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Wednesday, November 17, 2010

LANTERNAS VERMELHAS

LANTERNAS VERMELHAS (Da hong deng long gao gao gua, 1991, 125min) Direção: Zhang Yimou. Roteiro: Su Tong, Ni Zhen. Fotografia: Lun Yang, Fei Zhao. Montagem: Yuan Du. Música: Naoki Tachikawa, Jiping Zhao. Figurino: Huamiao Tong. Direção de arte: Juiping Cao. Produção executiva: Hsiao-hsien Hou, Wenze Zhang. Produção: Fu-Sheng Chiu. Elenco: Gong Li, He Saifei, Cao Cuifen, Zhao Qi, Jingwu Ma. Estreia: 10/9/91

Indicado ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro

No início dos anos 90, o Oriente rendeu-se à cinematografia chinesa, graças a diretores como Zhang Yimou e Chen Kaige, que, donos de imenso talento e visão política, encantaram as plateias cinéfilas com filmes como "Adeus, minha concubina", do segundo e "Lanternas vermelhas", dirigido pelo primeiro. Além de retratarem a história e as tradições de sua terra, os cineastas tinham ainda um apuradíssimo senso estético, o que fica claro quando se assiste a suas obras. "Lanternas vermelhas", por exemplo, que foi indicado ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro, é um belo exercício de equilibrar uma história fascinante com um visual arrebatador. Não bastasse isso, ainda tem seu elenco liderado por Gong Li, que tornou-se uma espécie de musa do cinema chinês de sua época. Dona de uma beleza clássica e delicada, Gong Li apresenta, em "Lanternas vermelhas" uma de suas melhores atuações.

Ela vive Songlian, uma jovem de 20 anos que é obrigada, depois da morte do pai, a abandonar os estudos e aceitar o casamento com um homem muito mais velho e que já tem três esposas. É na China dos anos 20 que tudo se passa, e Songlian, tão logo chega na vasta propriedade do marido (cujo rosto nunca aparece nitidamente) toma contato com as regras e tradições do lugar. A mais importante delas diz respeito às lanternas vermelhas que são acesas diante dos aposentos da mulher escolhida pelo senhor da casa: ao ser escolhida para ter a presença do marido em sua cama, a esposa tem direito a regalias tais como massagens e escolha do cardápio. No entanto, ser escolhida também implica em ser invejada pelas outras, o que Songlian logo também descobre. A Primeira Esposa, Yuru (Shuyuan Jin) é mais velha e conformada com o fato de não ter mais a juventude e o sabor de novidade de seus primeiros dias. A Segunda Esposa, Zhuoyan (Cuifen Cao) é simpática, agradável e compreensiva, dando à nova dona-de-casa dicas importantes sobre a convivência da casa. E a Terceira Esposa, Meishan (Saifei He), uma ex-cantora da ópera de Pequim, é bela, invejosa e ciumenta. Além de ter que acostumar-se com tudo que acontece à sua volta, Songlian tem também que lidar com a criada traiçoeira e com as intrigas, conspirações e jogos de poder que se desenrolam nos aposentos do marido e suas esposas.
Um estudo psicológico e social extremamente bem acurado da China do início do século XX, "Lanternas vermelhas" é também um forte manifesto contra o papel de inferioridade a que as mulheres eram relegadas na época. O paradoxo de utilizar personagens femininas fortíssimas para contar uma história passada em uma época em que isso era absolutamente proibido - e qualquer tentativa de rebelião poderia condenar à morte - é apenas um dos lances de mestre da trama, contada em capítulos bem definidos, marcados pelas estações do ano. Narrada dentro de um período de doze meses, a saga de Songlian é fotografada com maestria, em cores fortes e quentes. Muitas cenas são filmadas de longe, deixando ainda mais evidente o cuidado com que Yimou tem com a plasticidade de seus filmes. A trilha sonora empolgante também se destaca, em especial nos momentos mais dramáticos, dando o tom exato de cada surpresa do imprevisível roteiro.

Ao jamais deixar que o público antecipe a cena seguinte - uma qualidade rara em roteiros dramáticos - a trama de "Lanternas vermelhas" surpreende com o desenrolar das desventuras de Songlian em busca do controle de seu destino. Aparentemente frágil, a protagonista se transforma em uma mulher capaz de lutar em pé de igualdade com todas as falsidades e meias-verdades de seu novo universo, repleto de mentiras que, desvendadas perante seus olhos atônitos - e da plateia embevecida - a transformam de jovem inexperiente em mulher decidida e irredutível em suas decisões, mesmo que elas levem a uma tragédia inesperada.

"Lanternas vermelhas" é um filme apaixonante, que consegue unir a cultura de um país fascinante com um drama bem escrito, dirigido e fotografado com primor. É inteligente, belo e trágico como o bom cinema deve ser! Imperdível para quem quer começar a conhecer a filmografia chinesa e para quem deseja apenas ser deslumbrado.

Friday, November 12, 2010

TOMATES VERDES FRITOS

TOMATES VERDES FRITOS (Fried green tomatoes, 1991, Universal Pictures, 130min) Direção: Jon Avnet. Roteiro: Fannie Flagg, Carol Sobieski, romance "Fried green tomatoes at Whistle Stop Cafe", de Fannie Flagg. Fotografia: Geoffrey Simpson. Montagem: Debra Neil. Música: Thomas Newman. Figurino: Elizabeth McBride. Direção de arte/cenários: Barbara Ling/Debra Schutt. Produção executiva: Anne Marie Gillen, Norman Lear, Yuriko Matsubara, Andrew Meyer, Tom Taylor. Produção: Jon Avnet, Jordan Kerner. Elenco: Kathy Bates, Jessica Tandy, Mary Stuart Masterson, Mary-Louise Parker, Chris O'Donnell, Cicely Tyson, Lois Smith. Estreia: 27/12/91

2 indicações ao Oscar: Atriz Coadjuvante (Jessica Tandy), Roteiro Adaptado

Vez ou outra, cansado de assistir a tiroteios, explosões, exterminadores, chacinas e cenas de sexo mais olímpicas do que românticas, o público recorre a filmes menos hiperbolizados, que contam histórias simples, de gente como a gente. Quando esses filmes são da qualidade de um "Tomates verdes fritos", então, a bilheteria de mais de 80 milhões de dólares só no mercado doméstico (EUA e Canadá) fica muito fácil de entender. Baseado em um romance escrito pela sulista Fannie Flagg - que colaborou no roteiro indicado ao Oscar - o filme de Jon Avnet pegou de surpresa os executivos dos grandes estúdios por levar um considerável público às salas de cinema sem apelar para grandes astros ou continuações de filmes de sucesso. Estrelado por duas vencedoras consecutivas do Oscar de melhor atriz - Jessica Tandy e Kathy Bates - e duas jovens e talentosas atrizes da geração seguinte - Mary Stuart Masterson e Mary-Louise Parker -, "Tomates verdes fritos" é um filme tão bom que é quase como se fosse dois.

Na verdade, ele o é. Duas histórias paralelas são contadas por Avnet, sem que uma atrapalhe a outra. Ao contrário de várias produções, cujas tramas que correm concomitantemente são praticamente independentes, aqui uma narrativa completa a outra e lhe dá sentido. Tudo começa quando a dona-de-casa Evelyn Couch (Kathy Bates, completamente apagando a imagem cruel que lhe deu a estatueta) chega a um asilo, para visitar uma intratável tia do marido. Lá, ela trava conhecimento com uma paciente idosa e comunicativa, Ninny Threadgoode (Jessica Tandy, indicada a um carinhoso Oscar de coadjuvante), que começa a contar-lhe a história da amizade entre duas mulheres, no Alabama dos anos 20. Parente do falecido marido de Ninny, a voluntariosa Idgie (Mary Stuart Masterson) desafia as convenções da sociedade local ao comportar-se de forma completamente oposta ao esperado de uma dama bem nascida. Revoltada com a vida desde a trágica morte do irmão mais velho, Buddy (Chris O'Donnell), Idgie encontra uma razão para viver quando passa a defender a frágil Ruth Jamison (Mary-Louise Parker) dos ataques violentos de seu marido, integrante da Klu Klux Klan. Sócias em um restaurante, as duas começam a sofrer ameaças da seita e o assassinato do marido de Ruth envolve todos os seus conhecidos em uma trama de mistério e solidariedade. Aos poucos, a história das duas jovens passa a operar transformações na vida da própria Evelyn, que redescobre sua auto-estima e resolve salvar seu monótono casamento.

