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Tuesday, January 24, 2012

DEIXE-ME VIVER

DEIXE-ME VIVER (White oleander, 2002, Warner Bros, 109min) Direção: Peter Kosminsky. Roteiro: Mary Agnes Donoghue, romance de Janet Fitch. Fotografia: Elliott Davis. Montagem: Chris Risdale. Música: Thomas Newman. Figurino: Susie DeSanto. Direção de arte/cenários: Donald Graham Burt/Bryony Foster. Produção executiva: Stacy Cohen, E.K. Gaylord II, Kristin Harms, Patrick Markey. Produção: Hunt Lowry, John Wells. Elenco: Michelle Pfeiffer, Alison Lohmann, Renée Zellweger, Robin Wright-Penn, Patrick Fugit, Noah Wyle, Cole Hauser. Estreia: 11/10/02

Em 2002, a incansável máquina de fabricar novas estrelas que Hollywood jamais abandona encontrou um novo nome a ser explorado: com meros 13 anos de idade (mas trabalhando como atriz desde a mais tenra infância), a delicada Alison Lohman conquistou a simpatia do público e da crítica no papel de uma frágil pré-adolescente lutando para fugir do jugo de uma mãe dominadora condenada por homicídio. Depois de sua convincente atuação em "Deixe-me viver", adaptado de um romance de Janet Fitch, a jovem Lohman pavimentou seu caminho para trabalhar com diretores do porte de Ridley Scott e Tim Burton - e foi mais um exemplo de que pouca idade não é desculpa para falta de talento: mesmo bastante jovem, ela enfrentou sem medo o desafio de atuar com atrizes consagradas já em seu primeiro filme de grande visibilidade.

Aliás, grande visibilidade em termos. Aposta certeira para a temporada de prêmios - em especial era considerada certeza a indicação de Michelle Pfeiffer ao Oscar de coadjuvante - o filme de Peter Kosminsky acabou morrendo na praia, sem tornar-se nem um êxito de crítica nem o sucesso comercial que se esperava. Porém, a despeito dessa frustrada ambição por estatuetas, "Deixe-me viver" é um filme com belas qualidades. E a maior delas já está estampada no cartaz: o elenco feminino acima de qualquer suspeita.



Em uma interpretação surpreendente, Michelle Pfeiffer vive Ingrid Magnussen, uma artista plástica tão talentosa quanto temperamental que vê sua vida virar de cabeça pra baixo quando mata um ex-amante que a trocou por outra mulher. Condenada à prisão, ela perde a guarda da filha única, Astrid, uma adolescente introvertida que tinha na imagem materna um exemplo a ser seguido. A falta de referências da jovem aumenta ainda mais quando ela passa a viver em consecutivos lares provisórios, tomando contato com realidades distintas da que vivia até então. É assim que ela vai morar, entre outras, com Starr (a excelente Robin Wright), uma mulher que se diz religiosa mas não concebe sua vida sem estar atrelada a um homem e com Claire Richards (Renee Zelwegger), uma atriz decadente com o casamento em frangalhos. Enquanto tenta manter um equilíbrio em seu mundo já bastante bagunçado, Astrid ainda precisa lidar com o fato de não conseguir fugir dos domínios de sua mãe, uma mulher ardilosa e inteligente que tem na filha o único contato com o mundo exterior.

Não se pode dizer que "Deixe-me viver" seja psicologicamente acurado ou tenha personagens brilhantemente desenhados. Seu formato episódico de certa forma prejudica o envolvimento do espectador com suas personagens, que poderiam ser melhor desenvolvidas. É lamentável, por exemplo, que Robin Wright-Penn, uma atriz tão sensacional, fique tão pouco tempo em cena. Mas o roteiro consegue fazer com que a história nunca perca seu interesse e seu foco central (a relação entre Astrid e sua mãe) e, além de tudo, não caia nos exageros melodramáticos que a história fatalmente poderia apresentar devido ao tema. Essa opção por não cair no piegas valoriza o resultado final, ainda que não o torne especialmente marcante. Ainda assim, é um drama competente e que apresentou uma jovem atriz ao mundo. Já está de bom tamanho!

Tuesday, July 12, 2011

A HISTÓRIA DE NÓS DOIS

A HISTÓRIA DE NÓS DOIS (The story of us, 1999, Castle Rock Entertainment, 95min) Direção: Rob Reiner. Roteiro: Alan Zweibel, Jessie Nelson. Fotografia: Michael Chapman. Montagem: Alan Edward Bell, Robert Leighton. Música: Eric Clapton, Marc Shaiman. Figurino: Shay Cunliffe. Direção de arte/cenários: Lilly Kilvert/Sarah Jackson Burt, Kathy Lucas. Produção executiva: Frank Capra III, Jeffrey Stott. Produção: Jessie Nelson, Rob Reiner, Alan Zweibel. Elenco: Bruce Willis, Michelle Pfeiffer, Tim Matheson, Rita Wilson, Rob Reiner, Julie Hagerty, Paul Reiser. Estreia: 15/10/99

Não seria exagerar demais afirmar que, se as personagens de Billy Cristal e Meg Ryan em "Harry & Sally, feitos um para o outro" tivessem se casado, envelhecido alguns anos e tido um casal de filhos seriam mais ou menos como o casal central de "A história de nós dois", dirigido pelo mesmo Rob Reiner. Apesar da falta incomensurável que os diálogos sólidos e bem-humorados da roteirista Nora Ephron faz, pode-se dizer que este filme é uma cria mais madura de sua comédia romântica mais famosa, ainda que, obviamente, não tenha nem metade do charme de seu irmão mais velho.


