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Thursday, November 25, 2010

CÃES DE ALUGUEL

CÃES DE ALUGUEL (Reservoir dogs, 1992, Miramax Films, 99min) Direção e roteiro: Quentin Tarantino. Fotografia: Andrzej Sekula. Montagem: Sally Menke. Figurino: Betsy Heimann. Direção de arte/cenários: David Wasco/Sandy Reynolds-Wasco. Casting: Ronnie Yeskel. Produção executiva: Richard N. Gladstein, Monte Hellman, Ronna B. Wallace. Produção: Lawrence Bender. Elenco: Harvey Keitel, Tim Roth, Michael Madsen, Lawrence Tierney, Chris Penn, Steve Buscemi, Quentin Tarantino, Edward Bunker. Estreia: 08/10/92

Poucas vezes um filme de estreia causou tanta balbúrdia quanto "Cães de aluguel", primeiro trabalho do ex-balconista de videolocadora Quentin Tarantino por trás das câmeras. Logo de cara o jovem (então com 32 anos) foi comparado a ninguém menos que Martin Scorsese, principalmente devido à sua temática e violência. E o pior (ou melhor, no caso) é saber que todos os elogios que recebeu foram amplamente merecidos. Realizado com pouco mais de um milhão de dólares, o filme de Tarantino em nenhum momento deixa transparecer seu orçamento irrisório. O motivo? Seu foco no texto, nos atores e na tensão constante.

Escrito em três semanas e meia e filmado em 35 dias, "Cães de aluguel" é talvez o mais influente filme independente americano de todos os tempos. Estiloso, cru, empolgante e realista ao extremo, é também um policial excitante e enxuto, que não deixa a plateia respirar nem por um minuto depois de seu hilário texto inicial - onde as personagens discutem teorias a respeito de canções de Madonna. Depois dos créditos de abertura, a ação começa e ganha um doce quem conseguir desgrudar os olhos da tela.


Os "cães de aluguel" do título são um grupo de bandidos reunidos por Joe Cabot (Lawrence Tierney) para o assalto a uma joalheria. Todos chamados por pseudônimos para que não se saiba nada a respeito um do outro, eles armam um plano aparentemente perfeito que dá muito errado. A chegada da polícia, um tiroteio e algumas vítimas fatais - inclusive entre os criminosos - levam os sobreviventes a um galpão abandonado, onde eles haviam combinado de encontrar-se. Lá, o veterano Mr. White (Harvey Keitel) tenta acalmar Mr. Orange (Tim Roth), mortalmente ferido no estômago e, ao lado do nervoso Mr. Pink (Steve Buscemi), tenta descobrir quem, no grupo, é o informante da polícia. A chegada do psicótico Mr. Blonde (Michael Madsen), com um policial de refém, deixa as coisas ainda mais tensas. É somente quando Cabot e seu filho, Nice Guy Eddie (Chris Penn) chegam que tudo se encaminha para um final extremamente violento.


Co-produzido por Harvey Keitel - que leu o roteiro e apaixonou-se à primeira vista - "Cães de aluguel" já demonstra o estilo que caracterizaria a obra de Quentin Tarantino nos anos subsequentes: os diálogos rápidos e espertos (recheados de cultura pop), a edição frenética (a cargo de Sally Menke, morta precocemente este ano), a trilha sonora composta por pérolas trash e principalmente a escolha acertadíssima do elenco. O próprio cineasta atua no filme, como Mr. Brown, mas ambicionava o papel de Mr. Pink, interpretado com propriedade por Steve Buscemi - depois que George Clooney (ainda um ninguém na indústria) foi recusado. É admirável perceber como os atores escolhidos pelo diretor casaram perfeitamente com seus papéis. Tim Roth e Harvey Keitel tem uma química invejável, Chris Penn tem o melhor trabalho da carreira e Michael Madsen merece louvores à parte pela composição inesquecível do psicótico Mr. Blonde, dono da cena mais controversa de toda a obra.

Não houve quem tenha assistido a "Cães de aluguel" sem comentar - ou ao menos se chocar - com a famosa sequência em que Mr. Blonde tortura o policial feito de refém - a ponto de arrancar-lhe uma orelha. Assustadora e quase explícita, ela foi motivo de conversas em mesas de bares, discussões sobre a violência no cinema e proporcionou a Michael Madsen o momento mais marcante de sua carreira. A imagem de sua personagem tomando calmamente um milk-shake antes de partir para a ignorância fria e calculada é de arrepiar qualquer cinéfilo, que tem, inclusive, em "Cães de aluguel" algumas imagens marcadas na retina para sempre.


