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Thursday, March 24, 2011

O POVO CONTRA LARRY FLYNT

O POVO CONTRA LARRY FLYNT (The People vs. Larry Flynt, 1996, Columbia Pictures, 129min) Direção: Milos Forman. Roteiro: Larry Alexander, Scott Karaszewski. Fotografia: Phillippe Rousselot. Montagem: Christopher Tellefsen. Música: Thomas Newman. Figurino: Arianne Philipps, Theodor Pistek. Direção de arte/cenários: Patrizia Von Brandenstein/Maria A. Nay, Amy Wells. Produção: Michael Hausman, Oliver Stone, Janet Yang. Elenco: Woody Harrelson, Edward Norton, James Cromwell, Courtney Love, Brett Harrelson, Crispin Glover. Estreia: 25/12/96


2 indicações ao Oscar: Diretor (Milos Forman), Ator (Woody Harrelson)
Vencedor de Melhor Diretor (Milos Forman) no Festival de Berlim
Vencedor de 2 Golden Globes: Melhor Diretor (Milos Forman), Roteiro

Apesar de ter seu nome no título o verdadeiro protagonista de "O povo contra Larry Flynt" não é o editor da "Hustler", uma das revistas pornográficas mais populares dos EUA. Quem realmente é a personagem principal do filme do tcheco Milos Forman é uma entidade abstrata chamada "liberdade de expressão". É esse conceito, tão valorizado mas tão seriamente ameaçado até mesmo nas mais liberais democracias, o verdadeiro astro do filme que deu a Woody Harrelson sua primeira indicação ao Oscar. É o direito a essa tal liberdade, garantida na Constituição americana, o santo graal perseguido por Larry Flynt e seu advogado, o jovem Alan Isaacman. E é justamente por lutar por esse direito sagrado a todos que o filme do diretor de "Um estranho no ninho" conquista até mesmo a mais conservadora das plateias.

Até mesmo Oliver Stone, chegado que é em uma polêmica, declinou da ideia de dirigir "O povo contra Larry Flynt", preferindo manter-se no menos ostensivo papel de produtor. O explosivo material, escrito pela mesma dupla que deu a Tim Burton o belo roteiro de "Ed Wood", provocou controvérsia antes mesmo de estrear, tendo seu cartaz banido e severamente criticado: no criativo poster, o protagonista tinha o corpo em formato de Jesus crucificado, mas no corpo de uma mulher. Substituído por uma outra propaganda mais comportada, foi apenas o princípio de uma gritaria dos setores conservadores da pudica América do Norte, que não aceitavam de bom grado a ideia de ter um pornógrafo como herói de um filme. Escandalizados ou não, o fato é que os detratores de Larry Flynt não conseguiram ofuscar o brilho do resultado final. Dirigido com uma ironia deliciosa e interpretado por um excelente Woody Harrelson, "O povo contra Larry Flynt" é um dos melhores filmes de 1996 - e poderia muito bem ter ficado com uma vaga entre os indicados ao Oscar principal, já que tanto Harrelson quanto Milos Forman conseguiram ficar entre os finalistas em suas respectivas categorias.

"O povo contra Larry Flynt" começa mostrando a origem do império do protagonista, desde suas ambições infantis até a criação de um boletim (repleto de fotos de mulheres nuas) a ser distribuído aos frequentadores de seu bar de striptease chamado Hustler. Aos poucos, sentindo-se traído pela sutileza e pela delicadeza das fotos de sua rival "Playboy" transforma seu boletim em uma revista mensal, com um grande diferencial: nas páginas da "Hustler" os leitores não encontrariam matérias de interesse geral e sim uma boa e velha pornografia explícita. Chocando a ala conservadora dos EUA, Flynt torna-se figurinha fácil nos tribunais, acusado de incitar a pornografia e principalmente processado por difamação e danos morais pelo respeitável Reverendo Jerry Falwell (Richard Paul), vítima de uma de suas piadas de incrível mau-gosto. Quem o defende em seus julgamentos é seu jovem advogado, Alan Isaacman (Edward Norton), recém-formado e que, apesar de ter aversão às publicações do cliente, jamais deixa de estar ao seu lado.


O ritmo é uma das maiores qualidades em "O povo contra Larry Flynt". Mesmo quando o filme corre o risco de tornar-se repetitivo devido às idas e vindas do protagonista aos tribunais, o roteiro jamais cai na armadilha de deixar-se levar pelos fatos históricos puros e simples, além de presentear o público com um humor cruel extremamente engraçado. O Larry Flynt criado por Scott Alexander e Larry Karazsewski é um anti-herói absoluto, escória da sociedade, mas dotado de uma personalidade e um carisma inegáveis, além de um senso de humor irresistível. Nem mesmo depois de ficar paraplégico devido a um atentado contra sua vida - um evento nunca devidamente esclarecido - ele deixou-se levar pelo negativismo e a depressão, praticamente usando suas limitações como uma medalha de honra. Sua defesa ferrenha pela liberdade de expressão é também a defesa de um direito inalienável de qualquer cidadão. Como ele mesmo declara em determinado momento, "se a Primeira Emenda pode proteger a um lixo como eu, poderá proteger a todos vocês." É fascinante seu discurso quando compara a pornografia com a guerra e a violência e deixa na cabeça de todos a pergunta que jamais quer calar: o que é mais ofensivo, um corpo feminino ou uma criança morta???


Woody Harrelson tem, aqui, um dos ápices de sua carreira desigual. Elevando à máxima potência a promessa com que acenava desde seu Mickey Knox de "Assassinos por natureza", ele transcende sua personagem, transformando-se em Larry Flynt de forma arrebatadora. Ao acrescentar ao papel sua própria personalidade anárquica e controversa, Harrelson mereceu a indicação ao Oscar e não teria sido injusta sua vitória. Ele está tão bem que consegue ofuscar até mesmo ao ótimo Edward Norton, que não tem muito o que fazer como Isaacman a não ser pontuar com correção o show do colega de cena. Em compensação, não dá para acreditar em todos os prêmios arrebatados por Courtney Love. A roqueira - viúva de Kurt Cobain e então líder da banda Hole - recebeu elogios rasgados da crítica e chegou a vencer disputas importantes, como dos críticos de Nova York e Boston por sua atuação como Althea, a esposa e musa de Flynt, que morreu de AIDS depois de ter se viciado em morfina. Péssima e sem nenhum carisma, Love tem a seu favor apenas o visual bagaceiro que combina com a personagem, mas está longe de ser uma atriz de respeito. Não é exagero afirmar que seu trabalho é o único ponto fraco do filme...

As discussões suscitadas por "O povo contra Larry Flynt" são legítimas e relevantes, o que faz do filme de Milos Forman politicamente indispensável. Mas, acima de tudo, seu trabalho é cinema da mais alta qualidade. Forman está nitidamente à vontade contando a trajetória de Flynt, ecoando a busca de liberdade de seu mais famoso protagonista - o falso desequilibrado mental vivido por Jack Nicholson em "Um estranho no ninho". Fascinado por personagens que fogem do convencional, Forman mais uma vez brinda seu público com uma obra cuja importância ressonará por muito tempo. Cinema e política andando juntos sem panfletarismo barato! Genial!

Wednesday, March 23, 2011

EVITA

EVITA (Evita, 1996, Hollywood Pictures/Cinergi Pictures Entertainment/Dirty Hands Productions, 135min) Direção: Alan Parker. Roteiro: Alan Parker, Oliver Stone, musical homônimo de Tim Rice e Andrew Lloyd Webber. Fotografia: Darius Khondji. Montagem: Gerry Hambling. Figurino: Penny Rose. Direção de arte/cenários: Brian Morris/Philippe Turlure. Produção: Alan Parker, Robert Stigwood, Andrew G. Vajna. Elenco: Madonna, Antonio Banderas, Jonathan Pryce, Jimmy Nail. Estreia: 25/12/96

5 indicações ao Oscar: Fotografia, Montagem, Direção de Arte/Cenários, Canção ("You must love me"), Som
Vencedor do Oscar de Melhor Canção ("You must love me")
Vencedor de 3 Golden Globes: Melhor Comédia/Musical, Atriz Comédia/Musical (Madonna), Canção ("You must love me")

Praticamente vinte anos separam a estreia na Broadway do musical "Evita", de Andrew Lloyd Webber e Tim Rice do lançamento de sua adaptação cinematográfica, dirigida pelo inglês Alan Parker e estrelado pela diva pop Madonna. Nesse vácuo de quase duas décadas, a ópera-rock de Webber e Rice - que teve montagem até mesmo no Brasil - tornou-se parte do inconsciente coletivo e sua transição para as telas mostrou-se mais complicada do que parecia a princípio. A demora, porém, foi providencial. Com a defecção de Oliver Stone do projeto, também foram deixadas de lado Barbra Streisand, Liza Minnelli, Meryl Streep e Michelle Pfeiffer. Por melhores atrizes que todas elas sejam, ninguém conseguiria ser Evita tão bem quanto Madonna. Arrebatadora em cena, ela apaga da memória de todos seus fiascos anteriores. Levou o merecido Golden Globe de melhor atriz em comédia/musical e segura lindamente a barra de protagonizar um filme quase 100% cantado.


Madonna fala meras 140 palavras em "Evita". Antonio Banderas - na melhor atuação de sua carreira em Hollywood - fala ainda menos (cerca de 18). A música fala por eles e por Jonathan Pryce, o terceiro protagonista de uma ousada e cara produção filmada em Londres, Budapeste e Buenos Aires e que despertou polêmica antes mesmo de ter sua primeira cena rodada: logicamente os argentinos, que veem Eva Perón como quase uma santa não gostaram nem um pouco de vê-la interpretada por Madonna, cuja imagem pública cabe em qualquer definição exceto às relacionadas a qualquer tipo de santidade. Furiosos com a produção do filme, eles chegaram a lançar a sua versão da história, estrelada por Esther Goris, que de certa forma complementa a visão artística e quase onírica de Rice e Lloys Webber, dirigida por maestria por um Alan Parker acostumado a musicais - afinal, foi ele quem assinou "Fama", "Pink Floyd - The Wall" e "The Commitments, loucos pela fama".


A escolha de Parker para comandar "Evita" foi um golpe de mestre. Inteligente e irônico, o cineasta imprime um ritmo espetacular a um roteiro que, em mãos menos hábeis, poderia se tornar um exercício enfadonho de paciência. Editado com precisão por seu colaborador habitual, Gerry Hambling e fotografado brilhantemente pelo iraniano Darius Khondji, "Evita" é tecnicamente impecável, repleto de toda a pompa e circunstância que exige. A impressionante sequência que mostra o funeral da primeira-dama mais amada da história da Argentina é de encher os olhos e basta uma olhada nas fotos do real evento para que se perceba o cuidado da direção de arte em reconstituir com detalhes toda a trajetória da protagonista. Àqueles que reclamaram da superficialidade do roteiro, é preciso lembrar que trata-se de um musical hollywoodiano baseado em um espetáculo da Broadway, ou seja, longe de ser um documentário com objetivos maiores do que entreter e encantar visualmente.


