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Friday, October 14, 2011

VIDA BANDIDA

VIDA BANDIDA (Bandits, 2001, MGM Pictures, 123min) Direção: Barry Levinson. Roteiro: Harley Peyton. Fotografia: Dante Spinotti. Montagem: Stu Linder. Música: Christopher Young. Figurino: Gloria Gresham. Direção de arte/cenários: Victor Kempster/Merideth Boswell. Produção executiva: Patrick McCormick, Harley Peyton, David Willis. Produção: Ashok Amritraj, Michele Berk, Michael Birnbaum, David Hoberman, Barry Levinson, Arnold Rifkin, Paula Weinstein. Elenco: Bruce Willis, Billy Bob Thornton, Cate Blanchett, Troy Garity, January Jones. Estreia: 12/10/01

Parece mentira que Barry Levinson, o sério diretor premiado com o Oscar pelo dramalhão "Rain Man" e indicado novamente ao prêmio pelo ambicioso "Bugsy" seja o diretor de "Vida bandida", uma divertida e despretensiosa comédia romântica de ação. Contando com um roteiro esperto e um elenco de sonhos, o filme remete a famosos títulos sobre golpes e assaltos que tanto sucesso fizeram nos anos 60 e 70, como "Butch Cassidy" e "Golpe de mestre", ambos estrelados por Robert Redford e Paul Newman. Aqui, Bruce Willis e Billy Bob Thornton (mais à vontade do que nunca) é que são os protagonistas, dois amigos e comparsas que se veem às voltas com o desejo e o amor atrapalhando (ou nem tanto assim) sua lealdade.

Foragidos de uma penitenciária, os amigos Joe Blake (Bruce Willis) e Terry Lee Collins (Billy Bob Thornton) passam a ser conhecidos como os "Criminosos que passam a noite", em referência à sua tática sui generis de assaltarem os bancos escolhidos: eles passam a noite na casa do gerente e só na manhã seguinte cometem os roubos. Seu trio, completo com Harvey (Troy Garity, filho de Jane Fonda na vida real), primo de Joe que sonha ser dublê em Hollywood vira quarteto quando entra em cena a dona-de-casa entediada Kate Wheeler (Cate Blanchett, linda), que, depois de atropelar Terry, se envolve romanticamente com os dois cúmplices. A harmonia do grupo ameça ruir quando Joe surge com a ideia de - clichê máximo do gênero - um último golpe, que os levará a seu tão sonhado hotel no México.



A edição ágil - com idas e vindas no tempo - o final abertamente contraventor (que pode possivelmente incomodar as feministas mais ferrenhas), o roteiro enxuto e principalmente a trilha sonora composta de clássicos contemporâneos como "Beautiful day", da banda U2, fazem de "Vida bandida" uma obra que nada contra a maré dos filmes de ação, ao privilegiar os diálogos em detrimento da adrenalina e dar mais valor às personagens do que a cenas de perseguição ou tiroteios ocos. Na verdade, é uma diversão compromissada, que tem em seu elenco o atrativo maior. Enquanto Bruce Willis desfila seu habitual charme cool, é Billy Bob Thornton (ainda casado com Angelina Jolie à época das filmagens) que mais chama a atenção da plateia, talvez em parte devido aos engraçados diálogos reservados à sua personagem hipocondríaca e um tanto quanto maníaco-obsessiva (manias essas que o aproximam da enloquecida personagem de Blanchett, fugindo dos papéis dramáticos a que estava confinada desde que tornou-se estrela, com o filme "Elizabeth").

Ainda que se estenda mais do que o necessário - uns bons quinze minutos a menos fariam muita diferença a favor - "Vida bandida" é uma delícia. Afinal de contas, não há como não simpatizar imediatamente com um filme que conta com dois hinos de Bonnie Tyler - "Total eclipse of the heart" e "Holding out for a hero" - sendo dublados por Cate Blanchett.