O grupo de criminosos vestidos de paletó e gravata no início do filme - que virou inclusive parte do logotipo da produtora de Tarantino, A Band Apart - Harvey Keitel dando pontapés em um Steve Buscemi caído no chão e a poderosa imagem de quatro dos "amigos" apontando armas uns para os outros no clímax são cenas de grande impacto visual e uma mostra do talento inegável do diretor já em seu primeiro trabalho - um talento que, apesar de alguns detratores dizerem o contrário, foi apenas se refinando com o tempo e a maturidade. E o roteiro - trabalhado fora de ordem cronológica, outra característica de Tarantino - é conciso, inteligente e verossímil sem, porém, apelar para a previsibilidade.


"Cães de aluguel" é uma das melhores estreias da história do cinema, quer goste-se ou não. Rendeu imitações, homenagens e citações. Mas mantém seu frescor e força apesar da distância do tempo.
 

Thursday, November 4, 2010

THELMA & LOUISE

THELMA & LOUISE (Thelma & Louise, 1991, MGM Pictures, 130min) Direção: Ridley Scott. Roteiro: Callie Khouri. Fotografia: Adrian Biddle. Montagem: Thom Noble. Música: Hans Zimmer. Figurino: Elizabeth McBride. Direção de arte/cenários: Norris Spencer/Anne Ahrens. Casting: Louis Di Giaimo. Produção: Mimi Polk, Ridley Scott. Elenco: Susan Sarandon, Geena Davis, Harvey Keitel, Michael Madsen, Christopher McDonald, Brad Pitt, Stephen Tobolowsky. Estreia: 24/5/91

6 indicações ao Oscar: Diretor (Ridley Scott), Atriz (Geena Davis, Susan Sarandon), Roteiro Original, Fotografia, Montagem
Vencedor do Oscar de Roteiro Original

Vencedor do Golden Globe de Roteiro

Em uma das cenas de "Thelma & Louise" - excepcional filme de Ridley Scott indicado a 6 Oscar - uma possível testemunha de um violento assassinato faz a seguinte declaração: "Eu sou uma garçonete. Se isso não faz de mim uma especialista na natureza humana então não sei de nada." Pode até parecer uma declaração um tanto exagerada, mas se levarmos em consideração que o roteiro do filme - premiado com uma merecidíssima estatueta - foi escrita por Callie Khouri, uma ex-garçonete, é impossível não deixar de concordar com sua afirmação. Afinal, se há uma qualidade que se destaca no filme de Scott - repleto delas, diga-se de passagem - é a extrema humanidade que emana em cada uma das personagens que desfila pela tela, sejam elas de destaque ou não.


O roteiro de "Thelma & Louise" é, definitivamente, um primor de concisão, ritmo e - pasmem! - bom-humor. Apesar da premissa um tanto barra-pesada, a história criada por Khouri - que nunca mais teve a mesma sorte em seus projetos posteriores - tem o bom-senso de nunca deixar que tudo caia no depressivo ou no desnecessariamente trágico. Mesmo quando estão nos piores momentos de sua vida, as protagonistas jamais caem na armadilha da auto-compaixão: responsabilidade do script esperto, da trilha sonora marcante de Hans Zimmer, da edição ágil e da direção perfeita de Ridley Scott - que se viu disputando o Oscar com Oliver Stone (por "JFK") e Jonathan Demme (por "O silêncio dos inocentes"). Saiu sem o prêmio nas mãos, mas muitos elogios da crítica e do público: "Thelma & Louise" é um clássico absoluto desde sua estreia, uma espécie de "Butch Cassidy & Sundance Kid" pós-feminista e um dos melhores filmes da década de 90.

