Thursday, March 17, 2011

AS BRUXAS DE SALEM

AS BRUXAS DE SALEM (The crucible, 1996, 20th Century Fox, 124min) Direção: Nicholas Hytner. Roteiro: Arthur Miller, peça teatral homônima de Arthur Miller. Fotografia: Andrew Dunn. Montagem: Tariq Anwar. Música: George Fenton. Figurino: Bob Crowley. Direção de arte/cenários: Lily Kilvert/Gretchen Rau. Produção: Robert A. Miller, David V. Picker. Elenco: Daniel Day-Lewis, Winona Ryder, Joan Allen, Paul Scofield, Bruce Davison, Rob Campbell, Jeffrey Jones, Frances Conroy. Estreia: 27/11/96

2 indicações ao Oscar: Atriz Coadjuvante (Joan Allen), Roteiro Adaptado

Em 1953 os EUA estavam passando por um de seus períodos mais negros: fomentadas pelo famigerado senador Joseph McCarthy, denúncias a respeito de supostos atos comunistas cometidos pelos membros da indústria do cinema pipocavam por todo lado, destruindo carreiras importantes e minando amizades até então tidas como eternas. Qualquer mero ato considerado suspeito era o bastante para que artistas de talento inquestionável perdessem as oportunidades de trabalho - Elia Kazan, por exemplo, colaborou com o governo delatando inúmeros colegas, o que lhe custou o respeito que havia adquirido como cineasta (e ele tentou limpar a barra com o espetacular "Sindicato de ladrões"). Com uma dose admirável de oportunismo (no bom sentido), o dramaturgo Arthur Miller escreveu "As bruxas de Salem", uma de suas obras-primas. Ao contar a história da vingança de uma mulher abandonada, Miller usou-a como um disfarce para uma trama que, nem tão por debaixo dos panos assim, é na verdade uma história sobre a paranoia que tomou conta da capital do cinema.

Adaptada para o cinema em 1957 - em uma versão estrelada por Simone Signoret e falada em francês para fugir da censura norte-americana - a peça de Miller ganhou uma nova versão para as telas em 1996, adaptada por seu próprio autor e dirigida por Nicholas Hytner - que tinha em seu currículo o prestigiado "As loucuras do Rei George". Ao ter sua ação estendida para fora dos limites impostos por um palco, o texto teve a sorte de manter sua força original, contrariando a regra que faz com que adaptações teatrais mantenham seu ranço verborrágico e estático. Em sua vigorosa adaptação para as telas, "As bruxas de Salem" é um avassalador conto sobre o poder destruidor da mentira, e conta com atuações impressionantes de seus atores centrais.

Tudo começa quando o Reverendo Parris (Bruce Davison), pároco da pequena cidade de Salem, Massachussets, flagra sua sobrinha Abigail Williams (Winona Ryder) e outras adolescentes do lugar, dançando em volta de uma fogueira durante a noite. Para fugir de um castigo, Abigail inventa que estava possuída por um espírito demoníaco invocado por sua empregada oriunda de Barbados, Tituba (Charlayne Woodard). Aproveitando a onda de histeria que toma conta do lugar - quando atos inocentes são julgados como provas de bruxaria - ela convence até mesmo o rígido Juiz Thomas Danforth (Paul Scofield, sensacional em cada cena) de que a esposa de Proctor, Elizabeth (a impecável Joan Allen, indicada ao Oscar de coadjuvante) também está envolvida em atos anti-cristãos. Aos poucos, a cidade divide-se entre quem está do seu lado e aqueles que não acreditam em suas mentiras, mas fingir acaba sendo sua última alternativa para evitar a forca.


"As bruxas de Salem" lembra, em sua estrutura, a comédia "O alienista", escrita por Machado de Assis em 1882, onde um médico que chega a uma pequena cidade do interior acaba internando praticamente a população inteira, diagnosticados como loucos. Aqui, Miller dá ênfase à histeria que toma conta de pessoas até então pacatas no momento em que precisam lutar por suas vidas ou integridade física. Abigail Williams ilustra com perfeição a máxima de Nietzsche que diz que "o mundo não conhece fúria maior do que a de uma mulher abandonada". Interpretada visceralmente por Winona Ryder - certamente no melhor papel de sua carreira - Abby é uma jovem que toma consciência tardiamente das consequências de suas mentiras mas mesmo assim não desiste de mantê-las. Na peça original de Miller, a personagem tinha meros 12 anos de idade enquanto John Proctor era quase sexagenário - mudança providencial no roteiro cinematográfico para evitar menções à pedofilia. No filme de Hytner, Proctor é menos vil, quase heróico em sua tentativa de manter-se íntegro e ético mesmo quando vê sua vida desmoronar. E Elizabeth é uma vítima inocente do furacão provocado pela ex-amante do marido, em uma interpretação quase silenciosa de Joan Allen, demonstrando seu imenso talento.

"As bruxas de Salem" é uma metáfora poderosa sobre um dos momentos mais vergonhosos da história do cinema americano. Mas é, acima disso, um filme dotado de uma força própria e de uma inteligência ímpar. Um dos melhores filmes da safra 1996 de Hollywood, infelizmente esquecida pelo Oscar e ignorada pelo público. Merece ser descoberto!