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Monday, October 24, 2011

UMA MENTE BRILHANTE

UMA MENTE BRILHANTE (A beautiful mind, 2001, Universal Pictures/Dreamworks SKG, Imagine Entertainment, 135min) Direção: Ron Howard. Roteiro: Akiva Goldsman, livro de Sylvia Nasar. Fotografia: Roger Deakins. Montagem: Dan Hanley, Mike Hill. Música: James Horner. Figurno: Rita Ryack. Direção de arte/cenários: Wynn Thomas/Leslie Rollins. Produção executiva: Todd Hallowell, Karen Kehela. Produção: Brian Grazer, Ron Howard. Elenco: Russell Crowe, Jennifer Connelly, Ed Harris, Christopher Plummer, Paul Bettany, Josh Lucas, Adam Goldberg, Judd Hirsch. Estreia: 13/12/01

8 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Ron Howard), Ator (Russell Crowe), Atriz Coadjuvante (Jennifer Connelly), Roteiro Adaptado, Montagem, Trilha Sonora Original, Maquiagem
Vencedor de 4 Oscar: Melhor Filme, Diretor (Ron Howard), Atriz Coadjuvante (Jennifer Connelly), Roteiro Adaptado
Vencedor de 4 Golden Globes: Melhor Filme/Drama, Ator/Drama (Russell Crowe), Atriz Coadjuvante (Jennifer Connelly), Roteiro

Grande vencedor do Oscar 2001 em quatro categorias - Filme, Diretor, Roteiro Adaptado e Atriz Coadjuvante - "Uma mente brilhante" conta a história do matemático John Nash causou polêmica em seu lançamento, o que em nada atrapalhou seu sucesso também nas bilheterias, com uma arrecadação de mais de 170 milhões de dólares somente no mercado americano (o que, se for levado em conta que não é um típico produto para consumo imediato é um estrondoso sucesso). O celeuma foi causado pela revelação de que o protagonista do filme tinha ideias antissemitas, o que foi convenientemente deixado de lado pelo premiado roteiro de Akiva Goldsman, assim como suas tendências homossexuais. O que os polemistas talvez não tenham percebido é que tais características da personagem não fazem muita diferença para o centro da história contada no filme. O que importa na obra de Ron Howard - um diretor até então de filmes comerciais sem maiores ambições artísticas - é a luta de Nash contra a esquizofrenia, travada durante décadas, e sua história de amor com a esposa Alicia - história essa bastante enfeitada na transposição para celulóide da extensa biografia escrita por Sylvia Nasar.

Vivido com um misto de garra e delicadeza surpreendente por um Russell Crowe provando seu imenso talento, John Nash é mostrado pela primeira vez em 1947, ainda na faculdade e buscando uma maneira de destacar-se de seus colegas, todos matemáticos brilhantes e um tanto arrogantes. Já professor, Nash conhece e se apaixona por uma aluna, a bela Alicia (Jennifer Connelly, linda e excelente no papel), com quem se casa, apesar de suas dificuldadades em relacionamentos sociais. Às vésperas de seu reconhecimento profissional, no entanto, ele é diagnosticado como esquizofrênico e, com a ajuda de Alicia e do psiquiatra Dr. Rosen (Christopher Plummer), ele tenta superar a doença e voltar a ser o gênio que prometia.



Russell Crowe foi injustiçado quando perdeu o Oscar de Melhor Ator para Denzel Washington. Seu trabalho como John Nash é infinitamente superior não somente ao de Denzel mas principalmente à sua própria atuação vencedora do prêmio da Academia pelo épico "Gladiador". Repleta de nuances e sutilezas que só os grandes atores conseguem, sua atuação comove, intriga e angustia na medida certa, impedindo a compaixão fácil e fazendo com que cada cena seja especial pelo simples fato de ele estar presente nela. Sua química exemplar com Jeniffer Connelly, seja em cenas românticas (criadas para agradar às plateias mais convencionais) ou nas mais dramáticas eleva o filme a um patamar de excelência que provavelmente foi o que conquistou o público sedento por um drama adulto de qualidade. É de questionar apenas os motivos que levaram Connelly a vencer na categoria de coadjuvante, uma vez que sua personagem é quase tão protagonista quanto a de Crowe. Somado a sua trama de superação - que além de tudo é verdadeira, apesar da supressão de fatos importantes e da simplificação de outros - o romance entre Nash e Alicia também seduziou os eleitores do Oscar que lhe deram quatro importantes estatuetas (e deveriam ter dado no mínimo mais uma, a Crowe, que acabou prejudicado pela mania do Oscar de corrigir injustiças fazendo outras....).

Além dos trabalhos exemplares de Crowe e Connelly, porém, seria injusto deixar de citar a maior qualidade de "Uma mente brilhante": o roteiro irretocável de Akiva Goldsman. Apesar das licenças poéticas (que incorreram na fúria dos puristas), seu script é capaz de conquistar pela delicadeza dos diálogos e pela reviravolta espetacular que proporciona depois de sua primeira hora de projeção e além de tudo, funciona como drama médico, como romance e como thriller de espionagem, sem nunca atropelar o ritmo e as personagens, sejam elas protagonistas ou coadjuvantes - e nessa categoria encontra-se atores de primeira linha, como Christopher Plummer, Paul Bettany e um arrepiante Ed Harris, perfeito em sua tétrica caracterização como um misterioso agente da CIA.

