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Monday, February 6, 2012

CONFISSÕES DE UMA MENTE PERIGOSA

CONFISSÕES DE UMA MENTE PERIGOSA (Confessions of a dangerous mind, 2002, Miramax, 113min) Direção: George Clooney. Roteiro: Charlie Kaufman, livro de Chuck Barris. Fotografia: Newton Thomas Sigel. Montagem: Stephen Mirrione. Música: Alex Wurman. Figurino: Renée April. Direção de arte/cenários: James D. Bissell/Louis Dandonneau, Anne Galléa, Robert Greenfield. Produção executiva: Stephen Evans, Jonathan Gordon, Rand Ravich, Steven Soderbergh, Bob Weinstein, Harvey Weinstein. Produção: Andrew Lazar. Elenco: Sam Rockwell, George Clooney, Julia Roberts, Drew Barrymore, Maggie Gyllenhaal, Rutger Hauer. Estreia: 31/12/02

Urso de Ouro Melhor Ator (Festival de Berlim): Sam Rockwell

Normalmente o que leva um ator a assumir a cadeira de diretor é a vaidade. Somada à megalomania, ela pode levar a obras como "Dança com lobos" - que encantou milhares de pessoas e os votantes do Oscar de 1991, que o escolheram em detrimento do extremamente superior "Os bons companheiros" - ou "Coração valente" - que supreendeu todo mundo mostrando que Mel Gibson tinha mais talento como cineasta do que como ator dramático. Em 2003 um outro ator uniu-se à galeria de novos diretores - que inclui também Robert Redford, Danny DeVito, Robert DeNiro, Sean Penn, Edward Norton, Orson Welles e inúmeros outros menos cotados - e, para alívio geral, saiu-se muito melhor do que a encomenda. Já famoso como ator e galã, George Clooney assumiu as rédeas de "Confissões de uma mente perigosa", alucinante (e alucinada) versão para o cinema das memórias de Chuck Barris, um produtor de TV americano que, nas horas vagas, trabalhava como agente secreto da CIA. Brilhantemente escrito pelo demente (no bom sentido) Charlie Kaufman e apresentando um trabalho excepcional de Sam Rockwell no papel central, o filme colecionou elogios e prêmios - melhor ator no Festival de Berlim, melhor roteiro pelo National Board of Review - e confirmou Clooney como um diretor extremamente talentoso.

Dono de um apurado senso de humor, Clooney encontrou no tom sarcástico do script de Kaufman o material perfeito para sua estreia. Mesmo contando uma história séria, com toques de violência e até mesmo lances de grande dramaticidade, ele transformou seu filme em uma comédia original, criativa e imprevisível, que em nenhum momento dá pistas de tratar-se da obra de um iniciante. O ex-galã (que arrumou ainda espaço para uma participação como ator, talvez como chamariz de bilheteria) se utiliza de soluções bastante inteligentes no desenvolvimento da trama, demonstrando uma segurança ímpar. Contando ainda com a edição do experiente Stephen Mirrione (colaborador de seu amigo Steven Soderbergh), ele faz de "Confissões de uma mente perigosa" um divertido filme de espionagem onde a espionagem é quase uma coadjuvante de luxo. Nada é exatamente o que parece em seu filme, e é justamente aí que está toda a graça.



Sam Rockweel deita e rola como Chuck, um produtor de programas de televisão (criador do famoso "Namoro na TV") que é recrutado pelo misterioso Jim Byrd (Clooney) para trabalhar na CIA. A princípio pensando tratar-se de uma brincadeira, logo ele começa a perceber que está realmente envolvido em violentos trabalhos em várias partes do mundo, sempre acompanhado da bela Patricia Watson (Julia Roberts, se divertindo perceptivelmente no papel) e do sinistro Keeler (Rutger Hauer). Ao tentar equilibrar suas duas personalidades - empresário do show business e matador a serviço do governo - ele acaba entrando em um surto psicótico que o afasta da mulher que ama, Penny (Drew Barrymore).

Contando a coisa parece muito séria, mas não é. Realizado com um senso de ritmo invejável - para o que o roteiro magistral de Kaufman (que não gostou da maneira com que o cineasta tratou seu trabalho no corte final) colabora lindamente - "Confissões" não deixa a peteca cair em momento algum, surpreendendo a plateia constantemente (seja nas reviravoltas da trama ou na participação afetiva de Matt Damon e Brad Pitt em uma sequência hilariante). Fotografado com discrição por Newton Thomas Sigel (que assina a fotografia dos filmes de Bryan Singer) em tons pastéis que contrastam com o colorido exagerado dos cenários televisivos dos programas de Barris, o filme só peca em um detalhe: não é histericamente engraçado nem tampouco é um policial tradicional, e essa indecisão (ou transgressão das regras, o que soa mais apropriado) acabou lhe custando caro. Ao custo de quase 30 milhões de dólares, sua renda doméstica mal chegou aos 16. Felizmente o fracasso comercial não abalou o George Clooney diretor, que depois presentearia a plateia com filmes mais sérios e ainda mais elogiados, como "Boa noite, e boa sorte" (2005) e "Tudo pelo poder" (2011).

No final das contas, "Confissões de uma mente perigosa" é um dos mais empolgantes filmes de estreia que se tem notícia, que cresce a cada revisão. Quem não conhece não pode perder tempo! E, além do mais... quem pode resistir ao carinho do ator tornado diretor com a família, ao escolher uma canção de sua tia Rosemary Clooney para encerrar a projeção?

Monday, January 30, 2012

ADAPTAÇÃO

ADAPTAÇÃO (Adaptation, 2002, Good Machine, 114min) Direção: Spike Jonze. Roteiro: Charlie Kaufman, David Kaufman, livro "O ladrão de orquídeas", de Susan Orlean. Fotografia: Lance Acord. Montagem: Eric Zumbrunnen. Música: Carter Burwell. Figurino: Casey Storm. Direção de arte/cenários: K.K. Barrett/Gene Serdena. Produção executiva: Charlie Kaufman, Peter Saraf. Produção: Jonathan Demme, Edward Saxon. Elenco: Nicolas Cage, Meryl Streep, Chris Cooper, Brian Cox, Maggie Gyllenhaal, Ron Livingstone, Tilda Swinton, Cara Seymour, Judy Greer. Estreia: 06/12/02

4 indicações ao Oscar: Ator (Nicolas Cage), Ator Coadjuvante (Chris Cooper), Atriz Coadjuvante (Meryl Streep), Roteiro Adaptado
Vencedor do Oscar de Ator Coadjuvante (Chris Cooper)
Vencedor de 2 Golden Globes: Ator Coadjuvante (Chris Cooper), Atriz Coadjuvante (Meryl Streep)

Depois de fazer sucesso como roteirista de “Quero ser John Malkovich”, pelo qual foi até mesmo indicado ao Oscar, o escritor Charlie Kaufman (Nicolas Cage) recebe a proposta de adaptar para as telas o livro “O ladrão de orquídeas”, da jornalista Susan Orlean (Meryl Streep). Ao ler a obra, no entanto, Kaufman entra em pânico: o livro, que conta a história do botânico John Laroche (Chris Cooper) não tem uma forma linear, ou pior ainda, não tem nem história. Em total crise de criatividade, Charlie ainda tem que aturar em sua própria casa as idéias de Donald (novamente Cage), seu irmão gêmeo, que também ambiciona a carreira de roteirista e está escrevendo um filme completamente sem pé nem cabeça, mas que, por ironia, agrada em cheio aos executivos de Hollywood. Sem saber que rumo tomar, Charlie chega a criar uma inexistente história de amor entre a escritora e seu objeto de estudo e, em momento de total desamparo, a procurar a ajuda de um professor de cursos de roteiro, um charlatão profissional que vive de ensinar aos sonhadores autores de cinema a fórmula do sucesso (vivido magistralmente por Brian Cox). No ápice do desespero, Charlie tenta, então, sua cartada mais absurda: pede ajuda a seu irmão, que transforma o livro de Orlean em uma trama de tráfico de drogas, violência e sexo.

Neste brilhante exercício de metalinguagem, o excepcional Charlie Kaufman conseguiu superar a si próprio. Enquanto “Quero ser John Malkovich” era um primor de criatividade e humor negro, “Adaptação” é a afinação de uma mente no mínimo enlouquecida. Ao criticar a própria indústria hollywoodiana com todas as suas idiossincrasias e incoerências, ele criou um filme que todos os roteiristas de cinema poderiam sonhaR criar: inteligente, engraçado e absolutamente inovador, pra não dizer quase esquizofrênico. Quando a agente do roteirista Kaufman, vivida no filme por Tilda Swinton diz, a certo momento que adoraria entrar na sua mente, só o que podemos pensar é que ela não é a única. Charlie Kaufman é tão louco que assina seu roteiro como se o tivesse escrito ao lado do irmão Donald, que na verdade nem existe. E pensar que a Academia indicou (a ambos) para um Oscar.

 

“Adaptação” não é um filme para qualquer público. Suas sutilezas são tantas que só mesmo aqueles que conhecem razoavelmente as engrenagens do cinema conseguem captar de imediato. Um exemplo claro: quando Donald, o irmão enlouquecido de Charlie começa a ajudar no processo de escrita do filme, a obra de Jonze muda totalmente de estilo. De uma narrativa clássica e com intenções sérias, vira um samba do crioulo doido, com direito a perseguições de carro, tiroteios e até um jacaré salvador. Erro de direção? Não, erro de percepção do público. E é aí que entra o talento do diretor Spize Jonze, que já havia trabalhado com um texto de Kaufman no supra citado “Quero ser John Malkovich”.
Egresso de videoclipes, Jonze parece não dar a mínima para as regras de se fazer cinema. Criativo, ousado, por vezes delirante, o cineasta não busca as soluções mais fáceis. Ele quer complicar, quer fazer o povo pensar e rir de si mesmo. E o faz com a ajuda inenarrável de seu elenco. Nicolas Cage nunca esteve melhor em sua carreira (nem mesmo em “Despedida em Las Vegas”, que lhe deu um Oscar), em uma atuação dupla absurdamente engraçada; Chris Cooper levou sua estatueta pelo complexo John Laroche, que dependendo do ponto de vista de cada autor, tinha uma personalidade distinta. E Meryl Streep prova mais uma vez porque é a melhor atriz americana em atividade. Na pele da sensível escritora Susan Orlean (cujo livro existe de verdade, mas não tem absolutamente nada a ver com o filme), Streep rouba todas as cenas em que aparece, fazendo uma personagem totalmente distante do que estamos acostumados a vê-la.
“Adaptação” é tão bom que até mesmo seu trailer vale a pena assistir, de tão irônico. Não é um humor de fácil assimilação, mas é uma aula de roteiro e metalinguagem como raramente se vê nesses tempos em que tudo vem mastigadinho.