Friday, September 2, 2011

CORPO FECHADO

CORPO FECHADO (Unbreakable, 2000, Touchstone Pictures, 106min) Direção e roteiro: M. Night Shyamalan. Fotografia: Eduardo Serra. Montagem: Dylan Tichenor. Música: James Newton Howard. Figurino: Joanna Johnston. Direção de arte/cenários: Larry Fulton/Gretchen Rau. Produção executiva: Gary Barber, Roger Birnbaum. Produção: Barry Mendel, Sam Mercer, M. Night Shyamalan. Elenco: Bruce Willis, Samuel L. Jackson, Robin Wright-Penn, Spencer Treat Clark. Estreia: 14/11/00

O pior fardo que um filme pode carregar é uma expectativa errôneas a seu respeito. E o pior que pode acontecer à carreira de um cineasta cujo primeiro real filme rendeu mais de 600 milhões de dólares mundo afora é justamente frustrar essas expectativas – ainda que o faça com as melhores intenções. Pois foi exatamente isso que aconteceu a M.Night Shyamalan Depois do impressionante êxito comercial e crítico de “O sexto sentido”, todos esperavam que o cineasta fosse dar continuidade a seu estilo e fazer uma réplica de seu sucesso maior. Para surpresa de todos, porém, ele lançou “Corpo fechado”, no qual ele se reinventou brilhantemente. Contando com o mesmo Bruce Willis no papel principal, o filme estreou com uma pesadíssima carga nas costas e o resultado decepcionou aos mais afoitos, em termos de bilheteria. Com menos de 100 milhões arrecadados em território americano, não chegou nem perto do impacto causado pela história do menino que via gente morta. No entanto, apesar dos pesares, “Corpo fechado” ganhou fãs incondicionais ao redor do planeta. E se não for jamais lembrado como o melhor filme de Shyamalan é por um simples motivo comercial: um marketing equivocado.

Vendido pelo estúdio quase como se fosse uma continuação de “O sexto sentido” – o mesmo diretor, o mesmo astro, o mesmo clima de suspense – “Corpo fechado” é, na verdade, um excelente filme de super-herói, que conta as origens do mocinho e do bandido como qualquer boa história baseada em quadrinhos. Sim, não se vê Bruce Willis voando nem em uniformes berrantes e nem tampouco o vilão tem planos megalomaníacos de dominar o mundo – ainda que seja doentio o bastante para tentar manipular o destino. Mas, ao gerar suas personagens sobre-humanas em um universo cotidiano, o cineasta criou uma das tramas mais instigantes e fascinantes do gênero (e de quebra imprimiu a ele seu estilo particular e intrigante).
Bruce Willis (em ótima fase) vive David Dunn, um homem aparente normal que realiza a façanha de ser o único sobrevivente de um desastre de trem carregado de centenas de passageiros. Mais impressionante ainda é o fato de ter saído do acidente sem um arranhão sequer. Tentando reconstruir a vida ao lado da esposa Audrey (Robin Wright Penn em papel oferecido a Julianne Moore) e do filho pequeno, ele conhece o milionário Elijah Price (mais um extraordinário desempenho de Samuel L. Jackson), um empresário fanático por histórias em quadrinhos que o procura com uma séria questão: por que somente ele sobreviveu ao acidente? Buscando a resposta em seu passado, Dunn – que trabalha como segurança em um estádio de futebol – relembra que nunca ficou doente na vida e que talvez tenha uma missão muito importante no mundo.