Bruce Willis (com a carreira devidamente revigorada depois do impressionante êxito de "O sexto sentido") e Michelle Pfeiffer (impressionantemente bela) vivem Ben e Kate Jordan, um casal passando por uma crise quase irremediável. Cansados das infindáveis discussões quase diárias e da falta de romantismo de seu casamento, eles aproveitam a viagem dos filhos para uma colônia de férias para por sua relação na balança e chegarem a uma decisão sobre seu futuro. Enquanto ficam separados - e ela inicia um flerte com um recém-divorciado - eles tentam também descobrir em que momento de suas vidas os motivos que os levaram a se apaixonar um pelo outro tornaram-se o centro de suas frustrações.



O problema do roteiro de "A história de nós dois" é que ele não é engraçado e sardônico e nem ao menos profundo e maduro. Superficial, ele não investiga a contento todos os reveses de uma relação familiar e nem tampouco cria situações verdadeiramente engraçadas - e aqui faz muita falta um elenco de coadjuvantes fortes, como havia, por exemplo, em "Harry & Sally" (a comparação é inevitável, ainda que se tente fugir dela). Os diálogos entre Kate e suas amigas (dentre as quais se inclui Rita Wilson, a sra. Tom Hanks) e as conversas francas entre Ben e seus comparsas não encantam como deveriam. Fica-se claramente perceptível que apesar da ideia central ser muito boa, o desenvolvimento ficou muito aquém do que se pretendia.

Ainda que seja bastante fácil simpatizar com um casal atraente e carismático como o formado por Willis e Pfeiffer (que tem boa química e bom timing cômico), o filme de Rob Reiner nunca decola totalmente e nem atinge plenamente seus objetivos. Apesar de alguns bons momentos, não faz rir como deveria e não comove nas cenas mais emotivas (ainda que Michelle se esforce bastante em fazer de sua personagem algo mais do que uma mulher controladora e chata). Ainda assim - e ainda que pareça mais longo do que realmente é - é impossível não se encantar com seu charme e suas boas intenções.

"A história de nós dois" é um filme perfeito para ser visto a dois, especialmente quando se está passando ou se passou por uma crise semelhante. A despeito de sua falta de criatividade e ousadia, tem um final quase redentos, com uma edição de momentos vividos pelo casal que emociona pela simplicidade e vitalidade. Se o resto do filme tivesse seguido a mesma linha provavelmente seria menos esquecível - e a bela trilha sonora com canções de Eric Clapton tivesse sido mais festejada. Mesmo com todos os seus pecadilhos, porém, é um bom programa para quem sente falta de filmes espertos, feitos para um público adulto, que prescindem de efeitos visuais elaboradíssimos.

Tuesday, March 22, 2011

UM DIA ESPECIAL

UM DIA ESPECIAL (One fine day, 1996, Fox 2000 Pictures/20th Century Fox, 108min) Direção: Michael Hoffman. Roteiro: Terrel Seltzer, Ellen Simon. Fotografia: Oliver Stapleton. Montagem: Garth Craven. Música: James Newton Howard. Figurino: Susie DeSanto. Direção de arte/cenários: David Gropman/Anne Kuljian. Produção executiva: Kate Guinzburg, Michelle Pfeiffer. Produção: Lynda Obst. Elenco: Michelle Pfeiffer, George Clooney, Mae Whitman, Alex D. Linz, Charles Durning, Amanda Peet, Ellen Greene. Estreia: 20/12/96

Indicado ao Oscar de Melhor Canção ("For the first time")

Em 1996, o ator George Clooney estava começando sua escalada rumo ao sucesso no cinema. Na TV ele já era ídolo: sua participação como Doug Ross, o pediatra don juan da série "Plantão médico" o colocava como símbolo sexual inquestionável entre o público feminino, que suspirava todas as semanas frente ao aparelho de televisão. Em sua ambição de tornar-se também um astro de cinema, nada mais natural do que não mexer em time que está ganhando. Depois de experimentar um pouco de ousadia com sua estreia nas telas - o terror "Um drink no inferno", roteirizado por Quentin Tarantino e dirigido por Robert Rodriguez - Clooney presenteou as fãs com "Um dia especial", uma comédia romântica que pode ser definida por todos os adjetivos que filmes do gênero comportam: agradável, engraçadinha, fofa... e previsível.

Não que o público que tenha ido acorrido aos cinemas para ver George Clooney seja muito exigente - e foi um público razoável, a julgar pela bilheteria bem razoável de quase 50 milhões de dólares. Mas o fato é que, apesar de não apresentar nenhuma novidade, "Um dia especial" serviu perfeitamente aos objetivos do ator, que, ao lado de uma inspirada Michelle Pfeiffer - também produtora executiva - conquista a plateia sem precisar fazer muito esforço. E são os dois, belos e talentosos, que fazem com que o filme de Michael Hoffman seja um entretenimento inofensivo e divertido. Fotografado com capricho pelo veterano Oliver Stapleton, "Um dia especial" não é inesquecível, mas tem um charme que o diferencia de muitos outros exemplares do gênero.


