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Thursday, July 21, 2011

À ESPERA DE UM MILAGRE

À ESPERA DE UM MILAGRE (The green mile, 1999, Castle Rock Entertainment/Warner Bros., 189min) Direção: Frank Darabont. Roteiro: Frank Darabont, romance de Stephen King. Fotografia: David Tattersall. Montagem: Richard Francis-Bruce. Música: Thomas Newman. Figurino: Karyn Wagner. Direção de arte/cenários: Terence Marsh/Michael Seirton. Produção: Frank Darabont, David Valdes. Elenco: Tom Hanks, Michael Clarke-Duncan, David Morse, Barry Pepper, Sam Rockwell, James Cromwell, Bonnie Hunt, Patricia Clarkson, Gary Sinise, Graham Greene, Harry Dean Stanton, Michael Jeter, Doug Hutchinson. Estreia: 10/12/99

4 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Ator Coadjuvante (Michael Clarke-Duncan), Roteiro Adaptado, Som

Em 1994, Frank Darabont encantou público e crítica com seu belo “Um sonho de liberdade”, que conquistou indicações ao Oscar de melhor filme, ator e roteiro adaptado e tornou-se, com o tempo, obra de referência quando o assunto é filmes passados em presídios. Em sua segunda incursão atrás das câmeras, o cineasta voltou a buscar na obra do escritor Stephen King a inspiração para seu trabalho. Dessa vez baseado em um romance e não mais em um conto – o que lhe deu ainda mais liberdade para exercitar seu próprio ritmo de contar histórias – Darabont entregou ao público o emocionante “À espera de um milagre”, que, apesar de utilizar o ambiente claustrofóbico de um corredor da morte como cenário para sua trama jamais se deixa resvalar para o monótono. Além disso, utiliza elementos sobrenaturais inexistentes em “Um sonho de liberdade”.  Para sorte do público, porém, ele os usa com parcimônia e inteligência raras. Resultado: uma renda superior a 180 milhões de dólares somente no mercado americano e quatro indicações ao Oscar, inclusive a Melhor Filme (curiosamente, como já havia acontecido com seu filme anterior, o diretor foi preterido em sua categoria...)

O filme começa em um lar de idosos, quando o ancião Paul Edgecomb cai em sentidas lágrimas ao assistir ao filme “O picolino”, estrelado por Fred Astaire. Questionado a respeito, ele resolve contar então a uma colega a trágica e emocionante história que testemunhou em 1935, quando, ainda relativamente jovem (e vivido por Tom Hanks) era o responsável principal pelo Corredor da Morte de seu condado. Justamente na época em que passava por uma séria infecção renal, Edgecomb travou conhecimento com John Coffey (Michael Clarke Duncan), um gigantesco negro com voz de trovão e aparência assustadora que foi condenado à morte pelo assassinato de duas meninas brancas. Coffey chega à Milha Verde – como é conhecido o corredor devido à cor de seu piso – e passa a fazer companhia a outros condenados que aguardam a execução, como o francês Delacroix (Michael Jeter), o descendente indígena Arlen (Graham Greene) e o barra-pesada Billy The Kid (Sam Rockwell), que tem o caráter tão repugnante quanto sua aparência física.

Coffey seria apenas mais um apenado se não fosse uma intrigante particularidade: ele tem o dom de fazer milagres e jura inocência do crime pelo qual foi condenado. Aos poucos, tanto Edgecomb quanto seus colegas Brutal (David Morse) e Dean (Barry Pepper) começam realmente a questionar sua culpa. Depois de testemunharem a cura da infecção de Paul e da grave doença da esposa de seu chefe – além da ressurreição de Mr. Jingles, o ratinho de estimação de um dos prisioneiros – eles passam a perguntar-se se teriam coragem de matar um milagre de Deus. Como o próprio Edgecomb declara, “o que eu vou dizer a Deus quando Ele me perguntar porque eu matei um milagre dEle? Que era meu trabalho?”


Mais uma vez Frank Darabont conta a história em seu próprio tempo e ritmo. Ele não tem pressa em apresentar suas personagens nem tem vergonha de gastar preciosos minutos mostrando sua relação com um ratinho (relação que se mostrará crucial à trama, diga-se de passagem). Novamente todos os diálogos do filme são importantíssimos, todos os detalhes são significativos e todas as personagens estão em cena por motivos bastante fortes. Existe maniqueísmo, sim, senão não seria uma obra de Stephen King (os vilões são poços de crueldade e os mocinhos são puros e inocentes, e o milagroso John Coffey, apesar do tamanho, tem até mesmo medo de escuro!!), mas essa clara divisão entre o bem e o mal é imprescindível ao roteiro. Os efeitos visuais e sonoros são discretos e não chamam mais a atenção do que o desenvolvimento das personagens e o andamento da história, o que sempre é um alívio. E os atores merecem um capítulo à parte.

Tom Hanks demonstra sua maturidade como ator, mantendo-se discreto e generoso em dar espaço a seus colegas de elenco, todos aliás, de se tirar o chapéu. Doug Hutchinson, que vive o cruel guarda Percy – e que trabalha no presídio graças à influência de sua família – é um dos vilões mais odiosos de todos os tempos: mesquinho, rancoroso e ambicioso, ele é capaz de qualquer coisa para satisfazer seus desejos (e acaba sendo o responsável pela execução mais angustiante da história do cinema). Hutchinson – saído de dois episódios da série “Arquivo X”, onde vivia um homem que se alimentava de fígado humano – sai-se muito bem em seu único trabalho realmente marcante nas telas. E tem ótima companhia. Sam Rockwell, na pele do insuportável Billy The Kid, também faz seu trabalho bem além da chamada obrigação profissional. Mas é, sem dúvida, Michael Clarke Duncan quem mais brilha. Ex-guarda-costas de gente como Bruce Willis, ele chegou a ser indicado ao Oscar de coadjuvante por sua emocionante atuação como a aparentemente perigoso mas surpreendentemente afável John Coffey, responsável pelos momentos mais comoventes do longa.

