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Thursday, February 16, 2012

X-MEN 2

X-MEN 2 (X2, 2003, 20th Century Fox, 133min) Direção: Bryan Singer. Roteiro: Michael Dougherty, Dan Harris, David Hayter, estória de Zak Penn, David Hayter, Bryan Singer. Fotografia: Newton Thomas Sigel. Montagem e Música: John Ottman. Figurino: Louise Mingenbach. Direção de arte/cenários: Guy Hendrix Dyas/Elizabeth Wilcox. Produção executiva: Avi Arad, Tom DeSanto, Stan Lee, Bryan Singer. Produção: Lauren Shuler Donner, Ralph Winter. Elenco: Patrick Stewart, Ian McKellen, Hugh Jackman, Hale Berry, Famke Janssen, James Marsden, Brian Cox, Rebecca Romjin-Stamos, Anna Paquin, Ellen Page, Alan Cumming, Aaron Stanford, Shawn Ashmore. Estreia: 28/4/03

Nada como um sucesso arrebatador de crítica e público pra dar confiança a um diretor ainda hesitante. Quando dirigiu o primeiro “X-Men” Bryan Singer ainda titubeava em sua busca de agradar aos fãs – fanáticos seria uma palavra mais adequada – dos quadrinhos e atingir a uma plateia maior, cujo acesso às histórias publicadas em revistas é mais restrito. O resultado foi elogiado por gregos e troianos, rendeu milhares de dólares e deu ao cineasta – cujo talento já havia sido reconhecido massivamente com “Os suspeitos” – a confiança necessária para que, na continuação inevitável ele realmente fizesse o filme que sonhava. Da maneira que está, “X-Men 2” não é apenas o filme que ELE sonhava e sim o filme que todos os fãs esperavam ansiosamente.

Sem a necessidade de apresentar seus personagens, já conhecidos e aprovados em seus respectivos intérpretes, a trama já começa a todo vapor. A invasão da Casa Branca por um novo mutante – vivido por Alan Cumming – empurra a narrativa em várias direções, todas absolutamente bem dosadas e equilibradas pelo roteiro extraordinário. Graças a este roteiro, várias histórias paralelas começam e terminam – algumas de maneira bastante instigantes – sem que nunca nenhuma delas perca o interesse do público. Sendo assim, vemos desde o início da transformação de Jean Grey (Famke Jansen) em Fênix até a união efêmera mas crucial entre os mutantes do mal, liderados por Magneto (o esplêndido Ian McKellen) com a turma pacífica do Professor Xavier (Patrick Stewart) para impedir que as ideias malévolas do cientista William Striker (Brian Cox) os destruam. Striker, aliás, é uma das personagens mais importantes do novo longa, uma vez que tem ligação com a origem de Wolverine (Hugh Jackman, ainda roubando a cena), que finalmente tem a oportunidade de mostrar toda a sua raiva contida em cenas de mais absoluta adrenalina.

Adrenalina, aliás, é o que não falta em “X-Men 2”. Repleto de cenas espetaculares de ação – incluindo uma luta entre Wolverine e a bela e fatal Lady Letal e um clímax extremamente mais potente do que o mostrado no primeiro filme –, a obra de Singer não decepciona nem aos mais afoitos fãs do material original. E se não bastasse corrigir tudo que não era perfeito no primeiro capítulo – efeitos mais elaborados, uma duração maior, mais cenas de ação – o roteiro da segunda parte ainda se dá ao luxo de criar cenas de relevância muito maior do que poderia se esperar, dando ressonância àquele que é provavelmente o subtema mais importante de toda a série: a tolerância às diferenças, tão perfeitamente representadas pelos mutantes e de forma tão divertida.

Mostrando-se uma gloriosa exceção à regra, “X-Men 2” consegue ser ainda melhor que sua primeira parte e escancarou as portas para uma nova continuação. Um filme de ação absolutamente perfeito!

Tuesday, October 11, 2011

PERSEGUIÇÃO

PERSEGUIÇÃO (Joyride, 2001, 20th Century Fox, 97min) Direção: John Dahl. Roteiro: Clay Tarver, J. J. Abrams. Fotografia: Jeffrey Jur. Montagem: Eric L. Beason, Scott Chestnut, Todd E. Miller, Glen Scantlebury. Música: Marco Beltrami. Figurino: Terry Dresbach. Direção de arte/cenários: Rob Pearson, Beth DeSort. Produção executiva: Jeffrey Downer, Bridget Johnson, Patrick Markey, Arnon Milchan. Produção: J. J. Abrams, Chris Moore. Elenco: Paul Walker, Steve Zahn, Leelee Sobieski. Estreia: 05/10/01

Em "Encurralado", que Steven Spielberg dirigiu muito antes de ser o cineasta poderoso que é hoje, um homem comum passa a ser perseguido em uma rodovia por um caminhão conduzido por uma misteriosa personagem cuja identidade o roteiro não tem a menor pretensão de esclarecer. Dono de uma tensão quase insuportável, o filme fez enorme sucesso, transformou Spielberg em uma grande promessa (cumprida muito bem, como a história comprova) e gerou inúmeros filhotes. Um desses filhos temporões é "Perseguição", dirigido pelo conceituado John Dahl, autor de filmes cultuados como "O poder da sedução", com Linda Fiorentino e sérios como "Cartas na mesa", com Matt Damon e Edward Norton. A boa notícia? A premissa kafkiana ainda se mantém capaz de provocar tensão. A má notícia? Ao contrário da pequena obra-prima spielberguiana, o novo filme não resiste ao apelo de jogar suas personagens em um final com um clímax um tanto quanto forçado e quase cansativo.

Ao contrário de "Encurralado", que tinha uma única personagem atormentada pelo vilão, em "Perseguição" o número de vítimas aumenta para três. Se não, vejamos. O estudante boa-pinta Lewis (Paul Walker) compra um carro de segunda mão com o objetivo de impressionar a garota por quem está apaixonado, a amiga de infância Veena (Leelee Sobieski, mais sem graça do que macarrão sem molho), que estuda em uma universidade distante de sua casa. No caminho para buscá-la ele dá uma parada para dar uma carona a seu problemático irmão mais velho Fuller (o sempre carismático Steve Zahn), que acaba de sair mais uma vez da cadeia. Antes de chegar à universidade de Veena, os dois irmãos fazem um trote pelo rádio do carro com Rusty Nail, que dirige um caminhão. O trote acaba em tragédia quando um viajante inocente é atacado injustamente e, apavorados, os dois não revelam o acontecido à garota, que acaba sendo envolvida em uma apavorante viagem quando o misterioso caminhoneiro volta a perseguí-los.



"Perseguição" é um filme de suspense bastante envolvente e que não deixa de surpreender pela legítima vontade que tem de agradar aos fãs do gênero sem maiores pretensões do que divertir por hora e meia uma plateia acostumada a correrias e explosões. O nome de J.J. Abrahams - criador da série "Lost" - entre os roteiristas também é uma pista de que tudo não passa de uma homenagem sem grandes ambições ao clássico de Spielberg - homenagem que o próprio Abrahms potencializou no nostálgico "Super 8", de 2011.

Mesmo que tenha alguns furos homéricos no roteiro (a amiga de Veena, pega como refém, simplesmente é deixada de lado no final da história), "Perseguição" cumpre o que promete. Com um bom balde de pipoca e um refrigerante nas mãos, o filme menos ambicioso de John Dahl não permite nem mesmo que seu final quase apoteoticamente exagerado consiga atrapalhar a diversão ligeira a que se propõe.

Wednesday, September 28, 2011

MOULIN ROUGE, O AMOR EM VERMELHO

MOULIN ROUGE, O AMOR EM VERMELHO (Moulin Rouge, 2001, 20th Century Fox, 127min) Direção: Baz Luhrmann. Roteiro: Baz Luhrmann, Craig Pearce. Fotografia: Donald McAlpine. Montagem: Jill Bilcock. Música: Craig Armstrong. Figurino: Catherine Martin, Angus Strathie. Direção de arte/cenários: Catherine Martin/Brigitte Broch. Produção: Fred Baron, Martin Brown, Baz Luhrmann. Elenco: Nicole Kidman, Ewan McGregor, John Leguizamo, Jim Broadbent, Richard Roxburgh, Kyle Minogue. Estreia: 09/5/01 (Festival de Cannes)

Indicado a 8 Oscar: Melhor Filme, Atriz (Nicole Kidman), Fotografia, Montagem, Figurino, Direção de Arte/Cenários, Som, Maquiagem
Vencedor de 2 Oscar: Figurino, Direção de Arte/Cenários
Vencedor de 3 Golden Globes: Melhor Filme Comédia/Musical, Atriz Comédia/Musical (Nicole Kidman), Trilha Sonora Original

É bom estar preparado! Poucas vezes aconteceu, na história do cinema, um musical como "Moulin Rouge", uma ousadia do diretor australiano Baz Luhrmann, que já transformou "Romeu e Julieta", de Shakesperare, em um filme de ação ruidoso e violento. Cafona, exagerado e quase esquizofrênico como o amor em si, "Moulin Rouge" é, sem dúvida, mais do que um simples filme: é uma experiência sensorial rara e empolgante.

Diferentemente dos musicais produzidos por Hollywood - e raríssimos até então desde sua glória nos anos 40 e 50 - "Moulin Rouge" joga canções pop contemporâneas em uma trágica história de amor passada no final do século XIX em Paris. Assim sendo, cortesãs cantam Queen e Madonna, escritores românticos entoam Elton John e prostitutas dançarinas seduzem os clientes que se divertem cantando Nirvana. Parece um samba do crioulo doido e no fundo o é. Sem medo de parecer brega, Luhrmann - também autor de "Vem dançar comigo", uma pérola do cinema kistch - costura sua excêntrica trilha sonora em um filme que também mistura romance, comédia, vaudeville e suspense. Em meio a cores quentes e uma reconstituição de época cuidadosa mas principalmente criativa e livre de amarras convencionais, o jovem escritor Christian (Ewan McGregor, saindo-se muito bem em seu primeiro papel de galã romântico) chega à Paris de 1899 disposto a criar sua obra-prima mesmo contra a vontade de seu pai, que teme que ele "desperdice sua vida com uma dançarina de can-can". Logo que chega à cidade, o rapaz une-se à troupe do pintor Toulouse-Lautrec (um John Leguizamo tornado anão graças à computação gráfica) e assume o posto de autor do espetáculo teatral que dará voz ao movimento boêmio liderado pelo artista plástico. Em busca de patrocínio para seu projeto, o grupo vai à mais famosa boate da cidade, o Moulin Rouge, lar de dançarinase cortesãs, propriedade de Harold Zidler (Jim Broadbent). A ideia é convencer a estrela do local, a bela Satine (Nicole Kidman no auge do glamour, da beleza e do talento) a fazer parte da turma e assim conseguir dinheiro para a montagem. No entanto, assim que vê Satine, Christian se apaixona por ela. Seu idílico romance, porém, é ameaçado pelo Duque (Richard Roxburg), que, também encantado por ela, tem o destino da boate em suas mãos e pode por tudo a perder.