Thursday, November 24, 2011

UM GRANDE GAROTO

UM GRANDE GAROTO (About a boy, 2002, Universal Pictures, 101min) Direção: Chris Weitz, Paul Weitz. Roteiro: Peter Hedges, Chris Weitz, Paul Weitz, romance de Nick Hornby. Fotografia: Remi Adefarasin. Montagem: Nick Moore. Música: Badly Drawn Boy. Figurino: Joanna Johnston. Direção de arte/cenários: Jim Clay/John Bush. Produção executiva: Lynn Harris, Nick Hornby. Produção: Tim Bevan, Eric Fellner, Robert De Niro, Brad Epstein,Jane Rosenthal. Elenco: Hugh Grant, Toni Colette, Nicholas Hoult, Rachel Weisz, Natalia Tena. Estreia: 08/5/02

Indicado ao Oscar de Roteiro Adaptado

"Todo homem é uma ilha. Eu sou Ibiza!" Assim se descreve Will Freeman, protagonista de "Um grande garoto", mais uma obra de Nick Hornby adaptada para o cinema, depois do pouco visto "Febre de bola" e do (merecidamente) cultuado "Alta fidelidade". Levado para as telas pelas mãos dos irmãos Chris e Paul Weitz - cujo passado inclui o infame mas imensamente popular "American pie" - o romance que fala da amizade inesperada entre Freeman - um solteirão convicto, rico e superficial - e o pré-adolescente Marcus Brewer- deslocado, solitário e desajustado - transformou-se em um filme legitimamente engraçado, surpreendentemente delicado e melhor ainda, palatável a todos os tipos de plateia.

Will Freeman é um bon-vivant que passa seus dias dedicando-se à pessoa que mais ama no mundo: ele mesmo. Vivendo dos direitos autorais de uma canção natalina composta por seu falecido pai, Freeman é também um mulherengo incorrigível, incapaz de envolver-se em um relacionamento sério (mais por opção do que por qualquer outro motivo). Quando o filme começa, ele tem a brilhante ideia de frequentar clubes de mães solteiras (ou abandonadas), com o objetivo de encontrar sexo fácil. O que poderia ser divertido, porém, torna-se mais complicado quando, durante um passeio dominical, ele trava conhecimento com Marcus (Nicholas Hoult), o filho da amiga de uma paquera. A mãe de Marcus, Fiona (Toni Colette, sempre competente), é depressiva com tendências suicidas e o jovem vê em Freeman a figura paterna que nunca teve. Chantageando-o após descobrir suas mentiras para conquistar as mulheres do clube, Marcus passa a frequentar o apartamento descolado de Will, que aos poucos inicia um processo de amadurecimento e conexão com o menino e sua mãe. Quando se apaixona por Rachel (Rachel Weisz), o eterno solitário percebe de vez que "ilhas fazem parte de arquipélagos".



É surpreendente que "Um grande garoto" tenha sido dirigido pelos irmãos Weitz: sua sutileza e elegância estão a anos-luz do humor vulgar e escatológico de "American pie", que a despeito de seu sucesso comercial não passa de uma chanchada adolescente. Nessa adaptação do livro de Hornby os cineastas demonstram uma mão leve ao tratar de assuntos espinhosos - depressão, suicídio, bulliyng - e um sofisticado timing cômico (o que deve ser muito legado ao trabalho extraordinário do escritor inglês ao tratar de relações humanas de maneira pop). Nada em "Um grande garoto" é exagerado ou de mau-gosto e, se as piadas podem não ser engraçadíssimas de um ponto de vista mais raso, elas são esplendidamente adequadas à trama e às personagens, tratadas com especial carinho pelo roteiro bastante fiel à sua origem literária, um dos melhores livros do homem que viria a escrever o excelente roteiro de "Educação", em 2009. Poucos escritores são tão simples e sarcásticos quanto Hornby quando se trata de pessoas de verdade, e isso fica lógico quando se lê seus trabalhos ou até quando se assiste a suas adaptações, mesmo quando alguns pontos cruciais são modificados.

Em "Um grande garoto" acontece uma dessas mudanças que, feitas de maneira leviana, poderia ser o tiro de misericórdia ao trabalho. Felizmente os roteiristas conseguiram evitar a tragédia de maneira criativa e, se não ficou tão bom quanto poderia, ao menos salvaram-se todos no final. Explica-se: o clímax do livro de Hornby acontece com o suicídio de Kurt Cobain, vocalista da banda Nirvana que era o ídolo de Ellie (Nat Gastian Tena), colega de escola por quem Marcus é apaixonado. A trama se encaminha para o final a partir daí (e o título original do livro é uma homenagem a uma canção do grupo, "About a girl"). Provavelmente devido a problemas de direitos autorais (Courteney Love, por exemplo) toda e qualquer menção a Cobain e sua banda foram devidamente limadas, e a menina virou fã de rap. Certamente a mudança enfraqueceu o universo do romance original, mas é preciso que se dê a mão à palmatória: o filme continua sendo muito bom.

E, logicamente seria injusto não louvar a atuação de Hugh Grant, perfeito no papel central - que chegou a ser oferecido a Brad Pitt. Will Freeman parece ter sido escrito especialmente para Grant, que se sai muito melhor que a encomenda com uma interpretação confortável e muito, mas muito engraçada. Sua parceria com o ótimo Nicholas Hoult é encantadora, assim como suas cenas com Rachel Weisz e Toni Colette, mais uma vez ameaçando roubar todas as sequências em que aparece. A trilha sonora moderna comenta a estória de forma suave e é difícil não se emocionar com o desfecho de toda a aventura romântico-pessoal de Will Freeman. A história é "sobre um garoto". Mas talvez este garoto não seja o adolescente Marcus e sim o eterno meninão Freeman, que se apaixona pela vida ao perceber como ela pode ser melhor quando dividida. Um belo filme, para ver e rever!

Wednesday, November 23, 2011

ARMADILHAS DO CORAÇÃO

ARMADILHAS DO CORAÇÃO (The importance of being Earnest, 2002, Miramax Films, 97min) Direção: Oliver Parker. Roteiro: Oliver Parker, peça teatral homônima de Oscar Wilde. Fotografia: Tony Pierce-Roberts. Montagem: Guy Bensley. Música: Charlie Mole. Figurino: Maurizio Millenotti. Direção de arte/cenários: Luciana Arrighi/Ian Whittaker. Produção executiva: Uri Fruchtmann. Produção: Barnaby Thompson. Elenco: Colin Firth, Rupert Everett, Reese Witherspoon, Frances O'Connor, Judi Dench, Tom Wilkinson. Estreia: 17/5/02

É triste perceber que um escritor do porte de Oscar Wilde nunca conseguiu ter uma obra sua adaptada decentemente para o cinema. Dono de um estilo próprio, em que mescla uma feroz crítica à Inglaterra de sua época a frases espirituosas e mordazes, o autor irlandês da obra-prima "O retrato de Dorian Gray" foi também um dramaturgo repleto de recursos, assinando comédias hilariantes (dentro do conceito inteligente de hilariante) como "O marido ideal", que foi levado às telas em 2000 pelo inglês Oliver Parker sem fazer muito alarde (apesar de contar com um elenco estelar que incluía Cate Blanchett, Julianne Moore e Rupert Everett). O mesmo Parker tentou de novo, em 2002, adaptando "The importance of being Earnest", que no Brasil levou o estúpido título de "Armadilhas do coração" e nem chegou a ser exibido comercialmente, saindo direto em DVD. O fracasso comercial do filme é injusto, comparado com o número sem fim de comédias sem graça que faturam centenas de milhares de dólares, mas Wilde merecia coisa melhor.

O maior problema de "Armadilhas do coração" é exatamente o que acomete a vasta maioria das "traduções" teatrais para o cinema. Apesar de explorar com segurança os vastos exteriores ingleses, Parker não consegue fugir da impressão de estar realizado teatro filmado - em parte porque os diálogos são muito mais importantes do que a ação, em parte porque em certos momentos tudo soa muito artificial. Ainda que esse exagero no artificial talvez seja proposital (afinal, trata-se de uma farsa), o que funciona em um palco normalmente perde o impacto em uma tela de cinema e é isso que acontece nessa comédia de erros que, apesar do elenco brilhante e de alguns bons momentos de humor, é bem menos engraçada do que poderia ser.


Os dois protagonistas do filme são o milionário Jack Worthing (Colin Firth) e o mimado Algernon Moncrieff (Rupert Everett), amigos inseparáveis que frequentam as mesmas festas calorosas da Londres dos anos 1890. Para sair de sua propriedade no interior sem despertar fofocas, Jack inventa um irmão fictício chamado Ernest, que precisa de suas visitas constantes, e em uma dessas visitas à cidade se apaixona por Gwendolen (Frances O'Connor), prima de Algernon que é criada rigidamente pela mãe, Augusta Bracknell (Judi Dench). Bracknell, uma dama da alta sociedade, exige que Jack (que por engano todos pensam chamar-se Earnest) descubra suas origens antes de ceder a mão da filha a um homem sem pai nem mãe, e o rapaz passa a investigar seu passado. Enquanto isso, Algernon o visita em sua fazenda, assumindo a identidade de Earnest, o irmão problemático, e se encanta por Cecily (Reese Witherspoon), de quem Jack é tutor. O encontro dos dois amigos - em um fim-de-semana em que também estão presentes Gwendolen e sua mãe - se transforma, então, em uma tentativa de esconder suas inúmeras mentiras e mal-entendidos.

Logicamente "Armadilhas do coração" funciona maravilhosamente em um teatro - sua carpintaria dramatúrgica é perceptível até ao mais desatento espectador. Cinema, porém, exige mais do que isso, e Oliver Parker parece não ter aprendido quase nada desde sua estreia como cineasta, adaptando "Otelo", de Shakespeare (que, a despeito de ser a primeira versão com um ator negro no papel central, era fraquinho de doer): não existe, em seu filme, nada que o eleve acima de um entretenimento meramente agradável estrelado por nomes de grande talento. Não há movimentos de câmera, não há nada de novo na edição e até mesmo a trilha sonora parece um tanto deslocada. Se há alguma qualidade redentora ela vem do original de Wilde: suas personagens revolucionárias (as mulheres fumam e são bem mais ativas do que normalmente acontecia em sua época), suas reviravoltas melodramáticas tratadas com deboche e os diálogos irônicos. E enquanto Judi Dench passeia com tranquilidade em sua praia, Reese Witherspoon parece perdida com sua Cecily (bem mais jovem do que a intérprete). Felizmente a química entre Colin Firth e Rupert Everett é excelente e dá bons motivos para arriscar uma conferida.

Oliver Parker voltou a adaptar Oscar Wilde em "O retrato de Dorian Gray", onde se mostrou um tanto mais feliz em algumas escolhas acertadas. Infelizmente o roteiro criou situações que não existiam e que esvaziaram a trama poderosa. Definitivamente, Wilde ainda não encontrou uma adaptação à sua altura. Porém, apesar dos pesares, "Armadilhas do coração" é, no minimo, agradável.

