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Tuesday, October 25, 2011

KATE & LEOPOLD

KATE & LEOPOLD (Kate & Leopold, 2001, Miramax Films, 118min) Direção: James Mangold. Roteiro: James Mangold, Steven Rogers, história de Steven Rogers. Fotografia: Stuart Dryburgh. Montagem: David Brenner. Música: Rolfe Kent. Figurino: Donna Zakowska. Direção de arte/cenários: Mark Friedberg/Stephanie Carroll. Produção executiva: Kerry Orent, Meryl Poster, Bob Weinstein, Harvey Weinstein. Produção: Cathy Konrad. Elenco: Meg Ryan, Hugh Jackman, Liev Schreiber, Breckin Meyer, Natasha Lyonne, Bradley Whitford, Philip Bosco. Estreia: 25/12/01

Indicado ao Oscar de Melhor Canção ("Until")

Filme ideal para aquelas mulheres que reclamam da falta de romantismo e galanteria dos homens contemporâneos, a comédia romântica "Kate & Leopold", protagonizada pela estrela máxima do gênero, Meg Ryan, é uma aula de como conquistar um público ávido por histórias de amor com finais felizes. Em pouco menos de duas horas de duração, o filme de James Mangold usa e abusa de clichês, mas o faz com tanto carinho, bom humor e leveza que é difícil deixar de gostar.

O cientista Stuart (vivido com graça pelo prestigiado Liev Schreiber) descobre um rasgo no tempo que o permite visitar a Nova York de 1876. Na apressada volta para 2001 ele acaba, por acidente, ganhando a companhia de Leopold (Hugh Jackman, perfeito), um duque falido que está sendo pressionado por seu tio a fazer um bom casamento. Em choque com as diferenças culturais e sociais de duas épocas completamente distintas, o gentil e cavalheiro Leopold acaba conquistado pela ex-namorada de Stuart, a executiva Kate McKay (Meg Ryan), que, desiludida com a espécie masculina em geral, demora a perceber que também está apaixonada pelo galante duque, que, de quebra, ajuda o irmão da moça, o aspirante a ator Charlie (Breckin Meyer) a mudar suas atitudes para seduzir uma colega.



O roteiro do diretor Mangold - exercitando um estilo diferente do dramalhão que apresentou em "Garota, interrompida" - escrito em parceria com Steven Rogers não tenta explicar como funciona as viagens no tempo que são cruciais para o início da trama, deixando que a bela e delicada história de amor entre os protagonistas comande o espetáculo. Ao optar por centrar seus esforços na dupla de atores, o cineasta marca um gol de placa. Enquanto Ryan continua utilizando seu arsenal de caras e bocas que a fizeram a preferida entre o público cativo das comédias românticas, é o astro Hugh Jackman quem rouba todas as cenas. Distante anos-luz de seu personagem mais conhecido, o furioso Wolverine de "X-Men", o ator australiano demonstra um timing cômico perfeito, além de ter o tipo físico ideal para encarnar o sedutor Leopold. Juntos, ele e Meg formam um casal adorável, o que torna a experiência de assistir a "Kate & Leopold" deliciosa.

E dá pra não simpatizar com um filme que homenageia, ainda que de leve, o clássico "Bonequinha de luxo"?

PS - Reparem na ponta da atriz Viola Davis (indicada ao Oscar de coadjuvante por "Dúvida") como a policial que aborda Leopold em seu primeiro passeio pelas ruas da Nova York de 2001.

Wednesday, August 3, 2011

PÂNICO 3

PÂNICO 3 (Scream 3, 2000, Dimension Films, 116min) Direção: Wes Craven. Roteiro: Ehren Kruger, personagens criados por Kevin Williamson. Fotografia: Peter Deming. Montagem: Patrick Lussier. Música: Marco Beltrami. Figurino: Abigail Murray. Direção de arte/cenários: Bruce Alan Miller/Gene Serdena. Produção executiva: Cary Granat, Andrew Rona, Bob Weinstein, Harvey Weinstein. Produção: Cathy Konrad, Marianne Maddalena, Kevin Williamson. Elenco: Neve Campbell, Courtney Cox-Arquette, David Arquette, Lieve Schreiber, Patrick Dempsey, Parker Posey, Emily Mortimer, Lance Henriksen, Heather Matarazzo, Jamie Kennedy. Estreia: 03/02/00

