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Wednesday, February 22, 2012

AOS TREZE

AOS TREZE (Thirteen, 2003, Fox Searchlight Pictures, 100min) Direção: Catherine Hardwicke. Roteiro: Catherine Hardwicke, Nikki Reed. Fotografia: Elliot Davis. Montagem: Nancy Richardson. Música: Mark Mothersbaugh, Brian Zarate. Figurino: Cindy Evans. Direção de arte/cenários: Carol Strober/Dorit Oberman. Produção executiva: Tim Bevan, Liza Chasin, Eric Fellner, Holly Hunter. Produção: Jeffrey Levy-Hinte, Michael London. Elenco: Evan Rachel Wood, Nikki Reed, Holly Hunter, Jeremy Sisto, Deborah Kara Unger. Estreia: 12/6/03

Indicado ao Oscar de Atriz Coadjuvante (Holly Hunter)

Ao contrário de “Kids”, de Larry Clark, que em 1994 mostrou-se mais marketing do que cinema, este “Aos treze” é um chocante retrato da adolescência média não só americana, mas ocidental. Sem perder tempo com julgamentos morais, a câmera da diretora Catherine Hardwicke - que depois perderia o respeito assinando o primeiro filme da série "Crepúsculo" - percorre a trilha de suas protagonistas como uma testemunha muda, vacilante e talvez até chocada, para o que contribui a inspirada fotografia de Elliot Davis, estourada em certos momentos para dar o clima quase claustrofóbico que se instala em determinados momentos da ação.
          
Aos treze anos de idade, a sensível Tracey (Evan Rachel-Wood) é um exemplo de dedicação aos estudos e é o orgulho de sua mãe, Melanie (Holly Hunter), uma cabeleireira ex-alcóolatra que vive um romance com um rapaz mais jovem (Jeremy Sisto) com problemas com drogas. Sentindo-se rejeitada pelas colegas mais descoladas, Tracey faz amizade com Evie (Nikki Reed), a garota mais popular da escola. Acontece que Evie não é nenhuma flor que se cheire. Sexy e independente, ela consome e vende drogas, usa o sexo como argumento em todas as ocasiões possíveis, bebe e não é exatamente um exemplo a ser seguido. Mas é ela que Tracey escolhe como modelo de vida, o que a acaba levando para um caminho aparentemente sem volta.
        
O roteiro do filme, feito a quatro mãos pela diretora e pela atriz Nikki Reed, que interpreta a má companhia Evie, não tenta buscar explicações para o que acontece, não justifica os atos das personagens e nem força um final feliz. Foi escrito com veracidade, força e energia, elementos que transparecem em cada cena. E, se o roteiro é marcante, muito mais são as atuações do elenco. Se Evan Rachel Wood aparece como uma refrescante atriz adolescente a surgir em Hollywood, é a também produtora executiva do filme, Holly Hunter (indicada ao Oscar por sua irrepreensível interpretação) que brilha a cada vez que aparece em cena, demonstrando que seu talento é inversamente proporcional a sua baixa estatura.
        
Para quem quer assistir a um filme importante mas sem o ranço politicamente correto que assola o cinema americano, “Aos treze” é garantia de 100 minutos de qualidade artística e relevância social. Imperdível.

Monday, February 13, 2012

A VIDA DE DAVID GALE

A VIDA DE DAVID GALE (The life of David Gale, 2003, Universal Pictures, 130min) Direção: Alan Parker. Roteiro: Charles Randolph. Fotografia: Michael Seresin. Montagem: Gerry Hambling. Música: Alex Parker, Jake Parker. Figurino: Jennifer Williams. Direção de arte/cenários: Geoffrey Kirkland/Renee Ehrlich Kalfus. Produção executiva: Moritz Borman, Guy East, Nigel Sinclair. Produção: Nicolas Cage, Alan Parker. Elenco: Kevin Spacey, Kate Winslet, Laura Linney, Cleo King, Gabriel Mann, Matt Craven. Estreia: 21/02/03

Em seu currículo, o cineasta inglês Alan Parker conta com o raivoso “Expresso da meia-noite” (1978), que bradava contra o sistema jurídico e penal da Turquia e gerou controvérsias variadas na época de sua exibição. De lá pra cá, Parker novamente criou obras polêmicas (“Mississipi em chamas”), flertou com o musical (“Fama”, The Commitments, loucos pela fama" e “Evita”) e assinou um dos mais assustadores filmes de terror da história (“Coração satânico”). Dono de um talento inquestionável, ele no entanto amargou um fracasso crítico e de bilheteria com “A vida de David Gale”, que se pretendia um libelo poderoso contra a pena de morte mas acabou morrendo na praia de suas boas intenções. Com menos de 20 milhões de dólares de arrecadação nos EUA, o filme também foi ignorado nas cerimônias de premiações, apesar do elenco estelar, do tema forte e de suas qualidades, praticamente relevadas por seus detratores.   

   
O David Gale do título é um brilhante e respeitado professor de filosofia vivido por Kevin Spacey que vê sua vida virar de cabeça pra baixo de uma hora pra outra. Traído pela esposa e acusado de estupro por uma aluna mal-intencionada, ele perde o emprego e o casamento, deixando-se levar pelo desespero e por problemas com bebidas alcóolicas. Fragilizado, ele acaba se envolvendo com Constance Harraway (Laura Linney), que junto com ele faz parte de um comitê ativo contra a pena de morte. Quando Constance aparece estuprada e morta, Gale é considerado culpado e condenado à morte. Quatro dias antes da execução, ele pede para dar uma entrevista à ambiciosa Bitsey Bloom (Kate Winslet) e a jovem repórter começa a desconfiar que sua certeza acerca da culpa do professor pode estar completamente equivocada e que um inocente pode estar às vésperas de morrer por um crime que não cometeu.

 

Longe de ser um petardo emocional como “Os últimos passos de um homem”, que mexe com mais paixão no assunto da pena capital, “A vida de David Gale” deixa a emoção de lado por um bom tempo, concentrando-se nos mecanismos que levaram o protagonista à delicada situação em que se encontra. Para isso não hesita em apelar para alguns clichês do gênero policial, com reviravoltas finais e um suspense que funciona bastante bem em alguns momentos mas que carece de força em outros. É inegável, no entanto, que o seu final consegue surpreender, principalmente por não ser previsível – apesar de soar um tanto inverossímil em um primeiro olhar.
         
Também é inegável que a maior força de “A vida de David Gale” vem de seu elenco, liderado por atores há muito consagrados e admirados. Kevin Spacey nem precisa se esforçar muito pra mostrar porque é um dos melhores atores de sua geração, principalmente quando interpreta personagens pouco heróicos e bastante comuns. Laura Linney compõe sua Constance com medidas exatas entre lucidez, estoicismo e delicadeza, o que é fundamental para a compreensão de seu destino trágico. Mas é Kate Winslet quem rouba a cena. Na pele da ambiciosa repórter Bitsey Bloom, a atriz inglesa demonstra uma variedade de nuances em sua atuação, tornando crível a sua mudança de atitudes e pensamentos do início ao final do filme, o que talvez Nicole Kidman (a escolha inicial para o papel) não conseguisse com tanta facilidade.
          
“A vida de David Gale” está longe de ser uma obra-prima e nem perto de ser o melhor trabalho da carreira de Alan Parker, mas merece uma segunda chance de ser descoberto e apreciado por suas inúmeras qualidades. Produzido por Nicolas Cage, que acabou deixando o papel principal de lado (assim como o fez George Clooney), é um filme sério e adulto, que mexe com as certezas arraigadas da plateia. Não é todo mundo que faz isso!

Sunday, February 5, 2012

AS HORAS


AS HORAS (The hours, 2002, Paramount Pictures, 114min) Direção: Stephen Daldry. Roteiro: David Hare, romance de Michael Cunningham. Fotografia: Seamus McGarvey. Montagem: Peter Boyle. Música: Philip Glass. Figurino: Ann Roth. Direção de arte/cenários: Maria Djurkovic/Philippa Hart. Produção executiva: Mark Huffam. Produção: Robert Fox, Scott Rudin. Elenco: Meryl Streep, Nicole Kidman, Julianne Moore, Ed Harris, Stephen Dillane, John C. Reilly, Toni Colette, Miranda Richardson, Jeff Daniels, Claire Danes, Allison Janney. Estreia: 25/12/02

9 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Stephen Daldry), Atriz (Nicole Kidman), Ator Coadjuvante (Ed Harris), Atriz Coadjuvante (Julianne Moore), Roteiro Adaptado, Montagem, Trilha Sonora Original, Figurino
Vencedor do Oscar de Melhor Atriz (Nicole Kidman)
Vencedor de 2 Golden Globes: Melhor Filme/Drama, Melhor Atriz/Drama (Nicole Kidman)

O livro pareceia infilmável. Com uma prosa densa e intimista e utilizando-se frequentemente do famigerado fluxo de consciência que torna qualquer adaptação literária para o cinema um pesadelo para os roteiristas, o romance "As horas", escrito por Michael Cunningham corria o sério risco de virar um filme hermético e pseudointelectual, daqueles que agradam à crítica mas que jamais ultrapassam seu potencial dramático. Felizmente, para a felicidade geral dos fãs, "As horas" não apenas manteve a qualidade arrasadora do romance vencedor do Pulitzer como atingiu um patamar altíssimo em termos de adaptações literárias. Dirigida por Stephen Daldry - elogiadíssimo por sua estreia no belo "Billy Elliot" - e com um elenco formado pelo melhor do melhor em Hollywood, a transposição do livro de Cunningham para as telas não poderia ter sido mais feliz.

Na verdade, o filme é tão bom que vale por três. São três histórias, sobre três mulheres em momentos cruciais de suas vidas, interligadas por sentimentos de melancolia, solidão acompanhada e insatisfação. São três existências que muitas vezes não demonstram todo o turbilhão que lhes machuca a alma. E são três atrizes espetaculares em momentos mágicos de suas carreiras, entregando atuações tão avassaladoras quanto as personagens que interpretam. Somente Nicole Kidman levou um Oscar, mas não seria nada injusto que dividisse a estatueta com suas colegas de elenco Meryl Streep e Julianne Moore. E alguém tem dúvidas de que, apesar de suas qualidades, o vencedor do ano, "Chicago" não tem 1/10 de seu impacto emocional e artístico?