Friday, November 11, 2011

ONZE HOMENS E UM SEGREDO

ONZE HOMENS E UM SEGREDO (Ocean's eleven, 2001, Warner Bros, 116min) Direção: Steven Soderbergh. Roteiro: Ted Griffin, roteiro original de Harry Brown, Charles Lederer. Fotografia: Steven Soderbergh (Peter Andrews). Montagem: Stephen Mirrione. Música: David Holmes. Figurino: Jeffrey Kurland. Direção de arte/cenários: Phillip Messina/Kristen Toscano Messina. Produção executiva: Bruce Berman, Susan Ekins, John Hardy. Produção: Jerry Weintraub. Elenco: George Clooney, Brad Pitt, Julia Roberts, Matt Damon, Andy Garcia, Bernie Mac, Elliott Gould, Casey Affleck, Scott Caan, Carl Reiner, Don Cheadle, Angie Dickinson. Estreia: 05/12/01

A impressão que alguns filmes passam ao espectador é a de que o elenco está se divertindo tanto quanto o público. Em alguns casos isso é problemático, mas de vez em quando acaba se tornando um prazer a mais, como se a plateia estivesse sendo convidada a participar de uma festa particular - e muito animada. É mais ou menos isso que acontece com "Onze homens e um segredo", grande sucesso de bilheteria dirigido por Steven Soderbergh logo após seu Oscar pelo sério e compenetrado "Traffic". Refilmagem (muito) livre de um clássico estrelado por Frank Sinatra e Dean Martin em 1960, essa nova versão rendeu quase 200 milhões de dólares só no mercado americano e comprovou o talento versátil do cineasta que derrotou a si mesmo na festa da Academia (ele concorria também por "Erin Brockovich, uma mulher de talento").

A princípio (e sejamos honestos, é exatamente isto) "Onze homens e um segredo" é mais um filme sobre grandes golpes em que a plateia é levada a torcer fervorosamente pelo criminoso (e quando o criminoso é George Clooney fica tudo muito mais fácil). Clooney exercita todo o charme mezzo cafajeste/mezzo carente na pele de Danny Ocean, um bandido boa-pinta que sai em liberdade condicional já de olho em uma nova forma de burlar a lei - e, no caso, seu desafeto Terry Benedict (Andy Garcia), que, além de dono de três cassinos em Las Vegas casou-se com sua ex-mulher, Tess (Julia Roberts em um generoso e bem-humorado segundo plano). Para roubar os três cassinos na mesma noite - durante uma luta de boxe disputadíssima - ele sai em busca do time perfeito, que inclui seu braço-direito Rusty Ryan (um Brad Pitt encantador e hilário), o financiador do golpe Reuben Tishkoff (Elliot Gould, sensacional) e o golpista Linus Caldwell (Matt Damon). Quando a equipe chega a onze pessoas é hora de partir para a ação.


O mais divertido de "Onze homens e um segredo" nem é tanto o desenvolvimento da trama, mesmo porque no fundo todo mundo sabe "o que" irá acontecer (ainda que talvez não desconfiem "como"), mas sim a forma com que Soderbergh parece ter deixado o elenco improvisar e brincar em cima de uma história que se presta lindamente a esse tipo de brincadeira. O próprio filme original era um veículo para o chamado "Rat Pack" (grupo de amigos que incluía, além de Sinatra e Martin, Sammy Davis Jr., Peter Lawford e Joey Bishop). A atualização do bando não poderia ser mais acertada, uma vez que é nítida a química entre os atores - e que suas duas continuações confirmaram ainda mais. Unindo o charme de Clooney ao humor debochado de Pitt e a sensualidade de Julia Roberts não tinha como dar errado. E não deu.

"Onze homens e um segredo" não é um filme para quem busca entretenimento sério e cerebral. É uma piada interna que funciona como diversão inofensiva - além de extremamente bem produzida e surpreendentemente bem escrita (alguns diálogos são engraçadíssimos). Bem fotografado (pelo próprio diretor sob o pseudônimo de Peter Andrews), agilmente editado e inteligente, é quase tudo que se espera de um filme com suas (des)pretensões.

Wednesday, November 9, 2011

DIRIGINDO NO ESCURO

DIRIGINDO NO ESCURO (Hollywood ending, 2002, DreamWorks SKG, 112min) Direção e roteiro: Woody Allen. Fotografia: Wedigo von Schultzendorff. Montagem: Alisa Lepselter. Figurino: Melissa Toth. Direção de arte/cenários: Santo Loquasto/Regina Graves. Produção executiva: Stephen Tenembaum. Produção: Letty Aronson. Elenco: Woody Allen, Téa Leoni, Treat Williams, Mark Rydell, George Hamilton, Debra Messing, Aaron Stanford. Estreia: 03/5/02

Quando Woody Allen resolve falar sério e evoca um de seus ídolos máximos, Ingmar Bergman, ele conquista pela profundidade e por seu surpreendente entendimento da alma humana. Quando pretende apenas fazer rir, no entanto, é que o diretor nova-iorquino mostra porque é um dos mais prestigiados cineastas em atividade, capaz de arregimentar astros de todos os quilates para suas produções. Em "Dirigindo no escuro", ele não apenas faz rir como utiliza sua experiência de mais de três décadas no mundo do cinema para alfinetar a própria indústria.

O próprio Allen vive o protagonista, Val Waxman, um cineasta vencedor de dois Oscar que, em desgraça devido a seus ataques de estrelismo, tem a grande chance de voltar ao topo ao ser contratado para dirigir uma nova - e cara - produção. A princípio relutante em aceitar o trabalho - o produtor do filme, Hal Yaeger (Treat Williams) é o novo marido de sua ex-mulher (Téa Leoni) - Waxman acaba embarcando no projeto, disposto a tentar a ressurreição de sua carreira. Depois de contratar toda a equipe (inclusive um diretor de fotografia asiático cheio de manias e que não fala nenhuma palavra em inglês), ele descobre, na véspera do início das filmagens, que ficou cego. Impedido por seu agente (o cineasta Mark Rydell, de "A rosa") de desistir do trabalho, Waxman dá início à produção do filme, sem contar à ninguém sua condição, contando apenas com a ajuda do intérprete contratado para auxiliar na comunicação com o fotógrafo.


É difícil ficar incólume a "Dirigindo no escuro", especialmente quando se é fã de cinema e percebe nele referências nominais - aos irmãs Weinstein, donos da então poderosa Miramax, por exemplo - e piadas geniais sobre a própria Hollywood e suas engrenagens mercenárias. Ao eleger como protagonista um cineasta que conduz um filme sem enxergar absolutamente nada, Allen mostra, com seu característico senso de humor, que nem é preciso ter uso de todos os cinco sentidos para ser um cineasta na terra do cinema.


Com um final irônico e à altura do desenvolvimento do roteiro, repleto de diálogos engraçadíssimos e piadas visuais há muito ausente das obras de Woody Allen - e com um elenco que conta com Debra Messing, a gracinha protagonista do seriado "Will & Grace" - "Dirigindo no escuro" pode não ser o mais popular entre seus filmes, mas está (como sempre) muito à frente de comédias sem-graça que são servidas semanalmente ao público. Hilariante!

Friday, October 14, 2011

VIDA BANDIDA

VIDA BANDIDA (Bandits, 2001, MGM Pictures, 123min) Direção: Barry Levinson. Roteiro: Harley Peyton. Fotografia: Dante Spinotti. Montagem: Stu Linder. Música: Christopher Young. Figurino: Gloria Gresham. Direção de arte/cenários: Victor Kempster/Merideth Boswell. Produção executiva: Patrick McCormick, Harley Peyton, David Willis. Produção: Ashok Amritraj, Michele Berk, Michael Birnbaum, David Hoberman, Barry Levinson, Arnold Rifkin, Paula Weinstein. Elenco: Bruce Willis, Billy Bob Thornton, Cate Blanchett, Troy Garity, January Jones. Estreia: 12/10/01

Parece mentira que Barry Levinson, o sério diretor premiado com o Oscar pelo dramalhão "Rain Man" e indicado novamente ao prêmio pelo ambicioso "Bugsy" seja o diretor de "Vida bandida", uma divertida e despretensiosa comédia romântica de ação. Contando com um roteiro esperto e um elenco de sonhos, o filme remete a famosos títulos sobre golpes e assaltos que tanto sucesso fizeram nos anos 60 e 70, como "Butch Cassidy" e "Golpe de mestre", ambos estrelados por Robert Redford e Paul Newman. Aqui, Bruce Willis e Billy Bob Thornton (mais à vontade do que nunca) é que são os protagonistas, dois amigos e comparsas que se veem às voltas com o desejo e o amor atrapalhando (ou nem tanto assim) sua lealdade.

Foragidos de uma penitenciária, os amigos Joe Blake (Bruce Willis) e Terry Lee Collins (Billy Bob Thornton) passam a ser conhecidos como os "Criminosos que passam a noite", em referência à sua tática sui generis de assaltarem os bancos escolhidos: eles passam a noite na casa do gerente e só na manhã seguinte cometem os roubos. Seu trio, completo com Harvey (Troy Garity, filho de Jane Fonda na vida real), primo de Joe que sonha ser dublê em Hollywood vira quarteto quando entra em cena a dona-de-casa entediada Kate Wheeler (Cate Blanchett, linda), que, depois de atropelar Terry, se envolve romanticamente com os dois cúmplices. A harmonia do grupo ameça ruir quando Joe surge com a ideia de - clichê máximo do gênero - um último golpe, que os levará a seu tão sonhado hotel no México.



A edição ágil - com idas e vindas no tempo - o final abertamente contraventor (que pode possivelmente incomodar as feministas mais ferrenhas), o roteiro enxuto e principalmente a trilha sonora composta de clássicos contemporâneos como "Beautiful day", da banda U2, fazem de "Vida bandida" uma obra que nada contra a maré dos filmes de ação, ao privilegiar os diálogos em detrimento da adrenalina e dar mais valor às personagens do que a cenas de perseguição ou tiroteios ocos. Na verdade, é uma diversão compromissada, que tem em seu elenco o atrativo maior. Enquanto Bruce Willis desfila seu habitual charme cool, é Billy Bob Thornton (ainda casado com Angelina Jolie à época das filmagens) que mais chama a atenção da plateia, talvez em parte devido aos engraçados diálogos reservados à sua personagem hipocondríaca e um tanto quanto maníaco-obsessiva (manias essas que o aproximam da enloquecida personagem de Blanchett, fugindo dos papéis dramáticos a que estava confinada desde que tornou-se estrela, com o filme "Elizabeth").

Ainda que se estenda mais do que o necessário - uns bons quinze minutos a menos fariam muita diferença a favor - "Vida bandida" é uma delícia. Afinal de contas, não há como não simpatizar imediatamente com um filme que conta com dois hinos de Bonnie Tyler - "Total eclipse of the heart" e "Holding out for a hero" - sendo dublados por Cate Blanchett.

