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Friday, December 9, 2011

DOCE LAR

DOCE LAR (Sweet home Alabama, 2002, Touchstone Pictures, 108min) Direção: Andy Tennant. Roteiro: C. Jay Cox, história de Douglas J. Eboch. Fotografia: Andrew Dunn. Montagem: Troy Takaki, Tracey Wadmore-Smith. Música: George Fenton. Figurino: Sophie de Rakoff Carbonell. Direção de arte/cenários: Clay A. Griffith/Lisa K. Sessions. Produção executiva: Michael Fottrell, Jon Jashni, Wink Mordaunt. Produção: Stokely Chaffin, Neal H. Moritz. Elenco: Reese Witherspoon, Patrick Dempsey, Josh Lucas, Candice Bergen, Fred Ward, Mary Kay Place, Jean Smart, Melanie Lysnkey, Ethan Embry, Dakota Fanning. Estreia: 27/9/02

Não é difícil compreender o enorme êxito de bilheteria de "Doce lar" nos EUA, onde arrecadou mais de 180 milhões de dólares. Em primeiro lugar, é uma comédia romântica açucarada (gênero que se mantém como um dos mais populares mesmo no cínico século XXI). Depois, é o tipo de filme que não ofende ninguém e nem tenta reinventar a roda (e todo mundo sabe que sempre é bom recorrer aos mesmos clichês de sempre vez ou outra). E em terceiro (e talvez mais importante) existe o fator Reese Witherspoon. Desde que "Legalmente loira" fez um inesperado sucesso em 2001, a jovem atriz - à época ainda casada com Ryan Phillippe - tornou-se um dos nomes mais quentes da "nova Hollywood". Carismática, talentosa e dona de uma beleza nada ameaçadora (ou seja, perfeita para agradar às mulheres que levam os namorados ao cinema), Witherspoon é o centro do filme de Andy Tennant e a responsável por torná-lo um agradável e descompromissado entretenimento.

Assumindo o papel que seria de Charlize Theron antes que ela pulasse fora para participar do infame "Encurralada", Witherspoon interpreta Melanie Carmichael, uma promissora estilista de moda que vive o melhor momento de sua vida: além de estar dando os primeiros passos rumo à sua realização profissional, ela acaba de ser pedida em casamento por um dos mais cobiçados solteiros de Nova York, o bem-sucedido Andrew Hennings (Patrick Dempsey), filho da prefeita da cidade (vivida com graça por Candice Bergen). O problema é que, apesar de aparentar ser uma cosmopolita e sofisticada cidadã nova-iorquina, ela na verdade é uma caipira fugida do Alabama, seu estado natal. E o pior ainda: é casada com um namorado da adolescência, Jake Perry (Josh Lucas), que se recusa a conceder-lhe o divórcio. Desesperada para esconder do noivo seu passado (e com o objetivo de exigir de Jake a separação formal), Melanie volta à sua cidade, mas acaba descobrindo que ainda é o objeto dos sonhos de seu ex-marido e que suas raízes são mais fortes do que ela imaginava.



"Doce lar" é mais uma comédia romântica da estirpe politicamente correta que tomou conta da América nos anos 90. Sua ideologia mal-disfarçada não deixa de ser um tanto desconfortável, contrapondo a vida pacata e "verdadeira" do interior do país à correria hedonista e "fútil" das grandes cidades (e fazendo com que todas as personagens relacionadas ao noivo mauricinho soem como pastiches de uma sociedade vazia enquanto sua família e seu ex-marido servem quase como exemplo de pureza e integridade). No entanto, para a sorte do espectador, o roteiro consegue fazer com que tudo seja facilmente assimilável graças a diálogos rápidos e algumas piadas realmente engraçadas, em especial as relacionadas ao amigo de infância de Melanie, o jovem Bobby Ray (Ethan Embry), que precisa lidar com sua homossexualidade em um cenário não especialmente simpático à sua causa. Também é pouco justo com a personagem de Patrick Dempsey (voltando aos poucos ao estrelato que culminaria na série "Grey's anatomy") rivalizá-lo com Josh Lucas em um papel que explora ao máximo seu charme rústico. Não é preciso mais do que dez minutos de Lucas em cena para que a plateia perceba os rumos da história.

É impossível dizer que "Doce lar" é um grande filme. É previsível, é ideologicamente questionável (se bem que ninguém assiste a comédias românticas pensando sobre essas coisas) e não apresenta maiores novidades. Mas é agradável, é simpático e tem Reese Witherspoon fazendo o que faz de melhor. Os fãs não reclamarão jamais!

