Em 1996, cansado de ver sua mais famosa criação - o cruel assassino Freddy Krueger - humilhado em inúmeras sequências cada vez mais absurdas de seu "A hora do pesadelo", o cineasta Wes Craven resolveu virar o jogo. De posse de um roteiro repleto de sustos e violência misturados com referências pop e brincadeiras a respeito do próprio gênero terror, "Pânico" virou sucesso imediato, especialmente entre a plateia jovem, sedenta por sair da mesmice do estilo. Entusiasmados com a bilheteria de mais de 160 milhões de dólares, Craven e o roteirista Kevin Williamson - criador da série de TV "Dawson's Creek" - fizeram o que qualquer um com um mínimo tino comercial faria: uma sequência. Sendo assim, menos de dois anos depois da estreia do primeiro capítulo, "Pânico 2" chegava às telas com o objetivo de amealhar ainda mais fãs graças a seu misterioso assassino mascarado.
Com um atraso de dois anos em relação a seu lançamento americano, "Pânico 2" chegou ao Brasil em ... Lembrando que, à época, não havia a possibilidade de baixar filmes, a expectativa dos fãs era enorme. E eles não se decepcionaram. Cientes da faixa etária e dos anseios de seu público-alvo, Craven e Williamson rechearam "Pânico 2" de ainda mais mortes, inúmeras piadas a respeito do gênero e, melhor ainda, mais suspense. Levando-se em consideração de que o "fator-surpresa" não estava mais presente (acontecimento comum em continuações), o roteirista e o diretor apostaram naquilo que se transformaria na marca registrada da série: apesar de não poupar a audiência de sangue e violência, nenhum dos filmes se leva tão a sério como poderia. E é justamente aí, nessas suas auto-crítica e auto-gozação que o filme ganha o espectador (ao menos aquele que se dispõe a dispender duas horas de seu tempo assistindo a uma bobagem descompromissada).

E bobagem descompromissada é exatamente o que "Pânico 2" é (e o primeiro e os seguintes, também o são). Quem procura elocubrações psicológicas, coerências psiquiátricas e personagens bem construídos que passe bem longe da série. "Pânico 2" é o típico filme que merece ser visto com muita pipoca e refrigerante, de preferência junto a uma plateia disposta a levar alguns sustos por 120 minutos. Deixando a credibilidade e o senso crítico em um canto quieto do cérebro é possível divertir-se bastante.
Depois dos trágicos acontecimentos do primeiro filme, a jovem Sidney Prescott (a inexpressiva Neve Campbell) está longe de sua cidade natal, Woodsboro, dedicando-se a um curso de teatro e tentando levar sua vida. No entanto, seu desejo de esquecer a violência de seu passado mostra-se em vão quando um misterioso assassino mascarado começa a imitar os crimes anteriores. Contando com a ajuda de seus amigos - o detetive Dwight (David Arquette), a jornalista Gale Wheaters (Courteney Cox) e o estudante (Jamie Kennedy) - Sidney tenta desmascarar o criminoso, que ataca cruelmente suas vítimas, todas elas bastante próximas à estudante. Quem parece estar por trás dos homicídios é (Liev Schreiber), acusado erroneamente por Sidney, no passado, de ter morto sua mãe.
"Pânico 2" já começa muito bem, ecoando o primeiro filme, em uma sequência inicial que dá o tom exato do que vem pela frente: um casal de jovens negros (vividos por Jada Pinkett e Omar Epps) são assassinados durante a pré-estreia do filme inspirado nos acontecimentos do primeiro capítulo (o uso da meta-linguagem é uma constante da série). A partir daí, o roteiro se encarrega de matar uma meia dúzia de adolescentes, sempre com muita violência e sangue, para deleite do público. Enquanto espalha pistas falsas sobre a identidade do assassino, Craven aproveita para falar mal de continuações, estabelecer clichês do gênero e até mesmo brincar com acontecimentos reais acontecidos com o elenco (como a situação de Courteney Cox ter tido fotos de seu rosto montadas sobre um falso corpo nu). Equilibrando essas piadas quase internas com cenas de muito suspense, o filme segue fluentemente até seu final que, sim, é decepcionante.
Filmado em absoluto segredo (os próprios atores só souberam o nome do assassino pouco antes das filmagens da cena), o final de "Pânico 2" não deixa de ser anti-climático, ainda que coerente com sua estética do exagero. Mesmo assim, é pouco provável que vá decepcionar àqueles que procuram assustar-se no escurinho do cinema (ou da sala de estar). Para os fãs do gênero, é um filme indispensável, como toda a série.