Escrito e dirigido com delicadeza e um ritmo especial, que não atropela acontecimentos nem os valoriza desnecessariamente, "Tomates verdes fritos" é um daqueles raros filmes em que todos os fatores confluem para sua inegável qualidade. A reconstituição de época é discreta mas eficiente e a trilha sonora de Thomas Newman comenta a ação de forma correta - e é bem capaz de emocionar os mais sensíveis. A edição, fator importantíssimo em filmes que se propõem a alternar histórias, também acontece sem sobressaltos ou uma velocidade estonteante: é sutil, parcimoniosa e inteligente. Mas, apesar dos inúmeros destaques, é o elenco de "Tomates verdes fritos" que faz toda a diferença.

Kathy Bates e Jessica Tandy, juntas, encantam. A fragilidade emocional de Evelyn - diametralmente oposta ao físico avantajado que ela decide exercitar graças à Idgie e Ruth - encontra em Bates a encarnação perfeita. É quase impossível acreditar que pouco antes ela havia atemorizado plateias como a violenta Annie Wilkes de "Louca obsessão". E Tandy, idosa e delicada, utilizando apenas de sua voz meiga e de seu jeito de avó, conquista a audiência já em sua primeira aparição. E, apesar do nome de Bates ser o primeiro a enfeitar o cartaz do filme, é preciso dar crédito a Mary Stuart Masterson e Mary-Louise Parker, que são, a bem da verdade, as verdadeiras protagonistas do filme. A sensacional química entre as duas é que dá a veracidade indispensável à bela história de amor e amizade entre as duas. Vale lembrar que o teor homoerótico do filme foi diminuído pelos produtores, mas defendido pelas atrizes, que conseguiram manter ao menos o tom romântico/melancólico da trama, que também toca em assuntos bastante pertinentes, como racismo, violência contra a mulher e sexualidade reprimida.

"Tomates verdes fritos" é quase um filme de mulher. Mas é tão bom que ultrapassa qualquer barreira sexista, tornando-se um dos mais belos filmes sobre amizade feminina da história. Nada mal para um ano que também legou ao cinema o espetacular "Thelma & Louise".

Thursday, November 11, 2010

JFK, A PERGUNTA QUE NÃO QUER CALAR

JFK, A PERGUNTA QUE NÃO QUER CALAR (JFK, 1991, Warner Bros, 189min) Direção: Oliver Stone. Roteiro: Oliver Stone, Zachary Sklar, livros "On the trail of assassins", de Jim Garrison e "Crossfire: the plot that killed Kennedy", de Jim Marrs. Fotografia: Robert Richardson. Montagem: Joe Hutsching, Pietro Scalia. Música: John Williams. Figurino: Marlene Stewart. Direção de arte/cenários: Victor Kempster/Crispian Sallis. Casting: Risa Bramon Garcia, Billy Hopkins, Heidi Levitt. Produção executiva: Arnon Milchan. Produção: A. Kitman Ho, Oliver Stone. Elenco: Kevin Costner, Sissy Spacek, Gary Oldman, Tommy Lee Jones, Joe Pesci, Jack Lemmon, Walter Matthau, Donald Sutherland, Kevin Bacon, Michael Rooker, John Candy, Sally Kirkland, Vincent D'Onofrio, Wayne Knight, Laurie Metcalf, Lolita Davidovich, Ron Rifkin. Estreia: 20/12/91

8 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Oliver Stone), Ator Coadjuvante (Tommy Lee Jones), Roteiro Adaptado, Fotografia, Montagem, Trilha Sonora Original, Som
Vencedor de 2 Oscar: Fotografia, Montagem
Vencedor do Golden Globe de Melhor Diretor (Oliver Stone) 

Em 22 de novembro de 1963, em uma viagem a Dallas, o presidente John Fitzgerald Kennedy foi almejado fatalmente, para desespero de milhares de americanos que o idolatravam. Pouco tempo depois, a polícia apresentava o culpado, o jovem Lee Harvey Oswald. Antes de qualquer tipo de julgamento, o acusado foi assassinado, frente às câmeras de TV, por Jack Ruby, o dono de um bar de strippers, ligado à máfia. Uma comissão formada pelo governo para investigar o caso - a Comissão Warren - chegou à conclusão de que Oswald agiu por contra própria, por discordar das ideias de Kennedy a respeito de Cuba e Fidel Castro. A investigação teria tido um ponto final se Jim Garrison, o promotor público de Nova Orleans, não tivesse dado continuidade ao assunto. Com a ajuda de uma equipe dedicada e incorruptível, ele levou um empresário local ao banco de réus, acusando-o de conspiração. Segundo Garrison, a morte de Kennedy foi o ato final de uma conspiração gigantesca envolvendo o FBI, a CIA e até mesmo o próprio governo americano. E é justamente sua batalha atrás da verdade sobre o assassinato que mudou a história dos EUA que é retratada em "JFK, A pergunta que não quer calar", a obra-prima absoluta do polêmico cineasta Oliver Stone.

Utilizando dois livros como base para seu complexo e instingante roteiro - um escrito pelo próprio Jim Garrison e outro pelo jornalista Jim Marrs, nem sempre de teorias compatíveis - Oliver Stone construiu um dos thrillers políticos mais fascinantes da história do cinema. Ao eleger a investigação de Garrison como fio condutor para sua narrativa, Stone entrega ao público um trabalho detalhista e admiravelmente bem construído. O roteiro, repleto de camadas que escondem camadas que escondem camadas, é um primor de inteligência, que gruda o espectador na cadeira em seus primeiros minutos e não o deixa abandoná-la até seu final - na versão do diretor, mais de três horas depois.
 
Interpretado por um Kevin Costner discreto, que não se deixa engrandecer pela personagem - depois que Harrison Ford e Mel Gibson declinaram do papel - Jim Garrison é o mais próximo de um herói que a trama de "JFK" pode oferecer à plateia. Lembrando em certos momentos seu Elliot Ness de "Os intocáveis" - um homem honesto e quase obcecado em sua busca pela verdade - Garrison serve também como os olhos do público, incrédulos, chocados, absolutamente apavorados com a gama de mentiras que vão sendo desvendadas pouco a pouco. E a forma como as verdades - ou o mais perto possível delas - surgem diante dos olhos de Garrison e da audiência é nunca menos do que brilhante. Nas mãos de Oliver Stone, a morte de John Kennedy, um dos maiores traumas coletivos da história americana, transforma-se em um espetáculo dos mais empolgantes que o cinema pode proporcionar.


Além do roteiro impecável - tão cheio de informações que é desaconselhável até mesmo uma piscadela - Stone também cercou-se de uma equipe excepcional. A edição nunca aquém de espetacular levou um merecidíssimo Oscar, ao alternar vídeos reais com cenas incrivelmente reconstituídas, e a fotografia de Robert Richardson, também oscarizada, se equilibra entre a cor, o preto-e-branco e 8mm (com as recorrentes cenas do filme de Abraham Zapruder, que testemunhou a tragédia, sendo apresentadas quase como uma personagem). A trilha sonora de John Williams comenta a ação com sabedoria, destacando com força os momentos mais tensos - trabalhando longe de Steven Spielberg, Williams criou uma de suas mais sensacionais trilhas, que dá o tom exato das intenções de Oliver Stone em manter intacta a atenção do público mesmo diante da quantidade de nomes, fatos e contradições que se espalham na tela. E se as informações são em número quase assustador, o elenco formado pelo cineasta é de tirar o fôlego. Trabalhando com cachês bem abaixo de seu normal, os atores de "JFK" são um show à parte.


Naturalmente, Kevin Costner lidera o elenco como protagonista absoluto.Mas, a seu lado, desfila um elenco de causar inveja a Robert Altman - em personagens maiores ou menores, eles sustentam com garra e elegância uma estrutura complexa que dá espaço para que todos brilhem em seu devido momento. Somente Tommy Lee Jones chegou a ser indicado ao Oscar, por sua atuação como Clancy Shaw, o único a ser julgado pela morte do presidente, mas sua indicação pode ter sido uma forma de a Academia homenagear todas as feras dirigidas por Stone. Como Lee Harvey Oswald, o inglês Gary Oldman transforma-se absurdamente (como já o havia feito em "Sid & Nancy, o amor mata", onde viveu o roqueiro Sid Vicious). Como o misterioso X, que dá dicas preciosas a Garrison, Donald Sutherland é dono de uma das sequências mais arrepiantes do longa. E além deles, estão presentes Kevin Bacon, Joe Pesci (magnífico), Sissy Spacek e os indescritíveis Jack Lemmon e Walter Matthau. Pode-se pedir mais de um elenco?