 

"As horas" conta um dia de três mulheres divididas pelo tempo mas unidas por detalhes coincidentes (mostrados com maestria pela edição inteligente de Peter Boyle). Em 1923, em uma pequena cidade do interior para onde foi para tratar de uma forte depressão, a escritora Virginia Woolf (Nicole Kidman, irreconhecível) começa a escrever seu novo romance, intitulado "Mrs. Dalloway", que conta a história de uma mulher de aparente controle emocional que está organizando uma grande festa. Quem tem aparente controle emocional e está preparando um bolo para o marido aniversariante em 1951, em Los Angeles, é a dona de casa Laura Brown (Julianne Moore, que disputou um polêmico Oscar de coadjuvante mesmo sendo tão protagonista quanto Kidman). Grávida do segundo filho, ela está lendo e se identificando com o livro deWoolf e com sua personagem-título, a tal ponto de planejar o suicídio em um quarto de hotel. E em 2001, em Nova York, a editora Clarissa Vaughan (Meryl Streep, espetacular como sempre), que vive confortavelmente com a esposa Sally (Allison Janney) - e que ganhou na juventude a alcunha de Mrs. Dalloway por causa do romance de Virginia - também está em vias de homenagear o melhor amigo e ex-amante Richard (Ed Harris), poeta e escritor premiado por sua obra. A partir dessa similaridade dramática, o roteiro delicado de David Hare tece uma teia de sutilezas comentada pela trilha sonora impiedosa de Philip Glass e por coadjuvantes nunca menos que brilhantes.

Ed Harris chegou perto de ganhar seu Oscar de coadjuvante por seu trabalho como o poeta soropositivo e com tendências suicidas que abala a estrutura de sua amiga Clarissa - "Você, Mrs. Dalloway, sempre dando festas para encobrir o silêncio!", ele afirma em determinado momento. Claire Danes vive a filha de Clarissa, Julia, que, apesar de ter uma história mais interessante no livro tem a função de situar a mãe em um momento de crise. E Jeff Daniels brilha como Louis Waters, que envolveu-se com ele na juventude e tenta recuperar sua jovialidade iniciando um caso com um jovem aluno. No núcleo de Laura Brown, John C. Reilly exercita seu estilo cool de interpretação como o marido paciente e amoroso e Toni Collette deita e rola em uma única cena que mostra todo o seu talento, na pele de Kitty, a vizinha cuja doença aciona os mecanismos de tristeza da protagonista. E Nicole Kidman tem a valiosa companhia luxuosa de Stephen Dillane e Miranda Richardson, como o marido e a irmã de Virginia, que a tiram de seu transe criativo para mudar os rumos de sua obra-prima.

 


Na verdade, a versão cinematográfica de "As horas" é tão repleta de acertos que é difícil escolher um destaque. O roteiro conciso, poético e construído com linhas de ouro pelo dramaturgo David Hare é fiel ao estilo intelectual de Cunningham sem nunca deixar de ser também extremamente emocional. A música de Philip Glass é arrepiante, dando sustentação aos silêncios doloridos. Os diálogos são fascinantes, assim como a ideia por trás de toda a trama - que envolve assuntos tabu como suicídio, AIDS, homossexualidade sem fazer julgamentos morais. E a direção de Daldry é, talvez, uma das mais injustiçadas da história do Oscar: perder para Roman Polanski por "O pianista" chega a ser quase piada - ainda mais se pensarmos que o filme também tirou sua estatueta de roteiro adaptado.

Falar de "As horas" e de todas as suas implicações dramáticas e ideológicas - além dos elogios infindos que merecem suas atrizes centrais - nunca seria demais. Mas é fato indiscutível que é uma das melhores e mais sensacionais adaptações literárias já feitas por Hollywood. Um filme raro e inesquecível, que fica para sempre na alma do espectador.

Tuesday, January 31, 2012

A ÚLTIMA NOITE

A ÚLTIMA NOITE (The 25th hour, 2002, Touchstone Pictures, 135min) Direção: Spike Lee. Roteiro: David Benioff, romance de sua autoria. Fotografia: Rodrigo Prieto. Montagem: Barry Alexander Brown. Música: Terence Blanchard. Figurino: Sandra Hernandez. Direção de arte/cenários: James Chinlund/Ondine Karady. Produção executiva: Nick Weschler. Produção: Julia Chasman, Jon Kilik, Spike Lee, Tobey Maguire. Elenco: Edward Norton, Philip Seymour Hoffman, Barry Pepper, Brian Cox, Rosario Dawson, Anna Paquin. Estreia: 19/12/02

Desde que surgiu no cenário hollywoodiano, com seu genial trabalho em "As duas faces de um crime", que lhe deu uma merecida indicação ao Oscar de ator coadjuvante, Edward Norton teve uma trajetória exemplar. Trabalhou com cineastas acima de qualquer suspeita, como Woody Allen, Milos Forman e David Fincher, assumiu a cadeira de diretor com o simpático "Tenha fé" e entregou no mínimo uma atuação inesquecível, como o skinhead arrependido de "A outra história americana", de 1998. Depois de alguns filmes que não exploraram todo o potencial de seu talento - entre eles "Dragão vermelho", terceiro filme estrelado por Hannibal Lecter - ele voltou a encantar seu público com "A última noite", um potente e polêmico drama dirigido pelo não menos controverso Spike Lee.

Realizado sob a tensão pós-11 de setembro, "A última noite" é baseado em um romance de David Benioff, também autor do belo roteiro, que discute preconceito, lealdade, diferenças sociais e a força da amizade sem soar piegas ou condescendente. Contando com um protagonista falível e um time de coadjuvantes interessantes por si mesmos, é um filme que foge do panfletarismo barato que caracteriza a obra de seu diretor, atingindo seu público justamente por ser honesto em suas discussões e seu amor incondicional por Nova York e suas idiossincrasias culturais e sociais.

Quando o filme começa, o protagonista Monty Brogan (Edward Norton, ótimo) está às vésperas de ir para a cadeia, condenado a sete anos de prisão por tráfico de drogas. Sua última noite de liberdade será passada ao lado da namorada, Naturelle (Rosario Dawson) e dos melhores amigos, o yuppie Frank (Barry Pepper, excelente) e o professor de Literatura Jacob (Philip Seymour Hoffman). Enquanto se sente angustiado com a possibilidade de ter sido denunciado pela mulher que ama, Monty encara suas últimas horas de liberdade como uma espécie de despedida de uma vida com certo conforto e tranquilidade e questiona o estado em que está a cidade que ama após os atentados cometidos por Osama Bin Laden. Nesse meio-tempo, Frank tenta convencê-lo de que o ajudará após a temporada na prisão e Jacob foge da tentação sexual representada por uma aluna adolescente, Mary (Anna Paquin).



Apesar de sua trama ter elementos policiais - tráfico de drogas, traição - "A última noite" é, acima de tudo, um drama familiar (sendo o núcleo familiar tradicional subsituído pelos amigos) que retrata com acuracidade diferentes estilos de vida americanos. Frank é o arrogante executivo das finanças que se acha mais importante que os amigos porque tem um salário muito maior que o deles; Jacob é o professor solitário e idealista que se deixa seduzir por uma aluna que precisa de boas notas; e Monty representa o tipo de gente que se deixa levar pelo caminho mais fácil de atingir o sucesso, vendendo drogas a estudantes e tornando-se um traficante conhecido e bem-sucedido. Apesar de suas diferenças, eles tem uma convivência pacífica e quase terna, só abalada pela presença de Naturelle, uma presença dúbia e sexy que tanto pode ser a mulher confiável em que Monty acredita plenamente ou a traidora que seus amigos pintam.

Dirigido com fúria contida por um Spike Lee discreto mas eficaz em sua maneira pungente de fazer cinema, "A última noite" se beneficia amplamente de seu elenco, composto por atores em seus melhores dias. Se Norton e Seymour Hoffman não precisam provar nada a ninguém, a surpresa maior fica por conta de Barry Pepper, que por pouco não rouba as cenas em que aparece, em uma interpretação inspirada e sutil que vai se avolumando até estourar nas suas últimas cenas, em que precisa espancar o melhor amigo para ajudá-lo a sobreviver na prisão. E na pele de James, o calejado pai de Monty, o onipresente Brian Cox brinda o público com um trabalho delicado e emocionante.

Um dos filmes mais subestimados da temporada 2002, "A última noite" é fascinante, forte, impactante e comovente na medida certa. Um belíssimo filme, feito para adultos que gostam de cinema com consistência.

Friday, January 27, 2012

LONGE DO PARAÍSO

LONGE DO PARAÍSO (Far from heaven, 2002, Focus Features, 107min) Direção e roteiro: Todd Haynes. Fotografia: Edward Lachman. Montagem: James Lyons. Música: Elmer Bersntein. Figurino: Sandy Powell. Direção de arte/cenários: Mark Friedberg/Ellen Christiansen. Produção executiva: George Clooney, Eric Robison, John Sloss, Steven Soderbergh, John Wells. Produção: Jody Patton, Christine Vachon. Elenco: Julianne Moore, Dennis Quaid, Dennis Haysbert, Patricia Clarkson, James Rebhorn, Viola Davis. Estreia: 22/11/02

4 indicações ao Oscar: Atriz (Julianne Moore), Roteiro Original, Fotografia, Trilha Sonora Original

Um dos mais populares cineastas da década de 50, o alemão Douglas Sirk teve uma história dramática o suficiente para chegar às telas: quando o nazismo começou a ameaçar o mundo, em 1937, ele teve que abandonar seu país devido às perseguições a sua segunda mulher, a atriz de teatro Hilde Jary. Quem a denunciou (obrigando o casal a fugir para a Itália) foi a primeira esposa de Sirk, a mãe do seu filho (que ele nunca mais viu). O cineasta que, por ironia, era admirado por Goebbels, chegou em Hollywood em 1941, mas foi depois de 1950 que tornou-se uma espécie de marca registrada. Seus filmes estrelados por Rock Hudson ("Sublime obsessão", de 1954, "Tudo que o céu permite", de 1955 e "Palavras ao vento", de 1956), além do clássico "Imitação da vida", que Lana Turner estrelou em 1959 tinham como assinatura um visual extravagante (hoje denominado "kitsch") e um pendor para o melodrama que, apesar do sucesso comercial, só começou a ser reconhecido como estilo a partir dos anos 60, pela prestigiosa revista francesa "Cahiers du Cinéma".

Um dos maiores admiradores de Sirk, o cineasta Todd Haynes encontrou, em 2002, uma maneira de homenageá-lo. "Longe do paraíso", estrelado por Julianne Moore em um momento de grande inspiração, foi um dos filmes mais elogiados do ano, chegando a concorrer a quatro Oscar: além de Moore, a trilha sonora de Elmer Bernstein, a fotografia de Edward Lachman e o roteiro do diretor também foram indicados, mas todos acabaram perdendo as estatuetas. Mesmo assim, o filme de Haynes é um dos mais bem-acabados exemplares de um gênero que era extremamente popular há 60 anos mas que, com o advento do que convencionou-se chamar de "cinema moderno" caiu no limbo: o melodrama. Dono de um visual caprichadíssimo e uma trama que explora os preconceitos e as relações sociais da época, "Longe do paraíso" é uma poderosa vitrine para o talento de todos os envolvidos.