Na verdade, o roteiro de Luhrmann e Craig Pearce é apenas uma desculpa para o seu show visual e auditivo. A fotografia de Donald McAlpine aproveita cada ângulo de cada cena para surpreender e entontecer a platéia, deixando-a sem fôlego em números musicais quase inacreditáveis, editados por um insano Jill Bilcock – não à toa tanto a fotografia quanto a montagem foram indicados ao Oscar. O uso quase exaustivo de cores berrantes pode até mesmo ferir uma retina mais sensível, mas a coragem do diretor em abdicar de sutilezas em nome da diversão e do inesperado vale cada minuto. E a direção de arte – de uma criatividade ímpar e premiada com o Oscar, assim como o figurino caprichado – cumpre seu papel com louvor, nunca deixando o público esquecer que está defronte de uma das maiores manifestações de tudo que o cinema de entretenimento pode oferecer - ainda que seja "over" em inúmeros momentos.

E entretenimento parece ser a palavra de ordem em “Moulin Rouge”. Assim como em “Vem dançar comigo” nada é para ser levado exatamente a sério em “Moulin Rouge”. Absurdos são jogados à tela a cada sequência, sem objetivos maiores do que atingir o objetivo de divertir e emocionar a platéia por duas horas. Emocionar, sim. Apesar das brincadeiras visuais, do uso de “Like a virgin”, de Madonna em uma cena enlouquecida e do clima de comédia de erros de seu começo, “Moulin Rouge” é acima de tudo uma história de amor trágica e desesperada, vivida com perfeição por um casal com uma química irretocável. Quando estão em cena juntos, Nicole Kidman e Ewan McGregor soltam faíscas, comovendo aqueles que acreditam na verdade, na beleza e principalmente no amor acima de tudo. Cantando, eles surpreendem por seus dotes vocais e é preciso muita má-vontade para não ficar com um sorriso no rosto depois do dueto em cima de um elefante, onde Christian tenta convencer Satine a entregar seu amor a ele entoando trechos de uma dúzia de canções pop, de U2 a Paul McCartney.

Repleto de sequências eletrizantes e contando com um fascinante casal central, "Moulin Rouge" é paixão em estado puro, um exagero em forma de película que conquistou até mesmo a sisuda Academia de Hollywood, que o indicou a 8 estatuetas, incluindo Melhor Filme. Quem levou o prêmio foi o sensível mas quadradinho "Uma mente brilhante". Os vestutos velhindos da Academia ainda não estavam prontos para o turbilhão que é a obra-prima de Baz Luhrmann.

Tuesday, August 23, 2011

X-MEN, O FILME

X-MEN (X-Men, 2000, 20th Century Fox/Marvel Enterprises/Donner's Company, 104min) Direção: Bryan Singer. Roteiro: David Hayter, estória de Tom DeSanto, Bryan Singer. Fotografia: Newton Thomas Sigel. Montagem: Steven Rosenblum, Kevin Stitt, John Wright. Música: Michael Kamen. Figurino: Louise Mingenbach. Direção de arte/cenários: John Myhre/James Edward Ferrell. Produção executiva: Avi Arad, Tom DeSanto, Richard Donner, Stan Lee. Produção: Lauren Shuler Donner, Ralph Winter. Elenco: Patrick Stewart, Ian McKellen, Hugh Jackman, Hale Berry, Anna Paquin, James Mardsen, Famke Janssen, Rebecca Romijn-Stamos, Bruce Davison. Estreia: 14/7/00

Até o dia 14 de julho de 2000, o destino dos filmes baseados em histórias em quadrinhos era sempre uma incógnita. Para cada “Superman” de Richard Donner ou “Batman” de Tim Burton surgiam aberrações como os filmes do homem-morcego dirigidos por Joel Schumacher – que humilhavam seu herói impiedosamente com roteiros deploráves e produções vexaminosas. Foi somente quando um grupo de mutantes chegou às telas de cinema sob o comando de um diretor improvável e um elenco desprovido de astros de primeira grandeza que a porta para o sucesso constante do universo dos famigerados comic books foi finalmente aberta (ou seria melhor até dizer, escancarada). “X-Men, o Filme” foi a prova que todo mundo precisava de que, adaptados em um roteiro inteligente e dirigidos por gente criativa e talentosa, os quadrinhos poderiam – e até mesmo deveriam, dada a sua importância dentro do universo pop – ser uma matéria-prima quase infinita para a sétima arte.

Relativamente fiel a suas origens, “X-Men” é um êxito absoluto, principalmente se for levado em conta que seu diretor não era exatamente um fã nem da série nem tampouco do gênero. Revelado por obras fortes e dotadas de grande poder dramático – “Os suspeitos” e “O aprendiz” – Bryan Singer assumiu as rédeas do filme depois que nomes conhecidos dos fãs de ação - como John McTiernan, James Cameron, Richard Donner e Joel Schumacher – foram sendo sistematicamente deixados de lado (até mesmo Danny Boyle, Robert Rodriguez e Tim Burton estiveram na lista de possíveis diretores). Ao sentar na cadeira de diretor, porém, o jovem Singer (na época com apenas 34 anos) não se fez de rogado e criou o filme que todos os fãs dos mutantes esperavam (pelo menos até o segundo capítulo, também dirigido por ele e lançado três anos depois, que expandiu ainda mais as qualidades da história). Levando a trama extremamente a sério, Singer não dirigiu apenas um entretenimento escapista de verão: ele criou um clássico pop que, além de divertir o suficiente, apresenta uma metáfora bastante pertinente a respeito de preconceito e tolerância.

Quando o filme começa, o público fica sabendo que há muitos anos milhares de mutantes transitam pela Terra, convivendo de forma pacífica e discreta com seres humanos convencionais, ainda que muitos escondam seus dons para que possam viver normalmente. O sensato Professor Xavier (Patrick Stewart) comanda uma escola para jovens mutantes (disfarçada como escola para superdotados), onde eles podem aprender a controlar seus poderes e utilizá-los de forma apropriada. Porém, um senador da República (Bruce Davison) dá início a uma campanha nacional que pede a todos os mutantes que se identifiquem. Com medo da discriminação que tal lei poderia causar, Magneto (Ian McKellen), um mutante com poder de manipular metais com o poder da mente, pretende começar uma guerra contra os humanos. Sobrevivente de um campo de concentração na II Guerra, Magneto conhece as conseqüências de ser “diferente” e entra em conflito direto com Xavier, que acredita que a tolerância e o diálogo são os melhores meios para lidar com a situação. Para impedir Magneto de principiar sua sangrenta e violenta guerra, Xavier conta com o auxílio do misterioso Wolverine (Hugh Jackman) – um homem cujas garras de adamantium são apenas uma parte de seu misterioso passado – a belas Tempestade (Hale Berry) e Jean Grey (Famke Janssen), o jovem Ciclope (James Mardsen) e a adolescente Vampira (Anna Paquin) – que une-se ao grupo como forma de auto-aceitação.


Além do roteiro enxuto que apresenta de forma quase didática seus personagens e situações – além de deixar um bela porta aberta para sua brilhante continuação – “X-Men” ainda por cima com um elenco excepcional. Sir Ian McKellen mais uma vez rouba a cena como o vilão Magneto, cuja maldade é compreensível em grande parte pelo talento do ator. As oscarizadas Anna Paquin e Hale Berry (que levaria a estatueta pouco depois de sua atuação como Tempestade) dão estofo artístico ao projeto e Patrick Stewart (fã dos quadrinhos) é a escolha ideal para Xavier. Mas é o então desconhecido Hugh Jackman que mais chama a atenção da plateia, com sua perfeita criação de Wolverine, uma personagem que parece ter sido criada para ele (e no entanto seria de Dougray Scott, que perdeu o papel por estar preso nas atrasadas filmagens de “Missão: Impossível 2”. Mesmo que não parecesse a escolha ideal para os fãs dos quadrinhos (o Wolverine original é baixinho e Jackman tem quase 1,90m), o ator australiano não deixou pedra sobre pedra com seu trabalho impecável – que garantiu inclusive um filme solo para seu personagem, o fraquinho “Wolverine: Origens”, de 2009.

Com efeitos visuais discretos mas eficientes, humor nas horas certas (e em quantidade limitada) e um roteiro esperto mas nunca bobo ou querendo ser alternativo e/ou artístico, “X-Men” conquistou seu público como uma das melhores traduções do universo dos quadrinhos para a tela do cinema, alterando definitivamente – para o bem e para o mal – o panorama do entretenimento no século XXI.

Friday, June 3, 2011

QUEM VAI FICAR COM MARY?

QUEM VAI FICAR COM MARY? (There's something about Mary, 1998, 20th Century Fox, 119min) Direção: Peter Farrelly, Bob Farrelly. Roteiro: Peter Farrelly, Bob Farrelly, Ed Decter, John J. Strauss, história de Ed Decter, John J. Strauss. Fotografia: Mark Irwin. Montagem: Christopher Greenbury. Música: Jonathan Richman. Figurino: Mary Zophres. Direção de arte/cenários: Arlan Jay Vetter/Scott Jacobson. Produção executiva: Peter Farrelly, Bob Farrelly. Produção: Frank Beddor, Michael Steinberg, Bradley Thomas, Charles B. Wessler. Elenco: Cameron Diaz, Matt Dillon, Ben Stiller, Richard Jenkins. Estreia: 15/7/98
 
Às vezes, para se divertir no escurinho do cinema, é preciso abdicar de um senso crítico mais severo e de qualquer resquício de pudores. É o caso de "Quem vai ficar com Mary?", uma comédia tão despudorada e politicamente incorreta que chega a ser difícil de acreditar que tenha rendido mais de 170 milhões de verdinhas nos EUA, um país merecidamente famoso por seus hipócritas pruridos morais. Ao fazer piada com qualquer ser humano que não seja branco, anglo-saxão, protestante, heterossexual ou com uma saúde perfeita, o filme dos irmãos Farrelly não deixa pedra sobre pedra. E é um dos mais divertidos da década de 90.

O filme começa nos anos 80, quando o tímido estudante Ted (Ben Stiller) finalmente consegue realizar seu maior sonho: levar a bela Mary (Cameron Diaz) ao baile de formatura. Porém, depois de um constrangedor acidente no banheiro da casa da garota, ele perde notícias da beldade. Anos depois, ainda sofrendo de saudade e paixão recolhida, ele tem a ideia de contratar um detetive particular para encontrá-la. O escolhido é o mau-caráter Healy (Matt Dillon), que também se apaixona pela moça, um doce de pessoa que não tem sorte no amor. Aos poucos Ted tenta reconquistá-la, lutando contra o atrapalhado detetive e inúmeros outros apaixonados por ela.

Na verdade, a pífia história de "Quem vai ficar com Mary?" serve apenas de pano de fundo para uma sucessão de piadas engraçadíssimas, que variam do sofisticado humor irônico ao mais deslavado pastelão. Ao apelar para praticamente todo tipo de piada, o roteiro dos irmãos Farrelly não deixa absolutamente nada escapar, com tiradas visuais hilárias e diálogos espirituosos e sem o menor temor em ofender as minorias - que, a julgar pelo enorme sucesso do filme, também lotaram as salas de cinema. No entanto, é preciso afirmar que, mesmo que tivesse um roteiro genial, o filme não teria sido tão bem-sucedido se não contasse com o ótimo elenco escolhido pelos cineastas.

