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Tuesday, November 8, 2011

O QUARTO DO PÂNICO

O QUARTO DO PÂNICO (Panic room, 2002, Columbia Pictures, 112min) Direção: David Fincher. Roteiro: David Koepp. Fotografia: Conrad L. Hall, Darius Khondji. Montagem: James Haygood, Angus Wall. Música: Howard Shore. Figurino: Michael Kaplan. Direção de arte/cenários: Arthur Max/Jon Danniells, Garrett Lewis. Produção: Cean Chaffin, Judy Hofflund, David Koepp, Gavin Polone. Elenco: Jodie Foster, Forest Whitaker, Kristen Stewart, Jared Leto, Dwight Yoakam. Estreia: 29/3/02

É impressionante a diferença que faz um bom diretor! Nas mãos de um operário-padrão qualquer de Hollywood, "O quarto do pânico" seria apenas mais um filme de suspense perfeitamente esquecível depois dos letreiros finais. Porém, sob o comando do sempre competente David Fincher - que tem no currículo as obras-primas "Seven" e "Clube da luta" e o subestimado "Vidas em jogo" - o jogo de gato-e-rato criado pelo roteirista David Koepp em apenas seis dias (o primeiro tratamento, logicamente) não só prende a atenção de seus espectadores como ainda por cima se eleva vários degraus acima de seus congêneres, equilibrando com maestria um clima hitchcockiano e inovações técnicas utilizadas com inteligência e parcimônia.

A trama tem início quando a recém-divorciada Meg Altman (Jodie Foster, grávida durante as filmagens), abandonada pelo marido milionário, compra uma gigantesca casa em Manhattan para morar com a filha pré-adolescente Sarah (Kirsten Stewart pré-"Crepúsculo"). A casa - uma impressionante criação do diretor de arte Arthur Max - tem até mesmo uma espécie de bunker, apelidado pelo antigo morador de "quarto do pânico": o tal quarto tem até mesmo um sistema exclusivo de câmeras de vigilância. O que seria apenas mais um cômodo, no entanto, vira a principal forma de defesa de mãe e filha quando três homens armados, liderados pelo descontrolado Junior (Jared Leto), invadem a casa na madrugada, atrás de milhões de dólares escondidos justamente no quarto onde elas se escondem. Para proteger a filha e a si mesma, Meg tem que usar toda a sua inteligência e força emocional, principalmente quando os criminosos - que incluem o racional Burnham (Forest Whitaker) e o violento Raoul (Dwight Yoakam) - resolvem apelar para a violência para obrigá-las a abandonar o famigerado aposento.


"O quarto do pânico" é um típico produto de sua época. Os criativos movimentos de câmera de Fincher, o desenho de som e as inovações técnicas que ele apresenta são tão ou mais importantes que a história que o diretor conta. Mesmo sem ser exatamente original e/ou empolgante em uma primeira visão, o roteiro de Koepp consegue facilmente envolver e causar tensão durante seu tempo de duração, o que já é bastante raro em um gênero mortalmente previsível quanto o suspense. Fugindo dos clichês das obras mais convencionais, a obra de Fincher cria momentos de tensão genuína, envolvendo o público na jornada de Meg, personificada com força e determinação por um Jodie Foster nunca aquém de excelente. Substituindo Nicole Kidman na última hora (que abandonou o projeto por ter se machucado nas filmagens de "Moulin Rouge"), Foster não deixa de ser uma bênção ao projeto: talvez a fragilidade física de Kidman não combinasse com a protagonista, uma personagem que cabe como uma luva no histórico de mulheres fortes interpretadas por Jodie.

"O quarto do pânico" está longe de ser o melhor trabalho de David Fincher. Ainda assim, é forte, inteligente e jamais previsível, além de tratar seu público com respeito e em nenhum momento apelar para soluções fáceis e triviais. É um excelente programa para quem gosta de suspense e para aqueles que esperam por bons filmes dirigidos com elegância e talento.

Wednesday, July 27, 2011

ANNA E O REI

ANNA E O REI (Anna and the king, 1999, Fox 2000 Pictures, 148min) Direção: Andy Tennant. Roteiro: Steve Meerson, Peter Krikes, diários de Anna Leonowens. Fotografia: Caleb Deschanel. Montagem: Roger Bondelli. Música: George Fenton, Robert Kraft. Figurino: Jenny Beavan. Direção de arte/cenários: Luciana Arrighi/Ian Whittaker. Produção executiva: Terence Chang. Produção: Lawrence Bender, Ed Elbert. Elenco: Jodie Foster, Chow Yun-Fat, Ling Bai, Tom Felton. Elenco: 15/12/99

2 indicações ao Oscar: Figurino, Direção de Arte/Cenários

Essa história já foi contada antes pelo cinema - e deu o Oscar de melhor ator a Yull Brinner. No entanto, com a proximidade da virada do milênio, a fantasia dos musicais parecia não mais caber e Hollywood achou por bem optar por um viés mais político na refilmagem de "O rei e eu". Talvez por isso, quando se assiste a "Anna e o rei" pouca coisa faz lembrar a colorida extravagância estrelada por Deborah Kerr em 1956. Não que o filme de Andy Tennant seja político no sentido chato do termo, longe disso, mas o roteiro, baseado nos diários da protagonista, não tem medo de utilizar os conflitos sociais do país onde se passa a ação e, se para isso se faz necessário que o romance seja deixado de lado em alguns momentos, não há a menor hesitação. E isso conta muitos pontos no resultado final.