Julianne Moore - no mesmo ano em que também concorreu ao Oscar como coadjuvante por "As horas" - vive Cathy Whitaker, uma dona-de-casa perfeita dos anos 50. Sua vida consiste em cuidar da casa, dos filhos e do marido, o executivo Frank (Dennis Quaid, na melhor atuação de sua carreira), além de ser uma espécie de exemplo para todas as amigas. Seu mundo cor-de-rosa vira do avesso, porém, quando ela descobre que seu marido é homossexual - fato que levará o casal a tentar até mesmo eletrochoques - e começa uma amizade desinteressada por Raymond Deagan (Dennis Haysbert, o presidente dos EUA nas primeiras temporadas da série "24 horas"), o jardineiro de sua casa. Sua relação com um homem negro choca a sociedade e a leva a questionar a fragilidade de sua vida aparentemente intocável.

Além de seu elenco impecável - que também conta com a sempre ótima Patricia Clarkson - "Longe do paraíso" conta com um visual deslumbrante, que remete diretamente ao estilo de cinema que se pretende louvar. Cada cena, milimetricamente elaborada, é uma festa para os olhos, de um colorido obtido através do uso dos mesmos equipamentos utilizados na época em que se passa a trama de Haynes. O technicolor brilhante não apenas conta à audiência como eram os filmes então, e sim a mergulha diretamente no universo de Cathy, de cores exageradas que escondem a escuridão de sua vida matrimonial. Em conjunto com a grandiloquente música do maestro Elmer Bernstein (em seu último trabalho), a reconstituição de época detalhista, a fotografia e o roteiro (que consegue fugir da simples homenagem para ter uma potente vida própria), o filme do diretor de "Velvet goldmine" é um presente para os fãs do cinemão hollywoodiano que não se faz mais no século XXI. E talvez por isso possa parecer tão restrito.

"Longe do paraíso" não foi um sucesso de bilheteria, tendo rendido pouco mais de 15 milhões de dólares no mercado doméstico, o que não deixa de ser esperado. Mas é um dos dramas mais interessantes dos anos 2000, tanto em termos visuais quanto dramáticos. E Julianne Moore é um espetáculo à parte.

Thursday, January 26, 2012

8 MILE, RUA DAS ILUSÕES

8 MILE, RUA DAS ILUSÕES (8 mile, 2002, Universal Pictures, 110min) Direção: Curtis Hanson. Roteiro: Scott Silver. Fotografia: Rodrigo Prieto. Montagem: Craig Kitson, Jay Rabinowitz. Música: Proof. Figurino: Mark Bridges. Direção de arte/cenários: Phillip Messina/Kristen Toscano Messina. Produção executiva: Carol Fenelon, Gregory Goodman, Paul Rosenberg, James Whitaker. Produção: Brian Grazer, Curtis Hanson, Jimmy Iovine. Elenco: Eminem, Kim Basinger, Brittany Murphy, Michael Shannon, Mekhi Pifer. Estreia: 06/11/02

Vencedor do Oscar de Melhor Canção ("Lose yourself")

Não foi apenas Barbra Streisand quem se surpreendeu. Toda a audiência do Oscar 2003 ficou de queixo caído quando a estatueta de Melhor Canção do ano não foi parar nas mãos dos irlandeses da banda U2 (como era o esperado) e sim na estante de Eminem, um rapper branco criado em Detroit que, a despeito de suas polêmicas (ou talvez por causa delas), já havia vendido milhões de CDS e ganho alguns Grammy. Sua canção, intitulada Lose yourself, fazia parte da trilha sonora de um filme sobre um rapaz pobre, de Detroit, que tenta vencer na vida cantando rap. Qualquer semelhança não é mera coincidência. "8 mile, rua das ilusões" é claramente inspirado na vida de Eminem, que, logicamente, interpreta o papel central.

Jimmy Smith, ou B-Rabbit, como é carinhosamente chamado pela família e pelos amigos mais próximos, é um rapaz cuja vida não é exatamente um mar de rosas. Depois de terminar o namoro e iniciar um pesado trabalho em uma metalúrgica, ele volta a morar no trailer que dividia com sua mãe, Stephanie (Kim Basinger, envelhecida e convincente), tendo que aguentar as provocações do novo amante dela, Greg (Michael Shannon), que estudava na mesma escola que ele. Oprimido por situação financeira, o introvertido Rabbit só encontra voz nas letras de rap que escreve, incentivado por sua turma de amigos, um grupo de rapazes que também não parece ter um futuro promissor. Seu talento para a música o leva a inscrever-se em uma espécie de batalha de cantores de rap, que pode ser o trampolim para seu sucesso. Enquanto isso, se envolve em um hesitante romance com a ambiciosa (Brittany Murphy), que o apresenta aos executivos de uma gravadora.




O Oscar de melhor canção, na verdade, não é a única surpresa em relação a 8 mile. Não deixou de ser inesperado, por exemplo, que seu diretor seja Curtis Hanson, na época em alta dentro da indústria devido ao sucesso de crítica de seus "Los Angeles, cidade proibida" e "Garotos incríveis". Com sua elegância e discrição, Hanson transformou o que poderia ser um filme da semana em um drama interessante e capaz de agradar até mesmo a quem não é fã do gênero musical de seu protagonista. Assumindo um projeto que passou pelas mãos de nomes tão díspares quanto os ingleses Stephen Daldry e Alan Parker, o escocês Danny Boyle e até Quentin Tarantino - que só caiu fora porque preferiu dedicar-se a "Kill Bill" - Hanson mostrou uma versatilidade que iria ainda mais além com o drama feminino "Em seu lugar", feito três anos depois. Mas a maior surpresa foi realmente a atuação de Eminem.

Em seu primeiro filme, o cantor/compositor não faz feio. Mais magro do que normalmente e de cabelos tingidos de preto, ele mostra-se natural, frágil e introvertido, sem a agressividade que transmite em seus shows e videoclipes e convence tanto nas cenas dramáticas quanto nas românticas. Evidentemente, em cima de um palco ele cresce, assim como sua personagem. A direção de Hanson transforma um filme sobre um rapaz em busca de seus sonhos em uma versão rap de um filme de esportes (comparar Jimmy Rabbit com Rocky Balboa não seria um exagero), sem a violência (ou pelo menos com ela bastante resumida) e com um bocadinho de crítica social que foi devidamente ignorada por boa parcela do público que lotou as salas de cinema.

"8 mile, rua das ilusões" talvez seja um filme pouco ambicioso para um diretor com a capacidade de Curtis Hanson, mas é um produto sob medida para seu astro, que aproveitou o ensejo para arrancar elogios da crítica e lançar um CD com a trilha sonora. E, se não bastasse, surpreendeu Barbra Streisand e os fãs do U2.  Nada mal!

Tuesday, January 24, 2012

DEIXE-ME VIVER

DEIXE-ME VIVER (White oleander, 2002, Warner Bros, 109min) Direção: Peter Kosminsky. Roteiro: Mary Agnes Donoghue, romance de Janet Fitch. Fotografia: Elliott Davis. Montagem: Chris Risdale. Música: Thomas Newman. Figurino: Susie DeSanto. Direção de arte/cenários: Donald Graham Burt/Bryony Foster. Produção executiva: Stacy Cohen, E.K. Gaylord II, Kristin Harms, Patrick Markey. Produção: Hunt Lowry, John Wells. Elenco: Michelle Pfeiffer, Alison Lohmann, Renée Zellweger, Robin Wright-Penn, Patrick Fugit, Noah Wyle, Cole Hauser. Estreia: 11/10/02

Em 2002, a incansável máquina de fabricar novas estrelas que Hollywood jamais abandona encontrou um novo nome a ser explorado: com meros 13 anos de idade (mas trabalhando como atriz desde a mais tenra infância), a delicada Alison Lohman conquistou a simpatia do público e da crítica no papel de uma frágil pré-adolescente lutando para fugir do jugo de uma mãe dominadora condenada por homicídio. Depois de sua convincente atuação em "Deixe-me viver", adaptado de um romance de Janet Fitch, a jovem Lohman pavimentou seu caminho para trabalhar com diretores do porte de Ridley Scott e Tim Burton - e foi mais um exemplo de que pouca idade não é desculpa para falta de talento: mesmo bastante jovem, ela enfrentou sem medo o desafio de atuar com atrizes consagradas já em seu primeiro filme de grande visibilidade.

Aliás, grande visibilidade em termos. Aposta certeira para a temporada de prêmios - em especial era considerada certeza a indicação de Michelle Pfeiffer ao Oscar de coadjuvante - o filme de Peter Kosminsky acabou morrendo na praia, sem tornar-se nem um êxito de crítica nem o sucesso comercial que se esperava. Porém, a despeito dessa frustrada ambição por estatuetas, "Deixe-me viver" é um filme com belas qualidades. E a maior delas já está estampada no cartaz: o elenco feminino acima de qualquer suspeita.



Em uma interpretação surpreendente, Michelle Pfeiffer vive Ingrid Magnussen, uma artista plástica tão talentosa quanto temperamental que vê sua vida virar de cabeça pra baixo quando mata um ex-amante que a trocou por outra mulher. Condenada à prisão, ela perde a guarda da filha única, Astrid, uma adolescente introvertida que tinha na imagem materna um exemplo a ser seguido. A falta de referências da jovem aumenta ainda mais quando ela passa a viver em consecutivos lares provisórios, tomando contato com realidades distintas da que vivia até então. É assim que ela vai morar, entre outras, com Starr (a excelente Robin Wright), uma mulher que se diz religiosa mas não concebe sua vida sem estar atrelada a um homem e com Claire Richards (Renee Zelwegger), uma atriz decadente com o casamento em frangalhos. Enquanto tenta manter um equilíbrio em seu mundo já bastante bagunçado, Astrid ainda precisa lidar com o fato de não conseguir fugir dos domínios de sua mãe, uma mulher ardilosa e inteligente que tem na filha o único contato com o mundo exterior.

Não se pode dizer que "Deixe-me viver" seja psicologicamente acurado ou tenha personagens brilhantemente desenhados. Seu formato episódico de certa forma prejudica o envolvimento do espectador com suas personagens, que poderiam ser melhor desenvolvidas. É lamentável, por exemplo, que Robin Wright-Penn, uma atriz tão sensacional, fique tão pouco tempo em cena. Mas o roteiro consegue fazer com que a história nunca perca seu interesse e seu foco central (a relação entre Astrid e sua mãe) e, além de tudo, não caia nos exageros melodramáticos que a história fatalmente poderia apresentar devido ao tema. Essa opção por não cair no piegas valoriza o resultado final, ainda que não o torne especialmente marcante. Ainda assim, é um drama competente e que apresentou uma jovem atriz ao mundo. Já está de bom tamanho!

