Showing posts with label JOHN CUSACK. Show all posts
Showing posts with label JOHN CUSACK. Show all posts

Tuesday, February 14, 2012

IDENTIDADE

IDENTIDADE (Identity, 2003, Columbia Pictures, 90min) Direção: James Mangold. Roteiro: Michael Cooney. Fotografia: Phedon Papamichael. Montagem: David Brenner. Música: Alan Silvestri. Figurino: Ariane Phillips. Direção de arte/cenários: Mark Friedberg/Cindy Carr. Produção executiva: Stuart Besser. Produção: Cathy Konrad. Elenco: John Cusack, Ray Liotta, Amanda Peet, Rebecca de Mornay, John Hawkes, Alfred Molina, Clea DuVall, John C. McGinley, William Lee Scott, Jake Busey. Estreia: 25/4/03

Como fazer para transformar o que potencialmente seria mais um filme de terror ao estilo da série “Pânico”, em que pessoas morrem violentamente atacadas por um assassino misterioso, em um produto com alcance mais amplo – ou seja, um público acima de 16 anos, que normalmente lota esse tipo de produção? A resposta parece vir em “Identidade”, que, a mortes bem encenadas e um clima de puro suspense, acrescenta um elenco interessante e um roteiro que foge das resoluções fáceis que são o tiro de misericórdia do gênero.
As escolhas não óbvias de “Identidade” já começam pela escalação de seus atores. Liderando uma equipe de bons atores – ao contrário do pastiches de terror recheado de adolescentes sarados e sem conteúdo dramático – está o sempre confiável John Cusack. Na pele de Edward, o chofer de Caroline Suzanne (Rebecca de Mornay, em uma atuação auto-paródica), uma atriz decadente atrás de um novo sucesso, ele mantém a discrição, deixando que a trama, forte e assutadora o bastante, seja o principal elemento de atenção do filme. No roteiro bem orquestrado de Michael Cooney, ele e sua patroa são obrigados a parar em um hotel de beira de estrada durante uma tempestade que não arrefece. No hotel, eles travam conhecimento com um grupo de pessoas bastante diferentes em si: estão lá um jovem casal recém-casado, Giny e Louis (Cléa Duvall e William Lee Scott), a prostituta Paris (Amanda Peet), o gerente falastrão Larry (John Hawkes), um policial escoltando um criminoso (Ray Liotta e Gary Busey) e uma família cuja mãe está ferida devido a um acidente automobilístico na estrada (John C. McGinley, Leila Kenzle e o garoto Bret Loher). Presos no hotel por causa do mau tempo, eles começam a morrer misteriosamente, enquanto passam a descobrir que na verdade podem não estar ali reunidos por coincidência.

 

A atmosfera de “Identidade”, que busca surpreender a plateia não com mortes criativas e sim com viradas realmente empolgantes, é em boa parte cortesia de um visual úmido criado com cuidado pelo diretor James Mangold, que a julgar por seu currículo – ele dirigiu também o drama “Garota, interrompida” e o romance “Kate & Leopold” – transita facilmente entre os mais variados gêneros. E a criação de uma misteriosa trama paralela – onde um assassino condenado à morte (vivido pelo sempre assustador Pruitt Taylor Vince) tenta provar sua insanidade para escapar da execução – apenas soma ainda mais à tensão já existente, uma vez que tentar adivinhar como essa história aparentemente desconexa tem ligação à principal é outro exercício a que a complexa narrativa obriga a plateia, que chega aos créditos finais agradecida por ter sido tratada com um mínimo de inteligência sem que os padrões estéticos do gênero tenham sido agredidos.

Aliás, o respeito com que Mangold trata o gênero suspense é uma das maiores qualidades de "Identidade". Mesmo que seja mais inteligente do que a média, o filme não tem medo de abusar dos clichês, mas sempre tratando-os com cuidado e prendendo a atenção do público. Se a presença de John Cusack no elenco pode sugerir que ele é o herói da trama (o que não é exatamente verdade, uma vez que não há personagens 100% puros na história), o roteiro consegue surpreender com uma reviravolta bastante surpreendente (e que dá espaço para um final impactante mas um tanto forçado). Em "Identidade" nada é exatamente o que parece. E isso é que faz dele um produto capaz de agradar aos fãs do gênero e a quem gosta de um bom entretenimento.

