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Monday, October 3, 2011

E SUA MÃE TAMBÉM



E SUA MÃE TAMBÉM (Y tu mama tambien, 2001, México, 106min) Direção: Alfonso Cuarón. Roteiro: Alfonso Cuarón, Carlos Cuarón. Fotografia: Emmanuel Lubezki. Montagem: Alfonso Cuarón, Alex Rodriguez. Figurino: Gabriela Diaque. Direção de arte/cenários: Marc Bedia, Miguel Angel Alvarez/Roberto Loera. Produção executiva: Sergio Aguero, Amy Kaufman, David Linde. Produção: Alfonso Cuarón, Jorge Vergara. Elenco: Gael García Bernal, Diego Luna, Maribel Verdu. Estreia: 08/6/01 (México)

Indicado ao Oscar de Roteiro Original

A transição da adolescência para a fase adulta já foi tema de centenas de filmes desde a invenção do cinema e talvez por isso mesmo produções com essa temática tenha sérios detratores, uma vez que normalmente esses filmes seguem uma linha de pornochanchada de qualidade questionável. Não deixa de ser uma surpresa, portanto, quando um filme mexicano consegue ultrapassar as barreiras de preconceitos idiomáticos e temáticos e chega a concorrer a um inesperado Oscar de roteiro original. Esse filme, dirigido pelo mesmo Alfonso Cuaron – que já passou por Hollywood para dirigir “A princesinha” e “Grandes esperanças” – é “E sua mãe também”, uma divertida e melancólica comédia que atinge seus objetivos de entreter e ainda por cima arruma espaço para discussões sociais e até sobre diferenças entre os sexos.

Os protagonistas são Julio (Gael García Bernal) e Tenoch (Diego Luna), dois amigos mal saídos da adolescência que, longe das namoradas que foram viajar de férias pela Europa, resolvem empreender uma viagem de carro em busca de uma praia inventada por eles em sua ânsia de seduzir Luisa (Maribel Verdú), esposa de um primo de Tenoch. Tenoch é filho de um político corrupto e Julio é de uma classe social inferior, o que não os impede de manter uma amizade antiga e quase desprovida de preconceitos. Durante a viagem com Luisa, eles acabam confrontados com suas verdades pessoais e, graças a sua companheira de aventura, iniciam um caminho irretornável à maturidade.


Aparentemente “E sua mãe também” é apenas mais uma versão mexicana de filmes adolescentes americanos, mas uma olhada mais aprofundada mostra a verdade sobre a pequena obra-prima de Cuaron, escrita em parceria com seu irmão. Utilizando a técnica antiga mas ainda eficaz em certos casos de um narrador em terceira pessoa, o roteiro permite ao espectador aprofundar-se na personalidade de suas personagens, com informações às vezes nem disponíveis a elas. Sem nunca permitir-se optar pelo caminho mais fácil de contar sua história, o diretor tampouco cede à tentação de mostrar um México de cartão postal, utilizando a fotografia de Emmanuel Lubezki como comentários visuais de suas teorias sobre a desigualdade social de seu país. Ao contrário de seu filme anterior, o visualmente deslumbrante “Grandes esperanças”, dessa vez Lubezki conta com lentes quase nuas, sem retoques ou matizes para disfarçar as coisas de como elas realmente são.

"E sua mãe também" chega a ser vulgar em certos diálogos, mas sua veracidade verbal não tem objetivo de chocar e/ou provocar risos forçados. Da maneira como são ditas pelos ótimos Gael García Bernal e Diego Luna, as falas, repletas de palavrões, soam até mesmo inocentes e ingênuas em determinados momentos. E é essa paradoxal ingenuidade da trama dos irmãos Cuarón que talvez tenha encantado seu público e a crítica. Uma ingenuidade que, como mostra a sequência final do filme, tem prazo limitado e que, quando acaba, leva junto boa parte da felicidade juvenil inerente às amizades descompromissadas.

Tuesday, September 20, 2011

AMORES BRUTOS

AMORES BRUTOS (Amores perros, 2001, México, 154min) Direção: Alejandro Gonzalez Iñarritu. Roteiro: Guillermo Arriaga. Fotografia: Rodrigo Prieto. Montagem: Luis Carballar, Alejandro Gonzalez Iñarritu, Fernando Perez Unda. Música: Gustavo Santaolalla. Figurino: Gabriela Diaque. Direção de arte/cenários: Brigitte Broch/Julieta Alvarez. Produção executiva: Francisco Gonzalez Compeán, Martha Sosa Elizondo. Produção: Alejandro Gonzalez Iñarritu. Elenco: Gael Garcia Bernal, Emilio Echevarria, Goya Toledo, Adriana Barraza, Alvaro Guerrero, Vanessa Bauche, Humberto Busto. Estreia: 14/5/00 (Festival de Cannes)

Indicado ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro

Impressionante como poucos filmes de estreia, o mexicano “Amores brutos” marca como uma cicatriz profunda. Sem preocupar-se a fazer concessões a uma estética americanizada e com uma forte história – ou seriam três? – a ser contada, o filme de Alejandro Gonzalez Iñarritu é um dos melhores produtos cinematográficos do México e nem precisou de um astro internacional ou um orçamento milionário pra isso – vale lembrar que em 2000 Gael García Bernal ainda não era tão famoso como é hoje

Conforme sugere o título original do filme – “Amores perros” – são cães que unem, sutil e habilmente as histórias contadas no genial roteiro de Guillermo Arriaga. Genial porque não tenta forçar a união entre as histórias e mais genial ainda ao contar histórias fortes, com personagens polidimensionais e humanos enfrentando momentos cruciais de suas vidas. Tudo começa com um violento acidente de carro – filmado magistralmente pelas câmeras de Rodrigo Prieto. A partir daí as histórias são contadas, através de um engenhoso flashback que mostra como elas chegaram até ali. A primeira trama a ser mostrada envolve o jovem Octavio (o ótimo Gael García Bernal), um rapaz apaixonado pela cunhada maltratada pelo marido e que utiliza seu cachorro em lutas de cães para arrumar dinheiro e poder fugir com ela. A segunda história é a da bela modelo Valeria (Vanessa Bauche), que ao finalmente conseguir casar-se com o homem que ama, que abandona a esposa para ficar com ela, sofre o tal acidente do início do filme. Sua única companhia em seus momentos de solidão é seu cãozinho de estimação que, ao ficar preso sob seu apartamento causa um acidente ainda mais grave à sua dona. E por fim, mas não menos importante, o ex-guerrilheiro Chivo (Emilio Echeverria), que salva o cão de Octavio de morrer no acidente automobilístico resolve abandonar a vida de mendigo e matador de aluguel para buscar reencontrar a filha que abandonou ainda criança.    


Ao contrário de muitos filmes que se utilizam de histórias fracionadas para exibir um quebra-cabeças frágil e sem substância, “Amores brutos” acredita em seu roteiro e em seus personagens, tão completos e complexos que sustentariam tranqüilamente um filme inteiro. A maneira como personagens aparentemente tão díspares são ligados acaba sendo apenas um mero detalhe em um filme repleto deles, todos tão fascinantes quanto as personalidades retratadas por Arriaga, um observador acurado de seres antes de mais nada extremamente humanos. O paradoxo de utilizar animais como elementos de ligação entre humanos em momentos tão extremos é só mais um artifício utilizado com inteligência pelo roteirista, que em conjunto com o diretor Iñarritu e os editores realizou um dos mais impactantes filmes do cinema contemporâneo mexicano, que revela talentos crus e viscerais.