Monday, November 28, 2011

FALE COM ELA

FALE COM ELA (Hable con ella, 2002, Espanha, 112min) Direção e roteiro: Pedro Almodóvar. Fotografia: Javier Aguirresarobe. Montagem: José Salcedo. Música: Alfredo Iglesias. Figurino: Sonia Grande. Direção de arte/cenários: Antxon Gomez/Federico Garcia Cambero. Produção executiva: Agustin Almodóvar. Elenco: Javier Câmara, Dario Grandinetti, Leonor Watling, Rosario Flores, Geraldine Chaplin, Lola Dueñas. Estreia: 15/3/02

2 indicações ao Oscar: Diretor (Pedro Almodóvar), Roteiro Original
Vencedor do Oscar de Roteiro Original
Vencedor do Golden Globe de Melhor Filme Estrangeiro 

No universo do cineasta espanhol Pedro Almodovar - como bem sabem seus inúmeros fãs - nada é preto no branco. Não existem mocinhos e bandidos e nem atos corretos ou errados (ao menos dentro da concepção tradicional do termo). Na obra de Almodovar nada é exatamente o que parece à primeira vista e, dentro de seu mundo particular (onde circulam com desenvoltura personagens da mais alta complexidade) um enfermeiro com características aparentes de homossexualidade é capaz de um ato tresloucado e machista, ainda que revestido de um romantismo distorcido. Nos filmes de Almodovar nenhum amor é normal. Quando alguém se apaixona dentro de um roteiro seu ou rapta a mulher amada (como em "Atame!") ou a estupra, como acontece em "Fale com ela", uma de suas obras-primas, merecidamente premiada com o Oscar de roteiro original.

Surpreendentemente deixada de lado pela Academia em sua lista dos indicados a Melhor Filme Estrangeiro - apesar de ter levado o Golden Globe da categoria - "Fale com ela" de certa forma compensou a esnobada concorrendo em duas categorias nobres e levando a importante estatueta de roteiro (batendo nomes fortes como o belo "Longe do paraíso" e o favorito "Gangues de Nova York"). Na verdade, dar o prêmio a qualquer outro candidato seria impensável: se em seu filme anterior, o incensado "Tudo sobre minha mãe" (que por sua vez levou o Oscar de filme estrangeiro) Almodovar já brindava o espectador com seu estilo próprio de fazer cinema misturando imagens poderosas com tramas e personagens fortes, em "Fale com ela" ele chega a um nível de sofisticação narrativa ainda maior. Ao contrário de muitos filmes cuja trama pobre pode ser resumida em uma única frase, o 14º longa do diretor nascido em uma pequena cidade do interior da Espanha em 1949 é uma prova inconteste de que a imaginação e a poesia ainda são os maiores aliados de um roteirista.



"Fale com ela" conta, na verdade, duas histórias de amor que se transformam em uma bela história de amizade. Depois de ter criado, em "Tudo sobre minha mãe", meia dúzia de personagens femininas de se tirar o chapéu, agora Almodovar presenteia o público com duas personagens masculinas intensas, imprevisíveis e melhor ainda, críveis e humanas. Benigno Martin (o ótimo Javier Câmara) é um enfermeiro dedicado que passa seus dias cuidando de Alicia (Leonor Watling), que entrou em coma depois de ser atropelada em um dia de chuva. Apaixonado pela jovem desde os tempos em que a observava de sua janela enquanto ela fazia aulas de balé na academia em frente à sua casa, Benigno de certa forma aproveita a chance de manter-se perto dela mesmo sabendo da possibilidade de sua inconsciência ser permanente. Sua rotina - para ele doce, ainda que rotina - é alterada quando ele conhece Marco Zuluaga (Dario Grandinetti), um jornalista que chega ao hospital acompanhando a namorada, Lydia Gonzalez (Rosário Flores), uma famosa toureira atingida em plena arena. Solitário, logo Benigno torna-se o confidente de Marco, um homem fechado e profundo a quem ele tenta convencer a manter conversas com a namorada inconsciente.

Como normalmente acontece na obra de Pedro Almodovar, o início de "Fale com ela" - o pontapé inicial de seu roteiro, digamos assim - é apenas um esboço de tudo que virá pela frente. Não demora muito para que o cineasta embaralhe as cartas de seu jogo, emprestando a Benigno características viris e impulsivas que se poderia esperar de Marco e dando a este momentos de uma pureza e sensibilidade próprias de alguém como Benigno. Enquanto o enfermeiro afeminado é capaz de um ato a príncipio brutal (através do qual a vida retorna, de forma irônica), o jornalista viril é capaz de desmanchar-se em lágrimas diante de um número de dança (com a participação especial da alemã Pina Bausch) ou de uma bela canção de amor (interpretada por Caetano Veloso), além de sofrer sem medo da opinião alheia. É o amor dos dois pelas mulheres em coma - mas que mesmo mudas e inertes empurram a trama pra frente - que une Benigno e Marco, que os completam como yin e yang. Mas não são os dois que tem o mesmo equilíbrio e a mesma força de lidar com suas paixões, e é daí, dessa fragilidade passional, que nasce a trágica poesia do filme.

E poesia é o que não falta em "Fale com ela", seja visualmente, através da inspirada fotografia de Javier Aguirresarobe, que transforma a violência das touradas em um balé (que remete às danças de Alicia e aos números de abertura e encerramento da projeção) ou em alguns diálogos de cortar o coração (que citam inclusive Tom Jobim, cuja bela "Por toda a minha vida" na voz de Elis Regina, ilustra lindamente uma tourada de Lydia). Até mesmo a homenagem de Almodovar ao cinema mudo (em uma sequência aparentemente sem importância que dá grandes pistas sobre o que vem a seguir) é um exemplo de concisão e inteligência: a história do "amante minguante" que entra no corpo da mulher que ama é a metáfora perfeita para o desfecho de uma das histórias de amor contadas pelo diretor, que ainda faz o grande favor de não entregar tudo mastigadinho à audiência. O público, encantado, agradece!

Friday, November 18, 2011

ALI

ALI (Ali, 2001, Columbia Pictures, 157min) Direção: Michael Mann. Roteiro: Stephen J. Rivele, Christopher Wilkinson, Eric Roth, Michael Mann, história de Gregory Allen Howard. Fotografia: Emmanuel Lubezki. Montagem: William Goldenberg, Lynzee Klingman, Stephen Rivkin, Stuart Waks. Música: Pieter Bourke, Lisa Gerrard. Figurino: Marlene Stewart. Direção de arte/cenários: John Myhre/Jim Erickson. Produção executiva: Howard Bingham, Lee Caplin, Graham King. Produção: Paul Ardaji, A. Hitman Ko, James Lassiter, Michael Mann, Jon Peters. Elenco: Will Smith, Jon Voight, Jamie Foxx, Mario Van Peebles, Ron Silver, Jeffrey Wright, Mykelty Williamson, Jada Pinkett-Smith, Bruce McGill, Giancarlo Esposito. Estreia: 25/12/01

2 indicações ao Oscar: Ator (Will Smith), Ator Coadjuvante (Jon Voight)

Em 2001 Will Smith já era um dos mais populares astros do cinemão comercial hollywoodiano, tendo participado de alguns dos maiores êxitos de bilheteria da década de 90, como "Independence Day" e "Homens de Preto". Mas como sempre acontece, sua ambição era outra: ser levado a sério como ator. O primeiro passo nessa direção foi o pouco visto "Lendas da vida", onde atuou ao lado de Matt Damon sob a direção de Robert Redford. Mas foi somente com "Ali", a cinebiografia do lutador Muhammad Ali, que Smith mostrou que, por trás de seu grande carisma e do sorriso fácil, havia um intérprete dramático de grande potencial. Mesmo que o filme tenha bombado nas bilheterias americanas (rendeu menos de 60 milhões contra os mais de cem do orçamento generoso), ninguém pode contestar a excelência do desempenho de seu protagonista.

Dirigido por Michael Mann logo após seu sucesso absoluto com "O informante" - que chegou a lhe dar uma indicação ao Oscar de direção - "Ali" não é uma cinebiografia no sentido tradicional. O roteiro inicial, que ultrapassava 200 páginas e mostrava toda a sua vida desde a infância foi amplamente reescrito por Mann e Eric Roth (os autores do script de "O informante") e passou a concentrar-se em um período específico da vida do lutador, justamente em seu auge e na fase mais polêmica de sua carreira, quando envolveu-se com o islamismo e perdeu o título de campeão mundial por recusar-se a ir para a guerra do Vietnã. Ao dedicar-se especificamente a esse ângulo da história o filme de Mann torna-se muito mais interessante, porque, através de seu protagonista e de suas lutas pessoais forma-se também um painel da história dos EUA, com seus problemas sociais e um racismo latente que fica óbvio através principalmente dos coadjuvantes da trama, como os conhecidos Malcolm X (em uma atuação acertada do cineasta Mario Van Peebles), Don King (Mykelty Williamson) e o repórter esportivo Howard Cosell (vivido por um irreconhecível Jon Voight).


Entre os acertos de "Ali" está também o tom sóbrio impresso por Mann, um cineasta elegante que não permite que a história resvale para o sentimentalismo nem mesmo quando todas as circunstâncias clamam por isso (e a interpretação do sempre ótimo Jamie Foxx como o empresário viciado em drogas de Ali é um perfeito exemplo dessa afirmação). E mesmo que as cenas de luta não sejam exatamente empolgantes (ainda que também não sejam más) o trabalho detalhista de Will Smith compensa qualquer falha. Merecidamente indicado ao Oscar, o jovem ator prova que seu desejo de ser considerado um ator de verdade não é apenas vaidade rasa. Encarar uma personagem tão maior que a vida quanto Muhammad Ali não é pra qualquer um, e Smith tira de letra o desafio auto-imposto (além de ter reduzido seu salário para que o filme pudesse ser feito).

Mesmo que tenha falhas em seu desenvolvimento (como a desnecessária duração excessiva e o superficialismo na relação de Ali com suas esposas), "Ali" tem mais qualidades do que defeitos. Seu relativo fracasso de bilheteria não condiz com o capricho de sua realização e a dedicação de seus colaboradores. Para as novas gerações Muhammad Ali tem o rosto de Will Smith. Não se pode dizer que seja injusto!

