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Tuesday, February 14, 2012

IDENTIDADE

IDENTIDADE (Identity, 2003, Columbia Pictures, 90min) Direção: James Mangold. Roteiro: Michael Cooney. Fotografia: Phedon Papamichael. Montagem: David Brenner. Música: Alan Silvestri. Figurino: Ariane Phillips. Direção de arte/cenários: Mark Friedberg/Cindy Carr. Produção executiva: Stuart Besser. Produção: Cathy Konrad. Elenco: John Cusack, Ray Liotta, Amanda Peet, Rebecca de Mornay, John Hawkes, Alfred Molina, Clea DuVall, John C. McGinley, William Lee Scott, Jake Busey. Estreia: 25/4/03

Como fazer para transformar o que potencialmente seria mais um filme de terror ao estilo da série “Pânico”, em que pessoas morrem violentamente atacadas por um assassino misterioso, em um produto com alcance mais amplo – ou seja, um público acima de 16 anos, que normalmente lota esse tipo de produção? A resposta parece vir em “Identidade”, que, a mortes bem encenadas e um clima de puro suspense, acrescenta um elenco interessante e um roteiro que foge das resoluções fáceis que são o tiro de misericórdia do gênero.
As escolhas não óbvias de “Identidade” já começam pela escalação de seus atores. Liderando uma equipe de bons atores – ao contrário do pastiches de terror recheado de adolescentes sarados e sem conteúdo dramático – está o sempre confiável John Cusack. Na pele de Edward, o chofer de Caroline Suzanne (Rebecca de Mornay, em uma atuação auto-paródica), uma atriz decadente atrás de um novo sucesso, ele mantém a discrição, deixando que a trama, forte e assutadora o bastante, seja o principal elemento de atenção do filme. No roteiro bem orquestrado de Michael Cooney, ele e sua patroa são obrigados a parar em um hotel de beira de estrada durante uma tempestade que não arrefece. No hotel, eles travam conhecimento com um grupo de pessoas bastante diferentes em si: estão lá um jovem casal recém-casado, Giny e Louis (Cléa Duvall e William Lee Scott), a prostituta Paris (Amanda Peet), o gerente falastrão Larry (John Hawkes), um policial escoltando um criminoso (Ray Liotta e Gary Busey) e uma família cuja mãe está ferida devido a um acidente automobilístico na estrada (John C. McGinley, Leila Kenzle e o garoto Bret Loher). Presos no hotel por causa do mau tempo, eles começam a morrer misteriosamente, enquanto passam a descobrir que na verdade podem não estar ali reunidos por coincidência.

 

A atmosfera de “Identidade”, que busca surpreender a plateia não com mortes criativas e sim com viradas realmente empolgantes, é em boa parte cortesia de um visual úmido criado com cuidado pelo diretor James Mangold, que a julgar por seu currículo – ele dirigiu também o drama “Garota, interrompida” e o romance “Kate & Leopold” – transita facilmente entre os mais variados gêneros. E a criação de uma misteriosa trama paralela – onde um assassino condenado à morte (vivido pelo sempre assustador Pruitt Taylor Vince) tenta provar sua insanidade para escapar da execução – apenas soma ainda mais à tensão já existente, uma vez que tentar adivinhar como essa história aparentemente desconexa tem ligação à principal é outro exercício a que a complexa narrativa obriga a plateia, que chega aos créditos finais agradecida por ter sido tratada com um mínimo de inteligência sem que os padrões estéticos do gênero tenham sido agredidos.

Aliás, o respeito com que Mangold trata o gênero suspense é uma das maiores qualidades de "Identidade". Mesmo que seja mais inteligente do que a média, o filme não tem medo de abusar dos clichês, mas sempre tratando-os com cuidado e prendendo a atenção do público. Se a presença de John Cusack no elenco pode sugerir que ele é o herói da trama (o que não é exatamente verdade, uma vez que não há personagens 100% puros na história), o roteiro consegue surpreender com uma reviravolta bastante surpreendente (e que dá espaço para um final impactante mas um tanto forçado). Em "Identidade" nada é exatamente o que parece. E isso é que faz dele um produto capaz de agradar aos fãs do gênero e a quem gosta de um bom entretenimento.

Wednesday, February 8, 2012

PREMONIÇÃO 2

PREMONIÇÃO 2 (Final destination 2, 2003, New Line Cinema, 90min) Direção: David R. Ellis. Roteiro: J. Mackye Gruber, Eric Bress, estória de J. Mackye Gruber, Eric Bress, Jeffrey Reddick, personagens criados por Jeffrey Reddick. Fotografia: Gary Capo. Montagem: Eric Sears. Música: Shirley Walker. Figurino: Jori Woodman. Direção de arte/cenários: Michael Bolton/Louise Roper. Produção executiva: Richard Brener, Toby Emmerich, Matt Moore, Jeffrey Reddick. Produção: Craig Perry, Warren Zide. Elenco: A.J. Cook, Michael Landes, Ali Larter, Jonathan Cherry, Keegan Connor Tracy, Justina Machado. Estreia: 31/01/03

Um dos maiores problemas de um filme original e criativo ser bem-sucedido nas bilheterias é o fato de que em seguida, obrigatoriamente, ele é seguido por uma ou mais sequências que nem sempre cumprem sua premissa original e o que é ainda pior, consegue humilhar a primeira ideia e torná-la tão estúpida quanto qualquer outra. “Premonição 2”, que dá continuidade ao sucesso do primeiro filme, lançado em 2000, não chega a destruir a reputação de seu antecessor graças a alguns bons momentos, mas poderia tranquilamente ser menos clichê e mais apavorante.
        
A história da continuação se passa exatamente um ano depois do início do primeiro filme. Junto a um grupo de amigos, a jovem Kimberly Corman (a fraca A.J. Cook) está indo passar um final de semana no campo quando tem a visão de um enorme engavetamento em uma rodovia expressa, que causará a sua morte e de seus companheiros. Tentando impedir a tragédia, ela apenas consegue salvar a si mesma e algumas pessoas que estavam bloqueadas por sua van, que escapam de um violento acidente que ocorre frente aos olhos de todos. Apavorados e desconcertados, os sobreviventes começam a desesperar-se, no entanto, quando eles passam a morrer em acidentes bizarros e surge a teoria de que, se eles enganaram a morte uma vez, isso não se repetirá e todos irão encontrar um final trágico muito em breve.
         

Em suma, a história de “Premonição 2” apenas repete a obra original. O que faz com que sua qualidade seja inferior é a necessidade quase adolescente do diretor e dos produtores em transformar o que era o diferencial – clima sombrio, tensão constante – em lembrança, dedicando-se quase exclusivamente em criar mortes violentas e bem mais gráficas, em detrimento de um roteiro consistente e verossímil. Apesar de contar com algumas cenas de grande impacto e suspense – apelando para medos primais como dentista e viagens em rodovias – o roteiro conta com alguns diálogos que beiram o medíocre e atuações abaixo da média. A própria conexão com o primeiro da série é bastante fraca, existindo quase que somente para justificar a volta de Clear Rivers (a tenebrosa Ali Larter). Nem mesmo o diálogo em que todas as personagens descobrem seus vínculos com a tragédia do avião mostrado no filme original consegue ser empolgante, já que não há desdobramentos nas cenas seguintes.

No final das contas, “Premonição 2” cumpre o que promete. Tem bastante sangue, muita violência, tensão à vontade e sustos nas horas certas. Mas que fica bem longe da qualidade do primeiro não há a menor dúvida.

Monday, January 23, 2012

DRAGÃO VERMELHO

DRAGÃO VERMELHO (Red dragon, 2002, Universal Pictures, 124min) Direção: Brett Ratner. Roteiro: Ted Tally, romance de Thomas Harris. Fotografia: Dante Spinotti. Montagem: Mark Helfrich. Música: Danny Elfman. Figurino: Betsy Heinman. Direção de arte/cenários: Kristi Zea/Karen O'Hara. Produção executiva: Andrew Z. Davis. Produção: Dino de Laurentiis, Martha de Laurentiis. Elenco: Anthony Hopkins, Edward Norton, Ralph Fiennes, Harvey Keitel, Philip Seymour Hoffman, Emily Watson, Mary-Louise Parker, Anthony Heald, Bill Duke. Estreia: 30/9/02

Em 1991 o cineasta Jonathan Demme - mais conhecido pela comédia de humor negro "Totalmente selvagem" - pegou todo mundo de surpresa com o aterrador "O silêncio dos inocentes", suspense de primeira linha adaptado do romance de Thomas Harris que não só fez enorme sucesso de bilheteria e papou as cinco principais estatuetas do Oscar - deixando filmes mais "acadêmicos" como "Bugsy" comendo poeira - como também ressuscitou a carreira do ator galês Anthony Hopkins, que entrou instantaneamente para o panteão dos grandes vilões da história do cinema. Como em Hollywood a ganância fala muito mais alto do que a integridade artística, em 2001 foi lançado "Hannibal", uma tenebrosa continuação dirigida por Ridley Scott, que substituía Jodie Foster por Julianne Moore e a sutileza pelo horror explícito. A galinha dos ovos de ouro ainda dava grana (mais de 160 milhões arrecadados nos EUA pela segunda parte) e ninguém se surpreendeu quando "Dragão vermelho" estreou, ainda com Hopkins no papel do canibal Hannibal Lecter. Dirigido pelo eficiente porém jamais brilhante Brett Ratner, o filme chegou a um meio-termo interessante: não é genial como o primeiro e tampouco sofrível como o segundo.

O fato de "Dragão vermelho" já ter sido adaptado para as telas antes - mais precisamente em 1986, com o título de "Manhunter", dirigido por um Michael Mann na fase "Miami Vice" e estrelado por Brian Cox e William Petersen - não foi problema para os produtores dessa nova versão, que presumiram (com certa razão) que o público não tinha  isso registrado na memória. Sendo assim, com um novo título (o original do romance publicado em 1981), o filme chegou às telas cercado de razoável expectativa, em parte devido à personagem Lecter e em parte por causa do elenco excepcional reunido por Ratner: além de Hopkins desfilam pela tela Edward Norton, Ralph Fiennes, Emily Watson, Philip Seymour Hoffman e Harvey Keitel, todos velhos conhecidos do Oscar (com exceção de Hoffman, que levaria sua estatueta três anos depois). Juntos, eles dão consistência a uma história interessante o bastante para apagar a má impressão causada pelo trabalho de Ridley Scott.



