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Thursday, July 28, 2011

MAGNÓLIA

MAGNÓLIA (Magnolia, 1999, New Line Cinema, 188min) Direção e roteiro: Paul Thomas Anderson. Fotografia: Robert Elswit. Montagem: Dylan Tichenor. Música: Jon Brion. Figurino: Mark Bridges. Direção de arte/cenários: William Arnold, Mark Bridges/Chris Spellman. Produção executiva: Michael De Luca, Lynn Harris. Produção: Paul Thomas Anderson, JoAnne Sellar. Elenco: Jason Robards, Julianne Moore, Philip Seymour Hoffman, Tom Cruise, John C. Reilly, Melora Walters, William H. Macy, Philip Baker Hall, Melinda Dillon, Alfred Molina, Luiz Guszman, Jeremy Blackman. Estreia: 17/12/99

3 indicações ao Oscar: Ator Coadjuvante (Tom Cruise), Roteiro Original, Canção Original ("Save me")
Vencedor do Golden Globe de Ator Coadjuvante (Tom Cruise)

Quando trata-se de cinema normalmente a palavra “épico” vem acompanhada de cenários grandiosos, uma fotografia esplendorosa cobrindo vastas paisagens, uma trilha sonora grandiloquente e personagens heróicos lutando por causas nobres e altruístas em espetáculos longos e empolgantes. Por isso não deixa de ser um choque assistir a “Magnólia”, de Paul Thomas Anderson, descrito por seu criador como um “épico sobre pessoas comuns”. Épico? Os cenários são apartamentos à meia-luz, auditórios de programas de TV, bares freqüentados por perdedores. A fotografia é sutil, discreta, tenuamente iluminada. A trilha sonora é composta por canções que falam de dor, rejeição, insegurança interpretadas por uma cantora folk de voz delicada. E os personagens podem ser considerados tudo menos nobres e altruístas, porque lutam pela própria felicidade e contra a solidão e o arrependimento. Excetuando-se a longa duração (quase três horas), nada em “Magnólia” corresponde ao conceito de “filme épico”. E talvez por isso, por essa distorção, o trabalho de Anderson seja um dos melhores filmes da década de 90.
Anderson, também diretor do ótimo “Boogie nights, prazer sem limites” não tem medo de ousar em sua nova obra. Nada em “Magnólia” acontece da maneira que acontece em outros filmes e sim da maneira como ocorre na vida real. A história de amor contada no decorrer de sua duração - entre o policial  Jim (John C. Reilly) e a viciada em cocaína Claudia (Melora Walters, a grande revelação do filme) -  não ocorre entre dois exemplos de beleza em busca de uma felicidade de comercial de margarina e sim entre duas pessoas adultas e inseguras, com um belo histórico de problemas e personalidades conflitantes de verdade. Donnie Smith, o gênio mirim do passado (o ótimo William H. Macy) não quer ganhar dinheiro para viajar para Aspen e sim para colocar um aparelho nos dentes e assim conquistar a atenção e quem sabe o amor de um garçom mais jovem e atraente. Stanley Spector (Jeremy Blackman), o gênio mirim do presente, quer conquistar o amor do ambicioso pai e ter o direito de ir ao banheiro no momento em que precisar. O empresário moribundo Earl Partridge (o veterano Jason Robards em seu último e grande trabalho) não quer morrer em paz e sim obter o perdão do filho que abandonou, o guru de autoajuda sexual Frank T. Mackey(Tom Cruise em seu melhor trabalho, indicado ao Oscar de ator coadjuvante) e sua mulher, Linda (Julianne Moore nunca aquém de espetacular), que casou-se com ele por dinheiro, descobre, na iminência de sua morte, que o ama de verdade.



Cada cena em “Magnólia” surpreende por sua capacidade de emocionar sem apelar para o trivial e em buscar sempre a solução menos convencional, fato que fica evidente em seu clímax – uma chuva de sapos aparentemente sem qualquer explicação racional – e em uma das cenas mais comentadas de seu tempo – uma bela seqüência onde todos os personagens entoam a bela “Wise up”, da cantora Aimée Mann. A edição ágil de Dylan Tichenor colabora com a intenção do diretor em demonstrar o estado de excitação e angústia de seu grande número de personagens, todos envolvidos em momentos de total e dolorida verdade, seja ela o reencontro com um pai cuja imagem nunca foi positiva ou a revelação de um passado pouco agradável.

Contando com um elenco impecável (onde até mesmo Tom Cruise se sai bem, apesar da personagem irritante) e com uma trilha sonora que dificilmente pode ser excluída do rol de personagens devido à sua importância capital no desenrolar das cenas - mais do que simplesmente comentá-las, a trilha surge quase como uma espécie de consciência - "Magnólia" talvez seja o melhor exemplo de como um filme pode ser denso sem ser petulante e triste sem ser piegas. Envolvente desde sua fascinante sequência de abertura, é também a prova viva de quem nem sempre a palavra "épico" precisa estar necessariamente ligada a vastas paisagens (ainda que a alma humana muitas vezes seja tão seca e árida quanto o maior deserto).