Wednesday, November 23, 2011

ARMADILHAS DO CORAÇÃO

ARMADILHAS DO CORAÇÃO (The importance of being Earnest, 2002, Miramax Films, 97min) Direção: Oliver Parker. Roteiro: Oliver Parker, peça teatral homônima de Oscar Wilde. Fotografia: Tony Pierce-Roberts. Montagem: Guy Bensley. Música: Charlie Mole. Figurino: Maurizio Millenotti. Direção de arte/cenários: Luciana Arrighi/Ian Whittaker. Produção executiva: Uri Fruchtmann. Produção: Barnaby Thompson. Elenco: Colin Firth, Rupert Everett, Reese Witherspoon, Frances O'Connor, Judi Dench, Tom Wilkinson. Estreia: 17/5/02

É triste perceber que um escritor do porte de Oscar Wilde nunca conseguiu ter uma obra sua adaptada decentemente para o cinema. Dono de um estilo próprio, em que mescla uma feroz crítica à Inglaterra de sua época a frases espirituosas e mordazes, o autor irlandês da obra-prima "O retrato de Dorian Gray" foi também um dramaturgo repleto de recursos, assinando comédias hilariantes (dentro do conceito inteligente de hilariante) como "O marido ideal", que foi levado às telas em 2000 pelo inglês Oliver Parker sem fazer muito alarde (apesar de contar com um elenco estelar que incluía Cate Blanchett, Julianne Moore e Rupert Everett). O mesmo Parker tentou de novo, em 2002, adaptando "The importance of being Earnest", que no Brasil levou o estúpido título de "Armadilhas do coração" e nem chegou a ser exibido comercialmente, saindo direto em DVD. O fracasso comercial do filme é injusto, comparado com o número sem fim de comédias sem graça que faturam centenas de milhares de dólares, mas Wilde merecia coisa melhor.

O maior problema de "Armadilhas do coração" é exatamente o que acomete a vasta maioria das "traduções" teatrais para o cinema. Apesar de explorar com segurança os vastos exteriores ingleses, Parker não consegue fugir da impressão de estar realizado teatro filmado - em parte porque os diálogos são muito mais importantes do que a ação, em parte porque em certos momentos tudo soa muito artificial. Ainda que esse exagero no artificial talvez seja proposital (afinal, trata-se de uma farsa), o que funciona em um palco normalmente perde o impacto em uma tela de cinema e é isso que acontece nessa comédia de erros que, apesar do elenco brilhante e de alguns bons momentos de humor, é bem menos engraçada do que poderia ser.


Os dois protagonistas do filme são o milionário Jack Worthing (Colin Firth) e o mimado Algernon Moncrieff (Rupert Everett), amigos inseparáveis que frequentam as mesmas festas calorosas da Londres dos anos 1890. Para sair de sua propriedade no interior sem despertar fofocas, Jack inventa um irmão fictício chamado Ernest, que precisa de suas visitas constantes, e em uma dessas visitas à cidade se apaixona por Gwendolen (Frances O'Connor), prima de Algernon que é criada rigidamente pela mãe, Augusta Bracknell (Judi Dench). Bracknell, uma dama da alta sociedade, exige que Jack (que por engano todos pensam chamar-se Earnest) descubra suas origens antes de ceder a mão da filha a um homem sem pai nem mãe, e o rapaz passa a investigar seu passado. Enquanto isso, Algernon o visita em sua fazenda, assumindo a identidade de Earnest, o irmão problemático, e se encanta por Cecily (Reese Witherspoon), de quem Jack é tutor. O encontro dos dois amigos - em um fim-de-semana em que também estão presentes Gwendolen e sua mãe - se transforma, então, em uma tentativa de esconder suas inúmeras mentiras e mal-entendidos.