Thursday, August 25, 2011

QUASE FAMOSOS

QUASE FAMOSOS (Almost famous, 2000, Columbia Pictures/Dreamworks SKG, 122min) Direção e roteiro: Cameron Crowe. Fotografia: John Toll. Montagem: Joe Hutsching, Saar Klein. Música: Nancy Wilson. Figurino: Betsy Heimann. Direção de arte/cenários: Clay A. Griffith/Robert Greenfield. Produção: Ian Bryce, Cameron Crowe. Elenco: Patrick Fugit, Billy Crudup, Jason Lee, Kate Hudson, Frances McDormand, Philip Seymour Hoffman, Anna Paquin, Jimmy Fallon, Fairuza Balk, Noah Taylor, Zooey Deschanel, Rain Wilson. Estreia: 13/9/00

4 indicações ao Oscar: Atriz Coadjuvante(Kate Hudson, Frances McDormand), Roteiro Original, Montagem
Vencedor do Oscar de Roteiro Original
Vencedor de 2 Golden Globes - Melhor Filme Comédia/Musical, Atriz Coadjuvante (Kate Hudson)

“Não fique amigo de roqueiros!” é o mais importante conselho dado pelo crítico musical Lester Bangs (Phillip Seymour Hoffman) ao adolescente William Miller (Patrick Fugit), às vésperas de o garoto embarcar, aos 15 anos, com a banda de rock Stillwater em sua primeira turnê, entitulada “Quase famosos”. Criado pela repressora Elaine (Frances McDormand), uma professora universitária que conseguiu causar a fuga da filha mais velha devido a suas idiossincrasias - como comemorar o Natal em setembro para fugir do caráter comercial da data - Miller tem a chance, proporcionada pela prestigiada revista Rolling Stone (que nem de longe imagina sua real idade), de acompanhar a excursão da banda para uma reportagem exclusiva. Em poucos dias, o adolescente deixa pra trás uma vida sem graça e tem acesso a um mundo de amor livre, drogas, intrigas e até amor verdadeiro, quando se apaixona por Penny Lane (a graciosa Kate Hudson, filha da atriz Goldie Hawn), uma groupie que esconde quilos de romantismo e ingenuidade debaixo de uma casca de liberalidade e auto-confiança.

William Miller, o adolescente que descobre o amor, o sexo e a vida como ela é no meio de uma excursão de rock é o protagonista de “Quase famosos”, deliciosa comédia escrita e dirigida por Cameron Crowe, em seu filme seguinte ao sucesso de “Jerry Maguire, a grande virada”. Notadamente semi-autobiográfico, seu filme é um vencedor em todos os sentidos. Seu roteiro, vencedor do Oscar, é um achado de bom humor e delicadeza, com diálogos brilhantes, recitados por um elenco excepcional. Sua trilha sonora, como não poderia deixar de ser em se tratando de um filme sobre o rock’n’roll é repleta de pérolas como The Who, Elton John e Simon & Garfunkel e é difícil não se envolver com os personagens criados pela mente ágil e humanista de Crowe, que manteve de seu filme anterior a capacidade de fazer rir e emocionar com facilidade e sem maniqueísmos.


Talvez a maior qualidade de seu roteiro seja fazer dos olhos de William Miller os olhos da plateia. É através do olhar ingênuo e romântico de Miller que o público trava conhecimento com o amor do guitarrista Russell Hammond (o ótimo Billy Crudup) pela música; é graças a seus silêncios que somos testemunhas dos bastidores de um grupo em vias de tornar-se grande; e é por seus olhos encantados de paixão que também caímos de amor por Penny Lane, vivida com graça e carisma por uma Kate Hudson impecável, que foi promovida do papel de irmã do protagonista (que ficou com a ótima Zooey Deschannel) para o principal papel feminino do filme (cobiçado por Kirsten Dunst), ganhou o Globo de Ouro e concorreu ao Oscar de atriz coadjuvante, assim como a colega de elenco Frances McDormand, perfeita como a mãe de Miller e roubando as cenas em que aparece.

Não é sempre que um filme como “Quase famosos” aparece. Lançando um olhar carinhoso à época de ouro do rock (a trama se passa em 1973), Crowe mostra que sabe como poucos onde encontrar material humano no meio de muito som – é dele o roteiro e a direção do subapreciado “Vida de solteiro”, passado em Seattle, berço do movimento grunge do inicio dos anos 90. Não é preciso ser um especialista em rock dos anos 70 para se apaixonar pelo filme – ainda que Crowe tenha espalhado dezenas de referências ao gênero pelo roteiro – nem tampouco ser um roqueiro de fé para se empolgar com o resultado final. Basta gostar de bom cinema. E bom cinema “Quase famosos” é!

Wednesday, August 24, 2011

A ENFERMEIRA BETTY

A ENFERMEIRA BETTY (Nurse Betty, 2000, Gramercy Pictures, 110min) Direção: Neil LaBute. Roteiro: John C. Richards, James Flamberg, estória de John C. Richards. Fotografia: Jean-Yves Escoffier. Montagem: Joel Plotch, Steven Waisberg. Música: Rolfe Kent. Figurino: Lynette Meyer. Direção de arte/cenários: Charles Breen/Jeffrey Kushon. Produção executiva: Moritz Borman, Stephen Pevner, Chris Sievernich, Philip Steuer. Produção: Steve Golin, Gail Mutrux. Elenco: Renée Zellweger, Morgan Freeman, Chris Rock, Greg Kinnear, Aaron Eckhart, Allison Janney, Crispin Glover, Tia Texada, Pruitt Taylor Vince, Elizabeth Mitchell. Estreia: 08/9/00

Vencedor do Festival de Cannes - Melhor Roteiro
Vencedor do Golden Globe - Melhor Atriz Comédia/Musical (Renée Zellweger)

Depois da fria recepção - tanto crítica quanto popular - a "Seus amigos, seus vizinhos", o diretor Neil Labute compreendeu que precisava urgentemente se reinventar. Sua tendência à polêmica - que atingiu o ápice em sua estreia, o misógino  "Na companhia de homens" - foi deixada de lado, então, em seu terceiro longa. Disfarçado com um elenco de nomes conhecidos e confiáveis - Morgan Freeman e Renée Zelwegger à frente - "A enfermeira Betty" é uma deliciosa comédia de humor negro recheada de referências pop, uma violência um tanto cruel e diálogos saborosos. Não é o tipo de filme que arranca gargalhadas, mas tem um roteiro brilhante que faz uma crítica mordaz à fuga da realidade provocada pela televisão. Pode-se dizer que "A enfermeira Betty" é um "A rosa púrpura do Cairo" que tomou anfetaminas.

A enfermeira Betty do título não é, na verdade, uma enfermeira. Betty Sizemore (Renée Zelwegger em uma de suas melhores atuações) é uma jovem garçonete do Kansas que leva uma vida medíocre ao lado do marido infiel, o mulherengo Del (Aaron Eckhart, o alter ego do diretor se divertindo a valer em sua rápida participação). A monotonia de seu dia-a-dia só é quebrada com os capítulos de "Uma razão para amar", uma telenovela que lhe afasta da apatia de seu casamento. Fascinada principalmente pelo protagonista do programa, o charmoso médico cirurgião David Ravell (Greg Kinnear), Betty tem sua vida totalmente transformada justamente no dia de seu aniversário, quando testemunha, às escondidas, o violento assassinato de seu marido por uma dupla de criminosos. Em estado de absoluto choque, ela cria uma nova vida em sua mente, pega o LeSabre do casal e parte para a California, onde pretende encontrar seu ex-noivo (na verdade, o personagem da novela). O que ela não sabe é que, além de precisar encontrar alguém que não existe na vida real ela está sendo perseguida pelos assassinos do marido - sendo que o mais velho, Charlie (Morgan Freeman), apaixonou-se por ela através de uma fotografia.


O que há de mais inteligente no roteiro de "A enfermeira Betty" é o fato de LaBute e seus colaboradores jamais utilizarem a situação trágica de sua protagonista como forma de deboche. Apesar de estarem todos em uma comédia, os personagens nunca se comportam como tal e o cineasta respeita a condição especial da encantadora Betty, apenas aproveitando-a em prol de um desenrolar jamais previsível. Para isso, conta com uma interpretação excelente de Renée Zelwegger, que consegue escapar vitoriosamente de todas as armadilhas que o papel oferece. Ela constrói uma carismática e sensível Betty de tal maneira a envolver o espectador incondicionalmente - assim como faz com todos à sua volta, desde a bartender de um bar de beira de estrada até à latina Rosa (Tia Texada), com quem vai morar e que lhe ajuda a chegar até seu grande amor - e o que vem depois disso é que faz do filme tão especial.

Em uma comédia romântica convencional, o romance entre Betty e George assumiria a protagonização da trama assim que eles se encontrassem. No filme de LaBute isso jamais acontece. O romance entre os dois é bizarro, estranho, irreal e até mesmo desconfortável (principalmente porque a audiência sabe do que realmente está acontecendo). E o desfecho da trama - que apela para a violência, ainda que nunca exagere - também não pode ser chamado de convencional, mesmo que sua sequência final seja de uma ironia quase clichê. O roteiro de "A enfermeira Betty" brinca com a vaidade da fama e com os perigos da fantasia excessiva, mas nunca pede para ser levado a sério, e talvez aí resida seu charme maior.

"A enfermeira Betty" é uma das comédias mais inventivas e cruéis do início do século, que prova o talento de Neil LaBute em buscar assuntos diferentes de seus primeiros trabalhos e tratá-los com o devido respeito. E é também um marco definitivo na trajetória de Renée Zelwegger como atriz respeitada e admirada. Depois desse filme ela seria Bridget Jones e o resto é história....

Friday, August 19, 2011

TRAPACEIROS

TRAPACEIROS (Small time crooks, 2000, Dreamworks SKG, 94min) Direção e roteiro: Woody Allen. Fotografia: Zhao Fei. Montagem: Alisa Lepselter. Figurino: Suzanne McCabe. Direção de arte/cenários: Santo Loquasto/Jessica Lanier. Produção executiva: J. E. Beaucaire. Produção: Jean Doumanian. Elenco: Woody Allen, Tracey Ulman, Hugh Grant, Elaine May,  Michael Rapaport, Jon Lovitz. Estreia: 19/5/00

Woody Allen não é um cineasta de polpudas bilheterias, e a comemoração em torno dos 50 milhões de arrecadação de seu recente "Meia-noite em Paris" como seu maior sucesso comercial apenas reitera essa afirmação. Levando-se em conta sua carreira brilhante e sua espetacular média de pelo menos um filme por ano sem nunca cair na mediocridade (até mesmo suas obras menores são dignas de nota) não deixa de ser surpreendente que um de seus maiores êxitos populares tenha sido justamente "Trapaceiros", seu primeiro filme distribuído pela Dreamworks de Steven Spielberg. Talvez tenha sido influência do nome do Midas do cinema, mas o fato é que "Trapaceiros" fez mais sucesso do que se esperava, mesmo que esteja longe de ser um dos melhores trabalhos de Allen.