"Dragão vermelho" se passa antes dos acontecimentos de "O silêncio dos inocentes" e começa quando o jovem agente do FBI Will Graham (um Edward Norton jovial que aproveitou o cachê do filme para financiar o ótimo "A última noite") é procurado por seu antigo chefe Jack Crawford (Harvey Keitel) para colaborar na elaboração do perfil psicológico de um serial killer apelidado de "Fada do Dente". Aposentado desde que foi seriamente ferido pelo psiquiatra Hannibal Lecter (a quem capturou), Graham se recusa a participar de mais uma caçada, mas é convencido a voltar atrás e contar com a ajuda do canibal para chegar até o novo assassino. Assim como em "O silêncio dos inocentes", o roteiro não se preocupa em esconder a identidade do criminoso. Francis Dolarhyde (Ralph Fiennes em papel que interessava a Michael Jackson (!!)) trabalha em um laboratório de revelação de filmes fotográficos e, com um passado traumático, é um assassino frio e meticuloso que se envolve romanticamente com uma colega de trabalho cega (Emily Watson) que não vê os defeitos físicos que ele julga ter. Enquanto chega cada vez mais perto do assassino, o detetive tem que preocupar-se também com o fato de sua família estar desprotegida na ilha onde isolou-se depois da aposentadoria.

Como dito anteriormente, Brett Ratner não é um Jonathan Demme e isso fica claro na maneira quase quadradinha com que move sua história (novamente adaptada pelo oscarizado Ted Tally). O tom sufocante e opressivo de "O silêncio dos inocentes" foi substituído por um clima menos sombrio, mais comercial, sem maiores ouadias. Até mesmo Anthony Hopkins parece estar no piloto automático, não acrescentando à sua brilhante personagem nenhuma nuance a mais (o que não significa que não esteja ótimo como sempre, mas apenas acomodado). O mesmo acontece com Edward Norton, que não precisa muito para convencer em seu papel, ainda que pareça jovem demais para viver um agente aposentado. Sobressai-se então, mais uma vez, o excelente Ralph Fiennes, vivendo um Francis Dolarhyde bem mais complexo e digno de compaixão do que o Buffalo Bill interpretado por Ted Levine no filme de Demme. Suas cenas com Emily Watson são as mais interessantes da obra, em uma dinâmica dramática que envolve muito mais do que a trama policial (cujo clímax não deixa de ser quase requentado).

Porém, como filme de suspense "Dragão vermelho" não apenas convence como é bastante superior à média. Compará-lo com "O silêncio dos inocentes" chega a ser covardia. Mas que deixa "Hannibal" bem pra trás em matéria de qualidade não há como negar. Não ousa, mas não estraga. O que já é muito bom.

Wednesday, December 7, 2011

SINAIS

SINAIS (Signs, 2002, Touchstone Pictures, 106min) Direção e roteiro: M. Night Shyamalan. Fotografia: Tak Fujimoto. Montagem: Barbara Tulliver. Música: James Newton Howard. Figurino: Ann Roth. Direção de arte/cenários: Larry Fulton/Douglas Mowat. Produção executiva: Kathleen Kennedy. Produção: Frank Marshall, Sam Mercer, M. Night Shyamalan. Elenco: Mel Gibson, Joaquin Phoenix, Cherry Jones, Rory Culkin, Abigail Breslin, M. Night Shyamalan. Estreia: 29/7/02

Em primeiro lugar é necessário elogiar o talento que o diretor/roteirista/produtor (e neste filme também ator) M. Night Shyamalan tem em criar climas aterradores. Desde que encantou o mundo com "O sexto sentido", o cineasta indiano (mas criado perto da Filadélfia) encontrou a fórmula para criar, através do som e de imagens cuidadosamente desenhadas, um patamar de suspense que poucos diretores conseguiram atingir. Ainda que tenha sofrido uma queda vertiginosa de qualidade em sua filmografia a partir de "A vila", de 2004, Shyamalan não pode ser acusado de trair suas referências no gênero. E elas estão claramente presentes em "Sinais", seu último filme até hoje que foi realmente capaz de empolgar os cinéfilos (ou ao menos parte deles).

Mais uma vez o clima é o principal elemento que Shyamalan utiliza para estarrecer a audiência e deixá-la grudada na poltrona. Sem apelar para sustos desnecessários (mas nunca evitando a tensão que explode em pulos do sofá) ou para monstros sanguinários, o cineasta volta a provar o grande poder da sugestão em detrimento do explícito. Ao preferir concentrar-se na complexidade dramática de suas personagens (sempre bem escritas e desenvolvidas com delicadeza) e na maneira com que elas agem em circunstâncias adversas (e "adversas" aqui é até eufemismo), o homem que revelou Haley Joel Osment ao mundo exige de sua plateia apenas a empatia necessária para que se embarque na trama sem pestanejar. E faz isso aos poucos, delicadamente, dando tempo para que todas as circunstâncias se apresentem (e façam todo o sentido do mundo nas cenas finais). Cada diálogo escrito por Shyamalan, cada detalhe visual e cada minuto de filme não estão ali à toa. Poucos cineastas conseguem ser tão enxutos sem ser apressados quanto ele. E isso faz toda a diferença.



"Sinais" começa quando os dois filhos pequenos de Graham Hess (Mel Gibson em uma das melhores atuações de sua carreira) descobrem, na plantação de milho de sua fazenda no interior da Pensilvânia, círculos misteriosos semelhantes a outros que estão sendo descobertos pelo mundo todo. A princípio descrente da ameaça que o mistério pode representar, o ex-reverendo (que abandonou a batina após o acidente de carro que matou sua mulher, seis meses antes) aos poucos se deixa convencer pela mídia e por seu irmão caçula Merrill (Joaquin Phoenix) de que tudo é a preparação para uma invasão alienígena de grande porte e violência. Sozinho na fazenda com sua família, ele tenta reencontrar a fé perdida para sobreviver à tragédia.

É interessante perceber, em "Sinais", a forma com que o roteiro se desenrola diante dos olhos do espectador sem que ele se dê conta exatamente do que está acontecendo (o grande trunfo também de "O sexto sentido"). Até perto dos créditos de encerramento tudo leva a crer que trata-se de um suspense de ficção científica que abdica de efeitos especiais exorbitantes (e é inegável que o orçamento generoso de mais de 70 milhões de dólares pagaria por um visual menos pobre dos alienígenas) para homenagear clássicos do gênero, como a primeira versão de "Invasores de corpos". Seu desfecho, porém, mostra uma ambição maior de seu diretor: ele quer questionar a fé de seu público, assim como questionou de suas personagens. Explicar a forma com que ele lança a pergunta ao público seria estragar a surpresa de quem ainda não o assistiu, mas não há problema em dizer que NADA que aconteceu na vida de Hess foi por acaso e tudo estava apenas o levando à situação extrema em que ele se encontra.

Desde sua abertura - com a trilha sonora tonitruante de James Newton Howard emulando o melhor Bernard Herrman de "Psicose" - até suas cenas finais, "Sinais" é (mais) um belo exemplo da seriedade com que M. Night Shyamalan trata o cinema e seu público. O cuidado na direção de atores - incluindo um Mel Gibson em sua melhor forma, em um papel rejuvenescido para combinar com sua idade (Paul Newman e Clint Eastwood foram pensados para o projeto), um Joaquin Phoenix bastante diferente do vilão que interpretou em "Gladiador" e dois atores mirins em ótima forma (Rory Culkin, irmão de Macaulay, e Abigail Breslin, que despontaria para a fama quatro anos depois no ótimo "Pequena Miss Sunshine") - a inteligência na utilização do som e a opção em contar toda a história pelo restrito ponto de vista de uma pequena família comprovam o enorme talento de seu criador. Torçamos para que ele volte a nos encantar novamente muito em breve!

Tuesday, December 6, 2011

POR UM FIO

POR UM FIO (Phone booth, 2002, Fox 2000 Pictures, 81min) Direção: Joel Schumacher. Roteiro: Larry Cohen. Fotografia: Matthew Libatique. Montagem: Mark Stevens. Música: Harry Gregson-Williams. Figurino: Daniel Orlandi. Direção de arte/cenários: Andrew Laws/Don Diers. Produção executiva: Ted Kurdyla. Produção: Gil Netter, David Zucker. Elenco: Colin Farrell, Forest Whitaker, Katie Holmes, Rhada Mitchell, Kiefer Sutherland. Estreia: 10/9/02 (Festival de Toronto)

Em 2001, Joel Schumacher deu ao ator irlandês Colin Farrell sua primeira grande chance no cinema, escolhendo-o para ser o protagonista de "Tigerland, a caminho da guerra", que agradou aos críticos mas foi ignorado pelo público (boa parte devido a sua péssima distribuição nos cinemas americanos). Um ano depois, Farrell retribuiu o favor, estrelando uma produção barata (13 milhões de dólares) dirigida por Schumacher que tornou-se um sucesso inesperado. Depois de ter seu lançamento adiado nos EUA por cinco meses (estreou no Festival de Toronto em setembro de 2002 e só chegou às salas ianques em abril de 2003), "Por um fio" arrecadou quase cem milhões só no mercado americano e, em se tratando de uma obra de Joel Schumacher surpreendeu também por ter uma consistência rara.

Filmado em apenas duas semanas - e em ordem cronológica - "Por um fio" é um one man-show de Farrell, que carrega nas costas todo o suspense e o drama da história criada por Larry Cohen, também autor do roteiro de "Celular", estrelado por Kim Basinger e Chris Evans pouco tempo depois. Substituindo Jim Carrey, Mel Gibson e Will Smith (todos interessados no papel), o jovem ator mostra uma segurança ímpar na pele de Stuart Shepard, um divulgador de entretenimento que mora em Nova York com a esposa Kelly (Radha Mitchell) e que vive de humilhar o assistente, de passar a perna nos clientes e tentar se dar bem sem fazer muito esforço. Sua arrogância e egocentrismo não lhe bastam, porém, quando ele acaba caindo em uma armadilha inesperada: depois de falar com a aspirante a atriz Pam (Katie Holmes) - que ele quer levar para a cama o mais rápido possível com promessas de conseguir-lhe uma chance no cinema - de uma cabine telefônica ele atende o telefone e acaba sendo feito de refém por um misterioso atirador que sabe tudo de sua vida e ameaça matá-lo ou à sua mulher se ele desligar. O que parecia uma brincadeira de péssimo gosto vira um pesadelo quando o atirador (com a voz de Kiefer Sutherland) mata um gigolô na frente de testemunhas e Stu torna-se o principal suspeito do crime. Quando a mídia chega ao local, juntamente com o Capitão Ed Ramey (o sempre competente Forest Whitaker), o circo está armado.