Não deixa de ser irônico que um filme como o primeiro “Pânico”, que em 1997 causou a ressurreição do gênero “terror adolescente” ao usar inteligentemente todos os clichês possíveis e imagináveis tenha se transformando em um objeto do próprio deboche. Ao brincar com a temática de filmes como “Sexta-feira 13” e “A hora do pesadelo” – este último criado pelo mesmo Wes Craven que dirigiu “Pânico” – a obra escrita por Kevin Williamson e comandada por Craven rendeu muito mais do que o esperado e tornou-se uma griffe. Mas o que fazia do primeiro filme uma deliciosa sessão de terror acabou se perdendo no meio do caminho entre o original e este seu terceiro capítulo.

Dessa vez o assassino (ou assassinos) que perseguia a jovem Sidney Prescott (a cada vez pior Neve Campbell) começa a massacrar os atores que filmam “A punhalada 3” – sacaram a ironia óbvia? – que é a segunda continuação de um filme de terror que conta a história mostrada no filme original. As pistas seguidas pelo detetive Mark Kincaid (Patrick Dempsey antes de voltar aos holofotes com a série “Gray’s anatomy”) parecem levar à juventude de Maureen, a mãe de Sidney, que, ao que parece, estava envolvida no mundo do cinema. O principal suspeito dos crimes passa a ser um misterioso produtor (vivido por um constrangido Lance Henriksen). E logicamente, Sidney sai de seu anonimato para ajudar a polícia a capturar o criminosoe reencontra seus amigos, a repórter Gale Weathers (Courtney Cox ainda Arquette) e o policial aposentado Dewey (David Arquette).



O que funcionou às mil maravilhas no primeiro capítulo da série continua: as mortes ainda são violentas e a tensão se mantém ocasionalmente. O que deu certo com reservas na segunda parte ainda existe: as citações à cultura pop e as brincadeiras com celebridades  pipocam a cada momento – dessa vez com Carrie Fisher e a dupla Jay & Silent Bob, dos filmes de Kevin Smith.  O elenco coadjuvante também tenta salvar a pátria, em especial a sempre divertida Parker Posey, musa do cinema independente americano dos anos 90 que interpreta uma atriz chegada a laboratórios... Mas fica evidente a falta que faz a presença de Kevin Williamson por trás das páginas do roteiro. A metalinguagem, que é interessante em certos momento e simplesmente banal em outros, é exagerada a ponto de diluir o impacto da revelação do nome do criminoso, um final bastante anti-climático que encerra de maneira apenas regular o que poderia ser uma das trilogias mais bacanas do cinema recente - e que ganhou uma nova vida em 2011.

Friday, April 22, 2011

PÂNICO 2

PÂNICO 2 (Scream 2, 1997, Dimension Films, 120min) Direção: Wes Craven. Roteiro: Kevin Williamson. Fotografia: Peter Deming. Montagem: Patrick Lussier. Música: Marco Beltrami. Figurino: Kathleen Detoro. Direção de arte/cenários: Bob Ziembicki/Bob Kensiger. Produção executiva: Harvey Weinstein, Kevin Williamson, Bob Weinstein. Produção: Cathy Konrad, Marianne Maddalena. Elenco: Neve Campbell, Courteney Cox, David Arquette, Jerry O'Connell, Jada Pinket-Smith, Omar Epps, Liev Schreiber, Heather Graham, Timothy Olyphant, Sarah Michelle Gellar, Joshua Jackson, Jamie Kennedy, Tori Spelling, Portia de Rossi, Rebecca Gayhart. Estreia: 12/12/97

Em 1996, cansado de ver sua mais famosa criação - o cruel assassino Freddy Krueger - humilhado em inúmeras sequências cada vez mais absurdas de seu "A hora do pesadelo", o cineasta Wes Craven resolveu virar o jogo. De posse de um roteiro repleto de sustos e violência misturados com referências pop e brincadeiras a respeito do próprio gênero terror, "Pânico" virou sucesso imediato, especialmente entre a plateia jovem, sedenta por sair da mesmice do estilo. Entusiasmados com a bilheteria de mais de 160 milhões de dólares, Craven e o roteirista Kevin Williamson - criador da série de TV "Dawson's Creek" - fizeram o que qualquer um com um mínimo tino comercial faria: uma sequência. Sendo assim, menos de dois anos depois da estreia do primeiro capítulo, "Pânico 2" chegava às telas com o objetivo de amealhar ainda mais fãs graças a seu misterioso assassino mascarado.

