Showing posts with label KEVIN BACON. Show all posts
Showing posts with label KEVIN BACON. Show all posts

Tuesday, May 17, 2011

GAROTAS SELVAGENS

GAROTAS SELVAGENS (Wild things, 1998, Mandalay Entertainment, 108min) Direção: John McNaught. Roteiro: Stephen Peters. Fotografia: Jeffrey L. Kimball. Montagem: Elena Maganini. Música: George S. Clinton. Figurino: Kimberly A. Tillman. Direção de arte/cenários: Edward T. McAvoy/Bill Cimino. Produção executiva: Kevin Bacon. Produção: Steven A. Jones, Rodney Liber. Elenco: Matt Dillon, Kevin Bacon, Neve Campbell, Denise Richards, Bill Murray, Theresa Russell, Robert Wagner. Estreia: 20/3/98

"Garotas selvagens" é tão exageradamente cafona e e absurdo que a única maneira de assistí-lo e gostar é deixando de lado todo e qualquer senso crítico. Propositalmente over e excessivo, o filme produzido por Kevin Bacon foi vendido como um suspense, mas no fundo é uma comédia rasgada, repleta de reviravoltas inacreditáveis e um erotismo à la revista Playboy que, com certeza, é capaz de agradar à ala masculina da plateia. Para isso, o diretor John McNaught (outrora respeitado por seu filme de estreia, o violento "Henry, retrato de um assassino") foi feliz em escalar Denise Richards, a perfeita encarnação da Barbie sexy e descerebrada, para um dos papéis centrais. Ao lado da sempre péssima Neve Campbell, ela protagoniza cenas bastante quentes, o que talvez justifique o adjetivo "selvagens" do titulo.

Em sua primeira metade, "Garotas selvagens" tem a aparência de uma telenovela de baixa qualidade. Tanto seus diálogos quanto as atuações são canhestras, tudo envolvido em um cenário perceptivelmente exagerado e/ou cafona (sem a exaltação que diretores como Almodovar fazem do kitsch). Matt Dillon, exercitando sem pudor nenhum sua canastrice, vive Sam Lombardo, o conselheiro escolar de uma escola do sul da Flórida (em um papel recusado por Robert Downey Jr.). Admirado pelos colegas e pelos alunos, o rapaz tem sua vida transformada em um pesadelo quando uma estudante, a milionária Kelly Van Ryan (Denise Richards) o acusa de estupro. Para complicar a situação, outra aluna, a rebelde sem causa Suzie Toller (Neve Campbell) também o denuncia pelo mesmo motivo. Sentindo-se condenado mesmo antes do julgamento (a família de Kelly é praticamente a dona da cidade e sua mãe já passou pela cama do professor), Lombardo conta com o apoio do advogado Ken Bowden (Bill Murray, hilariante como sempre) e do investigador de polícia Ray Duquette (Kevin Bacon), que não parece acreditar muito nas acusações.


Depois da primeira reviravolta do roteiro, "Garotas selvagens" descamba para um samba do crioulo doido. A partir daí, nada é o que parece, ninguém é tão confiável (ou tão mau-caráter) e a impressão que se tem é que o elenco está se divertindo mais do que o público. O que parecia um melodrama transforma-se em um jogo de erotismo e violência, onde tudo pode acontecer. Vítimas transmutam-se em agressores. Agressores posam de vítimas. E resta a Duquette e sua parceira Gloria (Daphne Rubin-Vega) separar o joio do trigo e chegar a uma verdade absoluta. Que talvez não exista.

É justamente o fato de evitar o maniqueísmo que ajuda e ao mesmo tempo atrapalha "Garotas selvagens". Ao mostrar que ninguém é exatamente bom ou ruim o tempo todo, tanto o roteirista Stephen Peters quanto o diretor McNaughton tiram o prazer da audiência de assistir-se a um filme onde se está plenamente claro para quem se deve torcer. Por outro lado, a trama torna-se imprevisível, o que também é uma qualidade rara no cinemão americano (mesmo que essa imprevisibilidade esbarre muitas vezes no nonsense). Depois da terceira reviravolta, fica evidente que tudo não passa de uma grande brincadeira (mesmo porque levar Denise Richards, Matt Dillon e Neve Campbell a sério é difícil...), mas a questão que fica é se o público está disposto a participar dela ou não. Se sim, pode deixar o senso de realidade descansando e se divertir. Se não, é capaz de terminar o filme com um amargo gosto de decepção....

