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Tuesday, October 25, 2011

KATE & LEOPOLD

KATE & LEOPOLD (Kate & Leopold, 2001, Miramax Films, 118min) Direção: James Mangold. Roteiro: James Mangold, Steven Rogers, história de Steven Rogers. Fotografia: Stuart Dryburgh. Montagem: David Brenner. Música: Rolfe Kent. Figurino: Donna Zakowska. Direção de arte/cenários: Mark Friedberg/Stephanie Carroll. Produção executiva: Kerry Orent, Meryl Poster, Bob Weinstein, Harvey Weinstein. Produção: Cathy Konrad. Elenco: Meg Ryan, Hugh Jackman, Liev Schreiber, Breckin Meyer, Natasha Lyonne, Bradley Whitford, Philip Bosco. Estreia: 25/12/01

Indicado ao Oscar de Melhor Canção ("Until")

Filme ideal para aquelas mulheres que reclamam da falta de romantismo e galanteria dos homens contemporâneos, a comédia romântica "Kate & Leopold", protagonizada pela estrela máxima do gênero, Meg Ryan, é uma aula de como conquistar um público ávido por histórias de amor com finais felizes. Em pouco menos de duas horas de duração, o filme de James Mangold usa e abusa de clichês, mas o faz com tanto carinho, bom humor e leveza que é difícil deixar de gostar.

O cientista Stuart (vivido com graça pelo prestigiado Liev Schreiber) descobre um rasgo no tempo que o permite visitar a Nova York de 1876. Na apressada volta para 2001 ele acaba, por acidente, ganhando a companhia de Leopold (Hugh Jackman, perfeito), um duque falido que está sendo pressionado por seu tio a fazer um bom casamento. Em choque com as diferenças culturais e sociais de duas épocas completamente distintas, o gentil e cavalheiro Leopold acaba conquistado pela ex-namorada de Stuart, a executiva Kate McKay (Meg Ryan), que, desiludida com a espécie masculina em geral, demora a perceber que também está apaixonada pelo galante duque, que, de quebra, ajuda o irmão da moça, o aspirante a ator Charlie (Breckin Meyer) a mudar suas atitudes para seduzir uma colega.



O roteiro do diretor Mangold - exercitando um estilo diferente do dramalhão que apresentou em "Garota, interrompida" - escrito em parceria com Steven Rogers não tenta explicar como funciona as viagens no tempo que são cruciais para o início da trama, deixando que a bela e delicada história de amor entre os protagonistas comande o espetáculo. Ao optar por centrar seus esforços na dupla de atores, o cineasta marca um gol de placa. Enquanto Ryan continua utilizando seu arsenal de caras e bocas que a fizeram a preferida entre o público cativo das comédias românticas, é o astro Hugh Jackman quem rouba todas as cenas. Distante anos-luz de seu personagem mais conhecido, o furioso Wolverine de "X-Men", o ator australiano demonstra um timing cômico perfeito, além de ter o tipo físico ideal para encarnar o sedutor Leopold. Juntos, ele e Meg formam um casal adorável, o que torna a experiência de assistir a "Kate & Leopold" deliciosa.

E dá pra não simpatizar com um filme que homenageia, ainda que de leve, o clássico "Bonequinha de luxo"?

PS - Reparem na ponta da atriz Viola Davis (indicada ao Oscar de coadjuvante por "Dúvida") como a policial que aborda Leopold em seu primeiro passeio pelas ruas da Nova York de 2001.

Tuesday, January 4, 2011

O CLIENTE


O CLIENTE (The client, 1994, Warner Bros, 119min) Direção: Joel Schumacher. Roteiro: Akiva Goldsman, Robert Getchel, romance de John Grisham. Fotografia: Tony Pierce-Roberts. Montagem: Robert Brown. Música: Howard Shore. Figurino: Ingrid Ferrin. Direção de arte/cenários: Bruno Rubeo/Anne D. McCulley. Produção: Arnon Milchan, Steven Reuther. Elenco: Susan Sarandon, Tommy Lee Jones, Brad Renfro, Anthony LaPaglia, Mary-Louise Parker, Will Patton, William H. Macy, Anthony Edwards, Anthony Heald, Bradley Whitford. Estreia: 20/7/94. Bilheteria EUA: U$ 92.115.211