Contado em enxutos 81 minutos - o que elimina cenas supérfluas e dá ao filme um ritmo extremamente ágil mas nunca apressado - "Por um fio" mais uma vez mostra que Joel Schumacher se dá muito melhor quando é menos ambicioso. Assim como em "Tigerland" (que também contava com a mesma equipe técnica), ele foca sua atenção no desempenho dos atores e não em mirabolantes pirotecnias ou marketing excessivo."Por um fio" é tenso na medida certa e surpreende a audiência com uma história que foge do previsível sempre que pode - o que em termos de filme de suspense é um ingrediente cada vez mais difícil de encontrar. O duelo entre Farrell e Sutherland (cuja voz foi acrescentada na pós-produção) é empolgante e muito dessa eletricidade vem do trabalho impecável de Colin, cujo personagem passa da arrogância e da auto-confiança ao desespero e ao medo em um piscar de olhos, sem que seja necessário muito mais do que puro e simples talento.

"Por um fio" não mudou a história do cinema e provavelmente com um ator menos capaz que Farrel seria apenas mais um filme a ser reprisado nas sessões noturnas da TV aberta. Mas graças à força que o ator imprime em sua atuação torna-se um produto acima da média em seu gênero.

Tuesday, November 8, 2011

O QUARTO DO PÂNICO

O QUARTO DO PÂNICO (Panic room, 2002, Columbia Pictures, 112min) Direção: David Fincher. Roteiro: David Koepp. Fotografia: Conrad L. Hall, Darius Khondji. Montagem: James Haygood, Angus Wall. Música: Howard Shore. Figurino: Michael Kaplan. Direção de arte/cenários: Arthur Max/Jon Danniells, Garrett Lewis. Produção: Cean Chaffin, Judy Hofflund, David Koepp, Gavin Polone. Elenco: Jodie Foster, Forest Whitaker, Kristen Stewart, Jared Leto, Dwight Yoakam. Estreia: 29/3/02

É impressionante a diferença que faz um bom diretor! Nas mãos de um operário-padrão qualquer de Hollywood, "O quarto do pânico" seria apenas mais um filme de suspense perfeitamente esquecível depois dos letreiros finais. Porém, sob o comando do sempre competente David Fincher - que tem no currículo as obras-primas "Seven" e "Clube da luta" e o subestimado "Vidas em jogo" - o jogo de gato-e-rato criado pelo roteirista David Koepp em apenas seis dias (o primeiro tratamento, logicamente) não só prende a atenção de seus espectadores como ainda por cima se eleva vários degraus acima de seus congêneres, equilibrando com maestria um clima hitchcockiano e inovações técnicas utilizadas com inteligência e parcimônia.

A trama tem início quando a recém-divorciada Meg Altman (Jodie Foster, grávida durante as filmagens), abandonada pelo marido milionário, compra uma gigantesca casa em Manhattan para morar com a filha pré-adolescente Sarah (Kirsten Stewart pré-"Crepúsculo"). A casa - uma impressionante criação do diretor de arte Arthur Max - tem até mesmo uma espécie de bunker, apelidado pelo antigo morador de "quarto do pânico": o tal quarto tem até mesmo um sistema exclusivo de câmeras de vigilância. O que seria apenas mais um cômodo, no entanto, vira a principal forma de defesa de mãe e filha quando três homens armados, liderados pelo descontrolado Junior (Jared Leto), invadem a casa na madrugada, atrás de milhões de dólares escondidos justamente no quarto onde elas se escondem. Para proteger a filha e a si mesma, Meg tem que usar toda a sua inteligência e força emocional, principalmente quando os criminosos - que incluem o racional Burnham (Forest Whitaker) e o violento Raoul (Dwight Yoakam) - resolvem apelar para a violência para obrigá-las a abandonar o famigerado aposento.


"O quarto do pânico" é um típico produto de sua época. Os criativos movimentos de câmera de Fincher, o desenho de som e as inovações técnicas que ele apresenta são tão ou mais importantes que a história que o diretor conta. Mesmo sem ser exatamente original e/ou empolgante em uma primeira visão, o roteiro de Koepp consegue facilmente envolver e causar tensão durante seu tempo de duração, o que já é bastante raro em um gênero mortalmente previsível quanto o suspense. Fugindo dos clichês das obras mais convencionais, a obra de Fincher cria momentos de tensão genuína, envolvendo o público na jornada de Meg, personificada com força e determinação por um Jodie Foster nunca aquém de excelente. Substituindo Nicole Kidman na última hora (que abandonou o projeto por ter se machucado nas filmagens de "Moulin Rouge"), Foster não deixa de ser uma bênção ao projeto: talvez a fragilidade física de Kidman não combinasse com a protagonista, uma personagem que cabe como uma luva no histórico de mulheres fortes interpretadas por Jodie.

"O quarto do pânico" está longe de ser o melhor trabalho de David Fincher. Ainda assim, é forte, inteligente e jamais previsível, além de tratar seu público com respeito e em nenhum momento apelar para soluções fáceis e triviais. É um excelente programa para quem gosta de suspense e para aqueles que esperam por bons filmes dirigidos com elegância e talento.

Thursday, October 20, 2011

DONNIE DARKO

DONNIE DARKO (Donnie Darko, 2001, Pandora Cinema/Flower Films, 113min) Direção e roteiro: Ricjard Kelly. Fotografia: Steven Poster. Montagem: Sam Bauer, Eric Strand. Música: Michael Andrews. Figurino: April Ferry. Direção de arte/cenários: Alexander Hammond/Jennie Harris. Produção executiva: Chris J. Ball, Drew Barrymore, Casey La Scala, Hunt Lowry, Aaron Ryder, William Tyrer. Produção: Adam Fields, Nancy Juvonen, Sean McKittrick. Elenco: Jake Gyllenhaal, Jena Malone, Maggie Gyllenhaal, Drew Barrymore, Patrick Swayze, Noah Wyle, Mary McDonnell, Seth Rogen. Estreia: 19/01/01 (Sundance Festival)

"Donnie Darko" é tão desconcertante em sua mistura de gêneros que conseguiu dar um nó na cabeça dos críticos e do público em geral, que ignorou sua passagem pelos cinemas. Mas é justamente esse sincretismo que fez dele um cult movie por excelência, adorado por fãs que viram nele um suspense acima da média, com elementos fortes de ficção científica e até pitadas de romance. Co-produzido pela atriz Drew Barrymore (através de sua Flower Films), o filme escrito e dirigido por Richard Kelly (então com meros 25 anos) subverte algumas regras do cinema mainstream e consegue conquistar o espectador, mesmo que apenas em seus minutos finais ele faça algum sentido.

É preciso embarcar na viagem de Kelly para se curtir "Donnie Darko", deixando de lado qualquer preconceito. A trama começa em 02 de outubro de 1988, quando dois acontecimentos transformam a rotina do personagem-título, um adolescente vivido por Jake Gylenhaal (e que quase foi interpretado por Mark Wahlberg): a turbina de um avião cai sobre seu quarto enquanto ele está fora de casa em um ataque de aparente sonambulismo e ele conhece Frank, um coelho do tamanho de um homem, que torna-se seu "amigo imaginário". Dependente de remédios e sessões de terapia, o jovem Darko fica sabendo, através de Frank, que o mundo tem data para acabar: no Halloween, dia 31 de outubro, ou seja, dali a 29 dias. Enquanto tenta descobrir como será o final dos tempos, ele arruma tempo para se apaixonar pela problemática Gretchen (Jena Malone) e busca uma maneira de viajar no tempo. Nos momentos vagos, obedece a ordens cada vez mais agressivas de Frank, que o incitam a atos quase terroristas.



"Donnie Darko" é, definitivamente, um filme de difícil classificação - e qualquer tentativa de resumí-lo soaria superficial e inútil. Um público menos paciente, mal-acostumado com tramas mastigadinhas desde os créditos de abertura provavelmente irá abominar e passar ao largo das aventuras de Darko, aparentemente herméticas mas convincentes e plausíveis dentro de seu universo próprio. Kelly fez de seu filme de estreia um quebra-cabeças sombrio que encontra na atuação quase propositalmente apática de Jake Gylenhaal um de seus maiores trunfos. Misturando conceitos científicos com uma alta dose de suspense e dubiedade, o diretor/roteirista tornou-se uma promessa das mais consistentes do início do século XXI - ainda que depois tenha cometido coisas indescritíveis como "A caixa", estrelado por Cameron Diaz, que, em sua tentativa de mesclar gêneros acabou tranformando-se em um samba do crioulo doido.

No final das contas, "Donnie Darko" é um conto sobre segundas chances e autosacrifícios, ainda que pareça mais um pesadelo criado por David Lynch do que um sensível drama semiaçucarado imaginado por Frank Capra. Contando com um elenco de coadjuvantes de primeira linha - a própria Drew Barrymore, Patrick Swayze como um suspeito guru de autoajuda e Noah Wyle, da série "Plantão médico" como um professor - e um clima dark e opressivo, o filme ainda apresenta uma nostálgica trilha sonora composta de hits dos anos 80, cantados por gente como Eccho & The Bunnymen (cuja "The killing moon" abre o filme), Duran Duran e Joy Division - além de encerrar com uma bela versão de "Mad world" do Tears for Fears. Quem procura fugir dos padrões, gosta de obras estranhas e encarar uma história para pensar já encontrou seu filme de cabeceira.

