção de arte/cenários: Maria Djurkovic/Philippa Hart. Produção executiva: Mark Huffam. Produção: Robert Fox, Scott Rudin. Elenco: Meryl Streep, Nicole Kidman, Julianne Moore, Ed Harris, Stephen Dillane, John C. Reilly, Toni Colette, Miranda Richardson, Jeff Daniels, Claire Danes, Allison Janney. Estreia: 25/12/02

9 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Stephen Daldry), Atriz (Nicole Kidman), Ator Coadjuvante (Ed Harris), Atriz Coadjuvante (Julianne Moore), Roteiro Adaptado, Montagem, Trilha Sonora Original, Figurino
Vencedor do Oscar de Melhor Atriz (Nicole Kidman)
Vencedor de 2 Golden Globes: Melhor Filme/Drama, Melhor Atriz/Drama (Nicole Kidman)

O livro pareceia infilmável. Com uma prosa densa e intimista e utilizando-se frequentemente do famigerado fluxo de consciência que torna qualquer adaptação literária para o cinema um pesadelo para os roteiristas, o romance "As horas", escrito por Michael Cunningham corria o sério risco de virar um filme hermético e pseudointelectual, daqueles que agradam à crítica mas que jamais ultrapassam seu potencial dramático. Felizmente, para a felicidade geral dos fãs, "As horas" não apenas manteve a qualidade arrasadora do romance vencedor do Pulitzer como atingiu um patamar altíssimo em termos de adaptações literárias. Dirigida por Stephen Daldry - elogiadíssimo por sua estreia no belo "Billy Elliot" - e com um elenco formado pelo melhor do melhor em Hollywood, a transposição do livro de Cunningham para as telas não poderia ter sido mais feliz.

Na verdade, o filme é tão bom que vale por três. São três histórias, sobre três mulheres em momentos cruciais de suas vidas, interligadas por sentimentos de melancolia, solidão acompanhada e insatisfação. São três existências que muitas vezes não demonstram todo o turbilhão que lhes machuca a alma. E são três atrizes espetaculares em momentos mágicos de suas carreiras, entregando atuações tão avassaladoras quanto as personagens que interpretam. Somente Nicole Kidman levou um Oscar, mas não seria nada injusto que dividisse a estatueta com suas colegas de elenco Meryl Streep e Julianne Moore. E alguém tem dúvidas de que, apesar de suas qualidades, o vencedor do ano, "Chicago" não tem 1/10 de seu impacto emocional e artístico?

 

"As horas" conta um dia de três mulheres divididas pelo tempo mas unidas por detalhes coincidentes (mostrados com maestria pela edição inteligente de Peter Boyle). Em 1923, em uma pequena cidade do interior para onde foi para tratar de uma forte depressão, a escritora Virginia Woolf (Nicole Kidman, irreconhecível) começa a escrever seu novo romance, intitulado "Mrs. Dalloway", que conta a história de uma mulher de aparente controle emocional que está organizando uma grande festa. Quem tem aparente controle emocional e está preparando um bolo para o marido aniversariante em 1951, em Los Angeles, é a dona de casa Laura Brown (Julianne Moore, que disputou um polêmico Oscar de coadjuvante mesmo sendo tão protagonista quanto Kidman). Grávida do segundo filho, ela está lendo e se identificando com o livro deWoolf e com sua personagem-título, a tal ponto de planejar o suicídio em um quarto de hotel. E em 2001, em Nova York, a editora Clarissa Vaughan (Meryl Streep, espetacular como sempre), que vive confortavelmente com a esposa Sally (Allison Janney) - e que ganhou na juventude a alcunha de Mrs. Dalloway por causa do romance de Virginia - também está em vias de homenagear o melhor amigo e ex-amante Richard (Ed Harris), poeta e escritor premiado por sua obra. A partir dessa similaridade dramática, o roteiro delicado de David Hare tece uma teia de sutilezas comentada pela trilha sonora impiedosa de Philip Glass e por coadjuvantes nunca menos que brilhantes.

Ed Harris chegou perto de ganhar seu Oscar de coadjuvante por seu trabalho como o poeta soropositivo e com tendências suicidas que abala a estrutura de sua amiga Clarissa - "Você, Mrs. Dalloway, sempre dando festas para encobrir o silêncio!", ele afirma em determinado momento. Claire Danes vive a filha de Clarissa, Julia, que, apesar de ter uma história mais interessante no livro tem a função de situar a mãe em um momento de crise. E Jeff Daniels brilha como Louis Waters, que envolveu-se com ele na juventude e tenta recuperar sua jovialidade iniciando um caso com um jovem aluno. No núcleo de Laura Brown, John C. Reilly exercita seu estilo cool de interpretação como o marido paciente e amoroso e Toni Collette deita e rola em uma única cena que mostra todo o seu talento, na pele de Kitty, a vizinha cuja doença aciona os mecanismos de tristeza da protagonista. E Nicole Kidman tem a valiosa companhia luxuosa de Stephen Dillane e Miranda Richardson, como o marido e a irmã de Virginia, que a tiram de seu transe criativo para mudar os rumos de sua obra-prima.

 


Na verdade, a versão cinematográfica de "As horas" é tão repleta de acertos que é difícil escolher um destaque. O roteiro conciso, poético e construído com linhas de ouro pelo dramaturgo David Hare é fiel ao estilo intelectual de Cunningham sem nunca deixar de ser também extremamente emocional. A música de Philip Glass é arrepiante, dando sustentação aos silêncios doloridos. Os diálogos são fascinantes, assim como a ideia por trás de toda a trama - que envolve assuntos tabu como suicídio, AIDS, homossexualidade sem fazer julgamentos morais. E a direção de Daldry é, talvez, uma das mais injustiçadas da história do Oscar: perder para Roman Polanski por "O pianista" chega a ser quase piada - ainda mais se pensarmos que o filme também tirou sua estatueta de roteiro adaptado.