E visualmente "Evita" é um deslumbre. Não há uma única cena em que Alan Parker não tenha impresso seu extremo bom-gosto. Madonna troca de roupa 85 vezes em cena - batendo o recorde de Elizabeth Taylor em "Cleópatra" - e se entrega de corpo e alma à personagem, mesmo tendo que, em certos momentos, esconder a barriguinha de grávida. A estrela maior da música pop canta, dança e representa como se de sua atuação dependesse toda sua carreira - e a julgar pela carta desesperada que escreveu ao diretor implorando pelo papel, de certa forma considerava sua escalação para o filme como seu ápice. Seria injusto dizer que ela não atingiu seu objetivo de conquistar o respeito da crítica e da indústria, ainda que o tenha perdido pouco depois com mais escolhas equivocadas que acrescentou a seu currículo. Mesmo assim, é impossível dissociar, ao final do filme, a imagem de Madonna da imagem de Eva Perón.


Mas, como canta a personagem de Antonio Banderas no início do filme, quem é essa Santa Evita? O musical criado por Lloyd Webber e Tim Rice tenta responder essa questão da maneira mais lírica possível. A sequência inicial mostra a comoção argentina com a morte de sua "líder espiritual". A partir daí, a trama volta no tempo para apresentar a trajetória de uma menina bastarda que chegou ao cargo de primeira-dama da Argentina em uma época de grave crise econômica e de baixa auto-estima do país. O filme conta sua história de amor com o político Juan Peron (Jonathan Pryce, bastante eficiente), sua batalha contra a classe dominante (o que lhe causou grandes problemas de aceitação junto ao high society) e seu trágico final, vítima de um câncer que lhe tirou a vida aos 33 anos de idade. Tudo é narrado através do ponto de vista de um integrante da classe popular, vivido por um surpreendentemente capaz Antonio Banderas - e que, apesar do nome, não tem nenhuma relação com o revolucionário Che Guevara, como foi dito à época. Através de seus olhos, a ironia de toda a trama tem lugar sem nunca prejudicar seu desenvolvimento. E vale lembrar que em seu documentário "Na cama com Madonna", a cantora declarou ter grande interesse sexual no ator... uma fofoquinha de bastidor que dá um gosto ainda mais saboroso ao filme...


Enfim, "Evita", falem o que quiserem, é um grande filme. É dirigido com brilho, interpretado com garra e tem um ritmo invejável, onde as canções, ao invés de atrapalhar a ação, a empurram adiante. Uma obra-prima do gênero e o único trabalho de Madonna em que ela pode realmente ser chamada de atriz.


PS - Aproveito o momento para afirmar minha tristeza com a morte de Elizabeth Taylor, a última diva dos áureos tempos do cinema. É clichê dizer isso, mas sua obra sobreviverá junto àqueles que amam o cinema de qualidade.

Tuesday, March 22, 2011

UM DIA ESPECIAL

UM DIA ESPECIAL (One fine day, 1996, Fox 2000 Pictures/20th Century Fox, 108min) Direção: Michael Hoffman. Roteiro: Terrel Seltzer, Ellen Simon. Fotografia: Oliver Stapleton. Montagem: Garth Craven. Música: James Newton Howard. Figurino: Susie DeSanto. Direção de arte/cenários: David Gropman/Anne Kuljian. Produção executiva: Kate Guinzburg, Michelle Pfeiffer. Produção: Lynda Obst. Elenco: Michelle Pfeiffer, George Clooney, Mae Whitman, Alex D. Linz, Charles Durning, Amanda Peet, Ellen Greene. Estreia: 20/12/96

Indicado ao Oscar de Melhor Canção ("For the first time")

Em 1996, o ator George Clooney estava começando sua escalada rumo ao sucesso no cinema. Na TV ele já era ídolo: sua participação como Doug Ross, o pediatra don juan da série "Plantão médico" o colocava como símbolo sexual inquestionável entre o público feminino, que suspirava todas as semanas frente ao aparelho de televisão. Em sua ambição de tornar-se também um astro de cinema, nada mais natural do que não mexer em time que está ganhando. Depois de experimentar um pouco de ousadia com sua estreia nas telas - o terror "Um drink no inferno", roteirizado por Quentin Tarantino e dirigido por Robert Rodriguez - Clooney presenteou as fãs com "Um dia especial", uma comédia romântica que pode ser definida por todos os adjetivos que filmes do gênero comportam: agradável, engraçadinha, fofa... e previsível.

Não que o público que tenha ido acorrido aos cinemas para ver George Clooney seja muito exigente - e foi um público razoável, a julgar pela bilheteria bem razoável de quase 50 milhões de dólares. Mas o fato é que, apesar de não apresentar nenhuma novidade, "Um dia especial" serviu perfeitamente aos objetivos do ator, que, ao lado de uma inspirada Michelle Pfeiffer - também produtora executiva - conquista a plateia sem precisar fazer muito esforço. E são os dois, belos e talentosos, que fazem com que o filme de Michael Hoffman seja um entretenimento inofensivo e divertido. Fotografado com capricho pelo veterano Oliver Stapleton, "Um dia especial" não é inesquecível, mas tem um charme que o diferencia de muitos outros exemplares do gênero.


Michelle Pfeiffer, linda como sempre e com um timing cômico na medida certa, vive Melanie Parker, uma arquiteta que divide seu tempo entre tentar uma promoção profissional e cuidar de Sammy (Alex D. Linz), seu filho com um músico itinerante que aparece apenas de vez em quando na vida do filho. Clooney interpreta Jack Taylor, conhecido jornalista que, além de procurar furos de reportagem, tenta provar à ex-mulher que sabe cuidar da filha pequena, Maggie (Mae Whitman). Justamente no dia em que Melanie tem uma apresentação importantíssima que pode lhe dar a sonhada promoção e Jack precisa comprovar os fatos de uma polêmica reportagem cujas consequências podem lhe tirar o emprego, seus filhos perdem o passeio de barco da escola e os dois adultos - de personalidades opostas e que nutrem uma antipatia à primeira vista em relação um ao outro - são obrigados a criar uma forma de resolver a situação e, é claro, acabam o dia apaixonados.

E é só isso. Com esse fiapo de história, Hoffman mantém a atenção da plateia usando a abusando dos clichês que fazem a glória das comédias românticas sem, no entanto, incomodar ou aborrecer. O ritmo mantido pelo cinesta combina com a bela trilha sonora de James Newton Howard e com a coloração de uma Nova York chuvosa em dias de uma beleza rara. As personagens secundárias não roubam a atenção da dupla central, surgindo em cena apenas quando o necessário para o desenvolvimento da trama - e são interpretados por gente boa, como o veterano Charles Durning e a bela Amanda Peet. Michael Hoffman concentra o foco de seu filme totalmente em Pfeiffer e Clooney, e acerta em fugir das tramas paralelas. A química entre o ótimo casal de protagonistas e as crianças que interpretam seus filhos é outro ponto alto do filme, uma sessão da tarde das mais encantadoras.

Logicamente o futuro de Clooney no cinema preparava voos maiores - inclusive uma carreira de diretor e um Oscar de coadjuvante - mas é impossível negar que "Um dia especial" jamais será uma mancha em seu currículo. Afinal, é um filme, como dito anteriormente, agradável, encantador e fofo. E tem Michelle Pfeiffer no elenco!

Monday, March 21, 2011

JERRY MAGUIRE, A GRANDE VIRADA

JERRY MAGUIRE, A GRANDE VIRADA (Jerry Maguire, 1996, TriStar Pictures, 139min) Direção e roteiro: Cameron Crowe. Fotografia: Janusz Kaminski. Montagem: Joe Hutsching. Figurino: Betsy Heinman. Direção de arte/cenários: Stephen Lineweaver/Clay A. Griffith. Produção executiva: Bridget Johnson. Produção: James L. Brooks, Cameron Crowe, Laurence Mark, Richard Sakai. Elenco: Tom Cruise, Cuba Gooding Jr., Renee Zelwegger, Kelly Preston, Bonnie Hunt, Regina King, Jonathan Lipnicki, Beau Bridges, Jay Mohr, Jerry O'Connell, Todd Louiso. Estreia: 13/12/96

5 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Ator (Tom Cruise), Ator Coadjuvante (Cuba Gooding Jr.), Roteiro Original, Montagem
Vencedor do Oscar de Ator Coadjuvante (Cuba Gooding Jr.)
Vencedor do Golden Globe de Melhor Ator Comédia/Musical (Tom Cruise)
Vencedor do Screen Actors Guild Award de Ator Coadjuvante (Cuba Gooding Jr.)

Estivesse Frank Capra vivo e em atividade em 1996 certamente ele assinaria com prazer a comédia romântica "Jerry Maguire, a grande virada". Repleto do otimismo e do humanismo que eram suas marcas registradas, o filme escrito e dirigido por Cameron Crowe nadou contra a corrente dos filmes encharcados de cinismo da década de 90 ao contar uma história de amor e redenção com um protagonista que caberia facilmente no currículo de James Stewart. Não à toa, Tom Hanks - a encarnação atual do ator preferido de Capra - foi cotado para o papel de Maguire, um agente esportivo que, depois de uma crise de consciência, toma contato com uma nova forma de enxergar a vida e os relacionamentos. Quinto filme consecutivo de Tom Cruise a ultrapassar a marca de cem milhões de dólares de arrecadação, provou, além disso, que o galã preferido da época também sabia atuar longe dos filmes de guerra e dos dramas de tribunal: o então ainda marido de Nicole Kidman arrebatou sua segunda indicação ao Oscar.


O Jerry Maguire do título é um bem-sucedido agente de esportistas, que mede seu sucesso pelo número de telefonemas que atende diariamente e pelos contratos milionários que assina para seus clientes. Um belo dia, sentindo-se culpado e ganancioso, ele escreve uma declaração de metas onde sugere que todos os seus colegas (ele inclusive) passem a dedicar-se a menos clientes, dando-lhes a devida atenção. Aplaudido pela frente e criticado pelas costas (afinal sua ideia significa menos dinheiro à empresa onde trabalha), ele é demitido por Bob Sugar (Jay Mohr), que o tinha como mentor. Não se deixando desesperançar, ele conta com a ajuda da contadora Dorothy Boyd (René Zelwegger) para recomeçar do zero, Mãe solteira e apaixonada por Jerry, Dorothy entra de cabeça na nova agência do rapaz, que conta com apenas um cliente, o falastrão e encrenqueiro Rod Tidwell (Cuba Gooding Jr.), que tem talento tanto para jogar futebol quanto para reclamar de seus péssimos contratos.


"Jerry Maguire" é delicioso. Tem um roteiro impecável, recheado de diálogos brilhantes por sua simplicidade e verdade. Tem uma trilha sonora agradável que inclui Paul McCartney, Tom Petty e Bruce Springsteen - cuja belíssima "Secret garden" embala o romance central de maneira comovente. E conta com um elenco que, apesar de não ser formado de primeiras escolhas, não só dá conta do recado como conquista a audiência desde seus primeiros momentos. Para o papel título, nomes como os de Tom Hanks e John Travolta foram sondados. Para interpretar Rod Tidwell foi testado Jamie Foxx. Para o papel de Avery, a ambiciosa noiva do protagonista (vivida por Kelly Preston) foram pensadas Diane Lane, Jennifer Connely e Meg Ryan. E para o papel da romântica Dorothy Boyd, o diretor Cameron Crowe considerou atrizes que iam de Winona Ryder e Mira Sorvino a Janeane Garofalo a Courtney Love. Sorte da texana Rene Zelwegger, que não apenas conquistou o papel mas também o coração da audiência, com uma atuação doce e engraçada.