Monday, October 17, 2011

ESCRITO NAS ESTRELAS



ESCRITO NAS ESTRELAS (Serendipity, 2001, Miramax Films, 90min) Direção: Peter Chelsom. Roteiro: Marc Klein. Fotografia: John De Borman. Montagem: Christopher Greenbury. Música: Alan Silvestri. Figurino: Marie-Sylvie Deveau, Mary Claire Hannon. Direção de arte/cenários: Caroline Hanania/Tracey Gallacher. Produção executiva: Julie Goldstein, Bob Osher, Amy Slotnick. Produção: Peter Abrams, Simon Fields, Robert L. Levy. Elenco: John Cusack, Kate Beckinsale, Jeremy Piven, Bridget Moynahan, Eugene Levy, John Corbett, Molly Shannon. Estreia: 05/10/01

Filmes românticos tem, normalmente, o poder de fazer com que o público deixe de lado, ao menos por um curto período de tempo, a racionalidade para acreditar  em histórias que normalmente pareceriam inverossímeis. Às vezes não dá para embarcar na fantasia. Em outros casos os elementos se encaixam tão bem que é impossível não se deixar levar pelo romance, pela magia e pelo encanto. É o caso de "Escrito nas estrelas", uma deliciosa comédia romântica que tem no elenco carismático e no roteiro esperto seus maiores trunfos, a ponto de ter rendido mais de 50 milhões de dólares somente no mercado americano (quase o dobro de seu orçamento).  Mesmo com a demora em seu lançamento no Brasil - estreou por aqui mais de um ano depois de seu lançamento nos EUA, é um filme que merece ser descoberto pelos fãs do gênero.

John Cusack, normalmente avesso a produções comerciais - o que ele fazia em "Con Air", pelo amor de Deus? - encara seu primeiro papel totalmente romântico - já que em "Alta fidelidade" havia uma saudável e cavalar dose de auto-ironia - ao interpretar Jonathan, um rapaz normal que, às vésperas de um Natal qualquer em Nova York conhece a bela inglesa Sarah (Kate Beckinsale recuperando-se rapidamente do fracasso crítico de "Pearl Harbor") em uma loja de departamentos. Os dois sentem uma afinidade inexplicável, mas sabem que qualquer romance entre eles é impedido pelo fato de ambos serem comprometidos com outras pessoas. Para não deixar a idílica noite passar em branco, eles resolvem deixar que o destino os reúna, se estiver "escrito nas estrelas" que devem ficar juntos. Sendo assim, ela escreve seu nome e telefone dentro de um exemplar de "O amor nos tempos do cólera", de Gabriel García Marquez e ele em uma nota de cinco dólares. A ideia é simples: se tais objetos caírem em suas mãos em algum dia, é um sinal inequívoco de que eles devem ficar juntos. Anos se passam e tanto Jonathan quanto Sarah estão de casamentos marcados. Ele, no entanto, ainda apaixonado, resolve procurá-la, mesmo que o destino não lhe tenha dado nenhum sinal.


Não simpatizar com "Escrito nas estrelas" é tarefa das mais complicadas. Além da história, com doses exatas de romantismo e bom-humor (que tira sarro até mesmo do músico grego Yanni, através do noivo de Sarah, vivido aqui por John Corbett, da série "Sex and the city"), o elenco do filme de Peter Chelsom conquista o público principalmente por sua contagiante simpatia. A química entre Cusack e Becksinsale funciona bastante, a ponto de a plateia torcer por seu final feliz mesmo que eles não contracenem em nenhum momento depois dos minutos iniciais de projeção. Os coadjuvantes, como sempre, não deixam por menos e quase roubam as cenas em que aparecem, em especial Molly Shannon e Jeremy Piven, como os melhores amigos dos protagonistas. Shannon e Piven aproveitam cada diálogo para mostrar que tem talento o suficiente para segurar papéis maiores.

Além disso tudo, o roteiro de "Escrito nas estrelas" é um achado. Comandados por uma trama que mistura misticismo e ironia com um romantismo deslavado, as personagens de Marc Klein se movem graciosamente rumo a seu desfecho por uma Nova York belissimamente fotografada e encantam justamente por suas falhas, inseguranças e principalmente por seu desejo de amor e felicidade. As "coincidências" que atravessam seus caminhos são tão inacreditáveis que chegam a ser encantadoras, o que seduz o público imperceptivelmente. Ao final de sua hora e meia de projeção é impossível não ficar com um sorriso estampado no rosto e não acreditar que o amor existe, sim, e pode estar em qualquer lugar esperando para acontecer.