Michelle Pfeiffer, linda como sempre e com um timing cômico na medida certa, vive Melanie Parker, uma arquiteta que divide seu tempo entre tentar uma promoção profissional e cuidar de Sammy (Alex D. Linz), seu filho com um músico itinerante que aparece apenas de vez em quando na vida do filho. Clooney interpreta Jack Taylor, conhecido jornalista que, além de procurar furos de reportagem, tenta provar à ex-mulher que sabe cuidar da filha pequena, Maggie (Mae Whitman). Justamente no dia em que Melanie tem uma apresentação importantíssima que pode lhe dar a sonhada promoção e Jack precisa comprovar os fatos de uma polêmica reportagem cujas consequências podem lhe tirar o emprego, seus filhos perdem o passeio de barco da escola e os dois adultos - de personalidades opostas e que nutrem uma antipatia à primeira vista em relação um ao outro - são obrigados a criar uma forma de resolver a situação e, é claro, acabam o dia apaixonados.

E é só isso. Com esse fiapo de história, Hoffman mantém a atenção da plateia usando a abusando dos clichês que fazem a glória das comédias românticas sem, no entanto, incomodar ou aborrecer. O ritmo mantido pelo cinesta combina com a bela trilha sonora de James Newton Howard e com a coloração de uma Nova York chuvosa em dias de uma beleza rara. As personagens secundárias não roubam a atenção da dupla central, surgindo em cena apenas quando o necessário para o desenvolvimento da trama - e são interpretados por gente boa, como o veterano Charles Durning e a bela Amanda Peet. Michael Hoffman concentra o foco de seu filme totalmente em Pfeiffer e Clooney, e acerta em fugir das tramas paralelas. A química entre o ótimo casal de protagonistas e as crianças que interpretam seus filhos é outro ponto alto do filme, uma sessão da tarde das mais encantadoras.

Logicamente o futuro de Clooney no cinema preparava voos maiores - inclusive uma carreira de diretor e um Oscar de coadjuvante - mas é impossível negar que "Um dia especial" jamais será uma mancha em seu currículo. Afinal, é um filme, como dito anteriormente, agradável, encantador e fofo. E tem Michelle Pfeiffer no elenco!

Tuesday, February 8, 2011

MENTES PERIGOSAS

MENTES PERIGOSAS (Dangerous minds, 1995, Hollywood Pictures, 99min) Direção: John N. Smith. Roteiro: Ronald Bass, livro "My posse don't do homework", de LouAnne Johnson. Fotografia: Pierre Letarte. Montagem: Tom Rolf. Música: Wendy & Lisa. Figurino: Bobbie Read. Direção de arte/cenários: Donald Graham Burt/Catherine Mann. Produção executiva: Lucas Foster, Kate Guinzburg, Sandra Rabins. Produção: Jerry Bruckheimer, Don Simpson. Elenco: Michelle Pfeiffer, George Dzunza, Courtney B. Vance, John Neville, Robin Bartlett, Renoly Santiago, Wade Dominguez. Estreia: 11/8/95

Filmes sobre professores - praticamente um sub-gênero dentro da indústria hollywoodiana - correm sempre o risco de tentar o sublime - como o belo "Sociedade dos poetas mortos", de Peter Weir - e chegar apenas ao ridículo - por exemplo, o patético "O substituto", com Tom Berenger. "Mentes perigosas", dirigido pelo pouco conhecido John N. Smith, fica no meio-termo. Munido de excelentes intenções, ele esbarra espetacularmente em dezenas de clichês e acaba se prejudicando justamente por evitar discutir com propriedade os temas que mais interessam ao público. Da forma que está, o filme - produzido pela dupla Don Simpson/Jerry Bruckheimer - é apenas uma sessão de sábado facilmente esquecível que encontra em Michelle Pfeiffer seu único real destaque. Ainda assim, pode agradar aos menos exigentes.


O filme começa relativamente bem, com a poderosa canção "Gangsta's paradise" dando o clima exato do local onde se passará a história a ser contada nas próximas duas horas. Baseado em uma história real escrita pela própria protagonista, "Mentes perigosas" se passa em uma escola localizada em uma área pobre e violenta de Nova York, onde a bela e delicada Louanne Johnson (Pfeiffer, bela e delicada como a personagem) vai lecionar. Seus alunos são ainda mais difíceis do que a maioria dos estudantes da escola, e ela percebe isso logo no primeiro dia, apesar da ajuda do amigo e colega Hal (George Dzunza). Marinheira reservista - o que em tese lhe dá uma força emocional maior do que o corriqueiro - ela sente-se violentamente rejeitada por seus alunos, todos eles membros de famílias paupérrimas e problemáticas. Conforme passa a conquistá-los - ensinando golpes de caratê e letras de músicas de Bob Dylan e utilizando de métodos pouco convencionais de incentivo - Louanne passa também a ter contato com os dramas pessoais de ao menos três estudantes. A esperta Callie (Bruklin Harris) está grávida e se vê pressionada a mudar de instituição de ensino; o esforçado Raul (Renoly Santiago) vem de uma família numerosa e precisa trabalhar para ajudá-los; e Emilio Ramirez (Wade Dominguez) está envolvido com gente perigosa que ameaça sua vida.


"Mentes perigosas" é clichê em cima de clichê. Todos os alunos de Louanne são aparentemente perigosos e cruéis mas no fundo se revelam boas pessoas, vítimas de uma sociedade injusta, como convém a todo e qualquer roteiro maniqueísta que se preze. Louanne é uma mulher linda, independente e culta que não faz outra coisa na vida a não ser preocupar-se com os alunos. E o final, quando ela finalmente consegue conquistar de vez todo mundo, a sensação que fica é a de que o filme já foi visto dezenas de outras vezes. E o pior é que foi. E das outras vezes, ainda que Michelle Pfeiffer não estivesse no elenco embelezando cada quadro, provavelmente as experiências foram melhores.