Enfim, "Garotas selvagens" é tão ruim que chega a ser bom. Melhor acreditar nas intenções de McNaughton do que considerá-lo um embuste.

Thursday, March 10, 2011

SLEEPERS, A VINGANÇA ADORMECIDA

SLEEPERS, A VINGANÇA ADORMECIDA (Sleepers, 1996, Baltimore Pictures/Polygram Filmed Entertainment, 147min) Direção: Barry Levinson. Roteiro: Barry Levinson, livro de Lorenzo Carcaterra. Fotografia: Michael Balhaus. Montagem: Stu Linder. Música: John Williams. Figurino: Gloria Gresham. Direção de arte/cenários: Kristi Zea/Beth A. Rubino. Produção executiva: Peter Giuliano. Produção: Steve Golin, Barry Levinson. Elenco: Brad Pitt, Jason Patric, Kevin Bacon, Robert DeNiro, Dustin Hoffman, Minnie Driver, Billy Crudup, Ron Eldard, Brad Renfro, Vittorio Gassman, Terry Kinney, Bruno Kirby, Joseph Perrino, Geoffrey Vigdor, Jonathan Tucker. Estreia: 18/10/96

Indicado ao Oscar de Melhor Trilha Sonora Original/Drama

Alguns filmes marcam pelo romantismo ingênuo e feliz que transmitem. Alguns filmes ficam na memória da audiência devido às mensagens positivas que passam através de suas tramas. Outros ainda encantam pela beleza estética ou pela força de seus roteiros. No entanto, alguns (bons) filmes também podem tornar-se inesquecíveis por sua melancolia intrínseca, pela tristeza poderosa que emana de suas histórias, normalmente focadas em personagens tão reais quanto a plateia. Um filme que se encaixa nessa última categoria é "Sleepers, a vingança adormecida", um petardo emocional dirigido por Barry Levinson e pretensamente inspirado em uma história verdadeira. Baseado em um livro de Lorenzo Carcaterra - que o escreveu em forma de memórias - o filme causou polêmica quando teve sua veracidade questionada por investigações posteriores. No entanto, verdadeira ou não, sua história é forte o bastante para suscitar discussões e pesar feito um tijolo na memória dos espectadores.

Ao falar de pedofilia, abuso sexual, perjúrio, violência doméstica e delinquência juvenil, o oscarizado Barry Levinson enfrentou ainda mais controvérsia do que em seu filme anterior, "Assédio sexual", que fez sucesso de público (mas não de crítica) e que serviu apenas como veículo para o sex-appeal de Demi Moore. Sensível e talentoso, Levinson conseguiu revestir de sutileza uma trama pesada e angustiante, e o que é mais surpreendente, fez com que o público questionasse verdades até então estabelecidas como imutáveis. Sim, em "Sleepers" a plateia torce para que um padre cometa perjúrio para inocentar dois réus que - todo mundo viu - mataram a tiros um homem enquanto este jantava em um restaurante. Por que? É aí que a polêmica começa.

"Sleepers" tem início em 1966, em Hell's Kitchen, um bairro nova-iorquino onde se misturavam descendentes de italianos, irlandeses e todo tipo de pequenos e grandes marginais. É lá que quatro amigos adolescentes vivem esperando a idade adulta: Michael Sullivan (Brad Renfro), Lorenzo Carcaterra (Joseph Perrino), John Reilly (Geoffrey Wigdor) e Tommy Marcano (Jonathan Tucker) são unidos e encontram em sua amizade um oásis em meio às crises domésticas que os rodeiam. Em uma tarde quente de verão, como forma de passar um dia tedioso, eles decidem passar a perna em um vendedor de cachorro-quente e a brincadeira acaba tragicamente. Condenados a passar um ano presos em um reformatório, eles encontram apoio apenas na amizade do Padre Robert Carillo (Robert DeNiro). Encarcerados na instituição penal, eles começam a sofrer maus-tratos, abusos sexuais e extrema violência por parte dos guardas, em especial do líder deles, Noakes (Kevin Bacon).