Thursday, October 13, 2011

CIDADE DOS SONHOS

CIDADE DOS SONHOS (Mulholland Drive, 2001, Les Films Alain Sarde, 147min) Direção e roteiro: David Lynch. Fotografia: Peter Deming. Montagem: Mary Sweeney. Música: Angelo Badalamenti. Figurino: Amy Stofsky. Direção de arte/cenários: Jack Fisk/Barbara Haberecht. Produção executiva: Pierre Edelman. Produção: Neal Edelstein, Tony Krantz, Michael Polaire, Alain Sarde, Mary Sweeney. Elenco: Naomi Watts, Laura Haring, Ann Miller, Dan Hedaya, Robert Forster, Justin Theroux, Lee Grant. Estreia: 16/5/01 (Festival de Cannes)


Indicado ao Oscar de Melhor Diretor (David Lynch)
Vencedor da Palma de Ouro de Melhor Diretor (David Lynch) no Festival de Cannes

O cineasta David Lynch pode ser classificado de qualquer coisa - de excêntrico a hermético - mas de uma coisa o homem jamais pode ser acusado: de ser previsível. Previsibilidade é provavelmente o único ingrediente que não consta na receita de filmes como "Veludo azul", "Coração selvagem", "A estrada perdida" e neste "Cidade dos sonhos", que lhe deu a Palma de Ouro de Melhor Diretor no Festival de Cannes em 2001 e uma indicação ao Oscar na mesma categoria - no ano em que Ron Howard papou o prêmio pelo acadêmico "Uma mente brilhante". Idealizado como piloto de uma série de TV que não chegou a ser aprovada, seu filme volta a utilizar os elementos oníricos que tanto lhe deram fama e acrescenta a eles uma dose de suspense erótico que o eleva a uma experiência única.

Nada é o que parece em uma primeira sessão de "Cidade dos sonhos". O filme começa quando uma bela mulher (a ex-Miss EUA Laua Elena Harring) escapa de uma tentativa de homicídio graças a um acidente de carro em Mulholland Drive (estrada de Los Angeles que dá título à obra). Sem lembrança alguma de seu passado, ela para em um condomínio onde acaba de chegar do Canadá a ingênua aspirante a atriz Betty (Naomi Watts). Juntas, elas tentarão descobrir a identidade da moça - auto-nomeada Rita em homenagem a um poster de "Gilda" que orna o apartamento onde moram - e, no caminho, cruzarão com tipos bizarros típicos da obra de Lynch, como um cineasta independente (Justin Theroux) e vários executivos misteriosos da indústria do cinema.



Ao contrário dos filmes anteriores de Lynch, em que uma trama linear era ocupada por personagens excêntricos, em "Cidade dos sonhos" o cineasta não somente recheou sua história com tipos absurdos mas também criou uma narrativa repleta de símbolos, imagens dúbias e um roteiro de dar nós na cabeça do mais antenado espectador. Realizado com a segurança de quem sabe exatamente o que está fazendo, o filme do criador de Laura Palmer leva o público a uma viagem sensorial, com reviravoltas com clima de pesadelo, onde nenhuma cena deve ser vista apenas pelo que parece e sim pelo que pode significar. Complicado? Talvez. Genial? Sempre. Cada detalhe visual e cada linha de diálogo de "Cidade dos sonhos" faz parte de um conjunto maior, que só faz sentido total em suas cenas finais, cruas e diretas, que parecem contradizer os primeiros 2/3 do filme, quando tudo é APARENTEMENTE simples. Difícil é descrever cada ideia excepcional do roteiro, da direção precisa de Lynch e do trabalho de seus colaboradores.

Contando com a habitual parceria do compositor Angelo Badalamenti na trilha sonora, que mistura canções pop dos anos 50 com uma estranhíssima versão em espanhol da bela "Crying", de Roy Orbison - apresentada na mais forte e deslumbrante cena do filme - e uma fotografia que expressa com nervosismo as intenções jamais óbvias da intrincada história, Lynch ainda tem em mãos um enorme trunfo. Na pele de Betty, a sonhadora atriz iniciante que almeja a glória em Hollywood e se vê envolvida em uma confusa relação com uma misteriosa mulher, a bela Naomi Watts revela-se uma espetacular escolha para um papel complexo e que exige muito mais do que um rostinho bonito. Especialmente na última fase do filme, quando a inocente Betty mostra - ou talvez não - sua verdadeira face, o trabalho de Watts atinge um nível de brilhantismo poucas vezes visto no cinema de David Lynch. Com seu rosto angelical, seu cabelo louro e sua personalidade fragmentada, ela é a personificação de uma musa de Hitchcock transmutada para a geração século XXI - com a sexualidade muito, mas muito mais explícita do que Grace Kelly e Ingrid Bergman.

E, para aqueles que insistem em afirmar que não entendem o roteiro (ou que ele não faz sentido, ou que é apenas um pretexto para cenas de lesbianismo) fica a recomendação para uma nova sessão, com a devida atenção às pistas deixadas pelo diretor logo nas primeiras cenas e o espírito preparado para um filme que, felizmente, foge dos padrões insossos da Hollywood comercial.

Tuesday, October 11, 2011

PERSEGUIÇÃO

PERSEGUIÇÃO (Joyride, 2001, 20th Century Fox, 97min) Direção: John Dahl. Roteiro: Clay Tarver, J. J. Abrams. Fotografia: Jeffrey Jur. Montagem: Eric L. Beason, Scott Chestnut, Todd E. Miller, Glen Scantlebury. Música: Marco Beltrami. Figurino: Terry Dresbach. Direção de arte/cenários: Rob Pearson, Beth DeSort. Produção executiva: Jeffrey Downer, Bridget Johnson, Patrick Markey, Arnon Milchan. Produção: J. J. Abrams, Chris Moore. Elenco: Paul Walker, Steve Zahn, Leelee Sobieski. Estreia: 05/10/01

Em "Encurralado", que Steven Spielberg dirigiu muito antes de ser o cineasta poderoso que é hoje, um homem comum passa a ser perseguido em uma rodovia por um caminhão conduzido por uma misteriosa personagem cuja identidade o roteiro não tem a menor pretensão de esclarecer. Dono de uma tensão quase insuportável, o filme fez enorme sucesso, transformou Spielberg em uma grande promessa (cumprida muito bem, como a história comprova) e gerou inúmeros filhotes. Um desses filhos temporões é "Perseguição", dirigido pelo conceituado John Dahl, autor de filmes cultuados como "O poder da sedução", com Linda Fiorentino e sérios como "Cartas na mesa", com Matt Damon e Edward Norton. A boa notícia? A premissa kafkiana ainda se mantém capaz de provocar tensão. A má notícia? Ao contrário da pequena obra-prima spielberguiana, o novo filme não resiste ao apelo de jogar suas personagens em um final com um clímax um tanto quanto forçado e quase cansativo.

Ao contrário de "Encurralado", que tinha uma única personagem atormentada pelo vilão, em "Perseguição" o número de vítimas aumenta para três. Se não, vejamos. O estudante boa-pinta Lewis (Paul Walker) compra um carro de segunda mão com o objetivo de impressionar a garota por quem está apaixonado, a amiga de infância Veena (Leelee Sobieski, mais sem graça do que macarrão sem molho), que estuda em uma universidade distante de sua casa. No caminho para buscá-la ele dá uma parada para dar uma carona a seu problemático irmão mais velho Fuller (o sempre carismático Steve Zahn), que acaba de sair mais uma vez da cadeia. Antes de chegar à universidade de Veena, os dois irmãos fazem um trote pelo rádio do carro com Rusty Nail, que dirige um caminhão. O trote acaba em tragédia quando um viajante inocente é atacado injustamente e, apavorados, os dois não revelam o acontecido à garota, que acaba sendo envolvida em uma apavorante viagem quando o misterioso caminhoneiro volta a perseguí-los.



"Perseguição" é um filme de suspense bastante envolvente e que não deixa de surpreender pela legítima vontade que tem de agradar aos fãs do gênero sem maiores pretensões do que divertir por hora e meia uma plateia acostumada a correrias e explosões. O nome de J.J. Abrahams - criador da série "Lost" - entre os roteiristas também é uma pista de que tudo não passa de uma homenagem sem grandes ambições ao clássico de Spielberg - homenagem que o próprio Abrahms potencializou no nostálgico "Super 8", de 2011.

Mesmo que tenha alguns furos homéricos no roteiro (a amiga de Veena, pega como refém, simplesmente é deixada de lado no final da história), "Perseguição" cumpre o que promete. Com um bom balde de pipoca e um refrigerante nas mãos, o filme menos ambicioso de John Dahl não permite nem mesmo que seu final quase apoteoticamente exagerado consiga atrapalhar a diversão ligeira a que se propõe.

Monday, October 10, 2011

OS OUTROS

OS OUTROS (The others, 2001, Cruise/Wagner Productions, 101min) Direção e roteiro: Alejandro Amenabar. Fotografia: Javier Aguirresarobe. Montagem: Nacho Ruiz Capillas. Música: Alejandro Amenabar. Figurino: Sonia Grande. Direção de arte/cenários: Benjamin Fernandez/Emilio Ardura, Eli Griff. Produção executiva: Tom Cruise, Rick Scwartz, Paula Wagner, Bob Weinstein, Harvey Weinstein. Produção: Fernando Bovaira, José Luis Cuerda, Sunmin Park. Elenco: Nicole Kidman, Christopher Eccleston, Fionnula Flanagan, Alakina Mann, James Bentley, Eric Sykes, Elaine Cassidy. Estreia: 02/8/01

Depois do megasucesso de "O sexto sentido", os filmes de terror começaram a atingir altos patamares de qualidade e bilheteria (logicamente com as devidas exceções). Alguns esbarraram na mesmice e na incompetência de seus realizadores, mais preocupados em assustar e ganhar dinheiro do que contar boas histórias. Para sorte dos fãs do gênero e de cinema em geral, porém, alguns realmente alcançaram seus objetivos, hipnotizando as plateias graças a tramas bem urdidas e narradas com sutileza, elegância e principalmente talento. É o caso de "Os outros", escrito e dirigido pelo chileno Alejandro Amenabar, que, não satisfeito com suas duas cruciais funções nos bastidores, ainda foi capaz de compor a assombrosa trilha sonora de seu filme.

Nicole Kidman, em seu segundo filme de destaque em 2001 (antes ela foi a cortesã Satine do exuberante "Moulin Rouge", que lhe deu a primeira indicação ao Oscar) interpreta Grace, uma mulher extremamente católica que vive com os dois filhos pequenos em uma mansão isolada em uma ilha inglesa no final da II Guerra. Enquanto aguarda a volta do marido - que lutou no conflito - ela tenta levar a vida da melhor maneira possível, lidando com a doença dos filhos, que sofrem de uma rara doença associada à fotossensibilidade, ou seja, não são capazes de resistir à exposição à luz, vivendo eternamente em ambientes escuros e iluminados tenuamente por velas. No entanto, a rotina da casa é transformada com a chegada de três misteriosos empregados liderados pela rígida Bertha Mills (Fionnula Flanagan) e com a insistência da filha mais velha, Anne (a ótima Alakina Mann) de que tem constantes visões de um menino fantasma.