Indicado ao Oscar de Melhor Atriz (Susan Sarandon)



Do alto de seu prestígio como um dos mais bem-sucedidos escritores de ficção do início dos anos 90, John Grisham tinha o poder de dar a palavra final a respeito do elenco das adaptações cinematográficas de suas obras e, ao contrário do que se poderia supor, tinha certo talento para isso. Recusando-se terminantemente a aceitar qualquer criança-prodígio para protagonizar "O cliente" - por achar que minaria a credibilidade da trama - ele obrigou o diretor Joel Schumacher a realizar centenas de testes antes de escolher Brad Renfro, então com 10 anos de idade. A escolha não poderia ter sido melhor. Renfro demonstrou, logo em sua estreia, uma segurança ímpar, que o fez contracenar, sem medo, com nomes consagrados como Susan Sarandon e Tommy Lee Jones. Sua morte, aos 25 anos, em janeiro de 2008, não deixa de ter sido uma lamentável perda, ainda que ele estivesse longe de ter se tornado o astro que poderia ter sido.

Em "O cliente", Renfro vive Mark Sway, um menino que mora em um trailer ao lado da mãe constantemente desempregada e sem maiores talentos para a ternura (Mary-Louise Parker) e do irmão caçula. Uma tarde, ao sair para fumar escondido, ele testemunha o suicídio de um mau-encarado advogado que, antes de dar um tiro na boca, revela a ele a localização do corpo de um senador, assassinado por seu cliente, o mafioso Barry Muldano (Anthony LaPaglia). Pressionado pelo FBI - na figura do excêntrico Roy Foltrigg (Tommy Lee Jones) - que tem a alcunha de Reverendo por citar a Bíblia nos tribunais - o menino procura a ajuda da advogada Reggie Love (Susan Sarandon), a quem confunde, pelo nome, com um homem. A princípio hesitante em confiar em uma mulher, ele aos poucos passa a confiar na advogada - que teve problemas com a bebida e perdeu a guarda do filho por causa disso. Enquanto luta para defender o garoto dos interesses perigosos do FBI e da própria máfia, ela vê nele a possibilidade de dar o amor que é impedida de dar ao filho verdadeiro. Surge então, entre elas, uma delicada relação materna.

Vindo das melhores críticas de sua carreira graças ao filme "Um dia de fúria", aqui Joel Schumacher assume quase que um papel de testemunha silenciosa, deixando que a história fale por si mesma. Discreta e fluente, sua condução da trama permite que tudo se desenvolva de maneira tranquila, proporcionando a Sarandon e Renfro que brilhem em atuações extremamente eficientes. Sarandon, inclusive, concorreu ao Oscar por seu desempenho, uma prova do prestígio que desfrutava então junto à Academia - prestígio esse que converteu-se em uma merecida estatueta no ano seguinte, pelo contundente "Os últimos passos de um homem". O trabalho inteligente e repleto de nuances de Sarandon encontra, porém, na atuação de Tommy Lee Jones um empecilho: com maneirismos e exageros que se avolumariam com o tempo - em "Assassinos por natureza", por exemplo, seriam quase insuportáveis - Lee Jones foge do tom naturalista imposto pelo diretor entregando uma atuação bastante fraca. Felizmente o roteiro de Akiva Goldsman e Robert Getchel dá preferência à história de identificação entre Reggie Love e Mark Sway, deixando toda a batida trama de máfia vs FBI em um segundo plano que só assume a protagonização de verdade no terceiro e último ato.


O final de "O cliente", aliás, é o mais excitante dentre as adaptações da obra de Grisham até então - depois do correto "A firma" e do chatinho "O dossiê Pelicano". Mesmo que Joel Schumacher não seja um diretor dos mais inspirados em cenas de ação - que o digam suas versões vexatórias de Batman lançadas poucos anos depois - ele não chega a estragar o clímax do livro, entregando à plateia um desfecho coerente e redondo, ainda que um tanto previsível. A renda de mais de 90 milhões de dólares provou que as escolhas realmente foram acertadas.