Recentemente viúva de um oficial britânico, a jovem Anna Leonowens (Jodie Foster), que morava na Índia,  aceita a proposta de ser professora dos filhos de Mongkut (Chow Yun-Fat), o rei do Sião, que está interessado em educar sua vasta prole (de cerca de 60 crianças) de acordo com as regras do mundo ocidental. De mala, cuia e filho pequeno à tiracolo, ela chega ao país onde a aguarda o monarca e dá de cara com uma cultura não apenas diferente da qual está acostumada, mas extremamente machista e, a seu ver, retrógrada. Utilizando seus poderes de educadora, ela passa a tentar modificar, ainda que lentamente, o quadro social do país, encantando o rei a ponto de envolvê-lo em um nível maior do que o apenas profissional.



"Anna e o rei" tem inúmeros méritos que fazem dele um belo programa. A reconstituição de época é primorosa (a direção de arte chegou a ser indicada ao Oscar), a fotografia é deslumbrante (em tons agressivos de vermelho que combinam com a profusão de pores-do-sol), a trilha sonora de George Fenton é marcante e o roteiro - apesar de estender-se desnecessariamente em especial em seu terço final - foge dos clichês com maestria, além de incluir elementos sócio-políticos muito bem-vindos. Mas é a dupla central de atores que merece boa parte dos créditos pelo sucesso da empreitada.

Chow Yun-Fat deixa para trás seus truculentos trabalhos com John Woo e cria um rei ao mesmo tempo rígido e sensível (é exemplar a cena em que sofre uma irreparável perda familiar) e Jodie Foster mostra mais uma vez porque é uma das melhores atrizes de sua geração. Inteligente, ela sempre busca a solução menos fácil em suas cenas, o que dá ao ato de assistir ao filme uma sensação de prazer absoluto. Os embates entre Foster e Yun-Fat são o que há de melhor na obra de Tennant, um diretor cujo mais conhecido título até então era o singelo "Para sempre Cinderela", com Drew Barrymore. Juntos em cena, os dois atores deliciam a plateia com um jogo de cena maduro e sensível - e mais ainda, extremamente crível.

Para quem reclama que os romances cinematográficos são cada vez mais rasos e ligeiros não deixa de ser refrescante saber que Hollywood ainda sabe criar grandes espetáculos com conteúdo. E, ao final da sessão de "Anna e o rei" poucos se lembrarão da versão musicada de Walter Lang. E uma simples valsa substituirá tranquilamente uma agitada polca...

Wednesday, March 30, 2011

CONTATO

CONTATO (Contact, 1997, Warner Bros, 150min) Direção: Robert Zemeckis. Roteiro: James V. Hart, Michael Goldenberg, romance de Carl Sagan, história de Carl Sagan, Ann Druyan. Fotografia: Don Burgess. Montagem: Arthur Schmidt. Música: Alan Silvestri. Figurino: Joanna Johnston. Direção de arte/cenários: Ed Verreaux/Michael J. Taylor. Produção executiva: Joan Bradshaw, Lynda Obst. Produção: Steve Starkey, Robert Zemeckis. Elenco: Jodie Foster, Matthew McConaughey, David Morse, Jena Malone, William Fichtner, Rob Lowe, Tom Skerritt, Angela Bassett, John Hurt. Estreia: 11/7/97

Indicado ao Oscar de Som

Um dos mais populares escritores e astrônomos do mundo, Carl Sagan, autor da famosa série "Cosmos", morreu no final de 1996, quando as filmagens de um de seus mais estimados projetos ainda em andamento. Concebido no início dos anos 80 já em formato de filme e posteriormente transformado em romance, "Contato" chegou às telas alguns meses depois da morte de Sagan, arrancando elogios unânimes da crítica e amealhando nada desprezíveis 100 milhões de dólares somente no mercado doméstico americano. Levando-se em consideração que seu diretor é Robert Zemeckis - que fez com que "Forrest Gump", a história simples de um rapaz com problemas mentais se tornasse uma das maiores bilheterias da história - não chega a ser surpresa o sucesso do filme. Surpresa é o fato de o filme ter alcançado tamanho êxito sem apelar para efeitos visuais desnecessários nem tampouco descaracterizar a trama criada por Sagan. Apesar de classificar-se, sim, como uma ficção científica, "Contato" expande os limites do gênero ao tratar a busca por vida em outros planetas de uma maneira completamente diferente do mostrado até então.

A principal preocupação do roteiro de "Contato" não é levar o espectador à Marte ou planetas outros ao lado de personagens engraçadinhos e forjados sem a menor sutileza. A conversa aqui é bem outra, graças à inteligência da história criada por Sagan. A protagonista do filme é Ellie Arroway (vivida por uma Jodie Foster madura e sempre competente), uma astrônoma dedicada a sua busca por provas de vida fora da Terra. Lutando contra seus financiadores, que acreditam que ela está perdendo dinheiro com suas pesquisas, ela conta com a ajuda de seus colegas para manter viva a esperança de fazer a grande descoberta de sua vida. Um dia, finalmente ela ouve ruídos em seu rádio e descobre, sem sombra de dúvida, que tais sons são a prova da existência de alienígenas inteligentes. Ainda através de contatos sonoros, tais seres enviam  instruções para a construção de uma máquina que permitirá a um terráqueo viajar até eles. Quando tal nave fica pronta, porém, uma dúvida surge: quem é realmente digno de representar o planeta?