Contar o desenrolar da arrepiante história narrada com maestria por Amenabar - inspirado livremente em "A volta do parafuso", de Henry James - é tirar o prazer de, mais uma vez (assim como aconteceu em "O sexto sentido") sentir-se chocado com um dos finais mais assustadores, melancólicos e coerentes do moderno cinema de horror. Sem apelar para ectoplasmas mal-feitos em CGI, o jovem cineasta prova - assim como o fez M. Night Shyamalan - que uma trama forte com personagens críveis e uma direção segura são capazes de operar milagres em um público cada vez mais acostumado a produções sensaboronas. Unindo o clima tétrico da direção de arte e da fotografia claustrofóbica de Javier Aguirresarobe a um elenco irretocável, Amenabar fez milagres.
      
Enquanto Nicole Kidman - em um papel que ela quase recusou, mas acabou aceitando porque o produtor executivo do filme era seu então marido Tom Cruise - demonstra um lado menos festivo de seu talento, com uma atuação angustiante e minimalista que merecia mais uma indicação ao Oscar do que seu trabalho em "Moulin Rouge", seus coadjuvantes não fazem por menos. As crianças Alakina Mann e James Bentley fazem o contraponto perfeito ao desespero de sua atuação e a veterana Fionnula Flanagan é capaz de arrepiar com um simples olhar, em uma das interpretações mais apavorantes da história do gênero.

Feito com economia de recursos mas jamais de talento e inteligência, "Os outros" marca com sutileza seu lugar no panteão das melhores histórias de fantasmas já contadas no cinema.

Thursday, October 6, 2011

PECADO ORIGINAL


PECADO ORIGINAL (Original sin, 2001, MGM Pictures, 116min) Direção: Michael Cristofer. Roteiro: Michael Cristofer, romance "Waltz into darkness", de Cornell Woolrich. Fotografia: Rodrigo Prieto. Montagem: Eric Sears. Música: Terence Blanchard. Figurino: Donna Zakowska. Direção de arte/cenários: David J. Bomba/Beth Rubino. Produção executiva: Sheldon Abend, Ashok Amritraj, David Hoberman. Produção: Denise Di Novi, Kate Guinzburg, Carol Lees. Elenco: Angelina Jolie, Antonio Banderas, Thomas Jane. Elenco: 31/7/01

Os produtores de "Pecado original" seguraram seu lançamento nos cinemas com a intenção de aproveitar o sucesso que o filme "Tomb Raider" - estrelado pela mesma Angelina Jolie - prometia fazer. A estratégia não deu exatamente certo. As aventuras de Lara Croft até que renderam uma grana suficiente para garantir uma sequência, mas o romance erótico estrelado por Jolie e Antonio Banderas mal fez cócegas nas bilheterias americanas. Talvez culpa do clima de filme B da obra, talvez culpa da direção anódina de Michael Cristofer, também autor do filme que catapultou Angelina para a fama, o elogiado "Gia, fama e destruição".

Baseado no conto "Waltz into darkness", de Cornell Woolrich - que também escreveu o conto que deu origem à "Janela indiscreta", de Hitchcock - "Pecado original" (cujo título foi modificado para que a audiência não o confundisse com o musical "Dançando no escuro", de Lars Von Trier, lançado à mesma época) se passa em uma Cuba pré-revolução, quando o milionário do café Luis Vargas (Antonio Banderas, surpreendentemente controlado) arruma, nos EUA, uma noiva por correspondência. Quem chega a seu país é a belíssima e misteriosa Julia Russell (Angelina Jolie, linda e magérrima). Depois de cair de amores por sua esposa, Vargas descobre que foi vítima de um golpe entre a moça e um amante misterioso. Contando com a ajuda de Walter Downs (Thomas Jane), um detetive particular, ele parte em seu encalço, com o objetivo dúbio de matar-lhe ou mais uma vez cair em seus encantos.



Na verdade, "Pecado original" não é nem melhor nem pior que inúmeros exemplares do gênero "mulher fatal seduz homem carente". O roteiro, escrito pelo próprio diretor, tem ritmo razoável, que permite surpresas nas horas certas e muitas e ousadas cenas de sexo, que exploram a beleza do casal central (aliás, desde sua parceria com Pedro Almodovar o espanhol Banderas não se permitia tanta exposição física). O problema do filme é realmente seu visual pobre. Nada contra retratar uma Cuba cinza, úmida e sem o calor que normalmente é mostrado em produções mais comerciais, mas o filme de Cristofer não consegue apagar a impressão de ser extremamente barato e mal-cuidado em termos visuais - e isso que a fotografia é de Rodrigo Prieto, que em poucos anos se mostraria um competente artesão em filmes como "O segredo de Brokeback Mountain" e "Diários de motocicleta".

Repleto de cenas quentes - que muitas vezes tentam compensar a fragilidade de algumas situações e a falta de uma trama mais consistente - "Pecado original" não chega a ser um bom filme, ainda que seja plenamente assistível. Ao final de sua projeção resta apenas a lembrança de seus momentos altamente eróticos e da beleza estonteante de Angelina Jolie. E isso, convenhamos, é muito pouco!

Thursday, September 15, 2011

AMNÉSIA

AMNÉSIA (Memento, 2000, Newmarket Films, 113min) Direção: Christopher Nolan, conto de Jonathan Nolan. Fotografia: Wally Pfister. Montagem: Doddy Dorn. Música: David Julyan. Figurino: Cindy Evans. Direção de arte/cenários: Patti Podesta/Danielle Berman. Produção executiva: Aaron Ryder. Produção: Jennifer Todd, Suzanne Todd. Elenco: Guy Pearce, Joe Pantoliano, Carrie-Anne Moss, Jorja Fox, Stephen Tobolowski, Mark Boone Jr.. Elenco: 20/01/01 (Sundance Festival)

2 indicações ao Oscar: Roteiro Adaptado, Montagem

Uns bons dez anos antes de dar um nó nas cabeças dos espectadores com “A origem”, o cineasta Christopher Nolan já havia demonstrado, da maneira mais feliz possível, seu fetiche em confundir a plateia. Adaptando um conto nunca publicado de autoria de seu irmão, ele escreveu e dirigiu “Amnésia”, um dos mais criativos filmes policiais da história – e por conseguinte, uma das mais bem-sucedidas produções independentes do cinema americano até hoje. Além de alçar à fama imediata seu diretor – que em seguida embalaria uma carreira das mais íntegras no cinemão mainstrean – “Amnésia” também confirmou o talento deu seu protagonista, o australiano Guy Pearce (que fez uma drag-queen em “Priscilla, a rainha do deserto” e um policial almofadinha em “Los Angeles, cidade proibida”). Sucesso absoluto de público e crítica, o filme de Nolan teve motivos de sobra para tamanho alvoroço.

A história de “Amnésia” até parece fácil: depois de um grave incidente que causou a morte de sua esposa, o investigador de seguros de saúde Leonard Shelby (vivido por um Guy Pearce loiríssimo e melhor ator do que nunca) perdeu a capacidade de manter na memória qualquer fato recente. Uma conversa, um rosto, um acontecimento, por mais importantes que possam ser, são esquecidos minutos depois de seu primeiro contato. Esse problema – já desagradável por si mesmo – não seria tão inconveniente se a intenção de Leonard não fosse tão séria: ele planeja vingar-se do homem que causou sua desgraça, um homem cujo nome ele tem certeza de ser John ou James G., segundo a tatuagem em sua perna. Sim, para não esquecer as pistas que coleta em seu caminho, Leonard tatua-as em seu corpo, além de contar com a ajuda de uma providencial máquina polaróide. Em seu caminho em busca de vingança, ele cruza com o aparentemente bem-intencionado Teddy (Joe Pantoliano) e a misteriosa Natalie (Carrie-Anne Moss), nunca deixando de lembrar-se da triste história de um antigo cliente, Sammy Jankins (Stephen Tobolowski).


O que parece fácil em “Amnésia” na verdade não é. Ao contar a angustiante história de Shelby de trás pra frente, o roteiro de Nolan (merecidamente indicado ao Oscar) acerta justamente em proporcionar ao público a possibilidade de extirpar o que mais o incomoda nas dezenas de filmes policiais que chegam às telas anualmente: é absolutamente impossível – ao menos na primeira sessão – adivinhar os caminhos que a trama irá seguir. Sua imprevisibilidade é tamanha que aqui não se tenta adivinhar o que irá acontecer e sim o que aconteceu, como e porque. Além de criativo, o roteiro ainda se dá ao luxo de reservar uma surpresa até mesmo ao mais atento espectador. E o público, que em certos momentos fica tão perdido quanto seu protagonista, chega ao final da sessão com a sensação de que, sim, é preciso revê-lo. E mais uma vez, e outra e outra.... São necessárias incontáveis sessões de “Amnésia” para que toda a sua complexidade seja absorvida. E mesmo assim, uma única resposta nunca será o bastante.

Provando cabalmente que uma boa ideia e uma equipe competente são muito mais importantes do que orçamentos milionários, Christopher Nolan começou, com “Amnésia”, uma lista de produções absolutamente imperdíveis com sua assinatura. É um dos filmes indispensáveis do começo do século XXI. E um dos melhores policiais já realizados.

Tuesday, September 13, 2011

ATÉ O FIM

ATÉ O FIM (The deep end, 2001, 20th Century Fox, 101min) Direção: Scott McGeehe, David Siegel. Roteiro: Scott McGeehe, David Siegel, romance "The blank wall", de Elisabeth Sanxay Holding. Fotografia: Giles Nutgens. Montagem: Lauren Zuckerman. Música: Peter Nashel. Figurino: Sabrina Rosen. Direção de arte/cenários: Kelly McGeehe, Christopher Tandon/Nancy Wenz. Produção executiva: Robert H.Nathan. Produção: Scott McGeehe, David Siegel. Elenco: Tilda Swinton, Goran Visjnic, Jonathan Tucker, Peter Donat, Josh Lucas, Raymond J. Barry. Estreia: 21/01/01 (Sundance Festival)

Todos sabem do que é capaz uma mãe para proteger sua cria, e o cinema é pródigo em provar essa teoria em dezenas de filmes. Mais um exemplo dessa afirmação surge em "Até o fim", produção independente dirigida pela dupla Scott McGeehe e David Siegel. Sucesso nos festivais de Sundance e Cannes, o filme dos dois cineastas aborda o tema com uma alta dose de suspense e é embalado por uma inspiradíssima atuação da sempre ótima Tilda Swinton quase uma década antes de seu Oscar de coadjuvante por "Conduta de risco". Australiana revelada ao mundo na adaptação cinematográfica de "Orlando", de Virginia Woolf, Swinton é dona de um rosto anguloso e uma voz grave, que a distancia da beleza de plástico das estrelas hollywoodianas. Por esse motivo - e por seu enorme talento - sua escolha para protagonizar "Até o fim" foi um tremendo golpe de mestre. Poucas atrizes seriam tão perfeitas no papel principal quanto ela.


