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Thursday, September 1, 2011

CONTE COMIGO

CONTE COMIGO (You can count on me, 2000, Paramount Classics, 111min) Direção e roteiro: Kenneth Lonergan. Fotografia: Stephen Kazmierski. Montagem: Anne McCabe. Música: Lesley Barber. Figurino: Melissa Toth. Direção de arte/cenários: Michael Shaw/Lydia Marks. Produção executiva: Steve Carlis, Donald C. Carter, Martin Scorsese. Produção: Barbara De Fina, Larry Meistrich, Jeffrey Sharp. Elenco: Laura Linney, Matthew Broderick, Mark Ruffalo, Josh Lucas, Rory Culkin, Jon Tenney, Gaby Hoffman, Amy Ryan. Estreia: 17/11/00

2 indicações ao Oscar: Atriz (Laura Linney), Roteiro Original

Em meio a tantos filmes barulhentos e caros que são empurrados garganta abaixo dos espectadores em busca de duas horas de entretenimento, obras como “Conte comigo”, do independente Kenneth Lonergan normalmente são ignorados pelo grande público, ficando restritos àqueles que buscam qualidade indepententemente do orçamento do projeto. Felizmente festivais de cinema, como o Sundance, criado por Robert Redford existem para isso, para chamar a atenção para pequenas pérolas. Graças aos prêmios de Melhor Filme e Roteiro em Sundance 2000 e as indicações para o Oscar de Melhor Atriz e Roteiro Original a bela história familiar criada por Lonergan obteve uma mínima repercussão, que permitiu que fosse descoberto por uma audiência um pouco maior. As poucas pessoas que assistiram a “Conte comigo”, no entanto, foram brindadas com um roteiro inteligente e de emoções reais, sem apelos melodramáticos e com personagens tão polidimensionais que parecem gente de verdade e não criações de um roteirista com preocupações comerciais e concessões absurdas. 

A história de “Conte comigo” começa quando um acidente de carro tira a vida de um casal, pai de dois filhos pequenos. Anos depois, a irmã mais velha, Sammy (Laura Linney na melhor atuação de sua carreira) vive sozinha com o filho único (Rory Culkin, outro irmão de Macaulay) e tem uma vida quase tediosa, o que a leva a se envolver sexualmente com seu novo chefe, Brian (Matthew Broderick) mesmo tendo um relacionamento com outro homem, o apaixonado Bob (John Tenney). Sua vida sofre uma mudança quando ela reencontra seu problemático irmão, o rebelde Terry (Mark Ruffalo em surpreendente trabalho), que, saindo da cadeia, precisa de dinheiro e mesmo que não saiba, do carinho de uma família. As coisas, que pareciam tranquilas começam a dar errado quando Terry faz amizade com o filho de Sammy e acaba o levando a conhecer seu pai (Josh Lucas), um mau-caráter que abandonou Sammy durante a gravidez.


Quem procura um filme repleto de reviravoltas dramáticas, cenas de impacto emocionais e finais redentores não deve experimentar “Conte comigo”. Kenneth Lonergan, inteligentemente passa longe das fórmulas e dos clichês que povoam dramas familiares, preferindo expor as emoções de suas personagens através de seus atos incoerentes e nem sempre acertados – como fazem pessoas de verdade, diga-se de passagem. As cenas entre Laura Linney e Mark Ruffalo – com uma química invejável – comprovam o fato, com uma tensão intrínseca que nem mesmo o amor difícil entre os dois consegue esconder - e que a bela trilha sonora apenas sublinha. A cena em que o próprio diretor, na pele de um pastor tenta ajudar o rebelde Terry em sua busca pela felicidade é um primor de sensibilidade com seu diálogo encantador e comovente que encontra em Mark Ruffalo o ator ideal. Sua atuação como Terry é comovente, mostrando ao público um ator em vias de tornar-se um dos coadjuvantes mais subestimados de Hollywood.

Aplausos a Laura Linney, a Mark Ruffalo e ao produtor executivo Martin Scorsese, que não permitiu interferências supérfulas no trabalho de Lonergan. E, se ao final de "Conte comigo" é possível derramar algumas lágrimas, elas são verdadeiras, vertidas por motivos reais e por pessoas que, mesmo não existindo em carne e osso, existem em alma.

Thursday, June 30, 2011

ELEIÇÃO

ELEIÇÃO (Election, 1999, MTV Films/Paramount Pictures, 103min) Direção: Alexander Payne. Roteiro: Alexander Payne, Jim Taylor, romance de Tom Perrotta. Fotografia: James Glennon. Montagem: Kevin Tent. Música: Rolfe Kent. Figurino: Wendy Chuck. Direção de arte/cenários: Jane Ann Stewart/Renee Davenport. Produção executiva: Van Toffler. Produção: Albert Berger, David Gale, Keith Samples, Ron Yerxa. Elenco: Matthew Broderick, Reese Witherspoon, Chris Klein, Jessica Campbell, Molly Hagan. Estreia: 23/4/99

Indicado ao Oscar de Roteiro Adaptado

É engraçado como o povo americano tem uma obsessão quase indecente com o desejo de vencer a qualquer custo. Uma prova de que essa obsessão surge cada vez mais cedo ultimamente é a história – hilária, irônica e por que não apavorante – contada em “Eleição”, uma das comédias mais cáusticas de 1999.
        