É a partir desse questionamento filosófico/religioso que "Contato" sai do lugar-comum dos filmes de ficção científica e penetra em um nível bem mais superior de entretenimento. Sem nunca descuidar do desenvolvimento dramático da história - que inclui a interessante relação entre a intelectual Ellie e o teólogo Joss Palmer (Matthew McConaughey) - o roteiro dá ao público um vasto material para discussões sem, por causa disso, confundí-lo com complexidades inúteis. Está tudo acomodado de forma sutil e convincente, principalmente porque, além de tudo, Zemeckis tem o dom de sempre escalar um elenco preciso. Logicamente, a dona da festa é Jodie Foster, que conduz toda a história com a majestade de sempre, mas seus coadjuvantes não podem jamais ser acusados de ficarem eclipsados por seu enorme talento.

Enquanto Matthew McConaughey aproveita seu status de "novo galã da hora em Hollywood" - foi seu primeiro trabalho após o sucesso de "Tempo de matar" - William Fichtner tem a maior chance de sua carreira ao interpretar o braço direito de Ellie, Kent, um cientista cego de importância fundamental na narrativa e John Hurt quase rouba a cena na pele de S.R. Hadden, o excêntrico milionário que possibilita à protagonista realizar seu sonho - em uma sequência belíssima realizada com extremo bom-gosto. Não bastasse isso, ainda fazem pequenas participações Tom Skerritt, Angela Bassett, Rob Lowe e até mesmo o presidente Bill Clinton, cujo discurso foi utilizado sem prévia permissão e causou controvérsia. E é inadmissível não lembrar das ótimas participações de Jena Malone e David Morse nas cenas iniciais, como a menina Ellie e seu pai, cuja morte tem ressonância em todo o filme.

"Contato" é, portanto, uma ficção científica com os dois pés na realidade. Não é um filme para o público que lotou as salas de cinema para assistir a bobagens indescritíveis como "Independence Day", mas para aquela plateia que gosta de ter seu cérebro bem tratado por duas horas e meia.

Thursday, December 30, 2010

MAVERICK


MAVERICK (Maverick, 1994, Warner Bros/Icon Entertainment, 127min) Direção: Richard Donner. Roteiro: William Goldman, personagens criados por Roy Huggins. Fotografia: Vilmos Zsigmond. Montagem: Stuart Baird, Mike Kelly. Música: Thomas Newman. Figurino: April Ferry. Direção de arte/cenários: Tom Sanders/Lisa Dean. Produção: Bruce Davey, Richard Donner. Elenco: Mel Gibson, Jodie Foster, James Garner, Alfred Molina, James Coburn, Graham Greene, Dan Hedaya. Estreia: 20/5/94

Indicado ao Oscar de Figurino




"Maverick", dirigido pelo mesmo Richard Donner da série "Máquina mortífera" se beneficiou de duas tendências comerciais que estavam em voga no início dos anos 90: os faroestes e as adaptações de séries de TV para o cinema. Tanto "Os imperdoáveis" - western de Clint Eastwood - e "O fugitivo" - estrelado por Harrison Ford - haviam sido grandes sucessos de bilheteria e o primeiro chegou a faturar o Oscar de melhor filme. Aproveitando a onda, Donner juntou-se ao amigo Mel Gibson e correu pro abraço. Com uma renda de mais de 100 milhões de dólares somente no mercado americano, "Maverick"  fechou as contas com um belo saldo, e de quebra, apesar de não ter chegado nem perto das cerimônias de premiação, parece ter divertido tanto o elenco quanto a plateia.

Criado por Roy Huggins na década de 50 e interpretado na TV por James Garner, Bret Maverick chegou às telas na pele de Mel Gibson, em vias de tornar-se um diretor respeitado e oscarizado pelo épico "Coração valente". No roteiro de William Goldman - que ecoa, guardadas as devidas proporções, seu trabalho em "Golpe de mestre" - Maverick é um conceituado jogador de pôquer que precisa juntar dinheiro suficiente para participar de um torneio milionário que acontecerá em um barco. Disposto a arrecadar a grana necessária, ele vai em busca de alguns credores, encontrando em seu caminho o xerife Cooper (o próprio Garner em participação afetiva) e a trapaceira Annabelle Bransford (Jodie Foster pela primeira vez em um papel menos sério dos que costuma interpretar). Juntos, eles passarão por situações inacreditáveis - diligências desgovernadas, ataques indígenas (em uma participação hilária de Graham Greene), roubos e trapaças, além de um violento rival (Alfred Molina) que, a mando de alguém cuja identidade ninguém conhece, tenta impedí-lo de inscrever-se no torneio.



"Maverick" é quase um "Máquina mortífera" no velho-oeste. É impossível dissociar Bret Maverick de Martin Riggs, vivido por Gibson na série do mesmo Richard Donner - e a impagável participação especial de Danny Glover reitera a afirmação. O senso de humor familiar, o talento em dirigir cenas de ação e o controle do ritmo identificam claramente o estilo do cineasta, que iniciou uma brilhante carreira no final dos anos 70 com "Superman, o filme" e depois do quarto capítulo de "Máquina mortífera", em 1998, entrou em uma curva descendente que ainda se mantém. Em "Maverick", Donner brinca com os clichês do velho oeste com um carinho evidente - até mesmo a direção de arte soa um tanto fake, o que lhe dá um certo charme retrô que encontra no elenco escolhido acertadamente um complemento extremamente feliz.