Enquanto Ben Stiller exercita seu humor já demonstrado em outras ocasiões, são Cameron Diaz e Matt Dillon (então um casal fora das telas) que surpreendem, exibindo um senso de humor insuspeitos. Dillon, brincando com sua imagem de galã, é quem mais se destaca, utilizando um charme canastrão que conquista o público logo em sua primeira cena. Suas cenas com o cãozinho de Mary são de chorar de rir, assim como seus diálogos absurdos. E que atire a primeira pedra quem nunca riu com a infame sequência do "gel de cabelo" de Mary, destinada a antológica desde sempre. Recomendado para curar qualquer mau-humor, "Quem vai ficar com Mary?" é o antídoto perfeito para a insuportável onda do politicamente correto que tomou conta do planeta nos anos 90.

Thursday, May 26, 2011

ARQUIVO X, O FILME

ARQUIVO X, O FILME (The X Files - Fight the future, 1998, 20th Century Fox, 121min) Direção: Rob Bowman. Roteiro: Chris Carter, história de Chris Carter e Frank Spotnitz. Fotografia: Ward Russell. Montagem: Stephen Mark. Música: Mark Snow. Figurino: Marlene Stewart. Direção de arte/cenários: Christopher Nowak/Jackie Carr. Produção executiva: Lata Ryan. Produção: Chris Carter, Daniel Sackheim. Elenco: David Duchovny, Gillian Andersen, John Neville, Martin Landau, William B. Davis, Armin Mueller-Stahl, Mitch Pilleggi, Blythe Danner, Terry O'Quinn, Lucas Black, Glenne Headly. Estreia: 19/6/98

Em 1993, antes que os seriados televisivos alcançassem o status de entretenimento de qualidade, um programa a respeito de conspirações governamentais, abduções alienígenas, monstros misteriosos e fenômenos inexplicáveis virou febre entre os espectadores. Criado por Chris Carter, "Arquivo X" não demorou muito a cair no gosto do público e da crítica, amealhando prêmios, prestígio e muito sucesso de audiência. Uma versão para o cinema, então, tornou-se questão de tempo e, depois do final da quinta temporada, na metade de 1998, finalmente "Arquivo X, o filme" chegou às telas americanas, cercado de grande expectativa. Contando com um roteiro escrito pelo próprio criador da série, a aventura dos agentes do FBI Fox Mulder (David Duchovny) e Dana Scully (Gillian Andersen) não decepcionou nem o estúdio - mais de 80 milhões de dólares arrecadados somente nos EUA - nem tampouco os devotos fãs: é um filme que respeita a audiência do programa e não confunde nem aborrece os espectadores ocasionais.

Para quem não sabe,  o Arquivo X da série (e do filme, consequentemente) é uma divisão dentro do FBI responsável pela investigação de acontecimentos inexplicáveis (leia-se sobrenaturais). No início da série, a médica patologista Dan Scully é escalada por seus superiores da agência a unir-se ao detetive Fox Mulder, não muito benquisto, para, com sua racionalidade científica, desacreditar suas conclusões tidas como absurdas. Depois dos cinco primeiros anos do programa, após ter testemunhado inúmeras situações bizarras e ter sido ela mesma vítima de uma estranha, Scully aproximou-se de Mulder a ponto de quase compactuar com suas teorias. No final da quinta temporada, a divisão é fechada (por motivos que não vem ao caso contar para não estragar o prazer de quem ainda nunca assistiu às aventuras da dupla) e os dois detetives são relegados a um nível inferior de investigação. E é aí que começa a versão para o cinema.

Como normalmente acontece na televisão, a primeira cena não conta com os protagonistas. O público é levado para o período pré-histórico, onde um homem, ainda em seu caminho para a evolução, é violentamente atacado por um ser alienígena. O roteiro dá um salto para o Texas de 1998, onde um pré-adolescente é atacado pela mesma substância que vitimou seu antepassado. Logo em seguida, Mulder e Scully testemunham a explosão de uma bomba que destrói um prédio do governo, em Dallas. Aparentemente sem conexão alguma, esses dois fatos passam a se ligar quando o detetive é procurado pelo misterioso cientista Alvin Kurtzweil (Martin Landau), que tem informações a respeito de uma conspiração governamental que utilizou a explosão para encobrir o que realmente aconteceu com o jovem morto. A partir daí, a dupla de policiais inicia uma procura incessante pela verdade, que os leva até a Antártida.

Para quem não é assíduo espectador, "Arquivo X" é um filme de ficção científica acima da média, com uma trama bem armada e intrigante, além de efeitos de maquiagem eficientes. Mas é impossível negar que existe um gostinho extra para aqueles que passavam uma hora por semana acompanhando as aventuras de Mulder e Scully na televisão. A tensão sexual entre as personagens (que chega ao ápice em uma cena de quase beijo mais aterrorizante, para os fãs, do que qualquer extraterrestre) soa como um romance descartável para o público em geral e eles também ficarão sem saber a importância, dentro da história, de personagens cruciais para a mitologia da série, como o misterioso Homem das Unhas Bem Feitas (vivido por John Neville). Porém, Chris Carter sabe muitíssimo bem como envolver a plateia com um roteiro cuidadoso e detalhista que não decepcionará ninguém.

Faz sentido dizer que "Arquivo X, o filme" é um episódio estendido da série. Assim acontece com todos os programas de TV que passaram à tela grande posterioremente e não chega a ser um demérito, mesmo porque, dos anos 90 em diante, a televisão americana apresentou produtos de extrema qualidade. Mas é preciso também que se reconheça que poucos filmes de ficção científica são tão sérios e interessantes quanto a obra de Chris Carter e companhia.

Friday, May 20, 2011

A RAZÃO DO MEU AFETO

A RAZÃO DO MEU AFETO (The object of my affection, 1998, 20th Century Fox, 111min) Direção: Nicholas Hytner. Roteiro: Stephen McCauley, romance de Wendy Wasserstein. Fotografia: Oliver Stapleton. Montagem: Tariq Anwar. Música: George Fenton. Figurino: John A. Dunn. Direção de arte/cenários: Jane Musky/Susan Bode. Produção: Laurence Mark. Elenco: Jennifer Aniston, Paul Rudd, Nigel Hawthorne, Steve Zahn, Allison Janney, Alan Alda, Tim Daly, John Pankow, Amo Gulinello. Estreia: 17/4/98

De todo o elenco da bem-sucedida série de TV "Friends", quem tentou com mais afinco uma carreira cinematográfica foi Jennifer Aniston. Mesmo que seu trabalho na série ainda seja seu ponto mais alto, não se pode reclamar de "A razão do meu afeto", uma delicada comédia romântica, dirigida pelo prestigiado Nicholas Hytner de "As bruxas de Salem", que tem sua premissa central em uma relação sui-generis entre uma jovem heterossexual e seu melhor amigo gay.

Tentando - e em vários momentos até conseguindo - afastar-se dos maneirismos de Rachel Green,  sua personagem mais conhecida, Aniston vive Nina Borowski, uma assistente social que vive no Brooklyn, namora por inércia um advogado mais velho (John Pankow) e que tem que lidar com os ataques de esnobismo da irmã bem-sucedida, casada com um famoso editor (um casal vivido com propriedade e bom-humor por Allison Janney e Alan Alda). Em um dos jantares promovidos para uní-la com um dos amigos do casal, ele conhece George (Paul Rudd), um professor do primário cujo relacionamento com Joley(Tim Daly), um médico metido a sedutor, acaba de terminar. Sensibilizada com a situação do jovem, ela o convida para dividir seu apartamento. Os dois iniciam uma bela amizade e quando ela se descobre grávida, decide romper o namoro e chama o rapaz para ajudá-la na criação do bebê. A estranha família está formada, mas quando George se envolve com Paul (Amo Guilinello), um aspirante a ator, o delicado equilíbrio se desfaz e ela descobre que está apaixonada por ele.



Um dos maiores méritos de "A razão do meu afeto" é o retrato sem estereótipos da comunidade gay. Ainda que certos clichês ainda existam - o crítico de teatro, homossexual de terceira idade vivido com maestria por Nigel Hawthorne consegue escapar das armadilhas com admirável competência - eles são tratados com naturalidade, respeito e um bom humor contagiante. A própria relação entre os protagonistas - que caminha no fio da navalha em cada cena - é mostrada sem apelar para a vulgaridade e/ou complacência, encontrando em seus atores as encarnações perfeitas. Paul Rudd é encantador como o doce e romântico George, justificando a paixão que desperta em Nina, e o veterano Nigel Hawthorne por pouco não rouba o filme para si (além de ser o dono das falas mais consistentes do roteiro, baseado em um romance de Wendy Wasserstein). Ao lado deles, Jennifer Aniston demonstra uma segurança poucas vezes vista em seus trabalhos anteriores.

Ao fugir também do obrigatório final feliz - ao menos do clássico final feliz - o filme de Hytner demonstra uma maturidade que falta a dezenas de outros produtos que tentam ser modernos ao tratar de um assunto tão carente de bons filmes. No final das contas, "A razão do meu afeto" é um perfeito exemplo de comédia romântica, com um belo par central, diálogos inteligentes mas nunca intelectualizados e uma deliciosa trilha sonora, que inclui uma delicada regravação de Sting para a clássica "You were meant for me", conhecida graças à "Cantando na chiva". É um filme que merece ser descoberto por uma plateia maior do que os nichos GLBT e fãs de "Friends".

Sunday, May 15, 2011

GRANDES ESPERANÇAS

GRANDES ESPERANÇAS (Great expectations, 1998, 20th Century Fox, 111min) Direção: Alfonso Cuarón. Roteiro: Mitch Glazer, romance de Charles Dickens. Fotografia: Emmanuel Lubezki. Montagem: Steven Weisberg. Música: Patrick Doyle. Figurino: Judianna Makowsky. Direção de arte/cenários: Tony Burrough/Susan Bode. Produção executiva: Deborah Lee. Produção: Art Linson. Elenco: Ethan Hawke, Gwyneth Paltrow, Anne Bancroft, Robert De Niro, Hank Azaria, Chris Cooper, Kim Dickens. Estreia: 30/01/98

"Não vou contar a história como aconteceu. Vou contar a história como me lembro dela." Com essa informação essencial, o jovem Finnegan Bell (Ethan Hawke) começa a narrar seu romance com a bela e inacessível Estella (Gwyneth Paltrow) na versão anos 90 do clássico "Grandes esperanças", de Charles Dickens. Ao deixar o espectador ciente de que é sob seu ponto de vista que a trama se desenrolará, Finn promete, subliminarmente, que lhe dará um visual exuberante, digno do artista plástico que ele é. Com uma fotografia inacreditável do mexicano Emmanuel Lubezki - que valoriza o verde e muitas silhuetas - o filme de Alfonso Cuarón conquista primeiramente pela visão. Aos poucos, pela audição (graças à belíssima trilha sonora de Patrick Doyle). E quando o público percebe, está envolto também pelo coração. Mesmo que tenha muito pouco a ver com o original de Dickens - filmado em 1946 pelo inglês David Lean - "Grandes esperanças" é um lindo espetáculo romântico, valorizado pelo extremo cuidado visual.

