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Thursday, May 5, 2011

JACKIE BROWN

JACKIE BROWN (Jackie Brown, 1997, Miramax Films, 154min) Direção: Quentin Tarantino. Roteiro: Quentin Tarantino, romance "Punch Rum", de Elmore Leonard. Fotografia: Guillermo Navarro. Montagem: Sally Menke. Figurino: Mary Claire Hannah. Direção de arte/cenários: David Wasco/Sandy-Reynolds Wasco. Produção executiva: Elmore Leonard, Bob Weinstein, Harvey Weistein. Produção: Richard N. Gladstein. Elenco: Pam Grier, Samuel L. Jackson, Robert Forster, Robert De Niro, Bridget Fonda, Michael Keaton, Chris Rock. Estreia: 25/12/97

Indicado ao Oscar de Ator Coadjuvante (Robert Forster)
Vencedor de Melhor Ator (Samuel L. Jackson) no Festival de Berlim

Pouco mais de três anos se passaram entre a estreia de "Pulp Fiction" no Festival de Cannes de 1994 - de onde saiu com a Palma de Ouro - e de "Jackie Brown", no natal de 1997. Talvez por excesso de expectativa, no entanto, o terceiro trabalho de Quentin Tarantino não causou o mesmo barulho daquele que muitos consideram sua obra-prima. Como prova da incoerência da crítica - e também de boa parcela do público - Tarantino foi vítima de si mesmo: todos aqueles que incensaram "Pulp fiction" por sua criatividade e inovação esperavam o mesmo de "Jackie Brown". Como o ex-atendentende de videolocadora pode ser tudo, menos repetitivo, o esperado não aconteceu. Bastante diferente de "Pulp fiction", seu filme foge do previsível e, se não revolucionou o mundo do cinema, ao menos reiterou a excelência de seu criador como um cineasta capaz de sempre pegar o espectador de surpresa.

Trabalhando pela primeira - e até agora única - vez em cima de material alheio, Tarantino adaptou o romance "Punch run", de Elmore Leonard à sua maneira, se apropriando da trama e das personagens com sua característica avidez. Transformar a protagonista em uma negra - no livro ela era branca - foi apenas o princípio: "Jackie Brown" pode até dever sua origem a Leonard (cujo "Irresistível paixão" também virou filme logo em seguida), mas é Tarantino puro, na sua mais cristalina essência. Estão no filme todas as suas obsessões: personagens marginalizadas, edição inteligente, diálogos longos e recheados de referências pop e principalmente atuações brilhantes - e de atores redescobertos por seu tradicional talento arqueológico.



A Jackie Brown do título - a tal que era branca e transformou-se em negra para dar a oportunidade para a atriz Pam Grier voltar aos holofotes depois de anos desaparecida do cinema (onde trabalhou em filmes sobre a cultura black nos anos 70) - é uma comissária de bordo de uma empresa de aviação mixuruca que faz vôos entre EUA e México. Para complementar sua magra renda, ela trabalha como atravessadora para Robin Ordell (Samuel L. Jackson), um vendedor de armas procurado pelo FBI. Pega em uma armadilha da polícia, ela se vê obrigada a deletar seu chefe, mas antes disso, bola um plano que a fará colocar a mão em 500 mil dólares que pertencem ao criminoso. Para isso, ela conta com a ajuda de Max (Robert Forster, outro ressuscitado pelo diretor), seu agente de condicional que tem uma quedinha por ela. Porém, o que ela não sabe é que outras pessoas também estão de olho na grana, em especial um antigo comparsa de Ordell, o ex-presidiário Louis (Robert DeNiro) e a sexy (Bridget Fonda), uma gata de praia que vê no dinheiro a chance de sua vida.

A bem da verdade, é difícil resumir a trama de "Jackie Brown" sem que se fique com a sensação de déja-vu: a sinopse é, realmente, quase derivativa, repleta dos clichês que povoam o gênero policial. Mas Quentin Tarantino não é um cineasta burocrático e isso fica claro em inúmeras sequências de um filme muito acima da média de seus congêneres. Se a primeira parte concentra-se na apresentação das personagens - e o faz com propriedade e um senso de humor negro invejáveis - sua segunda metade é nunca menos do que fascinante. Valorizado pela edição espetacular de Sally Menke  (parceira fiel do diretor, morta em 2010), o roteiro vai de um drama policial sobre lealdade e segundas chances para um intrigante suspense, que prende o espectador na cadeira com a respiração em suspenso. A repetição da sequência do plano de Jackie - vista pelos pontos de vista diferentes das personagens - é genial, não dando à audiência nenhuma pista sobre o que virá. Quando tudo fica claro diante do público, é impossível não abrir um sorriso de cumplicidade...