A química entre Cruise e Zelwegger, aliás, é outro ponto alto do filme. Dificilmente a história de amor entre Jerry e Dorothy emocionaria tanto o público se outros atores estivessem em seus lugares. Se Cruise até exagera em certos momentos - não a ponto de incomodar, mas o suficiente para ser notado - a quase novata Zelwegger está absolutamente impecável com sua estóica contadora: suas cenas com Bonnie Hunt (como sua irmã Laurel) e com o pequeno Jonathan Lipnicki (na pele do encantador Ray) são dotadas de uma veracidade delicada e tocante. Transitando entre o dramático e o cômico com segurança ímpar, a futura Bridget Jones apresenta uma das melhores interpretações de sua carreira. Merecia muito mais o Oscar de coadjuvante feminina do que Cuba Gooding Jr. merecia o de masculino. Gooding Jr. - que saiu vitorioso no ano em que Edward Norton causou impacto com sua estreia em "As duas faces de um crime" - tem uma atuação histérica e bastante irritante, que destoa da sutileza do restante do elenco. E é de se imaginar como seria se Billy Wilder (ele mesmo, o diretor de "Quanto mais quente melhor") tivesse aceito interpretar o mentor de Maguire, cujas inserções durante o filme dão o tom e a "moral" da história.


Em última análise, "Jerry Maguire" é uma pequena obra-prima de seu gênero. Romântico sem ser bobo, engraçado sem ser pateta e com uma certa dose de ingenuidade e otimismo que sempre faz bem ao coração, é também o filme que revelou Rene Zelwegger ao grande público. Imperdível para quem ainda acredita no ser humano!

Friday, March 18, 2011

TODOS DIZEM EU TE AMO

TODOS DIZEM EU TE AMO (Everyone says I love you, 1996, Miramax Films/Buena Vista Pictures/Magnolia Productions, 101min) Direção e roteiro: Woody Allen. Fotografia: Carlo DiPalmo. Montagem: Susan E. Morse. Música: Dick Hyman. Figurino: Jeffrey Kurland. Direção de arte/cenários: Santo Loquasto/Elaine O'Donnell. Produção executiva: J.E. Beaucaire, Jean Doumanian. Produção: Robert Greenhut. Elenco: Woody Allen, Julia Roberts, Goldie Hawn, Alan Alda, Drew Barrymore, Edward Norton, Tim Roth, Natasha Lyonne, Lukas Haas, Natalie Portman, Billy Crudup, Gabby Hoffman. Estreia: 06/12/96

Imaginar um musical dirigido por Woody Allen pode parecer tão difícil quanto visualizar um filme de terror comandado por John Ford. Mas é exatamente isso que "Todos dizem eu te amo" é. Ao homenagear suas três cidades preferidas (Nova York, Paris e Veneza), Allen construiu uma deliciosa comédia musical, onde suas personagens cantam e dançam do nada - da mesma forma que ocorria nos clássicos do gênero - enquanto vivem suas histórias de amor, narradas no mesmo tom sarcástico e sofisticado de suas obras anteriores, que o colocaram na posição privilegiada de ser um dos mais autorais cineastas norte-americanos.

A bem da verdade, o único fator que diferencia "Todos dizem eu te amo" do resto da filmografia de Allen é sua opção em utilizar algumas clássicas canções populares dos EUA em diálogos - mas por "populares" entenda-se conhecidos dentro de um restrito nicho de eruditismo que de certa forma o afasta de um sucesso mais amplo junto ao público. As músicas entoadas pelos atores escolhidos pelo diretor - que mais uma vez utiliza-se de um elenco à prova de qualquer crítica - são pérolas do cancioneiro americano, com obras de Cole Porter e Rodgers & Hart, entre outros menos famosos. E são cantadas sem preocupações em encantar os ouvidos da audiência. A proposta de Allen é justamente o oposto dos musicais tradicionais: seus atores não treinaram a voz e só souberam que estavam escalados para um musical depois de ter o contrato assinado. Dessa forma, nomes como Edward Norton, Goldie Hawn e Julia Roberts entoam desajeitadamente suas dores de amor sem maiores enfeites de pós-produção (apenas Drew Barrymore salvou-se do drama, convencendo o diretor que não tinha a menor condição de cantar...) E, por incrível que pareça, justamente essa canhestra opção é que diverte o público.


A trama do filme segue o estilo Woody Allen de sempre: Steffi (Goldie Hawn) e Bob Dandridge (Alan Alda) formam um bem-sucedido casal que vive em um amplo apartamento muitíssimo bem localizado em Nova York. Sua numerosa família passa por problemas amorosos, narrados por DJ (Natasha Lyonne), filha de Steffi com seu ex-marido Joe Berlin (Woody Allen), que mora em Paris. A filha mais velha de Bob, Skylar (Drew Barrymore), acaba de ficar noiva do mauricinho Holden Spencer (Edward Norton), mas começa a ter dúvidas a respeito do relacionamento quando conhece Charles Ferry (Tim Roth), um ex-presidiário protegido por Steffi. Enquanto isso, Joe, durante uma viagem à Veneza com DJ, se encanta por Von (Julia Roberts), uma americana de cujos desejos e aspirações ele tem conhecimento através dos atos de espionagem da filha.

Com uma fotografia carinhosa que abraça com paixão as cidades escolhidas pelo cineasta, "Todos dizem eu te amo" é uma declaração de amor ao ato de estar-se apaixonado. As histórias românticas contadas pelo roteiro simples de Allen tem em comum a luta das personagens por sua felicidade, mesmo que para isso tenham que quebrar a cara constantemente. Apesar de alguns diálogos bastante espertos, dessa vez Woody não capricha no enredo, preferindo dedicar sua atenção aos números musicais agradáveis e ágeis - além de divertidamente próximos da realidade. Mesmo assim, a fantasia toma conta quando o fantasma do patriarca da família Dandridge une-se a outros espectros para cantar um hino à vida e Goldie Hawn flutua no ar durante um número de dança em Paris. Para os detratores de Allen, que o consideram maçante, é um prato cheio. Para os fãs, que admiram seu bom-gosto e delicadeza, é uma festa para os olhos.

"Todos dizem eu te amo" é um típico filme de Woody Allen, ainda que, paradoxalmente, seja diferente de todos os demais. Não recomendável para iniciantes na obra do cineasta, é, no entanto, um oásis de criatividade diante da falta de originalidade do cinema americano. E não é sempre que vemos Edward Norton cantando e dançando "My baby just cares for me" em uma joalheria....

Thursday, March 17, 2011

AS BRUXAS DE SALEM

AS BRUXAS DE SALEM (The crucible, 1996, 20th Century Fox, 124min) Direção: Nicholas Hytner. Roteiro: Arthur Miller, peça teatral homônima de Arthur Miller. Fotografia: Andrew Dunn. Montagem: Tariq Anwar. Música: George Fenton. Figurino: Bob Crowley. Direção de arte/cenários: Lily Kilvert/Gretchen Rau. Produção: Robert A. Miller, David V. Picker. Elenco: Daniel Day-Lewis, Winona Ryder, Joan Allen, Paul Scofield, Bruce Davison, Rob Campbell, Jeffrey Jones, Frances Conroy. Estreia: 27/11/96

2 indicações ao Oscar: Atriz Coadjuvante (Joan Allen), Roteiro Adaptado

Em 1953 os EUA estavam passando por um de seus períodos mais negros: fomentadas pelo famigerado senador Joseph McCarthy, denúncias a respeito de supostos atos comunistas cometidos pelos membros da indústria do cinema pipocavam por todo lado, destruindo carreiras importantes e minando amizades até então tidas como eternas. Qualquer mero ato considerado suspeito era o bastante para que artistas de talento inquestionável perdessem as oportunidades de trabalho - Elia Kazan, por exemplo, colaborou com o governo delatando inúmeros colegas, o que lhe custou o respeito que havia adquirido como cineasta (e ele tentou limpar a barra com o espetacular "Sindicato de ladrões"). Com uma dose admirável de oportunismo (no bom sentido), o dramaturgo Arthur Miller escreveu "As bruxas de Salem", uma de suas obras-primas. Ao contar a história da vingança de uma mulher abandonada, Miller usou-a como um disfarce para uma trama que, nem tão por debaixo dos panos assim, é na verdade uma história sobre a paranoia que tomou conta da capital do cinema.

Adaptada para o cinema em 1957 - em uma versão estrelada por Simone Signoret e falada em francês para fugir da censura norte-americana - a peça de Miller ganhou uma nova versão para as telas em 1996, adaptada por seu próprio autor e dirigida por Nicholas Hytner - que tinha em seu currículo o prestigiado "As loucuras do Rei George". Ao ter sua ação estendida para fora dos limites impostos por um palco, o texto teve a sorte de manter sua força original, contrariando a regra que faz com que adaptações teatrais mantenham seu ranço verborrágico e estático. Em sua vigorosa adaptação para as telas, "As bruxas de Salem" é um avassalador conto sobre o poder destruidor da mentira, e conta com atuações impressionantes de seus atores centrais.

Tudo começa quando o Reverendo Parris (Bruce Davison), pároco da pequena cidade de Salem, Massachussets, flagra sua sobrinha Abigail Williams (Winona Ryder) e outras adolescentes do lugar, dançando em volta de uma fogueira durante a noite. Para fugir de um castigo, Abigail inventa que estava possuída por um espírito demoníaco invocado por sua empregada oriunda de Barbados, Tituba (Charlayne Woodard). Aproveitando a onda de histeria que toma conta do lugar - quando atos inocentes são julgados como provas de bruxaria - ela convence até mesmo o rígido Juiz Thomas Danforth (Paul Scofield, sensacional em cada cena) de que a esposa de Proctor, Elizabeth (a impecável Joan Allen, indicada ao Oscar de coadjuvante) também está envolvida em atos anti-cristãos. Aos poucos, a cidade divide-se entre quem está do seu lado e aqueles que não acreditam em suas mentiras, mas fingir acaba sendo sua última alternativa para evitar a forca.


"As bruxas de Salem" lembra, em sua estrutura, a comédia "O alienista", escrita por Machado de Assis em 1882, onde um médico que chega a uma pequena cidade do interior acaba internando praticamente a população inteira, diagnosticados como loucos. Aqui, Miller dá ênfase à histeria que toma conta de pessoas até então pacatas no momento em que precisam lutar por suas vidas ou integridade física. Abigail Williams ilustra com perfeição a máxima de Nietzsche que diz que "o mundo não conhece fúria maior do que a de uma mulher abandonada". Interpretada visceralmente por Winona Ryder - certamente no melhor papel de sua carreira - Abby é uma jovem que toma consciência tardiamente das consequências de suas mentiras mas mesmo assim não desiste de mantê-las. Na peça original de Miller, a personagem tinha meros 12 anos de idade enquanto John Proctor era quase sexagenário - mudança providencial no roteiro cinematográfico para evitar menções à pedofilia. No filme de Hytner, Proctor é menos vil, quase heróico em sua tentativa de manter-se íntegro e ético mesmo quando vê sua vida desmoronar. E Elizabeth é uma vítima inocente do furacão provocado pela ex-amante do marido, em uma interpretação quase silenciosa de Joan Allen, demonstrando seu imenso talento.

"As bruxas de Salem" é uma metáfora poderosa sobre um dos momentos mais vergonhosos da história do cinema americano. Mas é, acima disso, um filme dotado de uma força própria e de uma inteligência ímpar. Um dos melhores filmes da safra 1996 de Hollywood, infelizmente esquecida pelo Oscar e ignorada pelo público. Merece ser descoberto!