Não que "Mentes perigosas" seja um lixo. Pelo contrário, apesar de sua enxurrada de clichês, ele ainda consegue conquistar a audiência justamente por não fugir de tudo que se espera dele. Tudo que um filme do seu estilo promete ao público ele cumpre: uma protagonista carismática, alunos com problemas que descobrem novos sentidos para suas vidas dramáticas e um final esperançoso. É tão simples e tão pouco ambicioso que, apesar de não encantar e tornar-se inesquecível também não incomoda o bastante para ser considerado de todo ruim. Talvez com um diretor mais criativo e um roteiro menos burocrático para trabalhar, Michelle Pfeiffer pudesse ter sido mais reconhecida por seu belo esforço como atriz.

Sim, Michelle Pfeiffer é uma boa atriz e prova isso segurando com firmeza o papel principal de "Mentes perigosas". Para quem gosta do gênero, o filme é um prato cheio. Para os mais exigentes, talvez seja apenas mais um Supercine qualquer, com a bela Michelle enfeitando cada cena.

Monday, December 13, 2010

A ÉPOCA DA INOCÊNCIA

A ÉPOCA DA INOCÊNCIA (The age of innocence, 1993, Columbia Pictures, 139min) Direção: Martin Scorsese. Roteiro: Martin Scorsese, Jay Cocks, romance de Edith Wharton. Fotografia: Michael Ballhaus. Montagem: Thelma Schoonmaker. Música: Elmer Bernstein. Figurino: Gabriella Pescucci. Direção de arte/cenários: Dante Ferretti/Robert J. Franco, Amy Marshall. Casting: Ellen Lewis. Produção: Barbara De Fina. Elenco: Daniel Day-Lewis, Michelle Pfeiffer, Winona Ryder, Alexis Smith, Jonathan Pryce, Geraldine Chaplin, Robert Sean Leonard, Joanne Woodward. Estreia: 17/9/93

5 indicações ao Oscar: Atriz Coadjuvante (Winona Ryder), Roteiro Adaptado, Trilha Sonora Original, Figurino, Direção de arte/cenários
Vencedor do Oscar de Figurino
Golden Globe de Atriz Coadjuvante (Winona Ryder)

Em 1920, a escritora Edith Wharton publicou seu romance "A era da inocência", que a fez tornar-se a primeira mulher a ser premiada com o Pulitzer. Sessenta anos depois, o crítico da revista Time, Jay Cocks deu um exemplar do livro a seu amigo Martin Scorsese afirmando que, se um dia o cineasta quisesse realizar um drama romântico, ali estava a sua trama. Cocks sabia o que estava falando. Realizador de filmes densos e com alto teor de violência, Scorsese declarou, à época do lançamento de "A época da inocência" - um ano atrasado em relação ao cronograma original - que a história de amor contada por Wharton é seu filme mais violento. Logicamente quem assistiu a obras impactantes como "Touro indomável", "Os bons companheiros" e "Cabo do medo" - todas extremamente agressivas - pode não concordar com a afirmação em um primeiro momento. Basta, porém, olhar com mais cuidado todas as nuances de "A época da inocência" para que se perceba que ele está absolutamente certo. Sem que uma única gota de sangue seja derramada, o romance proibido entre o advogado Newland Archer e a condessa Ellen Olenska consegue ser mais cruel e beligerante do que qualquer taxista neurótico, mafioso ambicioso ou ex-presidiário vingativo.


Nos anos 1870, a Condessa Ellen Olenska (Michelle Pfeiffer, belíssima e excelente atriz) retorna à sua Nova York natal depois do fracasso de seu casamento com um conde europeu. Acolhida com carinho pela família, ela no entanto, sofre com a rejeição da alta sociedade da cidade, que, fiel a suas regras de conduta, lhe vira as costas inclementemente. Solitária, ela recebe o apoio de um conhecido de infância, Newland Archer (Daniel Day-Lewis), por quem acaba se apaixonando perdidamente. O problema é que ele acaba de ficar noivo de May Welland (Winona Ryder, delicada e meiga como convém), a prima de Ellen. Com seu romance proibido pelas rígidas normas sociais, eles tentam conviver com um amor devastador que não tem o direito de vir à luz.


A violência em "A época da inocência" não é física e sim emocional. Scorsese retrata as convenções sociais com a mesma paixão e força com que filma assassinatos e lutas de boxe. Em sua visão de gênio ele equipara as regras da alta sociedade com os códigos de honra dos mafiosos - é fascinante como os virulentos guarda-costas de seus filmes anteriores são substituídos aqui por mulheres delicadas e homens de modos refinados que, no entanto, tem a mesma função vil de acabar com vidas alheias - se não literal, ao menos metaforicamente. Newland e Ellen são vítimas de uma sociedade preconceituosa e egoísta, que não permite a felicidade se ela, para existir, necessite abdicar de preceitos há muito arraigados. A condessa é uma mulher à frente do seu tempo, que tenta desesperadamente respirar em um mundo sufocado por etiquetas caducas. Archer é um homem romântico, íntegro, mas sem maiores arroubos de coragem de desafiar a família e os outros - o inferno de Sartre. Juntos, eles caminham rumo a um final melancólico que Scorsese orquestra como ninguém.