Se Gibson já estava estabelecido como um ator de filmes de ação quando interpretou Bret Maverick o mesmo não pode ser dito de Jodie Foster. Atriz séria, respeitada e especializada em papéis fortes e densos, a vencedora de dois Oscar apresenta, como Annabelle Bransford, uma faceta até então desconhecida para seus inúmeros fãs. Com um perfeito timing cômico e uma feminilidade poucas vezes explorada em seus trabalhos, Foster rouba a cena, principalmente quando atua com Mel Gibson - a química do casal é hilariante e eles aproveitam os diálogos de Goldman com inteligência e frescor. Ver Jodie tão à vontade - na época em que estava em vias de estrear mais um de seus dramas pesados, "Nell", que lhe deu mais uma indicação ao Oscar - é mais um motivo forte para que se assista a Maverick.

Divertido do começo ao fim, "Maverick" é uma sessão da tarde com todas as qualidades que fazem dos filmes de Richard Donner tão agradáveis. Com um humor que não ofende ninguém, um grupo de atores em dias inspirados e um roteiro que nunca cai no marasmo, é uma pedida perfeita para momentos de tédio. Não muda a vida de ninguém, mas diverte.

Thursday, December 2, 2010

SOMMERSBY, O RETORNO DE UM ESTRANHO

SOMMERSBY, O RETORNO DE UM ESTRANHO (Sommersby, 1993, Warner Bros, 114min) Direção: Jon Amiel. Roteiro: Nicholas Meyer, Sarah Kernochan, história de Nicholas Meyer, Anthony Shaffer, roteiro original "The return of Martin Guerre", de Jean-Claude Carrière, Daniel Vigne. Fotografia: Philippe Rousselot. Montagem: Peter Boyle. Música: Danny Elfman. Figurino: Marilyn Vance-Straker. Direção de arte/cenários: Bruno Rubeo/Michael Seirton. Casting: Billy Hopkins, Suzanne Smith. Produção executiva: Richard Gere, Maggie Wilde. Produção: Arnon Milchan, Steven Reuther. Elenco: Jodie Foster, Richard Gere, Bill Pullman, R. Lee Ermey, James Earl Jones. Estreia: 05/02/93

Jodie Foster em um filme romântico pode soar estranho, mas é justamente essa escalação ousada de elenco que faz com que "Sommersby, o retorno de um estranho" sobressaia em meio a tantas histórias de amor lançadas anualmente nas telas de cinema. Refilmagem do francês "O retorno de Martin Guerre", estrelado por Gérard Depardieu, o filme do diretor Jon Amiel tem na presença sempre magnética de Foster (em seu primeiro trabalho pós-Oscar por "O silêncio dos inocentes") seu principal trunfo e, para sorte do público, nem mesmo o normalmente apático Richard Gere (que aqui também é produtor executivo) consegue atrapalhar.


Nesta versão americana, Foster vive Laurel Sommersby, uma mulher forte (como todas as personagens da carreira da atriz) que, logo depois da Guerra de Secessão, luta para manter sua casa e seu filho pequeno. Cortejada por um vizinho (Bill Pullman antes de ser catapultado ao estrelato em "Independence Day"), ela é a pessoa que mais fica surpresa quando reencontra seu marido Jack (Richard Gere), que era dado como morto em uma batalha e reaparece, com desejo de retomar o que é seu. A maior surpresa de Laurel, no entanto, não é a volta do marido e sim sua radical transformação. De grosseiro, rude e mau-caráter, Jack tornou-se romântico, gentil e, mais do que tudo, um homem disposto a tirar a fazenda do vermelho e reconstruí-la. Não demora muito e Laurel cai de amores pelo marido que costumava espancá-la e concebeu seu filho praticamente em um estupro. Ao mesmo tempo, porém, ela tem a certeza quase absoluta de que há algo de errado com ele.


Suas dúvidas começam a ficar maiores quando Jack é acusado de assassinato e surge a possibilidade de que ele na verdade seja um impostor. Laurel fica então divida se quer que o homem por quem está apaixonada diga a verdade e vá preso por falsidade ideológica ou se prefere que ele mantenha sua palavra e possa ser condenado à morte. E é justamente essa dúvida que leva “Sommersby” pra frente. A partir do momento em que a identidade do homem que passa a dividir a cama e a vida com Laurel é posta em questionamento, o filme esquenta e dá espaço para o brilho da atuação de Jodie Foster. E que atuação! Provando – mais uma vez – que é uma das melhores atrizes de sua geração, ela rouba o filme todo pra si, mal deixando espaço para seus coadjuvantes – que incluem o sempre eficaz R. Lee Ermey.

"Sommersby" não é o melhor filme da carreira vitoriosa de Foster, mas é um de seus trabalhos mais maduros e, sem dúvida, o mais romântico e sensual. Seu talento é tão especial que ajuda até mesmo Richard Gere a não estar tão mal.  Somado ao fato de ter um final surpreendente e que foge aos clichês do gênero, é um fato que o recomenda sem maiores medos.