Thursday, November 10, 2011

INFIDELIDADE

INFIDELIDADE (Unfaithful, 2002, Fox 2000 Pictures, 112min) Direção: Adrian Lyne. Roteiro: Alvin Sargent, William Broyles Jr., roteiro original de Claude Chabrol. Fotografia: Peter Biziou. Montagem: Anne V. Coates. Música: Jan A.P. Kaczmarek. Figurino: Ellen Mirojnick. Direção de arte/cenários: Brian Morris/Susan Tyson. Produção executiva: Lawrence Steven Meyers, Arnon Milchan, Pierre-Richard Muller. Produção: G. Mac Brown, Adrian Lyne. Elenco: Richard Gere, Diane Lane, Olivier Martinez, Chad Lowe, Erik Per Sullivan, Michelle Monaghan, Myra Lucretia Taylor. Estreia: 10/5/02

Indicado ao Oscar de Melhor Atriz (Diane Lane)

Em 1986 o cineasta inglês Adrian Lyne inspirou centenas de casais mundo afora com as tórridas fantasias retratadas no cult "9 1/2 semanas de amor". No ano seguinte, apavorou homens casados e foi indicado ao Oscar por "Atração fatal" e em 1993 aproveitou o auge da beleza de Demi Moore para provocar polêmica com "Proposta indecente". Utilizando mais uma vez seus ingredientes "infalíveis" ele voltou à a baila com "Infidelidade", que mistura a sensualidade de "9 1/2" com a temática adulta de "Atração" e a controvérsia de "Proposta". O resultado é um filme que não se decide entre o drama, o erotismo e o suspense e que tem como maior trunfo a atuação irrepreensível de Diane Lane. 


Lane mereceu uma surpreendente indicação ao Oscar por seu trabalho como Connie Sumner, uma dona-de-casa que leva uma vida tranquila e sem maiores sobressaltos em um subúrbio de Nova York, ao lado do marido, Edward (Richard Gere no atípico papel de marido sem sex-appeal) e do filho pequeno. Em uma tarde como outra qualquer em Manhattan, durante uma ventania ela esbarra no sexy Paul Martel (o inexpressivo francês Olivier Martinez), um comerciante de livros usados e vai pra casa dele cuidar de um ferimento no joelho. Intrigada com o rapaz, logo ela passa a encontrar-se regularmente com ele, iniciando um quente e passional relacionamento extra-conjugal. Em breve a relação começa a atrapalhar a rotina de Connie e despertar a suspeita do marido, que, desconfiado, contrata um detetive para seguir a mulher. Quando a verdade vem à tona, uma tragédia transforma a vida de todos.


O problema maior de "Infidelidade" é justamente sua falta de foco. O que parecia um drama familiar - casal sendo obrigado a lidar com a falta de novidades e uma traição - logo transforma-se em um romance com um erotismo tórrido e de bom gosto - marca registrada do diretor - e, no terço final, vira um filme de suspense de pouco alcance, que ainda consegue decepcionar com mais uma conclusão decepcionante e ambígua, que enfraquece o conjunto (e isso vindo do homem que não teve medo de fazer Glenn Close cozinhar um coelhinho de estimação!) Se tivesse se concentrado em qualquer uma das vertentes que a história - baseada em um filme de Claude Chabrol - oferece, Lyne com certeza teria tido mais sucesso, principalmente porque daria a seu elenco personagens menos unidimensionais e um tanto inverossímeis.

Mas para não dizer que não falei das flores, nem tudo é fraco em "Infidelidade". Como já foi dito, as cenas de sexo entre Diane Lane e Olivier Martinez são fotografadas com maestria por Peter Biziou - vencedor de um Oscar por "Mississipi em chamas" - e o clima de tensão que permeia o filme são realmente competentes. Mas é a presença luminosa de Lane que definitivamente salva a obra de Adrian Lyne da vala dos dramas corriqueiros que infestam as sessões de sábado à noite na televisão. Madura e bonita como nunca, ele consegue transmitir toda a gama de emoções que o roteiro limitado lhe proporciona (um exemplo claro dessa afirmação é a cena em que, em um trem, ela relembra o primeiro encontro sexual com o amante, uma cena filmada em um único take e que é suficiente para deixar claros os sentimentos da personagem). Apesar de todos os problemas do filme, ela vale cada minuto de projeção, em uma interpretação que lhe colocou entre os grandes nomes de sua geração.

Monday, November 7, 2011

BEM-ME-QUER, MAL-ME-QUER

BEM-ME-QUER, MAL-ME-QUER (À la folie...pas du tout, 2002, 92 min) Direção: Laetitia Colombani. Roteiro: Laetitia Colombani, Caroline Thivel. Fotografia: Pierre Aim. Montagem: Véronique Parnet. Música: Jérôme Coullet. Figurino: Jacqueline Bouchard. Direção de arte/cenários: Jean-Marc Kerdelhue/Odile Hubert. Produção executiva: Dominique Brunner. Produção: Charles Gassot. Elenco: Audrey Tautou, Samuel Le Bihan, Isabelle Carré, Sophie Guillemin, Clément Sibony. Estreia: 27/03/02

A bela Audrey Tautou teve a sorte e o azar de estrelar o sensacional "O fabuloso destino de Amélie Poulain". Sorte porque o filme de Jean-Pierre Jeunet tornou-se um clássico instantâneo. E azar porque, a partir dele, poderia ficar para sempre presa na imagem icônica da personagem. Uma das primeiras tentativas de fugir dessa armadilha é esse drama que, à primeira vista, é mais um romance água-com-açúcar, mas que aos poucos revela-se bem mais inteligente e surpreendente.

Em "Bem-me-quer, mal-me-quer" Tautou vive Angélique, uma jovem romântica e sonhadora que é apaixonada pelo bem-sucedido cardiologista Luic (Samuel Le Biehn), um homem casado, mais velho e às vésperas de ser pai. Seu amor incondicional a leva a rejeitar as constantes investidas de um pretendente de sua idade e estudante de Medicina. Apesar das evidências que lhe são mostradas dia-a-dia por seus amigos, Angélique acredita piamente que sua paciência será recompensada com a separação de Luic. Quando as coisas começam a demorar a acontecer, no entanto, ela resolve que é hora de agir e apressar os acontecimentos.

A partir daí, o roteiro co-escrito pela diretora Laetitia Colombini mostra que boas ideias são capazes de operar milagres. De uma hora pra outra, o drama romântico vivido por Angélique se torna um suspense imprevisível, valorizada pela competente edição. E é aí, principalmente, que Tautou demonstra que não é atriz de um papel só. Sem estragar nenhuma surpresa, basta dizer que a jovem francesa acaba fazendo praticamente dois papéis distintos e que o final, apesar de um tanto pessimista, deixa o público bastante satisfeito. O uso inteligente de repetições e cortes aparentemente bruscos faz todo o sentido quando finalmente a plateia consegue visualizar o quadro todo e não apenas um pedaço. E, apesar de soar um tanto superficial no estudo da personalidade de sua protagonista, Colombini oferece mais do que simplesmente um drama boboca e corriqueiro.

"Bem-me-quer, mal-me-quer" não é um típico produto francês - e sua própria estrutura fragmentada deve muito ao cinema americano pós-Tarantino (ainda que o estilo exista desde sempre no cinema). Mas é uma alternativa saudável para um público que gosta de sair de vez em quando da dieta tradicional de entretenimento ianque.

Thursday, October 27, 2011

CHEGADAS E PARTIDAS

CHEGADAS E PARTIDAS (The shipping news, 2001, Miramax Films, 111min) Direção: Lasse Halstrom. Roteiro: Robert Nelson Jacobs, romance de Annie Proulx. Fotografia: Oliver Stapleton. Montagem: Andrew Mondsheim. Música: Christopher Young. Figurino: Renee Ehrlich Kalfus. Direção de arte/cenários: David Gropman/Patricia Larman, Gretchen Rau. Produção executiva: Meryl Poster, Bob Weinstein, Harvey Weinstein. Produção: Rob Cowan, Linda Goldstein Knowlton, Leslie Holleran, Irwin Winkler. Elenco: Kevin Spacey, Julianne Moore, Judi Dench, Cate Blanchett, Pete Postlethwaite, Scott Glenn, Rhys Ifans, Jason Behr, Larry Pine. Estreia: 25/12/01

Não tinha como dar errado: o diretor sueco Lasse Halstrom, que vinha de dois filmes indicados ao Oscar máximo - "Regras da vida" e "Chocolate" -, uma trama dramática com personagens densos e segredos familiares tenebrosos e um elenco de sonhos - Kevin Spacey, Julianne Moore, Judi Dench e Cate Blanchett apenas para citar os mais conhecidos e premiados. Por que, então, "Chegadas e partidas" deixa um sabor tão grande de decepção quando acaba? A culpa é do roteiro, que nunca chega a emocionar? Da direção surpreendentemente distante de Halstrom? Ou será que o principal erro do filme é justamente o que, em tese, seria seu maior trunfo: o elenco?

Kevin Spacey - recém saído do Oscar merecido por "Beleza americana" - é o protagonista, mas exagera na sutileza e parece apático demais como Quoyle, um zé-ninguém que, depois da morte trágica da esposa Petal (Cate Blanchett, a melhor coisa do filme mas que, no entanto, desaparece depois de 15 minutos), vai morar em uma ilha de pescadores de onde se origina sua família. Ao lado da filha pequena e de sua aparentemente gélida tia Agnis (Judi Dench) - que esconde um segredo devastador - ele tenta reconstruir sua vida, trabalhando como o responsável pelas notícias náuticas do pequeno jornal da cidade, dirigido por um pescador pouco preocupado com seu negócio (Scott Glenn). Enquanto tenta esquecer a esposa - que amava apesar da relação horrível que tinham, ele se envolve com Wavey Prowse (Julianne Moore), uma solitária viúva mãe de um menino com problemas de saúde.



Talvez o grande problema de "Chegadas e partidas" nem seja o elenco - que tenta tirar leite de pedra - nem a direção distante de Halstron, que provavelmente quis retratar com o máximo de exatidão o clima frio onde situa sua história. O que acontece é que, por alguma razão misteriosa (ou nem tão misteriosa assim, já que o filme tem um ritmo pouco convidativo), as personagens não cativam o público, ao contrário do que aconteceu em "Regras da vida", por exemplo. O protagonista vivido por Kevin Spacey é de uma apatia irritante, o que acaba prejudicando seu diálogo com a plateia, e nem mesmo seu hesitante romance com Moore - mais bela do que nunca - consegue empolgar o espectador. Resta o show de Judi Dench, roubando todas as cenas em que aparece, com a personagem mais forte e bem desenhada do roteiro esquemático e pouco caloroso (inspirado em um romance da mesma autora que legou o conto que deu origem ao premiado "O segredo de Brokeback Mountain" cinco anos depois).

