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Saturday, July 3, 2010

SCARFACE


SCARFACE (Scarface, 1983, Universal Pictures, 170min) Direção: Brian DePalma. Roteiro: Oliver Stone. Fotografia: John A. Alonzo. Montagem: Jerry Greenberg, David Ray. Música: Giorgio Moroder. Figurino: Patricia Norris. Direção de arte/cenários: Ed Richardson/Bruce Weintraub. Casting: Alixe Gordin. Produção executiva: Louis A. Stroller. Produção: Martin Bregman. Elenco: Al Pacino, Michelle Pfeiffer, Steven Bauer, Mary Elizabeth Mastrantonio, Robert Loggia, F. Murray Abraham. Estreia: 01/12/83

Em 1932, nos primórdios do cinema como o conhecemos hoje, Howard Hawks dirigiu o violento “Scarface, a vergonha de uma nação”, estrelado por Paul Muni. Na versão original, o protagonista tornava-se milionário durante a Lei Seca vigente na Chicago dos anos 20. Sinal dos tempos, a nova versão, dirigida por Brian de Palma e sua câmera nervosa, se passa na Miami dos anos 80 e faz uma radiografia tensa e sanguinolenta de um anti-herói que sobe na vida graças ao tráfico de cocaína. Se perde em charme, que Hawks imprimia em cada trabalho, ganha em realismo e ultraviolência.

Al Pacino, ainda que com muitos dos trejeitos de seu Michael Corleone, de “O Poderoso chefão”, brilha soberano como Tony Montana, um cubano que chega à Miami fugindo do regime totalitário de Fidel Castro. Insatisfeito com a vida quase marginal que vive, ele une-se a seu conterrâneo Manolo (o ótimo Steven Bauer) em um ambicioso negócio de tráfico de drogas que, mesmo dando errado – em uma sequência especialmente angustiante – o apresenta ao poderoso Frank (Robert Loggia), que logo o toma como homem de confiança. Apaixonado pela mulher de Frank, a bela e viciada Elvira (Michelle Pfeiffer, com pouca coisa a fazer a não ser desfilar sua figura esbelta pelas mansões do cenário), não demora muito para que Montana resolva pegar o negócio e o casamento de Frank. Enquanto enriquece vertiginosamente, vai perdendo a confiança em todos a seu redor, inclusive seu amigo Manolo, que, pra piorar ainda mais as coisas, se envolve com a única irmã de Tony, a jovem Gina (Mary Elizabeth Mastrantonio). Sua paranóia crescente e a violência que o cerca o acaba encurralando e o levando a um final trágico.

Não há como negar que Brian de Palma teve coragem em contar a história de Tony Montana sem rodeios nem firulas. O protagonista não é simpático nem tampouco coitadinho. Pacino se entrega furiosamente ao papel, especialmente nas seqüências finais, quando sua paranóia o leva ao isolamento em sua fortaleza, tal qual um personagem shakespereano. Nem o cenário propositalmente cafona consegue, no entanto, disfarçar a competência do diretor em realizar tomadas insuspeitas e criativas, principalmente nas cenas mais violentas e dramáticas. A trilha sonora de Giorgio Moroder, adequada mas quase irritante também cumpre seu papel, localizando o espectador nos aspectos mais regionais e temporais da trama. A edição alucinante - que acompanha a entrega de Montana ao vício - consegue ser impactante sem chamar atenção demasiada a si, o que sempre é sinal de competência. E o roteiro de Oliver Stone - que o escreveu lutando contra uma dependência de cocaína - não brinca em serviço, entregando à audiência um dos mais trágicos retratos do gangsterismo do cinema - e que quase levou um selo "X" à época de seu lançamento.

É notável, também, a coragem dos realizadores em quase explicitar o clima incestuoso entre Montana e Gina. O ciúme exagerado do protagonista em relação à irmã é bastante óbvia aqui, ao contrário do filme original - afinal, ele foi realizado em 1932!!!! E, como prova do talento de Stone como roteirista e polemista, ele aproveita para fazer severas críticas ao regime cubano, mesmo que estas passem batidas para quem se concentra única e exclusivamente à trama central, por si só já forte o bastante para manter a atenção durante suas longas três horas de duração.