A história, então, dá um pulo até 1981, quando, entregues à marginalidade, John (Ron Eldard) e Tommy (Billy Crudup, estreando no cinema) dão de cara com Noakes em um restaurante e o executam com meia dúzia de tiros. Levados à julgamento, eles se surpreendem ao descobrir que o promotor do caso é seu amigo de infância Michael (Brad Pitt), que, na verdade, contando com a ajuda de Lorenzo (Jason Patric) - agora um jornalista - tem um plano detalhado de vingança contra seus agressores, que envolve um advogado de defesa contratado pela Máfia (Dustin Hoffman) e Carol (Minnie Driver), amiga de infância do grupo.


Barry Levinson conduz de maneira correta sua história de perda da inocência, mas não consegue evitar a queda de ritmo em sua segunda metade, quando o elenco jovem sai de cena para que o segundo ato - o da vingança propriamente dita - comece. Contando com atores juvenis extraordinariamente capazes de despertar a simpatia e a compaixão da audiência, ele estabelece o tom sombrio já antes dos créditos de abertura, com a narração em off de Jason Patric (o menos carismático de todo o elenco). Quando a segunda parte do filme começa há uma espécie de quebra que a edição tem certos problemas em resolver - ainda que ecoe o trabalho de Thelma Schoonmaker em "Os bons companheiros" e "Cassino" em sua hora inicial, a montagem carece de um ritmo mais ágil depois do assassinato de Nokes (diga-se de passagem, vivido com maestria por Kevin Bacon). Talvez o problema seja também a falta de entusiasmo do maior astro do filme: na pele de Michael, o até então infalível Brad Pitt demonstra um cansaço que, apesar de ajudar na construção da personagem, soa como desinteresse aos olhos do público. Para sua sorte, Dustin Hoffman está inspirado como sempre e Robert DeNiro não precisa falar muito para passar seu recado (um exemplo claro dessa afirmação é a cena em que ele ouve, estupefacto, a descrição dos horrores pelos quais seus meninos passaram na casa de correção). No mínimo por Hoffman e DeNiro já seria obrigatória uma sessão de "Sleepers". Mas a boa notícia é que os rapazes da primeira metade também são sensacionais.

Com exceção de Jonathan Tucker, que se mantém em atividade em filmes como "72 horas" e Brad Renfro - que prometia tornar-se astro mas morreu precocemente aos 25 anos, em 2008 - os jovens "sleepers" (gíria que designa rapazes que cumpriram pena em instituições correcionais) não foram muito felizes em suas escolhas profissionais: Geoffrey Wigdor, que vive o frágil John Reilly, faz participação em séries de TV, assim como Joseph Perrino, que interpreta o narrador da história, Lorenzo Carcaterra. Juntos, os quatro são o destaque absoluto no elenco de uma obra que não dá tréguas ao espectador em momento algum. Do início ao fim não há espaço para o humor ou o romantismo (que surge nas cenas de Minnie Driver com Brad Pitt, mas apenas como mais um elemento melancólico). Mas, apesar dos pesares, "Sleepers" é um filme que melhora a cada revisão.

Fotografado claustrofobicamente por Michael Ballhaus e pontuado por uma trilha sonora discreta de John Williams, "Sleepers" é um trabalho denso e um tanto depressivo, mas feito com honestidade e talento E alguns filmes marcam justamente pela coragem de tocar em assuntos difíceis de forma contundente e real.

Saturday, January 29, 2011

ASSASSINATO EM PRIMEIRO GRAU

ASSASSINATO EM PRIMEIRO GRAU (Murder in the first, 1995, Warner Bros, 122min) Direção: Marc Rocco. Roteiro: Dan Gordon. Fotografia: Fred Murphy. Montagem: Russell Livingstone. Música: Christopher Young. Figurino: Sylvia Vega Vasquez. Direção de arte/cenários: Kirk M. Petruccelli/Greg Grande. Produção executiva: Marc Rocco, David L. Wolper. Produção: Marc Frydman, Mark Wolper. Elenco: Kevin Bacon, Christian Slater, Gary Oldman, Embeth Davidtz, William H. Macy, Stephen Tobolowsky, Brad Dourif, R.Lee Ermey. Estreia: 20/01/95

Um dos mais famosos presídios do mundo, Alcatraz foi o tema central de um dos mais conhecidos filmes de Clint Eastwood, "Alcatraz, fuga impossível", de 1979. Considerado um dos presídios mais seguros do planeta, localizado em uma ilha perto de San Francisco e construída em 1934 (sobreviveu como instituição penal até 1963), Alcatraz passou, ao menos na sétima arte, de cenário a personagem. Em "Assassinato em primeiro grau", ele foi, inclusive, acusado de cumplicidade em um homicídio. Baseado em uma história real, o filme de Marc Rocco - que ficou com um projeto inicialmente pensado para Oliver Stone - tem boas intenções (denunciar o sistema penitenciário e a violação de direitos humanos), mas esbarra na total falta de sutileza de seu diretor.