"Chegadas e partidas" poderia ter sido um grande filme se seguisse o tom emotivo dos trabalhos anteriores de seu diretor. Como está é mais uma produção com cara de filme feito para a TV, apesar de seu elenco multi-premiado.

Wednesday, October 26, 2011

A ÚLTIMA CEIA

A ÚLTIMA CEIA (Monster's ball, 2001, Lions Gate Films, 111min) Direção: Marc Forster. Roteiro: Milo Addica, Will Rokos. Fotografia: Roberto Schaefer. Montagem: Matt Chessé. Música: Asche and Spencer. Figurino: Frank Fleming. Direção de arte/cenários: Monroe Kelly/Leonard R. Spears. Produção executiva: Michael Burns, Michael Paseornek. Elenco: Billy Bob Thornton, Halle Berry, Heath Ledger, Peter Boyle, Sean Combs, Mos Def, Coronji Calhoun. Estreia: 26/12/01


2 indicações ao Oscar: Atriz (Halle Berry), Roteiro Original
Vencedor do Oscar de Melhor Atriz (Halle Berry)

Halle Berry foi a primeira (e até agora a única) negra a ganhar o Oscar de Melhor Atriz, abrindo um importante precedente na história do cinema. Bela e sensual, ela despojou-se de todo o seu arsenal sedutor para encarar sua personagem em "A última ceia", uma viúva amargurada e com uma vida infeliz, que se envolve em um romance melancólico com um homem igualmente desesperançado. Seu trabalho intenso e forte mereceu a estatueta, ainda que o fato de ela ter levado o prêmio no mesmo ano em que Denzel Washington foi eleito o Melhor Ator pelo banal "Dia de treinamento" tenha sido considerado por muitos como um ato de diplomacia da formal Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood.

Especulações paranoicas à parte, a atuação de Berry é, sem dúvida, um atrativo e tanto ao filme de Marc Foster, um trabalho pesado, denso e dono de um ritmo que foge léguas dos dramas mais convencionais que costumam ganhar o Oscar. Ela vive Leticia, uma garçonete que acaba de ficar viúva do criminoso Lawrence Musgrove (o cantor Sean "Puff Daddy" Combs, se saindo melhor do que se poderia esperar), executado na cadeira elétrica. Como se viver ameaçada de despejo e ter perdido o marido em circunstâncias tão cruéis não fosse o suficiente, Leticia ainda passa por uma outra experiência devastadora, o que a leva a travar conhecimento com Hank Grotoski (Billy Bob Thornton), que acaba de passar por uma tragedia envolvendo seu filho único, Sonny (Heath Ledger começando a demonstrar que era um excelente ator), com quem mantinha uma relação fria e de quase ódio. Os dois começam uma relação baseada no apoio mútuo, mas, além de ter que enfrentar o racismo de Buck (Peter Boyle), pai de Hank - e até dele mesmo - Leticia também terá de enfrentar a revelação de que Hank e seu filho foram os guardas responsáveis pelos últimos dias de seu marido na prisão.



"A última ceia" não é um filme leve e recomendável a quem procura dramas pasteurizados ao estilo "Filme da Semana". Sem dar espaço para um mínimo de senso de humor ou leveza - até mesmo suas polêmicas cenas de sexo são secas, duras, sem glamour ou qualquer tipo de romantismo - o roteiro narra o encontro de seus protagonistas como uma válvula de escape, a última chance de viverem seus dias com menos peso e tristeza. Os personagens defendidos por Berry e Thornton (em um ano excepcional que também ofereceu a ele os filmes "O homem que não estava lá" e "Vida bandida") são duas pessoas desencantadas e cansadas da vida que levam, e isso se reflete em seus olhares desprovidos de empolgação ou paixão. Billy Bob vive um Hank cuja vida não passa de um dia-a-dia enfadonho e que vislumbra em Leticia uma possibilidade de redenção (e uma prova para si mesmo de que é capaz de sentir algo mais do que desprezo). Hale Berry interpreta Leticia como uma mulher que precisa de sustentação, de alguém que a apoie, de um respiro de tranquilidade e paz. E a cena final, de uma sutileza ímpar no cinema americano talvez incomode àqueles que procuram roteiros simplistas. Mas tem uma verdade e uma honestidade difícil de se encontrar em filmes comerciais. 

Wednesday, October 5, 2011

ASSUNTO DE MENINAS


ASSUNTO DE MENINAS (Lost and delirious, 2001, Lions Gate Films, 103min) Direção: Léa Pool. Roteiro: Judith Thompson, romance de Susan Swan. Fotografia: Pierre Gil. Montagem: Gaetan Huot. Música: Yves Chamberlain. Figurino: Aline Gilmore. Direção de arte/cenários: Serge Bureau/Josée Arsenault. Produção executiva: Louis Laverdière. Produção: Greg Dummett, Lorraine Richard, Louis-Philippe Rochon. Elenco: Piper Perabo, Jessica Paré, Mischa Barton, Jackie Burroughs, Graham Greene, Emily Vancamp. Estreia: 20/7/01

Apesar do título nacional forçar uma identificação com o público GLS, esse consistente drama canadense foge com louvor do rótulo “filme gay” para tornar-se (mais) um delicado conto sobre a perda da inocência. Narrado em primeira pessoa por Mary, também conhecida por “Mouse” ou “Brave B” (vivida pela ótima Mischa Barton), o conto de amor, rejeição e amadurecimento apresentado tem a seu favor inúmeras qualidades. O roteiro, baseado no romance de Susan Swan, é sutil, desbragadamente romântico e surpreendente, além de ter traços de um realismo de cortar o coração. A bela trilha sonora exprime com competência os sentimentos das personagens e até mesmo o enfoque dado ao romance homossexual das personagens foge do convencional. A diretora não quer ser sexy e sim falar de amor (e o fato de ser uma diretora e não um diretor faz toda a diferença nesse caso).

Graças à influência de sua madrasta, a pré-adolescente Mary Bedford (Mischa Barton) é transferida para um colégio interno feminino. Sensível e solitária, a menina logo se torna grande amiga de suas duas colegas de quarto, a delicada Victoria (Jéssica Paré) e a extrovertida e rebelde Pauline (Piper Perabo), que extravasa seu sentimento de rejeição por ter sido abandonada quando bebê sendo a mais conhecida e complicada aluna da escola. Em pouco tempo de colégio, Mary descobre que a amizade entre Pauline e Victoria ultrapassa os limites de uma amizade convencional e torna-se confidente das duas. No entanto, quando Victoria resolve terminar o relacionamento com a namorada, devido à pressão familiar, Pauline não aceita o rompimento e, usando como exemplo textos de Shakespeare e a maneira de viver de um gavião do qual tornou-se protetora, arma um plano para uma reconciliação. Seus planos, no entanto, podem acabar em tragédia, e só a amizade de Mary tem a possibilidade de impedí-la.



O elenco também não decepciona. A participação especial de Graham Greene (indicado ao Oscar por “Dança com lobos”) como um jardineiro que serve de ponte entre Mary e sua vida pregressa é simpática e agradável. As diretoras da escola, elas próprias envolvidas em segredos amorosos, são vividas com franqueza por Mimi Kuzyk e Jackie Burroughs. A bela Jessica Pare justifica todo o amor que desperta, além de emocionar com sua falta de determinação para viver sua história. E Piper Perabo, que começou a carreira em filmes como “Showbar” prova que, com um bom papel em mãos é capaz de transformar-se em uma atriz promissora e forte.

"Assunto de meninas" não é apenas mais um filme sobre meninas que se apaixonam. É, antes de tudo, uma história de amadurecimento, de amizade e de como o amor pode ser destrutivo. 

Monday, October 3, 2011

E SUA MÃE TAMBÉM



E SUA MÃE TAMBÉM (Y tu mama tambien, 2001, México, 106min) Direção: Alfonso Cuarón. Roteiro: Alfonso Cuarón, Carlos Cuarón. Fotografia: Emmanuel Lubezki. Montagem: Alfonso Cuarón, Alex Rodriguez. Figurino: Gabriela Diaque. Direção de arte/cenários: Marc Bedia, Miguel Angel Alvarez/Roberto Loera. Produção executiva: Sergio Aguero, Amy Kaufman, David Linde. Produção: Alfonso Cuarón, Jorge Vergara. Elenco: Gael García Bernal, Diego Luna, Maribel Verdu. Estreia: 08/6/01 (México)

Indicado ao Oscar de Roteiro Original

A transição da adolescência para a fase adulta já foi tema de centenas de filmes desde a invenção do cinema e talvez por isso mesmo produções com essa temática tenha sérios detratores, uma vez que normalmente esses filmes seguem uma linha de pornochanchada de qualidade questionável. Não deixa de ser uma surpresa, portanto, quando um filme mexicano consegue ultrapassar as barreiras de preconceitos idiomáticos e temáticos e chega a concorrer a um inesperado Oscar de roteiro original. Esse filme, dirigido pelo mesmo Alfonso Cuaron – que já passou por Hollywood para dirigir “A princesinha” e “Grandes esperanças” – é “E sua mãe também”, uma divertida e melancólica comédia que atinge seus objetivos de entreter e ainda por cima arruma espaço para discussões sociais e até sobre diferenças entre os sexos.

Os protagonistas são Julio (Gael García Bernal) e Tenoch (Diego Luna), dois amigos mal saídos da adolescência que, longe das namoradas que foram viajar de férias pela Europa, resolvem empreender uma viagem de carro em busca de uma praia inventada por eles em sua ânsia de seduzir Luisa (Maribel Verdú), esposa de um primo de Tenoch. Tenoch é filho de um político corrupto e Julio é de uma classe social inferior, o que não os impede de manter uma amizade antiga e quase desprovida de preconceitos. Durante a viagem com Luisa, eles acabam confrontados com suas verdades pessoais e, graças a sua companheira de aventura, iniciam um caminho irretornável à maturidade.


Aparentemente “E sua mãe também” é apenas mais uma versão mexicana de filmes adolescentes americanos, mas uma olhada mais aprofundada mostra a verdade sobre a pequena obra-prima de Cuaron, escrita em parceria com seu irmão. Utilizando a técnica antiga mas ainda eficaz em certos casos de um narrador em terceira pessoa, o roteiro permite ao espectador aprofundar-se na personalidade de suas personagens, com informações às vezes nem disponíveis a elas. Sem nunca permitir-se optar pelo caminho mais fácil de contar sua história, o diretor tampouco cede à tentação de mostrar um México de cartão postal, utilizando a fotografia de Emmanuel Lubezki como comentários visuais de suas teorias sobre a desigualdade social de seu país. Ao contrário de seu filme anterior, o visualmente deslumbrante “Grandes esperanças”, dessa vez Lubezki conta com lentes quase nuas, sem retoques ou matizes para disfarçar as coisas de como elas realmente são.

