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Wednesday, November 30, 2011

A IDENTIDADE BOURNE

A IDENTIDADE BOURNE (The Bourne identity, 2002, Universal Pictures, 119min) Direção: Doug Liman. Roteiro: Tony Gilroy, W. Blake Herron, romance de Robert Ludlum. Fotografia: Oliver Wood. Montagem: Saar Klein. Música: John Powell. Figurino: Pierre-Yves Gayraud. Direção de arte/cenários: Dan Weil/Alexandrine Mauvezin. Produção executiva: Robert Ludlum, Frank Marshall. Produção: Patrick Crowley, Richard N. Gladstein, Doug Liman. Elenco: Matt Damon, Franka Potente, Chris Cooper, Clive Owen, Brian Cox, Adewale Akinnouye-Agbaje, Julia Stiles. Estreia: 14/6/02

Em 1988, uma minissérie feita para a TV americana adaptou o romance "A identidade Bourne", do escritor Robert Ludlum. Estrelada por Richard Chamberlain - conhecido como o ator central da famosa "Pássaros feridos" - a adaptação seguiu fielmente o livro de Ludlum e fez relativo sucesso. Quatorze anos depois, Hollywood resolveu contar a sua versão da história, contando com Doug Liman - da comédia independente "Vamos nessa" - na direção. Depois de ter Brad Pitt e Matthew McConaughey (as primeiras escolhas para o papel central) fora da jogada, Liman não poderia ter tido mais sorte com a escolha de seu protagonista: em seu primeiro papel em filmes de ação, Matt Damon criou um novo modelo a ser seguido em termos de adrenalina.

Ao custo de 60 milhões de dólares, a versão livre de "A identidade Bourne" rendeu mais de 120 milhões somente nos EUA, calando a boca daqueles que não acreditavam que uma trama que mistura espionagem, amnésia e um ator mais conhecido por papéis dramáticos do que por tiroteios e altamente coreografadas cenas de luta não tinha como dar certo. Mas justamente a ousadia na escolha do ator central é que faz toda a diferença: ao contrário de outros filmes de ação em que o protagonista serve apenas e unicamente para quebrar ossos e salvar o mundo, Jason Bourne é uma personagem crível e até certo ponto trágica. E ter um ator competente como Damon o interpretando deixa tudo ainda mais interessante.

Quando o filme começa, um grupo de marinheiros recolhe do Mar Mediterrâneo o corpo inconsciente de um rapaz baleado. Sem memória alguma de sua identidade e de seus passos até o momento, o rapaz tem apenas uma pista a respeito de sua origem: uma tatuagem subcutãnea com o número de uma conta bancária em Zurique. Recuperado dos ferimentos, o jovem segue então em direção à tentativa de descobrir sua origem e, no caminho, topa com a alemã Marie (Franka Potente), que tenta regularizar sua situação no país. Enquanto foge de homens misteriosos que aparentemente querem vê-lo morto (por razões absolutamente desconhecidas por ele), o agora nomeado Jason Bourne (ao menos é o que dizem alguns dos documentos encontrados no cofre do banco suíço) e a assustada Marie partem atrás da solução de um quebra-cabeças que parece ter desdobramentos em altos escalões do governo americano e em um tal projeto Treadstone.

 

A maior qualidade do roteiro de Tony Gilroy - que poucos anos mais tarde disputaria o Oscar de direção por "Conduta de risco" - é o fato de apresentar aos poucos os fatos que levaram o protagonista à situação extrema em que se encontra nas primeiras cenas. É  junto com Bourne que o público vai juntando todos os elementos, todas as ligações queo fizeram passar à condição de fugitivo de algo que ele nem mesmo sabe o que é. E, se ele desperta gradualmente para sua agitada vida pregressa, a edição impressionante de Saar Klein não deixa ninguém chegar perto do tédio: a impressionante perseguição nas estreitas ruas de Paris é uma das mais impactantes cenas do cinema de ação da década, de se assistir com a respiração suspensa e todas as cenas em que Bourne precisa utilizar da força física para manter-se em fuga são extremamente bem dirigidas e realistas. Precisa mais? Pois tem: até mesmo a relação entre Bourne e Marie, ainda que apresentada de maneira rápida demais, soa verdadeira.

"A identidade Bourne" é entretenimento de primeira, entregando ao público ação e inteligência na medida correta. Suas continuações, "A supremacia Bourne" e principalmente "O ultimato Bourne" são ainda melhores, mas é preciso que se tire o chapéu para um dos filmes mais empolgantes de 2002.