"Escrito nas estrelas" é um filme comum, sem maiores ambições, e é perfeito para se assistir ao lado da namorada, de mãos dadas e debaixo de um edredon. É uma experiência romântica, feita para românticos incuráveis que gostam de finais felizes. E, a julgar pelo eterno sucesso do gênero, eles são muitos...

Tuesday, August 9, 2011

ALTA FIDELIDADE

ALTA FIDELIDADE (High fidelity, 2000, Dogstar Films/New Crime Productions/Touchstone Pictures/Working Title Films, 113min) Direção: Stephen Frears. Roteiro: D.V. DeVincentis, Steve Pink, John Cusack, Scott Rosenberg, romance de Nick Hornby. Fotografia: Seamus McGarvey. Montagem: Mick Audsley. Música: Howard Shore. Figurino: Laura Cunningham Bauer. Direção de arte/cenários: David Chapman, Therese Deprez/Larry Lundy. Produção executiva: Liza Chasin, Alan Greenspan, Mike Newell. Produção: Tim Bevan, Rudd Simmons. Elenco: John Cusack, Iben Hjejle, Jack Black, Lisa Bonet, Todd Louiso, Joan Cusack, Natasha Gregson-Wagner, Lili Taylor, Bruce Springsteen, Sara Gilbert, Tim Robbins, Joelle Carter, Catherine Zeta-Jones. Estreia: 31/3/00

Se existe algum escritor moderno que merece ser considerado "pop" esse autor é o inglês Nick Hornby. Bem-humorado, direto e totalmente mergulhado em universo cultural que é a cara dos anos 80/90, Hornby é o autor de alguns dos livros mais deliciosamente divertidos e irônicos do final do primeiro milênio e, como tal, sua prosa não escapou dos olhares gananciosos de Hollywood. Sendo que pouca gente assistiu à adaptação de "Febre de bola" lançada em 1997 e estrelada por Colin Firth, pode-se considerar que seu primeiro grande contato com o sucesso cinematográfico foi "Alta fidelidade", a versão de Stephen Frears para aquele que muitos consideram seu melhor trabalho. Apesar do relativo fracasso de bilheteria (mal cobriu seu custo em terras ianques), o filme protagonizado pelo ótimo John Cusack é uma das melhores comédias românticas da história e um programa obrigatório para aqueles que gostam de diversão inteligente.

Trocando (sem maiores prejuízos) o cenário da trama de Londres para Chicago (assim como a nacionalidade do protagonista), o roteiro co-escrito pelo próprio Cusack segue quase à risca o romance que lhe deu origem, que também originou a peça de teatro "A vida é feita de som e fúria". Ao deixar intactas suas maiores qualidades (o humor bem sacado, o mergulho sem medo no universo pop, o romantismo visto por uma ótica masculina e quase cafajeste), o filme de Frears presta reverência à sua origem sem nunca deixar de aparentar um frescor interno: da forma que está, a história parece ter nascido para a tela grande, tamanha sua identificação com a linguagem cinematográfica.



Rob Gordon (em atuação antológica de John Cusack) é o feliz proprietário de uma loja de discos de vinil chamada Championship Vynil, localizada em Chicago. Fanático por músicas pop e por fazer listas que enumeram suas preferências em vários setores da vida, ele sofre um golpe inesperado quando é abandonado por sua namorada, a bela Laura (Ibjen Hjejle) e fica sozinho ao lado de Harry (Jack Black) e Dick (Todd Louiso), seus funcionários e únicos amigos. Desesperado por esse revés emocional, Gordon faz, então, a lista mais importante de sua vida e resolve entrar em contato com as cinco mulheres que mais o fizeram sofrer por amor. Com isso, ele tenciona compreender porque seus relacionamentos invariavelmente acabam da mesma forma dolorosa. Assim, ele procura seu amor de infância que o trocou por um colega de escola, a namorada da faculdade (Joelle Carter) - que ele mesmo abandonou porque ela não queria sexo-, a esplendorosa Charlie (Catherine Zeta Jones em ótima forma) - que o trocou por um homem menos imaturo - e a deprimida Sarah (Lily Taylor), que também o chutou. Finalmente, ele resolve reconquistar Laura, ao mesmo tempo em que vive um rápido romance com a cantora Marie de Salle (Lisa Bonet).