Monday, May 30, 2011

A QUALQUER PREÇO

A QUALQUER PREÇO (A civil action, 1998, Touchstone Pictures/Paramount Pictures/Wildwood Enterprises, 115min) Direção: Steven Zaillian. Roteiro: Steven Zaillian, romance de Jonathan Harr. Fotografia: Conrad L. Hall. Montagem: Wayne Wahrman. Música: Danny Elfman. Figurino: Shay Cunliffe. Direção de arte/cenários: David Gropman/Tracey A. Doyle. Produção executiva: David Wisnievitz, Steven Zaillian. Produção: Rachel Pfeffer, Robert Redford, Scott Rudin. Elenco: John Travolta, Robert Duvall, Tony Shalhoub, William H. Macy, Zeljko Ivanek, John Lithgow, Kathleen Quinlan, James Gandolfini, Dan Hedaya, Stephen Fry, Sydney Pollack. Estreia: 25/12/98

2 indicações ao Oscar: Ator Coadjuvante (Robert Duvall), Fotografia
Vencedor do Screen Actors Guild: Ator Coadjuvante (Robert Duvall)

Cerca de dois anos antes que Julia Roberts ganhasse o Oscar por seu trabalho em "Erin Brokovich, uma mulher de talento", uma história semelhante já havia sido levada às telas, sob a competente direção de Steven Zaillian, premiado pela Academia pelo roteiro de "A lista de Schindler". Baseado em um livro de Jonathan Harr - por sua vez inspirado em um fato real - "A qualquer preço" é um eficiente drama de tribunal, que compensa sua falta de maiores emoções por uma narrativa enxuta e sóbria, valorizada pela bela fotografia do veterano Conrad L. Hall e pelo trabalho sutil de John Travolta.

Tentando manter a boa fase da carreira - fase essa que começou com a indicação ao Oscar por "Pulp fiction" - Travolta tem uma atuação discreta como Jan Schlichtmann, um advogado bem-sucedido de Boston que vê cair em suas mãos um caso que pode lhe dar fama e dinheiro: oito famílias o procuram com o objetivo de processar um curtume responsável por poluir um rio que lhes proporciona a água potável que consomem. Dessas famílias, crianças morreram de leucemia e, através de uma das mães, Anne Anderson (Kathleen Quinlan), ele toma contato com todos os problemas causados pela empresa (na figura de seu dono, vivido por um perfeito Dan Hedaya). Indo para os tribunais, Jan enfrenta o advogado Jerome Facher (Robert Duvall) e fica meses a fio em um julgamento complicado que acaba com todo o dinheiro de sua firma. Mesmo falido, ele transforma o caso em uma espécie de obsessão.


O roteiro, escrito pelo próprio Zaillian, foge como o diabo da cruz das armadilhas de transformar o filme em um drama lacrimoso - assim como o fez Francis Ford Coppola em "O homem que fazia chover" - e prefere centrar seu foco nos problemas financeiros de seu protagonista, mais um exemplar de personagem que sofre uma transformação ética no decorrer do processo. John Travolta segura bem a gradual mudança na personalidade de Schlichtmann, nunca ultrapassando os limites da discrição. Seu trabalho encontra eco em William H. Macy (como seu contador) e Kathleen Quinlan, que também se destaca pelo minimalismo, apesar do fato de apenas Robert Duvall ter sido lembrado pelas cerimônias de premiação (o veterano ator chegou a ser indicado ao Oscar). Em um filme que dá mais importância a seus atores do que a qualquer outro quesito, "A qualquer preço" encontra em seu elenco o maior trunfo.

Pecando por evitar maiores reviravoltas ou grandes cenas dramáticas que fazem a glória dos filmes de tribunal, "A qualquer preço" é um programa que agrada aos fãs do gênero justamente por evitar seus maiores clichês. É um tanto longo demais, mas vale uma conferida.

Sunday, April 24, 2011

MERA COINCIDÊNCIA

MERA COINCIDÊNCIA (Wag the dog, 1997, New Line Cinema, 97min) Direção: Barry Levinson. Roteiro: Hilary Henkin, David Mamet, livro "American hero", de Larry Beinhart. Fotografia: Robert Richardson. Montagem: Stu Linder. Música: Mark Knopfler. Figurino: Rita Ryack. Direção de arte/cenários: Wynn Thomas/Robert Greenfield. Produção executiva: Michael De Luca, Claire Rudnick Polstein, Ezra Swerdlow. Produção: Robert De Niro, Barry Levinson, Jane Rosenthal. Elenco: Dustin Hoffman, Robert De Niro, Anne Heche, Denis Leary, Willie Nelson, Kirsten Dunst, Woody Harrelson, William H. Macy, James Belushi. Estreia: 25/12/97

2 indicações ao Oscar: Ator (Dustin Hoffman), Roteiro Adaptado
Prêmio Especial do Júri no Festival de Berlim

A vida imita a arte, a arte imita a vida ou o mundo da política é tão previsível que nada mais surpreende o eleitor? Essa é a dúvida que fica no ar após uma sessão de "Mera coincidência", lançado pelo premiado Barry Levinson em dezembro de 1997, no auge do escândalo envolvendo o presidente Bill Clinton e a estagiária da Casa Branca Monica Lewinsky. Porém, apesar do timing perfeito - que beneficiou o filme, m termos de badalação midiática - e da extrema semelhança entre ficção e acontecimentos reais, tudo não passou exatamente de, com o perdão do trocadilho, mera coincidência. Quando Clinton chegou às manchetes, acusado de manter um caso extra-conjugal com Lewinsky, o trabalho de Levinson já estava em fase de pós-produção. Quer se acredite ou não, "Mera coincidência" (título mais apropriado à ironia da questão em si do que ao filme propriamente dito) não é inspirado no governo do marido de Hilary. E isso faz
dele ainda mais desconcertante.

Quando o filme começa, o presidente dos EUA está em uma acirrada campanha pela reeleição. Esta campanha - amparada na velha frase Pra que trocar de cavalos no meio da corrida?, oriunda de um discurso de Abraham Lincoln - sofre um abalo considerável quando uma estudante acusa o chefe máximo da nação de tê-la assediado sexualmente. Desesperados para diminuir o estrago, os assessores de marketing da Casa Branca apelam para Conrad (Robert De Niro), especializado em resolver problemas. Conrad, raposa velha dos meios políticos sabe que somente uma coisa rivaliza em interesse com escândalos sexuais uma guerra. Porém, como o país está passando por um período de paz, essa guerra terá que ser criada. Para isso, é chamado Stanley Motss (Dustin Hoffman), um produtor hollywoodiano. Talentoso e criativo, Motss praticamente inventa uma guerra - com direito a imagens falsas, heróis viris, vítimas inocentes e até mesmo uma cançã-tema. Em poucos dias, toda a atenção dos eleitores está nas notícias sobre o conflito entre EUA e Albânia (que não tem a menor ideia do que está acontecendo).