"A época da inocência" é um espetáculo em todos os sentidos. O roteiro - co-escrito pelo diretor e por seu amigo Jay Cocks - é extremamente fiel ao livro que lhe deu origem, discorrendo abundandemente sobre os sentimentos escondidos de suas personagens sem que lhes seja preciso vastos diálogos. Ao contrário dos filmes anteriores do diretor, onde o improviso era palavra de ordem, aqui cada movimento de câmera, cada enquadramento, cada frase proferida pelos protagonistas e seus coadjuvantes são precisos e meticulosamente estudados. É de deixar sem fôlego, por exemplo, a longa sequência em que Archer chega em um dos bailes mostrados no filme: sem apelar para cortes, Scorsese acompanha Day-Lewis em seu caminho em direção à festa, levando a audiência a acompanhá-lo passo a passo. Apoiado por uma música nunca aquém de espetacular do maestro Elmer Bernstein, o travelling do diretor é uma aula de cinema - e o fato de acontecer lentamente apenas aumenta ainda mais o prazer.

E prazer é o que não falta quando se assiste a "A época da inocência", que foi praticamente ignorado pelo Oscar - recebeu uma estatueta apenas, por seu estupendo figurino e foi deixado de lado nas categorias principais. A reconstituição de época é magnífica - e o próprio cineasta se deixa arrebatar por ela, em determinados momentos - e o luxo e a pompa que cercam suas personagens são quase tão importantes quanto elas mesmas. Jantares suntuosos, bailes grandiosos e propriedades de cair o queixo são mostrados em detalhes, fotografados com perfeição por Michael Ballhaus - é especialmente deslumbrante a cena em que Pfeiffer está de costas mirando o mar enquanto Day-Lewis espera que ela vire para encontrá-lo. É poesia em forma de cinema. De extasiar qualquer espectador sensível.


Ainda que perca um pouco o ritmo em sua segunda metade - um pecadilho que nem sequer chega a ser percebido pelos olhos encantados da plateia - Scorsese fez de "A época da inocência" um dos filmes mais sensacionais da década de 90. Pode não agradar aos fãs ocasionais, mas definitivamente conquista aqueles que realmente conhecem bom cinema e o consideram realmente uma arte.

Friday, October 1, 2010

SUSIE E OS BAKER BOYS


SUSIE E OS BAKER BOYS (The fabulous Baker Boys, 1989, Gladden Entertainment, 114min) Direção e roteiro: Steve Kloves. Fotografia: Michael Ballhaus. Montagem: William Steinkamp. Música: Dave Grusin. Figurino: Lisa Jensen. Direção de arte/cenários: Jeffrey Townsend/Anne H. Ahrens. Casting: Wallis Nicita. Produção executiva: Sydney Pollack. Produção: Mark Rosenberg, Paula Weinstein. Elenco: Jeff Bridges, Michelle Pfeiffer, Beau Bridges, Xander Berkeley, Jennifer Tilly. Estreia: 13/10/89

4 indicações ao Oscar: Atriz (Michelle Pfeiffer), Fotografia, Montagem, Trilha Sonora

Golden Globe de Melhor Atriz Comédia/Musical (Michelle Pfeiffer)

  
Susie Diamond é linda, sexy, charmosa e talentosa. Também é agressiva, um tanto vulgar e defende suas ideias com unhas e dentes. Ao assumir o posto de cantora para incrementar o dueto formado pelos Fabulosos Baker Boys - dois irmãos pianistas que tocam juntos desde a infância - ela não apenas aumenta a frequência dos shows e consequentemente os cachês, mas também faz com que eles percebam claramente o quanto eles prostituíram o próprio talento. Quando se envolve com o caçula dos irmãos, Jack (Jeff Brigdes), no entanto, é que os problemas realmente começam.

Vivida com garra, beleza e uma alta dose de sex-appeal por uma Michelle Pfeiffer em vias de fincar de vez os pés no imaginário fetichista masculino como a Mulher-Gato de Tim Burton (feito 3 anos depois), Susie Diamond é o anjo da discórdia em "Susie e os Baker Boys", escrito e dirigido por Steve Kloves, que nunca mais fez nada de marcante na carreira (exceto escrever alguns roteiros da série "Harry Potter"). Em "Susie" ele conta sua história de forma elegante e sucinta, ainda que um tanto repleta de clichês - Jack, por exemplo, é um solitário cuja melhor amiga é a filha pré-adolescente de uma vizinha, que o vê como um pai e seu irmão Frank (Beau Bridges, irmão de Jeff na vida real, obviamente) abandonou todos os sonhos de grandeza e sucesso para sustentar a família, o que para ele já bom o bastante. No meio dessas duas vidas estagnadas e quase tediosas, Susie tem o poder de sacudí-las, usando para isso a amargura que acumulou em seus anos como call-girl e a sensualidade de uma mulher que conhece o poder que tem sobre os homens. E para os marmanjos não faltam oportunidades para conferir que Pfeiffer, além de boa atriz também é extremamente linda.
Seja cantando "Makin' whoope" em cima de um piano, entoando "Can't take my eyes off you" em um belo vestido colante ou mesmo desprezando a tenebrosa "Fellings", Michelle Pfeiffer é o corpo de "Susie e os Baker Boys". Talvez tenha sido exagero a quantidade de prêmios que arrebatou (levou um Golden Globe e concorreu com boas chances ao Oscar), mas é inegável que seu brilho contamina o filme. Fotografada com sutileza e delicadeza pelo veterano Michael Ballhaus (que também concorreu a uma estatueta), a história da encruzilhada dos irmãos Baker em relação a seu futuro profissional é também a história de duas solidões que se encontram, ainda que talvez não estejam exatamente dispostas a dividir suas tristezas e frustrações. Apesar do verniz alto-astral (aparentemente é um musical, afinal de contas) é um filme melancólico, desesperançado. E é aí que entra Jeff Bridges.