Louise (Susan Sarandon, excepcional) é uma garçonete que vive uma relação aberta com Jimmy (Michael Madsen), um músico itinerante. Thelma (Geena Davis no melhor momento de sua carreira) é uma dona-de-casa frustrada e dominada pelo marido troglodita Darryl (Christopher MacDonald, tirando o máximo do potencial cômico de sua personagem). Amigas de longa data, as duas resolvem passar um fim-de-semana na casa de campo de um dos chefes de Louise e partem com o franco objetivo de esquecer, por um mínimo de tempo, suas vidas um tanto tediosas. Sua viagem, que era para ser divertida, esbarra em um grande problema, porém: em sua primeira parada em um bar, Thelma bebe demais e só escapa de ser estuprada quando Louise mata o agressor com um tiro. Apavoradas, elas decidem não recorrer à polícia - por motivos óbvios - e as circunstâncias acabam levando-as a optar para uma fuga para o México. A única pessoa que tenta ajudá-las é o experiente policial Hal (Harvey Keitel).


"Thelma & Louise" é, em seu formato, um road-movie dos melhores. A belíssima fotografia de Adrian Biddle aproveita a beleza árida do Colorado para reiterar a vida deserta das protagonistas, que encontram sentido em sua existência somente quando são obrigadas a embarcar em uma aventura inesperada. Em seu caminho rumo à liberdade (física e interna), a madura Louise e a ingênua Thelma tomam contato com todas as formas possíveis de seres humanos e até mesmo com seus próprios corpos - Thelma chega a envolver-se em uma rápida aventura sexual com um caroneiro mau-caráter, vivido por Brad Pitt estreando no cinema com o pé direito. Apesar de alguns exageros na construção de estereótipos masculinos - que nunca deixam de ser bastante verossímeis, aliás - o roteiro de Callie Khouri encanta também pela ousadia de seu final agridoce - um final que Susan Sarandon exigiu que se mantivesse mesmo com a pressão do estúdio para que fosse alterado.

Mas "Thelma & Louise" é, acima de tudo, Susan Sarandon e Geena Davis. Apesar da extensa lista de atrizes cotadas para viver as personagens em seus vários anos de pré-produção, é impossível imaginar quem traduziria melhor que as duas a gama imensa de sentimentos das protagonistas. Indicadas ao Oscar - que perderam para Jodie Foster - elas são inesquecíveis com suas atuações extraordinárias, carismáticas e poderosas. Seria inconcebível premiar uma em detrimento da outra - ainda que o trabalho de Sarandon seja menos óbvio - mas sem dúvida nenhuma qualquer espectador que tenha tido a oportunidade de assistir ao filme - e foram muitos - sabe que um prêmio é desnecessário nesse caso. O que importa é o sentimento de imortalidade que as duas forjaram em suas inseparáveis e corajosas amigas.

Tuesday, November 2, 2010

THE DOORS

THE DOORS (The Doors, 1991, Carolco Pictures, 140min) Direção: Oliver Stone. Roteiro: Oliver Stone, J. Randal Johnson. Fotografia: Robert Richardson. Montagem: David Brenner, Joe Hutsching. Figurino: Marlene Stewart. Direção de arte/cenários: Barbara Ling/Cricket Rowland. Casting: Risa Bramon, Billy Hopkins. Produção executiva: Nicholas Clainos, Brian Grazer, Mario Kassar. Produção: Bill Graham, Sasha Harari, A. Kitman Ho. Elenco: Val Kilmer, Meg Ryan, Kyle MacLachlan, Frank Whaley, Kevin Dillon, Michael Madsen, Billy Idol, Kathleen Quinlan, Debi Mazar, Mimi Rogers, Crispin Glover. Estreia: 23/02/91

Só mesmo um cineasta como Oliver Stone conseguiria realizar um filme como "The Doors". Ainda cheio de moral devido ao sucesso de seus filmes sobre a guerra do Vietnã, Stone conseguiu convencer os produtores a bancarem um projeto de quase 40 milhões de dólares sobre um roqueiro polêmico, sem um grande astro como chamariz de bilheteria e, pior ainda, com grandes possibilidades de desagradar os fãs e os familiares do protagonista. Quando finalmente o filme estreou, no início de 1991, algumas das previsões se mostraram corretas: o filme não pagou seu custo dentro dos EUA, a família de Pamela Courson (namorada da personagem principal) não gostou do resultado final (assim como Ray Manzarek, integrante do grupo) e a crítica se dividiu perante a visão do diretor sobre Jim Morrison e sua banda. Apenas um  fator foi quase unanimidade entre crítica, público e fãs ocasionais: o trabalho meticuloso de Val Kilmer como Morrison.