Trazendo o original para a época atual - quando na verdade se passa no século XIX - a adaptação de Mitch Glazer (incompleta quando as filmagens começaram, para desgosto de Cuarón) difere e muito do original de Dickens, que se concentra na ascensão social de seu protagonista (que se chama Pip e não Finn), que não é um artista plástico. Modificando também os nomes das demais personagens, Glazer distancia-se do livro de Dickens quase a ponto de torná-lo irreconhecível. Os puristas, logicamente, detestaram. Quem nunca teve contato com o romance, porém, se encantou com uma história de amor que, se vendida sem nenhum vínculo literário poderia ter sido ainda mais bem-sucedida. A versão de Alfonso Cuarón - que foi revelado ao mundo com o excelente "Como água para chocolate" - reveste o erotismo pulsante do filme com uma sofisticação e uma elegância de encher os olhos. E ninguém melhor para encarnar essa sofisticação e essa elegância toda do que a deslumbrante Gwyneth Paltrow.


Ainda conhecida apenas como a noiva de Brad Pitt, apesar de seu ótimo trabalho em "Emma", Paltrow estava em vias de tornar-se uma atriz respeitada, dona de um controverso Oscar por "Shakespeare apaixonado" quando encarnou a bela, loira, chique e fria Estella. Sua beleza glacial e distante não apenas seduz Finn, mas a audiência masculina em peso (ao menos aqueles que consideram mais sexy uma beleza delicada do que a vulgaridade de mulheres-frutas). Estonteante, Gwyneth representa um mundo de glamour e luxo para o protagonista, um mundo de promessas fascinantes e possibilidades infinitas. Não é à toa que Finn se deixa levar pela ambição para conquistá-la.
 
Quando o filme começa, Finn é apenas um menino, criado pela irmã (Kim Dickens) e Joe (Chris Cooper), o namorado dela, que trabalha como pescador. Durante um passeio de barco para desenhar, Finn conhece Arthur Lustig (Robert DeNiro), um foragido da cadeia que exige que ele lhe ajude em sua fuga. Logo em seguida, o garoto vai com Joe para a famosa Mansão Paradiso Perduto, refúgio de uma enclausurada milionária que adentrou no mundo da loucura depois de ser abandonada no altar. É através da Sra. Dinsmoor (Anne Bancroft) que Finn conhece sua sobrinha, a bela Estella, por quem se apaixona à primeira vista. Os anos passam com o rapaz sempre fascinado com a beleza e a frieza da jovem, que viaja para morar em Nova York depois de acenar-lhe com uma possibilidade de amor. Sentindo-se inferiorizado por ser pobre e mal-nascido, Finn tem a chance de sua vida quando recebe a ajuda de um misterioso benfeitor, que lhe proporciona uma exposição em Manhattan e dinheiro suficiente para que ele se torne um bem-sucedido artista plástico. Famoso, reconhecido e rico, Finn tem, então, a possibilidade de conquistar o amor de sua vida.
 
Tudo bem que o roteiro de "Grandes esperanças" não é exatamente um primor e que seus protagonistas soem um tanto rasos. Tudo bem que quase nada sobre do romance que lhe deu origem. E tudo bem que a obsessão de Finn por sua amada Estella chegue às raias do exagero. Mas sobram, no filme de Cuarón, o que falta em muitas histórias de amor que chegam às telas: uma emoção transbordante e uma sensualidade à flor da pele. Juntos em cena, Gwyneth Paltrow e Ethan Hawke tem uma química sexual que se revela em pequenos olhares e pequenos toques. A cena em que Finn pinta retratos de uma Estella completamente nua ao som da bela "Like a friend", da banda Pulp, é digna de figurar em qualquer antologia de momentos eróticos do cinema. E eles nem precisam se tocar para isso...
 
E se Hawke e Paltrow se seguram muito bem como o casal central, é preciso também aplaudir o elenco coadjuvante, composto por veteranos que mostram em cada cena os motivos pelos quais são respeitados pela crítica e pelo público. Robert DeNiro equilibra bem os elementos repulsivos e generosos de seu Arthur Lustig, uma personagem crucial para a história. Chris Cooper quase rouba o show como o humilde Joe, em especial em seu reencontro com Finn, na vernissage do rapaz. E Anne Bancroft tem uma corajosa atuação, despindo-se de qualquer vaidade na pele da devastada Sra. Dinsmoor, em algumas das cenas mais comoventes do filme. Unidos à trilha sonora espetacular de Patrick Doyle e à beleza pictória de sua deslumbrante fotografia, eles fazem de "Grandes esperanças" uma bela história de amor, apesar do final um tanto abrupto.
 
Pode não ser uma unanimidade entre a crítica - e até mesmo entre os fãs de cinema - mas "Grandes esperanças" é um filme para ver e rever, sempre se deixando levar pelos sonhos românticos de Finnegan Bell.

Saturday, April 30, 2011

TITANIC

TITANIC (Titanic, 1997, 20th Century Fox/Paramount Pictures/Lighstorm Entertainment, 194min) Direção e roteiro: James Cameron. Fotografia: Russell Carpenter. Montagem: James Cameron, Richard A. Harris, Conrad Buff. Música: James Horner. Figurino: Deborah L. Scott. Direção de arte/cenários: Peter Lamont/Michael Ford. Produção executiva: Rae Sanchini. Produção: James Cameron, Jon Landau. Elenco: Leonardo DiCaprio, Kate Winslet, Kathy Bates, Billy Zane, Gloria Stuart, Bill Paxton, Frances Fisher, Suzy Amis, Victor Garber. Estreia: 14/12/97

14 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (James Cameron), Atriz (Kate Winslet), Atriz Coadjuvante (Gloria Stuart), Fotografia, Montagem, Trilha Sonora Original/Drama, Canção Original ("My heart will go on"), Figurino, Direção de arte/cenários, Efeitos Visuais, Maquiagem, Som, Efeitos Sonoros
Vencedor de 11 Oscar: Melhor Filme, Diretor (James Cameron), Fotografia, Montagem, Trilha Sonora Original/Drama, Canção Original ("My heart will go on"), Figurino, Direção de arte/cenários, Efeitos Visuais, Som, Efeitos Sonoros
Vencedor de 4 Golden Globes: Melhor Filme/Drama, Diretor (James Cameron), Trilha Sonora Original, Canção Original ("My heart will go on")

Impossível falar em "Titanic" e não afogar-se em números, com o perdão do infame trocadilho. O mais caro filme da história (ao custo de cerca de 200 milhões de dólares), o mais rentável (quase 2 bilhões arrecadados pelo mundo), o recordista em indicações ao Oscar (14, empatado com "A malvada"), o recordista em estatuetas (11, ao lado de "Ben-hur" e "O retorno do rei")... Números e recordes à parte, no entanto, a obra-prima de James Cameron também é, necessário reconhecer, uma das provas de tudo que Hollywood pode oferecer em termos de entretenimento de qualidade. Pode-se falar mal à vontade, mas a história de amor entre o pobretão Jack Dawson e a socialite falida Rose DeWitt Butaker mexe com o coração dos mais sensíveis e o trágico naufrágio oferece adrenalina suficiente aos fãs de filmes de ação. E é justamente esse equilíbrio entre o romance e a catástrofe o ingrediente secreto que transformou o filme de Cameron em fenômeno.

À luz da distância é fácil falar mal de "Titanic". Muitos críticos torcem o nariz para o que consideram uma historinha de amor e tragédia realizada com assustadora competência técnica mas vazia de conteúdo emocional (como se a morte de centenas de pessoas não fosse dramático o bastante). É lógico que, para aqueles que procuram dramas com psicologismos complexos, "Titanic" é absurdamente frívolo, quase banal. Porém, para aqueles que, como a maioria esmagadora dos frequentadores de cinema, procura apenas uma boa história contada de maneira impecável, o romance narrado por Cameron (demonstrando-se um diretor sensível que petardos de ação como os primeiros "O exterminador do futuro" pouco deixavam à mostra) é uma obra-prima absoluta, capaz de emocionar e impressionar em medidas idênticas.



Para quem não sabe - ou seja, para quem voltou à Terra de algum outro planeta - o filme conta a história de amor entre Jack Dawson (Leonardo DiCaprio, em uma atuação carismática) e Rose De Witt Buttaker (Kate Winslet, linda e convincente). Ele é um artista que vive um dia da cada vez, ela uma socialite em vias de entrar em um casamento por conveniência. Eles se conhecem a bordo do Titanic, o maior transatlântico do mundo, em sua viagem inaugural. Enquanto vivem um romance de sonhos - ainda que ameaçado pela diferença social e pelo noivo violento de Rose - eles nem imaginam que o inafundável navio está prestes a morrer no fundo do mar. Ao esbarrar em um iceberg, o Titanic naufraga inexoravelmente, fazendo centenas de vítimas (a maior parte nas classes menos favorecidas). Mais do que proteger seu amor, portanto, Jack e Rose lutam pela própria sobrevivência, testemunhando uma das maiores catástrofes da história.

James Cameron foi de extrema inteligência ao contar sua história da maneira mais simples possível, com uma linguagem que atinge a todo tipo de plateia, independente de classe social ou cultural. A simplicidade do roteiro também dá espaço ao que realmente chama a atenção em "Titanic": a sua supremacia absoluta em termos técnicos e visuais. É difícil ficar indiferente aos efeitos especiais concebidos pelo diretor - que já os havia revolucionado com "O segredo do abismo" e "O exterminador do futuro 2" - e pela grandiosidade do projeto em si. A fotografia exuberante, a reconstituição de época detalhista e o som impecável ficam menores quando assistidos sem o clima de uma sala de cinema (problemas que Blu-ray e TVS de alta definição estão resolvendo maravilhosamente), mas é inegável que tudo no filme é feito para impressionar, para deixar de queixo caído até o mais assíduo cinéfilo. E, convenhamos, o faz com perfeição.

Também é preciso aplaudir o senso de ritmo do cineasta e roteirista. Mesmo que "Titanic" utilize mais de três horas para contar sua história, em nenhum momento torna-se monótono ou cansativo. Logicamente sua primeira parte é mais lenta, ao apresentar as personagens e estabelecer o tom romântico da narrativa - e é nessa primeira hora que DiCaprio e Kate Winslet brilham com suas inspiradas atuações. Quando o naufrágio assume a protagonização, na segunda metade da projeção, o público já está apaixonado por Jack e Rose e embarca sem medo em sua aventura rumo a uma tragédia de proporções gigantescas. E, se deixar a racionalidade de lado, provavelmente irá se emocionar às lágrimas com seu desfecho.

"Titanic" é um clássico de nascimento. Poucas vezes o cinema americano conseguiu unir com tanto talento uma narrativa clássica, uma história real, personagens carismáticos e uma técnica tão brilhante. Falar sobre seu efeito junto à cultura mundial e analisar friamente suas qualidades e defeitos (que existem, é claro) não interfere em absoluto em sua importância na história da sétima arte. É um filme de cabeceira para românticos inveterados.