"O cliente" pode não ser a melhor adaptação de um livro de John Grisham - título que "Tempo de matar", dirigido pelo mesmo Joel Schumacher adquiriu, um ano depois - mas é interessante, bem interpretado e com a dose certa de emoção e sensibilidade, além de ser extremamente fiel à sua origem literária. E Susan Sarandon sempre vale uma bela espiada.

Friday, December 17, 2010

FILADÉLFIA

FILADÉLFIA (Philadelphia, 1993, TriStar Pictures, 125min) Direção: Jonathan Demme. Roteiro: Ron Nyswaner. Fotografia: Tak Fujimoto. Montagem: Carig McKay. Música: Howard Shore. Figurino: Colleen Atwood. Direção de arte/cenários: Kristi Zea/Karen O'Hara. Produção executiva: Ron Bozman, Gary Goetzman, Kenneth Utt. Produção: Jonathan Demme, Edward Saxon. Elenco: Tom Hanks, Denzel Washington, Jason Robards, Mary Steenburgen, Antonio Banderas, Bradley Whitford, Joanne Woodward. Orçamento: U$ 26 milhões. Bilheteria doméstica: U$ 77.446.440. Estreia: 23/12/93


5 indicações ao Oscar: Ator (Tom Hanks), Roteiro Original, Canção Original ("Streets of Philadelphia", "Philadelphia"), Maquiagem
Vencedor de 2 Oscar: Ator (Tom Hanks), Canção Original ("Streets of Philadelphia")
Vencedor do Urso de Ouro de Melhor Ator (Tom Hanks) no Festival de Berlim
Vencedor de 2 Golden Globes: Ator/Drama (Tom Hanks), Canção Original ("Streets of Philadelphia")

Em 1993, Tom Hanks ainda não era levado muito a sério como ator dramático. Ser o primeiro nome nos créditos de filmes como "Quero ser grande" e "A última festa de solteiro" não lhe ajudavam muito nesse sentido - ainda que tenha sido indicado ao Oscar pelo primeiro. Suas tentativas de provar que seu talento iam além de provocar risadas não tinham obtido muito sucesso, como bem prova a equivocada versão cinematográfica de "A fogueira das vaidades", dirigido por Brian De Palma. Por essa razão não deixou de ser uma enorme surpresa para o público que ele tenha sido o ator mais premiado do ano por seu papel em "Filadélfia". Na pele de um advogado soropositivo que vai aos tribunais contra seus ex-empregadores, o simpático protagonista de "Sintonia de amor" e "Splash, uma sereia em minha vida" deu a virada definitiva em sua carreira, entrando pela porta da frente no rol dos atores respeitados pela crítica e por seus pares.

Levemente inspirado em uma história real, "Filadélfia" é dirigido por Jonathan Demme, cineasta que havia arrumado sérios problemas com a comunidade gay com seu filme anterior, o multi-premiado "O silêncio dos inocentes" - vale lembrar que o serial killer do filme tinha a frustração de não ter conseguido uma operação de mudança de sexo... Inconscientemente ou não, aqui ele tenta remediar a situação, elegendo como protagonista um homossexual bem-sucedido, inteligente e de boa formação familiar. Mesmo que tenha soado um tanto assépticas, as escolhas de Demme ao retratar o modo de vida gay serviu, ao menos, para aproximar das salas de cinema uma parcela do público que provavelmente jamais se interessaria por um assunto não exatamente festivo. Espertamente, o roteiro de Ron Nyswaner - indicado ao Oscar - une dois sub-gêneros de filmes bastante populares entre as audiências; um drama de tribunal junto com um filme sobre doenças terminais. Golpe de mestre para cativar o público e abocanhar prêmios. Sorte de todo mundo que Demme é um diretor talentoso, que foge do melodrama barato.