Premiado com o Oscar de melhor ator este ano, por "Coração louco", Bridges entrega aqui uma de suas atuações mais furiosas. Sua personagem é similar à interpretada por ele no filme que lhe deu o prêmio, mas Jack Baker não tem tanta certeza sobre os rumos a tomar na vida nem mesmo quando se envolve com Susie, e foge de seus momentos de isolamento mental tocando lindamente em espeluncas de quinta categoria. Em "Coração louco" ele já foi alguém. Em "Susie" ele deseja (ou não) sê-lo. Em ambos os trabalhos, Bridges mostra porque é um dos grandes atores americanos. Pfeiffer é o corpo do filme. Briges é a alma.

Saturday, September 18, 2010

LIGAÇÕES PERIGOSAS


LIGAÇÕES PERIGOSAS (Dangerous liaisons, 1988, Warner Bros, 119min) Direção: Stephen Frears. Roteiro: Christopher Hampton, romance de Choderlos de Laclos, peça teatral de Christopher Hampton. Fotografia: Philippe Rousselot. Montagem: Mick Audsley. Música: George Fenton. Figurino: James Acheson. Direção de arte/cenários: Stuart Craig/Gérard James. Casting: Howard Feuer, Juliet Taylor. Produção: Norma Heyman, Hank Moonjean. Elenco: Glenn Close, John Malkovich, Michelle Pfeiffer, Uma Thurman, Keanu Reeves, Swoosie Kurtz, Mildred Natwick. Estreia: 21/12/88

7 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Atriz (Glenn Close), Atriz Coadjuvante (Michelle Pfeiffer), Roteiro Adaptado, Trilha Sonora, Figurino, Direção de arte/cenários

Vencedor de 3 Oscar: Roteiro Adaptado, Figurino, Direção de arte/cenários


"Crueldade" é a palavra preferida da Marquesa de Merteuil. Uma mulher em um mundo dominado por homens, ela vê na sua possibilidade de manipular aqueles a quem considera inferiores sua vingança contra a humanidade em geral. Com o rosto de Glenn Close, ela é a personificação do mal em "Ligações perigosas", brilhante adaptação do romance epistolar de Choderlos de Laclos dirigida pelo inglês Stephen Frears e que concorreu a merecidos 7 Oscar em 1988. Escrito pelo mesmo Christopher Hampton que fez a transição do livro para os palcos londrinos, o roteiro excepcional (vencedor de uma estatueta dourada) consegue transpor para a tela, com perfeição, a futilidade, a maldade e a falta de escrúpulos de nobres franceses entediados que se divertem às custas do sofrimento alheio.

Na interpretação mais espantosa de sua carreira, Close interpreta uma venal Marquesa que, sentindo-se traída em seus brios por um antigo amante, propõe a seu colega de egocentrismo e vaidade Visconde de Valmont (John Malkovich) um jogo de sedução que ele quase descarta como sendo "fácil demais": levar para a cama a inocente e virginal Cécile de Volanges (Uma Thurman, em um papel para o qual foram testadas Drew Barrymore e Sarah Jessica Parker), que está de casamento marcado com um homem que não apenas abandonou a Marquesa como traiu-a com uma amante do Visconde. Para recuperar sua fama de conquistador, o cínico aristocrata concorda com o plano, mas também se dedica a uma sedução muito mais desafiadora. Encorajado por Merteuil - que lhe promete uma tórrida noite caso ele seja bem-sucedido em seus intentos - ele ambiciona levar para sua alcova a virtuosa Madame de Tourvel (Michelle Pfeiffer), uma mulher casada e religiosa.



Praticamente ao mesmo tempo em que "Ligações perigosas", uma outra versão da obra de Laclos também chegou aos cinemas. Dirigido pelo tcheco Milos Forman, "Valmont" não teve a mesma repercussão que o filme de Stephen Frears, apesar do elenco mais jovem (Annette Bening e Colin Firth foram os protagonistas, sendo que Bening substituiu Michelle Pfeiffer, que acertadamente preferiu viver outra personagem da história e foi indicada ao Oscar de coadjuvante por isso). Mas é certo que, mesmo com suas qualidades, a versão de Forman não tem o mesmo peso e a mesma qualidade quase literária e teatral da visão de Frears, injustamente deixado de lado na corrida ao Oscar de direção.

Apesar do roteiro de Hampton (inteligente e sagaz, mas nunca deixando de ser extremamente sexy) ser o sonho de qualquer cineasta que se preze, devido a suas inúmeras possibilidades, é Frears quem conduz com sutileza e elegância uma história calcada basicamente em sexo e suas consequências - quando foi publicado, em 1782, o romance que deu origem ao filme era considerado tão escandaloso que Maria Antonieta o lia às escondidas, com uma capa falsa. Esse conteúdo "picante" de "Ligações perigosas" é que faz, no entanto, que o filme seja tão, mas tão bom que deu origem a um filhote: sua versão modernizada, "Segundas intenções", com elenco adolescente, estreou em 1999 e fez grande sucesso junto a seu público alvo.