Friday, April 15, 2011

ALIEN: A RESSURREIÇÃO

ALIEN: A RESSURREIÇÃO (Alien: resurrection, 1997, 20th Century Fox, 109min) Direção: Jean-Pierre Jeunet. Roteiro: Joss Whedon, personagens criadas por Dan O'Bannon, Ronald Shusett. Fotografia: Darius Khondji. Montagem: Hervé Schneid. Música: John Frizzell. Figurino: Bob Ringwood. Direção de arte/cenários: Nigel Phelps/John M. Dwyer. Produção: Bill Badalato, Gordon Carroll, David Giler, Walter Hill. Elenco: Sigourney Weaver, Winona Ryder, Dominique Pinon, Ron Perlman, Michael Wincott, Dan Hedaya. Estreia: 26/11/97

A maior tradição em relação à série de filmes "Alien" - iniciada em um longínquo 1979 - diz respeito a nunca repetir diretores, dando ao espectador visões diferentes dos roteiros, desde em seu clima até em suas resoluções dramáticas. Sendo assim, em 1997, o francês Jean-Pierre Jeunet - que, ao lado de Marc Caro havia presenteado a audiência com os visualmente belíssimos "Delicatessen" e "Ladrões de sonhos" - reuniu-se ao time que já contava com Ridley Scott, James Cameron e David Fincher. Com a árdua missão de recuperar os fãs perdidos com as ousadias de "Alien 3", Jeunet entregou ao público um filme que, se não chega a empolgar como os dois primeiros capítulos, ao menos é fiel ao estilo claustrofóbico de seu filme original.

A trama, mais uma vez, usa e abusa do escapismo e da criatividade para dar continuidade ao inesperado final do terceiro episódio, lançado em 1992. Nessa nova aventura, a Tenente Ripley (mais uma vez vivida por Sigourney Weaver) é ressuscitada através de um processo de clonagem e os cientistas responsáveis pelo feito conseguem tirar a Rainha Mãe dos alienígenas de dentro dela. Acontece que as coisas não são assim tão simples, e Ripley passa a apresentar algumas características do monstro, como força descomunal e um sangue ácido, devido à mistura de seus DNAS. Tudo se complica quando os alienígenas que estão sendo criados em cativeiro pelo ambicioso Dr. Jonathan Gediman (Brad Dourif) conseguem escapar e mais uma vez começam a atacar os humanos que estão dentro da nave espacial - dentre os quais um grupo de mercenários que inclui a misteriosa Call (Winona Ryder). Cabe mais uma vez à Ripley impedir que os seres cheguem à Terra, mas dessa vez ela tem sentimentos dúbios em relação a eles.



Não deixa de ser bastante esperto o artifício criado pelo roteirista Joss Whedon de mixar o sangue (e a personalidade) de Ripley com a raça alienígena que ela vem perseguindo há séculos (a trama começa 200 anos depois do fim do último filme). Ao unir a heroína da série a seu maior vilão de forma inexorável, a trama caminha para um desfecho onde tudo pode acontecer. Infelizmente Whedon não vai muito longe na ousadia, deixando a relação de Ripley com o alien esfriar da metade pro fim do filme, quando ele se transforma em mais um produto de ação estritamente comercial, com cenas milimetricamente calculadas para injetar adrenalina na plateia. Nesse ponto, diga-se de passagem, Jeunet não é tão feliz quanto foi James Cameron, que tem uma tendência bem mais explícita ao superespetáculo. Ainda assim, é bastante impressionante a sequência subaquática que apresenta já em sua reta final. O cineasta francês é um esteta de extremo bom-gosto (como fica claro com sua fotografia e sua caprichada direção de arte)e faz questão de mostrar essa sua faceta em planos bem desenhados. Infelizmente, o capricho visual não encontra eco na trama, que não desperta tanto interesse quanto seus primeiros dois capítulos.

Quanto ao elenco, é preciso que se louve mais uma vez a atuação de Sigourney Weaver, que consegue, novamente, dar nuances surpreendentes à sua Ripley. Winona Ryder está talvez no pior momento de sua carreira, fazendo caras e bocas com uma personagem chatinha e cuja existência se deve principalmente à tentativa do estúdio em arrecadar mais alguns milhares de dólares com a presença de uma atriz jovem e em ascensão como ela era à época do lançamento (e não deixa de ser um tanto forçada a relação entre sua Call e a protagonista, em cenas que foram vendidas como se tivessem um homoerotismo que não existe). Brad Dourif exagera novamente em seus trejeitos, dessa vez como uma nova versão de cientista louco e somente escapa do overacting geral (assim como Weaver, esteja bem claro).

No final das contas, "Alien: a ressurreição" vale por uma ou outra cena bem realizada e pela presença sempre forte de Sigourney Weaver. Jean-Pierre Jeunet ainda demoraria uns bons cinco anos para dar ao mundo sua obra-prima, "O fabuloso destino de Amélie Poulain".

Tuesday, March 22, 2011

UM DIA ESPECIAL

UM DIA ESPECIAL (One fine day, 1996, Fox 2000 Pictures/20th Century Fox, 108min) Direção: Michael Hoffman. Roteiro: Terrel Seltzer, Ellen Simon. Fotografia: Oliver Stapleton. Montagem: Garth Craven. Música: James Newton Howard. Figurino: Susie DeSanto. Direção de arte/cenários: David Gropman/Anne Kuljian. Produção executiva: Kate Guinzburg, Michelle Pfeiffer. Produção: Lynda Obst. Elenco: Michelle Pfeiffer, George Clooney, Mae Whitman, Alex D. Linz, Charles Durning, Amanda Peet, Ellen Greene. Estreia: 20/12/96

Indicado ao Oscar de Melhor Canção ("For the first time")

Em 1996, o ator George Clooney estava começando sua escalada rumo ao sucesso no cinema. Na TV ele já era ídolo: sua participação como Doug Ross, o pediatra don juan da série "Plantão médico" o colocava como símbolo sexual inquestionável entre o público feminino, que suspirava todas as semanas frente ao aparelho de televisão. Em sua ambição de tornar-se também um astro de cinema, nada mais natural do que não mexer em time que está ganhando. Depois de experimentar um pouco de ousadia com sua estreia nas telas - o terror "Um drink no inferno", roteirizado por Quentin Tarantino e dirigido por Robert Rodriguez - Clooney presenteou as fãs com "Um dia especial", uma comédia romântica que pode ser definida por todos os adjetivos que filmes do gênero comportam: agradável, engraçadinha, fofa... e previsível.

Não que o público que tenha ido acorrido aos cinemas para ver George Clooney seja muito exigente - e foi um público razoável, a julgar pela bilheteria bem razoável de quase 50 milhões de dólares. Mas o fato é que, apesar de não apresentar nenhuma novidade, "Um dia especial" serviu perfeitamente aos objetivos do ator, que, ao lado de uma inspirada Michelle Pfeiffer - também produtora executiva - conquista a plateia sem precisar fazer muito esforço. E são os dois, belos e talentosos, que fazem com que o filme de Michael Hoffman seja um entretenimento inofensivo e divertido. Fotografado com capricho pelo veterano Oliver Stapleton, "Um dia especial" não é inesquecível, mas tem um charme que o diferencia de muitos outros exemplares do gênero.


Michelle Pfeiffer, linda como sempre e com um timing cômico na medida certa, vive Melanie Parker, uma arquiteta que divide seu tempo entre tentar uma promoção profissional e cuidar de Sammy (Alex D. Linz), seu filho com um músico itinerante que aparece apenas de vez em quando na vida do filho. Clooney interpreta Jack Taylor, conhecido jornalista que, além de procurar furos de reportagem, tenta provar à ex-mulher que sabe cuidar da filha pequena, Maggie (Mae Whitman). Justamente no dia em que Melanie tem uma apresentação importantíssima que pode lhe dar a sonhada promoção e Jack precisa comprovar os fatos de uma polêmica reportagem cujas consequências podem lhe tirar o emprego, seus filhos perdem o passeio de barco da escola e os dois adultos - de personalidades opostas e que nutrem uma antipatia à primeira vista em relação um ao outro - são obrigados a criar uma forma de resolver a situação e, é claro, acabam o dia apaixonados.

E é só isso. Com esse fiapo de história, Hoffman mantém a atenção da plateia usando a abusando dos clichês que fazem a glória das comédias românticas sem, no entanto, incomodar ou aborrecer. O ritmo mantido pelo cinesta combina com a bela trilha sonora de James Newton Howard e com a coloração de uma Nova York chuvosa em dias de uma beleza rara. As personagens secundárias não roubam a atenção da dupla central, surgindo em cena apenas quando o necessário para o desenvolvimento da trama - e são interpretados por gente boa, como o veterano Charles Durning e a bela Amanda Peet. Michael Hoffman concentra o foco de seu filme totalmente em Pfeiffer e Clooney, e acerta em fugir das tramas paralelas. A química entre o ótimo casal de protagonistas e as crianças que interpretam seus filhos é outro ponto alto do filme, uma sessão da tarde das mais encantadoras.

Logicamente o futuro de Clooney no cinema preparava voos maiores - inclusive uma carreira de diretor e um Oscar de coadjuvante - mas é impossível negar que "Um dia especial" jamais será uma mancha em seu currículo. Afinal, é um filme, como dito anteriormente, agradável, encantador e fofo. E tem Michelle Pfeiffer no elenco!

Thursday, March 17, 2011

AS BRUXAS DE SALEM

AS BRUXAS DE SALEM (The crucible, 1996, 20th Century Fox, 124min) Direção: Nicholas Hytner. Roteiro: Arthur Miller, peça teatral homônima de Arthur Miller. Fotografia: Andrew Dunn. Montagem: Tariq Anwar. Música: George Fenton. Figurino: Bob Crowley. Direção de arte/cenários: Lily Kilvert/Gretchen Rau. Produção: Robert A. Miller, David V. Picker. Elenco: Daniel Day-Lewis, Winona Ryder, Joan Allen, Paul Scofield, Bruce Davison, Rob Campbell, Jeffrey Jones, Frances Conroy. Estreia: 27/11/96

2 indicações ao Oscar: Atriz Coadjuvante (Joan Allen), Roteiro Adaptado

Em 1953 os EUA estavam passando por um de seus períodos mais negros: fomentadas pelo famigerado senador Joseph McCarthy, denúncias a respeito de supostos atos comunistas cometidos pelos membros da indústria do cinema pipocavam por todo lado, destruindo carreiras importantes e minando amizades até então tidas como eternas. Qualquer mero ato considerado suspeito era o bastante para que artistas de talento inquestionável perdessem as oportunidades de trabalho - Elia Kazan, por exemplo, colaborou com o governo delatando inúmeros colegas, o que lhe custou o respeito que havia adquirido como cineasta (e ele tentou limpar a barra com o espetacular "Sindicato de ladrões"). Com uma dose admirável de oportunismo (no bom sentido), o dramaturgo Arthur Miller escreveu "As bruxas de Salem", uma de suas obras-primas. Ao contar a história da vingança de uma mulher abandonada, Miller usou-a como um disfarce para uma trama que, nem tão por debaixo dos panos assim, é na verdade uma história sobre a paranoia que tomou conta da capital do cinema.

