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Monday, July 5, 2010

FOOTLOOSE, RITMO LOUCO


FOOTLOOSE, RITMO LOUCO (Footloose, 1984, Paramount Pictures, 107min) Direção: Herbert Ross. Roteiro: Dean Pitchford. Fotografia: Ric Waite. Montagem: Paul Hirsch. Figurino: Gloria Gresham. Direção de arte/cenários: Ron Hobbs/Mary Olivia Swanson. Casting: Jane Feinberg, Mike Fenton, Marci Liroff. Produção executiva: Daniel Melnick. Produção: Lewis J. Rachmil, Craig Zadan. Elenco: Kevin Bacon, Lori Singer, Dianne Wiest, John Lithgow, Chris Penn, Sarah Jessica Parker. Estreia: 17/02/84

2 indicações ao Oscar: Canção ("Footlose", "Let's hear it for the boy")

Existem situações apresentadas em filmes que parecem tão absurdas que é difícil acreditar que elas realmente aconteceram na vida real. E é mais ou menos isso que acontece quando se assiste a "Footloose, ritmo louco", um dos clássicos absolutos dos anos 80, constantemente reprisado na televisão aberta na década seguinte. Segundo Kenny Loggins, compositor da conhecida canção-tema indicada ao Oscar, os acontecimentos mostrados no filme de Herbert Ross são inspirados em eventos que realmente aconteceram em uma pequena cidade de Oklahoma em 1978, quando um grupo de adolescentes conseguiu acabar com a lei que proibia qualquer tipo de dança nas festas.

Logicamente o roteiro de Dean Pitchford floreia um pouco a história para melhor apetecer à plateia jovem, que lotou sessões de cinema mundo afora e transformou o filme em um sucesso atemporal - há inclusive boatos de uma refilmagem, que Zach Efron dispensou para não ficar marcado como ator de musicais. Mas o fato é que apesar de parecer forçada, a trama é baseada em situações reais e conquista o público independentemente de suas origens veridícas. Kevin Bacon, no papel que lhe rendeu o estrelato aos 24 anos, vive Ren McCormack, que chega, depois do divórcio dos pais, a uma pequena cidade do interior dos EUA. Acostumado com uma vida liberal e quase independente, ele fica chocado com a rigidez das regras impostas por Shaw Moore (John Lithgow), o reverendo da cidade. Seguidas cegamente pela população - mas questionadas ferozmente por sua filha Ariel (Lori Singer) - as leis morais impedem inclusive que os jovens da cidade possam dançar em suas festas. Apaixonado por Ariel, Ren resolve convencer seus colegas a exigir uma festa de formatura com tudo que eles tem direito - e bate de frente com o líder espiritual do lugar.



Sem pretensões maiores a não ser contar uma história simples e divertida - ainda que critique de forma não muito velada a hipocrisia religiosa e utilize a dança mais uma vez como metáfora para o sexo - o filme de Herbert Ross (diretor do elogiadíssimo "Momento de decisão") seduz justamente por sua falta de ambição. Não há grandes complexidades psicológicas em suas personagens - ainda que os atos do reverendo tenham razões bem justificáveis - e nem mesmo o romance central chega a ser eletrizante (culpa talvez da fraca Lori Singer, que ficou com o papel principal depois da recusa de várias atrizes jovens que começavam no cinema à época). Mas sua trilha sonora vibrante conquista até o mais preguiçoso espectador.

Aliás, é o público fiel que faz de "Footloose" o sucesso que ele é ate hoje. Kevin Bacon, mesmo consagrado por inúmeros outros papéis importantes, ainda é lembrado por seu Ren McCormack (que o diga um engraçadíssimo episódio da extinta série "Will & Grace") e sua coreografia enlouquecida - e ele ficou com o papel apenas porque Tom Cruise estava compromissado com outro filme e Rob Lowe machucou-se antes das filmagens. E seria interessante imaginar como seria o resultado final se o megalomaníaco Michael Cimino tivesse sido o diretor ou qualquer outra atriz fizesse par romântico com Bacon - e aí pode-se escolher entre Daryl Hannah, Melanie Griffith, Michelle Pfeiffer, Jamie Lee Curtis, Meg Ryan, Jennifer Jason-Leigh, Jodie Foster, Brooke Shields, Diane Lane ou Bridget Fonda. Possivelmente qualquer uma seria mais memorável que a apática Lori Singer, que permite, em uma revisão, ser eclipsada pelos coadjuvantes que fizeram carreira - o falecido Chris Penn bem mais magro e a Carrie Bradshaw em pessoa Sarah Jessica Parker em uma partipação pequena.