Wednesday, March 16, 2011

O PACIENTE INGLÊS

O PACIENTE INGLÊS (The English patient, 1996, Miramax Films, 162min) Direção: Anthony Minghella. Roteiro: Anthony Minghella, romance de Michael Ondaatje. Fotografia: John Seale. Montagem: Walter Murch. Música: Gabriel Yared. Figurino: Ann Roth. Direção de arte/cenários: Stuart Craig/Aurelio Crugnola, Stephenie McMillan. Produção executiva: Scott Greenstein, Bob Weinstein, Harvey Weinstein. Produção: Saul Zaentz. Elenco: Ralph Fiennes, Kristin Scott-Thomas, Juliette Binoche, Willem Dafoe, Colin Firth, Naveen Andrews, Jurgen Prochnow. Estreia: 06/11/96

12 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Anthony Minghella), Ator (Ralph Fiennes), Atriz (Kristin Scott-Thomas), Atriz Coadjuvante (Juliette Binoche), Roteiro Adaptado, Fotografia, Montagem, Trilha Sonora Original/Drama, Figurino, Direção de arte/cenários, Som
Vencedor de 9 Oscar: Melhor Filme, Diretor (Anthony Minghella), Atriz Coadjuvante (Juliette Binoche), Fotografia, Montagem, Trilha Sonora Original/Drama, Figurino, Direção de arte/cenários
Vencedor de 2 Golden Globes: Melhor Filme/Drama, Trilha Sonora Original
Festival de Berlim: Melhor Atriz (Juliette Binoche)

Em 1962, o inglês David Lean viu seu épico histórico "Lawrence da Arábia" sair da cerimônia de entrega do Oscar com sete estatuetas, incluindo as principais - Melhor Filme e Direção. Trinta e quatro anos depois, outro cineasta da terra da rainha promoveu um arrastão na festa da Academia, acumulando nove prêmios (e mais uma vez, entre eles, os de filme e direção). Ao contrário da obra-prima de Lean, no entanto, que narrava a trajetória de um dos mais controversos líderes militares britânicos, o filme de Anthony Minghella concentra-se em uma devastadora história de amor que utiliza a II Guerra Mundial como mero pano de fundo. "O paciente inglês", baseado em um livro considerado infilmável de Michael Ondaatje, é um poderoso drama romântico que não deixou chance para os demais indicados de 1996. E, apesar de muita gente torcer o nariz para suas pretensões épicas - e sua receita para ganhar Oscar - é um filme que mereceu todo o auê que causou.

De produção complicada - inicialmente financiado pelos estúdios Fox e depois encampado pela Miramax e pelo produtor Saul Zaentz - "O paciente inglês" é um filme que foge dos tradicionais romances hollywoodianos ao exigir de seu público um pouco mais de atenção e dedicação do que o normal. Não apenas é mais longo do que o corriqueiro (tem mais de duas horas e meia de duração) mas também tem um ritmo próprio e delicado, além de ser narrado de forma não-linear, o que muitas vezes afugenta à plateia cuja única intenção é ocupar-se em duas horas de entretenimento fácil. No fim das contas, porém, é um romance tipicamente hollywoodiano com um verniz europeu, o que provavelmente ajudou a encantar os eleitores da Academia - e todo o público que fez com que fechasse suas contas no mercado americano com quase 80 milhões de dólares de arrecadação, um sucesso inquestionável, principalmente se levarmos em conta que não tem, em seu elenco, nenhum grande nome da época - a Fox, por exemplo, insistia em Demi Moore no principal papel feminino, desejo esse que, para sorte de todos os envolvidos, nunca foi levado a sério por ninguém.

O filme começa em 1944, na Itália, quando a jovem enfermeira canadense Hana (Juliette Binoche), depois da morte do namorado soldado e de uma de suas colegas de profissão, resolve isolar-se em um castelo abandonado ao lado de seu paciente, um homem desfigurado por queimaduras e que não tem lembrança de seus dias passados. Tido como de nacionalidade inglesa desde que foi resgatado dos destroços de um avião, ele na verdade é um conde húingaro e se chama Almasy (Ralph Fiennes). Enquanto cuida de seu desmemoriado paciente, Hana lida com seus sentimentos em relação a Kip (Naveen Andrews, que anos depois faria sucesso com a série "Lost"), um indiano cuja função é desarmar bombas deixadas pelos inimigos. Se auto-considerando destinada a perder a todos que ama, Hana ainda aceita hospedar em sua villa o misterioso Caravaggio (Willem Dafoe), que tem as respostas sobre a vida pregressa do "paciente inglês". Almasy, na verdade, tem uma trágica história de amor no passado: apaixonado perdidamente por Katharine Clifton (Kristin-Scott Thomas), uma mulher casada, ele envolveu-se, por causa dela, em um jogo de intrigas e mal-entendidos que culminou com sua desoladora morte.


Contado em forma de flashbacks que em seu final, monta todo um quebra-cabeças melancólico e desesperado, "O paciente inglês" tem a seu favor o talento de seu diretor Anthony Minghella em criar sequências de invulgar beleza: em vários momentos sua câmera deixa a plateia com a respiração suspensa, tamanha sua sensibilidade. É assim com a cena em que Kip mostra os desenhos de uma igreja abandonada à Hana ou na belíssima sequência inicial em que o deserto do Saara parece ter as formas de um corpo feminino graças ao ângulo com que o diretor de fotografia John Seale posiciona a câmera. É notável o carinho com que Minghella trata seus atores, entregando a eles cenas fortes e diálogos memoráveis (não foi à toa que seus três protagonistas foram indicados ao Oscar, e Juliette Binoche, excepcional, levou a estatueta pra casa, ainda que de coadjuvante ela não tenha nada...)

O tempo fez bem a "O paciente inglês". Na época de seu lançamento, foi considerado por alguns críticos como um filme "frio" e "sem alma". Hoje, à luz do tempo, pode-se perceber melhor suas qualidades: a bela trilha sonora de Gabriel Yared, a fotografia deslumbrante de John Seale, o roteiro complexo mas repleto de sinceridade, e as atuações extremamente emocionais de seu elenco. Ralph Fiennes abandona o ar psicótico de seu nazista de "A lista de Schindler" para assumir de vez seu papel de herói romântico; Juliette Binoche rouba todas as cenas em que aparece, com uma expressividade arrasadora; e Kristin Scott-Thomas mostra que, por debaixo da frieza britânica mostrada em "Lua de fel" e "Quatro casamentos e um funeral", há um vulcão de sensualidade e passionalidade. Também não atrapalha em nada ter em seu elenco coadjuvante nomes como os de Colin Firth e Willem Dafoe, que dão o tom exato em suas interpretações.

"O paciente inglês" não tinha, em seu ano, nenhum concorrente digno de estragar seus planos de vitória: disputou o prêmio com o simpático "Jerry Maguire", o irônico "Fargo", o chatíssimo "Segredos e mentiras" e o super-apreciado "Shine". Mas o fato de não ter reais rivais em seu caminho não tira sua glória: é um filme que mereceu os prêmios que ganhou e que vai permanecer na memória do público como um dos mais belos romances da história do cinema.

Tuesday, March 15, 2011

O ESPELHO TEM DUAS FACES

O ESPELHO TEM DUAS FACES (The mirror has two faces, 1996, TriStar Pictures, 126min) Direção: Barbra Streisand. Roteiro: Richard LaGravenese, roteiro original de "Le miroir a deux faces", de André Cayatte, Gérard Oury. Fotografia: Andrzej Bartkowiak, Dante Spinotti. Montagem: Jeff Werner. Música: Marvin Hamlisch. Figurino: Theoni V. Aldredge. Direção de arte/cenários: Tom John/John Alan Hicks. Produção executiva: Cis Corman. Produção: Arnon Milchan, Barbra Streisand. Elenco: Barbra Streisand, Jeff Bridges, Lauren Bacall, Pierce Brosnan, Mimi Rogers, George Segal, Brenda Vaccaro, Elle Macpherson. Estreia: 16/11/96

2 indicações ao Oscar: Atriz Coadjuvante (Lauren Bacall), Canção Original ("I finally found someone")
Vencedor do Golden Globe de Atriz Coadjuvante (Lauren Bacall)
Vencedor do Screen Actor Guild Award de Atriz Coadjuvante (Lauren Bacall)

Todo mundo em Hollywood - e até mesmo muita gente fora de lá - sabe que Barbra Streisand não é uma pessoa exatamente fácil de lidar. Histórias a respeito de seu egocentrismo e de seu perfeccionismo não faltam a quem teve a oportunidade de trabalhar com ela (e até mesmo seu ex-marido e pai de seu filho, o ator Elliot Gould, quando indagado a respeito do pior emprego que tivera respondeu prontamente: "fui casado com Barbra Streisand!"). Em 1996, o diretor de fotografia Dante Spinotti foi mais uma vítima da atriz/cantora/diretora/produtora: em meio às filmagens de "O espelho tem duas faces", foi demitido (devido às famosas divergências artísticas) e substituído por Andrzej Bartkowiak, assim como já havia acontecido com o ator Dudley Moore, que perdeu seu lugar no elenco para George Segal.

Levando em consideração toda essa dança das cadeiras, é de admirar que "O espelho tem duas faces" funcione tão bem. Apesar de não ser nem de longe o melhor momento das carreiras de Streisand e seu galã Jeff Bridges, é uma comédia romântica que tem na inteligência seu maior trunfo e que, nadando contra a corrente da eterna obsessão de Hollywood pela juventude eterna, aposta em um casal de protagonistas maduros, interpretados por atores de verdade e não por símbolos sexuais inexpressivos. Bridges - que ficou com o papel para o qual Harrison Ford foi pensado - e Barbra Streisand, segundo reza a lenda desmentida por eles mesmos, tiveram rusgas nos bastidores, mas isso não transparece no resultado final. O filme seguinte de Streisand após sua tentativa frustrada de ganhar um Oscar como diretora - o drama "O príncipe das marés" - é engraçado, romântico e dono de brilhantes diálogos. E isso é mais do que é oferecido normalmente aos fiéis fãs do gênero.

Gregory Larkin (Jeff Bridges exercitando seu timing cômico com razoável sucesso) é um professor de Matemática que, a despeito de seu charme junto às mulheres, passou por repetidas frustrações amorosas. Buscando uma companhia feminina que não atrapalhe o funcionamento de sua rígida rotina (ou seja, uma mulher sem atrativos sexuais que o desviem de seus objetivos profissionais), ele publica um anúncio em uma revista. Quem responde o anúncio é Claire Morgan (Mimi Rogers), que acredita que Larkin é o par perfeito para sua irmã mais velha, Rose (Barbra Streisand exagerando um tantinho em sua performance). Dona de uma baixíssima auto-estima - principalmente devido às críticas de sua mãe Hannah (Lauren Bacall), uma ex-beldade - Rose dá aulas de Literatura na Universidade de Columbia e seu discurso sobre as falsas esperanças criadas em relação ao amor romântico convence Larkin de que é ela quem ele procura. Depois de um tempo como amigos, eles se casam, mas tem expectativas diferentes em relação ao casamento: enquanto Gregory realmente deseja apenas uma companhia, Rose anseia por amor e paixão, justamente o que ele repudia. Quandoa situação torna-se insustentável, o improvável casal precisa saber o que fazer com seu relacionamento.