Adaptada para o cinema em 1957 - em uma versão estrelada por Simone Signoret e falada em francês para fugir da censura norte-americana - a peça de Miller ganhou uma nova versão para as telas em 1996, adaptada por seu próprio autor e dirigida por Nicholas Hytner - que tinha em seu currículo o prestigiado "As loucuras do Rei George". Ao ter sua ação estendida para fora dos limites impostos por um palco, o texto teve a sorte de manter sua força original, contrariando a regra que faz com que adaptações teatrais mantenham seu ranço verborrágico e estático. Em sua vigorosa adaptação para as telas, "As bruxas de Salem" é um avassalador conto sobre o poder destruidor da mentira, e conta com atuações impressionantes de seus atores centrais.

Tudo começa quando o Reverendo Parris (Bruce Davison), pároco da pequena cidade de Salem, Massachussets, flagra sua sobrinha Abigail Williams (Winona Ryder) e outras adolescentes do lugar, dançando em volta de uma fogueira durante a noite. Para fugir de um castigo, Abigail inventa que estava possuída por um espírito demoníaco invocado por sua empregada oriunda de Barbados, Tituba (Charlayne Woodard). Aproveitando a onda de histeria que toma conta do lugar - quando atos inocentes são julgados como provas de bruxaria - ela convence até mesmo o rígido Juiz Thomas Danforth (Paul Scofield, sensacional em cada cena) de que a esposa de Proctor, Elizabeth (a impecável Joan Allen, indicada ao Oscar de coadjuvante) também está envolvida em atos anti-cristãos. Aos poucos, a cidade divide-se entre quem está do seu lado e aqueles que não acreditam em suas mentiras, mas fingir acaba sendo sua última alternativa para evitar a forca.


"As bruxas de Salem" lembra, em sua estrutura, a comédia "O alienista", escrita por Machado de Assis em 1882, onde um médico que chega a uma pequena cidade do interior acaba internando praticamente a população inteira, diagnosticados como loucos. Aqui, Miller dá ênfase à histeria que toma conta de pessoas até então pacatas no momento em que precisam lutar por suas vidas ou integridade física. Abigail Williams ilustra com perfeição a máxima de Nietzsche que diz que "o mundo não conhece fúria maior do que a de uma mulher abandonada". Interpretada visceralmente por Winona Ryder - certamente no melhor papel de sua carreira - Abby é uma jovem que toma consciência tardiamente das consequências de suas mentiras mas mesmo assim não desiste de mantê-las. Na peça original de Miller, a personagem tinha meros 12 anos de idade enquanto John Proctor era quase sexagenário - mudança providencial no roteiro cinematográfico para evitar menções à pedofilia. No filme de Hytner, Proctor é menos vil, quase heróico em sua tentativa de manter-se íntegro e ético mesmo quando vê sua vida desmoronar. E Elizabeth é uma vítima inocente do furacão provocado pela ex-amante do marido, em uma interpretação quase silenciosa de Joan Allen, demonstrando seu imenso talento.

"As bruxas de Salem" é uma metáfora poderosa sobre um dos momentos mais vergonhosos da história do cinema americano. Mas é, acima disso, um filme dotado de uma força própria e de uma inteligência ímpar. Um dos melhores filmes da safra 1996 de Hollywood, infelizmente esquecida pelo Oscar e ignorada pelo público. Merece ser descoberto!

Saturday, March 12, 2011

ROMEU + JULIETA

ROMEU + JULIETA (William Shakespeare's Romeo and Juliet, 1996, 20th Century Fox, 120min) Direção: Baz Luhrmann. Roteiro: Baz Luhrmann, Craig Pearce, peça teatral de William Shakespeare. Fotografia: Donald McAlpine. Montagem: Jill Bilcock. Música: Nellee Hooper. Figurino: Kym Barrett. Direção de arte/cenários: Catherine Martin/Brigitte Broch. Produção: Baz Luhrmann, Gabriella Martinelli. Elenco: Leonardo DiCaprio, Claire Danes, John Leguizamo, Paul Rudd, Pete Postletwhaite, Paul Sorvino, Brian Dennehy, Diane Venora, Christina Pickles, Harold Perrineau Jr., Vondie Curtis-Hall, Miriam Margoyles, Jamie Kennedy, Jesse Bradford. Estreia: 01/11/96

Indicado ao Oscar de Direção de Arte/Cenários
Festival de Berlim - Melhor Diretor (Baz Luhrmann), Melhor Ator (Leonardo DiCaprio) 

A primeira cena já dá uma pista sobre o que vem pela frente: em vez de empolados arautos em roupas de época, uma apresentadora de telejornal anuncia o que a plateia verá nas próximas duas horas. Com uma montagem frenética e ruidosa, Baz Luhrmann desconstrói o preconceito contra a tradição e entrega sua versão lisérgica, sexy e violenta de uma das mais famosas histórias de amor da história do teatro. "Romeu + Julieta" é mais do que uma refilmagem da mais clássica obra de Shakespeare: é a reinvenção em formato MTV de uma trama universal que vem emocionando gerações há muitos séculos. E como não poderia deixar de ser, a ousadia do cineasta australiano encontrou tanto admiradores apaixonados quanto detratores ferrenhos.

Não é de admirar que os puristas tenham se chocado com a coragem de Luhrmann (diretor do divertidamente brega "Vem dançar comigo"): apesar de manter o texto de Shakespeare intacto, ele substituiu espadas por armas de grosso calibre, transformou Mercúcio em uma drag-queen negra, apresenta um padre Lourenço tatuado e, no primeiro encontro do casal de protagonistas, o herói (vivido por um Leonardo DiCaprio em vias de tornar-se coqueluche mundial graças à "Titanic") está sob o efeito de ecstasy. Somadas a uma edição alucinante, um desenho de som que atinge os mais altos decibéis e uma direção de arte que eleva o kitsch a um status de arte (algo que Luhrmann já havia feito antes, e atingiria seu ápice em "Moulin Rouge" cinco anos depois), essas "transgressões" do cineasta australiano fizeram de "Romeu + Julieta" um dos filmes mais comentados do início da segunda metade da década de 90.

Para quem não sabe do que se trata - ou seja, quem não esteve no planeta Terra nos últimos quatrocentos anos - "Romeu + Julieta" (assim mesmo, com um sinal de adição ao invés do tradicional '&') conta a trágica história de amor proibida entre Romeu Montéquio (Leonardo DiCaprio) e Julieta Capuleto (a ótima Claire Danes). Herdeiros únicos de duas famílias cuja inimizade já vem de longa data - e que se transmite aos agredados dos clãs - eles se conhecem e se apaixonam durante uma festa à fantasia na Mansão Capuleto. Cientes dos problemas que seu romance irá enfrentar, o jovem casal conta com a ajuda do Frei Lourenço (Pete Postletwhaite), que acredita que o nascente amor poderá finalmente trazer paz à cidade de Verona (aqui transposta da Itália para uma praia ao estilo Miami). Mas as coisas saem do controle quando um primo de Julieta, Teobaldo (John Leguizamo) mata Mercúcio (Harold Perrineau Jr., da série "Lost"), melhor amigo de Romeu, o que precipitará uma tragédia de grandes proporções.


Quem espera ver na versão de Baz Luhrmann a delicadeza lírica da idealizada por Franco Zefirelli em 1968 certamente levará um susto. Na concepção anos 90 da história do bardo não há espaço para tempos mortos e até mesmo os belíssimos diálogos românticos entre os protagonistas são declamados de uma forma que soa nova, moderna e jamais vista. A famosa cena do balcão, por exemplo, tem lugar na piscina da casa de Julieta, filmada com precisão por Lurhmann e seu diretor de fotografia Donald McAlpine, aqui realizando um trabalho excepcional que explora a luz natural com sensibilidade ímpar: o auge do amor entre Romeu e Julieta é colorido, romântico, com belos crepúsculos, mas quando a desgraça se aproxima é a chuva agressiva e a noite mais negra que tomam seu lugar. E na dolorosa cena final é impressionante a soma perfeita entre o cenário ultra-colorido, a fotografia sóbria, a trilha sonora delicada de Neellee Hooper e as interpretações perfeitas do casal central. A química entre DiCaprio e Claire Danes (saindo da série de TV "Minha vida de cão") é tão sensacional que dá pra perdoar facilmente os momentos iniciais do filme, tão rápidos e barulhentos que talvez incomodem o público mais tradicional - e vale lembrar que Natalie Portman quase ficou com o papel de Julieta, só sendo substituída por Danes porque é baixinha demais perto de seu galã, o que, segundo a produção, poderia soar como pedofilia...

Mesmo com seus pequenos defeitos - mais culpa do estilo exagerado de seu diretor do que por falta de talento ou ambição - "Romeu + Julieta" cumpre tudo o que promete: é comovente, é moderno, tem uma trilha sonora espetacular - o filme se encerra com a magnífica "Exit music (for a film), do grupo inglês Radiohead - e preparou Leonardo DiCaprio para o megaestrelato que viria muito a seguir. Um drama romântico indispensável"

Monday, March 7, 2011

NOSSO TIPO DE MULHER

NOSSO TIPO DE MULHER (She's the one, 1996, 20th Century Fox, 96min) Direção e roteiro: Edward Burns. Fotografia: Frank Prinzi. Montagem: Susan Graef. Música: Tom Petty. Figurino: Susan Lyall. Direção de arte/cenários: William Barclay/Harriet Zucker. Produção executiva: Michael Nozik, Robert Redford. Produção: Edward Burns, Ted Hope, James Schamus. Elenco: Edward Burns, Jennifer Aniston, Mike McGlone, Cameron Diaz, John Mahoney, Maxine Bahns, Amanda Peet. Estreia: 23/8/96

Por mais que Woody Allen, com sua habitual modéstia, acredite que não influencia a obra de ninguém, é impossível assistir-se a "Nosso tipo de mulher", uma comédia romântica a respeito dos relacionamentos de nova-iorquinos um tanto neuróticos e sempre com uma frase sarcástica na ponta da língua. Excetuando-se os fatos de que os personagens criados por Edward Burns são católicos descendentes de irlandeses  e que não são exatamente sofisticados, existe muito de Allen em "Nosso tipo de mulher". Felizmente, coisas boas.

Segunda parte de uma espécie de trilogia do jovem ator/roteirista/diretor/produtor Edward Burns - iniciada com "Os irmãos McMullen" (1995) e finalizada com "No looking back" (1998) - o filme conta as aventuras amorosas de dois irmãos de personalidades opostas (uma espécie de "Razão e sensibilidade" masculino e moderno): o mais velho, Mickey (vivido pelo diretor) trabalha como taxista desde que flagrou a noiva transando com outro homem e, em uma de suas viagens, conhece e se apaixona por Hope (Maxine Bahns), uma garçonete que sonha morar em Paris mas que, no momento, mora em um apartamento caindo aos pedaços. Em um ato impulsivo, eles se casam no mesmo dia em que se conhecem, o que pega toda a família de surpresa. O pai machista (John Mahoney) acredita que ela deseja o green card (mesmo que ela seja americana), a mãe (que jamais aparece em cena) acha que a nora está grávida. Mas quem fica mais chocado com a notícia é seu irmão caçula, Francis (Mike McGlone). Executivo de Wall Street, ambicioso e certinho, ele vê o casamento de Mickey causar um alvoroço em sua própria vida amorosa: não apenas passa a ser cobrado pela esposa Renee (Jennifer Aniston) como ainda entra em crise com a amante, Heather (Cameron Diaz), que vem a ser justamente a ex-noiva de seu irmão.