Nos anos 30, quando Alcatraz estava no auge de sua fama como um local de fuga impossível, o jovem Henry Young (Kevin Bacon) tenta escapar, em companhia de outros presidiários. Capturado em seguida, ele é mandado para a solitária, ficando sem sol, sem luz e sem contato com quaisquer seres humanos pelo absurdo prazo de 3 anos e 2 meses - sendo que o máximo permitido por lei para tal castigo é de apenas 19 dias. Brutalizado pelo superindentente do lugar, o frio Milton Glenn (Gary Oldman), ele sai do buraco onde esteve encarcerado e tenta voltar à vida normal de condenado. No entanto, ele mata violentamente o delator de seu plano de fuga e volta ao banco dos réus, sob risco de ser condenado à morte - sendo que foi preso pela primeira vez por roubar 5 dólares de um posto de correio. Para defendê-lo, é designado o jovem e idealista James Stamphill (Christian Slater), que surpreende a audiência ao afirmar que o principal culpado do crime não é Young, e sim o sistema carcerário de Alcatraz.

Como convém a um filme com pretensões comerciais, "Assassinato em primeiro grau" toma algumas liberdades poéticas para contar sua história, a principal delas em relação a um de seus protagonistas, o apenado Henry Young. Retratado no roteiro de Dan Gordon como uma vítima absoluta do sistema e da sociedade (como normalmente acontece com filmes com intenções de provocar discussões), o verdadeiro Young não era tão desprovido de maldade e nem tão puro assim, tendo cometido roubo a banco, violência contra um refém e até mesmo um assassinato ANTES de ser encarcerado em Alcatraz. Não justifica nenhuma violência cometida contra ele, é claro, mas é um truque um tanto sujo dos produtores, que forçam assim uma empatia óbvia com ele. E talvez seja justamente nesse ponto que a receita desanda.

Dirigindo com mão pesada uma história por si só trágica e absurda, Marc Rocco - que não assinou mais nenhum filme desde então - peca principalmente por não permitir ao público as discussões que tenta suscitar. Não há espaço para argumentos, uma vez que, no maniqueísta roteiro, o bem e o mal estão claramente delineados. Henry Young é puro, virgem, injustiçado e torna-se um herói involuntário da mídia. James Stamphill é idealista, íntegro e corajoso, capaz de lutar contra todo o sistema apenas para ver a justiça prevalecer. E Milton Glenn, que dirige o presídio, é frio, cruel, arrogante e incapaz de um sentimento nobre. Essa pobreza de nuances é o calcanhar de Aquiles do projeto, que se salva da mediocridade graças a seu elenco.

Apesar de Christian Slater ser sempre o mesmo, ele divide a cena com dois atores que, de maneiras diferentes, atigem seus objetivos. Enquanto Kevin Bacon luta claramente para dar credibilidade a seu Henry Young, mesmo caindo na armadilha do exagero em alguns momentos (sua entrega ao papel é louvável), Gary Oldman não parece precisar de muito esforço para sobressair-se. Seu olhar impenetrável, seu tom monocórdio e sua expressão de rocha dizem muito mais do que a trilha sonora exagerada e os diálogos empolados e repleto de frases de efeito do roteiro. Nem mesmo a fotografia - aparentemente claustrofóbica mas na verdade apenas escura e sem criatividade - chama a atenção, sendo tão comum quanto o resultado final do filme.

A história de "Assassinato em primeiro grau" é interessante. O elenco convence. Mas o filme é desnecessariamente longo e aborrecido. Um diretor mais talentoso talvez o salvasse de ser tão comum e tão historicamente discutível!