"JFK" é eletrizante, inteligente, fascinante e dirigido com uma paixão evidente. Graças a ele, documentos a respeito das investigações da Comissão Warren foram a público muito antes do previsto e, mais importante do que tudo, Oliver Stone conseguiu abalar as estruturas americanas com um filme que nunca deixa de ser também entretenimento da mais alta qualidade. Suas teorias talvez não sejam tão realistas quanto ele afirma, mas só o fato de fazer um trabalho tão impecável do ponto de vista cinematográfico já é motivo o bastante para que seja louvado. Infelizmente bateu de frente com "O silêncio dos inocentes" na corrida pelo Oscar. Ganhou duas estatuetas. Merecia muito mais.

Wednesday, November 10, 2010

NEBLINA E SOMBRAS

NEBLINA E SOMBRAS (Shadows and fog, 1991, Orion Pictures, 85min) Direção e roteiro: Woody Allen. Fotografia: Carlo Di Palma. Montagem: Susan E. Morse. Figurino: Jeffrey Kurland. Direção de arte/cenários: Santo Loquasto/George DeTitta Jr., Amy Marshall. Casting: Juliet Taylor. Produção executiva: Charles H. Joffe, Jack Rollins. Produção: Robert Greenhut. Elenco: Woody Allen, Mia Farrow, John Malkovich, Madonna, Donald Pleasance, Lily Tomlin, Jodie Foster, Kathy Bates, John Cusack, John C. Reilly, Philip Bosco, Kurtwood Smith, Kate Nelligan, Fred Gwyne, William H. Macy, Wallace Shawn. Estreia: 05/12/91

Os detratores adoram dizer que os filmes de Woody Allen são repetitivos, que seu estilo não é exatamente criativo e que seu humor judaico/neurótico/nova-iorquino/sofisticado não sai do chove-não molha. No entanto, se o diretor não estivesse no elenco de "Neblina e sombras" - seu filme de maior orçamento até hoje - era bem pouco provável que qualquer crítico do cineasta pudesse reconhecer no filme qualquer das características que marcaram sua carreira. Com exceção da inteligência - e da marca registrada de usar nomes famosos em papéis pequenos ou quase pontas - nada nessa bela homenagem ao expressionismo alemão do início do século XX aponta para o fato que seu diretor é Allen.

A primeira diferença entre "Neblina e sombras" e o resto da filmografia de Woody diz respeito à geografia. Enquanto a vasta maioria de seus filmes se passa em Nova York e arredores, aqui a história acontece em uma pequena cidade da Alemanha aterrorizada por um assassino serial que mata suas vítimas estranguladas. Para caçar o criminoso vários grupos se formam, com moradores buscando resolver a situação com as próprias mãos, uma vez que o governo parece não se importar com os trágicos acontecimentos. Kleinman (vivido pelo diretor) é um homem comum - preocupado em ser deixado em uma promoção no trabalho - que é escalado por uma dessas facções, que pedem sua ajuda, sem nunca lhe explicar sua missão. Enquanto vaga pela cidade, envolta em neblina e sombras como o título do filme sugere, ele dá de cara com Irmy (Mia Farrow), a engolidora de espadas de um circo que está se apresentando na cidade. Depois de flagrar o marido, o palhaço do circo (John Malkovich) nos braços de sua sedutora colega Marie (Madonna), Irmy encontra abrigo no bordel da cidade, onde desperta o desejo do jovem estudante Jack (John Cusack). Ao lado de Kleinman, ela tentará manter-se longe do assassino e reconstruir sua vida.



Fotografado em belíssimo preto-e-branco por Carlo Di Palma, "Neblina e sombras" também foge do estilo forjado pelo cineasta em décadas de experiência ao evitar piadas intelectualizadas demais - talvez Allen já soubesse que o projeto em si já era suficientemente arriscado comercialmente para que ele confiasse na fidelidade cega de seu público. Ao misturar um humor muito disfarçado e um suspense sem sustos, ele criou um gênero híbrido que, obviamente, não encontrou sua audiência e nem encantou a crítica. Motivos não faltam para essa frieza toda, mas não deixa de ser um exagero essa absoluta apatia em relação ao filme.

Sem dúvida nenhuma, "Neblina e sombras" não é nem de longe um Woody Allen das melhores safras: não é particularmente engraçado, nem denso ou mesmo leve. Mas é inteligente como qualquer trabalho seu - com ecos de "O processo", de Kafka e do filme "M, o vampiro de Dusseldorf", de Fritz Lang -, é extraordinariamente bem realizado - os sets foram construídos especificamente - e só o fato de reunir o elenco que reuniu é de aplaudir entusiasticamente: ao lado dos já citados, desfilam pela tela Jodie Foster, Kathy Bates, Kate Nelligan, Lily Tomlin e Donald Pleasance. Mas aparenta ser mais longo, talvez culpa da morosidade do roteiro e tem um clímax um tanto quanto fraco em relação ao que promete em seu promissor começo.

Para os fãs de Woody Allen, é obrigatório como todos os seus filmes. Para aqueles que acreditam que ele é sempre o mesmo, é necessário. Mas para quem simplesmente não gosta do diretor, não é a maneira correta de começar a gostar.

Tuesday, November 9, 2010

CABO DO MEDO

CABO DO MEDO (Cape fear, 1991, Amblin Entertainment, 128min) Direção: Martin Scorsese. Roteiro: Wesley Strick, roteiro original de James E. Webb, romance de John D. MacDonald. Fotografia: Freddie Francis. Montagem: Thelma Schoonmaker. Figurino: Rita Ryack. Direção de arte/cenários: Henry Bumstead/Alan Hicks. Casting: Ellen Lewis. Produção executiva: Kathleen Kennedy, Frank Marshall. Produção: Barbara De Fina. Elenco: Robert DeNiro, Nick Nolte, Jessica Lange, Juliette Lewis, Joe Don Baker, Robert Mitchum, Gregory Peck, Martin Balsam, Ileana Douglas. Estreia: 13/11/91

2 indicações ao Oscar: Ator (Robert DeNiro), Atriz Coadjuvante (Juliette Lewis)

Martin Scorsese é o cara! Quando lança um projeto pessoal - como "Taxi driver", "Touro indomável" ou "Os bons companheiros" - se supera em técnica e paixão. E até mesmo quando trabalha praticamente sob encomenda, deixa no chinelo qualquer um que se considere cineasta. "Círculo do medo", realizado em 1962, e dirigido por J. Lee Thompson é um belo suspense. Mas empalidece consideravelmente em comparação à refilmagem comandada por Scorsese. "Cabo do medo", a reinvenção produzida pela Amblin Entertainment de Steven Spielberg, é uma das experiências mais angustiantes dos anos 90, amparada por um assustador Robert DeNiro.

Na verdade o próprio Spielberg é quem tinha interesse em refilmar "Círculo do medo" e, depois que ele deixou o filme de lado para realizar "Hook, a volta do Capitão Gancho", teve que praticamente implorar a Scorsese que comprasse a ideia. Contando com a valiosa ajuda de DeNiro, o diretor de "ET" finalmente foi feliz - mas só depois que o roteiro inicial de Wesley Strick sofreu profundas transformações. Nas mãos de Scorsese a banal luta entre advogado e cliente vingativo tornou-se um claustrofóbico embate entre dois homens dispostos a qualquer coisa para atingir seus objetivos. Com elementos novos adicionados à mistura - como sexualidade reprimida, adultério e uma personalidade bem menos unidimensional a seus protagonistas - o filme tornou-se a maior bilheteria da carreira do cineasta até "Os infiltrados", de 2006.

Quando "Cabo do medo" começa, Max Cady (Robert DeNiro, indicado a mais um Oscar por uma atuação apavorante) está saindo da cadeia, depois de passar 14 anos preso por estupro. Analfabeto à época de sua condenação, o violento agressor utilizou seu período de condenação para aprender a ler e estudar, descobrindo, nesse meio-tempo, que seu advogado de defesa, Sam Bowden (Nick Nolte em papel oferecido a Harrison Ford e Robert Redford) escondeu documentos que poderiam ter lhe amenizado o veredicto - ou até mesmo absolvê-lo. No momento de sua libertação, então, só o que lhe passa pela doentia mente é vingar-se de Bowden e, para isso, ele inicia um processo de violência psicológica contra ele e sua família, formada pela esposa, Leigh (Jessica Lange) e pela filha adolescente Danielle (Juliette Lewis). Passando por uma crise - despertada pela infidelidade conjugal de Sam - a estrutura familiar aparentemente sólida começa a ruir diante da fúria de Cady, que não mede esforços em direção a realizar sua missão.