"Mera coincidência" é uma comédia de ironias. Desperta sorrisos, nunca gargalhadas. O cérebro ri mais do que a boca, uma vez que as piadas não são sideradas ou explícitas. Tudo é muito sutil no roteiro inteligente a cargo do dramaturgo David Mamet e de Hilary Henkin - adaptando um romance de Larry Beinhart. As situações criadas por Beinhart são muito mais engraçadas do que as (poucas) piadas, que fazem todo o sentido do mundo para uma audiência acostumada ao mais ridículos absurdos providos pela televisão. A trama, repleta de reviravoltas e surpresas inacredítáveis (mas muito verossímeis) leva as personagens - e o espectador - a situações engraçadíssimas (o herói de guerra escolhido, por exemplo, é um condenado por estuprar uma freira). Até mesmo a canção criada para "embalar" a guerra não deixa de ser hilária, por lembrar nitidamente eventos como os "We are the world" da vida.

Filmado durante um intervalo nas filmagens de "Esfera" - também dirigido por Levinson e estrelado por Hoffman - "Mera coincidência" tem um resultado bastante superior à chata ficção científica do cineasta. É um humor inteligente, adulto e politicamente incorreto. Um filme para ser descoberto.

Monday, March 28, 2011

BOOGIE NIGHTS, PRAZER SEM LIMITES

BOOGIE NIGHTS, PRAZER SEM LIMITES (Boogie nights, 1997, New Line Cinema, 155min) Direção e roteiro: Paul Thomas Anderson. Fotografia: Robert Elswit. Montagem: Dylan Tichenor. Música: Michael Penn. Figurino: Mark Bridges. Direção de arte/cenários: Bob Ziembicki/Sandy Struth. Produção executiva: Lawrence Gordon. Produção: Paul Thomas Anderson, Lloyd Levin, John Lyons, Joanne Sellar. Elenco: Mark Wahlberg, Burt Reynolds, Julianne Moore, John C. Reilly, Heather Graham, Phillip Seymour Hoffman, William H. Macy, Don Cheadle, Joanna Gleason, Thomas Jane, Alfred Molina, Luis Guzman, Melora Walters, Philip Baker Hall. Estreia: 10/10/97

3 indicações ao Oscar: Ator Coadjuvante (Burt Reynolds), Atriz Coadjuvante (Julianne Moore), Roteiro Original
Vencedor do Golden Globe de Ator Coadjuvante (Burt Reynolds)

Em 1988 um ainda adolescente Paul Thomas Anderson escreveu e dirigiu um falso documentário em curta-metragem chamado "The Dirk Diggler story", que narrava a ascensão e a queda de um ator pornô. Menos de dez anos depois, Anderson já era um cineasta - seu primeiro filme "Jogada de risco" havia sido lançado em ... - mas a história de seu curta ainda martelava em sua cabeça. Assim, com um orçamento um pouco mais generoso (mas ainda irrisório em comparação com outras produções da época) ele dirigiu seu segundo longa, que expandia - e muito - a história de Diggler. "Boogie Nights, prazer sem limites" acabou deslumbrando a crítica especializada e mostrou que Anderson era um cineasta já pronto antes mesmo dos 30 anos de idade.

A história começa em 1977, quando o adolescente Eddie Adams (Mark Wahlberg) é convidado pelo diretor de filmes "para adultos" Jack Horner (Burt Reynolds) a juntar-se à sua já consagrada equipe. Trabalhando como auxiliar de cozinha de uma casa noturna e em constante atrito com a família, Eddie identifica na relação de Horner e seus empregados um núcleo familiar mais saudável do que o seu e, com a ambição de ficar rico e famoso, assume o nome de Dirk Diggler e torna-se o maior astro pornô da época. Dotado de um instrumento de trabalho invejável, ele ganha todos os prêmios da indústria, cria personagens históricos e se envolve no mundo das drogas, iniciando então uma decadência física e moral.

Utilizando a meteórica ascensão de Diggler, o diretor/roteirista/produtor Anderson faz um inventário de uma das épocas mais queridas do imaginário americano e mundial. Os anos 70, com seus excessos, glamour e liberdade sexual, é uma personagem a mais na trama de "Boogie nights", tendo papel de fundamental importância para o desenvolvimento do roteiro - cujas 300 páginas iniciais foram diminuídas para 180 no produto final. A trilha sonora escolhida pelo diretor, por exemplo, jamais chama a atenção para si: é orgânica, parte essencial da narrativa, como um papel de parede (ou um dos pôsters do quarto do jovem Eddie). Da mesma forma, a direção de arte kitsch e o figurino espalhafatoso ajudam a contar a história, situando cada momento de forma inconfundível. É brilhante a maneira com que todos os elementos de "Boogie nights" estão absolutamente conectados, como peças interdependentes que se unem para formar um painel gigante. E para isso, além do visual, Paul Thomas Anderson conta com um elenco de causar inveja a Quentin Tarantino.



Assim como na filmografia de Tarantino, não há, em "Boogie nights", um protagonista absoluto. Ainda que Dirk Diggler seja o objeto da trama e seu catalisador, a narrativa do filme se estende além de sua trajetória. Anderson é um roteirista inspirado e inteligente, que dá a seus coadjuvantes histórias próprias que os elevam acima da condição de meras escadas. Julianne Moore está em uma de suas melhores atuações como Amber Waves, a estrela da companhia de Jack Horner, uma mulher madura, delicada e intensa que luta pela guarda do filho pequeno ao mesmo tempo em que, em sua vida paralela, pratique cenas de sexo explícito e consuma quilos e mais quilos de cocaína. Burt Reynolds - no papel de sua vida - dá a Jack Horner um intenso senso de desejo artístico (sua personagem quer mais do que simplesmente ganhar dinheiro com cinema pornô, ele quer ser reconhecido como um artista...) Heather Graham faz de sua Rollergirl (papel recusado por Gwyneth Paltrow) uma jovem tentando encontrar seu caminho na vida e até mesmo o produtor dos filmes de Horner, Coronel James, do alto de sua pedofilia, é capaz de despertar uma certa compaixão no espectador. Esse talento de Anderson em dar uma aura humana a qualquer personagem faz de "Boogie nights" um dos melhores dramas intimistas da década de 90 (a despeito de não ser tratado como tal). Melhor que ele, somente "Magnólia", lançado dois anos depois e também assinado por ele.