Com um atraso de dois anos em relação a seu lançamento americano, "Pânico 2" chegou ao Brasil em ... Lembrando que, à época, não havia a possibilidade de baixar filmes, a expectativa dos fãs era enorme. E eles não se decepcionaram. Cientes da faixa etária e dos anseios de seu público-alvo, Craven e Williamson rechearam "Pânico 2" de ainda mais mortes, inúmeras piadas a respeito do gênero e, melhor ainda, mais suspense. Levando-se em consideração de que o "fator-surpresa" não estava mais presente (acontecimento comum em continuações), o roteirista e o diretor apostaram naquilo que se transformaria na marca registrada da série: apesar de não poupar a audiência de sangue e violência, nenhum dos filmes se leva tão a sério como poderia. E é justamente aí, nessas suas auto-crítica e auto-gozação que o filme ganha o espectador (ao menos aquele que se dispõe a dispender duas horas de seu tempo assistindo a uma bobagem descompromissada).



E bobagem descompromissada é exatamente o que "Pânico 2" é (e o primeiro e os seguintes, também o são). Quem procura elocubrações psicológicas, coerências psiquiátricas e personagens bem construídos que passe bem longe da série. "Pânico 2" é o típico filme que merece ser visto com muita pipoca e refrigerante, de preferência junto a uma plateia disposta a levar alguns sustos por 120 minutos. Deixando a credibilidade e o senso crítico em um canto quieto do cérebro é possível divertir-se bastante.

Depois dos trágicos acontecimentos do primeiro filme, a jovem Sidney Prescott (a inexpressiva Neve Campbell) está longe de sua cidade natal, Woodsboro, dedicando-se a um curso de teatro e tentando levar sua vida. No entanto, seu desejo de esquecer a violência de seu passado mostra-se em vão quando um misterioso assassino mascarado começa a imitar os crimes anteriores. Contando com a ajuda de seus amigos - o detetive Dwight (David Arquette), a jornalista Gale Wheaters (Courteney Cox) e o estudante (Jamie Kennedy) - Sidney tenta desmascarar o criminoso, que ataca cruelmente suas vítimas, todas elas bastante próximas à estudante. Quem parece estar por trás dos homicídios é (Liev Schreiber), acusado erroneamente por Sidney, no passado, de ter morto sua mãe.

"Pânico 2" já começa muito bem, ecoando o primeiro filme, em uma sequência inicial que dá o tom exato do que vem pela frente: um casal de jovens negros (vividos por Jada Pinkett e Omar Epps) são assassinados durante a pré-estreia do filme inspirado nos acontecimentos do primeiro capítulo (o uso da meta-linguagem é uma constante da série). A partir daí, o roteiro se encarrega de matar uma meia dúzia de adolescentes, sempre com muita violência e sangue, para deleite do público. Enquanto espalha pistas falsas sobre a identidade do assassino, Craven aproveita para falar mal de continuações, estabelecer clichês do gênero e até mesmo brincar com acontecimentos reais acontecidos com o elenco (como a situação de Courteney Cox ter tido fotos de seu rosto montadas sobre um falso corpo nu). Equilibrando essas piadas quase internas com cenas de muito suspense, o filme segue fluentemente até seu final que, sim, é decepcionante.

Filmado em absoluto segredo (os próprios atores só souberam o nome do assassino pouco antes das filmagens da cena), o final de "Pânico 2" não deixa de ser anti-climático, ainda que coerente com sua estética do exagero. Mesmo assim, é pouco provável que vá decepcionar àqueles que procuram assustar-se no escurinho do cinema (ou da sala de estar). Para os fãs do gênero, é um filme indispensável, como toda a série.