A diferença entre "Cabo do medo" e dezenas de outros suspenses que fazem a festa dos programadores dos sábados televisivos é justamente o comando certeiro de Martin Scorsese. Dono de uma sensibilidade ímpar e de uma inteligência acima da média - além de uma cultura cinematográfica de cair o queixo - Scorsese imprime em seu filme uma personalidade inconfundível. Além de assustar o espectador em diversos momentos - afinal, um filme de suspense pede por isso - ele acrescenta à história uma densidade quase palpável. A trilha sonora tonitruante de Elmer Bernstein - que utiliza trechos da obra que Bernard Herrmann criou para o filme original - é tensa, forte e marcante, surgindo sempre como uma ameaça, um comentário ou um aviso de que Max Cady, com todo o seu ódio, está à espreita. A fotografia quente de Freddie Francis localiza com perfeição a trama no sul dos EUA - um lugar onde o medo já é costume, como bem diz uma personagem acostumada a sua terra natal. E o fato da família Bowden dessa nova versão não compartilhar da mesma felicidade de margarina do primeiro filme proporciona ao espetáculo um senso de realidade e modernidade que, ao contrário de distorcer a ideia inicial do romance de John D. MacDonald, apenas colabora em lhe dar mais profundidade.


E a profundidade do roteiro de Strick encontra no elenco escolhido por Scorsese um amparo espetacular. Enquanto DeNiro dispensa qualquer tipo de comentário, com uma atuação que supera qualquer expectativa - apesar de algumas críticas terem-no considerado um pouco exagerado. Nick Nolte transmite a angústia e a perplexidade de Sam Bowden com a segurança que seus vários anos de carreira lhe garantem e Jessica Lange vive uma Leigh equilibrada entre a fragilidade feminina e a força absoluta da maternidade. Gregory Peck e Robert Mitchum, atores da primeira versão do filme, participam em pequenas cenas, em uma homenagem carinhosa dos produtores. Mas é Juliette Lewis quem se destaca mesmo diante de seus consagrados colegas de cena. Indicada ao Oscar de coadjuvante aos 17 anos, ela abiscoitou o papel para o qual foram testados nomes como Reese Witherspoon, Jennifer Connelly e Winona Ryder e se revelou uma das grandes promessas do início da década de 90. A cena em que sua Danielle Bowden é praticamente seduzida por Cady em um cenário de peça de teatro infantil é um primor de sutileza, tensão e erotismo, uma ambivalência que perpassa todo o filme.

"Cabo do medo" pode ser assistido como um filme de suspense dos bons - com uma força crescente a cada sequência. Mas psicologicamente ele vai anda mais longe, discorrendo, ainda que discretamente, sobre complexo de Édipo, taras sexuais, frustrações eróticas e o suave equilíbrio entre o certo e o errado. É uma experiência única, como somente um diretor do porte de Scorsese é capaz de proporcionar.

Monday, November 8, 2010

THE COMMITMENTS, LOUCOS PELA FAMA

THE COMMITMENTS, LOUCOS PELA FAMA (The Commitments, 1991, 20th Century Fox, 118min) Direção: Alan Parker. Roteiro: Roddy Doyle, Dick Clement, Ian La Frenais, romance de Roddy Doyle. Fotografia: Gale Tattersall. Montagem: Gerry Hambling. Música: Wilson Pickett. Figurino: Penny Rose. Direção de arte/cenários: Brian Morris/Karen Brookes. Casting: John Hubbard, Ros Hubbard. Produção executiva: Armyan Bernstein, Souter Harris, Tom Rosenberg. Produção: Lynda Myles, Roger Randall-Cutler. Elenco: Robert Arkins, Andrew Strong, Angeline Ball, Maria Doyle Kennedy, Dave Finnegan, Michael Aherne, Bronagh Gallagher, Félim Gormley, Glen Hansard, Dick Massey, Johnny Murphy, Ken McCluskey, Colm Meaney. Estreia: 14/8/91

Indicado ao Oscar de Montagem

"Os irlandeses são os negros da Europa. E os dublinenses são os negros da Irlanda. E os irlandeses do Norte são os negros de Dublin. Então digam isso, e digam alto: sou negro com orgulho!" É com essas palavras que o jovem Jimmy Rabbitte (Robert Arkins) incentiva seu grupo de soul, chamado The Commitments, a descobrirem o ritmo dentro deles, como forma de mudarem de vida e levar boa música aos trabalhadores das áreas menos favorecidas de Dublin. E é também "The Commitments, loucos pela fama" que se chama o filme do inglês Alan Parker baseado no romance de Roddy Doyle que devolve o diretor ao universo dos musicais, depois de "Fama" (1980) e "Pink Floyd: the wall" (1982). Energético, pulsante como o soul e encantador, o filme - estrelado por jovens desconhecidos e transformados em excelentes atores por Parker - foi uma injeção de vida em um gênero praticamente morto na época de seu lançamento. Não fez um sucesso comercial estonteante, mas agradou a crítica e teve uma sobrevida interessante quando o grupo fictício viajou pelo mundo em uma bem-sucedida tour.

Jimmy Rabbitte, o protagonista do filme, é um jovem desempregado que vive com uma numerosa família em um subúrbio de Dublin. Ao receber de uma dupla de amigos que cantam em casamentos - um deles vivido por Glen Hansard que ganharia um Oscar de melhor canção por "Apenas uma vez" anos depois - o convite para ser seu empresário, ele decide criar uma banda que misture o ritmo quente do soul com a dura realidade de suas vidas. Com muita dificuldade e lutando contra a descrença de todos, aos poucos o grupo vai se formando, com operários, estudantes e trabalhadores exaustos. Quando estão em vias de subir um degrau mais alto, porém, os egos começam a se chocar, diferenças pessoais tornam-se incontornáveis e o sonho começa a dar sinais de que nunca passou realmente de ilusão.


O maior acerto de Alan Parker, em "The Commitments", foi de escalar um elenco de amadores para seus papéis principais. Os rostos de todos são extremamente verdadeiros, reais, sem a sensação plástica da maioria dos filmes de Hollywood, o que dá ao filme uma consistência rara de honestidade. Enquanto acompanha a trajetória da banda, Parker nunca deixa que a plateia esqueça que eles são todos pessoas que existem no meio de dificuldades financeiras e pessoais - o que a ambientação na real Dublin reitera com força a cada momento. Não existe a preocupação artificial de embelezar nada na maneira com que o cineasta vê suas personagens em busca não da fama em seu sentido mais fútil, mas sim como maneira de escapar de uma existência medíocre e triste. E é justamente essa despreocupação de procurar belezas ocas e clichês que faz com que "The Commitments" seja extremamente belo. Despojado de ambições estéticas exageradas, o filme concentra-se nos seres humanos que retrata. E são eles, ao lado de uma trilha sonora pra lá de caprichada que deixa tudo fascinante.


Repleto de standards da soul music - como "Mustang Sally" e "Try a little tenderness" - a trilha sonora de "The Commitments" merece um capítulo à parte. Como nos melhores musicais da história, a música não chega para atrapalhar o andamento da história e sim faz parte - de maneira indelével - dela. A voz poderosa de Andrew Strong na pele do vocalista Deco ajuda Parker a ilustrar a trajetória de Rabbitte e seus empresariados de forma ágil e comovente. Mas felizmente o veterano cineasta nunca deixa sua inteligência de lado e em momento algum apela para a emoção fácil. Apesar da atmosfera um tanto depressiva que perpassa todo o filme - e é brilhantemente disfarçada pela música e pela edição primorosa - o diretor não tenta fazer chorar nem busca críticas sociais panfletárias. Ele mostra uma realidade, como que testemunhando a mesma e dividindo suas impressões com o público, empolgado e atento.

Com um roteiro dono de um irresistível e imprevisível senso de humor - em especial na sua primeira metade - e uma despretensão que sempre é bem-vinda no cada vez mais mercenário cinema comercial, "The Commitments, loucos pela fama" é um dos melhores filmes de Alan Parker, que não à toa declarou que realizá-lo foi uma de suas melhores experiências como cineasta. E se ele gostou, quem somos nós para discordar?