Mas falar de "Boogie nights" sem falar de seu tema central seria absurdo. Mesmo que suas personagens secundárias sejam tão interessantes quanto a trama principal, é sobre a indústria pornô dos anos 70 que versa "Boogie nights". A era disco - retratada de maneira carinhosa mas ainda assim com um certo ar de decadência depressiva - é a espinha dorsal do filme, o cenário sobre o qual se desenvolvem todos os dramas criados por Anderson: a entrega de Dirk às drogas, a luta de Amber pelo filho, a tragédia envolvendo Little Bill (William H. Macy) - que mata a mulher adúltera em plena festa de Reveillon - e a substituição do filme por videotape no início da década de 90 são narrados com maestria por um jovem cineasta no auge de sua energia. A primeira cena - um plano-sequência de cerca de 3 minutos que apresenta as principais personagens em um clube noturno - já demonstra, de cara, que Paul Thomas Anderson não é um cineasta qualquer.

E boa parte da energia que "Boogie nights" transmite ao espectador se deve à presença de Mark Wahlberg. Desacreditado como ator e vindo de uma carreira como modelo de cuecas Calvin Klein e como o rapper Marky Mark, o quase estreante ficou com o papel oferecido a Leonardo DiCaprio e não poderia ter se saído melhor. Não é um grande ator, mas tem uma presença cênica forte o bastante para jamais comprometer - além de ter uma estampa bagaceira que casa perfeitamente com o protagonista que interpreta. É ele o rosto (e o corpo) de "Boogie nights" e, se o filme é tão bom muito da responsabilidade é de sua entrega ao papel e da direção nervosa de Paul Thomas Anderson.

"Boogie nights" é um dos melhores filmes dos anos 90 e ponto final. É forte, é audacioso, é inteligente e tem um senso de humor dos mais macabros. Obra de gênio!

Friday, February 25, 2011

FARGO, UMA COMÉDIA DE ERROS

FARGO, UMA COMÉDIA DE ERROS (Fargo, 1996, Polygram Filmed Entertainment/Working Title Films, 98min) Direção: Joel Coen. Roteiro: Joel & Ethan Coen. Fotografia: Roger Deakins. Montagem: Roderick Jaynes. Música: Carter Burwell. Figurino: Mary Zophres. Direção de arte/cenários: Rick Heinrichs/Lauri Gaffin. Produção executiva: Tim Bevan, Eric Fellner. Produção: Ethan Coen. Elenco: Frances McDormand, William H. Macy, Steve Buscemi, Peter Stormare, Kristin Rudrud, Harve Presnell, John Carroll Lynch. Estreia: 08/3/96

7 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Joel Coen), Atriz (Frances McDormand), Ator Coadjuvante (William H. Macy), Roteiro Original, Fotografia, Montagem
Vencedor de 2 Oscar: Melhor Atriz (Frances McDormand), Roteiro Original
Palma de Ouro Festival de Cannes: Melhor Diretor (Joel Coen)

Afinal de contas, a que gênero cinematográfico pertence o filme "Fargo, uma comédia de erros"? Ora uma comédia de humor negro, ora um policial repleto de surpresas, ora uma mordaz crítica ao modo de vida dos "caipiras" americanos, o 6º longa dos irmãos Coen - queridinhos da crítica desde a década de 80 - aprimorou seu estilo mezzo anárquico mezzo subsersivo de forma a finalmente conquistar a sisuda Academia. Indicado a sete estatuetas do Oscar, levou duas - roteiro original e atriz - provando que, de vez em quando, boas ideias e inteligência são mais importantes que efeitos mirabolantes e orçamentos inchados. Desde que surgiram no cenário artístico americano - com o noir tardio "Gosto de sangue", de 1984 - Joel e Etan Coen nunca fizeram nada que não merecesse elogios rasgados da crítica. Roteiristas, diretores, produtores e até mesmo editores (sob o pseudônimo de Roderick Jaynes), eles são uma indústria de dois homens. E "Fargo" é uma de suas obras-primas.


Fargo é uma pequena cidade do interior de Dakota do Norte, onde acontece o encontro que dá o pontapé inicial à trama criada pelos Coen - falsamente indicada como uma história real nos créditos de abertura. É em um bar esfumaçado de Fargo que o Jerry Lundegaard (William H. Macy) conhece os mal-encarados  Carl Showalter (Steve Buscemi) e Gaear Grimsrud (Peter Stormare), recomendados por um colega de trabalho. Gerente de uma concessionária de automóveis, Jerry tem um plano aparentemente infalível para arrumar o dinheiro que lhe dará a oportunidade de investir em um negócio próprio: ele contrata os dois desconhecidos para que sequestrem sua esposa e peçam resgate a seu rude e seco sogro (Harve Presnell). Quando as coisas saem do controle - e corpos começam a se acumular - entra em cena Marge Gunderson (Frances McDormand), uma policial grávida de muitos meses que, detalhista e dedicada, tem como missão resolver o caso dos assassinatos ocorridos em sua jurisdição.