Sunday, November 28, 2010

QUESTÃO DE HONRA

QUESTÃO DE HONRA (A few good men, 1992, Columbia Pictures/Castle Rock Entertainment, 138min) Direção: Rob Reiner. Roteiro: Aaron Sorkin, peça teatral de Aaron Sorkin. Fotografia: Robert Richardson. Montagem: Robert Leighton, Steve Nevius. Música: Marc Shaiman. Figurino: Gloria Gresham. Direção de arte/cenários: J. Michael Riva/Michael Taylor. Casting: Janet Hirshenson, Jane Jenkins. Produção executiva: William Gilmore, Rachel Pfeffer. Produção: David Brown, Rob Reiner, Andrew Scheinman. Elenco: Tom Cruise, Jack Nicholson, Demi Moore, Kiefer Sutherland, Kevin Bacon, Kevin Pollack, Noah Wyle, Xander Berkeley, Cuba Gooding Jr., James Marshall, J.T. Walsh. Estreia: 11/12/92

4 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Ator Coadjuvante (Jack Nicholson), Roteiro Adaptado, Som
 Não deixa de ser interessante e sintomático notar que, no mesmo ano em que Quentin Tarantino fazia sua estreia nas telas com o agressivo e inovador "Cães de aluguel", a Academia de Hollywood tenha indicado para seu Oscar de Melhor Filme uma produção tão quadradinha quanto "Questão de honra". Baseado em uma peça de teatro de Aaron Sorkin (também autor do roteiro), o filme de Rob Reiner é extremamente bem realizado, bem dirigido e feito com uma competência assustadora. Mas, é, ao mesmo tempo, tão clássico, tão correto e tão tecnicamente admirável - a ponto de acabar com um vintage "The end" - que parece de plástico. Apesar disso - ou talvez por isso - é um filme de tribunal empolgante e que, se não chega a ser uma obra-prima, é um dos trabalhos mais interessantes de Tom Cruise.

Ainda em sua tentativa de fugir do estereótipo de galã, Cruise interpreta aqui, o jovem advogado da marinha Daniel Kaefe, que recebe a incumbência de defender, nos tribunais, dois soldados acusados de matar um colega. Acostumado a resolver todos os seus casos com acordos, logo ele passa a ser pressionado por sua superior, a Tenente JoAnne Galloway (Demi Moore) a insistir em uma defesa mais aguerrida. Certos de que os dois réus cometeram o crime cumprindo ordens superiores - um tal "código vermelho" comum na Marinha americana - eles resolvem arriscar suas carreiras ao chamar para depor como testemunha o poderoso Coronel Nathan Jessep (Jack Nicholson).

É difícil encontrar um defeito técnico em "Questão de honra". A música grandiloquente de Marc Shaiman, a edição concisa de Robert Leighton e o roteiro de Aaron Sorkin não deixam espaço para críticas. O elenco é o melhor que se poderia reunir na época: Cruise e Demi Moore eram astros quentíssimos e Jack Nicholson dispensa comentários (sua atuação lhe rendeu uma indicação ao Oscar). A direção de Rob Reiner é correta, discreta e eficaz, e o clímax é poderoso e interpretado com garra. Por que então "Questão de honra" - apesar do sucesso de bilheteria e das indicações ao Oscar - não é lembrado hoje como o excelente filme que é? Justamente por seu medo de ousar.
Na sua tentativa de agradar a todas as fatias de público possíveis - opção esta que a gorda bilheteria mostrou acertada - Reiner construiu um filme meticulosamente fotografado, com um script escrito com a precisão de um relógio cuco e um visual caprichado, em que desde as primeiras sequências fica evidente o cuidado com a produção. Também é elogiável a escolha em não criar um desnecessário romance entre as personagens de Cruise e Demi Moore, o que enfraqueceria a história e mataria o ritmo cadenciado proposto por Sorkin. Mas, mais do que tudo, o que "Questão de honra" tem de melhor é seu elenco.

Se Cruise convence no papel de Daniel Kaffe e Demi Moore entrega uma atuação correta - sem ter que apelar para sua extrema beleza - são os coadjuvantes que definitivamente roubam a cena. Como um dos vilões Kiefer Sutherland exercita sua veia cruel, e Kevin Bacon se mostra um ator versátil e competente como o promotor que luta contra o protagonista no tribunal. E Jack Nicholson, em um dos desempenhos mais assustadores de sua carreira, engole todos à sua volta, com um trabalho excepcional. E o fato de Tom Cruise ter encarado sem medo o veterano ator em uma sequência empolgante, no capítulo final, reitera a afirmação de que, quando bem dirigido, o galã de "Top Gun" tem seu valor dramático.