Sunday, November 7, 2010

O EXTERMINADOR DO FUTURO 2, O JULGAMENTO FINAL

O EXTERMINADOR DO FUTURO 2, O JULGAMENTO FINAL (Terminator 2, the judgment day, 1991, Carolco Pictures, 137min) Direção: James Cameron. Roteiro: James Cameron, William Wisher. Fotografia: Adam Greenberg. Montagem: Conrad Buff, Mark Goldblatt, Richard A. Harris. Música: Brad Fiedel. Figurino: Marlene Stewart. Direção de arte/cenários: Joseph P. Lucky/John M. Dwyer. Casting: Mali Finn. Produção executiva: Gale Anne Hurd, Mario Kassar. Produção: James Cameron. Elenco: Arnold Schwarzenegger, Linda Hamilton, Edward Furlong, Robert Patrick, Xander Berkeley. Estreia: 01/7/91

6 indicações ao Oscar: Fotografia, Montagem, Maquiagem, Som, Efeitos Sonoros, Efeitos Visuais
Vencedor de 4 Oscar: Maquiagem, Som, Efeitos Sonoros, Efeitos Visuais 

Muito se reclamava, em 1991, da quantidade de dinheiro que se gastava em filmes de ação. O diretor James Cameron fez ouvidos de mercador à gritaria e gastou absurdos 100 milhões de dólares na continuação de seu "O exterminador do futuro", feito em 1984 com alguns trocados. O resultado, tanto em termos financeiros quanto de qualidade, calou a boca dos detratores: "O exterminador do futuro 2, o julgamento final" é, sem a mais remota dúvida, um dos filmes mais espetaculares já realizados em Hollywood, mostrando tudo de melhor que a indústria do entretenimento pode oferecer quando a questão é diversão.

Enquanto no primeiro filme Arnold Schwarzenegger era o vilão agora ele é o herói. Dono de uma popularidade enorme na época do lançamento do filme, Schwarza - que hoje todos sabemos, almejava vôos políticos - não poderia repetir o papel de exterminador do primeiro capítulo da saga criada por Cameron. O resultado disso ficou melhor que a encomenda. Desta vez, T-800 é enviado à Los Angeles de 1991 não para matar o jovem John Connor (Edward Furlong), futuro líder da resistência ao domínio das máquinas depois de um holocausto nuclear, mas sim para protegê-lo de um robô ainda mais perigoso e indestrutível, T-1000 (Robert Patrick), um modelo mais adiantado, capaz de auto-regenerar-se, transmutar-se em outras formas e, mais importante ainda, totalmente dedicado à sua missão. Acompanhado de Connor e de sua mãe, a corajosa e determinada Sarah (Linda Hamilton, musculosa ao extremo), o modelo de exterminador previamente programado para matá-los irá ajudá-los a livrar-se da ameaça de uma morte violenta.
É difícil dizer o que funciona mais em "O exterminador 2". O roteiro de Cameron e William Wisher tem um senso de ritmo admirável, que não deixa o espectador respirar mais que alguns minutos entre uma sequência de ação e outra - sendo que todas são nunca menos do que espetaculares. A parte técnica - que fez a festa na cerimônia do Oscar de 92 - é impecável e de deixar qualquer plateia de queixo caído ainda hoje. É de tirar o fôlego, por exemplo, a longa sequência em que John Connor encontra T-800 pela primeira vez e fica sabendo, através de uma violenta perseguição pelas ruas de Los Angeles, que está seriamente ameaçado de morrer. A relação entre o adolescente e a máquina de matar, aliás, é o trunfo secreto de James Cameron. Enquanto se delicia com os efeitos visuais embasbacantes criados para o filme, o público também se deixa envolver pela história de amizade e admiração entre um ser humano e um robô. Tudo isso sem sentimentalismos baratos ou lágrimas forçadas.

"O exterminador do futuro 2" merece o lugar de destaque que ocupa entre os melhores filmes de ação de todos os tempos. Inteligente, tecnicamente impecável, emocionante em vários níveis e revolucionário - além de ser um dos mais caros filmes da história, o que fica fácil de perceber com seu cuidado com os detalhes - o segundo capítulo de uma série que foi se desgastando com o tempo ainda é um perfeito exemplo de bom cinema. Até mesmo os mais intelectuais fãs de cinema são obrigados a aplaudir a história contada por James Cameron e Arnold Schwarzenegger.

Saturday, November 6, 2010

CORRA QUE A POLÍCIA VEM AÍ 2 1/2

CORRA QUE A POLÍCIA VEM AÍ 2 1/2 (The naked gun 2 1/2: the smell of fear, 1991, Paramount Pictures, 85min) Direção: David Zucker. Roteiro: David Zucker, Pat Profit. Fotografia: Robert Stevens. Montagem: Chris Greenbury, James Symons. Música: Ira Newborn. Figurino: Taryn Dechellis. Direção de arte/cenários: John J. Lloyd/Mickey S. Michaels. Casting: Mindy Marin. Produção executiva: Jim Abrahams, Gil Netter, Jerry Zucker. Produção: Robert K. Weiss. Elenco: Leslie Nielsen, Priscilla Presley, George Kennedy, O.J. Simpson. Estreia: 28/6/91

O sucesso de “Corra que a polícia vem aí”, em 1988 provou aos estúdios de Hollywood que o público precisava rir. Não em comédias intelectuais e sofisticadas como as de Woody Allen e nem tampouco em bobagens adolescentes com temática puramente sexual como as da série “Porky’s”. O público queria rir sem pensar muito e aprovou com louvor o filme de David Zucker. Uma continuação, no entanto, era só questão de tempo. E o tempo passou, fazendo com que Zucker entregasse o segundo capítulo das desventuras do atrapalhado Tenente Frank Drebin (vivido com propriedade pelo hilário Leslie Nielsen).

Enquanto no primeiro capítulo Drebin deitava e rolava enquanto tentava impedir um atentado contra a Rainha Elizabeth, dessa vez ele precisa lidar com uma ameaça contra o meio-ambiente. Tentando superar a separação da mulher que ama, Jane (Priscilla Presley, com o timing cômico intocado), ele descobre que os  líderes que detem os domínios sobre a distribuição de energia nos EUA tem um plano de sequestrar um cientista que pretende mudar as regras do jogo e substituí-lo por um sósia. Ao lado dos colegas de equipe,  o capitão Ed Hocken (George Kennedy) e o detetive Nordberg (O.J.Simpson), Drebin fica sabendo ainda que o mentor do plano, o empresário Quentin Hapsburg (Robert Goulet) é o novo namorado de Jane, o que o incentiva ainda mais a acabar com o plano maligno.


Assim como acontecia no primeiro filme, a história é apenas um pretexto para que Leslie Nielsen desfile pela tela com sua aparência mais tranquila enquanto causa atrocidades sem dar-se conta disso. Um exemplo claro é a sequência inicial, em que espanca a então primeira-dama Barbara Bush durante um jantar cerimonioso - em que até uma batata vai parar no turbante de Winnie Mandela. Sim, não há limites para o humor de Zucker e cia, que são capazes de provocar risadas com piadas inteligentes e com gags visuais que beiram o infame. Mais uma vez são tantos detalhes nonsense em cada cena que é preciso ter uma atenção redobrada para não deixar escapar nada.

"Corra que a polícia vem aí 2 1/2" é mais do mesmo, sim. Mas é engraçadíssimo ainda assim, reiterando o poder criativo de seus criadores e o talento inegável de Leslie Nielsen no papel mais marcante de sua carreira. Para ver e dar muitas gargalhadas sempre.

Friday, November 5, 2010

TUDO POR AMOR

TUDO POR AMOR (Dying young, 1991, 20th Century Fox, 111min) Direção: Joel Schumacher. Roteiro: Richard Friedenberg, romance de Marti Leimbach. Fotografia: Juan Ruiz Anchia. Montagem: Robert Brown, Jim Prior. Música: James Newton Howard. Figurino: Susan Becker. Direção de arte/cenários: Cricket Rowland. Casting: Mary Goldberg. Produção: Sally Field, Kevin McCormick. Elenco: Julia Roberts, Campbell Scott, Vincent D'Onofrio, Colleen Dewhurst, David Selby, Ellen Burstyn. Estreia: 21/6/91

Depois de ter seduzido plateias do mundo inteiro com uma comédia romântica e dois suspenses, Julia Roberts achou que faltava algo para demonstrar sua versatilidade. Nada melhor, portanto, do que investir em um românce ao estilo "Love story". Produzido por sua mãe no choroso "Flores de aço", Sally Field, o drama "Tudo por amor" reuniu a linda mulher ao diretor Joel Schumacher, de "Linha mortal", mas não fez o barulho esperado. Era a primeira mostra de que a estrela de Julia estava começando a apagar-se - o que iria acontecer ainda na primeira metade dos anos 90, para depois ressurgir com força total.