"Ligações perigosas" também pode se vangloriar de outras qualidades indispensáveis a um filme com suas pretensões artísticas - e essas qualidades também foram devidamente recompensadas com as estatuetas oferecidas pela Academia. A reconstituição de época é primorosa, tanto em termos visuais quanto quando se trata do comportamento da alta sociedade francesa pré-revolução. O cuidado de Frears em utilizar esses elementos para contribuir com a intrincada trama proposta pelo roteiro faz com que a plateia mergulhe intensamente nos sentimentos dos protagonistas, todos eles enredados em uma teia de luxúria e paixão desesperada.

Mas seria inútil um roteiro coeso e denso e um visual caprichado se Frears não tivesse escalado um elenco tão forte quanto o que escalou. Com exceção de um jovem Keanu Reeves que já mostrava a extrema fragilidade de seus dotes dramáticos, cada ator que surge em cena é de uma excelência a toda prova. Uma Thurman, jovial e ainda bela, apresenta a inocência de sua personagem com delicadeza e sensibilidade. Michelle Pfeiffer, linda como sempre, constrói a decadência amorosa de sua Madame de Tourvel com a firmeza de uma veterana e John Malkovich equilibra com maestria todas as nuances de um Visconde de Valmont venal, ególatra e até mesmo apaixonado. Sua ausência na lista dos indicados ao Oscar de melhor ator do ano ecoa a ausência de Frears na categoria de diretor. Mas é Glenn Close quem rouba descaradamente para si o filme todo, em uma atuação fascinante.

Depois de ter encarnado a psicótica Alex Forrest de "Atração fatal" e ter sido duramente criticada pelo exagero em sua interpretação - apesar da indicação ao Oscar - Close entrega, como a Marquesa de Merteuil uma atuação contida, discreta, quase silenciosa. Seu olhar de ódio, aliado a um tom de voz sussurrante e modos delicados enquanto maquina horrores em sua mente diabólica deram à atriz um dos papéis mais interessantes da história e ela não perde a oportunidade de mostrar seu talento. Em uma das cenais finais, em que ela simplesmente tropeça no salto do sapato diz mais - sem nenhuma palavra - do que páginas e páginas de diálogos seriam capazes. Suas conversas com Malkovich são, sem exagero nenhum, algumas das mais fascinantes que as telas de cinema mostraram ao público.

"Ligações perigosas" é uma aula de como contar uma história utilizando classe, inteligência e sutileza. É o melhor filme de Stephen Frears e injustamente foi preterido no Oscar pelo correto mas não ousado "Rain Man".

Sunday, August 8, 2010

AS BRUXAS DE EASTWICK


AS BRUXAS DE EASTWICK (The witches of Eastwick, 1987, Warner Bros, 118min) Direção: George Miller. Roteiro: Michael Cristofer, romance de John Updike. Fotografia: Vilmos Zsigmond. Montagem: Hubert C. De La Bouillerie, Richard Francis-Bruce. Música: John Williams. Figurino: Aggie Guerard Rodgers. Direção de arte/cenários: Polly Platt/Mark Mansbridge. Casting: Wally Nicita. Produção executiva: Rob Cohen, Don Devlin. Produção: Neil Canton, Peter Guber, Jon Peters. Elenco: Jack Nicholson, Cher, Susan Sarandon, Michelle Pfeiffer, Richard Jenkins, Veronica Cartwright. Estreia: 12/6/87

2 indicações ao Oscar: Trilha Sonora, Som

Quem diria que o diretor de um filme tão classudo quanto “As bruxas de Eastwick”, que usa até ópera em sua trilha sonora e é baseado em um livro do famoso e conceituado John Updike é o mesmo casca-grossa responsável por “Mad Max”? Mas o fato é que George Miller, o cineasta australiano que lançou Mel Gibson ao estrelato é realmente quem assina essa divertida produção, que mistura romance, comédia e terror em medidas exatas, ajudado por um elenco de sonhos e uma produção de primeira linha. Não foi o êxito impressionante que deveria, mas entretém como poucos.

A pequena cidade de Eastwick é um tédio só. Nada acontece em seus dias monótonos e sempre iguais. Os únicos momentos divertidos nas vidas das amigas Sukie (Michelle Pfeifffer), Alexandra (Cher) e Jane (Susan Sarandon) são aqueles em que elas saem de suas vidinhas medíocres para rir, encher a cara, fofocar e sonhar com o homem perfeito. Um belo dia, a cidade é sacudida com a chegada do milionário Daryl Van Horne (Jack Nicholson). Misterioso e recluso, logo o novo habitante vira objeto de curiosidade entre as três amigas, apesar dos histéricos avisos de uma religiosa local (Verônica Cartwright), que pressente o mal vindo da mansão comprada pelo visitante.

Uma a uma as amigas acabam sendo seduzidas por Van Horne. Alexandra, uma escultora viúva é a primeira a cair na sua nada sutil rede de sedução. A tímida e retraída professora de violino Jane descobre sua sexualidade reprimida depois de um encontro musical bastante atípico. E a fértil Sukie, uma jornalista mãe de seis filhos pequenos, também se deixa levar pelo ar cavalheiro de Van Horne. Os quatro formam então uma bela família, até que Van Horne começa a mostrar que, por trás de seus modos gentis se esconde o próprio demônio. As três começam então a pensar em uma maneira de livrar a cidade e suas vidas do seu tão sonhado homem perfeito.

É difícil classificar “As bruxas de Eastwick”. Ora uma comédia de costumes defendida por um elenco impecável, ora um filme de terror quase escatológico, com cenas de vômitos de cerejas, a obra de Miller pode-se no entanto ser facilmente identificada como uma das mais inteligentes de sua época. Ao levar a guerra dos sexos ao seu limite máximo, o roteiro brinca de misturar gêneros, proporcionando ao público uma experiência bem mais rica e desconcertante do que o normalmente oferecido em uma época em que as fórmulas estão mais desgastadas do que nunca. E colocar Jack Nicholson como o diabo em pessoa não atrapalha em nada.