Com todas essas qualidades, não é de estranhar que "Uma mente brilhante" tenha passado incólume pelas polêmicas a seu respeito. Afinal, verdadeiras ou não, as acusações feitas são contra a personalidade de seu protagonista e não interferem no produto cinematográfico, dirigido com precisão por Ron Howard, até então mais afeito a produções mais lineares e menos, com o perdão do trocadilho, brilhantes. É aqui, com a parceria de Russell Crowe e Akiva Goldsman que ele atinge seu ápice, em um filme forte e que, apesar de parecer esquemático, consegue surpreender e emocionar.

Monday, March 14, 2011

O PREÇO DE UM RESGATE

O PREÇO DE UM RESGATE (Ransom, 1996, Touchstone Pictures, 121min) Direção: Ron Howard. Roteiro: Richard Price, Alexander Ignon, história de Cyril Hume, Richard Maibaum. Fotografia: Piotr Sobocinski. Montagem: Dan Hanley, Mike Hill. Música: James Horner. Figurino: Rita Ryack. Direção de arte/cenários: Michael Corenblith/Susan Bode. Produção executiva: Todd Hallowell. Produção: Brian Grazer, B. Kiplin Hagopian, Scott Rudin. Elenco: Mel Gibson, Rene Russo, Gary Sinise, Delroy Lindo, Lily Taylor, Liev Schreiber, Evan Handler, Donnie Wahlberg, Brawley Nolte, Dan Hedaya. Estreia: 08/11/96

Durante as filmagens de "O preço de um resgate", policial inspirado em um telefilme apresentado ao vivo nos primórdios da TV americana, seu diretor Ron Howard se viu em uma situação no mínimo rara: seu trabalho anterior, "Apollo 13" disputava o Oscar de melhor produção do ano com "Coração valente", cujo responsável pela direção era ninguém menos que Mel Gibson, o protagonista de seu filme. Essa pequena curiosidade, porém, não atrapalhou em nada o resultado final, nem em termos de qualidade nem tampouco de bilheteria: com uma renda de mais de 130 milhões de dólares, "O preço de um resgate" foi mais um dos sucessos comerciais de Gibson - que, aliás, levou vantagem na festa do Oscar, ficando com as estatuetas de filme e direção (prêmio este que Howard nem sequer disputou).

Quando "O preço de um resgate" estreou, Gibson estava no auge de sua popularidade e do respeito por parte da crítica, por isso não é surpresa que o filme tenha feito tanto sucesso. A boa notícia é que, apesar de alguns erros na carreira do ator, este aqui é um de seus pontos altos, um trabalho maduro em que ele não apenas é um astro carismático e sedutor, mas também um ator experiente e capaz de emocionar sua plateia com uma personagem dúbio e rico de nuances. Mesmo que não seja exatamente brilhante, o roteiro de Alexander Ignon e do escritor Richard Price é dotado de reviravoltas empolgantes o bastante para manter a atenção do público até suas cenas finais, onde infelizmente apela para os tiroteios corriqueiros dos filmes do gênero. Até que isso aconteça, no entanto, o espectador é brindado com uma trama interessante e dramática na medida certa.


Gibson interpreta Tom Mullen, um bem-sucedido empresário do ramo da aviação que tem seu único filho, o pequeno Sean (Brawley Nolte, filho do ator Nick Nolte) sequestrado praticamente diante de seu nariz, em uma feira em um parque de Nova York em plena luz do dia. Seu desespero e de sua esposa, Kate (Rene Russo) aumenta conforme o tempo passa e os agressores exigem a quantia de dois milhões de dólares para libertar o menino. Depois de uma tentativa frustrada de recuperar o filho - em que um dos sequestradores é morto - Mullen se enfurece com a prepotência dos criminosos e resolve não apenas recusar-se a pagar o resgate mas também entregar o dobro da quantia a qualquer pessoa com informações que levem até a gangue. Sua ousada decisão muda os rumos da situação e o policial Jimmy Shaker (Gary Sinise) assume, a partir daí importância fundamental na investigação.

Apesar de ser uma espécie de refilmagem - fato do qual Mel Gibson só tomou ciência às vésperas da filmagem - "O preço de um resgate" não tem, em momento algum, ranso de produto requentado. É um drama policial intenso, centrado principalmente na angústia de Mullen e Kate e na interrelação entre os criminosos - cujos intérpretes incluem um novato Liev Schreiber. Howard acertou em cheio em intercalar cenas de grande tensão com outras onde investiga as consequências de um crime na vida de uma família. Ao eleger como protagonista um empresário não necessariamente ético ou imaculado, ele o aproxima da plateia, principalmente devido ao trabalho poderoso de Gibson e Rene Russo, que, trabalhando juntos novamente - depois de dois filmes da série "Máquina mortífera" - apresentam uma ótima química. Russo, inclusive, tem uma atuação que lhe prova uma boa atriz dramática por trás de sua beleza clássica.

"O preço de um resgate" é um policial acima da média, com um roteiro bem cuidado - no que a assinatura de um literato como Richard Price faz uma grande diferença - e uma preocupação sincera com o trabalho dos atores. E é uma das últimas interpretações dignas da carreira de Mel Gibson até o momento (com a exceção de "Sinais", lançado seis anos depois).