Aliás, pode-se dizer que a duração excessiva é o pecado maior de "Scarface", um dos melhores "filmes de gângster" já realizados em Hollywood. Em nenhum momento essa nova versão mancha o nome da original, cujo diretor é devidamente homenageado com uma dedicatória no final. Vinte minutos a menos não trariam prejuízo à história e ajudaria no ritmo, mas mesmo assim é um filme obrigatório, mesmo porque Al Pacino e seu imenso talento sempre valem uma espiada.

Friday, July 2, 2010

LAÇOS DE TERNURA


LAÇOS DE TERNURA (Terms of endearment, 1983, Paramount Pictures, 132min) Direção: James L. Brooks. Roteiro: James L. Brooks, romance de Larry McMurtry. Fotografia: Andrzej Bartkowiak. Montagem: Richard Marks. Música: Michael Gore. Figurino: Kristi Zea. Direção de arte/cenários: Polly Platt/Anthony Mondell, Tom Pedigo. Casting: Ellen Chenoweth, Juliet Taylor. Produção: James L. Brooks. Elenco: Shirley MacLaine, Debra Winger, Jack Nicholson, Jeff Daniels, John Lithgow, Danny De Vito. Estreia: 20/11/83

11 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (James L. Brooks), Atriz (Shirley MacLaine, Debra Winger), Ator Coadjuvante (John Lithgow, Jack Nicholson), Roteiro Adaptado, Montagem, Trilha Sonora, Direção de arte, Som

Vencedor de 5 Oscar: Melhor Filme, Diretor (James L. Brooks), Atriz (Shirley MacLaine), Ator Coadjuvante (Jack Nicholson), Roteiro Adaptado

Vencedor de 4 Golden Globes: Melhor Filme/Drama, Atriz/Drama (Shirley MacLaine), Ator Coadjuvante (Jack Nicholson), Roteiro


Poucos filmes são capazes de fazer rir e chorar com a mesma facilidade. E ainda menos filmes conseguem retratar seres humanos como eles são, com falhas de caráter e mesmo assim adoráveis, com rígidas normas morais e ainda assim capazes de atos condenáveis aos olhos alheios. Talvez por isso “Laços de ternura” tenha feito tanto sucesso e emocionado tanta gente. Ao dar vida aos personagens criados por Larry McMurtry em seu romance homônimo, o roteirista e diretor James L. Brooks fez deles tão humanos quanto os vizinhos. Em uma época de filmes tão fora da realidade quanto “O retorno de Jedi”, a história de amor e quase ódio entre mãe e filha foi um oásis de inteligência e sensibilidade.

Em uma atuação brilhante premiada com o Oscar, a veterana Shirley MacLaine vive Aurora Greenway, uma viúva autoritária que tem sérios problemas com sua única filha, a rebelde Emma (Debra Winger). Quando Emma resolve se casar com o professor universitário Flap (Jeff Daniels), o relacionamento entre elas, que nunca foi dos melhores, fica ainda pior. Enquanto Aurora se envolve aos poucos com seu vizinho, o sedutor ex-astronauta Garrett Breedlove (Jack Nicholson, em mais uma de suas irrepreensíveis atuações), Emma entra em crise em seu casamento, envolve-se com outro homem e descobre ter câncer.

Os direitos do romance de Larry McMurtry foram comprados pela atriz Jennifer Jones, que pensava em interpretar Aurora, com Sissy Spacek no papel de Emma. As mudanças no elenco, no entanto, não poderiam ter sido mais certeiras. Apesar de estar no auge de seu vício em cocaína - e que a levava a constantes brigas com MacLaine - Debra Winger entrega uma atuação comovente e delicada como uma mulher aprisionada em uma vida doméstica insatisfatória que busca refúgio em uma relação extra-conjugal. Indicada ao Oscar de melhor atriz, Winger herdou o papel depois da recusa de Jodie Foster - que preferiu continuar estudando, à época - e está inesquecível principalmente em suas cenas finais, onde sua personagem se despede dos filhos. Difícil segurar as lágrimas.