Apesar da premissa um tanto nerd, “Corpo fechado” é, sem dúvida, um trabalho criativo e inteligente de Shyamalan, mais uma vez utilizando seu talento para construir climas e personagens verossímeis apesar de sua natureza fora do normal. O Elijah vivido por Jackson, por exemplo, é chamado de Mr.Glass devido a uma rara doença que lhe quebra facilmente os ossos do corpo – o que dá origem a uma das cenas de abertura mais impressionantes da década e culmina com um final surpresa coerente e empolgante. A construção visual de Jackson (e do filme como um todo) reitera de forma inequívoca o cuidado do cineasta com cada detalhe do filme, o que lembra mais uma vez o refinamento e a sutileza de Alfred Hitchcock – de quem o diretor rouba inclusive a notória característica de fazer uma ponta em seus trabalhos (aqui ele aparece como um traficante de drogas).

“Corpo fechado” é um típico exemplo de filme que foi injustamente criticado por ter despertado as tais expectativas errôneas. Com o tempo fica mais fácil perceber suas inúmeras qualidades dramáticas e admirá-lo pelo que realmente é: um produto pop com uma inteligência muito acima da média.

Tuesday, July 12, 2011

A HISTÓRIA DE NÓS DOIS

A HISTÓRIA DE NÓS DOIS (The story of us, 1999, Castle Rock Entertainment, 95min) Direção: Rob Reiner. Roteiro: Alan Zweibel, Jessie Nelson. Fotografia: Michael Chapman. Montagem: Alan Edward Bell, Robert Leighton. Música: Eric Clapton, Marc Shaiman. Figurino: Shay Cunliffe. Direção de arte/cenários: Lilly Kilvert/Sarah Jackson Burt, Kathy Lucas. Produção executiva: Frank Capra III, Jeffrey Stott. Produção: Jessie Nelson, Rob Reiner, Alan Zweibel. Elenco: Bruce Willis, Michelle Pfeiffer, Tim Matheson, Rita Wilson, Rob Reiner, Julie Hagerty, Paul Reiser. Estreia: 15/10/99

Não seria exagerar demais afirmar que, se as personagens de Billy Cristal e Meg Ryan em "Harry & Sally, feitos um para o outro" tivessem se casado, envelhecido alguns anos e tido um casal de filhos seriam mais ou menos como o casal central de "A história de nós dois", dirigido pelo mesmo Rob Reiner. Apesar da falta incomensurável que os diálogos sólidos e bem-humorados da roteirista Nora Ephron faz, pode-se dizer que este filme é uma cria mais madura de sua comédia romântica mais famosa, ainda que, obviamente, não tenha nem metade do charme de seu irmão mais velho.


Bruce Willis (com a carreira devidamente revigorada depois do impressionante êxito de "O sexto sentido") e Michelle Pfeiffer (impressionantemente bela) vivem Ben e Kate Jordan, um casal passando por uma crise quase irremediável. Cansados das infindáveis discussões quase diárias e da falta de romantismo de seu casamento, eles aproveitam a viagem dos filhos para uma colônia de férias para por sua relação na balança e chegarem a uma decisão sobre seu futuro. Enquanto ficam separados - e ela inicia um flerte com um recém-divorciado - eles tentam também descobrir em que momento de suas vidas os motivos que os levaram a se apaixonar um pelo outro tornaram-se o centro de suas frustrações.



O problema do roteiro de "A história de nós dois" é que ele não é engraçado e sardônico e nem ao menos profundo e maduro. Superficial, ele não investiga a contento todos os reveses de uma relação familiar e nem tampouco cria situações verdadeiramente engraçadas - e aqui faz muita falta um elenco de coadjuvantes fortes, como havia, por exemplo, em "Harry & Sally" (a comparação é inevitável, ainda que se tente fugir dela). Os diálogos entre Kate e suas amigas (dentre as quais se inclui Rita Wilson, a sra. Tom Hanks) e as conversas francas entre Ben e seus comparsas não encantam como deveriam. Fica-se claramente perceptível que apesar da ideia central ser muito boa, o desenvolvimento ficou muito aquém do que se pretendia.