Streisand não é uma diretora genial ou mesmo inventiva. A forma como conduz a narrativa de seu filme é clássica, privilegiando enquadramentos que lhe favoreçam esteticamente ou até mesmo apelando para alguns exageros dramáticos (a cena em que cobre um espelho depois da rejeição de Larkin é um exemplo dessa afirmação, com a música de Marvin Hamlisch soando fora de propósito). Mas não há como elogiar sua segurança em comandar seu elenco, dos protagonistas aos coadjuvantes: Lauren Bacall dá um show como Hannah, a mãe que vê sua beleza esvair-se com o tempo e se vinga destruindo o amor-próprio da filha (suas falas são as melhores e a viúva de Humphrey Bogart conquistou sua primeira indicação ao Oscar por seu trabalho) e Mimi Rogers nunca esteve tão radiante e engraçada. Dando apoio a um Jeff Bridges leve como poucas vezes se viu nas telas e uma Streisand menos eficiente do que em "O príncipe das marés" mas ainda assim uma atriz competente e sensível, os atores secundários do filme pontuam com correção um roteiro que diverte e emociona na medida certa. É um filme romântico para adultos que preferem finais felizes.

Inspirado em um pouco conhecido filme francês, o roteiro de Richard LaGravenese (que também adaptou "As pontes de Madison" para as telas) conquista pelos diálogos espertos e pelo romantismo assumido. Mesmo que sua cena final de certa forma desminta propositalmente o discurso de Rose em uma de suas aulas (com Puccini tocando em alto e bom som na noite nova-iorquina) é impossível ficar imune ao charme da história contada por Barbra Streisand, que, pelo jeito, sabe exatamente o que quer de seus colaboradores. Se todos os que agem com essa certeza quase ditatorial assinassem filmes com a qualidade de "O espelho tem duas faces", seria bem mais fácil perdoá-los.

Monday, March 14, 2011

O PREÇO DE UM RESGATE

O PREÇO DE UM RESGATE (Ransom, 1996, Touchstone Pictures, 121min) Direção: Ron Howard. Roteiro: Richard Price, Alexander Ignon, história de Cyril Hume, Richard Maibaum. Fotografia: Piotr Sobocinski. Montagem: Dan Hanley, Mike Hill. Música: James Horner. Figurino: Rita Ryack. Direção de arte/cenários: Michael Corenblith/Susan Bode. Produção executiva: Todd Hallowell. Produção: Brian Grazer, B. Kiplin Hagopian, Scott Rudin. Elenco: Mel Gibson, Rene Russo, Gary Sinise, Delroy Lindo, Lily Taylor, Liev Schreiber, Evan Handler, Donnie Wahlberg, Brawley Nolte, Dan Hedaya. Estreia: 08/11/96

Durante as filmagens de "O preço de um resgate", policial inspirado em um telefilme apresentado ao vivo nos primórdios da TV americana, seu diretor Ron Howard se viu em uma situação no mínimo rara: seu trabalho anterior, "Apollo 13" disputava o Oscar de melhor produção do ano com "Coração valente", cujo responsável pela direção era ninguém menos que Mel Gibson, o protagonista de seu filme. Essa pequena curiosidade, porém, não atrapalhou em nada o resultado final, nem em termos de qualidade nem tampouco de bilheteria: com uma renda de mais de 130 milhões de dólares, "O preço de um resgate" foi mais um dos sucessos comerciais de Gibson - que, aliás, levou vantagem na festa do Oscar, ficando com as estatuetas de filme e direção (prêmio este que Howard nem sequer disputou).

Quando "O preço de um resgate" estreou, Gibson estava no auge de sua popularidade e do respeito por parte da crítica, por isso não é surpresa que o filme tenha feito tanto sucesso. A boa notícia é que, apesar de alguns erros na carreira do ator, este aqui é um de seus pontos altos, um trabalho maduro em que ele não apenas é um astro carismático e sedutor, mas também um ator experiente e capaz de emocionar sua plateia com uma personagem dúbio e rico de nuances. Mesmo que não seja exatamente brilhante, o roteiro de Alexander Ignon e do escritor Richard Price é dotado de reviravoltas empolgantes o bastante para manter a atenção do público até suas cenas finais, onde infelizmente apela para os tiroteios corriqueiros dos filmes do gênero. Até que isso aconteça, no entanto, o espectador é brindado com uma trama interessante e dramática na medida certa.


Gibson interpreta Tom Mullen, um bem-sucedido empresário do ramo da aviação que tem seu único filho, o pequeno Sean (Brawley Nolte, filho do ator Nick Nolte) sequestrado praticamente diante de seu nariz, em uma feira em um parque de Nova York em plena luz do dia. Seu desespero e de sua esposa, Kate (Rene Russo) aumenta conforme o tempo passa e os agressores exigem a quantia de dois milhões de dólares para libertar o menino. Depois de uma tentativa frustrada de recuperar o filho - em que um dos sequestradores é morto - Mullen se enfurece com a prepotência dos criminosos e resolve não apenas recusar-se a pagar o resgate mas também entregar o dobro da quantia a qualquer pessoa com informações que levem até a gangue. Sua ousada decisão muda os rumos da situação e o policial Jimmy Shaker (Gary Sinise) assume, a partir daí importância fundamental na investigação.

Apesar de ser uma espécie de refilmagem - fato do qual Mel Gibson só tomou ciência às vésperas da filmagem - "O preço de um resgate" não tem, em momento algum, ranso de produto requentado. É um drama policial intenso, centrado principalmente na angústia de Mullen e Kate e na interrelação entre os criminosos - cujos intérpretes incluem um novato Liev Schreiber. Howard acertou em cheio em intercalar cenas de grande tensão com outras onde investiga as consequências de um crime na vida de uma família. Ao eleger como protagonista um empresário não necessariamente ético ou imaculado, ele o aproxima da plateia, principalmente devido ao trabalho poderoso de Gibson e Rene Russo, que, trabalhando juntos novamente - depois de dois filmes da série "Máquina mortífera" - apresentam uma ótima química. Russo, inclusive, tem uma atuação que lhe prova uma boa atriz dramática por trás de sua beleza clássica.

"O preço de um resgate" é um policial acima da média, com um roteiro bem cuidado - no que a assinatura de um literato como Richard Price faz uma grande diferença - e uma preocupação sincera com o trabalho dos atores. E é uma das últimas interpretações dignas da carreira de Mel Gibson até o momento (com a exceção de "Sinais", lançado seis anos depois).

Saturday, March 12, 2011

ROMEU + JULIETA

ROMEU + JULIETA (William Shakespeare's Romeo and Juliet, 1996, 20th Century Fox, 120min) Direção: Baz Luhrmann. Roteiro: Baz Luhrmann, Craig Pearce, peça teatral de William Shakespeare. Fotografia: Donald McAlpine. Montagem: Jill Bilcock. Música: Nellee Hooper. Figurino: Kym Barrett. Direção de arte/cenários: Catherine Martin/Brigitte Broch. Produção: Baz Luhrmann, Gabriella Martinelli. Elenco: Leonardo DiCaprio, Claire Danes, John Leguizamo, Paul Rudd, Pete Postletwhaite, Paul Sorvino, Brian Dennehy, Diane Venora, Christina Pickles, Harold Perrineau Jr., Vondie Curtis-Hall, Miriam Margoyles, Jamie Kennedy, Jesse Bradford. Estreia: 01/11/96

Indicado ao Oscar de Direção de Arte/Cenários
Festival de Berlim - Melhor Diretor (Baz Luhrmann), Melhor Ator (Leonardo DiCaprio) 

A primeira cena já dá uma pista sobre o que vem pela frente: em vez de empolados arautos em roupas de época, uma apresentadora de telejornal anuncia o que a plateia verá nas próximas duas horas. Com uma montagem frenética e ruidosa, Baz Luhrmann desconstrói o preconceito contra a tradição e entrega sua versão lisérgica, sexy e violenta de uma das mais famosas histórias de amor da história do teatro. "Romeu + Julieta" é mais do que uma refilmagem da mais clássica obra de Shakespeare: é a reinvenção em formato MTV de uma trama universal que vem emocionando gerações há muitos séculos. E como não poderia deixar de ser, a ousadia do cineasta australiano encontrou tanto admiradores apaixonados quanto detratores ferrenhos.

Não é de admirar que os puristas tenham se chocado com a coragem de Luhrmann (diretor do divertidamente brega "Vem dançar comigo"): apesar de manter o texto de Shakespeare intacto, ele substituiu espadas por armas de grosso calibre, transformou Mercúcio em uma drag-queen negra, apresenta um padre Lourenço tatuado e, no primeiro encontro do casal de protagonistas, o herói (vivido por um Leonardo DiCaprio em vias de tornar-se coqueluche mundial graças à "Titanic") está sob o efeito de ecstasy. Somadas a uma edição alucinante, um desenho de som que atinge os mais altos decibéis e uma direção de arte que eleva o kitsch a um status de arte (algo que Luhrmann já havia feito antes, e atingiria seu ápice em "Moulin Rouge" cinco anos depois), essas "transgressões" do cineasta australiano fizeram de "Romeu + Julieta" um dos filmes mais comentados do início da segunda metade da década de 90.

Para quem não sabe do que se trata - ou seja, quem não esteve no planeta Terra nos últimos quatrocentos anos - "Romeu + Julieta" (assim mesmo, com um sinal de adição ao invés do tradicional '&') conta a trágica história de amor proibida entre Romeu Montéquio (Leonardo DiCaprio) e Julieta Capuleto (a ótima Claire Danes). Herdeiros únicos de duas famílias cuja inimizade já vem de longa data - e que se transmite aos agredados dos clãs - eles se conhecem e se apaixonam durante uma festa à fantasia na Mansão Capuleto. Cientes dos problemas que seu romance irá enfrentar, o jovem casal conta com a ajuda do Frei Lourenço (Pete Postletwhaite), que acredita que o nascente amor poderá finalmente trazer paz à cidade de Verona (aqui transposta da Itália para uma praia ao estilo Miami). Mas as coisas saem do controle quando um primo de Julieta, Teobaldo (John Leguizamo) mata Mercúcio (Harold Perrineau Jr., da série "Lost"), melhor amigo de Romeu, o que precipitará uma tragédia de grandes proporções.


Quem espera ver na versão de Baz Luhrmann a delicadeza lírica da idealizada por Franco Zefirelli em 1968 certamente levará um susto. Na concepção anos 90 da história do bardo não há espaço para tempos mortos e até mesmo os belíssimos diálogos românticos entre os protagonistas são declamados de uma forma que soa nova, moderna e jamais vista. A famosa cena do balcão, por exemplo, tem lugar na piscina da casa de Julieta, filmada com precisão por Lurhmann e seu diretor de fotografia Donald McAlpine, aqui realizando um trabalho excepcional que explora a luz natural com sensibilidade ímpar: o auge do amor entre Romeu e Julieta é colorido, romântico, com belos crepúsculos, mas quando a desgraça se aproxima é a chuva agressiva e a noite mais negra que tomam seu lugar. E na dolorosa cena final é impressionante a soma perfeita entre o cenário ultra-colorido, a fotografia sóbria, a trilha sonora delicada de Neellee Hooper e as interpretações perfeitas do casal central. A química entre DiCaprio e Claire Danes (saindo da série de TV "Minha vida de cão") é tão sensacional que dá pra perdoar facilmente os momentos iniciais do filme, tão rápidos e barulhentos que talvez incomodem o público mais tradicional - e vale lembrar que Natalie Portman quase ficou com o papel de Julieta, só sendo substituída por Danes porque é baixinha demais perto de seu galã, o que, segundo a produção, poderia soar como pedofilia...