Andrew Beckett (Tom Hanks se saindo muito bem em um papel difícil e que poderia facilmente escorregar para o kitsch) é um advogado competente que, logo depois de tornar-se sócio da firma de direito em que trabalha, é demitido por alegada negligência em um caso importante. Julgando-se vítima de preconceito - por ser homossexual e portador de AIDS - ele procura um colega de profissão, Joe Miller (Denzel Washington) e lhe pede que o represente no tribunal contra seus antigos patrões. A princípio recusando a causa - por ser assumidamente ignorante em relação aos gays, quase um homofóbico - Miller acaba aceitando processar a tradicional firma.

"Filadélfia", a bem da verdade, não dispensa o uso de vários clichês que assolam os filmes de seus estilos - tanto um quanto o outro. No tribunal, o desenrolar do julgamento é tão interessante quanto as cenas que revelam o lado mais humano dos protagonistas - é quase impossível segurar as lágrimas durante a belíssima sequência ao som de "La Mamma Morta", ária interpretadapor Maria Callas. Não apenas a entrega de Hanks à cena é admirável mas também seu desfecho, onde pela primeira vez Joe Miller demonstra a fragilidade que sempre escondera. Aliás, é seguro dizer que "Filadélfia" apresenta o melhor trabalho da carreira de Washington, antes que ele se tornasse uma cópia de si mesmo. A cena em que ele tem seu primeiro contato com um Beckett doente é um primor de sutileza - bem como a demissão de Andrew, em que ele fica à distância de seus empregadores temerosos de um contágio. A agressividade silenciosa dessa cena dá o tom exato da elegância imposta por Demme a seu trabalho.

Motivos para críticas à visão dos produtores não faltam, em "Filadélfia": o parceiro de Andrew, Miguel (Antonio Banderas) poderia ser taxado de mais uma estereotipagem dos latinos nos EUA; a aceitação incondicional de sua família à sua opção sexual e a resiliência da mesma durante o julgamento soa um tanto cor-de-rosa; e a relação entre os dois amantes é praticamente desprovida de calor. Mas é preciso que se leve em consideração que "Filadélfia" é antes de tudo o produto de um grande estúdio (a TriStar) e, mais do que veracidade absoluta, buscava lucro e precisava atingir um grande público. E fazer com que milhares de pessoas voltasse sua atenção para um dos maiores problemas de saúde da história - ainda que uma década atrasada - já faz com que ele mereça ser admirado.

Monday, November 29, 2010

PERFUME DE MULHER


PERFUME DE MULHER (Scent of a woman, 1992, Universal Pictures, 157min) Direção: Martin Brest. Roteiro: Bo Goldman, romance de Giovanni Arpino. Fotografia: Donald E. Thorin. Montagem: Harvey Rosenstock, William Steinkamp, Michael Tronick. Música: Thomas Newman. Figurino: Aude Bronson-Howard. Direção de arte/cenários: Angelo Graham/George DeTitta Jr. Casting: Ellen Lewis. Produção executiva: Ronald L. Schwary. Produção: Martin Brest. Elenco: Al Pacino, Chris O'Donnell, Gabrielle Anwar, Philip Seymour Hoffman, Todd Louiso, Bradley Whitford, James Rebhorn, Frances Conroy, Ron Eldard. Estreia: 23/12/92

4 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Martin Brest), Ator (Al Pacino), Roteiro Adaptado
Vencedor do Oscar de Melhor Ator (Al Pacino)
Vencedor de 3 Golden Globes: Melhor Filme/Drama, Ator/Drama (Al Pacino), Roteiro

Em tese, este "Perfume de mulher" é a refilmagem de um já clássico italiano de 1974 dirigido por Dino Risi e estrelado por Vittorio Gassman. Em tese. Na realidade, apenas a ideia central do filme de Risi é aproveitada nessa releitura do americano Martin Brest, que deu o tão esperado e aclamado Oscar de melhor ator a Al Pacino. E é Pacino, do alto de seu talento indiscutível, que faz com que um drama acadêmico e quase previsível caia no gosto da audiência, em mais uma atuação antológica em sua brilhante carreira.