Ainda que seja bastante fácil simpatizar com um casal atraente e carismático como o formado por Willis e Pfeiffer (que tem boa química e bom timing cômico), o filme de Rob Reiner nunca decola totalmente e nem atinge plenamente seus objetivos. Apesar de alguns bons momentos, não faz rir como deveria e não comove nas cenas mais emotivas (ainda que Michelle se esforce bastante em fazer de sua personagem algo mais do que uma mulher controladora e chata). Ainda assim - e ainda que pareça mais longo do que realmente é - é impossível não se encantar com seu charme e suas boas intenções.

"A história de nós dois" é um filme perfeito para ser visto a dois, especialmente quando se está passando ou se passou por uma crise semelhante. A despeito de sua falta de criatividade e ousadia, tem um final quase redentos, com uma edição de momentos vividos pelo casal que emociona pela simplicidade e vitalidade. Se o resto do filme tivesse seguido a mesma linha provavelmente seria menos esquecível - e a bela trilha sonora com canções de Eric Clapton tivesse sido mais festejada. Mesmo com todos os seus pecadilhos, porém, é um bom programa para quem sente falta de filmes espertos, feitos para um público adulto, que prescindem de efeitos visuais elaboradíssimos.

Monday, July 4, 2011

O SEXTO SENTIDO

O SEXTO SENTIDO (The sixth sense, 1999, Hollywood Pictures/Spyglass Entertainment, 107min) Direção e roteiro: M.Night Shyamalan. Fotografia: Tak Fujimoto. Montagem: Andrew Mondshein. Música: James Newton Howard. Figurino: Joanna Johnston. Direção de arte/cenários: Larry Fulton/Douglas Mowatt. Produção executiva: Sam Mercer. Produção: Kathleen Kennedy, Frank Marshall, Barry Mendel. Elenco: Bruce Willis, Olivia Williams, Haley Joel Osment, Toni Colette. Estreia: 06/8/99

6 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (M.Night Shyamalan), Ator Coadjuvante (Haley Joel Osment), Atriz Coadjuvante (Toni Colette), Roteiro Original, Montagem

Esqueça ectoplasmas arrastando correntes e mansões vitorianas assombradas. Depois de "O sexto sentido", os filmes de fantasmas atingiram um novo patamar de qualidade, deixando de lado os vícios perpetuados pelos filmes clássicos do gênero. Tirando a poeira do estilo e o arejando com uma modernidade que nunca lhe tira a tensão e o medo característicos, o filme de M. Night Shyamalan conquistou o mundo sem fazer muito esforço. Estreando com pouco alarde, o filme estrelado por Bruce Willis arrecadou mais de 600 milhões de dólares pelo mundo, conquistou seis indicações ao Oscar (inclusive as cobiçadas de filme, diretor e roteiro original) e de quebra revelou o garotinho Haley Joel Osment, que depois de ter protagonizado o encontro entre Steven Spielberg e Stanley Kubrick em "Inteligência artificial", desapareceu como a maioria dos atores mirins. Mas mais do que qualquer outra coisa, "O sexto sentido" devolveu ao espectador o prazer inigualável de assistir a uma história bem contada, inteligente e, o mais importante, extremamente humana, a despeito de ter algumas almas penadas como personagens.

O filme já começa com a adrenalina em alta. Voltando para casa depois de ser homenageado pela prefeitura da Filadélfia, onde mora, o psicólogo infantil Malcolm Crowe (Bruce Willis, muito eficiente) descobre que ela foi invadida por um ex-cliente, agora um jovem desequilibrado (um irreconhecível e assustador Donnie Wahlberg) que, em desespero lhe dá um tiro e se suicida em seguida. Alguns meses depois, Crowe encontra sua chance de redimir-se do fracasso em lidar com o jovem ao ter a possibilidade de tratar do pequeno Cole Sears (Haley Joel Osmente, nunca aquém de espetacular), um menino de oito anos que enfrenta problemas na escola e em casa. Isolado e solitário, Cole é criado pela mãe Lynn (Toni Colette, de "O casamento de Muriel", bem mais magra, ótima atriz e indicada ao Oscar de coadjuvante) e apresenta hematomas e comportamento arredio. Depois de algumas conversas com o garotinho, Malcolm descobre que seu problema não é doméstico: ele tem o dom (ou a maldição, dependendo do ponto de vista) de ver e falar com fantasmas, que lhe utilizam para resolver situações pendentes. Enquanto tenta ajudar Cole, o médico precisa também recuperar a relação com a esposa (Olivia Williams), abalada desde o atentado.