Deixando de lado os preconceitos contra filmes "certinhos", é possível se encantar com todas as qualidades de "Questão de honra". Não muda a vida de ninguém, mas prende a atenção e é feito com uma inteligência acima da média.

Tuesday, October 12, 2010

LINHA MORTAL

LINHA MORTAL (Flatliners, 1990, Columbia Pictures, 115min) Direção: Joel Schumacher. Roteiro: Peter Filardi. Fotografia: Jan De Bont. Montagem: Robert Brown. Música: James Newton Howard. Figurino: Susan Becker. Direção de arte/cenários: Eugenio Zanetti/Anne L. Kuljian. Casting: Mali Finn. Produção executiva: Peter Filardi, Michael Rachmil, Scott Rudin. Produção: Rick Bieber, Michael Douglas. Elenco: Kiefer Sutherland, Kevin Bacon, Julia Roberts, William Baldwin, Oliver Platt, Hope Davis. Estreia: 10/8/90

Indicado ao Oscar de Efeitos Sonoros

No mesmo ano em que "Ghost, do outro lado da vida" rendeu milhões e milhões de dólares pelos cinemas mundo afora, um suspense estiloso, com uma ideia instigante sobre a vida após a morte e um elenco de jovens astros em ascensão - em especial a linda mulher Julia Roberts - não poderia dar errado, mesmo com a direção do irregular Joel Schumacher. E não deu. "Linha mortal", co-produzido pelo ator Michael Douglas, fez sucesso de crítica e bilheteria, mesmo não cumprindo tudo que promete em seu início intrigante.

Liderados pelo brilhante Nelson (Kiefer Sutherland), um grupo de talentosos estudantes de Medicina resolve investigar o que acontece após a morte física, causando em si mesmo a morte por alguns minutos. Testando cada vez mais seus próprios limites, o rebelde David Labraccio (Kevin Bacon), o don-juan Hurley (William Baldwin) e a reservada Rachel Mannus (Julia Roberts, em uma personagem distante anos-luz de sua prostituta sedutora de "Uma linda mulher", o que comprova seu talento), acompanhados do tímido Steckle (Oliver Platt), chegam cada vez mais longe da vida, buscando as respostas que podem fazê-los famosos e/ou mais conscientes de sua finitude. Acontece que, em como todo bom suspense, as coisas não saem exatamente como esperadas. Cada um deles, de volta à vida, traz junto consigo algo mal-resolvido de seu passado. Assim, Nelson traz um amigo de infância que morreu devido à sua perseguição, Labraccio passa a ter visões de uma colega de classe que era humilhada por ele, Hurley começa a sentir-se ameaçado por imagens de mulheres que ele filmou durante o ato sexual e Rachel volta a ver o pai, que ela julga ter cometido suicídio por sua causa.
A trama de "Linha mortal" é, sem dúvida, extremamente interessante e surgiu no momento certo. O clima mórbido é acentuado pela ótima fotografia de Jan De Bont, e a música de James Newton Howard funciona espetacularmente, em especial em seu casamento perfeito com a criativa direção de arte de Eugenio Zanetti. O problema é que algumas pontas soltas incomodam - menos que as piadinhas de Oliver Platt, no entanto - e, se não chegam a estragar a diversão impedem de transformar o filme em um dos melhores suspenses de sua época.

Ao fugir de discussões filosóficas/existencialistas que a trama implora em suscitar, o roteiro de Peter Filardi opta por contar apenas uma boa história. É bem mais do que normalmente acontece, mas deixa no ar um gostinho de quero-mais. Com bom clima, inteligência e o talento de Kiefer Sutherland e Julia Roberts - na época um casal dos mais promissores -, no entanto, é diversão garantida.