Falar de "As horas" e de todas as suas implicações dramáticas e ideológicas - além dos elogios infindos que merecem suas atrizes centrais - nunca seria demais. Mas é fato indiscutível que é uma das melhores e mais sensacionais adaptações literárias já feitas por Hollywood. Um filme raro e inesquecível, que fica para sempre na alma do espectador.

Tuesday, August 30, 2011

BILLY ELLIOT

BILLY ELLIOT (Billy Elliot, 2000, BBC Films/Studio Canal, 110min) Direção: Stephen Daldry. Roteiro: Lee Hall. Fotografia: Brian Tufano. Montagem: John Wilson. Música: Stephen Warbeck. Figurino: Stewart Meacham. Direção de arte/cenários: Maria Djurkovic/Tatiana Lund. Produção executiva: Charles Brand, Tessa Ross, David M. Thompson, Natascha Wharton. Produção: Greg Brenman, Jon Finn. Elenco:Jamie Bell, Julie Walters, Gary Lewis, Jamie Draven. Estreia EUA: 12/10/00

3 indicações ao Oscar: Diretor (Stephen Daldry), Atriz Coadjuvante (Julie Walters), Roteiro Original

A primeira cena já conquista o público. Ao som de "Cosmic Dancer", da banda T-Rex, um menino de onze anos de idade pula em sua cama, transmitindo uma alegria de viver que é uma lembrança viva da infância do próprio roteirista Lee Hall. O menino, vivido com graça e competência pelo estreante Jamie Bell, é o protagonista de "Billy Elliot", um dos maiores sucessos do cinema inglês do início do século XXI e o belo filme de estreia de Stephen Daldry, merecidamente indicado ao Oscar já em seu primeiro trabalho. Um perfeito exemplo de como um filme pode ser encantador e comovente sem gastar fábulas ou apelar para lágrimas fáceis, "Billy Elliot" seduz a audiência pela sensibilidade e pela honestidade.

Billy é o filho caçula de Jackie Elliot (Gary Lewis), um viúvo que trabalha arduamente para sustentar a sogra doente e os dois filhos. É o ano de 1984, e a família vive em uma pequena cidade do interior da Inglaterra, inflamada por uma polêmica greve dos trabalhadores das minas de carvão. Um dos líderes trabalhistasé justamente o irmão de Billy, Tony (Jamie Draven), que não aceita diálogo e luta por melhores condições de trabalho no governo de Margaret Tatcher. Billy, aos onze anos de idade cuja única diversão é frequentar suas aulas de boxe, as quais encara sem muito entusiasmo. Sua vida dá uma virada inesperada quando ele conhece a Sra. Wilkinson (Julie Walters), que dá aulas de balé no mesmo ginásio onde ele treina - e tem suas aulas pagas com muito suor por seu pai. Encantado com o mundo da dança, Billy desperta a atenção da veterana professora, que o incentiva então a ir embora para Londres, tentar a sorte como bailarino profissional. Para isso, porém, o menino terá que enfrentar o preconceito da cidade e as dificuldades financeiras da própria família, sofrendo com a crise econômica do país.



Conquistando o papel principal ao deixar para trás mais de dois mil candidatos, Jamie Bell provou ser a melhor escolha do diretor Stephen Daldry. Seu físico mirrado, seu olhar que alterna timidez com fúria e seu passado como dançarino (quando era frequentemente vítima de deboche dos colegas) fazem dele o ator ideal para viver Billy Elliot, um dos protagonistas mais encantadores de sua temporada. Mesmo que muitas vezes soe agressivo - em especial em sua relação quase materna com sua professora - o jovem Elliot jamais afasta o público de si, envolvendo-o com sua paixão nascente pela dança. É especialmente tocante a cena em que ele tenta convencer seu pai a respeito de seu talento simplesmente dançando, sem dizer uma única palavra, assim como é necessário aplaudir de pé o resto do elenco escolhido por Daldry.

A escolada Julie Walters arrebatou uma indicação ao Oscar de atriz coadjuvante por sua performance como a Sra. Wilkinson, uma mulher que vê no pré-adolescente arredio uma chance de compensar sua frustração profissional - ao contrário do clichê, no entanto, ela não é nem recalcada nem invejosa e sim uma espécie de mãe que é tão necessária na vida de seu aluno. Mas é Gary Lewis, na pele do pai do protagonista quem quase rouba todas as cenas em que aparece, em uma atuação nunca aquém de soberba. Discreto e econômico, Lewis merecia também ser lembrado pelo Oscar por jamais deixar de transmitir toda a extensão de sentimentos de sua personagem sem que, para isso, precise discursar ao público. A cena final, por exemplo, é um primor de sutileza e emoção: ele nem precisa falar para despertar a empatia, a solidariedade e a emoção de sua audiência. Se é nos pés de Billy que Daldry concentra o corpo de seu filme, é no olhar orgulhoso e marejado de Jackie Elliot que o filme encontra sua alma.

Um dos filmes mais humanos a surgir nas telas em 2000, "Billy Elliot" é, acima de tudo, uma ode à paixão pela arte, à família e à fé nos próprios desejos. É uma pequena obra-prima embalada por uma bela trilha sonora e um roteiro delicioso como uma obra de Tchaikovsky.