“Trapaceiros”, na verdade, conta várias histórias em seu desenrolar. Começa como um filme de assalto, ao estilo “Um dia de cão”. Ray Winkler (o mesmo Woody Allen de sempre) é um escroque sem maiores talentos que tem a idéia de roubar um banco através de um túnel subterrâneo. Para isso, ele conta com a ajuda da esposa Frenchy (a ótima Tracey Ullman) para que ela sirva de fachada em uma loja de biscoitos. O que ele não poderia imaginar é que a confeitaria pudesse fazer sucesso, o que os torna milionários em questão de poucos meses. Começa aí a segunda história: cheia da grana mas sem a menor classe, Frenchy contrata os serviços do galante David (Hugh Grant, divertindo-se claramente no papel) para ensiná-la a ser uma dama. Apaixonada por ele, ela não percebe que ele está querendo é seu dinheiro. A terceira trama advém da crise no casamento de Ray e Frenchy: sentindo-se abandonado, ele convence a prima de sua mulher, a desligada May (a cineasta Elaine May roubando a cena) a participar do roubo de um colar caríssimo.

É preciso ser fã da obra de Woody Allen para se gostar de "Trapaceiros", uma vez que as maiores características de suas comédias estão presentes em todo o desenrolar da trama. Calcada basicamente em situações inusitadas e em diálogos inteligentes e sofisticados (ainda que a personagem de Tracey Ullman frequentemente esbarre em um humor mais popular), o filme carece de uma estrutura mais sólida (algumas vezes não se sabe exatamente qual é o foco da história) mas compensa lindamente esse pequeno pecado com as atuações hilárias de Ullman e Elaine May. Apesar de seu ritmo irregular, é um produto típico de seu criador. Para os convertidos é mais um filme acima da média. Para os neófitos, apenas uma comédia com alguns dos diálogos mais engraçados e saborosos de sua época.

Tuesday, August 9, 2011

ALTA FIDELIDADE

ALTA FIDELIDADE (High fidelity, 2000, Dogstar Films/New Crime Productions/Touchstone Pictures/Working Title Films, 113min) Direção: Stephen Frears. Roteiro: D.V. DeVincentis, Steve Pink, John Cusack, Scott Rosenberg, romance de Nick Hornby. Fotografia: Seamus McGarvey. Montagem: Mick Audsley. Música: Howard Shore. Figurino: Laura Cunningham Bauer. Direção de arte/cenários: David Chapman, Therese Deprez/Larry Lundy. Produção executiva: Liza Chasin, Alan Greenspan, Mike Newell. Produção: Tim Bevan, Rudd Simmons. Elenco: John Cusack, Iben Hjejle, Jack Black, Lisa Bonet, Todd Louiso, Joan Cusack, Natasha Gregson-Wagner, Lili Taylor, Bruce Springsteen, Sara Gilbert, Tim Robbins, Joelle Carter, Catherine Zeta-Jones. Estreia: 31/3/00

Se existe algum escritor moderno que merece ser considerado "pop" esse autor é o inglês Nick Hornby. Bem-humorado, direto e totalmente mergulhado em universo cultural que é a cara dos anos 80/90, Hornby é o autor de alguns dos livros mais deliciosamente divertidos e irônicos do final do primeiro milênio e, como tal, sua prosa não escapou dos olhares gananciosos de Hollywood. Sendo que pouca gente assistiu à adaptação de "Febre de bola" lançada em 1997 e estrelada por Colin Firth, pode-se considerar que seu primeiro grande contato com o sucesso cinematográfico foi "Alta fidelidade", a versão de Stephen Frears para aquele que muitos consideram seu melhor trabalho. Apesar do relativo fracasso de bilheteria (mal cobriu seu custo em terras ianques), o filme protagonizado pelo ótimo John Cusack é uma das melhores comédias românticas da história e um programa obrigatório para aqueles que gostam de diversão inteligente.

Trocando (sem maiores prejuízos) o cenário da trama de Londres para Chicago (assim como a nacionalidade do protagonista), o roteiro co-escrito pelo próprio Cusack segue quase à risca o romance que lhe deu origem, que também originou a peça de teatro "A vida é feita de som e fúria". Ao deixar intactas suas maiores qualidades (o humor bem sacado, o mergulho sem medo no universo pop, o romantismo visto por uma ótica masculina e quase cafajeste), o filme de Frears presta reverência à sua origem sem nunca deixar de aparentar um frescor interno: da forma que está, a história parece ter nascido para a tela grande, tamanha sua identificação com a linguagem cinematográfica.



Rob Gordon (em atuação antológica de John Cusack) é o feliz proprietário de uma loja de discos de vinil chamada Championship Vynil, localizada em Chicago. Fanático por músicas pop e por fazer listas que enumeram suas preferências em vários setores da vida, ele sofre um golpe inesperado quando é abandonado por sua namorada, a bela Laura (Ibjen Hjejle) e fica sozinho ao lado de Harry (Jack Black) e Dick (Todd Louiso), seus funcionários e únicos amigos. Desesperado por esse revés emocional, Gordon faz, então, a lista mais importante de sua vida e resolve entrar em contato com as cinco mulheres que mais o fizeram sofrer por amor. Com isso, ele tenciona compreender porque seus relacionamentos invariavelmente acabam da mesma forma dolorosa. Assim, ele procura seu amor de infância que o trocou por um colega de escola, a namorada da faculdade (Joelle Carter) - que ele mesmo abandonou porque ela não queria sexo-, a esplendorosa Charlie (Catherine Zeta Jones em ótima forma) - que o trocou por um homem menos imaturo - e a deprimida Sarah (Lily Taylor), que também o chutou. Finalmente, ele resolve reconquistar Laura, ao mesmo tempo em que vive um rápido romance com a cantora Marie de Salle (Lisa Bonet).

Ao utilizar o batido - mas sempre eficaz - recurso de fazer seu protagonista dialogar com a câmera, tendo o espectador como confidente e ouvinte, Frears conquista a audiência logo na primeira cena, com um close sofrido de John Cusack desnudando seu coração partido e vociferando contra as músicas de amor. Aqui Cusack está no melhor papel de sua vida, um Ferris Bueller que, em vez de matar aula, resolve viver sua vida amorosa sem amarras apertadas. Seu Rob Gordon pode até parecer egoísta em determinados momentos, quase insensível e galinha, mas a sensibilidade do ator (também produtor executivo do filme e da trilha musical) faz com que o público inteiro se solidarize com ele... e torça para um final feliz entre ele e sua amada Laura.

Sem apelar para piadas fáceis e grosseiras, "Alta fidelidade" ainda tem tempo para apresentar coadjuvantes memoráveis (o asqueroso Harry vivido por Jack Black em seu melhor momento é um exemplo), de contar com participações especialíssimas de Bruce Springsteen e Tim Robbins e ainda por cima legar uma extraordinária trilha sonora, em que convivem harmonicamente Bob Dylan, Elvis Costello, Stevie Wonder e Stereolab, além de uma surpreendente versão da bela "Let's get it on" de Marvin Gaye na voz de... Jack Black (!!!)

"Alta fidelidade" é cinema pop, com tudo o que isso tem de bom e agradável. Um cult de nascimento!

Monday, August 8, 2011

GAROTOS INCRÍVEIS

GAROTOS INCRÍVEIS (Wonder boys, 2000, Paramount Pictures, 107min) Direção: Curtis Hanson. Roteiro: Steve Kloves, romance de Michael Chabon. Fotografia: Dante Spinotti. Montagem: Dede Allen. Música: Christopher Young. Figurino: Beatrix Aruna-Pasztor. Direção de arte/cenários: Jeannine Oppewall/Jay R. Hart. Produção executiva: Ned Dowd, Adam Schroeder. Produção: Curtis Hanson, Scott Rudin. Elenco: Michael Douglas, Tobey Maguire, Robert Downey Jr., Frances McDormand, Katie Holmes, Rip Torn, Jane Adams, Philip Bosco. Estreia: 25/02/00

3 indicações ao Oscar: Roteiro Adaptado, Montagem, Canção ("Things have changed")
Vencedor do Oscar de Melhor Canção Original ("Things have changed")
Vencedor do Golden Globe de Melhor Canção Original ("Things have changed")

O termo "wonder boy" do título original é derivativo da palavra alemã "wunderkind", que se refere a determinada pessoa que atinge grande sucesso profissional ou artístico com pouca idade. No primeiro filme de Curtis Hanson após o assombro que foi "Los Angeles, cidade proibida", quem merece o adjetivo é o jovem James Leer (Tobey Maguire), um estudante de literatura com grande talento para a escrita e que acaba sendo o alvo da proteção de seu professor, um antigo "wonder boy" chamado Grady Tripp (Michael Douglas). Autor de um célebre romance, Tripp não consegue terminar seu novo livro (que já tem mais de duas mil páginas) e está passando por uma séria crise pessoal: abandonado pela esposa, ele descobre que a amante Sara (Frances McDormand) - a esposa do reitor - está grávida e ainda tem que se esquivar do assédio de uma aluna, a ambiciosa Hannah Green (Katie Holmes) e da estranha amizade com seu editor, o excêntrico Terry Crabtree (Robert Downey Jr), que se encanta pela delicadeza e pela sensibilidade de James, que cai em lágrimas sentidas em momentos absurdos e tem séria tendência em mentir.

Baseado em um romance de Michael Chabon, "Garotos incríveis" estreou nos EUA em fevereiro de 2000 e caiu nas graças da crítica, em especial a atuação excepcional de Michael Douglas, comprovando seu talento em escolher bons filmes e bons papéis. O fracasso de bilheteria, no entanto, desanimou a Paramount Pictures (que distribuiu o filme), que esperava que a assinatura de Curtis Hanson e o elenco fabuloso - dois vencedores do Oscar, dois jovens em ascensão e um rebelde sem causa carismático - fossem o suficiente para atrair o público. Mesmo assim, no final do ano, o filme voltou às salas de cinema com o objetivo de chamar a atenção para suas qualidades e, quem sabe, conquistar algumas indicações ao Oscar. Funcionou em termos. Com 3 indicações ao prêmio da Academia - incluindo roteiro adaptado - "Garotos incríveis" não atingiu suas expectativas comerciais nem tampouco tornou-se campeão de prêmios. Uma pena. O filme é uma deliciosa comédia dramática com uma inteligência rara no mercado do gênero.


"Garotos incríveis" é uma comédia sem gargalhadas. O humor de Chabon - mantido intacto pelo roteiro de Steve Kloves - é pura ironia, pura delicadeza. É um humor de sorrisos, de assombro. É um humor elegante, sofisticado. E encontrou em Curtis Hanson seu diretor perfeito. Sem utilizar-se de subterfúgios vulgares, Hanson fez de seu filme - o primeiro que assina com o status de "grande diretor" e não apenas "um cineasta competente" - uma homenagem aos gênios incompreendidos, às almas excêntricas, ao surreal que existe no dia-a-dia. "Garotos incríveis" utiliza-se de tramas bizarras e elementos estranhos para contar uma história simples, quase corriqueira. E é essa mistura do comum com o extravagante - uma de suas melhores qualidades - que talvez tenha confundido o público médio.