E cumplicidade talvez seja a palavra-chave em "Jackie Brown". Quentin Tarantino faz com que a audiência entre aos poucos na história contada, para que, ao seu final, sinta-se como parte integrante da narrativa, testemunha privilegiada de uma trama tão cheia de detalhes que qualquer frase, qualquer tom, qualquer acontecimento, por mínimo que pareça, tem uma importância fundamental em seu desfecho. Para isso, conta com um Samuel L. Jackson brilhante (mais uma vez) e uma Pam Grier que justifica a transformação racial da protagonista (além de um inspirado Robert Forster e uma divertida Bridget Fonda). Apenas Michael Keaton, com sua habitual apatia, destoa do restante do elenco. Tendo ainda uma trilha sonora vibrante que prende desde a primeira cena e um elenco de personagens que Leonard criou e Tarantino adotou como um pai carinhoso, "Jackie Brown" é um trabalho que não deixa nada a desejar aos fãs de bom cinema. Azar de quem não consegue perceber que um tentar novo "Pulp fiction" seria a pior coisa que poderia acontecer à carreira de seu criador.

Saturday, January 22, 2011

PULP FICTION - TEMPO DE VIOLÊNCIA

PULP FICTION, TEMPO DE VIOLÊNCIA (Pulp fiction, 1994, Miramax Films/Jersey Films/A Band Apart, 154min) Direção: Quentin Tarantino. Roteiro: Quentin Tarantino, histórias de Quentin Tarantino e Lawrence Bender. Fotografia: Andrzej Sekula. Montagem: Sally Menke. Figurino: Betsy Heinman. Direção de arte/cenários: David Wasco/Sandy Reynolds-Wasco. Produção executiva: Danny DeVito, Michael Shamberg, Stacey Sher. Produção: Lawrence Bender. Elenco: John Travolta, Bruce Willis, Samuel L. Jackson, Uma Thurman, Harvey Keitel, Christopher Walken, Tim Roth, Amanda Plummer, Maria de Medeiros, Ving Rhames, Frank Whaley, Quentin Tarantino, Alexis Arquette. Estreia: Maio de 1994 (Festival de Cannes)

7 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Quentin Tarantino), Ator (John Travolta), Ator Coadjuvante (Samuel L. Jackson), Atriz Coadjuvante (Uma Thurman), Roteiro Original, Montagem
Vencedor do Oscar de Roteiro Original
Vencedor do Golden Globe de Roteiro Original
Palma de Ouro no Festival de Cannes (Melhor Filme)


Já faz mais de quinze anos que "Pulp fiction" levou a Palma de Ouro no Festival de Cannes e sua influência sobre o cinema americano - e mundial - ainda está longe de arrefecer. Primeiro filme de Quentin Tarantino depois de sua bombástica estreia - o violento "Cães de aluguel" - "Pulp fiction" pegou o mundo de surpresa ao subverter praticamente todas as regras pré-concebidas do cinemão comercial e apresentar um painel cru, engraçado e amoral de pessoas que circulam em um universo particularmente interessante ao cineasta. Desfilam pela tela - por cerca de duas horas e meia de duração - assassinos de aluguel, gângsteres de esquina, boxeadores fracassados e junkies irremediáveis. Vindo da cabeça de Tarantino - dono de um enciclopédico conhecimento sobre filmes B - não é de se estranhar nenhum detalhe de "Pulp fiction". O que é de deixar qualquer um surpreso é o fato do filme ter chegado pertinho de ganhar o Oscar máximo. Não chegou lá - ficou "apenas" com a estatueta de roteiro original - mas só concorrer ao lado de obras certinhas - excelentes, sem dúvida, mas pouco inovadoras - como "Forrest Gump" e "Um sonho de liberdade", já é motivo de choque.

Quentin Tarantino - assim como David Lynch e Pedro Almodovar - é uma espécie de deus de seu próprio universo. Em seus filmes qualquer coisa é possível, qualquer absurdo é compreensível e qualquer personagem é crível. Dentro de seu específico mundo - decorado e sonorizado com uma mistura de anos 60, 70 e 80 aparentemente sem nexo - ele conduz o espectador a situações bizarras sem dar espaço a questionamentos supérfluos. É somente dentro da obra sui generis do cineasta que matadores verborrágicos em vias de converter-se cruzam o caminho de foragidos ameaçados de morte que adiam a fuga para correr atrás de relíquias familiares - e que dão de cara com bizarros estupradores sadomasoquistas. Sim, isso é "Pulp fiction". Isso e muito mais.