        

A maior inteligência do roteiro redondinho de Shyamalan - descendente de indianos cujo primeiro filme, "Olhos abertos" foi solenemente ignorado por todo mundo - é a sua opção em sugerir bem mais do que mostrar. Durante toda a sua primeira metade, "O sexto sentido" é lento, discreto, quase contemplativo, contando com uma trilha sonora impactante mas sutil de James Newton Howard. Após a revelação do dom de Cole, a trama atinge níveis de suspense e tensão capazes de arrepiar até o mais cético dos espectadores. É a partir daí que fantasmas cruzam a tela em momentos inesperados (ainda que pistas de sua aparição surjam constantemente) e que, de drama familiar, o filme passe a um terror psicológico dos melhores. A escolha por não exagerar em maquiagem e efeitos visuais também colabora para que o filme não fique datado e esteja tão fresco hoje quando de sua estreia, já há doze anos. Tudo isso somado ao talento do cineasta/roteirista em criar diálogos simples mas profundos e dirigir seus atores com maestria faz com que, mais do que um filme de terror feito para apavorar plateias, "O sexto sentido" atinja um outro nível emocional e artístico. Mesmo quem não gosta de levar sustos é capaz de se perceber chorando ao final da projeção, graças à delicadeza com que tudo se desenrola - e à cena magistral em que Cole finalmente conta seu segredo à sua mãe.

Já em "O sexto sentido" M. Night Shyamalan utilizava-se de algumas de suas marcas registradas (a importância dada à cor vermelha, a trilha sonora de James Newton Howard, a inteligência da edição de som, o cuidado com o desenvolvimento da trama). Criador ainda de uma outra obra-prima ("Corpo fechado"), um filme excelente ("Sinais") e vários filmes que dividiram crítica e público (entre eles o sofrível "A vila" e o subapreciado "A dama da água"), Shyamalan pode ser acusado de qualquer coisa, menos de ter sido elogiado à toa. "O sexto sentido" mereceu todo o sucesso que fez, por ter devolvido ao público a fé no bom cinema de suspense sem ter que apelar para a violência explícita.

Sunday, February 20, 2011

OS 12 MACACOS

OS DOZE MACACOS (Twelve monkeys, 1995, Universal Pictures, 129min) Direção: Terry Gilliam. Roteiro: David Peoples, Janet Peoples, roteiro original de Chris Marker. Fotografia: Roger Pratt. Montagem: Mick Audsley. Música: Paul Buckmaster. Figurino: Julie Weiss. Direção de arte/cenários: Jeffrey Beecroft/Crispian Sallis. Produção executiva: Robert Cavallo, Robert Kosberg, Gary Levinsohn. Produção: Charles Roven. Elenco: Bruce Willis, Madeleine Stowe, Brad Pitt, Christopher Plummer, David Morse, Christopher Meloni. Estreia: 27/12/95

2 indicações ao Oscar: Ator Coadjuvante (Brad Pitt), Figurino
Vencedor do Golden Globe de Ator Coadjuvante (Brad Pitt)

Quando os estúdios de Hollywood passam por crises criativas - e isso ocorre com uma frequência alarmante - o jeito é apelar a qualquer ideia que possa transformar-se em um filme razoavelmente interessante. Refilmar obras estrangeiras, então, passou a ser uma opção recorrente para sanar os bloqueios artísticos ianques. Foi assim com "Sommersby, o retorno de um estranho", que diluiu o impacto do original com Gerard Depardieu e com "True lies", que melhorou bastante o original francês, adicionando muito mais humor e ação à sua trama original. Em 1995, o prestigiado Terry Gilliam provou que até mesmo cineastas mais conhecidos por sua ojeriza ao sistema também fazer concessões ao comercial. "Os doze macacos" é a releitura do curta-metragem francês "La jetèe", lançado em 1962, mas sob a ótica de um dos fundadores do Monthy Phyton - e realizador do onírico "Brazil, o filme" - apenas a ideia central do original se mantém intacta.