Monday, March 14, 2011

O PREÇO DE UM RESGATE

O PREÇO DE UM RESGATE (Ransom, 1996, Touchstone Pictures, 121min) Direção: Ron Howard. Roteiro: Richard Price, Alexander Ignon, história de Cyril Hume, Richard Maibaum. Fotografia: Piotr Sobocinski. Montagem: Dan Hanley, Mike Hill. Música: James Horner. Figurino: Rita Ryack. Direção de arte/cenários: Michael Corenblith/Susan Bode. Produção executiva: Todd Hallowell. Produção: Brian Grazer, B. Kiplin Hagopian, Scott Rudin. Elenco: Mel Gibson, Rene Russo, Gary Sinise, Delroy Lindo, Lily Taylor, Liev Schreiber, Evan Handler, Donnie Wahlberg, Brawley Nolte, Dan Hedaya. Estreia: 08/11/96

Durante as filmagens de "O preço de um resgate", policial inspirado em um telefilme apresentado ao vivo nos primórdios da TV americana, seu diretor Ron Howard se viu em uma situação no mínimo rara: seu trabalho anterior, "Apollo 13" disputava o Oscar de melhor produção do ano com "Coração valente", cujo responsável pela direção era ninguém menos que Mel Gibson, o protagonista de seu filme. Essa pequena curiosidade, porém, não atrapalhou em nada o resultado final, nem em termos de qualidade nem tampouco de bilheteria: com uma renda de mais de 130 milhões de dólares, "O preço de um resgate" foi mais um dos sucessos comerciais de Gibson - que, aliás, levou vantagem na festa do Oscar, ficando com as estatuetas de filme e direção (prêmio este que Howard nem sequer disputou).

Quando "O preço de um resgate" estreou, Gibson estava no auge de sua popularidade e do respeito por parte da crítica, por isso não é surpresa que o filme tenha feito tanto sucesso. A boa notícia é que, apesar de alguns erros na carreira do ator, este aqui é um de seus pontos altos, um trabalho maduro em que ele não apenas é um astro carismático e sedutor, mas também um ator experiente e capaz de emocionar sua plateia com uma personagem dúbio e rico de nuances. Mesmo que não seja exatamente brilhante, o roteiro de Alexander Ignon e do escritor Richard Price é dotado de reviravoltas empolgantes o bastante para manter a atenção do público até suas cenas finais, onde infelizmente apela para os tiroteios corriqueiros dos filmes do gênero. Até que isso aconteça, no entanto, o espectador é brindado com uma trama interessante e dramática na medida certa.


Gibson interpreta Tom Mullen, um bem-sucedido empresário do ramo da aviação que tem seu único filho, o pequeno Sean (Brawley Nolte, filho do ator Nick Nolte) sequestrado praticamente diante de seu nariz, em uma feira em um parque de Nova York em plena luz do dia. Seu desespero e de sua esposa, Kate (Rene Russo) aumenta conforme o tempo passa e os agressores exigem a quantia de dois milhões de dólares para libertar o menino. Depois de uma tentativa frustrada de recuperar o filho - em que um dos sequestradores é morto - Mullen se enfurece com a prepotência dos criminosos e resolve não apenas recusar-se a pagar o resgate mas também entregar o dobro da quantia a qualquer pessoa com informações que levem até a gangue. Sua ousada decisão muda os rumos da situação e o policial Jimmy Shaker (Gary Sinise) assume, a partir daí importância fundamental na investigação.

Apesar de ser uma espécie de refilmagem - fato do qual Mel Gibson só tomou ciência às vésperas da filmagem - "O preço de um resgate" não tem, em momento algum, ranso de produto requentado. É um drama policial intenso, centrado principalmente na angústia de Mullen e Kate e na interrelação entre os criminosos - cujos intérpretes incluem um novato Liev Schreiber. Howard acertou em cheio em intercalar cenas de grande tensão com outras onde investiga as consequências de um crime na vida de uma família. Ao eleger como protagonista um empresário não necessariamente ético ou imaculado, ele o aproxima da plateia, principalmente devido ao trabalho poderoso de Gibson e Rene Russo, que, trabalhando juntos novamente - depois de dois filmes da série "Máquina mortífera" - apresentam uma ótima química. Russo, inclusive, tem uma atuação que lhe prova uma boa atriz dramática por trás de sua beleza clássica.

"O preço de um resgate" é um policial acima da média, com um roteiro bem cuidado - no que a assinatura de um literato como Richard Price faz uma grande diferença - e uma preocupação sincera com o trabalho dos atores. E é uma das últimas interpretações dignas da carreira de Mel Gibson até o momento (com a exceção de "Sinais", lançado seis anos depois).