O jovem Chris O'Donnell - que ficou com um papel para o qual até mesmo Chris Rock foi testado - vive Charlie Simms, um jovem e dedicado estudante de uma escola preparatória das mais tradicionais dos EUA. Sem recursos financeiros, ele vê sua bolsa de estudos correr risco de ser cancelada quando testemunha, ao lado de um colega milionário (interpretado por um jovem Philip Seymour Hoffman) um grupo de alunos aprontando um trote contra o diretor da instituição. Pressionado a contar em juízo o que testemunhou - sob pena de ser expulso da escola - Charlie vai passar o feriado de Ação de Graças fazendo um trabalho extra (para juntar dinheiro e passar o Natal com a família). O trabalho, que aparentemente seria fácil, torna-se complicado, porém: contratado para tomar conta de Frank Slade (Al Pacino), coronel do exército aposentado por cegueira, Charlie se vê acompanhando o veterano a uma viagem inesperada a Nova York. Lá, hospedado em um hotel cinco estrelas, Charlie frequenta restaurantes chiques, dirige uma Ferrari, visita a família do irmão do militar e, deslumbrado, o vê dançar tango com uma bela mulher. Fascinado com a maneira de Slade de levar a vida, Charlie fica chocado quando descobre que ele pretende cometer suícídio no final do feriado.

"Perfume de mulher" é inegavelmente um bom filme. Qualquer fã de cinema é obrigado a tirar o chapéu para a performance única de Pacino, entregue de corpo e alma à sua personagem irascível mas ao mesmo tempo apaixonante. O problema maior é que, ao seguir passo a passo a cartilha de como escrever um roteiro, Bo Goldman (também autor do sublime "Um estranho no ninho") não surpreende o espectador em momento algum. Desde o início é bastante óbvio, por exemplo, que a relação entre Slade e o jovem Charlie passará do profissional para o quase paternal e que o clímax, em uma reunião na instituição educacional onde começa o filme, será a grande cena do protagonista, aquela que justifica a premiação da Academia. As engrenagens do roteiro são quase visíveis demais para serem ignoradas e isso, dependendo de cada espectador, é claro, incomoda em grau maior ou menor.


Se essa questão um tanto técnica for deixada de lado, no entanto, "Perfume de mulher" é um espetáculo. Dirigido com sobriedade e interpretado com paixão - até mesmo o normalmente apático Chris O'Donnell entrega uma atuação passional - a versão de Brest do romance de Giovanni Arpino é o típico filme que os membros da Academia adoram: um protagonista com uma deficiência, lições de moral, dramas não muito pesados e um final "feliz". Se não fosse o ano de "Os imperdoáveis", era bem possível que tivesse levado o Oscar principal para casa, tamanha a sua adequação às normas hollywoodianas. Apesar de ter um linguajar barato e ter entre seus últimos desejos uma noite de sexo com uma prostituta, o contato mais erótico de Slade em relação a uma mulher é o belíssimo tango que dança com uma desconhecida - Gabrielle Anwar, que não fez a carreira que prometia aqui. Aliás, a cena do tango - que levou 3 dias para ser filmada - é, sem dúvida, a mais marcante do filme, digna de figurar em qualquer antologia dos momentos mágicos do cinema.

Apesar dos pequenos defeitos - que incomodam somente aos mais críticos, diga-se de passagem, uma vez que o público médio não se importa nem um pouco com detalhes técnicos - "Perfume de mulher" é um drama dos melhores, para se assistir ao lado da família. E é um dos trabalhos mais fascinantes de um dos melhores atores que o cinema americano produziu em sua história.

Saturday, October 23, 2010

TEMPO DE DESPERTAR

TEMPO DE DESPERTAR (Awakenings, 1990, Columbia Pictures, 121min) Direção: Penny Marshall. Roteiro: Steven Zaillian, livro de Oliver Sacks. Fotografia: Miroslav Ondricek. Montagem: Battle Davis, Jerry Greenberg. Música: Randy Newman. Figurino: Cynthia Flynt. Direção de arte/cenários: Anton Furst/George De Titta Jr. Casting: Bonnie Timmermann. Produção executiva: Eliott Abbott, Penny Marshall, Arne Schmidt. Produção: Lawrence Lasker, Walter F. Parkes. Elenco: Robert DeNiro, Robin Williams, Penelope Ann Miller, Julie Kavner, John Heard, Bradley Whitford, Max Von Sydow, Peter Stormare. Estreia: 20/12/90