Reese Witherspoon, em uma atuação nunca aquém de impecável, vive Tracy Flick, um aluna exemplar que dedica sua vida à perfeição. Integrante de todo e qualquer grupo extra-curricular de sua escola, ela vê como o ápice de sua vida estudantil a eleição para a presidência do Conselho Estudantil. Como sua vida social não é das melhores – sua única relação amorosa, por exemplo, foi com um professor cuja carreira ela destruiu – ela constrói uma campanha eleitoral com tudo que tem direito e parece não ter rivais. Sua ambição desmedida, no entanto, incomoda profundamente o professor Jim McAllister (Matthew Broderick, ótimo), que tem a idéia de lançar a candidatura de outro aluno, o bobalhão mas popular Paul Metzler (Chris Klein). Sua guerra não declarada à Tracy acaba trazendo dramáticas consequências à sua carreira.
        

É difícil dizer o que funciona melhor em “Eleição”. O roteiro, baseado no romance de Tom Perrota (também autor do livro que deu origem ao filme "Pecados íntimos") e co-escrito pelo diretor Alexander Payne e Jim Taylor, foi indicado ao Oscar e é de uma riqueza de detalhes e ironias que impressiona principalmente devido ao fato de ser de um gênero que normalmente ignora coisas tais como sutilezas. Ao fazer um estudo sobre um assunto tão sério de maneira tão leve e divertida, Payne não se preocupa em exagerar no realismo, dando importância principalmente às consequências dos atos de seus personagens, que mesmo sem querer dão partida em acontecimentos que não podem ser consertados. O professor vivido por Broderick – deixando para trás sua criação mais famosa, o Ferris Bueller de “Curtindo a vida adoidado” – é um exemplo perfeito. Apesar de ser bem sucedido em sua carreira, é considerado como perdedor dentro dos conceitos de Flick, que almeja coisas grandiosas em seu futuro. Ao cometer dois erros impulsivos – se apaixonar pela ex-esposa do melhor amigo e tentar destruir os planos de sua ambiciosa aluna – ele próprio entra em um caminho sem volta que pode acabar com sua profissão e seu casamento. O roteiro não perdoa seus personagens, mas, benevolente, lhes dá segundas e terceiras chances.
        
Imperdível devido à suas qualidades como comédia – que nunca arranca gargalhadas e sim sorrisos cúmplices – e importantíssimo graças às discussões que suscita, “Eleição” ainda conta com o trabalho de alto nível de Reese Witherspoon, que criou uma das personagens mais complexas de sua carreira ainda curta sem apelar para armadilhas maniqueístas. Sua batalha com Matthew Broderick merece ser conferida e admirada como um dos filmes mais inteligentes da categoria.

Wednesday, July 28, 2010

CURTINDO A VIDA ADOIDADO


CURTINDO A VIDA ADOIDADO (Ferris Bueller's day off, 1986, Paramount Pictures, 103min) Direção e roteiro: John Hughes. Fotografia: Tak Fujimoto. Montagem: Paul Hirsch. Música: Arthur Baker, Ira Newborn, John Robie. Figurino: Marilyn Vance. Direção de arte/cenários: John W. Corso/Jennifer Polito. Casting: Janet Hirshensen, Jane Jenkins. Produção executiva: Michael Chinich. Produção: John Hughes, Tom Jacobson. Elenco: Matthew Broderick, Mia Sara, Alan Ruck, Jeffrey Jones, Jennifer Grey, Cindy Pickett, Lyman Ward. Estreia: 11/6/86

Só mesmo a pessoa mais azeda da face da Terra, que nunca sonhou em matar um dia de aula para divertir-se com os amigos pode não gostar de "Curtindo a vida adoidado", uma hilariante comédia do mestre para filmes para adolescentes dos anos 80, John Hughes. Reprisada à exaustão na televisão, ainda assim é um dos filmes mais queridos daqueles que curtiram a década mais cafona da história através do cinema e da TV. Não é à toa que todos que o assistiram sempre terminam o diálogo com "toda vez que passa na televisão eu assisto...)

Para quem não sabe, o filme conta a história de Ferris Bueller (Matthew Broderick, no papel de sua vida), um adolescente comum, mas extremamente carismático, que resolve tirar um dia de folga da escola para aproveitar o sol ao lado do melhor amigo, o angustiado Cameron (Alan Ruck) e da namorada, a bela Sloane (Mia Sara). Para isso, ele finge uma doença, para desespero de sua irmã Jeanie (Jennifer Grey), que o conhece muito bem e sabe da verdade. Nada seria muito grave se Ferris não estivesse pendurado em número de faltas e não passasse a sofrer a perseguição implacável do diretor de alunos da escola, o atrapalhado Ed Rooney (Jeffrey Jones), disposto a tudo para não deixar um aluno lhe enganar.

Com essa história simples, Hughes ganhou a simpatia de milhões de espectadores. Com um humor genial e ingênuo, personagens de extrema empatia e uma edição competente, o filme diverte sem maiores pretensões, o que faz dele um programa perfeito para quem deseja apenas um bom par de horas de bom-humor. Para quem duvida, faça o teste de tentar ficar incólume à cena (já clássica) em que Ferris Bueller sobe em um carro na parada de Chicago para dublar “Twist and shout”, dos Beatles. Tarefa das mais inglórias, uma vez que é impossível não ficar com um sorriso bobo na cara...

O personagem de Ferris Bueller - que desperta em todos os espectadores um lado irresponsável e irreverente - caiu como uma luva em Broderick, ótimo ator, mas que no entanto, até hoje é um escravo do seu sucesso como adolescente. Sua simpatia, seu carisma e seu sorriso cativante fazem com que Ferris Bueller seja o ídolo perfeito de todos aqueles que querem curtir a vida adoidado, mesmo que por uma tarde apenas. Uma obra-prima incontestável!