"E sua mãe também" chega a ser vulgar em certos diálogos, mas sua veracidade verbal não tem objetivo de chocar e/ou provocar risos forçados. Da maneira como são ditas pelos ótimos Gael García Bernal e Diego Luna, as falas, repletas de palavrões, soam até mesmo inocentes e ingênuas em determinados momentos. E é essa paradoxal ingenuidade da trama dos irmãos Cuarón que talvez tenha encantado seu público e a crítica. Uma ingenuidade que, como mostra a sequência final do filme, tem prazo limitado e que, quando acaba, leva junto boa parte da felicidade juvenil inerente às amizades descompromissadas.

Tuesday, September 20, 2011

AMORES BRUTOS

AMORES BRUTOS (Amores perros, 2001, México, 154min) Direção: Alejandro Gonzalez Iñarritu. Roteiro: Guillermo Arriaga. Fotografia: Rodrigo Prieto. Montagem: Luis Carballar, Alejandro Gonzalez Iñarritu, Fernando Perez Unda. Música: Gustavo Santaolalla. Figurino: Gabriela Diaque. Direção de arte/cenários: Brigitte Broch/Julieta Alvarez. Produção executiva: Francisco Gonzalez Compeán, Martha Sosa Elizondo. Produção: Alejandro Gonzalez Iñarritu. Elenco: Gael Garcia Bernal, Emilio Echevarria, Goya Toledo, Adriana Barraza, Alvaro Guerrero, Vanessa Bauche, Humberto Busto. Estreia: 14/5/00 (Festival de Cannes)

Indicado ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro

Impressionante como poucos filmes de estreia, o mexicano “Amores brutos” marca como uma cicatriz profunda. Sem preocupar-se a fazer concessões a uma estética americanizada e com uma forte história – ou seriam três? – a ser contada, o filme de Alejandro Gonzalez Iñarritu é um dos melhores produtos cinematográficos do México e nem precisou de um astro internacional ou um orçamento milionário pra isso – vale lembrar que em 2000 Gael García Bernal ainda não era tão famoso como é hoje

Conforme sugere o título original do filme – “Amores perros” – são cães que unem, sutil e habilmente as histórias contadas no genial roteiro de Guillermo Arriaga. Genial porque não tenta forçar a união entre as histórias e mais genial ainda ao contar histórias fortes, com personagens polidimensionais e humanos enfrentando momentos cruciais de suas vidas. Tudo começa com um violento acidente de carro – filmado magistralmente pelas câmeras de Rodrigo Prieto. A partir daí as histórias são contadas, através de um engenhoso flashback que mostra como elas chegaram até ali. A primeira trama a ser mostrada envolve o jovem Octavio (o ótimo Gael García Bernal), um rapaz apaixonado pela cunhada maltratada pelo marido e que utiliza seu cachorro em lutas de cães para arrumar dinheiro e poder fugir com ela. A segunda história é a da bela modelo Valeria (Vanessa Bauche), que ao finalmente conseguir casar-se com o homem que ama, que abandona a esposa para ficar com ela, sofre o tal acidente do início do filme. Sua única companhia em seus momentos de solidão é seu cãozinho de estimação que, ao ficar preso sob seu apartamento causa um acidente ainda mais grave à sua dona. E por fim, mas não menos importante, o ex-guerrilheiro Chivo (Emilio Echeverria), que salva o cão de Octavio de morrer no acidente automobilístico resolve abandonar a vida de mendigo e matador de aluguel para buscar reencontrar a filha que abandonou ainda criança.    


Ao contrário de muitos filmes que se utilizam de histórias fracionadas para exibir um quebra-cabeças frágil e sem substância, “Amores brutos” acredita em seu roteiro e em seus personagens, tão completos e complexos que sustentariam tranqüilamente um filme inteiro. A maneira como personagens aparentemente tão díspares são ligados acaba sendo apenas um mero detalhe em um filme repleto deles, todos tão fascinantes quanto as personalidades retratadas por Arriaga, um observador acurado de seres antes de mais nada extremamente humanos. O paradoxo de utilizar animais como elementos de ligação entre humanos em momentos tão extremos é só mais um artifício utilizado com inteligência pelo roteirista, que em conjunto com o diretor Iñarritu e os editores realizou um dos mais impactantes filmes do cinema contemporâneo mexicano, que revela talentos crus e viscerais.

Monday, September 19, 2011

UM AMOR QUASE PERFEITO

UM AMOR QUASE PERFEITO (Le fate ignoranti, 2001, Medusa Distribuzione, 106min) Direção: Ferzan Ozpetek. Roteiro: Ferzan Ozpetek, Gianni Romoli. Fotografia: Pasquale Mari. Montagem: Patrizio Marone. Música: Andrea Guerra. Figurino: Catia Dottori. Direção de arte/cenários: Bruno Cesari. Produção: Tilde Corsi, Gianni Romoli. Elenco: Margherita Buy, Stefano Accorsi, Serra Yilmaz, Gabriel Garko, Erika Blanc, Andrea Renzi. Estreia: 08/02/01 (Festival de Berlim)

A médica infectologista Antonia (Margherita Buy) leva um casamento de sonhos com seu marido, Mássimo, apesar de ter deixado para trás desejos como o de ter filhos e de ter se afastado dos amigos para dedicar-se à relação. Quando Mássimo morre repentinamente, vítima de um atropelamento, ela descobre abismada que ele tinha um caso extra-conjugal há sete anos. A busca por sua rival a leva até o jovem Michele (Stefano Accorsi) e, ainda mais atônita, a médica percebe que seu marido mantinha um relacionamento com o próprio rapaz. A princípio arrasada com a notívia, Antonia acaba se tornando responsável por Ernesto (Gabriel Garko), um jovem soropositivo amigo de Michele e, aos poucos, começa a notar que, ao lado dele Massimo era outra pessoa e que vivia com os amigos do amante como se fizessem todos parte de uma grande família. Ela e Michele passam, então, a conviver como amigos, vendo um no outro a lembrança do seu amor perdido.

Grande sucesso de bilheteria na Itália, seu país natal, “Um amor quase perfeito”, belo drama de Ferzan Ozpetek tem como principal qualidade a forma de apresentar e tratar de um assunto tabu: a bissexualidade. Ao introduzir a Antonia o mundo escondido de seu marido, o cineasta também mostra ao público uma nova maneira de ver um universo normalmente relegado ao estereótipo e ao humor exagerado. A família de amigos de Michele (uma uma interpretação excelente do galã Stefano Accorsi), por exemplo, é um núcleo familiar que foge ao padrão pré-estabelecido, mas é amorosa, leal e solidária. Há a mãezona (vivida pela ótima Serra Yilmaz), o casal bem-sucedido, o transexual fugido da verdadeira família, etc. Todos, no entanto, são personagens bem escritos, sem o ranço politicamente correto e preconceituoso que povoa o cinema comercial de modo geral.


Sem apelar para emoções fáceis ou sentimentos pasteurizados, Ozpetek criou um universo repleto de calor humano e personagens dicotômicos: ninguém é totalmente bom e ingênuo, todos tem seu passado e esperam seu futuro com maior ou menor esperança. Para isso é essencial o talento de seus dois protagonistas, Margherita Buy e Stefano Accorsi, que vive um gay longe das afetações comuns. Com um texto forte, uma trama atual (que encontra um espacinho para uma crítica de leve ao governo turco) e um elenco homogêneo e absolutamente à vontade em suas personagens únicas em suas personalidades e ordinárias em suas grandezas, “Um amor quase perfeito” (um título nacional mais uma vez totalmente sem sentido) é um legítimo representante do ótimo cinema italiano do começo do século.

Em tempo: as “fadas ignorantes” do título original são as pessoas que, mesmo sem o saber, transformam a vida de outras. E é o nome do quadro que Michele manda para Mássimo e que acaba sendo a pista que o revela à Antonia. Uma sutileza a mais em um filme simpático e realista.

Monday, September 12, 2011

TRAFFIC

TRAFFIC (Traffic, 2000, USA Films, 147min) Direção: Steven Soderbergh. Roteiro: Stephen Gaghan, minissérie escrita por Simon Moore. Fotografia: Steven Soderbergh (como Peter Andrews). Montagem: Stephen Mirrione. Música: Cliff Martinez. Figurino: Louise Frogley. Direção de arte/cenários: Philip Messina/Kristen Toscano Messina. Produção executiva: Cameron Jones, Graham King, Andreas Klein, Mike Newell, Richard Solomon. Produção: Laura Bickford, Marshall Herskovitz, Edward Zwick. Elenco: Michael Douglas, Benicio Del Toro, Catherine Zeta-Jones, Dennis Quaid, Steven Bauer, Miguel Ferrer, Albert Finney, Clifton Collins Jr., Jacob Vargas, Erika Christensen, Amy Irving, Topher Grace, Salma Hayek, Luiz Guzman, Don Cheadle, James Brolin. Estreia: 27/12/00

5 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Steven Soderbergh), Ator Coadjuvante (Benicio Del Toro), Roteiro Adaptado, Montagem
Vencedor de 4 Oscar:Diretor (Steven Soderbergh), Ator Coadjuvante (Benicio Del Toro), Roteiro Adaptado, Montagem
 Vencedor de 2 Golden Globes: Ator Coadjuvante (Benicio Del Toro), Roteiro 

Concorrer consigo mesmo na disputa pelo Oscar não é trabalho para qualquer cineasta, mas Steven Soderbergh não pode ser considerado um qualquer. No mesmo ano em que entregou ao público e à crítica o correto e quadradinho (mas ainda assim bom) “Erin Brockovich”, ele voltou às origens independentes de seu promissor início – vencedor da Palma de Ouro em Cannes com “sexo, mentiras e videotape” – com “Traffic”, um trabalho ousado, corajoso e ambicioso, que tinha como objetivo traçar um painel sobre o tráfico de drogas nos EUA e na sua fronteira com o México. Com base em uma minissérie de TV, adapatada com sucesso por Steve Gaghan, Soderbergh levou aos cinemas uma obra de impacto, que relembra seu inegável talento como cineasta visceral. Não à toa, venceu a si mesmo na disputa do Oscar de diretor – categoria na qual também concorria por “Erin Brockovich”.