Na verdade a culpa do semi-fracasso de "Tudo por amor" - semi porque o filme tem seus fãs inveterados - é o fato de contar uma história bastante triste e deprimente, que quase anula a maior qualidade de Roberts: sua vivacidade. Ainda que altere consideravelmente o final do livro em que é baseado - na verdade o romance acaba um pouco adiante do que é mostrado nas telas - o filme de Joel Schumacher é suficientemente melancólico para afastar o público que apaixonou-se pelo largo sorriso da atriz. E ter Schumacher, um cineasta não exatamente criativo ou ousado, por trás das câmeras não ajuda muito no resultado final. A maior qualidade de "Tudo por amor" é justamente a tentativa de seu elenco em transformar uma montanha de clichês em algo minimamente interessante.


Julia Roberts - menos bela e sedutora do que o normal - vive Hilary O'Neil, uma jovem que, depois de sair da casa onde vivia com o namorado infiel, atende um anúncio de jornal procurando uma enfermeira. Mesmo sem ter nenhuma experiência no assunto, suas belas pernas e a ajudam a conseguir o emprego como acompanhante 24h de Victor Geddes (Campbell Scott), um rapaz de 28 anos que tem leucemia desde a adolescência. A princípio assustada com as reações adversas do jovem a seu tratamento de quimioterapia, ela aos poucos começa a realmente cuidar dele e ajudá-lo em sua recuperação. Quando eles viajam para a praia para que ele termine sua tese de doutorado, eles se descobrem apaixonados, mas a doença volta a ser uma ameaça à sua felicidade.

Enquanto Roberts não parece à vontade com sua personagem, é Campbell Scott quem se destaca no difícil papel de Victor, um rapaz dividido entre a tentativa de uma vida normal e a cura de sua doença. Sem apelar para a lágrima fácil, o filho do grande ator George C. Scott consegue ser sedutor, agressivo, frágil e apaixonante. Não é à toa que a linda mulher cai de amores por ele...

Thursday, November 4, 2010

THELMA & LOUISE

THELMA & LOUISE (Thelma & Louise, 1991, MGM Pictures, 130min) Direção: Ridley Scott. Roteiro: Callie Khouri. Fotografia: Adrian Biddle. Montagem: Thom Noble. Música: Hans Zimmer. Figurino: Elizabeth McBride. Direção de arte/cenários: Norris Spencer/Anne Ahrens. Casting: Louis Di Giaimo. Produção: Mimi Polk, Ridley Scott. Elenco: Susan Sarandon, Geena Davis, Harvey Keitel, Michael Madsen, Christopher McDonald, Brad Pitt, Stephen Tobolowsky. Estreia: 24/5/91

6 indicações ao Oscar: Diretor (Ridley Scott), Atriz (Geena Davis, Susan Sarandon), Roteiro Original, Fotografia, Montagem
Vencedor do Oscar de Roteiro Original

Vencedor do Golden Globe de Roteiro

Em uma das cenas de "Thelma & Louise" - excepcional filme de Ridley Scott indicado a 6 Oscar - uma possível testemunha de um violento assassinato faz a seguinte declaração: "Eu sou uma garçonete. Se isso não faz de mim uma especialista na natureza humana então não sei de nada." Pode até parecer uma declaração um tanto exagerada, mas se levarmos em consideração que o roteiro do filme - premiado com uma merecidíssima estatueta - foi escrita por Callie Khouri, uma ex-garçonete, é impossível não deixar de concordar com sua afirmação. Afinal, se há uma qualidade que se destaca no filme de Scott - repleto delas, diga-se de passagem - é a extrema humanidade que emana em cada uma das personagens que desfila pela tela, sejam elas de destaque ou não.


O roteiro de "Thelma & Louise" é, definitivamente, um primor de concisão, ritmo e - pasmem! - bom-humor. Apesar da premissa um tanto barra-pesada, a história criada por Khouri - que nunca mais teve a mesma sorte em seus projetos posteriores - tem o bom-senso de nunca deixar que tudo caia no depressivo ou no desnecessariamente trágico. Mesmo quando estão nos piores momentos de sua vida, as protagonistas jamais caem na armadilha da auto-compaixão: responsabilidade do script esperto, da trilha sonora marcante de Hans Zimmer, da edição ágil e da direção perfeita de Ridley Scott - que se viu disputando o Oscar com Oliver Stone (por "JFK") e Jonathan Demme (por "O silêncio dos inocentes"). Saiu sem o prêmio nas mãos, mas muitos elogios da crítica e do público: "Thelma & Louise" é um clássico absoluto desde sua estreia, uma espécie de "Butch Cassidy & Sundance Kid" pós-feminista e um dos melhores filmes da década de 90.

Louise (Susan Sarandon, excepcional) é uma garçonete que vive uma relação aberta com Jimmy (Michael Madsen), um músico itinerante. Thelma (Geena Davis no melhor momento de sua carreira) é uma dona-de-casa frustrada e dominada pelo marido troglodita Darryl (Christopher MacDonald, tirando o máximo do potencial cômico de sua personagem). Amigas de longa data, as duas resolvem passar um fim-de-semana na casa de campo de um dos chefes de Louise e partem com o franco objetivo de esquecer, por um mínimo de tempo, suas vidas um tanto tediosas. Sua viagem, que era para ser divertida, esbarra em um grande problema, porém: em sua primeira parada em um bar, Thelma bebe demais e só escapa de ser estuprada quando Louise mata o agressor com um tiro. Apavoradas, elas decidem não recorrer à polícia - por motivos óbvios - e as circunstâncias acabam levando-as a optar para uma fuga para o México. A única pessoa que tenta ajudá-las é o experiente policial Hal (Harvey Keitel).


"Thelma & Louise" é, em seu formato, um road-movie dos melhores. A belíssima fotografia de Adrian Biddle aproveita a beleza árida do Colorado para reiterar a vida deserta das protagonistas, que encontram sentido em sua existência somente quando são obrigadas a embarcar em uma aventura inesperada. Em seu caminho rumo à liberdade (física e interna), a madura Louise e a ingênua Thelma tomam contato com todas as formas possíveis de seres humanos e até mesmo com seus próprios corpos - Thelma chega a envolver-se em uma rápida aventura sexual com um caroneiro mau-caráter, vivido por Brad Pitt estreando no cinema com o pé direito. Apesar de alguns exageros na construção de estereótipos masculinos - que nunca deixam de ser bastante verossímeis, aliás - o roteiro de Callie Khouri encanta também pela ousadia de seu final agridoce - um final que Susan Sarandon exigiu que se mantivesse mesmo com a pressão do estúdio para que fosse alterado.

Mas "Thelma & Louise" é, acima de tudo, Susan Sarandon e Geena Davis. Apesar da extensa lista de atrizes cotadas para viver as personagens em seus vários anos de pré-produção, é impossível imaginar quem traduziria melhor que as duas a gama imensa de sentimentos das protagonistas. Indicadas ao Oscar - que perderam para Jodie Foster - elas são inesquecíveis com suas atuações extraordinárias, carismáticas e poderosas. Seria inconcebível premiar uma em detrimento da outra - ainda que o trabalho de Sarandon seja menos óbvio - mas sem dúvida nenhuma qualquer espectador que tenha tido a oportunidade de assistir ao filme - e foram muitos - sabe que um prêmio é desnecessário nesse caso. O que importa é o sentimento de imortalidade que as duas forjaram em suas inseparáveis e corajosas amigas.

Tuesday, November 2, 2010

THE DOORS

THE DOORS (The Doors, 1991, Carolco Pictures, 140min) Direção: Oliver Stone. Roteiro: Oliver Stone, J. Randal Johnson. Fotografia: Robert Richardson. Montagem: David Brenner, Joe Hutsching. Figurino: Marlene Stewart. Direção de arte/cenários: Barbara Ling/Cricket Rowland. Casting: Risa Bramon, Billy Hopkins. Produção executiva: Nicholas Clainos, Brian Grazer, Mario Kassar. Produção: Bill Graham, Sasha Harari, A. Kitman Ho. Elenco: Val Kilmer, Meg Ryan, Kyle MacLachlan, Frank Whaley, Kevin Dillon, Michael Madsen, Billy Idol, Kathleen Quinlan, Debi Mazar, Mimi Rogers, Crispin Glover. Estreia: 23/02/91

Só mesmo um cineasta como Oliver Stone conseguiria realizar um filme como "The Doors". Ainda cheio de moral devido ao sucesso de seus filmes sobre a guerra do Vietnã, Stone conseguiu convencer os produtores a bancarem um projeto de quase 40 milhões de dólares sobre um roqueiro polêmico, sem um grande astro como chamariz de bilheteria e, pior ainda, com grandes possibilidades de desagradar os fãs e os familiares do protagonista. Quando finalmente o filme estreou, no início de 1991, algumas das previsões se mostraram corretas: o filme não pagou seu custo dentro dos EUA, a família de Pamela Courson (namorada da personagem principal) não gostou do resultado final (assim como Ray Manzarek, integrante do grupo) e a crítica se dividiu perante a visão do diretor sobre Jim Morrison e sua banda. Apenas um  fator foi quase unanimidade entre crítica, público e fãs ocasionais: o trabalho meticuloso de Val Kilmer como Morrison.