Gilliam nem mesmo assistiu ao curta francês, dando atenção exclusiva ao roteiro distópico de David e Janet Peoples, que amplia a ideia complexa de viagens no tempo. Livre das amarras de ter que realizar uma refilmagem no sentido mais pleno do termo, o cineasta encontra espaço o bastante para suas excentricidades visuais - que encontra a expressão exata na direção de arte claustrófica e no figurino de Julie Weiss, indicado merecidamente ao Oscar. Explorando com perfeição a fotografia expressionista de Roger Pratt e a trilha sonora vibrante de Paul Buckmaster - que conquista a plateia já nos créditos iniciais, com um tango arrebatador que retorna sempre nos momentos mais emocionantes -  Gilliam faz mais do que apenas divertir sua audiência: ele a faz exercitar o cérebro, deixando-a com um ponto de interrogação até suas (tensas) cenas finais.



De acordo com a trama do filme, a população da Terra será dizimada por um vírus fatal, que vitimará mais de 5 bilhões de pessoas no ano de 1996. Em um futuro não determinado, um grupo de cientistas resolve enviar um apenado para alguns meses antes da pandemia, para que ele colete dados que possibilitem uma reversão da tragédia. O escolhido é o violento James Cole (Bruce Willis), que, mesmo sem saber direito em que consiste sua missão, vai parar em Baltimore, Atlanta, no ano de 1990 por um erro de cálculo. Preso como indigente, ele trava conhecimento com a psiquiatra Kathryn (Madeleine Stowe) e, no hospital onde é internado, com o alucinado Jeffrey Goines (Brad Pitt), filho de um conhecido virólogo. Depois de um retorno antecipado a seu período de origem, logo Cole volta à Terra, dessa vez realmente para o ano correto. Ao lado de Kathryn, Cole tentará impedir que o exército de ecoterroristas liderados por Goines - chamado de 12 macacos - libere o vírus que destruirá a humanidade.

Propositalmente confuso - talvez como forma de identificar a plaeia com seu protagonista atônito e quase impotente diante de um cataclisma de proporções gigantescas - "Os 12 macacos" força o espectador a estar atento durante toda a sua duração, uma vez que dá detalhes visuais, auditivos e verbais de seu desfecho a cada instante. Cada linha de díálogo e cada imagem são importantíssimos para que a experiência seja compreendida de todo. E é bem possível que essa necessidade de comprometimento extra com o cérebro que tenha sido a responsável pela bilheteria abaixo do esperado no mercado norte-americano. Para um filme que unia Bruce Willis com o ascendente Brad Pitt - vindo de sucessos consecutivos - uma renda de menos de 60 milhões, ainda que respeitável, soou como um pequeno fracasso comercial. Fazer o que se o público prefere filmes-pipoca com roteiro qualquer nota?

"Os 12 macacos" é uma aventura de ficção científica que foge dos padrões a que todos estamos acostumados. Não busca a aprovação da plateia com sequências de tirar o fôlego nem tampouco a confunde com termos absurdos inventados por fãs de "Star Trek" ou "Star Wars". É um suspense aterrador, que, apesar do tom negativista que imprime em quase toda a sua duração - graças ao visual feio proposto pelo desenhista de produção - termina com uma lufada de otimismo e e alívio. E ainda mostrou que, além de um galã feito sob medida para o século XXI, Brad Pitt é também um ator seguro e competente, que não se importa em abdicar de sua beleza para construir uma personagem forte e marcante.