A recepção calorosa dos membros da Academia a "Fargo" é fácil de entender. Apesar de manter intactas as principais características de seu cinema - e até exagerá-las em determinadas sequências - Joel e Ethan Coen atingem, aqui, um equilíbrio raro entre a subversão e o mainstream. O visual apurado - cortesia de uma fotografia gélida de Roger Deakins - está um passo acima de seus trabalhos anteriores, e é brilhante a forma como o roteiro escrito a quatro mãos é conciso e assertivo. Sem apelar para as complicações de "Ajuste final", por exemplo, os irmãos contam sua história de forma direta, evitando ao máximo desviar a atenção da audiência para tramas paralelas. E, ao contrário da regra não escrita que dita que um filme policial precisa ser levado a sério e uma comédia não deve recorrer à violência, embaralham as cartas de maneira a surpreender o público a cada nova cena. E para isso, contam com personagens quase inacreditáveis vividos por um elenco nunca aquém de brilhante.


O humor nos filmes dos irmãos Coen é absolutamente particular. Não desperta gargalhadas histéricas nem tampouco é fácil ou comum, surgindo sempre da ironia, e isso nunca foi tão óbvio quanto em "Fargo". Os cadenciados diálogos que movem a história de morte e violência encontram em atores sensacionais sua voz perfeita. William H. Macy começa aqui uma galeria de homens fracassados que encontraria o auge em sua parceria com o diretor Paul Thomas Anderson, nos filmes "Boogie nights" e "Magnólia", onde viveria respectivamente um marido traído e um ex-gênio precoce decadente. Sua indicação ao Oscar de ator coadjuvante foi justíssima e um prêmio não seria imerecido - principalmente se for levado em conta que perdeu a estatueta para o exagerado Cuba Gooding Jr.. Steve Buscemi e Peter Stormare formam uma dupla impecável em suas diferenças cruciais - e Stormare consegue ser apavorante nos momentos mais fortes do filme. Mas é Frances McDormand quem rouba descaradamente a cena, em uma interpretação genial, felizmente reconhecida com uma estatueta dourada.


Falando com um sotaque absurdo - e com uma naturalidade impressionante - McDormand faz de sua Marge uma personagem multidimensional, alternando sua personalidade metódica de policial com a doçura de uma futura mãe. É McDormand, com suas inflexões vocais e físicas (seu rosto é excepcional para comunicar-se com o público mesmo sem uma palavra dita) que parece dar um sentido de ordem à bagunça orquestrada pelos realizadores. Suas cenas com John Carroll Lynch - que vive seu marido dono-de-casa - são tranquilas, quase tediosas, como forma de demonstrar sua vida doméstica. Quando contracena com William H. Macy transforma-se em uma mulher forte que esconde sua inteligência atrás do barrigão de gestante. Com seus interrogados ela transmuta-se no que for preciso para arrancar informações. Como atriz, McDormand - esposa de Joel Coen - é digna de arrancar os maiores elogios possíveis.


"Fargo" é uma pequena pérola do cinema independente americano. Realizado com meros 7 milhões de dólares, é uma prova cabal de que pouco dinheiro nunca foi desculpa para falta de talento. Mesmo não agradando a todos os tipos de público - cuja maioria prefere assistir sempre a filmes mais "comuns" - é uma obra que une a ousadia do cinema de autor com a qualidade técnica da indústria hollywoodiana.

Monday, February 21, 2011

MR. HOLLAND, ADORÁVEL PROFESSOR

MR. HOLLAND, ADORÁVEL PROFESSOR (Mr. Holland's Opus, 1995, Hollywood Pictures/Polygram Filmed Entertainment, 143min) Direção: Stephen Hereck. Roteiro: Patrick Sheane Duncan. Fotografia: Oliver Wood. Montagem: Trudy Ship. Música: Michael Kamen. Figurino: Aggie Guerard Rodgers. Direção de arte/cenários: David Nichols/Jan Bergstrom. Produção executiva: Patrick Sheane Duncan, Scott Kroopf. Produção: Robert W. Cort, Ted Field, Michael Nolin. Elenco: Richard Dreyfuss, Glenne Headly, Jay Thomas, Olympia Dukakis, William H. Macy, Alicia Witt, Terrence Howard, Joanna Gleason, Joseph Anderson. Estreia: 29/12/95

Indicado ao Oscar de Melhor Ator (Richard Dreyfuss)

Não há como subestimar o poder de um grande ator. Mesmo muito tempo depois de ser um dos mais populares astros de Hollywood - o que aconteceu nos anos 70, quando trabalhou com Steven Spielberg em "Tubarão" e "Contatos imediatos de terceiro grau" - Richard Dreyfuss é a principal razão pela qual o drama "Mr. Holland, adorável professor" fez o sucesso que fez nas bilheterias americanas. Mesmo sem ter a seu favor uma beleza estonteante ou fazer parte de qualquer franquia milionária, Dreyfuss tem carisma o bastante para fazer com que o filme de Stephen Herek tenha rendido mais de 80 milhões de dólares somente no mercado americano. Indicado ao Oscar por seu precioso trabalho, ele teve o azar de bater de frente com o ultra-premiado Nicolas Cage. Caso contrário, era bem possível que também tivesse conquistado os eleitores da Academia mais uma vez, quase vinte anos depois de sua primeira vitória, por "A garota do adeus".

Quando a história de "Mr. Holland" começa, em 1965, o protagonista tem 30 anos de idade, enquanto Dreyfuss já estava perto dos cinquenta. Basta alguns minutos, porém, para que esse pequeno problema matemático seja abstraído, graças à atuação gigantesca do ator. Ele vive Glenn Holland, que tem como maior sonho de sua vida compor uma sinfonia para deixá-lo rico e famoso. Buscando tempo suficiente para atingir seu objetivo, ele arruma um trabalho como professor de Apreciação Musical em uma tradicional escola do interior dos EUA. A princípio frustrado com sua falta de vocação, logo ele descobre uma maneira pouco tradicional de conquistar seus alunos: misturando Bach com rock'n'roll, ele choca seus superiores, mas seduz seus estudantes, que passam a admirá-lo incondicionalmente. A cada dia mais e mais empurrado para longe da realização de seu sonho - principalmente por compromissos financeiros domésticos - ele não percebe a passagem dos anos, até que, trinta anos depois, quando a escola decide fechar o departamento de música, ele nota que sua vida girou em torno de influenciar todos os que passaram por suas aulas.