Na pele de Jim Morrison - o vocalista, líder e sex-symbol da banda de rock "The Doors", que morreu de ataque cardíaco aos 27 anos em 1971 - Kilmer apresenta a atuação de sua vida. Dedicado ao extremo ao papel, a ponto de viver como Morrison por quase um ano antes mesmo do início das filmagens, o ator de coisas tão díspares quanto "Top Secret" (1984) e "Willow, na terra da magia" (1988) praticamente metamorfoseou-se no cantor. O jeito de andar, de falar, de dançar e de se movimentar de Morrison está todo na interpretação de Kilmer. O problema maior de tudo é que, para os não-fãs da banda em particular, em dado momento, todo esse perfeccionismo acaba tornando-se um pouco chato por um motivo bastante simples: Jim Morrison não era uma pessoa exatamente agradável - ao menos é o que depreende-se do filme de Stone - e àqueles para quem os Doors não representam nada mais do que um grupo de rock como os outros as mais de duas horas de projeção beiram uma tortura.

Tudo começa quando Morrison ainda é uma criança e testemunha um acidente de carro que vitima um grupo indígena. Não seria importante se anos depois, já famoso como líder da banda "The Doors" - assim batizada em homenagem a Adouls Huxley e suas "Portas da percepção" - ele não assumisse, vez ou outra, um espírito xamânico (ou seja, entrava em um transe que lhe permitia ter contato com a natureza, seres de outras dimensões, etc e tal). Apresentado a esse mundo pela jornalista Patricia Kennealy (Kathleen Quinlan), de quem torna-se amante, Morrison o utiliza em sua arte. Ex-estudante de Cinema na Universidade da Califórnia, ele une-se a Ray Manzarek (Kyle MacLachlan), Robby Krieger (Frank Whaley) e John Densmore (Kevin Dillon) para formar sua própria banda de rock. Porém, conforme o sucesso do grupo vai aumentando, o total desprezo de seu líder pelo convencional e pelo pré-determinado começa a minar a união entre eles. Alcóolatra, drogado, mulherengo e com tendências auto-destrutivas, Morrison escandaliza a sociedade americana dos anos 60, mesmo estando ela em plena efervescência cultural pré-Woodstock, inclusive sendo preso durante um show, acusado de comportamento obsceno.


A forma com que Oliver Stone conduz sua homenagem a um grupo que idolatra é bastante coerente com a própria obra da banda. O visual imposto por Stone e seu diretor de fotografia Robert Richardson é perfeito no que se propõe, dando a nítida impressão do psicodelismo e da distância da realidade com que Morrison vivia sua trajetória errática. Apesar de cansar em alguns pontos - e até diminuir o impacto de algumas cenas, como a que Jim quase mata a namorada Pam (Meg Ryan) queimada - a forma encontrada pelo diretor de traduzir em imagens distorcidas a mente de seu protagonista não deixa de ser criativa e admirável - ainda que ele tenha alcançado resultado melhor em "Assassinos por natureza" (1994). E ao dar importância suprema a Val Kilmer e seu show particular, Stone relega a segundo plano algumas atuações que mereciam um pouco mais de atenção.


Meg Ryan, por exemplo, é pouco lembrada por seu trabalho como Pamela Courson, a namorada de longo prazo e muitas aventuras de Jim Morrison. Quando fez "Em carne viva", em 2003, a imprensa logo fez questão de destacar sua nudez e sua coragem em romper com a imagem de "namoradinha da América" que havia construído em suas comédias românticas. No entanto, em "The Doors", ela já demonstrava que é capaz de bem mais do que fazer caras e bocas ao lado de Tom Hanks. Não é uma atuação sensacional, mas que prova que o brilho intenso de Kilmer no filme fez sombra a todas as qualidades do filme.

E "The Doors" tem inúmeras delas. Desde a parte técnica impecável (a edição caprichada já é marca registrada de Stone) até a trilha sonora apropriada (Doors do início ao fim, sempre com a música certa na hora certa) tudo no filme funciona para os aficcionados da banda, que não se cansam de assistí-lo. No entanto, para quem não nutre o mesmo entuasiasmo por Morrison e seus companheiros, é apenas um filme bem realizado, apaixonado e criativo, que parece longo demais.

Friday, October 29, 2010

O SILÊNCIO DOS INOCENTES

O SILÊNCIO DOS INOCENTES (The silence of the lambs, 1991, Orion Pictures, 118min) Direção: Jonathan Demme. Roteiro: Ted Tally, romance de Thomas Harris. Fotografia: Tak Fujimoto. Montagem: Craig McKay. Música: Howard Shore. Figurino: Colleen Atwood. Direção de arte/cenários: Kristi Zea/Karen O'Hara. Produção executiva: Gary Goetzman. Produção: Ron Bozman, Edward Saxon, Kenneth Utt. Elenco: Jodie Foster, Anthony Hopkins, Scott Glenn, Ted Levine, Brooke Smith, Anthony Heald. Estreia: 30/01/91

7 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Jonathan Demme), Ator (Anthony Hopkins), Atriz (Jodie Foster), Roteiro Adaptado, Montagem, Som

Vencedor de 5 Oscar: Melhor Filme, Diretor (Jonathan Demme), Ator (Anthony Hopkins), Atriz (Jodie Foster), Roteiro Adaptado
Vencedor do Golden Globe de Melhor Atriz/Drama (Jodie Foster)

Urso de Ouro Festival de Berlim: Melhor Diretor (Jonathan Demme)

Em Hollywood, uma regra não escrita dita que filmes lançados no início do ano tem poucas - ou nenhuma - chances nas cerimônias de premiação que acontecem no ano seguinte. Levando-se em consideração a quantidade de produtos que chegam às telas durante o período de um ano e o fato de que os estúdios deixam suas apostas para estrearem na época de maior visibilidade para as premiações - a saber, entre o feriado de Ação de Graças e o Natal - não é de se duvidar da afirmação. Mas toda regra tem exceções e, vez ou outra, os normalmente bitolados eleitores da Academia, por exemplo, descobrem que alguns filmes são tão bons que sobrevivem ao tempo e merecem sua homenagem. É o caso de "O silêncio dos inocentes", filmaço de Jonathan Demme que estreou em fevereiro de 1991 e mais de um ano depois arrebatou não só o Oscar de Melhor Filme do ano como reuniu no pacote as estatuetas de diretor, ator, atriz e roteiro adaptado, feito só conquistado antes em duas ocasiões em 1935, com "Aconteceu naquela noite", de Frank Capra, e em 1975 com "Um estranho no ninho", dirigido por Milos Forman. Além de ter superado a barreira cronológica e entrar no seleto grupo vencedor do Big Five, porém, "O silêncio dos inocentes" alcançou outro destaque - até hoje é o único filme de suspense/horror a abiscoitar o prêmio máximo do cinema.

Publicado em 1988, como uma espécie de sequência de "Dragão vermelho" - que por sua vez foi adaptado para o cinema em duas ocasiões, em 1986 (um fracasso) e em 2002 (um sucesso) - o livro de Thomas Harris logo chamou a atenção da atriz Jodie Foster, que apressou-se em comprar os direitos de adaptação. Porém, o ator Gene Hackman havia chegado na frente, pretendendo dirigir o filme e possivelmente estrelá-lo. Quando Hackman desistiu da ideia por não sentir-me mais à vontade participando de filmes violentos e Jonathan Demme - dono de um currículo que incluía mais claramente comédias como "Totalmente selvagem" e "De caso com a máfia" - assumiu o comando do projeto, Foster ofereceu-se para interpretar a protagonista, mas foi deixada de lado Demme queria Michelle Pfeiffer no papel. Depois que Pfeiffer, Meg Ryan e Melanie Griffith (!!!) também pularam fora devido ao tema um tanto quanto pesado do material, finalmente Jodie convenceu o cineasta de que era a atriz séria para viver Clarice Starling. Com o ator inglês Anthony Hopkins a bordo, na pele do vilão mais carismático da história do cinema, "O silêncio dos inocentes" estava pronto para estrear. O resto é história.