A grande sacada do diretor foi a de contar três histórias diferentes, interligadas por pequenos detalhes mas que nunca chegam a se cruzar diretamente, como em outros filmes de sua época. Para não confundir a plateia com tantas personagens que passam pela tela, ele conta cada uma das histórias com um visual diferente, com uma fotografia em cores distintas. A trama que se passa no México, onde o policial Javier Rodriguez Rodriguez (Benicio Del Toro impecável e merecido vencedor do Oscar de ator coadjuvante) tenta resistir ao mar de corrupção que o cerca tem uma tonalidade quente, sufocante, quase em sépia. A luta de Robert Wakefield (um Michael Douglas sério e compenetrado) - juiz da Suprema Corte americana nomeado chefe do combate às drogas - em salvar sua própria filha adolescente do vício (a estreante Érika Christensen) é fotografada em tons azulados. E o drama da socialite Helena Ayala (Catherine Zeta-Jones grávida de verdade durante as filmagens), que tem seu marido – um influente traficante de drogas vivido por Steven Bauer – preso, é narrado sob uma fotografia naturalista. Com uma edição arrojada de Stephen Mirrione (também premiada com uma estatueta da Academia) e um roteiro que em nenhum momento se deixa tornar confuso e/ou redundante, o panorama traçado por Soderbergh choca, angustia e faz pensar.


“Traffic” faz parte de uma estirpe rara de produções cinematográficas. Inteligente, forte e com muito a contar, o filme de Steven Soderbergh e companhia é um entretenimento adulto, para um público sofisticado, que procura substância em meio a um cinema cada vez mais superficial e cínico. Ao expor a enorme teia de interesses escusos que move o tráfico de drogas – e por meio da família do juiz vivido por Michael Douglas aproximá-la do cotidiano da plateia – o roteiro de Gaghan foge do tradicional modelo de contrapor vilões e mocinhos. No mundo retratado pelo filme, cada atitude das personagens é movida por molas outras que não apenas um caráter estereotipado. O juiz que vira czar anti-drogas não consegue deixar que o tóxico entre em sua casa pela porta da frente. O policial incorruptível se deixa amolecer para garantir um futuro menos trágico para os seus. E a socialite fútil torna-se uma mulher forte e ferina para defender seus interesses e de sua família, mesmo que isso a obrigue a ir contra a lei.

“Traffic” é um grande filme. Perdeu o Oscar principal para “Gladiador”, um super-espetáculo grandioso e perfeito em seu objetivo de entreter pura e simplesmente, mas as personagens escritos por Steve Gaghan – dolorosamente reais e humanas – vão permanecer na mente dos espectadores por muito tempo.

Monday, September 5, 2011

CONTOS PROIBIDOS DO MARQUÊS DE SADE

CONTOS PROIBIDOS DO MARQUÊS DE SADE (Quills, 2000, Fox Searchlight Pictures, 124min) Direção: Phillip Kaufman. Roteiro: Doug Wright, peça teatral de sua autoria. Fotografia: Rogier Stoffers. Montagem: Peter Boyle. Música: Stephen Warbeck. Figurino: Jacqueline West. Direção de arte/cenários: Martin Childs/Jill Quertier. Produção executiva: Des McAnuff, Sandra Schulberg, Rudolf Wiesmeier. Produção: Julia Chasman, Peter Kaufman, Nick Wechsler. Elenco: Geoffrey Rush, Kate Winslet, Joaquin Phoenix, Michael Caine, Stephen Moyer, Amelia Warner, Stephen Marcus. Estreia: 22/11/00

3 indicações ao Oscar: Ator (Geoffrey Rush), Figurino, Direção de Arte/Cenários

Para T.

Donatien Alphonse François de Sade, mais conhecido como Marquês de Sade foi um dos mais brilhantes escritores que a França conheceu. Aristocrata de nascimento,  Sade tinha no Napoleão Bonaparte um de seus inimigos mais ferrenhos, tendo sido aprisionado diversas vezes não apenas durante o regime do imperador, mas também pelos revolucionários de 1789 – que aparentemente tinham de rebeldes apenas o nome. Quem já teve a oportunidade de ler alguma de suas famigeradas obras – como “Os 120 dias de Sodoma”, “Justine” e “Contos libertinos” – comprovou, sem a menor sombra de dúvida, que mesmo nos dias devassos de hoje, o seu texto, extremamente detalhado e gráfico em suas descrições sexuais, é bastante forte e ainda chocante. Dá pra imaginar, então, o impacto que seus escritos tinham em sua época. E dá também para entender os motivos que levaram o escritor a ser internado em um sanatório e proibido de publicar seus textos. E é precisamente nesse período de sua biografia que se concentra o filme “Contos proibidos do Marquês de Sade”, dirigido com a elegância habitual de Philip Kaufman – que, a exemplo de um seus filmes mais célebres, “Henry & June”, usa o erotismo como aditivo a uma trama já explosiva o bastante.

Baseado em uma peça teatral homônima escrita pelo próprio roteirista Doug Wright, o filme de Kaufman mostra o Marquês (vivido com exuberância pelo ótimo Geoffrey Rush, indicado ao Oscar por seu magnífico trabalho) prisioneiro no asilo Chareton e impedido de publicar seus trabalhos. A proibição, porém, não surte maiores efeitos, pois o escritor consegue contrabandear suas histórias através da bela camareira Madeleine (a sempre excelente Kate Winslet), que, incentivada pela leitura do Marquês, encontra forças para declarar seu amor ao Abade Coulmier (Joaquin Phoenix), responsável pelo sanatório. A repressão ao trabalho do famoso hóspede recrudesce quando chega ao local o radical alienista Royer-Collard (Michael Caine, impecável), enviado pelo próprio Napoleão para calar de vez o escritor.


Amparados por diálogos inteligentes (herança de sua origem teatral) e por uma reconstituição de época competente, Kaufman dirige um elenco de sonhos. O trabalho sensacional de Rush encontra eco na sensível atuação de Kate Winslet, na performance irônica de Michael Caine e um elenco de coadjuvantes sem elos fracos. Até mesmo a edição de Peter Boyle consegue extrair um ritmo cinematográfico de um roteiro que tem nas palavras a base de sua qualidade. São as palavras do Marquês, em busca incessante de exercer seu direito à liberdade de expressão que envolvem as personagem em um ciclo de desejo, inveja e traição que nem mesmo a leveza de seu humor (nigérrimo, obviamente) consegue impedir de chegar a uma tragédia anunciada. São as palavras do autor – sempre verdadeiras, ainda que muitas vezes vulgares e até mesmo excitantes – que criam a atmosfera perfeita para uma desgraça em grande escala que vitima até mesmo as mais inocentes criaturas.

“Contos proibidos do Marquês de Sade” é, sem dúvida, um dos filmes mais impactantes da carreira de Philip Kaufman – e sendo ele o diretor de “A insustentável leveza do ser” isso não é pouca coisa. É um trabalho que consegue ser erótico, sedutor, engraçado e triste sem nunca deixar de ser o que promete desde suas primeiras cenas: um espetáculo ousado e inteligente.

Thursday, September 1, 2011

CONTE COMIGO

CONTE COMIGO (You can count on me, 2000, Paramount Classics, 111min) Direção e roteiro: Kenneth Lonergan. Fotografia: Stephen Kazmierski. Montagem: Anne McCabe. Música: Lesley Barber. Figurino: Melissa Toth. Direção de arte/cenários: Michael Shaw/Lydia Marks. Produção executiva: Steve Carlis, Donald C. Carter, Martin Scorsese. Produção: Barbara De Fina, Larry Meistrich, Jeffrey Sharp. Elenco: Laura Linney, Matthew Broderick, Mark Ruffalo, Josh Lucas, Rory Culkin, Jon Tenney, Gaby Hoffman, Amy Ryan. Estreia: 17/11/00

2 indicações ao Oscar: Atriz (Laura Linney), Roteiro Original

Em meio a tantos filmes barulhentos e caros que são empurrados garganta abaixo dos espectadores em busca de duas horas de entretenimento, obras como “Conte comigo”, do independente Kenneth Lonergan normalmente são ignorados pelo grande público, ficando restritos àqueles que buscam qualidade indepententemente do orçamento do projeto. Felizmente festivais de cinema, como o Sundance, criado por Robert Redford existem para isso, para chamar a atenção para pequenas pérolas. Graças aos prêmios de Melhor Filme e Roteiro em Sundance 2000 e as indicações para o Oscar de Melhor Atriz e Roteiro Original a bela história familiar criada por Lonergan obteve uma mínima repercussão, que permitiu que fosse descoberto por uma audiência um pouco maior. As poucas pessoas que assistiram a “Conte comigo”, no entanto, foram brindadas com um roteiro inteligente e de emoções reais, sem apelos melodramáticos e com personagens tão polidimensionais que parecem gente de verdade e não criações de um roteirista com preocupações comerciais e concessões absurdas. 

A história de “Conte comigo” começa quando um acidente de carro tira a vida de um casal, pai de dois filhos pequenos. Anos depois, a irmã mais velha, Sammy (Laura Linney na melhor atuação de sua carreira) vive sozinha com o filho único (Rory Culkin, outro irmão de Macaulay) e tem uma vida quase tediosa, o que a leva a se envolver sexualmente com seu novo chefe, Brian (Matthew Broderick) mesmo tendo um relacionamento com outro homem, o apaixonado Bob (John Tenney). Sua vida sofre uma mudança quando ela reencontra seu problemático irmão, o rebelde Terry (Mark Ruffalo em surpreendente trabalho), que, saindo da cadeia, precisa de dinheiro e mesmo que não saiba, do carinho de uma família. As coisas, que pareciam tranquilas começam a dar errado quando Terry faz amizade com o filho de Sammy e acaba o levando a conhecer seu pai (Josh Lucas), um mau-caráter que abandonou Sammy durante a gravidez.


Quem procura um filme repleto de reviravoltas dramáticas, cenas de impacto emocionais e finais redentores não deve experimentar “Conte comigo”. Kenneth Lonergan, inteligentemente passa longe das fórmulas e dos clichês que povoam dramas familiares, preferindo expor as emoções de suas personagens através de seus atos incoerentes e nem sempre acertados – como fazem pessoas de verdade, diga-se de passagem. As cenas entre Laura Linney e Mark Ruffalo – com uma química invejável – comprovam o fato, com uma tensão intrínseca que nem mesmo o amor difícil entre os dois consegue esconder - e que a bela trilha sonora apenas sublinha. A cena em que o próprio diretor, na pele de um pastor tenta ajudar o rebelde Terry em sua busca pela felicidade é um primor de sensibilidade com seu diálogo encantador e comovente que encontra em Mark Ruffalo o ator ideal. Sua atuação como Terry é comovente, mostrando ao público um ator em vias de tornar-se um dos coadjuvantes mais subestimados de Hollywood.

Aplausos a Laura Linney, a Mark Ruffalo e ao produtor executivo Martin Scorsese, que não permitiu interferências supérfulas no trabalho de Lonergan. E, se ao final de "Conte comigo" é possível derramar algumas lágrimas, elas são verdadeiras, vertidas por motivos reais e por pessoas que, mesmo não existindo em carne e osso, existem em alma.