A ciranda amorosa bolada por Burns propicia bons momentos de humor, em especial quando o roteiro dá oportunidade para que os três membros masculinos da família Fitzpatrick estejam juntos, normalmente se preparando para uma pescaria. As diferenças entre seus pontos de vista e a forma como elas empurram o filme em direção a um clímax não poderoso mas coerente e romântico fazem com que tudo soe verossímil e o elenco escalado ajuda muito nesse quesito. A estrela maior é Cameron Diaz, já entrando na melhor fase de sua carreira - que culminaria com "Quem vai ficar com Mary?" cerca de um ano depois - e não tendo muito trabalho em parecer bonita e sexy. Jennifer Aniston, dando seus primeiros passos reais no cinema, não foge muito dos trejeitos de sua Rachel Green da série "Friends", mas é tão agradável que dá pra perdoar facilmente. E Maxine Bahns, que interpreta Hope, a mulher que entra em cena para desestabilizar a harmonia familiar, era namorada do diretor na época das filmagens, o que talvez explique sua escalação, já que não é especialmente bonita nem uma grande e carismática atriz.

Mas não deixa de ser irônico que em um filme chamado "Nosso tipo de mulher" seja justamente os homens que se destaquem. A química entre Burns e Mike McGlone (que já haviam atuado juntos em "Os irmãos McMullen") é palpável, e a aquisição do ótimo John Mahoney para o time não poderia ter sido melhor. Mahoney é engraçado, sério e convincente em cada cena, dando verdade a todos os diálogos que lhe cabem e simplesmente roubando o filme para si - mesmo porque Burns, apesar de talentoso como roteirista e cineasta parece estar sempre com uma certa preguiça para atuar (estilo, talvez...)

No fim das contas, "Nosso tipo de mulher" é uma comédia romântica inofensiva como todas elas devem ser. É irônica, é engraçada e é extremamente agradável. Não muda a vida de ninguém, mas é um passatempo bastante honesto.

Thursday, November 18, 2010

ALIEN 3

ALIEN 3 (Alien 3, 1992, 20th Century Fox, 114min) Direção: David Fincher. Roteiro: David Giler, Walter Hill, Larry Ferguson, história de Vincent Ward. Fotografia: Alex Thomson. Montagem: Terry Rawlings. Música: Elliot Goldenthal. Figurino: David Perry, Bob Ringwood. Direção de arte/cenários: Norman Reynolds/Belinda Edwards. Produção executiva: Ezra Swerdlow. Produção: Gordon Carroll, David Giler, Walter Hill. Elenco: Sigourney Weaver, Charles S. Dutton, Charles Dance, Paul McGann, Lance Henriksen, Pete Postletwhaite. Estreia: 22/5/92

Indicado ao Oscar de Efeitos Visuais

Depois que James Cameron continou o tenso "Alien, o oitavo passageiro" com o espetaculoso e adrenalínico "Aliens, o resgate", era bastante esperado o retorno da Tenente Ripley em sua tentativa de exterminar o alienígena que aniquilou sua equipe inteira nos dois primeiros filmes. Depois de anos de negociações - em que estrela da série, Sigourney Weaver hesitava em voltar à personagem - finalmente o terceiro capítulo chegou às telas, dirigido por David Fincher, um novato que tinha no currículo alguns dos melhores videoclipes de Madonna e George Michael, por exemplo. Ao optar pelo caminho claustrofóbico do primeiro em detrimento da ação desenfreada do segundo, Fincher arrumou detratores furiosos. Depois de brigas homéricas com os produtores, o cineasta não supervisionou a edição final e "Alien 3" chegou às telas quase órfão. O resultado é visível: apesar de muitas boas ideias, a terceira parte da saga de Ripley não empolgou nem o público nem a crítica. Mas não é tão ruim quanto se falou à época de seu lançamento. 

A história dessa nova aventura começa logo após o final do segundo filme. Sem saber que não está a salvo da ameaça alienígena dos capítulos anteriores, Ripley acorda em Fiorina 161, um planeta-prisão, onde ficam encarcerados prisioneiros sexualmente agressivos e violentos. Informada por Clemens (Charles Dance), o médico local, de que toda sua tripulação morreu, ela imediatamente percebe que tudo está para acontecer novamente. Única mulher em meio a homens carregados de testosterona, ela precisa convencê-los do perigo que correm, proteger-se deles e lutar, mais uma vez, para matar seu inimigo. Dessa vez, no entanto, ela não tem nenhuma arma.


Com a cabeça raspada - o presídio está passando por uma epidemia de piolhos - Sigourney Weaver segura, novamente, toda a responsabilidade de carregar o filme nas costas. Ao contrário das ocasiões anteriores, porém, dessa vez Ripley tem mais cenas dramáticas do que de ação, consequência da opção de David Fincher em privilegiar o aspecto mais tenso da trama. Até mesmo um arremedo de romance surge entre Ripley e Clemens, ousadia que pegou os fãs de surpresa - ainda que tudo seja extremamente discreto. E discreto também é o ritmo do filme: demora quase uma hora para que a ação realmente comece e o sangue jorre em Fiorina 161. Na verdade, a lentidão é parte da personalidade do filme, que prefere estabelecer sua história antes da violência. Pouca gente compreendeu isso e se recusou a perceber suas qualidades.



Sim, apesar da gritaria contra si - e da saída de David Fincher do projeto em seu estágio de finalização - "Alien 3" tem qualidades. A ousadia talvez seja a maior delas. Ao praticamente lutar por suas ideias e com isso renegar a receita que estava fazendo sucesso há quinze anos, David Fincher começou uma carreira marcada pela personalidade. Visualmente impecável - a fotografia escura e pesada unida à agressividade estética das personagens - o filme de Fincher transmite a exata sensação de claustrofobia pretendida e, se não busca atingir seu público com efeitos visuais exagerados, tenta (às vezes com sucesso, outras nem tanto) assustar sem apelar para o fácil e o corriqueiro. Talvez por isso tenha afastado a audiência fiel das primeiras partes.


Tudo bem que "Alien 3" não passa a sensação de terror do primeiro nem empolga em termos de aventura do segundo. Tudo bem também que seu terço final não acrescenta muito à saga - apesar de antes de chegar a ele algumas cenas sejam sensacionais. E tudo bem que não ver Ripley empunhando armas é um tanto frustrante. Mas, mesmo que seja rejeitado por David Fincher, é um exemplar bastante - BASTANTE! - decente da série. Digam o que quiserem, "Alien 3" me agrada.

Friday, November 5, 2010

TUDO POR AMOR

TUDO POR AMOR (Dying young, 1991, 20th Century Fox, 111min) Direção: Joel Schumacher. Roteiro: Richard Friedenberg, romance de Marti Leimbach. Fotografia: Juan Ruiz Anchia. Montagem: Robert Brown, Jim Prior. Música: James Newton Howard. Figurino: Susan Becker. Direção de arte/cenários: Cricket Rowland. Casting: Mary Goldberg. Produção: Sally Field, Kevin McCormick. Elenco: Julia Roberts, Campbell Scott, Vincent D'Onofrio, Colleen Dewhurst, David Selby, Ellen Burstyn. Estreia: 21/6/91

Depois de ter seduzido plateias do mundo inteiro com uma comédia romântica e dois suspenses, Julia Roberts achou que faltava algo para demonstrar sua versatilidade. Nada melhor, portanto, do que investir em um românce ao estilo "Love story". Produzido por sua mãe no choroso "Flores de aço", Sally Field, o drama "Tudo por amor" reuniu a linda mulher ao diretor Joel Schumacher, de "Linha mortal", mas não fez o barulho esperado. Era a primeira mostra de que a estrela de Julia estava começando a apagar-se - o que iria acontecer ainda na primeira metade dos anos 90, para depois ressurgir com força total.

Na verdade a culpa do semi-fracasso de "Tudo por amor" - semi porque o filme tem seus fãs inveterados - é o fato de contar uma história bastante triste e deprimente, que quase anula a maior qualidade de Roberts: sua vivacidade. Ainda que altere consideravelmente o final do livro em que é baseado - na verdade o romance acaba um pouco adiante do que é mostrado nas telas - o filme de Joel Schumacher é suficientemente melancólico para afastar o público que apaixonou-se pelo largo sorriso da atriz. E ter Schumacher, um cineasta não exatamente criativo ou ousado, por trás das câmeras não ajuda muito no resultado final. A maior qualidade de "Tudo por amor" é justamente a tentativa de seu elenco em transformar uma montanha de clichês em algo minimamente interessante.


Julia Roberts - menos bela e sedutora do que o normal - vive Hilary O'Neil, uma jovem que, depois de sair da casa onde vivia com o namorado infiel, atende um anúncio de jornal procurando uma enfermeira. Mesmo sem ter nenhuma experiência no assunto, suas belas pernas e a ajudam a conseguir o emprego como acompanhante 24h de Victor Geddes (Campbell Scott), um rapaz de 28 anos que tem leucemia desde a adolescência. A princípio assustada com as reações adversas do jovem a seu tratamento de quimioterapia, ela aos poucos começa a realmente cuidar dele e ajudá-lo em sua recuperação. Quando eles viajam para a praia para que ele termine sua tese de doutorado, eles se descobrem apaixonados, mas a doença volta a ser uma ameaça à sua felicidade.

Enquanto Roberts não parece à vontade com sua personagem, é Campbell Scott quem se destaca no difícil papel de Victor, um rapaz dividido entre a tentativa de uma vida normal e a cura de sua doença. Sem apelar para a lágrima fácil, o filho do grande ator George C. Scott consegue ser sedutor, agressivo, frágil e apaixonante. Não é à toa que a linda mulher cai de amores por ele...

Saturday, October 2, 2010

A GUERRA DOS ROSES

 
 A GUERRA DOS ROSES (The war of the Roses, 1989, 20th Century Fox, 116min) Direção: Danny DeVito. Roteiro: Michael Leeson, romance de Warren Adler. Fotografia: Stephen H. Burum. Montagem: Lynzee Klingman. Música: David Newman. Figurino: Gloria Gresham. Direção de arte/cenários: Ida Random/Anne D. McCulley. Produção executiva: Doug Claybourne, Polly Platt. Produção: James L. Brooks, Arnon Milchan. Elenco: Michael Douglas, Kathleen Turner, Danny DeVito, Marianne Sagebrecht, Sean Astin. Estreia: 08/12/89

Em 1987, o ator Danny DeVito provou que também tinha talento por trás das câmeras, com o sucesso crítico e comercial de "Jogue a mamãe do trem". Antes disso, ele contracenou com Michael Douglas e Kathleen Turner em dois sucessos de bilheteria - "Tudo por uma esmeralda" e "A jóia do Nilo" - que comprovaram a química entre os dois atores. Não foi nenhuma surpresa, então, quando os três voltaram a trabalhar juntos em "A guerra dos Roses", uma comédia de humor ainda mais negro do que o primeiro filme de DeVito. Baseado no livro de Warren Adler - que teve uma continuação lançada mais de uma década depois - o roteiro consegue ao mesmo tempo ser mordaz, irônico e dono de uma contundente crítica social. De quebra, apresenta atuações memoráveis do seu casal protagonista.