Mesmo com seus pequenos defeitos - mais culpa do estilo exagerado de seu diretor do que por falta de talento ou ambição - "Romeu + Julieta" cumpre tudo o que promete: é comovente, é moderno, tem uma trilha sonora espetacular - o filme se encerra com a magnífica "Exit music (for a film), do grupo inglês Radiohead - e preparou Leonardo DiCaprio para o megaestrelato que viria muito a seguir. Um drama romântico indispensável"

Thursday, March 10, 2011

SLEEPERS, A VINGANÇA ADORMECIDA

SLEEPERS, A VINGANÇA ADORMECIDA (Sleepers, 1996, Baltimore Pictures/Polygram Filmed Entertainment, 147min) Direção: Barry Levinson. Roteiro: Barry Levinson, livro de Lorenzo Carcaterra. Fotografia: Michael Balhaus. Montagem: Stu Linder. Música: John Williams. Figurino: Gloria Gresham. Direção de arte/cenários: Kristi Zea/Beth A. Rubino. Produção executiva: Peter Giuliano. Produção: Steve Golin, Barry Levinson. Elenco: Brad Pitt, Jason Patric, Kevin Bacon, Robert DeNiro, Dustin Hoffman, Minnie Driver, Billy Crudup, Ron Eldard, Brad Renfro, Vittorio Gassman, Terry Kinney, Bruno Kirby, Joseph Perrino, Geoffrey Vigdor, Jonathan Tucker. Estreia: 18/10/96

Indicado ao Oscar de Melhor Trilha Sonora Original/Drama

Alguns filmes marcam pelo romantismo ingênuo e feliz que transmitem. Alguns filmes ficam na memória da audiência devido às mensagens positivas que passam através de suas tramas. Outros ainda encantam pela beleza estética ou pela força de seus roteiros. No entanto, alguns (bons) filmes também podem tornar-se inesquecíveis por sua melancolia intrínseca, pela tristeza poderosa que emana de suas histórias, normalmente focadas em personagens tão reais quanto a plateia. Um filme que se encaixa nessa última categoria é "Sleepers, a vingança adormecida", um petardo emocional dirigido por Barry Levinson e pretensamente inspirado em uma história verdadeira. Baseado em um livro de Lorenzo Carcaterra - que o escreveu em forma de memórias - o filme causou polêmica quando teve sua veracidade questionada por investigações posteriores. No entanto, verdadeira ou não, sua história é forte o bastante para suscitar discussões e pesar feito um tijolo na memória dos espectadores.

Ao falar de pedofilia, abuso sexual, perjúrio, violência doméstica e delinquência juvenil, o oscarizado Barry Levinson enfrentou ainda mais controvérsia do que em seu filme anterior, "Assédio sexual", que fez sucesso de público (mas não de crítica) e que serviu apenas como veículo para o sex-appeal de Demi Moore. Sensível e talentoso, Levinson conseguiu revestir de sutileza uma trama pesada e angustiante, e o que é mais surpreendente, fez com que o público questionasse verdades até então estabelecidas como imutáveis. Sim, em "Sleepers" a plateia torce para que um padre cometa perjúrio para inocentar dois réus que - todo mundo viu - mataram a tiros um homem enquanto este jantava em um restaurante. Por que? É aí que a polêmica começa.

"Sleepers" tem início em 1966, em Hell's Kitchen, um bairro nova-iorquino onde se misturavam descendentes de italianos, irlandeses e todo tipo de pequenos e grandes marginais. É lá que quatro amigos adolescentes vivem esperando a idade adulta: Michael Sullivan (Brad Renfro), Lorenzo Carcaterra (Joseph Perrino), John Reilly (Geoffrey Wigdor) e Tommy Marcano (Jonathan Tucker) são unidos e encontram em sua amizade um oásis em meio às crises domésticas que os rodeiam. Em uma tarde quente de verão, como forma de passar um dia tedioso, eles decidem passar a perna em um vendedor de cachorro-quente e a brincadeira acaba tragicamente. Condenados a passar um ano presos em um reformatório, eles encontram apoio apenas na amizade do Padre Robert Carillo (Robert DeNiro). Encarcerados na instituição penal, eles começam a sofrer maus-tratos, abusos sexuais e extrema violência por parte dos guardas, em especial do líder deles, Noakes (Kevin Bacon).

A história, então, dá um pulo até 1981, quando, entregues à marginalidade, John (Ron Eldard) e Tommy (Billy Crudup, estreando no cinema) dão de cara com Noakes em um restaurante e o executam com meia dúzia de tiros. Levados à julgamento, eles se surpreendem ao descobrir que o promotor do caso é seu amigo de infância Michael (Brad Pitt), que, na verdade, contando com a ajuda de Lorenzo (Jason Patric) - agora um jornalista - tem um plano detalhado de vingança contra seus agressores, que envolve um advogado de defesa contratado pela Máfia (Dustin Hoffman) e Carol (Minnie Driver), amiga de infância do grupo.


Barry Levinson conduz de maneira correta sua história de perda da inocência, mas não consegue evitar a queda de ritmo em sua segunda metade, quando o elenco jovem sai de cena para que o segundo ato - o da vingança propriamente dita - comece. Contando com atores juvenis extraordinariamente capazes de despertar a simpatia e a compaixão da audiência, ele estabelece o tom sombrio já antes dos créditos de abertura, com a narração em off de Jason Patric (o menos carismático de todo o elenco). Quando a segunda parte do filme começa há uma espécie de quebra que a edição tem certos problemas em resolver - ainda que ecoe o trabalho de Thelma Schoonmaker em "Os bons companheiros" e "Cassino" em sua hora inicial, a montagem carece de um ritmo mais ágil depois do assassinato de Nokes (diga-se de passagem, vivido com maestria por Kevin Bacon). Talvez o problema seja também a falta de entusiasmo do maior astro do filme: na pele de Michael, o até então infalível Brad Pitt demonstra um cansaço que, apesar de ajudar na construção da personagem, soa como desinteresse aos olhos do público. Para sua sorte, Dustin Hoffman está inspirado como sempre e Robert DeNiro não precisa falar muito para passar seu recado (um exemplo claro dessa afirmação é a cena em que ele ouve, estupefacto, a descrição dos horrores pelos quais seus meninos passaram na casa de correção). No mínimo por Hoffman e DeNiro já seria obrigatória uma sessão de "Sleepers". Mas a boa notícia é que os rapazes da primeira metade também são sensacionais.

Com exceção de Jonathan Tucker, que se mantém em atividade em filmes como "72 horas" e Brad Renfro - que prometia tornar-se astro mas morreu precocemente aos 25 anos, em 2008 - os jovens "sleepers" (gíria que designa rapazes que cumpriram pena em instituições correcionais) não foram muito felizes em suas escolhas profissionais: Geoffrey Wigdor, que vive o frágil John Reilly, faz participação em séries de TV, assim como Joseph Perrino, que interpreta o narrador da história, Lorenzo Carcaterra. Juntos, os quatro são o destaque absoluto no elenco de uma obra que não dá tréguas ao espectador em momento algum. Do início ao fim não há espaço para o humor ou o romantismo (que surge nas cenas de Minnie Driver com Brad Pitt, mas apenas como mais um elemento melancólico). Mas, apesar dos pesares, "Sleepers" é um filme que melhora a cada revisão.

Fotografado claustrofobicamente por Michael Ballhaus e pontuado por uma trilha sonora discreta de John Williams, "Sleepers" é um trabalho denso e um tanto depressivo, mas feito com honestidade e talento E alguns filmes marcam justamente pela coragem de tocar em assuntos difíceis de forma contundente e real.

Wednesday, March 9, 2011

THE WONDERS, O SONHO NÃO ACABOU

THE WONDERS, O SONHO NÃO ACABOU (That thing you do!, 1996, 20th Century Fox, 108min) Direção e roteiro: Tom Hanks. Fotografia: Tak Fujimoto. Montagem: Richard Chew. Música: Howard Shore. Figurino: Colleen Atwood. Direção de arte/cenários: Victor Kempster/Merideth Boswell. Produção: Jonathan Demme, Gary Goetzman, Edward Saxon. Elenco: Tom Hanks, Jonathon Schaech, Tom Everett Scott, Liv Tyler, Steve Zahn, Ethan Embry, Giovanni Ribisi, Charlize Theron, Rita Wilson, Kevin Pollak, Chris Isaak. Estreia: 04/10/96

Indicado ao Oscar de Melhor Canção ("That thing you do!")

Premiado com dois Oscar consecutivos de melhor ator e um dos astros mais populares de Hollywood, Tom Hanks acrescentou mais um sucesso à sua carreira, em 1996, dessa vez em uma missão tripla. Em "The Wonders, o sonho não acabou", ele não apenas faz um pequeno papel coadjuvante: ele é também o roteirista e o diretor, unindo-se ao time dos atores tornados cineastas. Porém, ao contrário de nomes que foram ambiciosos em suas incursões para trás das câmeras, como Mel Gibson e Kevin Costner - só para citar nomes mais recentes - Hanks não fez sua estreia com um projeto grandioso ou de olho em estatuetas douradas. "The Wonders" é a cara de seu criador: agradável, simples e bem-humorado.

Ligeiramente inspirado na trajetória dos Beatles, Hanks inventou a história dos Wonders, um grupo de rock que, no início dos anos 60, conhece o gostinho do sucesso mas vê toda a sua possibilidade de reconhecimento internacional ruir devido aos problemas entre seus integrantes. Apesar de parecer mais um dramalhão que analisa egos inflados e retrata violentas auto-destruições, o filme do eterno Forrest Gump opta pelo viés cômico e leve, com um revestimento romântico e delicado que a trilha sonora vibrante e dançante reitera lindamente. Sob os olhos otimistas e generosos de Hanks, a história dos Wonders não é nada mais do que uma deliciosa viagem musical para o início do rock'n'roll.

É 1964, e a pequena cidade de Erie, na Pensilvânia é o lar de um grupo de amigos que aproveitam seus tempos livres para brincar de músicos. Depois que seu baterista sofre um acidente e quebra o braço, o jovem Guy Patterson (Tom Everett Scott) é convidado por Jimmy Mattingly (Jonathon Schaech) a assumir seu lugar. Dando uma batida mais rápida à balada "That thing you do!", composta por Jimmy - e tocada à exaustão no decorrer do filme - Guy acaba empurrando o grupo às paradas de sucesso. Empresariados pelo competente White (Tom Hanks), do selo Play-Tone, eles logo começam a galgar posições nas paradas de sucesso. Seu êxito logo torna-se uma ameaça ao relacionamento entre Guy e sua bela namorada, a doce Faye (Liv Tyler).


Deixando de lado toda e qualquer preocupação melodramática ou existencialista, o roteiro de Hanks é um primor de leveza e simpatia. Não há nenhum drama insuperável nem intrigas de bastidores como normalmente ocorre em produções do tipo. O baixista acidentado (vivido por Giovanni Ribisi) não tenta sabotar seu substituto nem existe uso de drogas ou bebidas. O universo rock'n'roll criado por Hanks é um universo totalmente desprovido das mazelas do mundo da música e isso talvez seja a razão porque o filme seja tão irresistível, mesmo que não tenha feito o barulho esperado em termos de bilheteria. Para um público acostumado aos excessos de Jim Morrison, Sid Vicious e Janis Joplin, encarar um grupo tão certinho como os Wonders talvez soe como um retrocesso inadmissível. O que esse público não desconfia é que nem só de overdoses e orgias sexuais vive o mundo da música (ao menos dentro da mente Polyanna de Tom Hanks)

No fim das contas, "The Wonders" é um delicioso entretenimento, capaz de divertir por duas horas em exigir nada mais do que a vontade de se deixar acompanhar por personagens simpáticos, uma trilha sonora dançante e a reconstituição de uma época dourada (mesmo que já manchada pela morte de Kennedy e pela guerra do Vietnã). E além de tudo, o filme tem Liv Tyler, deslumbrante e meiga, no auge de sua beleza etérea. Quem precisa mais do que isso para se divertir?