Além disso, não se pode deixar de mencionar o excepcional elenco feminino escalado pelo cineasta: donas de sensualidades e belezas diferentes entre si, Cher (que abocanharia o Oscar no mesmo ano de "Bruxas" por "Feitiço da lua"), Susan Sarandon e Michelle Pfeiffer enfeitam o filme com suas presenças luminosas, encantando tanto Van Horne quanto a plateia. Apesar do roteiro repleto de diálogos iluminados e da direção inspirada de George Miller, é o elenco que faz toda a diferença em "As bruxas de Eastwick"...

Saturday, July 3, 2010

SCARFACE


SCARFACE (Scarface, 1983, Universal Pictures, 170min) Direção: Brian DePalma. Roteiro: Oliver Stone. Fotografia: John A. Alonzo. Montagem: Jerry Greenberg, David Ray. Música: Giorgio Moroder. Figurino: Patricia Norris. Direção de arte/cenários: Ed Richardson/Bruce Weintraub. Casting: Alixe Gordin. Produção executiva: Louis A. Stroller. Produção: Martin Bregman. Elenco: Al Pacino, Michelle Pfeiffer, Steven Bauer, Mary Elizabeth Mastrantonio, Robert Loggia, F. Murray Abraham. Estreia: 01/12/83

Em 1932, nos primórdios do cinema como o conhecemos hoje, Howard Hawks dirigiu o violento “Scarface, a vergonha de uma nação”, estrelado por Paul Muni. Na versão original, o protagonista tornava-se milionário durante a Lei Seca vigente na Chicago dos anos 20. Sinal dos tempos, a nova versão, dirigida por Brian de Palma e sua câmera nervosa, se passa na Miami dos anos 80 e faz uma radiografia tensa e sanguinolenta de um anti-herói que sobe na vida graças ao tráfico de cocaína. Se perde em charme, que Hawks imprimia em cada trabalho, ganha em realismo e ultraviolência.

Al Pacino, ainda que com muitos dos trejeitos de seu Michael Corleone, de “O Poderoso chefão”, brilha soberano como Tony Montana, um cubano que chega à Miami fugindo do regime totalitário de Fidel Castro. Insatisfeito com a vida quase marginal que vive, ele une-se a seu conterrâneo Manolo (o ótimo Steven Bauer) em um ambicioso negócio de tráfico de drogas que, mesmo dando errado – em uma sequência especialmente angustiante – o apresenta ao poderoso Frank (Robert Loggia), que logo o toma como homem de confiança. Apaixonado pela mulher de Frank, a bela e viciada Elvira (Michelle Pfeiffer, com pouca coisa a fazer a não ser desfilar sua figura esbelta pelas mansões do cenário), não demora muito para que Montana resolva pegar o negócio e o casamento de Frank. Enquanto enriquece vertiginosamente, vai perdendo a confiança em todos a seu redor, inclusive seu amigo Manolo, que, pra piorar ainda mais as coisas, se envolve com a única irmã de Tony, a jovem Gina (Mary Elizabeth Mastrantonio). Sua paranóia crescente e a violência que o cerca o acaba encurralando e o levando a um final trágico.

Não há como negar que Brian de Palma teve coragem em contar a história de Tony Montana sem rodeios nem firulas. O protagonista não é simpático nem tampouco coitadinho. Pacino se entrega furiosamente ao papel, especialmente nas seqüências finais, quando sua paranóia o leva ao isolamento em sua fortaleza, tal qual um personagem shakespereano. Nem o cenário propositalmente cafona consegue, no entanto, disfarçar a competência do diretor em realizar tomadas insuspeitas e criativas, principalmente nas cenas mais violentas e dramáticas. A trilha sonora de Giorgio Moroder, adequada mas quase irritante também cumpre seu papel, localizando o espectador nos aspectos mais regionais e temporais da trama. A edição alucinante - que acompanha a entrega de Montana ao vício - consegue ser impactante sem chamar atenção demasiada a si, o que sempre é sinal de competência. E o roteiro de Oliver Stone - que o escreveu lutando contra uma dependência de cocaína - não brinca em serviço, entregando à audiência um dos mais trágicos retratos do gangsterismo do cinema - e que quase levou um selo "X" à época de seu lançamento.

É notável, também, a coragem dos realizadores em quase explicitar o clima incestuoso entre Montana e Gina. O ciúme exagerado do protagonista em relação à irmã é bastante óbvia aqui, ao contrário do filme original - afinal, ele foi realizado em 1932!!!! E, como prova do talento de Stone como roteirista e polemista, ele aproveita para fazer severas críticas ao regime cubano, mesmo que estas passem batidas para quem se concentra única e exclusivamente à trama central, por si só já forte o bastante para manter a atenção durante suas longas três horas de duração.

Aliás, pode-se dizer que a duração excessiva é o pecado maior de "Scarface", um dos melhores "filmes de gângster" já realizados em Hollywood. Em nenhum momento essa nova versão mancha o nome da original, cujo diretor é devidamente homenageado com uma dedicatória no final. Vinte minutos a menos não trariam prejuízo à história e ajudaria no ritmo, mas mesmo assim é um filme obrigatório, mesmo porque Al Pacino e seu imenso talento sempre valem uma espiada.