Monday, July 5, 2010

FOOTLOOSE, RITMO LOUCO


FOOTLOOSE, RITMO LOUCO (Footloose, 1984, Paramount Pictures, 107min) Direção: Herbert Ross. Roteiro: Dean Pitchford. Fotografia: Ric Waite. Montagem: Paul Hirsch. Figurino: Gloria Gresham. Direção de arte/cenários: Ron Hobbs/Mary Olivia Swanson. Casting: Jane Feinberg, Mike Fenton, Marci Liroff. Produção executiva: Daniel Melnick. Produção: Lewis J. Rachmil, Craig Zadan. Elenco: Kevin Bacon, Lori Singer, Dianne Wiest, John Lithgow, Chris Penn, Sarah Jessica Parker. Estreia: 17/02/84

2 indicações ao Oscar: Canção ("Footlose", "Let's hear it for the boy")

Existem situações apresentadas em filmes que parecem tão absurdas que é difícil acreditar que elas realmente aconteceram na vida real. E é mais ou menos isso que acontece quando se assiste a "Footloose, ritmo louco", um dos clássicos absolutos dos anos 80, constantemente reprisado na televisão aberta na década seguinte. Segundo Kenny Loggins, compositor da conhecida canção-tema indicada ao Oscar, os acontecimentos mostrados no filme de Herbert Ross são inspirados em eventos que realmente aconteceram em uma pequena cidade de Oklahoma em 1978, quando um grupo de adolescentes conseguiu acabar com a lei que proibia qualquer tipo de dança nas festas.

Logicamente o roteiro de Dean Pitchford floreia um pouco a história para melhor apetecer à plateia jovem, que lotou sessões de cinema mundo afora e transformou o filme em um sucesso atemporal - há inclusive boatos de uma refilmagem, que Zach Efron dispensou para não ficar marcado como ator de musicais. Mas o fato é que apesar de parecer forçada, a trama é baseada em situações reais e conquista o público independentemente de suas origens veridícas. Kevin Bacon, no papel que lhe rendeu o estrelato aos 24 anos, vive Ren McCormack, que chega, depois do divórcio dos pais, a uma pequena cidade do interior dos EUA. Acostumado com uma vida liberal e quase independente, ele fica chocado com a rigidez das regras impostas por Shaw Moore (John Lithgow), o reverendo da cidade. Seguidas cegamente pela população - mas questionadas ferozmente por sua filha Ariel (Lori Singer) - as leis morais impedem inclusive que os jovens da cidade possam dançar em suas festas. Apaixonado por Ariel, Ren resolve convencer seus colegas a exigir uma festa de formatura com tudo que eles tem direito - e bate de frente com o líder espiritual do lugar.



Sem pretensões maiores a não ser contar uma história simples e divertida - ainda que critique de forma não muito velada a hipocrisia religiosa e utilize a dança mais uma vez como metáfora para o sexo - o filme de Herbert Ross (diretor do elogiadíssimo "Momento de decisão") seduz justamente por sua falta de ambição. Não há grandes complexidades psicológicas em suas personagens - ainda que os atos do reverendo tenham razões bem justificáveis - e nem mesmo o romance central chega a ser eletrizante (culpa talvez da fraca Lori Singer, que ficou com o papel principal depois da recusa de várias atrizes jovens que começavam no cinema à época). Mas sua trilha sonora vibrante conquista até o mais preguiçoso espectador.

Aliás, é o público fiel que faz de "Footloose" o sucesso que ele é ate hoje. Kevin Bacon, mesmo consagrado por inúmeros outros papéis importantes, ainda é lembrado por seu Ren McCormack (que o diga um engraçadíssimo episódio da extinta série "Will & Grace") e sua coreografia enlouquecida - e ele ficou com o papel apenas porque Tom Cruise estava compromissado com outro filme e Rob Lowe machucou-se antes das filmagens. E seria interessante imaginar como seria o resultado final se o megalomaníaco Michael Cimino tivesse sido o diretor ou qualquer outra atriz fizesse par romântico com Bacon - e aí pode-se escolher entre Daryl Hannah, Melanie Griffith, Michelle Pfeiffer, Jamie Lee Curtis, Meg Ryan, Jennifer Jason-Leigh, Jodie Foster, Brooke Shields, Diane Lane ou Bridget Fonda. Possivelmente qualquer uma seria mais memorável que a apática Lori Singer, que permite, em uma revisão, ser eclipsada pelos coadjuvantes que fizeram carreira - o falecido Chris Penn bem mais magro e a Carrie Bradshaw em pessoa Sarah Jessica Parker em uma partipação pequena.

"Footloose" ainda funciona como sessão de tarde. E sua música-tema ainda levanta qualquer festa saudosista.