O roteiro de Patrick Sheane Duncan - indicado ao Golden Globe - faz milagres ao compactar trinta anos de movimentos sociais e musicais em pouco mais de duas horas de duração sem soar apressado ou superficial. Seu maior toque de inteligência foi utilizar um sub-gênero hollywoodiano - o filme de professor - para contar uma trama que alterna momentos puramente emocionais com uma disfarçada crítica às instituições de ensino americanas, bem como sua história. Traumas como a guerra do Vietnã e a morte de John Lennon são o pano de fundo para a trajetória de um homem comum, que precisa lidar com problemas pessoais - como a surdez do único filho - ao mesmo tempo em que precisa ser a inspiração para adolescentes em ebulição. E é comovente como ele ajuda a tímida Gertrude Lang (Alicia Witt) a levantar a auto-estima, o problemático Louis Russ (Terrence Howard) a manter-se na escola e a talentosa Rowena Morgan (Jean Louisa Kelly) a buscar suas aspirações - e com quem tem um perigoso flerte. Seus alunos, como bem diz uma personagem na sequência final, são sua sinfonia. E entre eles, em participações não creditadas, estão atores como Forest Whitaker e Balthazar Getty.

E a música é elemento fundamental em "Mr. Holland, adorável professor". Ao acompanhar a evolução rítmica do mundo ocidental, da década de 60 - quando o rock ainda estava em seu período áureo - até a metade dos anos 90, o público é brindado com um apanhado de belas canções, que vão de Gershwin a Beatles. E é justamente a morte de John Lennon a responsável pela mais bela cena do filme, quando Holland faz uma singela homenagem ao filho cantando "Beautiful boy", que o ex-Beatle compôs para o herdeiro Sean. São esses momentos de absoluta ternura que conquistam a plateia, a despeito de estarem perigosamente perto do piegas. E é aí que o talento de seus protagonistas faz toda a diferença.

Richard Dreyfuss é um dos atores mais sensacionais do cinema americano e demonstra isso em cada momento de "Mr. Holland". Dos 30 aos 60 anos de idade, ele convence plenamente, seja como professor dedicado, como compositor frustrado ou marido em crise de meia-idade. Capaz de emocionar e fazer rir, ele encontra em Glenne Headly uma parceira ideal. Na pele de Iris, sua esposa fiel e companheira, a atriz não deixa o astro eclipsar um trabalho sutil e delicado, injustamente esquecido pelas cerimônias de premiação do ano de 1995. Juntos, o casal conduz o público por um caminho emocionante, agradável e pontuado por uma trilha sonora deliciosa.

O único problema de "Mr. Holland, adorável professor" é que ele é capaz de despertar lágrimas até mesmo no mais empedernido espectador. E nem todo mundo gosta de assumir seu lado sensível...

Saturday, January 29, 2011

ASSASSINATO EM PRIMEIRO GRAU

ASSASSINATO EM PRIMEIRO GRAU (Murder in the first, 1995, Warner Bros, 122min) Direção: Marc Rocco. Roteiro: Dan Gordon. Fotografia: Fred Murphy. Montagem: Russell Livingstone. Música: Christopher Young. Figurino: Sylvia Vega Vasquez. Direção de arte/cenários: Kirk M. Petruccelli/Greg Grande. Produção executiva: Marc Rocco, David L. Wolper. Produção: Marc Frydman, Mark Wolper. Elenco: Kevin Bacon, Christian Slater, Gary Oldman, Embeth Davidtz, William H. Macy, Stephen Tobolowsky, Brad Dourif, R.Lee Ermey. Estreia: 20/01/95

Um dos mais famosos presídios do mundo, Alcatraz foi o tema central de um dos mais conhecidos filmes de Clint Eastwood, "Alcatraz, fuga impossível", de 1979. Considerado um dos presídios mais seguros do planeta, localizado em uma ilha perto de San Francisco e construída em 1934 (sobreviveu como instituição penal até 1963), Alcatraz passou, ao menos na sétima arte, de cenário a personagem. Em "Assassinato em primeiro grau", ele foi, inclusive, acusado de cumplicidade em um homicídio. Baseado em uma história real, o filme de Marc Rocco - que ficou com um projeto inicialmente pensado para Oliver Stone - tem boas intenções (denunciar o sistema penitenciário e a violação de direitos humanos), mas esbarra na total falta de sutileza de seu diretor.

Nos anos 30, quando Alcatraz estava no auge de sua fama como um local de fuga impossível, o jovem Henry Young (Kevin Bacon) tenta escapar, em companhia de outros presidiários. Capturado em seguida, ele é mandado para a solitária, ficando sem sol, sem luz e sem contato com quaisquer seres humanos pelo absurdo prazo de 3 anos e 2 meses - sendo que o máximo permitido por lei para tal castigo é de apenas 19 dias. Brutalizado pelo superindentente do lugar, o frio Milton Glenn (Gary Oldman), ele sai do buraco onde esteve encarcerado e tenta voltar à vida normal de condenado. No entanto, ele mata violentamente o delator de seu plano de fuga e volta ao banco dos réus, sob risco de ser condenado à morte - sendo que foi preso pela primeira vez por roubar 5 dólares de um posto de correio. Para defendê-lo, é designado o jovem e idealista James Stamphill (Christian Slater), que surpreende a audiência ao afirmar que o principal culpado do crime não é Young, e sim o sistema carcerário de Alcatraz.