Tuesday, March 8, 2011

TERRA ESTRANGEIRA

TERRA ESTRANGEIRA (Terra estrangeira, 1996, Videofilmes, 100min) Direção: Walter Salles, Daniela Thomas. Roteiro: Marcos Bernstein, Millôr Fernandes, Walter Salles, Daniela Thomas. Fotografia: Walter Carvalho. Montagem: Felipe Lacerda, Walter Salles. Música: José Miguel Wisnik. Figurino: Cristina Camargo. Direção de arte: Daniela Thomas. Produção: Antonio da Cunha Telles, Flávio R. Tambellini. Elenco: Fernanda Torres, Fernando Alves Pinto, Alexandre Borges, Luis Mello, Laura Cardoso, Tcheky Karyo. Estreia: 05/9/96

Um bom par de anos antes de consagrar-se com o emocionante "Central do Brasil", o cineasta Walter Salles já havia mostrado aos fãs de bom cinema que não era um principiante sortudo. Apesar de seu filme de estreia, "A grande arte", baseado em um romance de Rubem Fonseca não ter sido tão bom quanto poderia, seu segundo trabalho superou toda e qualquer expectativa. "Terra estrangeira" é o primeiro filme da chamada "retomada do cinema nacional" que merece o adjetivo de filmaço! Forte, tocante e tecnicamente impecável, o filme co-dirigido por Daniela Thomas é um filme com cara de europeu, mas com uma preocupação temática absolutamente brasileira - ou, melhor ainda... universal.

Utilizando uma trama policial como pano de fundo para uma história de solidão e inadequação geográfica e cultural, "Terra estrangeira" se passa em 1990, quando o pacote econômico da então ministra Zélia Cardoso de Mello pegou milhares de brasileiros de surpresa ao confiscar suas cadernetas de poupança. Uma das vítimas fatais do plano é Maria Eizaguirre (Laura Cardoso) que morre de um enfarte logo após ouvir a notícia. Sua morte desespera seu filho único, o jovem Paco (Fernando Alves Pinto), um rapaz perdido que, com a morte da mãe, fica ainda mais desnorteado. Sem absolutamente rumo nenhum na vida, ele recebe uma proposta aparentemente irrecusável do misterioso Igor (Luis Mello), que lhe oferece dinheiro - e a possibilidade de conhecer a terra de sua mãe - para que ele passe com um violino para Lisboa. O que Paco nem sequer desconfia é que dentro do violino está uma pequena fortuna em diamantes. Quando chega em Portugal, Paco descobre que o receptador da mercadoria, Miguel (Alexandre Borges) foi assassinado e, com a ajuda hesitante da namorada dele, a também brasileira Alex (Fernanda Torres), tenta resolver a situação da melhor maneira, se envolvendo com um perigoso time de contrabandistas internacionais.

Fotografado por Walter Carvalho em um deslumbrante preto-e-branco, "Terra estrangeira" é uma obra-prima visual. Cada plano milimetricamente estudado pelos cineastas tem uma função específica dentro da história e enche os olhos com paisagens absurdas e enquadramentos geniais. Cada sequência parece uma pintura, mas ao contrário de muitos filmes que se dedicam ao visual e esquecem da história, aqui nada é por acaso, com a intenção única de seduzir o espectador pelo sentido da visão. A trama criada pelos roteiristas - cujo time inclui até mesmo o genial Millôr Fernandes - é digna dos melhores policiais americanos, ainda que seu ritmo e sua cadência lembrem bem mais o cinema europeu, por sua naturalidade e poesia mesmo nos momentos mais violentos. Não é um típico noir americano - ainda que muitas de suas cenas sejam envoltas em brumas - nem tampouco um chato exercício de estilo à la Wim Wenders. É um filme com identidade própia, que credenciou Salles como um dos mais promissores cineastas brasileiros da década de 90, uma promessa que se cumpriu com louvor. Além de ser um esteta acima de qualquer crítica, Salles é também um excelente e cuidadoso diretor de atores, como a indicação ao Oscar de Fernanda Montenegro por "Central do Brasil" comprovou.


Em "Terra estrangeira" é Fernandinha Torres quem lidera um elenco impecável. Na pele da desesperançada Alex, Fernanda tem uma atuação visceral, tensa e angustiada que desmente a teoria de que é uma atriz puramente cômica. Seu olhar triste encontra uma espécie de espelho às avessas em Fernando Alves Pinto - filho do escritor Ziraldo - que encarna um Paco juvenil e que, mesmo em uma passagem dramática de sua vida, ainda parece querer entender e conquistar o mundo. Atuando ao lado de veteranos como Laura Cardoso e Luis Mello - além de uma participação especial de Tcheky Karyo - o casal de protagonistas encanta pela naturalidade com que enfrenta os obstáculos que não param de surgir à sua frente. Mas nem a fotografia espetacular, nem a trilha delicada de José Miguel Wisnik e nem mesmo as atuações brilhantes fazem frente ao melhor que "Terra estrangeira" tem a oferecer: seu tema subjacente.

Realizado em uma época em que sair do Brasil parecia ser a solução mais eficaz para deixar para trás todos os problemas, "Terra estrangeira" retrata, em seu roteiro, uma faixa da população que até então não havia sido sequer percebida pela nossa filmografia. Alex e Miguel são brasileiros que vivem na Europa em busca de uma vida melhor, mesmo sentindo-se deslocados, sofrendo preconceitos e sendo totalmente infelizes. Paco sai de São Paulo em direção à San Sebastian de sua mãe tentando encontrar uma saída para sua vida apática. A Lisboa de "Terra estrangeira" pode ser lindamente fotografada, mas é um caldeirão de culturas díspares que, ao contrário de Nova York, não é exatamente hospitaleiro a forasteiros. Como diz auma de suas personagens, Lisboa é o lugar ideal para perder alguém ou perder-se de si mesmo.

É emblemática a mais famosa cena do filme, com Alex e Paco abraçados frente a um navio encalhado. Assim como o barco, eles estão presos a uma constante busca pelo lugar a que pertencem, sem jamais parecer pertencer a qualquer parte do mundo. Não é à toa que Alex, em determinado momento, diz nem ao mesmo saber onde é sua casa... Ao voltar seus olhos à essa geração perdida, desolada e sem destino, Salles criou uma pérola do cinema brazuca que merece ser conhecida ou reencontrada. E nem mesmo seu final em aberto consegue estragar a sensação de absoluto deleite que é assistir a "Terra estrangeira".

Monday, March 7, 2011

NOSSO TIPO DE MULHER

NOSSO TIPO DE MULHER (She's the one, 1996, 20th Century Fox, 96min) Direção e roteiro: Edward Burns. Fotografia: Frank Prinzi. Montagem: Susan Graef. Música: Tom Petty. Figurino: Susan Lyall. Direção de arte/cenários: William Barclay/Harriet Zucker. Produção executiva: Michael Nozik, Robert Redford. Produção: Edward Burns, Ted Hope, James Schamus. Elenco: Edward Burns, Jennifer Aniston, Mike McGlone, Cameron Diaz, John Mahoney, Maxine Bahns, Amanda Peet. Estreia: 23/8/96

Por mais que Woody Allen, com sua habitual modéstia, acredite que não influencia a obra de ninguém, é impossível assistir-se a "Nosso tipo de mulher", uma comédia romântica a respeito dos relacionamentos de nova-iorquinos um tanto neuróticos e sempre com uma frase sarcástica na ponta da língua. Excetuando-se os fatos de que os personagens criados por Edward Burns são católicos descendentes de irlandeses  e que não são exatamente sofisticados, existe muito de Allen em "Nosso tipo de mulher". Felizmente, coisas boas.

Segunda parte de uma espécie de trilogia do jovem ator/roteirista/diretor/produtor Edward Burns - iniciada com "Os irmãos McMullen" (1995) e finalizada com "No looking back" (1998) - o filme conta as aventuras amorosas de dois irmãos de personalidades opostas (uma espécie de "Razão e sensibilidade" masculino e moderno): o mais velho, Mickey (vivido pelo diretor) trabalha como taxista desde que flagrou a noiva transando com outro homem e, em uma de suas viagens, conhece e se apaixona por Hope (Maxine Bahns), uma garçonete que sonha morar em Paris mas que, no momento, mora em um apartamento caindo aos pedaços. Em um ato impulsivo, eles se casam no mesmo dia em que se conhecem, o que pega toda a família de surpresa. O pai machista (John Mahoney) acredita que ela deseja o green card (mesmo que ela seja americana), a mãe (que jamais aparece em cena) acha que a nora está grávida. Mas quem fica mais chocado com a notícia é seu irmão caçula, Francis (Mike McGlone). Executivo de Wall Street, ambicioso e certinho, ele vê o casamento de Mickey causar um alvoroço em sua própria vida amorosa: não apenas passa a ser cobrado pela esposa Renee (Jennifer Aniston) como ainda entra em crise com a amante, Heather (Cameron Diaz), que vem a ser justamente a ex-noiva de seu irmão.


A ciranda amorosa bolada por Burns propicia bons momentos de humor, em especial quando o roteiro dá oportunidade para que os três membros masculinos da família Fitzpatrick estejam juntos, normalmente se preparando para uma pescaria. As diferenças entre seus pontos de vista e a forma como elas empurram o filme em direção a um clímax não poderoso mas coerente e romântico fazem com que tudo soe verossímil e o elenco escalado ajuda muito nesse quesito. A estrela maior é Cameron Diaz, já entrando na melhor fase de sua carreira - que culminaria com "Quem vai ficar com Mary?" cerca de um ano depois - e não tendo muito trabalho em parecer bonita e sexy. Jennifer Aniston, dando seus primeiros passos reais no cinema, não foge muito dos trejeitos de sua Rachel Green da série "Friends", mas é tão agradável que dá pra perdoar facilmente. E Maxine Bahns, que interpreta Hope, a mulher que entra em cena para desestabilizar a harmonia familiar, era namorada do diretor na época das filmagens, o que talvez explique sua escalação, já que não é especialmente bonita nem uma grande e carismática atriz.

Mas não deixa de ser irônico que em um filme chamado "Nosso tipo de mulher" seja justamente os homens que se destaquem. A química entre Burns e Mike McGlone (que já haviam atuado juntos em "Os irmãos McMullen") é palpável, e a aquisição do ótimo John Mahoney para o time não poderia ter sido melhor. Mahoney é engraçado, sério e convincente em cada cena, dando verdade a todos os diálogos que lhe cabem e simplesmente roubando o filme para si - mesmo porque Burns, apesar de talentoso como roteirista e cineasta parece estar sempre com uma certa preguiça para atuar (estilo, talvez...)

No fim das contas, "Nosso tipo de mulher" é uma comédia romântica inofensiva como todas elas devem ser. É irônica, é engraçada e é extremamente agradável. Não muda a vida de ninguém, mas é um passatempo bastante honesto.