3 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Ator (Robert DeNiro), Roteiro Adaptado

Emocionar sem apelar para o piegas - ou ao menos não exagerar demais no sentimentalismo - não é tarefa das mais fáceis. Conquistar a plateia pela emoção sem obrigá-la a catarses sufocantes não é pra qualquer um. Por isso talvez " Tempo de despertar" tenha arrebatado 3 importantes indicações ao Oscar que premiou os melhores de 1990 - melhor filme, ator e roteiro adaptado. Inspirado no livro do médico Oliver Sacks, o filme de Penny Marshall é conciso e sóbrio ao narrar uma história extraordinária - que, por incrível que pareça, aconteceu de verdade.

Em 1969, o doutor Malcolm Sayer (um Robin Williams discreto e na melhor fase de sua carreira) consegue um emprego em uma clínica neurológica do Bronx, a despeito de sua parca experiência com doentes. Logo em seus primeiros dias, ele toma contato com um mundo à parte, formado por pacientes crônicos e sem esperança de cura ou melhora, contando com o apoio da enfermeira Eleanor (Julie Kavner). Atento aos seres humanos com que lida, ele descobre que boa parte deles entrou em seu estado de isolamento em relação ao mundo que os cerca depois de uma epidemia de febre acontecida em NY nos anos 20. Depois de algumas pesquisas, Sayer resolve tentar uma nova forma de tratamento: com a autorização da mãe de um dos pacientes, Leonard Lowe (Robert DeNiro), ele utiliza nos doentes o mesmo remédio que ajuda aqueles acometidos com mal de Alzheimer. As pesquisas dão certo e Lowe, que ficou mais de 30 anos em estato catatônico, volta à vida. Aos poucos, seus colegas de hospital também começam a reagir à medicação.
"Tempo de despertar" pode ser dividido em duas partes distintas. No início, Robin Williams demonstra que a sutileza demonstrada em "Sociedade dos poetas mortos" não era mero acaso. Na pele de Malcolm Sayer - uma espécie de alter-ego de Oliver Sacks - ele é forte e decidido, mas sensível às necessidades das pessoas com as quais lida diariamente. Até mesmo seu romance hesitante com a enfermeira foge do óbvio graças a ele e à sempre competente Julie Kavner. Mas se Williams é dono da primeira metade do filme, sua segunda e última parte deve tudo ao mestre Robert De Niro.

Indicado ao Oscar por sua atuação, o veterano De Niro mostra porque é considerado um dos melhores atores de sua geração. Detalhista e perfeccionista, ele constrói com delicadeza e minúcia um Leonard Lowe que vai do silêncio catatônico à rebeldia contra o hospital; dos primeiros gestos titubeantes de sua volta à vida aos tiques angustiantes de seu retorno à doença. Quando o tratamento proposto por Sayer se prova paliativo e Lowe regride ao que era anteriormente, De Niro impressiona a audiência com uma interpretação arrebatadora. Apaixonado pela jovem Paula (Penelope Ann Miller) - filha de um paciente - ele sente a volta de seus sintomas com o terror e o desespero de quem prevê a própria morte, e leva o público junto em sua tristeza. Pode fazer chorar, mas não o faz de maneira apelativa e/ou fácil.

Juntos, Robert De Niro e Robin Williams fazem de "Tempo de despertar" um belo drama, sensível e delicado, que se distancia muito dos tradicionais "Doença da semana". Provavelmente com outros atores nos papéis centrais, seria de difícil digestão. Com eles, é um belo exemplo de como bons atores conseguem fazer de um filme uma experiência gratificante.