Narrado fora de ordem cronológica - artifício que funciona à perfeição aqui, mas que virou quase uma praga em seu rastro, uma vez que qualquer filme "moderno" a utilizou sem parcimônia desde então - "Pulp fiction" começa apresentando um casal de assaltantes, Pumpkin (Tim Roth) e Honey Bunny (Amanda Plummer), que decide dar uma virada na vida e partir para ações mais ambiciosas e menos perigosas. Antes mesmo que sua história tenha um desfecho, o público é levado a conhecer Vincent Vega (John Travolta no mais consistente retorno de sua carreira) e Jules Winfield (Samuel L. Jackson), em vias de cumprir uma "missão" para seu chefe, o temível Marsellus Wallace (Ving Rhames). Tão logo o trabalho dos dois companheiros é finalizado, começa a história do encontro entre o desajeitado Vincent com Mia (Uma Thurman), a esposa de seu patrão, uma ex-atriz apaixonada por drogas pesadas que o leva a um pesadelo noturno ao sofrer uma overdose acidental. Em seguida, somos jogados na aventura de Butch Coolidge (Bruce Willis), um boxeador que, desafiando o combinado com seus contratadores - entregar uma importante luta - foge em disparada rumo aos braços da namorada, Fabienne (Maria de Medeiros), mas é obrigado a fazer uma retirada estratégica para recuperar o relógio de ouro que pertenceu a seu avô e a seu pai - só para ser vítima de um estranho sequestro ao lado de seu inimigo. E para finalizar tudo, Jules e Vincent são obrigados a chamar o eficiente Mr. Wolf (Harvey Keitel) para resolver um grave e sangrento acidente provocado com um tiro disparado sem querer.


Mesmo hoje, depois de dezenas de imitações baratas e sofríveis, "Pulp fiction" se mantém como revolucionário e impactante. Seu texto afiado (e principalmente repleto de uma naturalidade rara), sua trilha sonora sensacional (impossível não lembrar de sequências inteiras ao ouvir algumas de suas canções), sua absoluta falta de compromisso com o déja-vu e seu humor sardônico são marcas registradas de Tarantino e não são encontradas em quaisquer filmes que beberam de sua fonte. O estilo de Tarantino é legítimo, ao contrário de seus copiadores, e isso faz toda a diferença: o texto de "Pulp fiction soa orgânico e jamais forçado e encontra em seus atores os intérpretes ideais. E é nesse quesito que o cineasta mais influente da década de 90 se sobressai gritantemente: sem seu elenco, escalado a dedo, "Pulp fiction" provavelmente perderia muito de seu impacto.

Ainda que tenha sido John Travolta o mais festejado dos atores do filme - em um retorno que lhe deu uma merecida indicação ao Oscar - é difícil não se deixar fascinar pelos olhos hipnotizantes de Samuel L. Jackson (dono dos diálogos mais substanciais e cultuados da obra) ou seduzir pelo charme de Uma Thurman (que só aceitou fazer parte do elenco depois que o próprio diretor leu o roteiro todo pelo telefone). Tanto Jackson quanto Thurman concorreram à estatueta mais cobiçada do cinema e poderiam facilmente ter vencido. E é um duro golpe aos detratores que insistem em dizer que Tarantino não é bom diretor de atores ver o que ele consegue fazer com Bruce Willis, por exemplo, na melhor atuação de sua carreira, ou com Ving Rhames, um ator pouco conhecido alçado à categoria de assustador com sua performance como Marsellus Wallace - um gângster perigoso flagrado pelas câmeras hiperativas do cineasta em um momento de extrema fragilidade. E isso que nem é preciso falar de nomes consagrados como Harvey Keitel, Christopher Walken e Tim Roth, que apenas reiteram seu talento mesmo em pequenos papéis.

A força de "Pulp fiction" reside em suas inúmeras qualidades que, somadas, fazem dele o filme fundamental de sua época. Parte do inconsciente coletivo de uma legião de fãs da sétima arte, a obra-prima de Quentin Tarantino - se bem que quase todos os seus filmes o são - é um perfeito exemplo do quão inteligente, excitante e corajoso o cinema americano pode ser. Para ver, rever e trever, sempre com a mesma sensação de ineditismo.

Thursday, November 25, 2010

CÃES DE ALUGUEL

CÃES DE ALUGUEL (Reservoir dogs, 1992, Miramax Films, 99min) Direção e roteiro: Quentin Tarantino. Fotografia: Andrzej Sekula. Montagem: Sally Menke. Figurino: Betsy Heimann. Direção de arte/cenários: David Wasco/Sandy Reynolds-Wasco. Casting: Ronnie Yeskel. Produção executiva: Richard N. Gladstein, Monte Hellman, Ronna B. Wallace. Produção: Lawrence Bender. Elenco: Harvey Keitel, Tim Roth, Michael Madsen, Lawrence Tierney, Chris Penn, Steve Buscemi, Quentin Tarantino, Edward Bunker. Estreia: 08/10/92

Poucas vezes um filme de estreia causou tanta balbúrdia quanto "Cães de aluguel", primeiro trabalho do ex-balconista de videolocadora Quentin Tarantino por trás das câmeras. Logo de cara o jovem (então com 32 anos) foi comparado a ninguém menos que Martin Scorsese, principalmente devido à sua temática e violência. E o pior (ou melhor, no caso) é saber que todos os elogios que recebeu foram amplamente merecidos. Realizado com pouco mais de um milhão de dólares, o filme de Tarantino em nenhum momento deixa transparecer seu orçamento irrisório. O motivo? Seu foco no texto, nos atores e na tensão constante.