Logicamente "Armadilhas do coração" funciona maravilhosamente em um teatro - sua carpintaria dramatúrgica é perceptível até ao mais desatento espectador. Cinema, porém, exige mais do que isso, e Oliver Parker parece não ter aprendido quase nada desde sua estreia como cineasta, adaptando "Otelo", de Shakespeare (que, a despeito de ser a primeira versão com um ator negro no papel central, era fraquinho de doer): não existe, em seu filme, nada que o eleve acima de um entretenimento meramente agradável estrelado por nomes de grande talento. Não há movimentos de câmera, não há nada de novo na edição e até mesmo a trilha sonora parece um tanto deslocada. Se há alguma qualidade redentora ela vem do original de Wilde: suas personagens revolucionárias (as mulheres fumam e são bem mais ativas do que normalmente acontecia em sua época), suas reviravoltas melodramáticas tratadas com deboche e os diálogos irônicos. E enquanto Judi Dench passeia com tranquilidade em sua praia, Reese Witherspoon parece perdida com sua Cecily (bem mais jovem do que a intérprete). Felizmente a química entre Colin Firth e Rupert Everett é excelente e dá bons motivos para arriscar uma conferida.

Oliver Parker voltou a adaptar Oscar Wilde em "O retrato de Dorian Gray", onde se mostrou um tanto mais feliz em algumas escolhas acertadas. Infelizmente o roteiro criou situações que não existiam e que esvaziaram a trama poderosa. Definitivamente, Wilde ainda não encontrou uma adaptação à sua altura. Porém, apesar dos pesares, "Armadilhas do coração" é, no minimo, agradável.

Thursday, June 30, 2011

ELEIÇÃO

ELEIÇÃO (Election, 1999, MTV Films/Paramount Pictures, 103min) Direção: Alexander Payne. Roteiro: Alexander Payne, Jim Taylor, romance de Tom Perrotta. Fotografia: James Glennon. Montagem: Kevin Tent. Música: Rolfe Kent. Figurino: Wendy Chuck. Direção de arte/cenários: Jane Ann Stewart/Renee Davenport. Produção executiva: Van Toffler. Produção: Albert Berger, David Gale, Keith Samples, Ron Yerxa. Elenco: Matthew Broderick, Reese Witherspoon, Chris Klein, Jessica Campbell, Molly Hagan. Estreia: 23/4/99

Indicado ao Oscar de Roteiro Adaptado

É engraçado como o povo americano tem uma obsessão quase indecente com o desejo de vencer a qualquer custo. Uma prova de que essa obsessão surge cada vez mais cedo ultimamente é a história – hilária, irônica e por que não apavorante – contada em “Eleição”, uma das comédias mais cáusticas de 1999.
        
Reese Witherspoon, em uma atuação nunca aquém de impecável, vive Tracy Flick, um aluna exemplar que dedica sua vida à perfeição. Integrante de todo e qualquer grupo extra-curricular de sua escola, ela vê como o ápice de sua vida estudantil a eleição para a presidência do Conselho Estudantil. Como sua vida social não é das melhores – sua única relação amorosa, por exemplo, foi com um professor cuja carreira ela destruiu – ela constrói uma campanha eleitoral com tudo que tem direito e parece não ter rivais. Sua ambição desmedida, no entanto, incomoda profundamente o professor Jim McAllister (Matthew Broderick, ótimo), que tem a idéia de lançar a candidatura de outro aluno, o bobalhão mas popular Paul Metzler (Chris Klein). Sua guerra não declarada à Tracy acaba trazendo dramáticas consequências à sua carreira.
        

É difícil dizer o que funciona melhor em “Eleição”. O roteiro, baseado no romance de Tom Perrota (também autor do livro que deu origem ao filme "Pecados íntimos") e co-escrito pelo diretor Alexander Payne e Jim Taylor, foi indicado ao Oscar e é de uma riqueza de detalhes e ironias que impressiona principalmente devido ao fato de ser de um gênero que normalmente ignora coisas tais como sutilezas. Ao fazer um estudo sobre um assunto tão sério de maneira tão leve e divertida, Payne não se preocupa em exagerar no realismo, dando importância principalmente às consequências dos atos de seus personagens, que mesmo sem querer dão partida em acontecimentos que não podem ser consertados. O professor vivido por Broderick – deixando para trás sua criação mais famosa, o Ferris Bueller de “Curtindo a vida adoidado” – é um exemplo perfeito. Apesar de ser bem sucedido em sua carreira, é considerado como perdedor dentro dos conceitos de Flick, que almeja coisas grandiosas em seu futuro. Ao cometer dois erros impulsivos – se apaixonar pela ex-esposa do melhor amigo e tentar destruir os planos de sua ambiciosa aluna – ele próprio entra em um caminho sem volta que pode acabar com sua profissão e seu casamento. O roteiro não perdoa seus personagens, mas, benevolente, lhes dá segundas e terceiras chances.
        