Friday, November 11, 2011

ONZE HOMENS E UM SEGREDO

ONZE HOMENS E UM SEGREDO (Ocean's eleven, 2001, Warner Bros, 116min) Direção: Steven Soderbergh. Roteiro: Ted Griffin, roteiro original de Harry Brown, Charles Lederer. Fotografia: Steven Soderbergh (Peter Andrews). Montagem: Stephen Mirrione. Música: David Holmes. Figurino: Jeffrey Kurland. Direção de arte/cenários: Phillip Messina/Kristen Toscano Messina. Produção executiva: Bruce Berman, Susan Ekins, John Hardy. Produção: Jerry Weintraub. Elenco: George Clooney, Brad Pitt, Julia Roberts, Matt Damon, Andy Garcia, Bernie Mac, Elliott Gould, Casey Affleck, Scott Caan, Carl Reiner, Don Cheadle, Angie Dickinson. Estreia: 05/12/01

A impressão que alguns filmes passam ao espectador é a de que o elenco está se divertindo tanto quanto o público. Em alguns casos isso é problemático, mas de vez em quando acaba se tornando um prazer a mais, como se a plateia estivesse sendo convidada a participar de uma festa particular - e muito animada. É mais ou menos isso que acontece com "Onze homens e um segredo", grande sucesso de bilheteria dirigido por Steven Soderbergh logo após seu Oscar pelo sério e compenetrado "Traffic". Refilmagem (muito) livre de um clássico estrelado por Frank Sinatra e Dean Martin em 1960, essa nova versão rendeu quase 200 milhões de dólares só no mercado americano e comprovou o talento versátil do cineasta que derrotou a si mesmo na festa da Academia (ele concorria também por "Erin Brockovich, uma mulher de talento").

A princípio (e sejamos honestos, é exatamente isto) "Onze homens e um segredo" é mais um filme sobre grandes golpes em que a plateia é levada a torcer fervorosamente pelo criminoso (e quando o criminoso é George Clooney fica tudo muito mais fácil). Clooney exercita todo o charme mezzo cafajeste/mezzo carente na pele de Danny Ocean, um bandido boa-pinta que sai em liberdade condicional já de olho em uma nova forma de burlar a lei - e, no caso, seu desafeto Terry Benedict (Andy Garcia), que, além de dono de três cassinos em Las Vegas casou-se com sua ex-mulher, Tess (Julia Roberts em um generoso e bem-humorado segundo plano). Para roubar os três cassinos na mesma noite - durante uma luta de boxe disputadíssima - ele sai em busca do time perfeito, que inclui seu braço-direito Rusty Ryan (um Brad Pitt encantador e hilário), o financiador do golpe Reuben Tishkoff (Elliot Gould, sensacional) e o golpista Linus Caldwell (Matt Damon). Quando a equipe chega a onze pessoas é hora de partir para a ação.


O mais divertido de "Onze homens e um segredo" nem é tanto o desenvolvimento da trama, mesmo porque no fundo todo mundo sabe "o que" irá acontecer (ainda que talvez não desconfiem "como"), mas sim a forma com que Soderbergh parece ter deixado o elenco improvisar e brincar em cima de uma história que se presta lindamente a esse tipo de brincadeira. O próprio filme original era um veículo para o chamado "Rat Pack" (grupo de amigos que incluía, além de Sinatra e Martin, Sammy Davis Jr., Peter Lawford e Joey Bishop). A atualização do bando não poderia ser mais acertada, uma vez que é nítida a química entre os atores - e que suas duas continuações confirmaram ainda mais. Unindo o charme de Clooney ao humor debochado de Pitt e a sensualidade de Julia Roberts não tinha como dar errado. E não deu.

"Onze homens e um segredo" não é um filme para quem busca entretenimento sério e cerebral. É uma piada interna que funciona como diversão inofensiva - além de extremamente bem produzida e surpreendentemente bem escrita (alguns diálogos são engraçadíssimos). Bem fotografado (pelo próprio diretor sob o pseudônimo de Peter Andrews), agilmente editado e inteligente, é quase tudo que se espera de um filme com suas (des)pretensões.

Monday, July 25, 2011

O TALENTOSO RIPLEY

O TALENTOSO RIPLEY (The talented Mr. Ripley, 1999, Miramax Films/Paramount Pictures, 139min) Direção: Anthony Minghella. Roteiro: Anthony Minghella, romance de Patricia Highsmith. Fotografia: John Seale. Montagem: Walter Murch. Música: Gabriel Yared. Figurino: Gary Jones, Ann Roth. Direção de arte/cenários: Roy Walker/Bruno Cesari. Produção executiva: Sydney Pollack. Produção: William Horberg, Tom Sternberg. Elenco: Matt Damon, Gwyneth Paltrow, Jude Law, Cate Blanchett, Philip Seymour Hoffman, Philip Baker Hall, James Rebhorn, Jack Davenport, Celia Weston. Estreia: 25/12/99

5 indicações ao Oscar: Ator Coadjuvante (Jude Law), Roteiro Adaptado, Trilha Sonora Original, Figurino, Direção de Arte/Cenários

Uma das características dos filmes noir, que fizeram a glória do cinema de suspense dos anos 30 e 40 era a fotografia envolta em brumas, sombras e uma escuridão construída milimetricamente para criar o efeito pretendido. Com o clima montado a história, repleta de reviravoltas e personagens amorais era contada quase como um apêndice ao visual - e em alguns casos a trama era o que menos importava. Subvertendo as regras tanto visuais quanto temáticas do gênero, o diretor Anthony Minghella faz de “O talentoso Ripley” um noir às avessas, com a luz do sol brilhando majestosa em grande parte de sua metragem e uma trama consistente e intrigante cujo desenvolvimento prende o espectador do início ao fim.