Wednesday, November 10, 2010

NEBLINA E SOMBRAS

NEBLINA E SOMBRAS (Shadows and fog, 1991, Orion Pictures, 85min) Direção e roteiro: Woody Allen. Fotografia: Carlo Di Palma. Montagem: Susan E. Morse. Figurino: Jeffrey Kurland. Direção de arte/cenários: Santo Loquasto/George DeTitta Jr., Amy Marshall. Casting: Juliet Taylor. Produção executiva: Charles H. Joffe, Jack Rollins. Produção: Robert Greenhut. Elenco: Woody Allen, Mia Farrow, John Malkovich, Madonna, Donald Pleasance, Lily Tomlin, Jodie Foster, Kathy Bates, John Cusack, John C. Reilly, Philip Bosco, Kurtwood Smith, Kate Nelligan, Fred Gwyne, William H. Macy, Wallace Shawn. Estreia: 05/12/91

Os detratores adoram dizer que os filmes de Woody Allen são repetitivos, que seu estilo não é exatamente criativo e que seu humor judaico/neurótico/nova-iorquino/sofisticado não sai do chove-não molha. No entanto, se o diretor não estivesse no elenco de "Neblina e sombras" - seu filme de maior orçamento até hoje - era bem pouco provável que qualquer crítico do cineasta pudesse reconhecer no filme qualquer das características que marcaram sua carreira. Com exceção da inteligência - e da marca registrada de usar nomes famosos em papéis pequenos ou quase pontas - nada nessa bela homenagem ao expressionismo alemão do início do século XX aponta para o fato que seu diretor é Allen.

A primeira diferença entre "Neblina e sombras" e o resto da filmografia de Woody diz respeito à geografia. Enquanto a vasta maioria de seus filmes se passa em Nova York e arredores, aqui a história acontece em uma pequena cidade da Alemanha aterrorizada por um assassino serial que mata suas vítimas estranguladas. Para caçar o criminoso vários grupos se formam, com moradores buscando resolver a situação com as próprias mãos, uma vez que o governo parece não se importar com os trágicos acontecimentos. Kleinman (vivido pelo diretor) é um homem comum - preocupado em ser deixado em uma promoção no trabalho - que é escalado por uma dessas facções, que pedem sua ajuda, sem nunca lhe explicar sua missão. Enquanto vaga pela cidade, envolta em neblina e sombras como o título do filme sugere, ele dá de cara com Irmy (Mia Farrow), a engolidora de espadas de um circo que está se apresentando na cidade. Depois de flagrar o marido, o palhaço do circo (John Malkovich) nos braços de sua sedutora colega Marie (Madonna), Irmy encontra abrigo no bordel da cidade, onde desperta o desejo do jovem estudante Jack (John Cusack). Ao lado de Kleinman, ela tentará manter-se longe do assassino e reconstruir sua vida.



Fotografado em belíssimo preto-e-branco por Carlo Di Palma, "Neblina e sombras" também foge do estilo forjado pelo cineasta em décadas de experiência ao evitar piadas intelectualizadas demais - talvez Allen já soubesse que o projeto em si já era suficientemente arriscado comercialmente para que ele confiasse na fidelidade cega de seu público. Ao misturar um humor muito disfarçado e um suspense sem sustos, ele criou um gênero híbrido que, obviamente, não encontrou sua audiência e nem encantou a crítica. Motivos não faltam para essa frieza toda, mas não deixa de ser um exagero essa absoluta apatia em relação ao filme.

Sem dúvida nenhuma, "Neblina e sombras" não é nem de longe um Woody Allen das melhores safras: não é particularmente engraçado, nem denso ou mesmo leve. Mas é inteligente como qualquer trabalho seu - com ecos de "O processo", de Kafka e do filme "M, o vampiro de Dusseldorf", de Fritz Lang -, é extraordinariamente bem realizado - os sets foram construídos especificamente - e só o fato de reunir o elenco que reuniu é de aplaudir entusiasticamente: ao lado dos já citados, desfilam pela tela Jodie Foster, Kathy Bates, Kate Nelligan, Lily Tomlin e Donald Pleasance. Mas aparenta ser mais longo, talvez culpa da morosidade do roteiro e tem um clímax um tanto quanto fraco em relação ao que promete em seu promissor começo.

Para os fãs de Woody Allen, é obrigatório como todos os seus filmes. Para aqueles que acreditam que ele é sempre o mesmo, é necessário. Mas para quem simplesmente não gosta do diretor, não é a maneira correta de começar a gostar.

Friday, October 29, 2010

O SILÊNCIO DOS INOCENTES

O SILÊNCIO DOS INOCENTES (The silence of the lambs, 1991, Orion Pictures, 118min) Direção: Jonathan Demme. Roteiro: Ted Tally, romance de Thomas Harris. Fotografia: Tak Fujimoto. Montagem: Craig McKay. Música: Howard Shore. Figurino: Colleen Atwood. Direção de arte/cenários: Kristi Zea/Karen O'Hara. Produção executiva: Gary Goetzman. Produção: Ron Bozman, Edward Saxon, Kenneth Utt. Elenco: Jodie Foster, Anthony Hopkins, Scott Glenn, Ted Levine, Brooke Smith, Anthony Heald. Estreia: 30/01/91

7 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Jonathan Demme), Ator (Anthony Hopkins), Atriz (Jodie Foster), Roteiro Adaptado, Montagem, Som

Vencedor de 5 Oscar: Melhor Filme, Diretor (Jonathan Demme), Ator (Anthony Hopkins), Atriz (Jodie Foster), Roteiro Adaptado
Vencedor do Golden Globe de Melhor Atriz/Drama (Jodie Foster)

Urso de Ouro Festival de Berlim: Melhor Diretor (Jonathan Demme)