Ao utilizar o batido - mas sempre eficaz - recurso de fazer seu protagonista dialogar com a câmera, tendo o espectador como confidente e ouvinte, Frears conquista a audiência logo na primeira cena, com um close sofrido de John Cusack desnudando seu coração partido e vociferando contra as músicas de amor. Aqui Cusack está no melhor papel de sua vida, um Ferris Bueller que, em vez de matar aula, resolve viver sua vida amorosa sem amarras apertadas. Seu Rob Gordon pode até parecer egoísta em determinados momentos, quase insensível e galinha, mas a sensibilidade do ator (também produtor executivo do filme e da trilha musical) faz com que o público inteiro se solidarize com ele... e torça para um final feliz entre ele e sua amada Laura.

Sem apelar para piadas fáceis e grosseiras, "Alta fidelidade" ainda tem tempo para apresentar coadjuvantes memoráveis (o asqueroso Harry vivido por Jack Black em seu melhor momento é um exemplo), de contar com participações especialíssimas de Bruce Springsteen e Tim Robbins e ainda por cima legar uma extraordinária trilha sonora, em que convivem harmonicamente Bob Dylan, Elvis Costello, Stevie Wonder e Stereolab, além de uma surpreendente versão da bela "Let's get it on" de Marvin Gaye na voz de... Jack Black (!!!)

"Alta fidelidade" é cinema pop, com tudo o que isso tem de bom e agradável. Um cult de nascimento!

Thursday, July 14, 2011

QUERO SER JOHN MALKOVICH

QUERO SER JOHN MALKOVICH (Being John Malkovich, 1999, Gramercy Pictures, 112min) Direção: Spike Jonze. Roteiro: Charlie Kaufman. Fotografia: Lance Acord. Montagem: Eric Zumbrunnen. Música: Carter Burwell. Figurino: Casey Storm. Direção de arte/cenários: K.K. Barrett/Gene Serdena. Produção executiva: Charlie Kaufman, Michael Kuhn. Produção: Steve Golin, Vincent Landay, Sandy Stern, Michael Stipe. Elenco: John Cusack, Catherine Keener, Cameron Diaz, John Malkovich, Mary Kay Place, Charlie Sheen. Estreia: 29/10/99

3 indicações ao Oscar: Diretor (Spike Jonze), Atriz Coadjuvante (Catherine Keener), Roteiro Original

Quando se diz que um filme é bizarro a imagem que normalmente vêm à mente é a de alguma cena criada pelo Monthy Phyton – grupo inglês capaz de contar as piadas mais surreais de maneira mais simples. No entanto, depois de alguns minutos apenas de “Quero ser John Malkovich” o conceito de bizarro no cinema atinge um novo patamar. Disparado o dono do roteiro mais tresloucado do final do milênio, o filme do estreante em longa-metragens Spike Jonze (visto como ator em “Três reis”) passa longe do trivial e se assusta uma parcela do público ao negar-se a concessões comerciais, imediatamente marca seu lugar como uma estréia das mais alvissareiras do cinema.

John Cusack, desgrenhado e fugindo como o diabo da cruz de um visual de galã vive Craig Schwartz, um rapaz desempregado que tenta ganhar a vida com seus impressionantes shows de marionetes. Casado com Dotty (uma Cameron Diaz irreconhecível), uma amante incondicional de animais, ele vive uma vida sem graça até que encontra trabalho como arquivista em uma empresa localizada no 7 ½ andar (!!) de um prédio comercial. Encantado com Maxine (Catherine Keener), uma colega de trabalho, ele tem sua existência transformada ao descobrir, sem querer, um portal que dá diretamente no cérebro do ator John Malkovich. Unindo-se à ambiciosa Maxine, ele começa a cobrar 200 dólares por pessoa que queira passar 15 minutos dentro da mente do ator – e depois ser jogado à beira de uma rodovia em Nova Jérsei. As coisas se complicam para ele quando sua mulher também entra no cérebro de Malkovich, descobre que sempre quis ser um homem – e se apaixona por Maxine.