O roteiro de Kloves - que escreveu as adaptações da série "Harry Potter" para o cinema - mantém a estrutura do livro de Chabon, autor premiado com o Pulitzer em 2001. Toda a trama se passa em 24 horas, com exceção do epílogo, e o público acompanha a trajetória imprevisível de seu protagonista (em uma interpretação antológica de Michael Douglas), que, sem imaginar, se vê em meio a uma confusão que envolve um cachorro morto a tiros, o casaco que Marilyn Monroe utilizou em seu casamento com Joe DiMaggio, seu inacabado romance, as mentiras de James Leer - que jogam o rapaz nos braços do ambicioso Terry - e um gângster violento. Grady Tripp é mais do que um protagonista, ele é também a testemunha das transformações nas vidas das pessoas que o rodeiam, mudanças essas descritas também na canção-tema de Bob Dylan, vencedora do Oscar. Assim como o público, ele acompanha perplexo os acontecimentos, enquanto tenta resolver a confusão que é sua própria existência.

"Garotos incríveis" não é uma comédia tradicional. É pouco provável que agrade aos fãs de humor visual ou de piadas vulgares. Tampouco é um drama no sentido convencional, uma vez que não apresenta momentos lacrimosos ou tragédias pessoais. Mas é um belo filme, realizado com extrema competência e que tem em seu particular jeito de contar uma história a maior de suas qualidades. Merece ser descoberto!

Tuesday, August 2, 2011

O MUNDO DE ANDY

O MUNDO DE ANDY (Man on the moon, 1999, Universal Pictures, 118min) Direção: Milos Forman. Roteiro: Larry Alexander, Scott Karasewski. Fotografia: Anastas Michos. Montagem: Adam Boomme, Lynzee Klingman, Christopher Tellefsen. Música: REM. Figurino: Jeffrey Kurland. Direção de arte/cenários: Patrizia Von Brandenstein/Maria Nay. Produção executiva: Michael Hausman, George Shapiro, Howard West. Produção: Danny DeVito, Michael Shamberg, Stacey Sher. Elenco: Jim Carrey, Danny DeVito, Courtney Love, Paul Giamatti. Estreia: 22/12/99

Vencedor do Golden Globe de Melhor Ator Comédia/Musical (Jim Carrey)
Vencedor do Urso de Prata de Melhor Diretor (Milos Forman) no Festival de Berlim


O americano Andy Kaufman foi talvez o mais ousado comediante surgido nos EUA nos anos 80. Longe de ser apenas um humorista, ele ambicionava ser um homem da indústria de entretenimento, provocando a audiência e buscando incessantemente realizar tudo o que ainda não havia sido feito. Morto devido a um câncer, Kaufman foi homenageado pela banda R.E.M. – cujo vocalista Michael Stipe é seu fã declarado – com a canção “Man on the moon” e pelo cineasta tcheco Milos Forman com uma cinebiografia informal e criativa, batizada com o nome da bela obra de Stipe e no Brasil lançada com o péssimo título “O mundo de Andy”, talvez para forçar a comparação com o filme anterior de seu astro Jim Carrey - “O show de Truman” – já que o protagonista é praticamente desconhecido do grande público daqui.

Fã de personagens à margem da sociedade – como o rebelde vivido por Jack Nicholson em “Um estranho no ninho” e o excêntrico milionário interpretado por Woody Harrelson no mais recente “O povo contra Larry Flynt” – Forman encontrou na personalidade complexa de Andy Kaufman o material perfeito para mais um grande filme. Graças a um inspirado roteiro da dupla Larry Alexander e Scott Karaszewski (também responsáveis pelo ótimo texto de “Larry Flynt” e da homenagem de Tim Burton ao pior cineasta da história em “Ed Wood”), Forman consegue apresentar seu protagonista e suas criações sem apressar ou retardar nada, com um invejável ritmo e com um delicioso senso de humor, reflexo das ironias ora escrachadas ora sutis de seu homenageado, que freqüentemente ultrapassava as barreiras do bom gosto e com isso conquistou tanto fãs quanto detratores, e que encontra em Jim Carrey um intérprete à altura.


Depois de provar, com “O show de Truman”, que sabia atuar a sério, Carrey, antes visto apenas como um ator de comédias físicas e descerebradas, mostra, em “O mundo de Andy”, que não só é capaz de dar dimensões variadas a suas personagens como também consegue transformar-se visualmente e dedicar-se com paixão a projetos tão pouco comerciais (sua escolha para o papel, inclusive, tem a ver com negócios, uma vez que o próprio estúdio optou por ele em detrimento de Edward Norton, planejando uma bilheteria milionária que nunca aconteceu). O trabalho irretocável de Carrey – não apenas como Kaufman mas também como suas criações, como o cantor de cassinos Tony Clifton e o mecânico estrangeiro Latka, entre outros – consegue até mesmo sobressair-se sobre a delicada atuação de Danny DeVito (também produtor do filme) como o empresário de Kaufman e sobre a presença da cantora Courtney Love, em seu segundo trabalho com o diretor Milos Forman.

Contado de forma episódica e criativa, “O mundo de Andy” é imprevisível desde sua primeira cena, com os créditos de encerramento logo no início do filme. A cinebiografia do ator que chegou a ser excluído do popular “Saturday night live” - a pedido do público que não agüentava mais suas brincadeiras de mau-gosto – usa das convenções de um filme de seu gênero para conquistar a audiência e apresentar o “maldito” a platéias que, do contrário, não teriam acesso a seu tipo especial de fazer humor. É um trabalho inteligente cujo brilhantismo a bilheteria medíocre nos EUA apenas reitera. Afinal de contas, quantos filmes realmente bons fazem sucesso sem explosões e nudez gratuita?

Thursday, July 14, 2011

QUERO SER JOHN MALKOVICH

QUERO SER JOHN MALKOVICH (Being John Malkovich, 1999, Gramercy Pictures, 112min) Direção: Spike Jonze. Roteiro: Charlie Kaufman. Fotografia: Lance Acord. Montagem: Eric Zumbrunnen. Música: Carter Burwell. Figurino: Casey Storm. Direção de arte/cenários: K.K. Barrett/Gene Serdena. Produção executiva: Charlie Kaufman, Michael Kuhn. Produção: Steve Golin, Vincent Landay, Sandy Stern, Michael Stipe. Elenco: John Cusack, Catherine Keener, Cameron Diaz, John Malkovich, Mary Kay Place, Charlie Sheen. Estreia: 29/10/99

3 indicações ao Oscar: Diretor (Spike Jonze), Atriz Coadjuvante (Catherine Keener), Roteiro Original

Quando se diz que um filme é bizarro a imagem que normalmente vêm à mente é a de alguma cena criada pelo Monthy Phyton – grupo inglês capaz de contar as piadas mais surreais de maneira mais simples. No entanto, depois de alguns minutos apenas de “Quero ser John Malkovich” o conceito de bizarro no cinema atinge um novo patamar. Disparado o dono do roteiro mais tresloucado do final do milênio, o filme do estreante em longa-metragens Spike Jonze (visto como ator em “Três reis”) passa longe do trivial e se assusta uma parcela do público ao negar-se a concessões comerciais, imediatamente marca seu lugar como uma estréia das mais alvissareiras do cinema.

John Cusack, desgrenhado e fugindo como o diabo da cruz de um visual de galã vive Craig Schwartz, um rapaz desempregado que tenta ganhar a vida com seus impressionantes shows de marionetes. Casado com Dotty (uma Cameron Diaz irreconhecível), uma amante incondicional de animais, ele vive uma vida sem graça até que encontra trabalho como arquivista em uma empresa localizada no 7 ½ andar (!!) de um prédio comercial. Encantado com Maxine (Catherine Keener), uma colega de trabalho, ele tem sua existência transformada ao descobrir, sem querer, um portal que dá diretamente no cérebro do ator John Malkovich. Unindo-se à ambiciosa Maxine, ele começa a cobrar 200 dólares por pessoa que queira passar 15 minutos dentro da mente do ator – e depois ser jogado à beira de uma rodovia em Nova Jérsei. As coisas se complicam para ele quando sua mulher também entra no cérebro de Malkovich, descobre que sempre quis ser um homem – e se apaixona por Maxine.


Não há nenhuma linha do roteiro delirante de Charlie Kaufman que seja convencional, banal ou corriqueira. Desde os diálogos surreais – o documentário sobre a criação do 7 ½ º andar beira a perfeição de um pesadelo – até os cenários inacreditáveis, tudo no filme de Jonze clama por atenção. Até mesmo a participação do próprio John Malkovich em cenas pretensamente constrangedoras mostram que diante da comédia do ex-clipeiro (é dele o vídeo de “Praise you”, de Fatboy Slim, por exemplo) se está diante também de um diretor e de um roteirista sem medo de embarcar em uma jornada sem precedentes em termos de humor. A coragem do elenco também é notável - em especial uma horrenda Cameron Diaz - e a participação especial de nomes como Sean Penn e David Fincher apenas reitera o nível de qualidade de um filme que jamais busca a risada fácil.


"Quero ser John Malkovich" é um dos filmes essenciais do final da década de 90, por sua criatividade, sua inteligência e por oferecer à plateia muito mais do que comédias banais oferecem a cada semana. Pode não agradar a todo mundo, mas ninguém pode acusá-lo de ser comum.

Thursday, June 30, 2011

ELEIÇÃO

ELEIÇÃO (Election, 1999, MTV Films/Paramount Pictures, 103min) Direção: Alexander Payne. Roteiro: Alexander Payne, Jim Taylor, romance de Tom Perrotta. Fotografia: James Glennon. Montagem: Kevin Tent. Música: Rolfe Kent. Figurino: Wendy Chuck. Direção de arte/cenários: Jane Ann Stewart/Renee Davenport. Produção executiva: Van Toffler. Produção: Albert Berger, David Gale, Keith Samples, Ron Yerxa. Elenco: Matthew Broderick, Reese Witherspoon, Chris Klein, Jessica Campbell, Molly Hagan. Estreia: 23/4/99

Indicado ao Oscar de Roteiro Adaptado

É engraçado como o povo americano tem uma obsessão quase indecente com o desejo de vencer a qualquer custo. Uma prova de que essa obsessão surge cada vez mais cedo ultimamente é a história – hilária, irônica e por que não apavorante – contada em “Eleição”, uma das comédias mais cáusticas de 1999.
        
Reese Witherspoon, em uma atuação nunca aquém de impecável, vive Tracy Flick, um aluna exemplar que dedica sua vida à perfeição. Integrante de todo e qualquer grupo extra-curricular de sua escola, ela vê como o ápice de sua vida estudantil a eleição para a presidência do Conselho Estudantil. Como sua vida social não é das melhores – sua única relação amorosa, por exemplo, foi com um professor cuja carreira ela destruiu – ela constrói uma campanha eleitoral com tudo que tem direito e parece não ter rivais. Sua ambição desmedida, no entanto, incomoda profundamente o professor Jim McAllister (Matthew Broderick, ótimo), que tem a idéia de lançar a candidatura de outro aluno, o bobalhão mas popular Paul Metzler (Chris Klein). Sua guerra não declarada à Tracy acaba trazendo dramáticas consequências à sua carreira.
        