Em Hollywood, uma regra não escrita dita que filmes lançados no início do ano tem poucas - ou nenhuma - chances nas cerimônias de premiação que acontecem no ano seguinte. Levando-se em consideração a quantidade de produtos que chegam às telas durante o período de um ano e o fato de que os estúdios deixam suas apostas para estrearem na época de maior visibilidade para as premiações - a saber, entre o feriado de Ação de Graças e o Natal - não é de se duvidar da afirmação. Mas toda regra tem exceções e, vez ou outra, os normalmente bitolados eleitores da Academia, por exemplo, descobrem que alguns filmes são tão bons que sobrevivem ao tempo e merecem sua homenagem. É o caso de "O silêncio dos inocentes", filmaço de Jonathan Demme que estreou em fevereiro de 1991 e mais de um ano depois arrebatou não só o Oscar de Melhor Filme do ano como reuniu no pacote as estatuetas de diretor, ator, atriz e roteiro adaptado, feito só conquistado antes em duas ocasiões em 1935, com "Aconteceu naquela noite", de Frank Capra, e em 1975 com "Um estranho no ninho", dirigido por Milos Forman. Além de ter superado a barreira cronológica e entrar no seleto grupo vencedor do Big Five, porém, "O silêncio dos inocentes" alcançou outro destaque - até hoje é o único filme de suspense/horror a abiscoitar o prêmio máximo do cinema.

Publicado em 1988, como uma espécie de sequência de "Dragão vermelho" - que por sua vez foi adaptado para o cinema em duas ocasiões, em 1986 (um fracasso) e em 2002 (um sucesso) - o livro de Thomas Harris logo chamou a atenção da atriz Jodie Foster, que apressou-se em comprar os direitos de adaptação. Porém, o ator Gene Hackman havia chegado na frente, pretendendo dirigir o filme e possivelmente estrelá-lo. Quando Hackman desistiu da ideia por não sentir-me mais à vontade participando de filmes violentos e Jonathan Demme - dono de um currículo que incluía mais claramente comédias como "Totalmente selvagem" e "De caso com a máfia" - assumiu o comando do projeto, Foster ofereceu-se para interpretar a protagonista, mas foi deixada de lado Demme queria Michelle Pfeiffer no papel. Depois que Pfeiffer, Meg Ryan e Melanie Griffith (!!!) também pularam fora devido ao tema um tanto quanto pesado do material, finalmente Jodie convenceu o cineasta de que era a atriz séria para viver Clarice Starling. Com o ator inglês Anthony Hopkins a bordo, na pele do vilão mais carismático da história do cinema, "O silêncio dos inocentes" estava pronto para estrear. O resto é história.


Pronto para estrear no outono de 1990, "O silêncio dos inocentes" teve sua estreia adiada pelo próprio estúdio - o já capenga Orion Pictures -, que preferiu focar seus esforços em promover o soporífero "Dança com lobos" junto aos eleitores da Academia. A estratégia funcionou - o filme de Kevin Costner levou 7 Oscar pra casa, a despeito de sua chatice - e a obra de Demme só foi ver a luz dos projetores no início de 1991. Mal sabia o estúdio que um ano depois estaria comemorando um bicampeonato - dessa vez muito mais justo - graças a um filme forte, tenso e sem concessões ao público médio. Um filme quase doentio e talvez justamente por isso, sensacional!

A aspirante a agente do FBI Clarice Starling (Jodie Foster) - cujo pai policial morreu quando ela ainda era criança - é chamada à sala de seu supervisor Jack Crawford (Scott Glenn) para que receba uma missão aparentemente banal e corriqueira entrevistar o famoso sociopata Hannibal Lecter (Anthony Hopkins), conhecido pela alcunha de Canibal, por degustar suas vítimas. A versão oficial é a de que a agência precisa de alguns dados dele para uma pesquisa, mas logo a jovem descobre que os interesses em Hannibal são bem outros cientes do brilhantismo do prisioneiro - um psiquiatra de QI muito acima da média - os membros do FBI querem que ele ajude na captura de um outro assassino serial que vem atacando mulheres e arrancando suas peles, apelidado de Buffalo Bill. Fascinado pela inteligência de Starling, Lecter aceita ajudá-la em sua missão, desde que ela compartilhe com ele seus pensamentos mais pessoais, como em uma espécie de sessão de terapia. Mesmo alertada dos perigos que corre aceitando a proposta de Lecter, ela aceita o desafio, iniciando um perigoso duelo mental.
Apedrejado por instituições de direitos aos gays, que viram nele mais um incitador ao preconceito - uma vez que seu vilão é um transexual violento - "O silêncio dos inocentes" acabou se beneficiando das polêmicas. Com mais de 130 milhões de dólares arrecadados nas bilheterias americanas, o filme de Demme arrancou elogios entusiasmados da crítica desde sua estreia e o prêmio de Melhor Diretor no Festival de Berlim de 1991 apenas reiterou as loas. Quando finalmente saiu da noite do Oscar multi-premiado (e já disponível no mercado de vídeo há um bom tempo), a história da fascinante relação entre uma agente do FBI com um psicopata canibal cimentou de vez sua importância na história do cinema.