Mas talvez o maior mérito de “Laços de ternura” seja o de equilibrar brilhantemente o humor e o drama. O terço inicial do filme tem estrutura de uma leve comédia familiar, que aos poucos vai tornando-se um drama sentimental e quase piegas. Nas mãos de atores menos competentes e experientes provavelmente o filme descambaria para um novelão. No entanto, Brooks tem a seu favor um elenco impecável e em dias inspirados. Como mãe e filha, Shirley MacLaine e Debra Winger formam uma dupla de ouro, capazes de passar suas emoções com veracidade e naturalidade. Coadjuvadas por Jack Nicholson (com uma personagem criada especialmente para o filme)e com um texto enxuto e bem escrito para trabalhar em cima não tinha como dar errado. Pode ser choroso, sentimentalóide e até exagerado, mas “Laços de ternura” é provavelmente um dos filmes mais honestos a respeito do relacionamento entre mãe e filha já feitos até hoje. E deu a Shirley MacLaine a oportunidade máxima de sua carreira, merecidamente premiada com um Oscar.

Thursday, July 1, 2010

ZELIG


ZELIG (Zelig, 1983, Orion Pictures, 79min) Direção e roteiro: Woody Allen. Fotografia: Gordon Willis. Montagem: Susan E. Morse. Música: Dick Hyman. Figurino: Santo Loquasto. Direção de arte/cenários: Mel Bourne/Les Bloom, Janet Rosenbloom. Casting: Juliet Taylor. Produção executiva: Charles H. Joffe, Jack Rollins. Produção: Robert Greenhut. Elenco: Woody Allen, Mia Farrow, Patrick Horgan, John Buckwalter. Estreia: 15/7/83

2 indicações ao Oscar: Fotografia, Figurino

Vencedor de Melhor Filme no Festival de Veneza


Os detratores de Woody Allen, que o acusam de ser repetitivo e sem criatividade provavelmente nunca assistiram a "Zelig", uma de suas mais sensacionais obras. Ao contar a história de seu protagonista através de um documentário fake mas absolutamente crível em formato e linguagem, ele adiantou em dez anos a tecnologia que faria a glória de Robert Zemeckis em "Forrest Gump" e de quebra mostrou que é muito mais do que um cineasta limitado ao circuito do humor judaico-intelectual-neurótico com o qual foi rotulado por parte da crítica - e até mesmo por alguns fãs.

O próprio Allen interpreta Leonard Zelig, um homem aparente comum, que, a partir do final dos anos 20, torna-se mania no mundo inteiro devido à sua condição médica: por algum motivo desconhecido, ele é capaz de metamorfosear-se em qualquer tipo de pessoa que esteja por perto. Ao lado de burgueses, ele é um deles. Perto de um obeso, torna-se obeso, e assim por diante. Intrigada com essa surpreendente novidade, a psiquiatra Eudora Fletcher (Mia Farrow) resolve tratá-lo e os dois acabam se apaixonando.

"Zelig" é, sem sombra de dúvida, um dos filmes mais criativos realizados em Hollywood nos anos 80. Irônico ao extremo e ao mesmo tempo carinhoso com seus protagonistas, o roteiro de Allen brinca com tudo que tem direito, sem nunca apelar para o riso escancarado: seu filme faz uma engraçada homenagem aos documentários, aos anos 20 de Fitzgerald e do charleston, ao nascimento da terapia, aos exageros da mídia e debocha descaradamente do nazismo e da busca por fama fácil. Além de tudo isso, ainda encontra espaço para questionar até que ponto os seres humanos podem chegar em sua procura por aceitação.

Se não bastasse seu roteiro espetacular, "Zelig" ainda conta com uma parte técnica além do excepcional. A fotografia de Gordon Willis (envelhecida propositalmente para dar o efeito de antiguidade) e a reconstituição de época são primorosas - não à toa, tanto Willis quanto o figurinista Santo Loquasto foram indicados ao Oscar por seus trabalhos. E é genial a maneira com que o diretor mistura seus protagonistas a celebridades verdadeiras (Charles Chaplin, por exemplo) e cenas de arquivo da época retratada, sem nunca perder o seu principal foco: a hilariante mas nunca pouco comovente história de Zelig e seu problema de auto-ajuste à sociedade.

"Zelig" é o perfeito exemplo de filme que merece ser visto para que se descubra suas vastas qualidades. Tudo que se disser a respeito dele sempre será incompleto, pois é, talvez, o trabalho de Woody Allen mais repleto de nuances e detalhes visuais e contextuais. Uma obra-prima irretocável!