E sim, “À espera de um milagre” é um filme bastante longo. São mais de três horas de duração com raros momentos de alívio em uma trama densa, potente e por vezes cruel - e sua introdução e epílogo poderiam ter sido tranqüilamente editados na versão final. Mas ao mesmo tempo, é uma ode à bondade, ao ser humano e a Deus. Pode levar às lágrimas, mas dificilmente pode ser considerado deprimente. E é um espetáculo difícil de esquecer. Mais uma vez Frank Darabont merece aplausos.

Monday, March 14, 2011

O PREÇO DE UM RESGATE

O PREÇO DE UM RESGATE (Ransom, 1996, Touchstone Pictures, 121min) Direção: Ron Howard. Roteiro: Richard Price, Alexander Ignon, história de Cyril Hume, Richard Maibaum. Fotografia: Piotr Sobocinski. Montagem: Dan Hanley, Mike Hill. Música: James Horner. Figurino: Rita Ryack. Direção de arte/cenários: Michael Corenblith/Susan Bode. Produção executiva: Todd Hallowell. Produção: Brian Grazer, B. Kiplin Hagopian, Scott Rudin. Elenco: Mel Gibson, Rene Russo, Gary Sinise, Delroy Lindo, Lily Taylor, Liev Schreiber, Evan Handler, Donnie Wahlberg, Brawley Nolte, Dan Hedaya. Estreia: 08/11/96

Durante as filmagens de "O preço de um resgate", policial inspirado em um telefilme apresentado ao vivo nos primórdios da TV americana, seu diretor Ron Howard se viu em uma situação no mínimo rara: seu trabalho anterior, "Apollo 13" disputava o Oscar de melhor produção do ano com "Coração valente", cujo responsável pela direção era ninguém menos que Mel Gibson, o protagonista de seu filme. Essa pequena curiosidade, porém, não atrapalhou em nada o resultado final, nem em termos de qualidade nem tampouco de bilheteria: com uma renda de mais de 130 milhões de dólares, "O preço de um resgate" foi mais um dos sucessos comerciais de Gibson - que, aliás, levou vantagem na festa do Oscar, ficando com as estatuetas de filme e direção (prêmio este que Howard nem sequer disputou).

Quando "O preço de um resgate" estreou, Gibson estava no auge de sua popularidade e do respeito por parte da crítica, por isso não é surpresa que o filme tenha feito tanto sucesso. A boa notícia é que, apesar de alguns erros na carreira do ator, este aqui é um de seus pontos altos, um trabalho maduro em que ele não apenas é um astro carismático e sedutor, mas também um ator experiente e capaz de emocionar sua plateia com uma personagem dúbio e rico de nuances. Mesmo que não seja exatamente brilhante, o roteiro de Alexander Ignon e do escritor Richard Price é dotado de reviravoltas empolgantes o bastante para manter a atenção do público até suas cenas finais, onde infelizmente apela para os tiroteios corriqueiros dos filmes do gênero. Até que isso aconteça, no entanto, o espectador é brindado com uma trama interessante e dramática na medida certa.


Gibson interpreta Tom Mullen, um bem-sucedido empresário do ramo da aviação que tem seu único filho, o pequeno Sean (Brawley Nolte, filho do ator Nick Nolte) sequestrado praticamente diante de seu nariz, em uma feira em um parque de Nova York em plena luz do dia. Seu desespero e de sua esposa, Kate (Rene Russo) aumenta conforme o tempo passa e os agressores exigem a quantia de dois milhões de dólares para libertar o menino. Depois de uma tentativa frustrada de recuperar o filho - em que um dos sequestradores é morto - Mullen se enfurece com a prepotência dos criminosos e resolve não apenas recusar-se a pagar o resgate mas também entregar o dobro da quantia a qualquer pessoa com informações que levem até a gangue. Sua ousada decisão muda os rumos da situação e o policial Jimmy Shaker (Gary Sinise) assume, a partir daí importância fundamental na investigação.

Apesar de ser uma espécie de refilmagem - fato do qual Mel Gibson só tomou ciência às vésperas da filmagem - "O preço de um resgate" não tem, em momento algum, ranso de produto requentado. É um drama policial intenso, centrado principalmente na angústia de Mullen e Kate e na interrelação entre os criminosos - cujos intérpretes incluem um novato Liev Schreiber. Howard acertou em cheio em intercalar cenas de grande tensão com outras onde investiga as consequências de um crime na vida de uma família. Ao eleger como protagonista um empresário não necessariamente ético ou imaculado, ele o aproxima da plateia, principalmente devido ao trabalho poderoso de Gibson e Rene Russo, que, trabalhando juntos novamente - depois de dois filmes da série "Máquina mortífera" - apresentam uma ótima química. Russo, inclusive, tem uma atuação que lhe prova uma boa atriz dramática por trás de sua beleza clássica.

"O preço de um resgate" é um policial acima da média, com um roteiro bem cuidado - no que a assinatura de um literato como Richard Price faz uma grande diferença - e uma preocupação sincera com o trabalho dos atores. E é uma das últimas interpretações dignas da carreira de Mel Gibson até o momento (com a exceção de "Sinais", lançado seis anos depois).