Seguindo o material de origem com uma fidelidade quase canina, o roteiro de Ted Tally - merecidamente premiado com o Oscar - é um perfeito exemplo de como transportar um livro para as telas de cinema sem perder a sua essência. O clima de tensão constante que perpassa todo o romance de Thomas Harris nunca deixa de estar presente em sua versão cinematográfica. A direção firme e inteligente de Jonathan Demme respeita a história a as personagens acima de qualquer interesse em demonstrar versatilidade ou inovações. Ao confiar na trama e em seu desenrolar angustiante e excitante, Demme deixa que sua câmera discreta observe o embate entre Clarice e Hannibal - e posteriormente entre o FBI e Buffalo Bill - de forma seca, mas nunca indiferente. Jodie Foster entrega uma atuação arrebatadora, madura e corajosa como uma mulher sofrendo por demônios interiores enquanto caça os exteriores. Seu olhar expressivo consegue mixar terror, saudade e angústia na medida certa, sem exageros ou minimalismos estilísticos. Os olhos de Clarice são os olhos do público e como tal, são curiosos, nervosos, indagadores e se deixam hipnotizar por Lecter, em uma sublime interpretação de Anthony Hopkins, que teve sua carreira ressuscitada com seu Oscar, mas que depois de vários filmes repetindo a personagem acabou perdendo um pouco de seu fascínio. Na pele de Buffalo Bill, o ator Ted Levine - injustamente esquecido em todas as premiações do ano - consegue despertar pavor e asco, ainda que tenha que defender uma personagem praticamente indefensável. Somados à extraordinária trilha sonora de Howard Shore e à edição esperta de Craig McKay, a direção de Demme, o roteiro de Tally e o elenco impecável transformam "O silêncio dos inocentes" em um clássico moderno.

Saturday, September 4, 2010

ACUSADOS


ACUSADOS (The accused, 1988, Paramount Pictures, 111min) Direção: Jonathan Kaplan. Roteiro: Tom Topor. Fotografia: Ralf Bode. Montagem: O. Nicholas Brown, Jerry Greenberg. Música: Brad Fiedel. Figurino: Trish Keating. Direção de arte/cenários: Richard Kent Wilcox/Barry W. Brolly. Casting: Sally Dennison, Julie Selzer. Produção: Stanley R. Jaffe, Sherry Lansing. Elenco: Jodie Foster, Kelly McGillis, Bernie Coulson, Carmen Argenziano, Leo Rossi, Ann Hearn. Estreia: 14/10/88

Vencedor do Oscar de Melhor Atriz (Jodie Foster)

Vencedor do Golden Globe de Melhor Atriz/Drama (Jodie Foster)


Quando assistiu a "Acusados" pela primeira vez, Jodie Foster achou sua atuação tão ruim que considerou seriamente abandonar Hollywood e dedicar-se à carreira acadêmica. Quando, alguns meses depois, ela ganhou o Oscar de melhor atriz por seu trabalho, felizmente mudou de ideia. E até mesmo quem considerava que Glenn Close era imbatível na categoria, por "Ligações perigosas" é obrigado a admitir que Foster é a melhor coisa do filme. Sorte de Foster - que em pouco tempo estrearia como diretora e levaria uma segunda estatueta, por "O silêncio dos inocentes", sorte dos fãs de cinema e sorte principalmente do filme em si, um drama de tribunal formulaico e, não fosse por ela, esquecível. Sem maiores arroubos de criatividade no roteiro e uma direção anêmica, "Acusados" poderia facilmente ser classificado como um telefilme, tamanha é sua falta de energia. Mas Jodie, definitivamente, faz toda a diferença.

A personagem de Foster é Sarah Tobias, uma garçonete de boca suja, chegada em fumar um baseado de vez em quando e sem grandes pudores. Uma noite, ela vai parar em um bar onde trabalha uma amiga. Tencionando um flerte de leve para provocar o namorado, com quem acabou de brigar, ela acaba sendo violentamente estuprada por três homens, enquanto outros os incitavam e encorajavam com aplausos e gritos de incentivo. Humilhada e machucada, ela conta com a ajuda da advogada Kathryn Murphy (Kelly McGillis) para colocar seus agressores atrás das grades. As coisas não correm conforme o esperado e eles são absolvidos depois de um acordo judiciário. Sentindo-se traída, Sarah desconta a raiva na advogada, que, tocada em seus brios de mulher e profissional, tem a idéia de processar os homens que testemunharam o ato de violência.

E é só isso. O filme não faz muito além de contar sua história, sem desenvolver as suas personagens principais, tão frágeis quanto o roteiro, superficial a ponto de não se aprofundar em nenhuma das inúmeras questões que poderia suscitar. O relacionamento e a solidariedade entre as protagonistas principais, por exemplo, não é discutido a contento, nem muito menos o machismo que as leva a unirem-se mesmo quando seu futuro não aponta para algo muito feliz. Kelly McGillis se deixa levar pela apatia de sua personagem e nem está particularmente bela como em “Top Gun” e “A testemunha”, seus dois filmes mais conhecidos - e isso que ela mesma foi vítima de estupro, em 1982, o que a fez trocar, ao menos na tela, o papel de vítima pelo de advogada. Jonathan Kaplan, o diretor, em alguns anos trocaria o cinema pela TV, dirigindo vários episódios de "Plantão médico".

É somente Jodie Foster, com seu imenso talento que faz sua Sarah Tobias tornar-se maior que o roteiro e a direção e salvar “Acusados” da total mediocridade. E isso que foi apenas a quarta opção para o papel... Como diria Alanis Morissette, isn't ironic??