É difícil dizer o que funciona melhor em “Eleição”. O roteiro, baseado no romance de Tom Perrota (também autor do livro que deu origem ao filme "Pecados íntimos") e co-escrito pelo diretor Alexander Payne e Jim Taylor, foi indicado ao Oscar e é de uma riqueza de detalhes e ironias que impressiona principalmente devido ao fato de ser de um gênero que normalmente ignora coisas tais como sutilezas. Ao fazer um estudo sobre um assunto tão sério de maneira tão leve e divertida, Payne não se preocupa em exagerar no realismo, dando importância principalmente às consequências dos atos de seus personagens, que mesmo sem querer dão partida em acontecimentos que não podem ser consertados. O professor vivido por Broderick – deixando para trás sua criação mais famosa, o Ferris Bueller de “Curtindo a vida adoidado” – é um exemplo perfeito. Apesar de ser bem sucedido em sua carreira, é considerado como perdedor dentro dos conceitos de Flick, que almeja coisas grandiosas em seu futuro. Ao cometer dois erros impulsivos – se apaixonar pela ex-esposa do melhor amigo e tentar destruir os planos de sua ambiciosa aluna – ele próprio entra em um caminho sem volta que pode acabar com sua profissão e seu casamento. O roteiro não perdoa seus personagens, mas, benevolente, lhes dá segundas e terceiras chances.
        
Imperdível devido à suas qualidades como comédia – que nunca arranca gargalhadas e sim sorrisos cúmplices – e importantíssimo graças às discussões que suscita, “Eleição” ainda conta com o trabalho de alto nível de Reese Witherspoon, que criou uma das personagens mais complexas de sua carreira ainda curta sem apelar para armadilhas maniqueístas. Sua batalha com Matthew Broderick merece ser conferida e admirada como um dos filmes mais inteligentes da categoria.

Wednesday, June 29, 2011

VAMOS NESSA

VAMOS NESSA (Go, 1999, Columbia Pictures, 102min) Direção: Doug Liman. Roteiro: John August. Fotografia: Doug Liman. Montagem: Stephen Mirrione. Música: BT. Figurino: Genevieve Tyrrell. Direção de arte/cenários: Thomas P. Wilkins/Fontaine Beauchamp Hebb. Produção: Matt Freeman, Mickey Liddell, Paul Rosenberg. Elenco: Sarah Polley, Katie Holmes, Scott Wolf, Jay Mohr, Timothy Olyphant, Desmond Askew, William Fichtner, Jane Krakowski, Taye Diggs, Breckin Meyer, J.E. Freeman. Estreia: 09/4/99

Nada como um filme despretensioso para provar aos descrentes que ainda existe criatividade e energia no mundo hollywoodiano. Feito com parcos 6 milhões e meio de dólares, a comédia “Vamos nessa” é a perfeita prova de que é possível contar uma história com poucos recursos desde que a receita inclua inteligência e talento. Além de tudo, comprova que o sucesso de crítica que o diretor Doug Liman obteve com seu primeiro filme, “Swingers, curtindo a noite” não era apenas sorte de principiante.
        
“Vamos nessa” é composto de várias histórias que se interligam, a exemplo de inúmeros outros filmes que exploraram o formato. No entanto, ao invés de utilizar a fórmula perigosamente corriqueira como subterfúgio para esconder um roteiro sem consistência, a maneira com que as tramas se desenrolam se completam, como um quebra-cabeças bem-humorado e descolado, contado com ritmo próprio, bom-humor e uma energia contagiante.
    
A trama de “Vamos nessa” se desenrola às vésperas de Natal, quando o inglês Simon (o ótimo estreante Desmond Askew) resolve aproveitar uma oportunidade única e viajar para Las Vegas com um grupo de amigos. Enquanto ele passa por poucas e boas na capital mundial do jogo, nem imagina a confusão que deixou para trás. Sua colega de trabalho, a jovem Ronna (a revelação de “O doce amanhã” Sarah Polley), à beira de uma ação de despejo, aceita vender êcstase para um casal de atores, Zack e Adam (Scott Wolf e Jay Mohr), mas ao descobrir que tudo é uma armadilha armada por um policial muito suspeito (William Fichtner) dá fim à mercadoria. Fazendo isso, ela passa a perna em Todd Gaines (Timothy Olyphant), um traficante pouco afeito a amizades por quem sua melhor amiga Claire (Katie Holmes) sente uma mal-disfarçada atração. Entrando na lista negra do jovem, ela acaba indo parar em uma rave, para onde vários conflitos irão confluir e até mesmo a desgastada relação entre os astros de TV irá se resolver.
        

O que é melhor, em "Vamos nessa" é sua sinceridade em dialogar com seu público-alvo. É evidente que não existe a intenção de ser denso ou dramaticamente relevante, é apenas uma história contada de maneira a jamais deixar o ritmo cair e, nesse quesito, é memorável. Todas as subtramas são interessantes e repletas de referências pop (a citação a "Barrados no baile" quase passa despercebida, inclusive) e piadas inteligentes, e não sobra nenhum laço solto em seu produto final, nada é esquecido pelo roteirista John August (nem ao menos aquelas personagens que nem mesmo o público lembrava...)  Recheado de delicios diálogos e uma agilidade a toda prova, "Vamos nessa" ainda conquista por sua modernidade nata. Nada no filme, nem o roteiro, nem a edição nem muito menos o elenco - repleto de nomes promissores - parecem forçados e/ou equivocados. Até mesmo Katie Holmes está relativamente bem, ainda que repita os trejeitos de sua personahem mais conhecida, a chatinha Joey Potter da série "Dawson's Creek" e a química entre Jay Mohr e Scott Wolf é impagável. No entanto, é o inglês Desmond Askew quem mais se destaca, na pele do alucinado Simon, dono de algumas das melhores cenas do filme.

E a trilha sonora, aliás, é quase uma personagem à parte: cumpre seu papel com louvor, comentando a ação sem interferir exageradamente nela. De techno a pop - passando por "Macarena" em uma cena bizarra e uma canção inédita da banda No Doubt) - a lista de canções é das mais variadas e enche os ouvidos da plateia, feliz em ser tratada com uma boa dose de humor esperto e descolado. Quando acabam as aventuras do grupo de jovens retratados por August, fica a sensação de que Doug Liman estava no caminho certo em sua habilidade de contar histórias rápidas. Seu filme é o programa perfeito para um sábado à noite antes de uma balada.

Wednesday, June 15, 2011

CELEBRIDADES

CELEBRIDADES (Celebrity, 1998, Sweetland Films/Magnolia Productions, 113min) Direção e roteiro: Woody Allen. Fotografia: Sven Nykvist. Montagem: Susan E. Morse. Figurino: Suzy Benziger. Direção de arte/cenários: Santo Loquasto/Susan Kaufman. Produção executiva: J.E. Beaucaire. Produção: Jean Doumanian. Elenco: Kenneth Branagh, Winona Ryder, Judy Davis, Charlize Theron, Leonardo DiCaprio, Famke Janssen, Dylan Baker, Gretchen Moll, Sam Rockwell, Michael Lerner, Dylan Baker, Debra Messing, Adrian Grenier, Hank Azaria. Estreia: 20/11/98

Alguém já disse que é possível analisar uma sociedade através das pessoas que ela escolhe como celebridades. Exagero ou não, foi seguindo exatamente essa afirmação que Woody Allen teve a ideia para "Celebridades", longa-metragem que é uma homenagem pouco disfarçada a "A doce vida", de Fellini. Assim como o protagonista do filme do cineasta italiano, o jornalista vivido aqui por Kenneth Branagh se vê envolvido em uma roda-viva de pessoas famosas, festas, coquetéis e acontecimentos sociais de todo tipo enquanto tenta manter o centro de sua própria vida. Assim como na mais famosa colaboração de Marcello Mastroiani com o pai de "Amarcord", a fotografia é em preto-e-branco (aqui cortesia de Sven Nykvist, habitual parceiro de Ingmar Bergman, outra influência de Allen). E, bem como no vencedor do Oscar de filme estrangeiro de 1960, são principalmente as mulheres que transformarão a vida da personagem central em um misto de inferno e paraíso.

Lee Simon (vivido com competência pelo irlandês Branagh, famoso por suas adaptações shakesperianas) é um jornalista que, em sua tentativa de vender um roteiro de cinema, se aproxima da atriz Nicole Oliver (Melanie Griffith) e do rebelde Brandon Narrow (Leonardo DiCaprio). Em sua luta para ser reconhecido como escritor, ele se envolve também com a editora Bonnie (Famke Janssen), apesar de estar atraído por Nola (Winona Ryder), uma aspirante a atriz. Sua ex-mulher, Robin (Judy Davis), inconsolável com o fim do casamento, acaba se tornando uma apresentadora de TV, apoiada pelo novo namorado, o produtor Tony Gardella (Joe Mantegna) e os caminhos dos dois acaba se cruzando em mais de uma ocasião.


"Celebridades" é um filme irregular, mas como é normal nas obras de Allen, tem momentos de pura inspiração, em especial em relação a alguns diálogos engraçadíssimos e de extrema ironia. Robin Simon, por exemplo (em grande atuação de Judy Davis) dispara em determinado momento: "estou me tornando uma daquelas pessoas que sempre desprezei. E estou adorando!" Charlize Theron, em rápida aparição, quase rouba a cena como uma modelo que atinge o orgasmo com qualquer toque e Winona Ryder tem o tom ideal de delicadeza e independência que o papel exige. Kenneth Branagh se sai como uma espécie de alterego do cineasta (ainda que o mesmo se recuse a admitir, os trejeitos do ator são inegavelmente woodyallenianos). Somente Leonardo DiCaprio em seu primeiro papel pós-"Titanic" é que não convence com sua interpretação desleixada do problemático astro de cinema inspirado em Johnny Depp e afins. Até mesmo Melanie Griffith se sai melhor, com um timing cômico bastante apropriado.

"Celebridades" não é dos melhores Woody Allen. É mais longo do que de costume em seu currículo, vez ou outra perde o foco e não atinge a maturidade de suas obras-primas. Mas quem gosta do seu estilo certamente vai adorar.

Friday, June 3, 2011

QUEM VAI FICAR COM MARY?