Margaret Hall, sua personagem, é uma mulher comum, dona-de-casa dedicada à família, cujo marido está viajando a trabalho e que se vê, repentinamente, às voltas com um problema que é um pesadelo para qualquer mãe. Ao descobrir uma relação homossexual de seu filho Beau (o péssimo Jonathan Tucker, de "Sleepers, a vingança adormecida"), com um homem mais velho e de péssima reputação, o cafajeste Darby Reese (vivido com gosto e cinismo por Josh Lucas), ela tenta separá-los, oferecendo dinheiro para isso. Quando o gigolô aparece morto em sua propriedade - depois de um acidente - Margaret entra em pânico e tenta dar um fim ao corpo, julgando que seu filho é o responsável pelo crime. As coisas começam a dar ainda mais errado, porém, quando uma fita que mostra o rapaz e a vítima fazendo sexo cai nas mãos de uma dupla de chantagistas, que exigem 50 mil dólares para não entregá-la à polícia. Enquanto tenta arrumar o dinheiro, Margaret ainda precisa lidar com a inesperada doença do sogro e com a rotina cotidiana de uma mãe que finge levar uma vida normal. Sua atitude corajosa acaba despertando a simpatia de um dos chantagistas, Alek (o galã Goran Visnjic), o que acaba os direcionando a mais uma tragédia.

"Até o fim" é um filme de suspense atípico. Evita a violência gráfica o máximo possível, amparando-se basicamente no drama psicológico de sua protagonista, vivida com maestria e sutileza por sua intérprete. Ao utilizar recorrentemente a água - como uma marca registrada da elogiada fotografia azulada de Giles Nuttgens - os diretores imprimem uma assinatura visual que também dá ao filme uma atmosfera onírica e claustrofóbica. O final, agridoce e verossímil, encerra com maturidade um produto que merecia mais sorte do que apenas os elogios que recebeu em festivais de cinema. Para isso, no entanto, teria que apelar para os exageros necessários a um êxito comercial maior. Como está, é apenas um biscoito fino para alguns sortudos que esperam mais de um filme do que apenas sustos ocos.

Wednesday, September 7, 2011

O DOM DA PREMONIÇÃO

O DOM DA PREMONIÇÃO (The gift, 2000, Paramount Classics, 112min) Direção: Sam Raimi. Roteiro: Billy Bob Thornton, Tom Epperson. Fotografia: Jamie Anderson. Montagem: Arthur Coburn, Bob Murawski. Música: Christopher Young. Figurino: Julie Weiss. Direção de arte/cenários: Neil Spisak/Marthe Pineau. Produção executiva: Sean Daniel, Gregory Goodman, Ted Tannebaum, Rob Talpert. Produção: James Jacks, Gary Lucchesi, Tom Rosenberg. Elenco: Cate Blanchett, Greg Kinnear, Katie Holmes, Giovanni Ribisi, Keanu Reeves, Hilary Swank, J. K. Simmons, Rosemary Harris, Michael Jeter, Kim Dickens. Estreia: 22/12/00

Certas atrizes têm o dom de transformar o que poderia ser apenas um produto rotineiro de entretenimento em algo acima da média. Uma dessas atrizes é Cate Blanchett. Mesmo em papéis ingratos em filmes menores, a australiana consegue sobressair-se incólume e em alguns casos até mesmo salva produções que sem ela mal seriam lembradas pela maioria dos espectadores. É o caso de “O dom da premonição”, um suspense interessante e bem realizado, mas que, sem sua presença luminosa, seria apenas mais um exemplar de um gênero pouco dado a apresentar obras-primas


À frente de um elenco de astros de grandezas variadas – a oscarizada Hilary Swank em um papel inadequado, o péssimo Keanu Reeves surpreendendo positivamente, o desajeitado Giovanni Ribisi com um personagem carismático, a jovem Katie Holmes em papel ousado e diferente do que fez até então e o simpático canastrão Greg Kinnear tentando dar veracidade a um personagem ingrato – Blanchett sobressai-se sem precisar de muito esforço. No filme de Sam Raimi – às vésperas de encarar sua primeira grande super produção, o blockbuster “Homem-aranha” – ela vive Annie Wilson, uma dona-de-casa, viúva e mãe de três filhos que complementa a renda familiar dando consultas como vidente em uma pequena cidade pantanosa do interior dos EUA. Ajudando seus vizinhos e amigos, principalmente o traumatizado mecânico Buddy (Giovanni Ribisi), ela ainda sofre ameaças de Donnie Barksdeale, um violento marido de uma cliente, Valerie (vividos por Keanu Reeves e Hilary Swank). Sua vida sofre uma reviravolta quando uma jovem da alta classe da cidade, Jessica King (a sempre insossa Katie Holmes) desaparece misteriosamente. Procurada por Wayne Collins, o noivo da moça (papel de Greg Kinnear), que é o diretor da escola onde estudam seus filhos, Annie não consegue negar ajuda, mas acaba colocando sua própria vida em risco.



Co-escrito pelo ator Billy Bob Thornton, o roteiro do filme de Raimi não apresenta grandes novidades, principalmente aos aficcionados do gênero. Nem mesmo a surpresa final chega a ser impactante, apesar do final reservado à personagem de Giovanni Ribisi chegar a ser interessante e emocionante. No entanto, graças à direção criativa de Raimi, que tenta fugir sempre que possível do previsível – apesar de nem sempre conseguir -, ao trabalho superlativo de Blanchett e à trilha sonora de Christopher Young, mantém a atenção até o minuto final, o que não pode ser dito de todos seus congêneres.

Friday, September 2, 2011

CORPO FECHADO

CORPO FECHADO (Unbreakable, 2000, Touchstone Pictures, 106min) Direção e roteiro: M. Night Shyamalan. Fotografia: Eduardo Serra. Montagem: Dylan Tichenor. Música: James Newton Howard. Figurino: Joanna Johnston. Direção de arte/cenários: Larry Fulton/Gretchen Rau. Produção executiva: Gary Barber, Roger Birnbaum. Produção: Barry Mendel, Sam Mercer, M. Night Shyamalan. Elenco: Bruce Willis, Samuel L. Jackson, Robin Wright-Penn, Spencer Treat Clark. Estreia: 14/11/00

O pior fardo que um filme pode carregar é uma expectativa errôneas a seu respeito. E o pior que pode acontecer à carreira de um cineasta cujo primeiro real filme rendeu mais de 600 milhões de dólares mundo afora é justamente frustrar essas expectativas – ainda que o faça com as melhores intenções. Pois foi exatamente isso que aconteceu a M.Night Shyamalan Depois do impressionante êxito comercial e crítico de “O sexto sentido”, todos esperavam que o cineasta fosse dar continuidade a seu estilo e fazer uma réplica de seu sucesso maior. Para surpresa de todos, porém, ele lançou “Corpo fechado”, no qual ele se reinventou brilhantemente. Contando com o mesmo Bruce Willis no papel principal, o filme estreou com uma pesadíssima carga nas costas e o resultado decepcionou aos mais afoitos, em termos de bilheteria. Com menos de 100 milhões arrecadados em território americano, não chegou nem perto do impacto causado pela história do menino que via gente morta. No entanto, apesar dos pesares, “Corpo fechado” ganhou fãs incondicionais ao redor do planeta. E se não for jamais lembrado como o melhor filme de Shyamalan é por um simples motivo comercial: um marketing equivocado.

Vendido pelo estúdio quase como se fosse uma continuação de “O sexto sentido” – o mesmo diretor, o mesmo astro, o mesmo clima de suspense – “Corpo fechado” é, na verdade, um excelente filme de super-herói, que conta as origens do mocinho e do bandido como qualquer boa história baseada em quadrinhos. Sim, não se vê Bruce Willis voando nem em uniformes berrantes e nem tampouco o vilão tem planos megalomaníacos de dominar o mundo – ainda que seja doentio o bastante para tentar manipular o destino. Mas, ao gerar suas personagens sobre-humanas em um universo cotidiano, o cineasta criou uma das tramas mais instigantes e fascinantes do gênero (e de quebra imprimiu a ele seu estilo particular e intrigante).
Bruce Willis (em ótima fase) vive David Dunn, um homem aparente normal que realiza a façanha de ser o único sobrevivente de um desastre de trem carregado de centenas de passageiros. Mais impressionante ainda é o fato de ter saído do acidente sem um arranhão sequer. Tentando reconstruir a vida ao lado da esposa Audrey (Robin Wright Penn em papel oferecido a Julianne Moore) e do filho pequeno, ele conhece o milionário Elijah Price (mais um extraordinário desempenho de Samuel L. Jackson), um empresário fanático por histórias em quadrinhos que o procura com uma séria questão: por que somente ele sobreviveu ao acidente? Buscando a resposta em seu passado, Dunn – que trabalha como segurança em um estádio de futebol – relembra que nunca ficou doente na vida e que talvez tenha uma missão muito importante no mundo.


Apesar da premissa um tanto nerd, “Corpo fechado” é, sem dúvida, um trabalho criativo e inteligente de Shyamalan, mais uma vez utilizando seu talento para construir climas e personagens verossímeis apesar de sua natureza fora do normal. O Elijah vivido por Jackson, por exemplo, é chamado de Mr.Glass devido a uma rara doença que lhe quebra facilmente os ossos do corpo – o que dá origem a uma das cenas de abertura mais impressionantes da década e culmina com um final surpresa coerente e empolgante. A construção visual de Jackson (e do filme como um todo) reitera de forma inequívoca o cuidado do cineasta com cada detalhe do filme, o que lembra mais uma vez o refinamento e a sutileza de Alfred Hitchcock – de quem o diretor rouba inclusive a notória característica de fazer uma ponta em seus trabalhos (aqui ele aparece como um traficante de drogas).