Não há nenhuma linha do roteiro delirante de Charlie Kaufman que seja convencional, banal ou corriqueira. Desde os diálogos surreais – o documentário sobre a criação do 7 ½ º andar beira a perfeição de um pesadelo – até os cenários inacreditáveis, tudo no filme de Jonze clama por atenção. Até mesmo a participação do próprio John Malkovich em cenas pretensamente constrangedoras mostram que diante da comédia do ex-clipeiro (é dele o vídeo de “Praise you”, de Fatboy Slim, por exemplo) se está diante também de um diretor e de um roteirista sem medo de embarcar em uma jornada sem precedentes em termos de humor. A coragem do elenco também é notável - em especial uma horrenda Cameron Diaz - e a participação especial de nomes como Sean Penn e David Fincher apenas reitera o nível de qualidade de um filme que jamais busca a risada fácil.


"Quero ser John Malkovich" é um dos filmes essenciais do final da década de 90, por sua criatividade, sua inteligência e por oferecer à plateia muito mais do que comédias banais oferecem a cada semana. Pode não agradar a todo mundo, mas ninguém pode acusá-lo de ser comum.

Wednesday, November 10, 2010

NEBLINA E SOMBRAS

NEBLINA E SOMBRAS (Shadows and fog, 1991, Orion Pictures, 85min) Direção e roteiro: Woody Allen. Fotografia: Carlo Di Palma. Montagem: Susan E. Morse. Figurino: Jeffrey Kurland. Direção de arte/cenários: Santo Loquasto/George DeTitta Jr., Amy Marshall. Casting: Juliet Taylor. Produção executiva: Charles H. Joffe, Jack Rollins. Produção: Robert Greenhut. Elenco: Woody Allen, Mia Farrow, John Malkovich, Madonna, Donald Pleasance, Lily Tomlin, Jodie Foster, Kathy Bates, John Cusack, John C. Reilly, Philip Bosco, Kurtwood Smith, Kate Nelligan, Fred Gwyne, William H. Macy, Wallace Shawn. Estreia: 05/12/91

Os detratores adoram dizer que os filmes de Woody Allen são repetitivos, que seu estilo não é exatamente criativo e que seu humor judaico/neurótico/nova-iorquino/sofisticado não sai do chove-não molha. No entanto, se o diretor não estivesse no elenco de "Neblina e sombras" - seu filme de maior orçamento até hoje - era bem pouco provável que qualquer crítico do cineasta pudesse reconhecer no filme qualquer das características que marcaram sua carreira. Com exceção da inteligência - e da marca registrada de usar nomes famosos em papéis pequenos ou quase pontas - nada nessa bela homenagem ao expressionismo alemão do início do século XX aponta para o fato que seu diretor é Allen.

A primeira diferença entre "Neblina e sombras" e o resto da filmografia de Woody diz respeito à geografia. Enquanto a vasta maioria de seus filmes se passa em Nova York e arredores, aqui a história acontece em uma pequena cidade da Alemanha aterrorizada por um assassino serial que mata suas vítimas estranguladas. Para caçar o criminoso vários grupos se formam, com moradores buscando resolver a situação com as próprias mãos, uma vez que o governo parece não se importar com os trágicos acontecimentos. Kleinman (vivido pelo diretor) é um homem comum - preocupado em ser deixado em uma promoção no trabalho - que é escalado por uma dessas facções, que pedem sua ajuda, sem nunca lhe explicar sua missão. Enquanto vaga pela cidade, envolta em neblina e sombras como o título do filme sugere, ele dá de cara com Irmy (Mia Farrow), a engolidora de espadas de um circo que está se apresentando na cidade. Depois de flagrar o marido, o palhaço do circo (John Malkovich) nos braços de sua sedutora colega Marie (Madonna), Irmy encontra abrigo no bordel da cidade, onde desperta o desejo do jovem estudante Jack (John Cusack). Ao lado de Kleinman, ela tentará manter-se longe do assassino e reconstruir sua vida.



Fotografado em belíssimo preto-e-branco por Carlo Di Palma, "Neblina e sombras" também foge do estilo forjado pelo cineasta em décadas de experiência ao evitar piadas intelectualizadas demais - talvez Allen já soubesse que o projeto em si já era suficientemente arriscado comercialmente para que ele confiasse na fidelidade cega de seu público. Ao misturar um humor muito disfarçado e um suspense sem sustos, ele criou um gênero híbrido que, obviamente, não encontrou sua audiência e nem encantou a crítica. Motivos não faltam para essa frieza toda, mas não deixa de ser um exagero essa absoluta apatia em relação ao filme.