Escrito em três semanas e meia e filmado em 35 dias, "Cães de aluguel" é talvez o mais influente filme independente americano de todos os tempos. Estiloso, cru, empolgante e realista ao extremo, é também um policial excitante e enxuto, que não deixa a plateia respirar nem por um minuto depois de seu hilário texto inicial - onde as personagens discutem teorias a respeito de canções de Madonna. Depois dos créditos de abertura, a ação começa e ganha um doce quem conseguir desgrudar os olhos da tela.


Os "cães de aluguel" do título são um grupo de bandidos reunidos por Joe Cabot (Lawrence Tierney) para o assalto a uma joalheria. Todos chamados por pseudônimos para que não se saiba nada a respeito um do outro, eles armam um plano aparentemente perfeito que dá muito errado. A chegada da polícia, um tiroteio e algumas vítimas fatais - inclusive entre os criminosos - levam os sobreviventes a um galpão abandonado, onde eles haviam combinado de encontrar-se. Lá, o veterano Mr. White (Harvey Keitel) tenta acalmar Mr. Orange (Tim Roth), mortalmente ferido no estômago e, ao lado do nervoso Mr. Pink (Steve Buscemi), tenta descobrir quem, no grupo, é o informante da polícia. A chegada do psicótico Mr. Blonde (Michael Madsen), com um policial de refém, deixa as coisas ainda mais tensas. É somente quando Cabot e seu filho, Nice Guy Eddie (Chris Penn) chegam que tudo se encaminha para um final extremamente violento.


Co-produzido por Harvey Keitel - que leu o roteiro e apaixonou-se à primeira vista - "Cães de aluguel" já demonstra o estilo que caracterizaria a obra de Quentin Tarantino nos anos subsequentes: os diálogos rápidos e espertos (recheados de cultura pop), a edição frenética (a cargo de Sally Menke, morta precocemente este ano), a trilha sonora composta por pérolas trash e principalmente a escolha acertadíssima do elenco. O próprio cineasta atua no filme, como Mr. Brown, mas ambicionava o papel de Mr. Pink, interpretado com propriedade por Steve Buscemi - depois que George Clooney (ainda um ninguém na indústria) foi recusado. É admirável perceber como os atores escolhidos pelo diretor casaram perfeitamente com seus papéis. Tim Roth e Harvey Keitel tem uma química invejável, Chris Penn tem o melhor trabalho da carreira e Michael Madsen merece louvores à parte pela composição inesquecível do psicótico Mr. Blonde, dono da cena mais controversa de toda a obra.

Não houve quem tenha assistido a "Cães de aluguel" sem comentar - ou ao menos se chocar - com a famosa sequência em que Mr. Blonde tortura o policial feito de refém - a ponto de arrancar-lhe uma orelha. Assustadora e quase explícita, ela foi motivo de conversas em mesas de bares, discussões sobre a violência no cinema e proporcionou a Michael Madsen o momento mais marcante de sua carreira. A imagem de sua personagem tomando calmamente um milk-shake antes de partir para a ignorância fria e calculada é de arrepiar qualquer cinéfilo, que tem, inclusive, em "Cães de aluguel" algumas imagens marcadas na retina para sempre.


O grupo de criminosos vestidos de paletó e gravata no início do filme - que virou inclusive parte do logotipo da produtora de Tarantino, A Band Apart - Harvey Keitel dando pontapés em um Steve Buscemi caído no chão e a poderosa imagem de quatro dos "amigos" apontando armas uns para os outros no clímax são cenas de grande impacto visual e uma mostra do talento inegável do diretor já em seu primeiro trabalho - um talento que, apesar de alguns detratores dizerem o contrário, foi apenas se refinando com o tempo e a maturidade. E o roteiro - trabalhado fora de ordem cronológica, outra característica de Tarantino - é conciso, inteligente e verossímil sem, porém, apelar para a previsibilidade.


"Cães de aluguel" é uma das melhores estreias da história do cinema, quer goste-se ou não. Rendeu imitações, homenagens e citações. Mas mantém seu frescor e força apesar da distância do tempo.