“Corpo fechado” é um típico exemplo de filme que foi injustamente criticado por ter despertado as tais expectativas errôneas. Com o tempo fica mais fácil perceber suas inúmeras qualidades dramáticas e admirá-lo pelo que realmente é: um produto pop com uma inteligência muito acima da média.

Tuesday, August 16, 2011

PREMONIÇÃO

PREMONIÇÃO (Final destination, 2000, New Line Cinema, 98min) Direção: James Wong. Roteiro: Glen Morgan, James Wong, Jeffrey Reddick, estória de Jeffrey Reddick. Fotografia: Robert McLachlan. Montagem: James Coblentz. Música: Shirley Walker. Figurino: Jori Woodman. Direção de arte/cenários: John Willet/Mary-Lou Storey. Produção executiva: Richard Brener, Brian Witten. Produção: Glen Morgan, Craig Perry, Warren Zide. Elenco: Devon Sawa, Ali Larter, Kerr Smith, Kristen Cloke, Seann William Scott, Tony Todd, Amanda Detmer. Estreia: 17/3/00

Depois que a série “Pânico” caiu na mesmice e virou uma espécie de deboche de si mesma, o gênero terror adolescente parecia ter entrado em mais um beco sem saída. Felizmente boas ideias sempre aparecem – em especial em um terreno tão criativo quanto o dos produtores de Hollywood – e diretores promissores sempre estão dispostos a dar sustos na plateia sem apelar para assassinos mascarados. Uma dessas boas ideias – que surgiu para um roteiro nunca escrito de um episódio da série “Arquivo X” – transformou-se em “Premonição”, um filme de suspense jovem, moderno, e o que é mais importante, repleto de uma tensão que a trilogia de Wes Craven só ofereceu em seu primeiro capítulo.

“Premonição” já começa bem, mostrando que seu diretor James Wong – que comandou diversos episódios da série televisiva criada por Chris Carter – sabe o que faz quando resolve criar um clima de suspense. O adolescente Alex (Devon Sawa, do videoclipe “Stan”, do rapper Eminem), a poucos minutos da decolagem de um avião que o levaria e algumas dezenas de estudantes para uma viagem à Paris, tem uma visão de uma terrível explosão da aeronave. Saindo às pressas do avião – junto com meia dúzia de colegas e uma professora, todos furiosos - ele mal tem tempo de testemunhar o desastre, que mata todos os passageiros. Aos poucos, no entanto, os sobreviventes do acidente começam a morrer em circunstâncias bizarras, como se estivessem marcados para morrer e não pudessem enganar a morte.


O mais assustador – e criativo – no filme de Wong é eleger como vilão não um assassino misterioso que apunhala todo mundo de forma quase aleatória. Em “Premonição” todos morrem em acidentes corriqueiros, domésticos, comuns, comprovando a inevitabilidade do destino traçado por algo mais poderoso. A tensão criada pelo cineasta é palpável, nunca permitindo à audiência adiantar-se a respeito da próxima tragédia. Wong se dá ao luxo de utilizar longos minutos na preparação de uma morte para em seguida executar outro jovem em questão de segundos, pegando todo mundo de surpresa. Isso sem falar, é claro, da criatividade do roteiro em elaborar desenlaces bastante inusitados para suas personagens.

“Premonição” não mudou a história do cinema – e deu origem a uma série, que como normalmente acontece, esvaziou sua premissa inicial. Discussões metafísicas e filosóficas passam longe do roteiro, escrito essencialmente para assustar e chocar seu público, em cenas bastante gráficas – o acidente de avião do início do filme, por exemplo, é um primor de execução. Mas sua falta de maiores ambições, o que de certa forma enterrou a série “Pânico”, já lhe garante dourados pontos junto aos fãs do gênero. É um primeiro capítulo empolgante e assustador e um terror adolescente bem acima da média.

Wednesday, August 10, 2011

ALTA FREQUÊNCIA

ALTA FREQUÊNCIA (Frequency, 2000, New Line Cinema, 118min) Direção: Gregory Hoblit. Roteiro: Toby Emmerich. Fotografia: Alar Kivilo. Montagem: David Rosenbloom. Música: Michael Kamen. Figurino: Elisabetta Beraldo. Direção de arte/cenários: Paul Eads/Beth Kushnick, Gordon Sim. Produção executiva: Richard Saperstein, Robert Shaye. Produção: Bill Carraro, Toby Emmerich, Gregory Hoblit, Hawk Koch. Elenco: Dennis Quaid, Jim Caviezel, Elizabeth Mitchell, Noah Emmerich, Andre Braugher, Shawn Doyle, Melissa Errico, Michael Cera. Estreia: 28/04/00

A premissa é inverossímil, mas é impossível negar que “Alta freqüência” é um suspense que cumpre o que promete. O cineasta Gregory Hoblit já havia demonstrado competência com o drama de tribunal “As duas faces de um crime” e aqui, mesmo sem tentar alçar grandes vôos de criatividade, realizou um filme que prende a atenção do início ao fim. Apesar do roteiro com algumas falhas – nenhuma ofensiva, diga-se de passagem – é uma diversão extremamente eficaz. Não é à toa que o filme não fez feio nas bilheterias americanas, arrecadando quase 70 milhões de dólares pelo mundo – vale lembrar que custou pouco mais de 20 (o que seria impraticável se o projeto original tivesse vingado com a direção de Renny Harlin e a protagonização de Sylvester Stallone).

A trama começa em outubro de 1969, em meio a uma aurora boreal (a tênue tentativa do roteiro em explicar os fenômenos da história). O bombeiro Frank Sullivan (Dennis Quaid) perde a vida em um incêndio, deixando viúva a enfermeira Julia (Elizabeth Mitchell) e órfão seu fillho único, o pequeno John, de seis anos de idade. Trinta anos depois, John (já interpretado por Jim Caviezel, alguns anos antes de virar Cristo na obra de Mel Gibson) é um policial com problemas conjugais que vive das lembranças do pai. Durante outra aurora boreal, no entanto, algo inusitado acontece: através de ondas do rádio amador de Frank, John consegue se comunicar com seu pai, no passado. Assustado a princípio, logo John tem uma ideia que parece sensacional e, avisando Frank do acidente que lhe causaria a morte, poupa-lhe a vida. A alegria de ter salvo a vida de seu pai, porém, logo vira pesadelo. Atônitos, pai e filho, em épocas distintas, descobrem que a mudança que causaram no passado causou a morte de várias mulheres, assassinadas por um serial killer. E o pior: uma das vítimas acaba sendo justamente Julia, sua esposa e mãe. Mesmo com três décadas os separando, Frank e John se unem para tentar impedir os crimes, proteger a mulher que amam e por na cadeia o assassino. Desacreditados, eles vêem a situação piorar ainda mais quando, devido a seu envolvimento na tentativa de salvar uma vítima, Frank passa a ser suspeito dos crimes.


Dennis Quaid aproveita uma das melhores fases de sua carreira na pele do destemido e sensível bombeiro Frank Sullivan, mas é o jovem Jim Caviezel quem mais impressiona. Sua personagem, frágil e triste, assume contornos quase mágicos quando passa a conversar com seu pai, com seu melhor amigo e com ele mesmo quando criança. Caviezel está comovente e é uma pena que o diretor não tenha dado mais tempo na tela a esses encontros familiares, preferindo concentrar-se no suspense do roteiro. A opção de Hoblit em focalizar sua história na ação e não no drama priva o público de alguns momentos que poderiam ter sido ainda mais emocionantes, mas sua escolha mostra-se acertada no momento em que o filme, até então com um ritmo todo particular, passa a ser mais filme que aposta suas fichas em cenas de correria e tiroteio. A magia se perde um pouco, mas felizmente o diretor sabe o que faz, proporcionando bem construídas cenas de tensão que não decepcionam os fãs do gênero.

Na contagem final, “Alta freqüência” vale ser conferido. Tem uma história interessante, bons atores e em nenhum momento promete o que não pode oferecer. Essa honestidade faz toda a diferença.

Wednesday, August 3, 2011

PÂNICO 3

PÂNICO 3 (Scream 3, 2000, Dimension Films, 116min) Direção: Wes Craven. Roteiro: Ehren Kruger, personagens criados por Kevin Williamson. Fotografia: Peter Deming. Montagem: Patrick Lussier. Música: Marco Beltrami. Figurino: Abigail Murray. Direção de arte/cenários: Bruce Alan Miller/Gene Serdena. Produção executiva: Cary Granat, Andrew Rona, Bob Weinstein, Harvey Weinstein. Produção: Cathy Konrad, Marianne Maddalena, Kevin Williamson. Elenco: Neve Campbell, Courtney Cox-Arquette, David Arquette, Lieve Schreiber, Patrick Dempsey, Parker Posey, Emily Mortimer, Lance Henriksen, Heather Matarazzo, Jamie Kennedy. Estreia: 03/02/00

Não deixa de ser irônico que um filme como o primeiro “Pânico”, que em 1997 causou a ressurreição do gênero “terror adolescente” ao usar inteligentemente todos os clichês possíveis e imagináveis tenha se transformando em um objeto do próprio deboche. Ao brincar com a temática de filmes como “Sexta-feira 13” e “A hora do pesadelo” – este último criado pelo mesmo Wes Craven que dirigiu “Pânico” – a obra escrita por Kevin Williamson e comandada por Craven rendeu muito mais do que o esperado e tornou-se uma griffe. Mas o que fazia do primeiro filme uma deliciosa sessão de terror acabou se perdendo no meio do caminho entre o original e este seu terceiro capítulo.

Dessa vez o assassino (ou assassinos) que perseguia a jovem Sidney Prescott (a cada vez pior Neve Campbell) começa a massacrar os atores que filmam “A punhalada 3” – sacaram a ironia óbvia? – que é a segunda continuação de um filme de terror que conta a história mostrada no filme original. As pistas seguidas pelo detetive Mark Kincaid (Patrick Dempsey antes de voltar aos holofotes com a série “Gray’s anatomy”) parecem levar à juventude de Maureen, a mãe de Sidney, que, ao que parece, estava envolvida no mundo do cinema. O principal suspeito dos crimes passa a ser um misterioso produtor (vivido por um constrangido Lance Henriksen). E logicamente, Sidney sai de seu anonimato para ajudar a polícia a capturar o criminosoe reencontra seus amigos, a repórter Gale Weathers (Courtney Cox ainda Arquette) e o policial aposentado Dewey (David Arquette).