Pronto para estrear no outono de 1990, "O silêncio dos inocentes" teve sua estreia adiada pelo próprio estúdio - o já capenga Orion Pictures -, que preferiu focar seus esforços em promover o soporífero "Dança com lobos" junto aos eleitores da Academia. A estratégia funcionou - o filme de Kevin Costner levou 7 Oscar pra casa, a despeito de sua chatice - e a obra de Demme só foi ver a luz dos projetores no início de 1991. Mal sabia o estúdio que um ano depois estaria comemorando um bicampeonato - dessa vez muito mais justo - graças a um filme forte, tenso e sem concessões ao público médio. Um filme quase doentio e talvez justamente por isso, sensacional!

A aspirante a agente do FBI Clarice Starling (Jodie Foster) - cujo pai policial morreu quando ela ainda era criança - é chamada à sala de seu supervisor Jack Crawford (Scott Glenn) para que receba uma missão aparentemente banal e corriqueira entrevistar o famoso sociopata Hannibal Lecter (Anthony Hopkins), conhecido pela alcunha de Canibal, por degustar suas vítimas. A versão oficial é a de que a agência precisa de alguns dados dele para uma pesquisa, mas logo a jovem descobre que os interesses em Hannibal são bem outros cientes do brilhantismo do prisioneiro - um psiquiatra de QI muito acima da média - os membros do FBI querem que ele ajude na captura de um outro assassino serial que vem atacando mulheres e arrancando suas peles, apelidado de Buffalo Bill. Fascinado pela inteligência de Starling, Lecter aceita ajudá-la em sua missão, desde que ela compartilhe com ele seus pensamentos mais pessoais, como em uma espécie de sessão de terapia. Mesmo alertada dos perigos que corre aceitando a proposta de Lecter, ela aceita o desafio, iniciando um perigoso duelo mental.
Apedrejado por instituições de direitos aos gays, que viram nele mais um incitador ao preconceito - uma vez que seu vilão é um transexual violento - "O silêncio dos inocentes" acabou se beneficiando das polêmicas. Com mais de 130 milhões de dólares arrecadados nas bilheterias americanas, o filme de Demme arrancou elogios entusiasmados da crítica desde sua estreia e o prêmio de Melhor Diretor no Festival de Berlim de 1991 apenas reiterou as loas. Quando finalmente saiu da noite do Oscar multi-premiado (e já disponível no mercado de vídeo há um bom tempo), a história da fascinante relação entre uma agente do FBI com um psicopata canibal cimentou de vez sua importância na história do cinema.

Seguindo o material de origem com uma fidelidade quase canina, o roteiro de Ted Tally - merecidamente premiado com o Oscar - é um perfeito exemplo de como transportar um livro para as telas de cinema sem perder a sua essência. O clima de tensão constante que perpassa todo o romance de Thomas Harris nunca deixa de estar presente em sua versão cinematográfica. A direção firme e inteligente de Jonathan Demme respeita a história a as personagens acima de qualquer interesse em demonstrar versatilidade ou inovações. Ao confiar na trama e em seu desenrolar angustiante e excitante, Demme deixa que sua câmera discreta observe o embate entre Clarice e Hannibal - e posteriormente entre o FBI e Buffalo Bill - de forma seca, mas nunca indiferente. Jodie Foster entrega uma atuação arrebatadora, madura e corajosa como uma mulher sofrendo por demônios interiores enquanto caça os exteriores. Seu olhar expressivo consegue mixar terror, saudade e angústia na medida certa, sem exageros ou minimalismos estilísticos. Os olhos de Clarice são os olhos do público e como tal, são curiosos, nervosos, indagadores e se deixam hipnotizar por Lecter, em uma sublime interpretação de Anthony Hopkins, que teve sua carreira ressuscitada com seu Oscar, mas que depois de vários filmes repetindo a personagem acabou perdendo um pouco de seu fascínio. Na pele de Buffalo Bill, o ator Ted Levine - injustamente esquecido em todas as premiações do ano - consegue despertar pavor e asco, ainda que tenha que defender uma personagem praticamente indefensável. Somados à extraordinária trilha sonora de Howard Shore e à edição esperta de Craig McKay, a direção de Demme, o roteiro de Tally e o elenco impecável transformam "O silêncio dos inocentes" em um clássico moderno.

Thursday, October 28, 2010

DORMINDO COM O INIMIGO

DORMINDO COM O INIMIGO (Sleeping with the enemy, 1991, 20th Century Fox, 99min) Direção: Joseph Ruben. Roteiro: Ronald Bass, romance de Nancy Price. Fotografia: John W. Lindley. Montagem: George Bowers. Música: Jerry Goldsmith. Figurino: Richard Hornung. Direção de arte/cenários: Doug Kraner/Lee Poll. Casting: Karen Rea. Produção executiva: Jeffrey Chernov. Produção: Leonard Goldberg. Elenco: Julia Roberts, Patrick Bergin, Kevin Anderson, Elizabeth Lawrence. Estreia: 08/02/91

Não há como duvidar do poder de uma estrela. Só mesmo o carisma imenso e o belo sorriso de Julia Roberts para explicar o grande êxito de bilheteria de "Dormindo com o inimigo", um suspense mediano e esquemático que estreou nos EUA ainda aproveitando o sucesso inicial de Julia, após o estrondo de "Uma linda mulher". Baseado em um romance de Nancy Price, o filme dirigido por um desconhecido Joseph Reuben nada acrescenta ao gênero nem tampouco à carreira de sua atriz principal, iniciando uma fase de escolhas equivocadas que a levaria a um desagradável limbo comercial pouquíssimo tempo depois. Ainda assim, apesar de sua falta de novidades, Dormindo com o inimigo rendeu mais de 100 milhões de dólares nas bilheterias americanas, comprovando a teoria de que um nome poderoso estampando os cartazes faz mais por um filme - ao menos em termos financeiros - do que criatividade e inteligência.

As multidões que lotaram as salas de cinema em busca do largo sorriso de Roberts, porém, tomaram um susto em "Dormindo com o inimigo", ela nada tem de leve ou solar como a prostituta Vivian Ward. Laura Byrnes, a protagonista do filme, é uma mulher triste, tensa e traumatizada que foge do amor como o diabo da cruz, graças a um passado de violência e abuso por conta do ex-marido. Com o nome de Sara Waters, em outra cidade e outro estado, ela busca apagar de sua vida todo o sofrimento pelo qual passou durante os mais de três anos em que esteve casada com Martin Byrnes (Patrick Bergin, fazendo o possível para dar veracidade a uma personagem unidimensional). Aparentemente um marido exemplar e carinhoso, ele a espancava sem piedade pelos motivos mais banais - desde toalhas dispostas assimetricamente no banheiro até crises infundadas de ciúme. Depois de planejar passo a passo uma fuga literalmente cinematográfica, Laura assume uma nova personalidade, forjando a própria morte. Iniciando um romance discreto com o professor de teatro Ben (Kevin Anderson), ela nem imagina que sua farsa foi descoberta e que sua liberdade está com os dias contados.


Para os espectadores menos exigentes, "Dormindo com o inimigo" funciona até que razoavelmente bem. Há alguns sustos, um clima interessante e um vilão ameaçador (ainda que extremamente mal escrito). Mas não é difícil perceber o quão preguiçoso e cheio de furos é o roteiro de Ronald Bass (surpreendentemente o oscarizado autor de "Rain Man") que simplifica a trama do livro a ponto de transformar a heroína em uma mulher capaz de atos tão burros quanto inexplicáveis como jogar a aliança de casamento no vaso sanitário da casa do marido. Ao invés de aproveitar a ocasião para discutir temas controversos como a violência contra a mulher, o texto se resume a estabelecer uma história maniqueísta que não se aprofunda em nenhuma das questões levantadas. Mas será que os fãs de Julia Roberts que correram aos cinemas procuravam isso, afinal?

"Dormindo com o inimigo" é um suspense derivativo, sem maiores rasgos de inventividade - culpa do roteiro comum e da direção burocrática, que o iguala a dezenas de outros filmes que abarrotam as videolocadoras e fazem a festa dos programadores dos Supercine da vida. Não fosse o nome de Julia Roberts nos créditos de abertura provavelmente teria sido esquecido já em seu lançamento. E se provavelmente é o trabalho mais famoso de Patrick Bergin, é um dos menos marcantes da atriz.