Sunday, March 6, 2011

TEMPO DE MATAR

TEMPO DE MATAR (A time to kill, 1996, Warner Bros/Regency Enterprises, 149min) Direção: Joel Schumacher. Roteiro: Akiva Goldsman, romance de John Grisham. Fotografia: Peter Menzies Jr. Montagem: William Steinkamp. Música: Elliott Goldenthal. Figurino: Ingrid Ferrin. Direção de arte/cenários: Larry Fulton/Dorree Cooper. Produção: John Grisham, Hunt Lowry, Arnon Milchan, Michael Nathanson. Elenco: Matthew McConaughey, Kevin Spacey, Samuel L. Jackson, Sandra Bullock, Oliver Platt, Charles S. Dutton, Kiefer Sutherland, Donald Sutherland, Ashley Judd, Patrick McGoohan, Brenda Fricker, Chris Cooper, Doug Hutchinson, Kurtwood Smith. Estreia: 24/7/96

Desde que "A firma" estreou, em 1994, praticamente todos os livros do escritor John Grisham foram adaptados para o cinema, com graus distintos de qualidade. Suas tramas, sempre centradas em advogados em crises de ética ou pessoais ou ambas, tornaram-se quase um gênero à parte dentro da indústria hollywoodiana, mas o que pouca gente percebeu é que, apesar de ser considerado um autor especializados em temas jurídicos, nenhum dos filmes baseados em sua obra tinha reais cenas em um tribunal. Julgamentos em si não apareceram nem em "A firma", nem em "O dossiê Pelicano" e nem tampouco em "O cliente". Esse tabu foi quebrado por "Tempo de matar" que, a despeito de ter sido o primeiro romance do escritor, só chegou às telas em 1996. E o julgamento mostrado no filme - e que ocupa boa parte de sua longa projeção - é tão empolgante que até faz esquecer os finais anti-climáticos de suas adaptações anteriores.

Escrito como resposta a uma indignação silenciosa de Grisham diante de um caso que testemunhou nos tribunais em seu tempo como estudante de Direito, "Tempo de matar" foi publicado em 1989 e demorou a chegar às telas justamente por ser o trabalho preferido do escritor, que hesitou por muito tempo antes de vender seus direitos à Hollywood por medo de vê-lo estragado pelos produtores. Seu medo tornou-se de paranoia à ameaça real quando Kevin Costner interessou-se pelo projeto mas exigia controle absoluto sobre o resultado final. Na metade dos anos 90, Costner já não era tão confiável quanto no início da década e Grisham deu sinal vermelho à produção. Quando Joel Schumacher assumiu a direção - depois de ter comandado o correto "O cliente" - o projeto deslanchou. Nomes como Brad Pitt, Val Kilmer e Woody Harrelson foram cotados para interpretar o protagonista, que surpreendentemente acabou nas mãos de Matthew McConaughey, um ator pouco conhecido que estava escalado para um papel menor. Bonito e charmoso, McConaughey agarrou com unhas e dentes sua grande chance e não decepcionou. Comparado pela crítica ao jovem Paul Newman, tornou-se um promissor astro e, mesmo atuando ao lado de pesos-pesados como Kevin Spacey, Samuel L. Jackson e Donald Sutherland não saiu-se nada mal.


A sequência inicial já deixa bem claro que "Tempo de matar" irá mais além do que seus antecessores. Uma menina negra caminha, cheia de compras, em um dia de extremo calor, em direção à sua casa. Dois homens brancos, bêbados, a abatem com uma lata de cerveja e, como animais, a estupram, espancam e a deixam à beira da morte. A menina é filha de Carl Lee Hailey (Samuel L. Jackson), um operário, que, conhecendo as leis do lugar onde vive - sul dos EUA - resolve fazer justiça com as próprias mãos e mata os dois agressores, ferindo ainda um guarda, que tem sua perna amputada em consequência de um tiro. McConaughey entra em cena como Jake Brigance, um idealista advogado que resolve assumir o caso de Hailey mesmo que isso o torne persona non grata na cidade e o faça sofrer ameaças da Ku Klux Klan. Determinado a fazer justiça e não deixar que a cor da pele de seu cliente seja um fator determinante em seu veredicto, ele precisa enfrentar o promotor Rufus Beckley (Kevin Spacey mais uma vez fantástico) e conta com a ajuda da estudante Ellen Roark (Sandra Bullock, cujo prestígio na época é a única explicação para que tenha seu nome em primeiro lugar nos créditos de abertura).

Sem precisar se esforçar muito para adaptar "Tempo de matar" - cuja prosa fluente e ágil já é praticamente um pré-roteiro - Akiva Goldsman acertou em manter as cenas-chave da história no seu devido lugar. Narrado de forma convencional mas sem perder o ritmo em nenhum momento - nem mesmo quando tentam forçar um romancezinho xinfrim entre McConaughey e Bullock - o filme se beneficia de sua alta qualidade técnica e artística. A fotografia de Peter Menzies Jr. dá o exato tom de calor que a trama exige, e a música de Elliot Goldenthal, mesmo não escapando dos clichês, emociona nas horas certas e não assume importância excessiva. E o elenco coadjuvante não poderia ser melhor: Kiefer Sutherland, Oliver Platt, Brenda Fricker, Chris Cooper e Ashley Judd pontuam com correção o brilho dos colegas protagonistas, em especial Samuel L. Jackson - como um furioso Carl Lee Hailey - e Kevin Spacey, como o cínico promotor que é mais vaidoso do que honesto.

A bilheteria generosa de "Tempo de matar" credenciou Joel Schumacher a ser o comandante de "Batman & Robin" e "Batman eternamente", que quase acabaram com a franquia do homem-morcego - e por conseguinte com sua própria carreira. Mas, por mais que os fãs da série ainda não tenham lhe perdoado (e com toda razão), uma qualidade sua tem que ser louvada: Schumacher é um cineasta que nunca tenta brilhar mais do que seus atores. E "Tempo de matar" é a prova dessa afirmação. É um grande filme de tribunal, com uma ótima história, um elenco impecável e é capaz de emocionar aos mais sensíveis. Entretenimento para adultos que exigem qualidade mas dispensam complexidades. Altamente recomendável!

Friday, March 4, 2011

CORAGEM SOB FOGO

CORAGEM SOB FOGO (Courage under fire, 1996, Fox 2000 Pictures, 117min) Direção: Edward Zwick. Roteiro: Patrick Sheane Duncan. Fotografia: Roger Deakins. Montagem: Steven Rosenlblum. Música: James Horner. Figurino: Francine Jamison-Tanchuck. Direção de arte/cenários: John Graysmark/Rick Gentz. Produção executiva: Joseph M. Caracciolo, Debra Martin Chase. Produção: John Davis, David T. Friendly, Joseph M. Singer. Elenco: Denzel Washington, Meg Ryan, Lou Diamond Phillips, Michael Moriarty, Matt Damon, Zeljko Ivanek, Sean Astin, Sean Patrick Thomas. Estreia: 12/7/96

O primeiro filme de um grande estúdio hollywoodiano a respeito do conflito do Iraque não foi uma obra exatamente do gênero que todos poderiam esperar. Ao contrário de um convencional filme de guerra, "Coragem sob fogo", dirigido pelo competente Edward Zwick, é um drama sobre pessoas, acima de qualquer outra coisa. Mesmo contando com algumas sequências que retratam com bastante fidelidade as batalhas travadas entre americanos e iraquianos, o cerne do roteiro de Patrick Sheane Duncan - autor do script de "Mr. Holland, adorável professor" - é a dificulade do Tenente Nat Serling (Denzel Washington) em lidar com uma tragédia ocorrida em combate ao mesmo tempo que investiga a verdade sobre a morte da primeira oficial norte-americana cotada para uma Medalha de Honra do exército.

Seguindo a estrutura do clássico "Rashomon", de Akira Kurosawa, "Coragem sob fogo" começa quando o Tenente Serling, por engano, vitima alguns colegas durante uma batalha no deserto. Extremamente abalado pelo trágico acontecimento, ele recebe a missão de apurar as circunstâncias da morte de Karen Walden (Meg Ryan), uma capitã que morreu depois de ter salvo a vida de soldados ameaçados pelos inimigos. Indicada para receber a maior homenagem do exército americano, ela torna-se objeto de uma dedicada investigação por parte do oficial em crise de consciência. Serling acaba se vendo diante de subordinados de Walden contando histórias diferentes da morte de sua líder: enquanto o jovem Ilario (Matt Damon, quase vinte quilos mais magro do que o normal) a considera uma mulher corajosa e heróica, o rebelde Monfriez (Lou Diamond Phillips, de "La Bamba") a vê como uma covarde que arriscou a vida de seu pelotão. Cabe a Sterling definir o que é verdade e o que não é.


"Coragem sob fogo" estreou nos EUA cercado de muita expectativa e um burburinho que o classificava como o primeiro filme do ano "com cara de Oscar". No entanto, fazendo um sucesso apenas relativo nas bilheterias, acabou sendo ignorado em todas as cerimônias importantes. Antes que seja taxado de injustiçado, porém, é preciso que se tenha a frieza de perceber que, apesar dos talentos envolvidos e do tema momentoso, é um filme que fica longe de ser tão empolgante quanto promete. Longe de ser ruim - tem qualidades gritantes, tanto técnica quanto artisticamente - também não consegue impressionar sua audiência, ao contrário do filme anterior do cineasta, o dramaticamente superior "Lendas da paixão".

Talvez o maior problema no roteiro de "Coragem sob fogo" seja a decisão de contar duas histórias simultaneamente. Provavelmente para não deixar que Denzel Washington fosse apenas um coadjuvante da trama bem mais interessante que cerca a morte de Karen Walden, inventaram para sua personagem uma tragédia inicial que pouco acrescenta ao resultado final. Já iniciando sua fase de ser mais Denzel Washington do que qualquer personagem, o oscarizado ator mesmo assim tem pouco a fazer, sendo eclipsado pelo elenco coadjuvante. Se Matt Damon pouco foi percebido pela crítica por seu belo trabalho - mas não por Francis Ford Coppola, que o escalou para "O homem que fazia chover" - toda a mídia não se furtou a tecer loas encantadas com a atuação de Lou Diamond Phillips, como o quase psicótico soldado Monfriez. Os elogios a Phillips não foram exagerados: sua interpretação é forte, com uma potência dramática que se avoluma a cada cena, até explodir em uma climática sequência que esclarece todas as dúvidas - tanto do Tenente Serling quanto da audiência.

Mas é inegável que o grande diferencial de "Coragem sob fogo" - além de ter inaugurado o filão de filmes sobre o Iraque - é a escalação de Meg Ryan para o papel crucial da Capitã Karen Walden. Conhecida do grande público por seus papéis de mocinha em comédias românticas como "Sintonia de amor", Ryan tentou uma guinada na carreira, na pele de uma complexa líder militar. Não apenas por ser uma soldada - com toda a preparação física que o papel exige - Karen Walden proporcionou a ela a chance de mostrar todas as nuances de seu trabalho. Nem sempre ela consegue, mas é bem sucedida ao fazer com que todos esqueçam que ela é a mesma atriz responsável pelo orgasmo falso mais conhecida da história do cinema, em "Harry & Sally, feitos um para o outro". Esforçada, ela não tem culpa se o roteiro não explora a contento todas as probabilidades que poderia.

Fotografado com maestria por Roger Deakins - um dos melhores profissionais em sua área - e editado com competência ímpar (além de utilizar os efeitos de som com inteligência), "Coragem sob fogo" é um filme que prende a atenção do espectador até seus momentos finais, podendo até mesmo surpreendê-lo com suas viradas. Não é um petardo como "O resgate do soldado Ryan", por exemplo, mas é um filme que reitera o talento de Edward Zwick em transitar entre diversos gêneros sem nunca perder a elegância.