Saturday, January 22, 2011

PULP FICTION - TEMPO DE VIOLÊNCIA

PULP FICTION, TEMPO DE VIOLÊNCIA (Pulp fiction, 1994, Miramax Films/Jersey Films/A Band Apart, 154min) Direção: Quentin Tarantino. Roteiro: Quentin Tarantino, histórias de Quentin Tarantino e Lawrence Bender. Fotografia: Andrzej Sekula. Montagem: Sally Menke. Figurino: Betsy Heinman. Direção de arte/cenários: David Wasco/Sandy Reynolds-Wasco. Produção executiva: Danny DeVito, Michael Shamberg, Stacey Sher. Produção: Lawrence Bender. Elenco: John Travolta, Bruce Willis, Samuel L. Jackson, Uma Thurman, Harvey Keitel, Christopher Walken, Tim Roth, Amanda Plummer, Maria de Medeiros, Ving Rhames, Frank Whaley, Quentin Tarantino, Alexis Arquette. Estreia: Maio de 1994 (Festival de Cannes)

7 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Quentin Tarantino), Ator (John Travolta), Ator Coadjuvante (Samuel L. Jackson), Atriz Coadjuvante (Uma Thurman), Roteiro Original, Montagem
Vencedor do Oscar de Roteiro Original
Vencedor do Golden Globe de Roteiro Original
Palma de Ouro no Festival de Cannes (Melhor Filme)


Já faz mais de quinze anos que "Pulp fiction" levou a Palma de Ouro no Festival de Cannes e sua influência sobre o cinema americano - e mundial - ainda está longe de arrefecer. Primeiro filme de Quentin Tarantino depois de sua bombástica estreia - o violento "Cães de aluguel" - "Pulp fiction" pegou o mundo de surpresa ao subverter praticamente todas as regras pré-concebidas do cinemão comercial e apresentar um painel cru, engraçado e amoral de pessoas que circulam em um universo particularmente interessante ao cineasta. Desfilam pela tela - por cerca de duas horas e meia de duração - assassinos de aluguel, gângsteres de esquina, boxeadores fracassados e junkies irremediáveis. Vindo da cabeça de Tarantino - dono de um enciclopédico conhecimento sobre filmes B - não é de se estranhar nenhum detalhe de "Pulp fiction". O que é de deixar qualquer um surpreso é o fato do filme ter chegado pertinho de ganhar o Oscar máximo. Não chegou lá - ficou "apenas" com a estatueta de roteiro original - mas só concorrer ao lado de obras certinhas - excelentes, sem dúvida, mas pouco inovadoras - como "Forrest Gump" e "Um sonho de liberdade", já é motivo de choque.

Quentin Tarantino - assim como David Lynch e Pedro Almodovar - é uma espécie de deus de seu próprio universo. Em seus filmes qualquer coisa é possível, qualquer absurdo é compreensível e qualquer personagem é crível. Dentro de seu específico mundo - decorado e sonorizado com uma mistura de anos 60, 70 e 80 aparentemente sem nexo - ele conduz o espectador a situações bizarras sem dar espaço a questionamentos supérfluos. É somente dentro da obra sui generis do cineasta que matadores verborrágicos em vias de converter-se cruzam o caminho de foragidos ameaçados de morte que adiam a fuga para correr atrás de relíquias familiares - e que dão de cara com bizarros estupradores sadomasoquistas. Sim, isso é "Pulp fiction". Isso e muito mais.