O filme é narrado por Gavin D'Amato (o próprio DeVito), um advogado que tenta demover um cliente de sua ideia de entrar com um processo de divórcio contando a história de um casal de clientes. Oliver e Barbara Rose (vividos por Douglas e Turner) se conheceram na juventude, se apaixonaram e subiram na vida juntos. Enquanto ela abandona uma promissora carreira como ginasta para dedicar-se ao casamento, ele foca toda sua energia em tornar-se um advogado bem-sucedido. Quando, depois que o casal de filhos gêmeos sai de casa para estudar, Barbara resolve começar um negócio próprio, ela percebe que não sente mais nada pelo marido, exceto repulsa e um ódio quase mortal. Ao entrar com o pedido de divórcio, no entanto, ela descobre que Oliver não está nem um pouco disposto a abrir mão da espetacular mansão em que eles vivem - e é justamente a casa que decorou com tanto esmero e cuidado a única coisa que ela deseja na custódia dos bens.
"A guerra dos Roses" começa como uma comédia romântica, ou no máximo, uma comédia como dezenas de outras. É somente aos poucos que DeVito vai levando o público em sua viagem de humor sombrio. De cena em cena a plateia é apresentada ao crescente desprezo de Barbara pelo marido ou da falta de fé de Oliver no ódio da esposa. Ainda apaixonado, ele não acredita que ela seja capaz de chegar aos extremos que ameaça. Quando ele vê que ela realmente o É, o filme deslancha de vez. Se como dona-de-casa entediada Kathleen Turner é boa, como ex-mulher enraivecida ela é ainda melhor.


A química entre Turner e Michael Douglas é gloriosa. Fica clara, em cada sequência, a intimidade entre os dois, que se divertem claramente frente às câmeras. É hilariante a maneira com que o diretor consegue utilizar detalhes - como a implicância do casal com os bichos de estimação um do outro - para apresentar, desde sempre, aquela centelha de raiva enrustida que os move. E a forma surpreendente com que o roteiro se desenrola é triunfo de uma história tão inacreditável que acaba sendo plenamente verossímel dentro de suas idiossincrasias. Tudo é tão deliciosamente exagerado no filme de DeVito que fica difícil não aceitar seu convite para a diversão.


"A guerra dos Roses" não é uma comédia no sentido tradicional. Seu humor não busca gargalhadas e sim a identificação da plateia com os meandros de uma relação desgastada pelo tempo e pela desilusão. De certa forma é até triste. Mas ao mesmo tempo é irresistível e garantia de duas horas de bom entretenimento.

Thursday, July 29, 2010

ALIENS, O RESGATE


ALIENS, O RESGATE (Aliens, 1986, 20th Century Fox, 137min) Direção: James Cameron. Roteiro: James Cameron, história de James Cameron, David Giler e Walter Hill, personagens criados por Dan O'Bannon e Ronald Shusett. Fotografia: Adrian Biddle. Montagem: Ray Lovejoy. Música: James Horner. Figurino: Emma Porteous. Direção de arte/cenários: Peter Lamont/Crispian Sallis. Produção executiva: Gordon Carroll, David Giler, Walter Hill. Produção: Gale Anne Hurd. Elenco: Sigourney Weaver, Carrie Henn, Michael Biehn, Lance Henriksen, Paul Reiser, Bill Paxton, William Hoppe. Estreia: 18/7/86

7 indicações ao Oscar: Atriz (Sigourney Weaver), Montagem, Trilha Sonora, Direção de arte, Som, Efeitos Sonoros, Efeitos Visuais

Vencedor de 2 Oscar: Efeitos Sonoros, Efeitos Visuais


Em 1979, o filme "Alien, o oitavo passageiro" empolgou plateias do mundo inteiro ao misturar com equilíbrio perfeito elementos de ficção científica com ingredientes de filmes de terror. O resultado foi uma bilheteria espantosa, sucesso de crítica e um inevitável segundo capítulo. Dirigida por James Cameron - vindo do grande êxito de "O exterminador do futuro" - , a continuação do filme de Ridley Scott abandonou a sensação claustrofóbica do original, substituindo-a pelas melhores cenas de ação que o dinheiro poderia comprar. Perdeu em tensão, mas ganhou em adrenalina. Os fãs do gênero formaram filas enormes, profundamente satisfeitos.

A trama desse segundo filme se passa cerca de 50 anos depois dos acontecimentos que levaram a Tenente Ripley (Sigourney Weaver) a testemunhar a aniquilação de seus companheiros de tripulação por um alienígena truculento e aparentemente invencível. Encontrada por uma nave de resgate, logo ela fica sabendo que o planeta que originou o monstro está colonizada pela Terra e, quando todo e qualquer contato com os humanos que o habitam é perdido, ela é enviada para descobrir o que aconteceu e, se for necessário, exterminar os algozes dos colonizadores.

Tudo em "Aliens, o resgate", é grande. A duração (mais de duas horas), os efeitos visuais, a violência. Navegando tranquilamente em sua tradicional mania de grandeza, Cameron oferece ao espectador um verdadeiro espetáculo de entretenimento. Seguindo a linha oposta ao trabalho de Ridley Scott - que optou pela sugestão em detrimento do explícito - o futuro vencedor do Oscar por "Titanic" não tem medo de orquestrar sequências de ação eletrizantes e de apavorar o público com criaturas asquerosas em número suficiente para justificar o Oscar de efeitos visuais que acabou conquistando. E além de tudo ainda encontra tempo para sentimentalismos, ao criar uma personagem que dá a Ripley um lado humano que lhe cai muito bem: uma menina órfã que vê na protagonista a figura materna que necessita para manter-se viva e amada.

É fato notável que a relação entre Ripley e sua pequena "filha" dá um gás novo e uma nuance inesperada que permite a "Aliens, o resgate" fugir da maldição das continuações. Humanizar Ripley foi um golpe de mestre de Cameron, que a aproxima mais da plateia antes de fazê-la barbarizar seus antagonistas, além, é claro, de permitir a Sigourney Weaver maiores vôos dramáticos de atuação - não à toa, ela foi surpreendentemente indicada ao Oscar por seu trabalho em um gênero que normalmente não é muito afeito a dramas pessoais.

"Aliens, o resgate" é o mais bem-sucedido comercialmente da série lançada em 1979, mas fica aquém do original no quesito suspense. É um extraordinário filme de ação, realizado com uma competência assustadora e talentos criativos inegáveis, que deixaria o mundo com água na boca, esperando um terceiro capítulo que, lançado em 1992, decepcionou público e crítica mesmo voltando às origens claustrofóbicas de sua origem.

Thursday, June 10, 2010

A ROSA


A ROSA (The rose, 1979, 20th Century Fox, 125min) Direção: Mark Rydell. Roteiro: Bo Goldman, Bill Kerby, história de Bill Kerby. Fotografia: Vilmos Zsigmond. Montagem: C. Timothy O'Meara, Robert L. Wolfe. Música: Paul A. Rotchild. Figurino: Theoni V. Aldredge. Direção de arte/cenários: Richard Macdonald/Bruce Weintraub. Casting: Lynn Stalmaster. Produção executiva: Tony Ray. Produção: Aaron Russo, Marvin Worth. Elenco: Bette Midler, Alan Bates, Frederic Forrest, Harry Dean Stanton. Estreia: 07/11/79

4 indicações ao Oscar: Atriz (Bette Midler), Ator Coadjuvante (Frederic Forrest), Montagem, Som

Vencedor de 3 Golden Globes: Melhor Atriz/Comédia ou Musical (Bette Midler), Canção ("The rose"), Estreia Feminina (Bette Midler)


Antes de consagrar-se nos anos 80 como humorista, em comédias como "Por favor, matem minha mulher" e "Cuidado com as gêmeas", Bette Midler foi levada muito a sério como intérprete dramática. Por sua atuação no drama musical "A rosa" ela recebeu um Golden Globe e foi indicada pela primeira vez ao Oscar de melhor atriz. Dirigida pelo mesmo Mark Rydell que em 1991 comandaria o fracasso de bilheteria "Para eles, com muito amor" - que lhe deu sua segunda indicação ao prêmio da Academia - "A rosa" é uma versão romanceada e bem disfarçada da vida da cantora Janis Joplin - ou pelo menos era pra ser assim na primeira versão do roteiro.

Quando Midler foi convidada para protagonizar o filme - uma condição imposta por Rydell - a trama ainda se chamava "The pearl" e era bastante baseada na vida desregrada e na morte de Joplin (falecida em 1970 de overdose de heroína). Acreditando que ainda era muito cedo para que a cantora tivesse um filme inspirado em sua vida, a atriz (ainda desconhecida do grande público e que cantava em bares) insistiu em que o roteiro fosse mudado. Aos poucos, a trama de "The pearl" transformou-se em "A rosa" e marcou o início do sucesso de Bette Midler em Hollywood.

Ela vive Mary Rose Foster, também conhecida como "a rosa", uma cantora de rock que não sabe lidar com o sucesso que faz. Explorada pelo empresário (Alan Bates), viciada em barbitúricos e carente ao extremo, ela tem como maior orgulho de sua vida ter saído da pequena cidade onde nasceu - e onde pretende encerrar a maior turné de sua carreira. Auto-destrutiva, agressiva e emocionalmente instável, ela vê a chance de voltar a ser feliz quando conhece o jovem Huston Dyer (Frederic Forrest), mas a sua própria personalidade bipolar ameaça afastá-la dele.

Apesar de não apresentar novidades ao gênero "biografia musical" (ainda que fictícia), o roteiro de "A rosa" tampouco deixa de oferecer o que se espera de um filme com suas pretensões. Os números musicais são extremamente eficientes (cortesia de uma inspirada fotografia de Vilmos Zsigmond) e os dramas existencias de sua protagonista, ainda que soem verossímeis, nunca chegam a incomodar o público médio - leia-se "nada de exageros nas cenas de uso de drogas nem muito menos na linguagem e nas cenas de sexo". Não deixa de ser um paradoxo um filme sobre uma roqueira que tenta fugir dos padrões seja tão quadrado, mas toda e qualquer frustração a respeito de sua censura quase livre fica bem menor ao testemunhar-se a performance de Midler.

Na pele da protagonista absoluta de "A rosa", Bette Midler justifica plenamente os prêmios que abocanhou na temporada 1979. Sua entrega à complexa personalidade de Rose é a melhor e mais arrebatadora surpresa do filme de Rydell. Tanto nas cenas mais dramáticas quanto nas performances musicais, Midler extravasa um talento inquestionável e seduz a audiência com um trabalho fabuloso que apenas comprova o seu talento hoje em dia relegado a um quase anonimato. Coisas de Hollywood!