QUEM VAI FICAR COM MARY? (There's something about Mary, 1998, 20th Century Fox, 119min) Direção: Peter Farrelly, Bob Farrelly. Roteiro: Peter Farrelly, Bob Farrelly, Ed Decter, John J. Strauss, história de Ed Decter, John J. Strauss. Fotografia: Mark Irwin. Montagem: Christopher Greenbury. Música: Jonathan Richman. Figurino: Mary Zophres. Direção de arte/cenários: Arlan Jay Vetter/Scott Jacobson. Produção executiva: Peter Farrelly, Bob Farrelly. Produção: Frank Beddor, Michael Steinberg, Bradley Thomas, Charles B. Wessler. Elenco: Cameron Diaz, Matt Dillon, Ben Stiller, Richard Jenkins. Estreia: 15/7/98
 
Às vezes, para se divertir no escurinho do cinema, é preciso abdicar de um senso crítico mais severo e de qualquer resquício de pudores. É o caso de "Quem vai ficar com Mary?", uma comédia tão despudorada e politicamente incorreta que chega a ser difícil de acreditar que tenha rendido mais de 170 milhões de verdinhas nos EUA, um país merecidamente famoso por seus hipócritas pruridos morais. Ao fazer piada com qualquer ser humano que não seja branco, anglo-saxão, protestante, heterossexual ou com uma saúde perfeita, o filme dos irmãos Farrelly não deixa pedra sobre pedra. E é um dos mais divertidos da década de 90.

O filme começa nos anos 80, quando o tímido estudante Ted (Ben Stiller) finalmente consegue realizar seu maior sonho: levar a bela Mary (Cameron Diaz) ao baile de formatura. Porém, depois de um constrangedor acidente no banheiro da casa da garota, ele perde notícias da beldade. Anos depois, ainda sofrendo de saudade e paixão recolhida, ele tem a ideia de contratar um detetive particular para encontrá-la. O escolhido é o mau-caráter Healy (Matt Dillon), que também se apaixona pela moça, um doce de pessoa que não tem sorte no amor. Aos poucos Ted tenta reconquistá-la, lutando contra o atrapalhado detetive e inúmeros outros apaixonados por ela.

Na verdade, a pífia história de "Quem vai ficar com Mary?" serve apenas de pano de fundo para uma sucessão de piadas engraçadíssimas, que variam do sofisticado humor irônico ao mais deslavado pastelão. Ao apelar para praticamente todo tipo de piada, o roteiro dos irmãos Farrelly não deixa absolutamente nada escapar, com tiradas visuais hilárias e diálogos espirituosos e sem o menor temor em ofender as minorias - que, a julgar pelo enorme sucesso do filme, também lotaram as salas de cinema. No entanto, é preciso afirmar que, mesmo que tivesse um roteiro genial, o filme não teria sido tão bem-sucedido se não contasse com o ótimo elenco escolhido pelos cineastas.

Enquanto Ben Stiller exercita seu humor já demonstrado em outras ocasiões, são Cameron Diaz e Matt Dillon (então um casal fora das telas) que surpreendem, exibindo um senso de humor insuspeitos. Dillon, brincando com sua imagem de galã, é quem mais se destaca, utilizando um charme canastrão que conquista o público logo em sua primeira cena. Suas cenas com o cãozinho de Mary são de chorar de rir, assim como seus diálogos absurdos. E que atire a primeira pedra quem nunca riu com a infame sequência do "gel de cabelo" de Mary, destinada a antológica desde sempre. Recomendado para curar qualquer mau-humor, "Quem vai ficar com Mary?" é o antídoto perfeito para a insuportável onda do politicamente correto que tomou conta do planeta nos anos 90.

Sunday, April 24, 2011

MERA COINCIDÊNCIA

MERA COINCIDÊNCIA (Wag the dog, 1997, New Line Cinema, 97min) Direção: Barry Levinson. Roteiro: Hilary Henkin, David Mamet, livro "American hero", de Larry Beinhart. Fotografia: Robert Richardson. Montagem: Stu Linder. Música: Mark Knopfler. Figurino: Rita Ryack. Direção de arte/cenários: Wynn Thomas/Robert Greenfield. Produção executiva: Michael De Luca, Claire Rudnick Polstein, Ezra Swerdlow. Produção: Robert De Niro, Barry Levinson, Jane Rosenthal. Elenco: Dustin Hoffman, Robert De Niro, Anne Heche, Denis Leary, Willie Nelson, Kirsten Dunst, Woody Harrelson, William H. Macy, James Belushi. Estreia: 25/12/97

2 indicações ao Oscar: Ator (Dustin Hoffman), Roteiro Adaptado
Prêmio Especial do Júri no Festival de Berlim

A vida imita a arte, a arte imita a vida ou o mundo da política é tão previsível que nada mais surpreende o eleitor? Essa é a dúvida que fica no ar após uma sessão de "Mera coincidência", lançado pelo premiado Barry Levinson em dezembro de 1997, no auge do escândalo envolvendo o presidente Bill Clinton e a estagiária da Casa Branca Monica Lewinsky. Porém, apesar do timing perfeito - que beneficiou o filme, m termos de badalação midiática - e da extrema semelhança entre ficção e acontecimentos reais, tudo não passou exatamente de, com o perdão do trocadilho, mera coincidência. Quando Clinton chegou às manchetes, acusado de manter um caso extra-conjugal com Lewinsky, o trabalho de Levinson já estava em fase de pós-produção. Quer se acredite ou não, "Mera coincidência" (título mais apropriado à ironia da questão em si do que ao filme propriamente dito) não é inspirado no governo do marido de Hilary. E isso faz
dele ainda mais desconcertante.

Quando o filme começa, o presidente dos EUA está em uma acirrada campanha pela reeleição. Esta campanha - amparada na velha frase Pra que trocar de cavalos no meio da corrida?, oriunda de um discurso de Abraham Lincoln - sofre um abalo considerável quando uma estudante acusa o chefe máximo da nação de tê-la assediado sexualmente. Desesperados para diminuir o estrago, os assessores de marketing da Casa Branca apelam para Conrad (Robert De Niro), especializado em resolver problemas. Conrad, raposa velha dos meios políticos sabe que somente uma coisa rivaliza em interesse com escândalos sexuais uma guerra. Porém, como o país está passando por um período de paz, essa guerra terá que ser criada. Para isso, é chamado Stanley Motss (Dustin Hoffman), um produtor hollywoodiano. Talentoso e criativo, Motss praticamente inventa uma guerra - com direito a imagens falsas, heróis viris, vítimas inocentes e até mesmo uma cançã-tema. Em poucos dias, toda a atenção dos eleitores está nas notícias sobre o conflito entre EUA e Albânia (que não tem a menor ideia do que está acontecendo).



"Mera coincidência" é uma comédia de ironias. Desperta sorrisos, nunca gargalhadas. O cérebro ri mais do que a boca, uma vez que as piadas não são sideradas ou explícitas. Tudo é muito sutil no roteiro inteligente a cargo do dramaturgo David Mamet e de Hilary Henkin - adaptando um romance de Larry Beinhart. As situações criadas por Beinhart são muito mais engraçadas do que as (poucas) piadas, que fazem todo o sentido do mundo para uma audiência acostumada ao mais ridículos absurdos providos pela televisão. A trama, repleta de reviravoltas e surpresas inacredítáveis (mas muito verossímeis) leva as personagens - e o espectador - a situações engraçadíssimas (o herói de guerra escolhido, por exemplo, é um condenado por estuprar uma freira). Até mesmo a canção criada para "embalar" a guerra não deixa de ser hilária, por lembrar nitidamente eventos como os "We are the world" da vida.

Filmado durante um intervalo nas filmagens de "Esfera" - também dirigido por Levinson e estrelado por Hoffman - "Mera coincidência" tem um resultado bastante superior à chata ficção científica do cineasta. É um humor inteligente, adulto e politicamente incorreto. Um filme para ser descoberto.

Thursday, March 31, 2011

NA COMPANHIA DE HOMENS

NA COMPANHIA DE HOMENS (In the company of men, 1997, Alliance Atlantis Communications/Fair and Square Productions, 97min) Direção e roteiro: Neil LaBute. Fotografia: Tony Hettinger. Montagem: Joel Plotch. Música: Karel Roessingn, Ken Williams. Direção de arte: Julia Henkel. Produção executiva: Toby Gaff, Mark Hart, Matt Malloy. Produção: Mark Archer, Stephen Pevner. Elenco: Aaron Eckhart, Matt Malloy, Stacy Edwards. Estreia: 01/8/97

"Não confio em um bicho que sangra sete dias sem morrer." Essa polêmica declaração do executivo Chad dá o tom exato de "Na companhia de homens", comédia de humor negro que causou controvérsia em sua estreia - e continua deixando as feministas e os politicamente corretos de cabelos em pé. Vencedor de inúmeros prêmios em festivais de cinema independente - e até mesmo do prestigioso círculo de críticos de Nova York - o filme de estreia do roteirista e diretor Neil LaBute se beneficia de sua coragem extrema em não utilizar de meias-palavras para contar sua história e, ainda mais importante, de contar com o ótimo Aaron Eckhart em um dos papéis centrais. É Aaron, com seu charme e talento naturais que comanda o espetáculo de misoginia orquestrado com concisão por LaBute.

Eckhart interpreta Chad, um jovem e ambicioso executivo que, em uma viagem de negócios, propõe a seu amigo e colega de escola e trabalho Howard (Matt Malloy) um plano diabólico que poderá lhes devolver o amor-próprio e o orgulho feridos por seus relacionamentos fracassados. Chad e Howard, aproveitando que estão longe de casa, resolvem seduzir e abandonar a mesma mulher, para que ela sofra com a rejeição e lhes restitua a sensação de superioridade do macho. A escolhida para ser a vítima do golpe é Christine (Stacy Edwards), uma secretária de sua empresa que, apesar de bela, é surda desde a infância. Excitada com o fato de estar sendo cortejada por dois homens, Christine nem de longe imagina o que lhe espera, e acaba se apaixonando perdidamente por Chad, sem perceber que Howard, carente depois de ter sido abandonado pela noiva, está caindo de amores por ela.


Contando a história de forma suscinta e direta, LaBute não tem medo de ir fundo em seu desejo de mandar às favas todas as normas da elegância. Chad é uma das personagens mais desprezíveis já criadas pelo cinema americano - capaz de disparar atrocidades verbais sem a menor sutileza - e ainda assim conquista a audiência devido ao charme cafajeste de seu intérprete. Mesmo um tanto chocado com a forma atroz com que Chad trata Catherine e até mesmo seus colegas de trabalho - ele chega a humilhar um funcionário negro com intenções de promoção - o público é levado a ter uma espécie de fascínio por ele. Se a intenção do roteiro era fazer com que a plateia tomasse contato com seu lado mais podre - e não o achasse assim tão ruim - é preciso dizer que teve muito sucesso. Mas qualquer um com um mínimo de suscetibilidade é bem capaz de ficar sem palavras diante da coragem do roteiro em ir até o fim em seus objetivos.

Talvez o fato de concentrar seus trunfos nos diálogos, repletos de um humor que não agradam a qualquer público, faça com que "Na companhia dos homens" não seja um produto de consumo fácil e digestão rápida. Até mesmo sua reviravolta final não é exatamente do tipo que faz a audiência vibrar, deixando, ao invés disso, um gosto amargo na boca e no estômago. Mas é um exemplo de roteiro e um sopro de criatividade em uma filmografia tão afeita a clichês quanto a americana.