Narrado fora de ordem cronológica - artifício que funciona à perfeição aqui, mas que virou quase uma praga em seu rastro, uma vez que qualquer filme "moderno" a utilizou sem parcimônia desde então - "Pulp fiction" começa apresentando um casal de assaltantes, Pumpkin (Tim Roth) e Honey Bunny (Amanda Plummer), que decide dar uma virada na vida e partir para ações mais ambiciosas e menos perigosas. Antes mesmo que sua história tenha um desfecho, o público é levado a conhecer Vincent Vega (John Travolta no mais consistente retorno de sua carreira) e Jules Winfield (Samuel L. Jackson), em vias de cumprir uma "missão" para seu chefe, o temível Marsellus Wallace (Ving Rhames). Tão logo o trabalho dos dois companheiros é finalizado, começa a história do encontro entre o desajeitado Vincent com Mia (Uma Thurman), a esposa de seu patrão, uma ex-atriz apaixonada por drogas pesadas que o leva a um pesadelo noturno ao sofrer uma overdose acidental. Em seguida, somos jogados na aventura de Butch Coolidge (Bruce Willis), um boxeador que, desafiando o combinado com seus contratadores - entregar uma importante luta - foge em disparada rumo aos braços da namorada, Fabienne (Maria de Medeiros), mas é obrigado a fazer uma retirada estratégica para recuperar o relógio de ouro que pertenceu a seu avô e a seu pai - só para ser vítima de um estranho sequestro ao lado de seu inimigo. E para finalizar tudo, Jules e Vincent são obrigados a chamar o eficiente Mr. Wolf (Harvey Keitel) para resolver um grave e sangrento acidente provocado com um tiro disparado sem querer.


Mesmo hoje, depois de dezenas de imitações baratas e sofríveis, "Pulp fiction" se mantém como revolucionário e impactante. Seu texto afiado (e principalmente repleto de uma naturalidade rara), sua trilha sonora sensacional (impossível não lembrar de sequências inteiras ao ouvir algumas de suas canções), sua absoluta falta de compromisso com o déja-vu e seu humor sardônico são marcas registradas de Tarantino e não são encontradas em quaisquer filmes que beberam de sua fonte. O estilo de Tarantino é legítimo, ao contrário de seus copiadores, e isso faz toda a diferença: o texto de "Pulp fiction soa orgânico e jamais forçado e encontra em seus atores os intérpretes ideais. E é nesse quesito que o cineasta mais influente da década de 90 se sobressai gritantemente: sem seu elenco, escalado a dedo, "Pulp fiction" provavelmente perderia muito de seu impacto.

Ainda que tenha sido John Travolta o mais festejado dos atores do filme - em um retorno que lhe deu uma merecida indicação ao Oscar - é difícil não se deixar fascinar pelos olhos hipnotizantes de Samuel L. Jackson (dono dos diálogos mais substanciais e cultuados da obra) ou seduzir pelo charme de Uma Thurman (que só aceitou fazer parte do elenco depois que o próprio diretor leu o roteiro todo pelo telefone). Tanto Jackson quanto Thurman concorreram à estatueta mais cobiçada do cinema e poderiam facilmente ter vencido. E é um duro golpe aos detratores que insistem em dizer que Tarantino não é bom diretor de atores ver o que ele consegue fazer com Bruce Willis, por exemplo, na melhor atuação de sua carreira, ou com Ving Rhames, um ator pouco conhecido alçado à categoria de assustador com sua performance como Marsellus Wallace - um gângster perigoso flagrado pelas câmeras hiperativas do cineasta em um momento de extrema fragilidade. E isso que nem é preciso falar de nomes consagrados como Harvey Keitel, Christopher Walken e Tim Roth, que apenas reiteram seu talento mesmo em pequenos papéis.

A força de "Pulp fiction" reside em suas inúmeras qualidades que, somadas, fazem dele o filme fundamental de sua época. Parte do inconsciente coletivo de uma legião de fãs da sétima arte, a obra-prima de Quentin Tarantino - se bem que quase todos os seus filmes o são - é um perfeito exemplo do quão inteligente, excitante e corajoso o cinema americano pode ser. Para ver, rever e trever, sempre com a mesma sensação de ineditismo.