Tuesday, May 25, 2010

TAXI DRIVER


TAXI DRIVER (Taxi driver, 1976, Columbia Pictures, 113min) Direção: Martin Scorsese. Roteiro: Paul Schrader. Fotografia: Michael Chapman. Montagem: Tom Rolf, Melvin Shapiro. Música: Bernard Herrmann. Figurino: Ruth Morley. Direção de arte/cenários: Charles Rosen/Herbert Mulligan. Casting: Juliet Taylor. Produção: Julia Phillips, Michael Phillips. Elenco: Robert DeNiro, Sybil Sheperd, Jodie Foster, Harvey Keitel, Albert Brooks, Peter Boyle, Martin Scorsese. Estreia: 08/02/76

4 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Ator (Robert DeNiro), Atriz Coadjuvante (Jodie Foster), Trilha Sonora Original

Palma de Ouro (Melhor Filme) no Festival de Cannes


Nada como a garra e a ousadia da juventude. Em 1976, aos 34 anos, Martin Scorsese - recém saído do sucesso de crítica de "Alice não mora mais aqui", que deu o Oscar de melhor atriz a Ellen Burstyn - concebeu um dos filmes mais perturbadores e fascinantes de uma carreira que ainda viria a legar ao mundo obras-primas como "Touro indomável" e "Os bons companheiros". Unido ao roteirista Paul Schrader e ao ator Robert DeNiro, o cineasta nova-iorquino criou uma sufocante fábula sobre solidão, obsessão e violência passada nas ruas escuras e úmidas de Times Square: "Taxi driver", vencedor da Palma de Ouro de Melhor Filme no Festival de Cannes de 1976.

De Niro, em uma atuação irretocável, vive Travis Bickle, um ex-combatente do Vietnã que começa a trabalhar como motorista de táxi no horário noturno como forma de lidar com a insônia. Convivendo com passageiros excêntricos e/ou patéticos, ele se torna obcecado pela bela Betsy (Sybil Sheperd), que trabalha no comitê eleitoral de um candidato à Presidência. Enquanto tenta conquistá-la a seu modo um tanto grosseiro e equivocado (em seu primeiro encontro, por exemplo, ele a leva a um cinema pornô), ele também conhece e fica interessado na história de Iris (Jodie Foster, aos 12 anos de idade), uma prostituta adolescente que ele acredita ser explorada por seu cafetão Matthew "Sport" (Harvey Keitel). Fascinado pelas duas, Travis decide impressioná-las usando de violência como cartão de visitas, o que o leva a uma carnificina.

Escrito por Schrader em apenas 5 dias - sempre com a arma carregada do roteirista em seu campo de visão como objeto de inspiração e motivação, segundo reza a lenda - "Taxi driver" encantou vários estúdios que se interessaram em produzí-lo, mesmo que alguns deles tivessem algumas ideias estapafúrdias para seu elenco: até mesmo o cantor Neil Diamond foi sugerido para o papel principal, escrito por Schrader com o ator Jeff Bridges em mente. Quando Scorsese assumiu a função de diretor no lugar de Brian de Palma, chamou seu amigo e colaborador Robert DeNiro para viver o protagonista e o resto é história.

Para as personagens femininas é que as coisas não foram assim tão fáceis. A bela e etérea Betsy, por exemplo, teve possibilidade de ser interpretada por dezenas de atrizes hoje bastante conhecidas: Farrah Fawcett, Jane Seymour, Glenn Close, Susan Sarandon, Meryl Streep, Sigourney Weaver, Liza Minelli, Barbara Hershey, Mary Steenburgen, Mia Farrow e Goldie Hawn. Cybil Sheperd ficou com o papel que foi escrito inspirado em sua imagem somente depois que sua agente ficou sabendo desse pequeno detalhe, mas sua dificuldade em decorar as falas foi motivo de muitos conflitos durante as filmagens, principalmente em relação aos produtores, o casal Julia e Michael Phillips. Mas se Sheperd, apesar de lindíssima não atrapalha nem impressiona, o mesmo não pode ser dito a respeito de Jodie Foster que, aos 12 anos, mostra que seu talento já vem de longe.

Para viver a prostituta-mirim Iris - que lhe deu uma indicação ao Oscar de atriz coadjuvante - Foster teve que bater 250 candidatas ao papel. Entre essas candidatas estavam, Melanie Griffith, Kim Basinger, Geena Davis, Michelle Pfeiffer, Brooke Shields, Debra Winger, Linda Blair, Carrie Fisher, Mariel Hemingway e, acreditem ou não, Kim Cattrall, a famosa Samantha Jones da série "Sex and the city". Seu trabalho, no entanto, é impecável. Mesmo com sua pouca idade, ela demonstra um talento incomum, que, anos depois a consagraria como uma das melhores atrizes de sua geração.

Na verdade, é difícil dizer o que funciona mais nesse impressionante trabalho de um cineasta-autor. O trabalho de atores, liderados por um Robert De Niro assustador e completo com uma juvenil Jodie Foster e um supreendente Harvey Keitel (que transformou uma personagem negra em uma branca) é cuidadoso, detalhista e seguro. A música hipnotizante de Bernard Herrman (em seu último trabalho, uma vez que morreu uma semana depois de concluí-lo) impõe-se como um pesadelo, especialmente em contato com a fotografia quase polidimensional de Michael Chapman, que deixa de lado o visual de cartão-postal de Nova York para mostrar uma cidade tensa, angustiada e nervosa como deseja o roteiro sufocante de Paul Schrader, transformado em imagens por um Scorsese em um de seus melhores trabalhos como diretor, cheio da energia e da garra dos cineastas iniciantes e engajados.

Sem fazer concessões ao agradável e a finais felizes incoerentes e desnecessários, “Taxi driver” é um dos filmes obrigatórios dos anos 70.