"Footloose" ainda funciona como sessão de tarde. E sua música-tema ainda levanta qualquer festa saudosista.

Friday, July 2, 2010

LAÇOS DE TERNURA


LAÇOS DE TERNURA (Terms of endearment, 1983, Paramount Pictures, 132min) Direção: James L. Brooks. Roteiro: James L. Brooks, romance de Larry McMurtry. Fotografia: Andrzej Bartkowiak. Montagem: Richard Marks. Música: Michael Gore. Figurino: Kristi Zea. Direção de arte/cenários: Polly Platt/Anthony Mondell, Tom Pedigo. Casting: Ellen Chenoweth, Juliet Taylor. Produção: James L. Brooks. Elenco: Shirley MacLaine, Debra Winger, Jack Nicholson, Jeff Daniels, John Lithgow, Danny De Vito. Estreia: 20/11/83

11 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (James L. Brooks), Atriz (Shirley MacLaine, Debra Winger), Ator Coadjuvante (John Lithgow, Jack Nicholson), Roteiro Adaptado, Montagem, Trilha Sonora, Direção de arte, Som

Vencedor de 5 Oscar: Melhor Filme, Diretor (James L. Brooks), Atriz (Shirley MacLaine), Ator Coadjuvante (Jack Nicholson), Roteiro Adaptado

Vencedor de 4 Golden Globes: Melhor Filme/Drama, Atriz/Drama (Shirley MacLaine), Ator Coadjuvante (Jack Nicholson), Roteiro


Poucos filmes são capazes de fazer rir e chorar com a mesma facilidade. E ainda menos filmes conseguem retratar seres humanos como eles são, com falhas de caráter e mesmo assim adoráveis, com rígidas normas morais e ainda assim capazes de atos condenáveis aos olhos alheios. Talvez por isso “Laços de ternura” tenha feito tanto sucesso e emocionado tanta gente. Ao dar vida aos personagens criados por Larry McMurtry em seu romance homônimo, o roteirista e diretor James L. Brooks fez deles tão humanos quanto os vizinhos. Em uma época de filmes tão fora da realidade quanto “O retorno de Jedi”, a história de amor e quase ódio entre mãe e filha foi um oásis de inteligência e sensibilidade.

Em uma atuação brilhante premiada com o Oscar, a veterana Shirley MacLaine vive Aurora Greenway, uma viúva autoritária que tem sérios problemas com sua única filha, a rebelde Emma (Debra Winger). Quando Emma resolve se casar com o professor universitário Flap (Jeff Daniels), o relacionamento entre elas, que nunca foi dos melhores, fica ainda pior. Enquanto Aurora se envolve aos poucos com seu vizinho, o sedutor ex-astronauta Garrett Breedlove (Jack Nicholson, em mais uma de suas irrepreensíveis atuações), Emma entra em crise em seu casamento, envolve-se com outro homem e descobre ter câncer.

Os direitos do romance de Larry McMurtry foram comprados pela atriz Jennifer Jones, que pensava em interpretar Aurora, com Sissy Spacek no papel de Emma. As mudanças no elenco, no entanto, não poderiam ter sido mais certeiras. Apesar de estar no auge de seu vício em cocaína - e que a levava a constantes brigas com MacLaine - Debra Winger entrega uma atuação comovente e delicada como uma mulher aprisionada em uma vida doméstica insatisfatória que busca refúgio em uma relação extra-conjugal. Indicada ao Oscar de melhor atriz, Winger herdou o papel depois da recusa de Jodie Foster - que preferiu continuar estudando, à época - e está inesquecível principalmente em suas cenas finais, onde sua personagem se despede dos filhos. Difícil segurar as lágrimas.

Mas talvez o maior mérito de “Laços de ternura” seja o de equilibrar brilhantemente o humor e o drama. O terço inicial do filme tem estrutura de uma leve comédia familiar, que aos poucos vai tornando-se um drama sentimental e quase piegas. Nas mãos de atores menos competentes e experientes provavelmente o filme descambaria para um novelão. No entanto, Brooks tem a seu favor um elenco impecável e em dias inspirados. Como mãe e filha, Shirley MacLaine e Debra Winger formam uma dupla de ouro, capazes de passar suas emoções com veracidade e naturalidade. Coadjuvadas por Jack Nicholson (com uma personagem criada especialmente para o filme)e com um texto enxuto e bem escrito para trabalhar em cima não tinha como dar errado. Pode ser choroso, sentimentalóide e até exagerado, mas “Laços de ternura” é provavelmente um dos filmes mais honestos a respeito do relacionamento entre mãe e filha já feitos até hoje. E deu a Shirley MacLaine a oportunidade máxima de sua carreira, merecidamente premiada com um Oscar.