Wednesday, June 30, 2010

FLASHDANCE, EM RITMO DE EMBALO


FLASHDANCE, EM RITMO DE EMBALO (Flashdance, 1983, Paramount Pictures, 95min) Direção: Adrian Lyne. Roteiro: Tom Hedley, Joe Eszterhas, história de Tom Hedley. Fotografia: Don Peterman. Montagem: Walt Mulconery, Bud Smith. Música: Giorgio Moroder. Figurino: Michael Kaplan. Direção de arte/cenários: Charles Rosen/Marvin March. Casting: Gretchen Rennell. Produção executiva: Peter Guber, Jon Peters. Produção: Jerry Bruckheimer, Don Simpson. Elenco: Jennifer Beals, Michael Nouri, Lilia Skala, Sunny Johnson. Estreia: 15/4/83

4 indicações ao Oscar: Fotografia, Montagem, Canção ("Flashdance... what a feeling", "Maniac")

Vencedor do Oscar de Canção ("Flashdance... what a feeling")

Vencedor de 2 Golden Globes: Trilha Sonora, Canção ("Flashdance... what a feeling")


É impressionante como, ao contrário da coragem e da ousadia do cinema americano dos anos 70, a filmografia da década de 80 conseguiu esvaziar - e muito - seu conteúdo psicológico e temático. Filmes como "Taxi driver" e "Amargo pesadelo" jamais teriam sido feitos se dependesse da visão oca de produtores como Don Simpson e Jerry Bruckheimer, que, na primeira metade da década entregaram aos frequentadores de cinema sucessos de bilheteria que não eram nada mais do que histórias de densidade dramática nulas embrulhadas em um visual atraente. Um exemplo claro disso é "Flashdance, em ritmo de embalo", que, apesar da fotografia caprichada e da trilha sonora pop cuidadosamente selecionada - e que vendeu mais de 700 mil cópias - é tão desprovido de inteligência que chega a ser constrangedor pensar que fez tanto sucesso.

"Flashdance" conta a história - se é que se pode chamar algo assim de história - de Alex Owens (Jennifer Beals com 18 anos que aparentam 25), uma jovem que sonha em ter uma carreira de dançarina e ganha a vida como soldadora (!!!). Incentivada por uma veterana bailarina, Hannah (Lilia Skala), e por uma dupla de amigos que aguardam o sucesso enquanto trabalham em bares e restaurantes, ela deseja inscrever-se em um curso profissionalizante. Enquanto isso não acontece ela inicia um romance com seu chefe, Nick Hurley (Michael Nouri). E o filme é só isso.

Quase metade do filme de Adrian Lyne (que se especializaria em projetos visualmente interessantes mas artisticamente capengas) é formado por sequências de dança, todas elas extremamente bem fotografadas, ainda que com a cara um tanto cafona dos anos 80. De cinco em cinco minutos a plateia é bombardeada com Beals e cia dançando de forma sexy em palcos, academias, em casa ou em ringues de patinação, ao som de uma trilha sonora marcante que apresenta inclusive a vencedora do Oscar cantada por Irene Cara. Os conflitos das personagens chegam a ser risíveis e é tudo tão, mas tão previsível e forçado que tem-se a impressão que o filme realmente não é pra ser levado a sério. Mas o problema é que é!

O roteiro de Joe Ezsterhas - que no início dos anos 90 ficaria rico com "Instinto selvagem" - não se dá ao trabalho de aprofundar nenhuma relação entre suas personagens, fazendo-as rasas e sem muito carisma. Nem mesmo a protagonista é suficientemente bela e/ou sensual para angariar a simpatia por méritos físicos. Não foi à toa que a carreira de Beals não decolou (sorte de Demi Moore, que quase ficou com o papel) e que Michael Nouri também não teve muito êxitos de bilheteria na sequência (e seu papel esteve em vias de ser interpretado por Kevin Costner...)

"Flashdance, em ritmo de embalo" é, na verdade, o tipo de filme que lembra uma época, que tem valor nostálgico, que serve de piada e que pode servir de telão de fundo em uma festa temática anos 80. Mas enquanto cinema não convence em momento algum. Pelo menos serviu de inspiração para Jennifer Lopez criar o vídeo-clipe "I'm glad", bem mais sensual e interessante.