Monday, October 11, 2010

ACIMA DE QUALQUER SUSPEITA


ACIMA DE QUALQUER SUSPEITA (Presumed innocent, 1990, Warner Bros, 127min) Direção: Alan J. Pakula. Roteiro: Frank Pierson, Alan J. Pakula, romance de Scott Turow. Fotografia: Gordon Willis. Montagem: Evan Lottman. Música: John Williams. Figurino: John Boxer. Direção de arte/cenários: George Jenkins/Carol Joffe. Casting: Alixe Gordin. Produção executiva: Susan Solt. Produção: Sydney Pollack, Mark Rosenberg. Elenco: Harrison Ford, Brian Dennehy, Raul Julia, Bonnie Bedelia, Greta Scacchi, Paul Winfield, Bradley Whitford, Jesse Bradford, Joseph Mazzello, Jeffrey Wright. Estreia: 27/7/90

Publicado em 1988, o livro "Acima de qualquer suspeita", escrito pelo advogado Scott Turow, transformou-se imediatamente em um fenômeno de vendas. Sua prosa inteligente, que desvendava os meandros da justiça americana, aliada a uma intrigante história policial, encantou milhares de leitores e não demorou para que vários estúdios de Hollywood disputassem seus direitos a peso de ouro. A Warner Bros foi quem se deu melhor na guerra e, com o veterano Alan J. Pakula - de "Todos os homens do presidente" - no comando e Harrison Ford no papel principal, não tinha como dar errado. Mas, ao assistir-se à adaptação cinematográfica do best-seller de Turow, fica-se com a clara impressão de que certo também não deu.

"Acima de qualquer suspeita" tem todos os ingredientes de que um bom filme policial precisa para conquistar a audiência: uma trama coerente e recheada de pistas falsas, suspeitos interessantes e um final surpreendente, além de um algo a mais que sempre faz a diferença em termos comerciais: um grande astro. No entanto, a interpretação apática de Harrison Ford como o protagonista Rusty Sabitch, em vez de ajudar, apenas atrapalha o que já não é tão bom como poderia. Somado à direção anêmica de Pakula, o trabalho de Ford deixa bastante claras suas deficiências como ator em um papel que poderia render muito mais nas mãos de um Michael Douglas, por exemplo.
Rusty Sabitch (vivido no piloto-automático por Ford) é um bem-sucedido promotor público de Nova York que tem sua vida transformada quando é escalado por seu mentor (Brian Dennehy) para investigar o violento assassinato de Carolyn Polhemus (Greta Scaachi), sua colega de promotoria. Bela, ambiciosa e pouco afeita a coisas como ética e sentimentalismos, Carolyn foi estuprada e morta a golpes na cabeça e Rusty, em sua investigação, começa a descobrir as sujeiras por trás dos cargos públicos de sua profissão - além de particularidades pouco lisonjeiras sobre a vítima, com quem teve um tórrido e obsessivo caso extra-conjugal. As investigações sofrem uma reviravolta, no entanto, quando todas as pistas levam a um principal suspeito do crime: o próprio Rusty. Sem o apoio de seus superiores, ele conta apenas com a ajuda do talentoso advogado Sandy Stern (Raul Julia) e da esposa, Barbara (Bonnie Bedelia).

É difícil acreditar que um cineasta competente como Alan J. Pakula pôde ter errado a mão de maneira tão errônea quanto aqui. "Acima de qualquer suspeita" é um filme policial preguiçoso, que não dá à sua audiência o gostinho de brincar de detetive nem ao menos conta com consistência a história de seu protagonista, envolvido em uma trama rocambolesca e um caso de amor frustrado. Nem mesmo a chocante (para quem não leu o livro) revelação final consegue empolgar o público, em parte graças à absoluta falta de vontade do elenco. Com a gloriosa exceção de Raul Julia - que faz o que pode com o pouco que lhe dá o roteiro mal adaptado - ninguém no filme está além de corriqueiro ou banal - quando não está simplesmente péssimo, como é o caso de Greta Scaachi, que, de posse de um papel crucial, não faz mais do que piscar os olhos para mostrar que está interessada romanticamente em alguém ou fechar a cara para dizer o contrário.

É uma pena que "Acima de qualquer suspeita" - um belo livro policial, bem escrito e com coerência rara - não tenha tido uma adaptação mais bem-sucedida. Frustrante para os fãs do livro e para os entusiastas do gênero, é um pálido exemplar, se comparado à sua origem literária e ao currículo de seu diretor.