Imperdível devido à suas qualidades como comédia – que nunca arranca gargalhadas e sim sorrisos cúmplices – e importantíssimo graças às discussões que suscita, “Eleição” ainda conta com o trabalho de alto nível de Reese Witherspoon, que criou uma das personagens mais complexas de sua carreira ainda curta sem apelar para armadilhas maniqueístas. Sua batalha com Matthew Broderick merece ser conferida e admirada como um dos filmes mais inteligentes da categoria.

Thursday, June 23, 2011

SEGUNDAS INTENÇÕES

SEGUNDAS INTENÇÕES (Cruel intentions, 1999, Columbia TriStar Pictures, 97min) Direção: Roger Kumble. Roteiro: Roger Kumble, romance "As relações perigosas", de Choderlos de Laclos. Fotografia: Theo van de Sande. Montagem: Jeff Freeman. Música: Edward Shearmur. Figurino: Denise Wingate. Direção de arte/cenários: Jon Gary Steele/Tessa Posnansky. Produção executiva: Michael Fottrell. Produção: Neal H. Moritz. Elenco: Sarah Michelle Gellar, Ryan Philippe, Reese Witherspoon, Selma Blair, Louise Fletcher, Joshua Jackson, Eric Mabius, Sean Patrick Thomas, Swoosie Kurtz, Christine Baranski, Tara Reid. Estreia: 05/3/99

A história de “Segundas intenções” já frequentou as telas de cinema algumas vezes, sendo a mais notável a adaptação de Stephen  Frears de 1988 chamada adequadamente de “Ligações perigosas” e vencedora de 3 Oscar. No entanto, como é bem pouco provável que o público mais jovem – diga-se recém saído da adolescência – tenha sido atraído por uma trama passada na França pré-revolução, não deixa de ser interessante e oportunista – no bom sentido – que o roteirista e diretor Roger Kumble tenha tido a ideia de transferir a história de sexo, intrigas e vingança do escritor Choderlos de Laclos para a Los Angeles do final do século XX, com pequenas alterações e poucas ambições.

Sarah Michelle Gelar (da série de TV “Buffy, a caça-vampiros”) vive Catherine, uma jovem milionária, viciada em cocaína e sexo, e hipócrita em todos os sentidos que não se conforma de ter sido abandonada pelo namorado, que agora está apaixonado por Cecile (Selma Blair, bela mas um tanto exagerada em sua caracterização), uma moça de família recém-saída de uma escola de freiras. Com a intenção de desmoralizá-la, Catherine conta com a ajuda de Sebastian (Ryan Phillipe, nitidamente se divertindo com o papel), filho de seu padastro e com quem mantém uma relação quase incestuosa. Famoso por sua agitada e promíscua vida romântica, Sebastian acaba aceitando o desafio de seduzir Cecile, mas dedica mais atenção a uma missão que considera muito mais importante: convencer a virginal Anette (Reese Witherspoon) a entregar sua pureza a ele.


Utilizando de maneira exemplar uma trilha sonora moderna (Blur, Fatboy Slim, The Verve, Counting Crows, Placebo) e um elenco com nomes promissores e carismáticos, Kumble faz de seu “Segundas intenções” um filme ideal para seu público, ainda que corra o risco de desagradar os mais puristas, principalmente ao alterar o final da história, ainda que mantenha o tom de crítica à uma parcela da sociedade como acontece no livro e no filme de Frears. Enquanto no original a nobreza da França era o alvo da pena de Choderlos de Laclos, em sua versão século XXI a juventude elitista, vazia e fútil da geração de grifes e marcas famosas é que é posta na berlinda, ainda que dificilmente seja reconhecida por sua plateia, ansiosa por uma história sem maior profundidade.

Profundidade, aliás, é algo que o roteiro nem tenta atingir. Roger Kumble fez de seu filme uma história de desejo e vingança com doses de sexo (nada muito ousado, mas suficientemente atrativo) e bom humor, apesar do desfecho trágico e da seriedade com que Reese Witherspoon encara um papel difícil, em contraponto às atuações de Ryan Philippe (em seu melhor trabalho) e Sarah Michelle Gelar, que não precisam muito para deixarem claro sua satisfação em viver personagens tão cruéis. Eles ainda precisam comer muito feijão com arroz para chegarem aos pés de John Malkovich e Glenn Close - de quem herdaram seus papéis - mas colaboram bastante para o sucesso com que "Segundas intenções" atinge seus objetivos.