Na pele de Jim Morrison - o vocalista, líder e sex-symbol da banda de rock "The Doors", que morreu de ataque cardíaco aos 27 anos em 1971 - Kilmer apresenta a atuação de sua vida. Dedicado ao extremo ao papel, a ponto de viver como Morrison por quase um ano antes mesmo do início das filmagens, o ator de coisas tão díspares quanto "Top Secret" (1984) e "Willow, na terra da magia" (1988) praticamente metamorfoseou-se no cantor. O jeito de andar, de falar, de dançar e de se movimentar de Morrison está todo na interpretação de Kilmer. O problema maior de tudo é que, para os não-fãs da banda em particular, em dado momento, todo esse perfeccionismo acaba tornando-se um pouco chato por um motivo bastante simples: Jim Morrison não era uma pessoa exatamente agradável - ao menos é o que depreende-se do filme de Stone - e àqueles para quem os Doors não representam nada mais do que um grupo de rock como os outros as mais de duas horas de projeção beiram uma tortura.

Tudo começa quando Morrison ainda é uma criança e testemunha um acidente de carro que vitima um grupo indígena. Não seria importante se anos depois, já famoso como líder da banda "The Doors" - assim batizada em homenagem a Adouls Huxley e suas "Portas da percepção" - ele não assumisse, vez ou outra, um espírito xamânico (ou seja, entrava em um transe que lhe permitia ter contato com a natureza, seres de outras dimensões, etc e tal). Apresentado a esse mundo pela jornalista Patricia Kennealy (Kathleen Quinlan), de quem torna-se amante, Morrison o utiliza em sua arte. Ex-estudante de Cinema na Universidade da Califórnia, ele une-se a Ray Manzarek (Kyle MacLachlan), Robby Krieger (Frank Whaley) e John Densmore (Kevin Dillon) para formar sua própria banda de rock. Porém, conforme o sucesso do grupo vai aumentando, o total desprezo de seu líder pelo convencional e pelo pré-determinado começa a minar a união entre eles. Alcóolatra, drogado, mulherengo e com tendências auto-destrutivas, Morrison escandaliza a sociedade americana dos anos 60, mesmo estando ela em plena efervescência cultural pré-Woodstock, inclusive sendo preso durante um show, acusado de comportamento obsceno.


A forma com que Oliver Stone conduz sua homenagem a um grupo que idolatra é bastante coerente com a própria obra da banda. O visual imposto por Stone e seu diretor de fotografia Robert Richardson é perfeito no que se propõe, dando a nítida impressão do psicodelismo e da distância da realidade com que Morrison vivia sua trajetória errática. Apesar de cansar em alguns pontos - e até diminuir o impacto de algumas cenas, como a que Jim quase mata a namorada Pam (Meg Ryan) queimada - a forma encontrada pelo diretor de traduzir em imagens distorcidas a mente de seu protagonista não deixa de ser criativa e admirável - ainda que ele tenha alcançado resultado melhor em "Assassinos por natureza" (1994). E ao dar importância suprema a Val Kilmer e seu show particular, Stone relega a segundo plano algumas atuações que mereciam um pouco mais de atenção.


Meg Ryan, por exemplo, é pouco lembrada por seu trabalho como Pamela Courson, a namorada de longo prazo e muitas aventuras de Jim Morrison. Quando fez "Em carne viva", em 2003, a imprensa logo fez questão de destacar sua nudez e sua coragem em romper com a imagem de "namoradinha da América" que havia construído em suas comédias românticas. No entanto, em "The Doors", ela já demonstrava que é capaz de bem mais do que fazer caras e bocas ao lado de Tom Hanks. Não é uma atuação sensacional, mas que prova que o brilho intenso de Kilmer no filme fez sombra a todas as qualidades do filme.

E "The Doors" tem inúmeras delas. Desde a parte técnica impecável (a edição caprichada já é marca registrada de Stone) até a trilha sonora apropriada (Doors do início ao fim, sempre com a música certa na hora certa) tudo no filme funciona para os aficcionados da banda, que não se cansam de assistí-lo. No entanto, para quem não nutre o mesmo entuasiasmo por Morrison e seus companheiros, é apenas um filme bem realizado, apaixonado e criativo, que parece longo demais.