Como convém a um filme com pretensões comerciais, "Assassinato em primeiro grau" toma algumas liberdades poéticas para contar sua história, a principal delas em relação a um de seus protagonistas, o apenado Henry Young. Retratado no roteiro de Dan Gordon como uma vítima absoluta do sistema e da sociedade (como normalmente acontece com filmes com intenções de provocar discussões), o verdadeiro Young não era tão desprovido de maldade e nem tão puro assim, tendo cometido roubo a banco, violência contra um refém e até mesmo um assassinato ANTES de ser encarcerado em Alcatraz. Não justifica nenhuma violência cometida contra ele, é claro, mas é um truque um tanto sujo dos produtores, que forçam assim uma empatia óbvia com ele. E talvez seja justamente nesse ponto que a receita desanda.

Dirigindo com mão pesada uma história por si só trágica e absurda, Marc Rocco - que não assinou mais nenhum filme desde então - peca principalmente por não permitir ao público as discussões que tenta suscitar. Não há espaço para argumentos, uma vez que, no maniqueísta roteiro, o bem e o mal estão claramente delineados. Henry Young é puro, virgem, injustiçado e torna-se um herói involuntário da mídia. James Stamphill é idealista, íntegro e corajoso, capaz de lutar contra todo o sistema apenas para ver a justiça prevalecer. E Milton Glenn, que dirige o presídio, é frio, cruel, arrogante e incapaz de um sentimento nobre. Essa pobreza de nuances é o calcanhar de Aquiles do projeto, que se salva da mediocridade graças a seu elenco.

Apesar de Christian Slater ser sempre o mesmo, ele divide a cena com dois atores que, de maneiras diferentes, atigem seus objetivos. Enquanto Kevin Bacon luta claramente para dar credibilidade a seu Henry Young, mesmo caindo na armadilha do exagero em alguns momentos (sua entrega ao papel é louvável), Gary Oldman não parece precisar de muito esforço para sobressair-se. Seu olhar impenetrável, seu tom monocórdio e sua expressão de rocha dizem muito mais do que a trilha sonora exagerada e os diálogos empolados e repleto de frases de efeito do roteiro. Nem mesmo a fotografia - aparentemente claustrofóbica mas na verdade apenas escura e sem criatividade - chama a atenção, sendo tão comum quanto o resultado final do filme.

A história de "Assassinato em primeiro grau" é interessante. O elenco convence. Mas o filme é desnecessariamente longo e aborrecido. Um diretor mais talentoso talvez o salvasse de ser tão comum e tão historicamente discutível!

Tuesday, January 4, 2011

O CLIENTE


O CLIENTE (The client, 1994, Warner Bros, 119min) Direção: Joel Schumacher. Roteiro: Akiva Goldsman, Robert Getchel, romance de John Grisham. Fotografia: Tony Pierce-Roberts. Montagem: Robert Brown. Música: Howard Shore. Figurino: Ingrid Ferrin. Direção de arte/cenários: Bruno Rubeo/Anne D. McCulley. Produção: Arnon Milchan, Steven Reuther. Elenco: Susan Sarandon, Tommy Lee Jones, Brad Renfro, Anthony LaPaglia, Mary-Louise Parker, Will Patton, William H. Macy, Anthony Edwards, Anthony Heald, Bradley Whitford. Estreia: 20/7/94. Bilheteria EUA: U$ 92.115.211

Indicado ao Oscar de Melhor Atriz (Susan Sarandon)



Do alto de seu prestígio como um dos mais bem-sucedidos escritores de ficção do início dos anos 90, John Grisham tinha o poder de dar a palavra final a respeito do elenco das adaptações cinematográficas de suas obras e, ao contrário do que se poderia supor, tinha certo talento para isso. Recusando-se terminantemente a aceitar qualquer criança-prodígio para protagonizar "O cliente" - por achar que minaria a credibilidade da trama - ele obrigou o diretor Joel Schumacher a realizar centenas de testes antes de escolher Brad Renfro, então com 10 anos de idade. A escolha não poderia ter sido melhor. Renfro demonstrou, logo em sua estreia, uma segurança ímpar, que o fez contracenar, sem medo, com nomes consagrados como Susan Sarandon e Tommy Lee Jones. Sua morte, aos 25 anos, em janeiro de 2008, não deixa de ter sido uma lamentável perda, ainda que ele estivesse longe de ter se tornado o astro que poderia ter sido.

Em "O cliente", Renfro vive Mark Sway, um menino que mora em um trailer ao lado da mãe constantemente desempregada e sem maiores talentos para a ternura (Mary-Louise Parker) e do irmão caçula. Uma tarde, ao sair para fumar escondido, ele testemunha o suicídio de um mau-encarado advogado que, antes de dar um tiro na boca, revela a ele a localização do corpo de um senador, assassinado por seu cliente, o mafioso Barry Muldano (Anthony LaPaglia). Pressionado pelo FBI - na figura do excêntrico Roy Foltrigg (Tommy Lee Jones) - que tem a alcunha de Reverendo por citar a Bíblia nos tribunais - o menino procura a ajuda da advogada Reggie Love (Susan Sarandon), a quem confunde, pelo nome, com um homem. A princípio hesitante em confiar em uma mulher, ele aos poucos passa a confiar na advogada - que teve problemas com a bebida e perdeu a guarda do filho por causa disso. Enquanto luta para defender o garoto dos interesses perigosos do FBI e da própria máfia, ela vê nele a possibilidade de dar o amor que é impedida de dar ao filho verdadeiro. Surge então, entre elas, uma delicada relação materna.

Vindo das melhores críticas de sua carreira graças ao filme "Um dia de fúria", aqui Joel Schumacher assume quase que um papel de testemunha silenciosa, deixando que a história fale por si mesma. Discreta e fluente, sua condução da trama permite que tudo se desenvolva de maneira tranquila, proporcionando a Sarandon e Renfro que brilhem em atuações extremamente eficientes. Sarandon, inclusive, concorreu ao Oscar por seu desempenho, uma prova do prestígio que desfrutava então junto à Academia - prestígio esse que converteu-se em uma merecida estatueta no ano seguinte, pelo contundente "Os últimos passos de um homem". O trabalho inteligente e repleto de nuances de Sarandon encontra, porém, na atuação de Tommy Lee Jones um empecilho: com maneirismos e exageros que se avolumariam com o tempo - em "Assassinos por natureza", por exemplo, seriam quase insuportáveis - Lee Jones foge do tom naturalista imposto pelo diretor entregando uma atuação bastante fraca. Felizmente o roteiro de Akiva Goldsman e Robert Getchel dá preferência à história de identificação entre Reggie Love e Mark Sway, deixando toda a batida trama de máfia vs FBI em um segundo plano que só assume a protagonização de verdade no terceiro e último ato.