Sem dúvida nenhuma, "Neblina e sombras" não é nem de longe um Woody Allen das melhores safras: não é particularmente engraçado, nem denso ou mesmo leve. Mas é inteligente como qualquer trabalho seu - com ecos de "O processo", de Kafka e do filme "M, o vampiro de Dusseldorf", de Fritz Lang -, é extraordinariamente bem realizado - os sets foram construídos especificamente - e só o fato de reunir o elenco que reuniu é de aplaudir entusiasticamente: ao lado dos já citados, desfilam pela tela Jodie Foster, Kathy Bates, Kate Nelligan, Lily Tomlin e Donald Pleasance. Mas aparenta ser mais longo, talvez culpa da morosidade do roteiro e tem um clímax um tanto quanto fraco em relação ao que promete em seu promissor começo.

Para os fãs de Woody Allen, é obrigatório como todos os seus filmes. Para aqueles que acreditam que ele é sempre o mesmo, é necessário. Mas para quem simplesmente não gosta do diretor, não é a maneira correta de começar a gostar.

Friday, July 30, 2010

CONTA COMIGO


CONTA COMIGO (Stand by me, 1986, Columbia Pictures, 89min) Direção: Rob Reiner. Roteiro: Raynold Gideon, Bruce A. Evans, conto "The body", de Stephen King. Fotografia: Thomas Del Ruth. Montagem: Robert Leighton. Música: Jack Nietzsche. Direção de arte/cenários: Dennis Washington/Richard D. Kent. Casting: Janet Hirshenson, Jane Jenkins. Produção: Bruce A. Evans, Raynold Gideon, Andrew Scheinman. Elenco: Wil Wheaton, River Phoenix, Corey Feldman, Jerry O'Connell, Kiefer Sutherland, John Cusack, Richard Dreyfuss. Estreia: 08/8/86

Indicado ao Oscar de Roteiro Adaptado

O nome do escritor Stephen King nos créditos de “Conta comigo” não deixa de ser enganador. Ao ver seu nome atrelado a produções de terror normalmente bem abaixo da média, King nunca deixou que seus trabalhos em outros gêneros viessem à tona. Baseado em um conto chamado “The body”, o filme de Rob Reiner sobre a perda da inocência é quase uma pequena obra-prima de sensibilidade e melancolia.

Passado no início dos anos 60, quando os EUA ainda não haviam passado pelos traumas da guerra do Vietnã e do assassinato de Kennedy, o filme conta a aventura de quatro amigos em vias de passar da infância para a pré-adolescência, quase como o país.
Ao embarcar em uma viagem em busca do corpo de um jovem morto por um trem, os amigos embarcam também em uma jornada de auto-conhecimento, em que o objetivo passa ser menos importante do que o caminho.

O criativo Gordie (Will Wheaton) não consegue provar aos pais seu talento, sempre sufocado pela lembrança do irmão mais velho morto tragicamente (vivido em flashback por um jovem John Cusack). O rebelde Chris Chambers (River Phoenix, em uma atuação delicada e inesquecível) também vive à sombra do irmão, mas pelos motivos opostos, uma vez que ele não é exatamente um motivo de orgulho. O traumatizado Teddy (Corey Feldman) sofre de maus-tratos domésticos cometidos por seu pai, veterano da Guerra da Coréia e o gordinho Vern (Jerry O’Connell) tem em sua forma física motivos suficientes para considerar-se à margem. Juntos, os quatro partem em busca de fama e glória ao encontrarem o cadáver de um conterrâneo. Em seu encalço está uma gangue de transviados liderados por Ace Merrill (Kiefer Sutherland iniciando uma carreira de vilões).

Como já foi dito antes, a viagem dos amigos é mais importante que seu destino. Enquanto conversam sobre suas vidas, fogem de cães raivosos e trem desatinados e revelam seus segredos, Gordie e seus companheiros constroem uma amizade forte e perene, mesmo que sem maiores ambições de seguir com ela no final dos seus dias de aventura. O tom melancólico da obra de King atinge um nível emocionante graças ao roteiro indicado ao Oscar, à trilha nostálgica (em especial a bela canção que dá título ao filme) e ao inspirado elenco jovem. E pensar que River Phoenix morreu menos de dez anos depois deixa o ar menos respirável ainda quando o escritor vivido por Richard Dreyfuss, em participação especial termina de contar sua bela e triste história.