O que funcionou às mil maravilhas no primeiro capítulo da série continua: as mortes ainda são violentas e a tensão se mantém ocasionalmente. O que deu certo com reservas na segunda parte ainda existe: as citações à cultura pop e as brincadeiras com celebridades  pipocam a cada momento – dessa vez com Carrie Fisher e a dupla Jay & Silent Bob, dos filmes de Kevin Smith.  O elenco coadjuvante também tenta salvar a pátria, em especial a sempre divertida Parker Posey, musa do cinema independente americano dos anos 90 que interpreta uma atriz chegada a laboratórios... Mas fica evidente a falta que faz a presença de Kevin Williamson por trás das páginas do roteiro. A metalinguagem, que é interessante em certos momento e simplesmente banal em outros, é exagerada a ponto de diluir o impacto da revelação do nome do criminoso, um final bastante anti-climático que encerra de maneira apenas regular o que poderia ser uma das trilogias mais bacanas do cinema recente - e que ganhou uma nova vida em 2011.

Monday, July 25, 2011

O TALENTOSO RIPLEY

O TALENTOSO RIPLEY (The talented Mr. Ripley, 1999, Miramax Films/Paramount Pictures, 139min) Direção: Anthony Minghella. Roteiro: Anthony Minghella, romance de Patricia Highsmith. Fotografia: John Seale. Montagem: Walter Murch. Música: Gabriel Yared. Figurino: Gary Jones, Ann Roth. Direção de arte/cenários: Roy Walker/Bruno Cesari. Produção executiva: Sydney Pollack. Produção: William Horberg, Tom Sternberg. Elenco: Matt Damon, Gwyneth Paltrow, Jude Law, Cate Blanchett, Philip Seymour Hoffman, Philip Baker Hall, James Rebhorn, Jack Davenport, Celia Weston. Estreia: 25/12/99

5 indicações ao Oscar: Ator Coadjuvante (Jude Law), Roteiro Adaptado, Trilha Sonora Original, Figurino, Direção de Arte/Cenários

Uma das características dos filmes noir, que fizeram a glória do cinema de suspense dos anos 30 e 40 era a fotografia envolta em brumas, sombras e uma escuridão construída milimetricamente para criar o efeito pretendido. Com o clima montado a história, repleta de reviravoltas e personagens amorais era contada quase como um apêndice ao visual - e em alguns casos a trama era o que menos importava. Subvertendo as regras tanto visuais quanto temáticas do gênero, o diretor Anthony Minghella faz de “O talentoso Ripley” um noir às avessas, com a luz do sol brilhando majestosa em grande parte de sua metragem e uma trama consistente e intrigante cujo desenvolvimento prende o espectador do início ao fim.

Adaptado do livro de Patrícia Highsmith que já havia gerado o clássico francês “O sol por testemunha”, estrelado por Alain Delon, o roteiro de Minghella, em seu primeiro projeto após o multi-oscarizado “O paciente inglês” criou uma personagem inexistente no romance, a milionária Meredith Logue (interpretada com brilhantismo por Cate Blanchett) mas manteve o suspense da história intacto. O protagonista, Tom Ripley (Matt Damon, talvez uma escolha equivocada para o papel central, mas que se sai relativamente bem) é um pobre-coitado que vive de vários empregos e cujo maior talento, como ele mesmo diz, é falsificar documentos, imitar vozes e dar golpes. Confundido com um ex-aluno de Harvard, ele é enviado pelo milionário Greenleaf (James Rehborn) a uma pequena cidade da Itália com o objetivo de convencer seu filho único a voltar para a América. Chegando na Europa, Ripley se apaixona não só pela boa vida dos milionários como também pelo próprio Dickie Greenleaf (Jude Law), um bom-vivant mimado e mulherengo que engana a namorada Marge (Gwyneth Paltrow) descaradamente. Os dois tornam-se amigos, mas a personalidade extrovertida de Dickie e os segredos de Tom acabam por separando-os. Após uma tragédia que vitima Dickie, Tom Ripley assume sua identidade e passa a levar a vida que sempre sonhou. No entanto, o pai de Dickie manda um detetive à procura do filho, que está sendo acusado de um assassinato cometido pelo próprio Ripley.



A trama intrincada montada por Highsmith em seu romance encontra eco no roteiro inteligente de Minghella, que tranqüilamente consegue escapar do previsível, entregando a seu público um produto superior a seu filme mais famoso e premiado. A fotografia ensolarada de John Seale contrasta com a escuridão da vida de Ripley, cuja alma fragmentada não consegue encontrar uma luz. A trilha sonora, que respira jazz de categoria e a reconstituição de época competente completam um dos filmes mais elegantes do ano, que além de tudo revela o talento de Jude Law, com meros 28 anos e roubando descaradamente as cenas em que aparece.

Na pele de Dickie Greenleaf, o britânico Law consegue eclipsar todos à sua volta, com uma atuação sedutora que envolve não apenas as personagens do filme mas também a audiência. Sua presença luminosa é tão forte que quando ele sai de cena, depois da primeira hora de projeção, a impressão que se tem é que o filme perde sua energia. Felizmente o roteiro rocambolesco de Minghella e o elenco não permitem que "O talentoso Ripley" caia na vala comum dos filmes de suspense que privilegiam o sangue em detrimento da inteligência. Além do mais, é um raro caso de adaptação cinematográfica que não ofende os fãs do livro e nem tampouco decepcionam àqueles que buscam um filme realizado com talento e classe.

Os fãs de "O sol por testemunha" estrilaram, mas "O talentoso Ripley" é um filmaço, feito por quem entende do riscado. Infelizmente não foi tão bem recebido quanto "O paciente inglês" - preconceito ao gênero ou à coragem de Minghella em não ocultar o teor homoerótico da história?? - mas merecia melhor sorte no Oscar (ao menos Jude Law poderia tranquilamente ter levado sua estatueta...)

Monday, July 18, 2011

A LENDA DO CAVALEIRO SEM CABEÇA

A LENDA DO CAVALEIRO SEM CABEÇA (Sleepy hollow, 1999, Paramount Pictures, 105min) Direção: Tim Burton. Roteiro: Andrew Kevin Walker, história de Kevin Yagher, Andrew Kevin Walker, romance de Washington Irving. Fotografia: Emmanuel Lubezki. Montagem: Chris Lebenzon, Joel Negron. Música: Danny Elfman. Figurino: Colleen Atwood. Direção de arte/cenários: Rick Heinrichs/Peter Young. Produção executiva: Francis Ford Coppola, Larry Franco. Produção: Scott Rudin, Adam Schroeder. Elenco: Johnny Depp, Christina Ricci, Christopher Walken, Miranda Richardson, Casper Van Dien, Michael Gambon, Jeffrey Jones, Lisa Marie, Christopher Lee. Estreia: 19/11/99

3 indicações ao Oscar: Fotografia, Figurino, Direção de Arte/Cenários
Vencedor do Oscar de Direção de Arte/Cenários

Um conto gótico de terror, estrelado por um detetive exótico, coadjuvado por bruxas e que contata com um vilão sem cabeça só poderia mesmo ser contado por Tim Burton. Em “A lenda do cavaleiro sem cabeça”, o cineasta buscou em uma história clássica americana a inspiração para mais um trabalho autoral, visualmente arrebatador. Dessa vez, porém, ele não conseguiu atingir a força de suas duas obras-primas “Edward Mãos de Tesoura” (1990) e “Ed Wood” (1994), sintomaticamente estreladas pelo mesmo Johnny Depp que aqui completa sua terceira colaboração com Burton.

Dessa vez Depp não interpreta um ser com tesouras no lugar das mãos nem mesmo um cineasta sem talento mas apaixonado por sua arte. Na história escrita no século XIX por Irving Washington e roteirizada por Andrew Kevin Walker (autor de “Seven”) ele vive Ichabod Crane, um detetive de métodos exóticos e passado traumático que é enviado de Nova York para uma cidadezinha do interior chamada Sleepy Hollow para investigar uma série de violentos crimes, onde as vítimas são decapitadas. Chegando no local, Crane logo fica sabendo que todos no vilarejo sabem que o culpado pelas mortes é um temido Cavaleiro Sem Cabeça, que quer vingar seu trágico fim. Sua investigação, no entanto, o leva a crer que os poderosos da cidade sabem bem mais do que revelam e ele então passa a correr sério risco de vida, enquanto se encanta com a doce Katrina (Christina Ricci), que também parece esconder segredos.



O visual de “A lenda do cavaleiro sem cabeça” é espetacular. Não há um ângulo sequer fotografado por Emmanuel Lubezki que não pareça uma pintura. A direção de arte (premiada com o Oscar da categoria) é impecável e algumas cenas são sublimes, apesar da violência. Apesar de tudo, falta ao filme um coração. Talvez por não ser uma história própria, onde poderia aproveitar sua criatividade a toda prova, Burton parece tímido, com medo de envolver-se emocionalmente na trama contada, o que fez muita diferença em seus trabalhos anteriores com Depp, aqui mais uma vez em sua persona cool, ainda que com os mesmos maneirismos de sempre e a eterna mania de parecer diferente e acrescentar um humor duvidoso à sua atuação, o que dilui consideravelmente a tensão da história.

Aliás, a opção de Burton em fugir da seriedade é que de certa forma estraga o prazer que se poderia tirar de "A lenda do cavaleiro sem cabeça". Se tivesse escolhido seguir um caminho mais dark, certamente o diretor faria jus à beleza plástica de sua obra, dando um toque de classe e sobriedade a um gênero que anda sempre perigosamente na corda bamba entre o grotesco e o patético. Nem mesmo a resolução do caso - quando os culpados são finalmente revelados e punidos - empolga dramaticamente, apesar de contar com um elenco de peso, onde destacam-se Miranda Richardson, Jeffrey Jones e um assustador Christopher Walken, que nem precisa falar para impressionar. A impressão que fica ao final da sessão é que algo muito importante ficou faltando. Não resta a menor dúvida de que Tim Burton é um cineasta de enorme talento e energia, mas “A lenda do cavaleiro sem cabeça” tem visual de mais pra história de menos.