O final de "O cliente", aliás, é o mais excitante dentre as adaptações da obra de Grisham até então - depois do correto "A firma" e do chatinho "O dossiê Pelicano". Mesmo que Joel Schumacher não seja um diretor dos mais inspirados em cenas de ação - que o digam suas versões vexatórias de Batman lançadas poucos anos depois - ele não chega a estragar o clímax do livro, entregando à plateia um desfecho coerente e redondo, ainda que um tanto previsível. A renda de mais de 90 milhões de dólares provou que as escolhas realmente foram acertadas.


"O cliente" pode não ser a melhor adaptação de um livro de John Grisham - título que "Tempo de matar", dirigido pelo mesmo Joel Schumacher adquiriu, um ano depois - mas é interessante, bem interpretado e com a dose certa de emoção e sensibilidade, além de ser extremamente fiel à sua origem literária. E Susan Sarandon sempre vale uma bela espiada.

Wednesday, November 10, 2010

NEBLINA E SOMBRAS

NEBLINA E SOMBRAS (Shadows and fog, 1991, Orion Pictures, 85min) Direção e roteiro: Woody Allen. Fotografia: Carlo Di Palma. Montagem: Susan E. Morse. Figurino: Jeffrey Kurland. Direção de arte/cenários: Santo Loquasto/George DeTitta Jr., Amy Marshall. Casting: Juliet Taylor. Produção executiva: Charles H. Joffe, Jack Rollins. Produção: Robert Greenhut. Elenco: Woody Allen, Mia Farrow, John Malkovich, Madonna, Donald Pleasance, Lily Tomlin, Jodie Foster, Kathy Bates, John Cusack, John C. Reilly, Philip Bosco, Kurtwood Smith, Kate Nelligan, Fred Gwyne, William H. Macy, Wallace Shawn. Estreia: 05/12/91

Os detratores adoram dizer que os filmes de Woody Allen são repetitivos, que seu estilo não é exatamente criativo e que seu humor judaico/neurótico/nova-iorquino/sofisticado não sai do chove-não molha. No entanto, se o diretor não estivesse no elenco de "Neblina e sombras" - seu filme de maior orçamento até hoje - era bem pouco provável que qualquer crítico do cineasta pudesse reconhecer no filme qualquer das características que marcaram sua carreira. Com exceção da inteligência - e da marca registrada de usar nomes famosos em papéis pequenos ou quase pontas - nada nessa bela homenagem ao expressionismo alemão do início do século XX aponta para o fato que seu diretor é Allen.

A primeira diferença entre "Neblina e sombras" e o resto da filmografia de Woody diz respeito à geografia. Enquanto a vasta maioria de seus filmes se passa em Nova York e arredores, aqui a história acontece em uma pequena cidade da Alemanha aterrorizada por um assassino serial que mata suas vítimas estranguladas. Para caçar o criminoso vários grupos se formam, com moradores buscando resolver a situação com as próprias mãos, uma vez que o governo parece não se importar com os trágicos acontecimentos. Kleinman (vivido pelo diretor) é um homem comum - preocupado em ser deixado em uma promoção no trabalho - que é escalado por uma dessas facções, que pedem sua ajuda, sem nunca lhe explicar sua missão. Enquanto vaga pela cidade, envolta em neblina e sombras como o título do filme sugere, ele dá de cara com Irmy (Mia Farrow), a engolidora de espadas de um circo que está se apresentando na cidade. Depois de flagrar o marido, o palhaço do circo (John Malkovich) nos braços de sua sedutora colega Marie (Madonna), Irmy encontra abrigo no bordel da cidade, onde desperta o desejo do jovem estudante Jack (John Cusack). Ao lado de Kleinman, ela tentará manter-se longe do assassino e reconstruir sua vida.



Fotografado em belíssimo preto-e-branco por Carlo Di Palma, "Neblina e sombras" também foge do estilo forjado pelo cineasta em décadas de experiência ao evitar piadas intelectualizadas demais - talvez Allen já soubesse que o projeto em si já era suficientemente arriscado comercialmente para que ele confiasse na fidelidade cega de seu público. Ao misturar um humor muito disfarçado e um suspense sem sustos, ele criou um gênero híbrido que, obviamente, não encontrou sua audiência e nem encantou a crítica. Motivos não faltam para essa frieza toda, mas não deixa de ser um exagero essa absoluta apatia em relação ao filme.

Sem dúvida nenhuma, "Neblina e sombras" não é nem de longe um Woody Allen das melhores safras: não é particularmente engraçado, nem denso ou mesmo leve. Mas é inteligente como qualquer trabalho seu - com ecos de "O processo", de Kafka e do filme "M, o vampiro de Dusseldorf", de Fritz Lang -, é extraordinariamente bem realizado - os sets foram construídos especificamente - e só o fato de reunir o elenco que reuniu é de aplaudir entusiasticamente: ao lado dos já citados, desfilam pela tela Jodie Foster, Kathy Bates, Kate Nelligan, Lily Tomlin e Donald Pleasance. Mas aparenta ser mais longo, talvez culpa da morosidade do roteiro e tem um clímax um tanto quanto fraco em relação ao que promete em seu promissor começo.

Para os fãs de Woody Allen, é obrigatório como todos os seus filmes. Para aqueles que acreditam que ele é sempre o mesmo, é necessário. Mas para quem simplesmente não gosta do diretor, não é a maneira correta de começar a gostar.