Adaptado do livro de Patrícia Highsmith que já havia gerado o clássico francês “O sol por testemunha”, estrelado por Alain Delon, o roteiro de Minghella, em seu primeiro projeto após o multi-oscarizado “O paciente inglês” criou uma personagem inexistente no romance, a milionária Meredith Logue (interpretada com brilhantismo por Cate Blanchett) mas manteve o suspense da história intacto. O protagonista, Tom Ripley (Matt Damon, talvez uma escolha equivocada para o papel central, mas que se sai relativamente bem) é um pobre-coitado que vive de vários empregos e cujo maior talento, como ele mesmo diz, é falsificar documentos, imitar vozes e dar golpes. Confundido com um ex-aluno de Harvard, ele é enviado pelo milionário Greenleaf (James Rehborn) a uma pequena cidade da Itália com o objetivo de convencer seu filho único a voltar para a América. Chegando na Europa, Ripley se apaixona não só pela boa vida dos milionários como também pelo próprio Dickie Greenleaf (Jude Law), um bom-vivant mimado e mulherengo que engana a namorada Marge (Gwyneth Paltrow) descaradamente. Os dois tornam-se amigos, mas a personalidade extrovertida de Dickie e os segredos de Tom acabam por separando-os. Após uma tragédia que vitima Dickie, Tom Ripley assume sua identidade e passa a levar a vida que sempre sonhou. No entanto, o pai de Dickie manda um detetive à procura do filho, que está sendo acusado de um assassinato cometido pelo próprio Ripley.



A trama intrincada montada por Highsmith em seu romance encontra eco no roteiro inteligente de Minghella, que tranqüilamente consegue escapar do previsível, entregando a seu público um produto superior a seu filme mais famoso e premiado. A fotografia ensolarada de John Seale contrasta com a escuridão da vida de Ripley, cuja alma fragmentada não consegue encontrar uma luz. A trilha sonora, que respira jazz de categoria e a reconstituição de época competente completam um dos filmes mais elegantes do ano, que além de tudo revela o talento de Jude Law, com meros 28 anos e roubando descaradamente as cenas em que aparece.

Na pele de Dickie Greenleaf, o britânico Law consegue eclipsar todos à sua volta, com uma atuação sedutora que envolve não apenas as personagens do filme mas também a audiência. Sua presença luminosa é tão forte que quando ele sai de cena, depois da primeira hora de projeção, a impressão que se tem é que o filme perde sua energia. Felizmente o roteiro rocambolesco de Minghella e o elenco não permitem que "O talentoso Ripley" caia na vala comum dos filmes de suspense que privilegiam o sangue em detrimento da inteligência. Além do mais, é um raro caso de adaptação cinematográfica que não ofende os fãs do livro e nem tampouco decepcionam àqueles que buscam um filme realizado com talento e classe.

Os fãs de "O sol por testemunha" estrilaram, mas "O talentoso Ripley" é um filmaço, feito por quem entende do riscado. Infelizmente não foi tão bem recebido quanto "O paciente inglês" - preconceito ao gênero ou à coragem de Minghella em não ocultar o teor homoerótico da história?? - mas merecia melhor sorte no Oscar (ao menos Jude Law poderia tranquilamente ter levado sua estatueta...)

Thursday, June 2, 2011

CARTAS NA MESA

CARTAS NA MESA (Rounders, 1998, Miramax Films, 121min) Direção: John Dahl. Roteiro: David Levien, Brian Koppelman. Fotografia: Jean-Yves Escoffier. Montagem: Scott Chestnut. Música: Christopher Young. Figurino: Terry Dresbach. Direção de arte/cenários: Rob Pearson/Beth Kushnick. Produção executiva: Bobby Cohen, Harvey Weinstein, Bob Weinstein. Produção: Ted Demme, Joel Sttilerman. Elenco: Matt Damon, Edward Norton, Gretchen Mol, John Turturro, John Malkovich, Martin Landau, Famke Janssen. Estreia: 11/9/98

Em 1994, o cineasta americano John Dahl recebeu os maiores elogios de sua carreira graças a um filme cuja estreia na televisão o impediu de percorrer as cerimônias de premiação. "O poder da sedução", além de dar um impulso à carreira da atriz Linda Fiorentino (carreira essa que não correspondeu às expectativas), mostrou que Dahl tinha um grande potencial para conduzir tramas rocambolescas com estilo noir. Depois de assinar o suspense "Inesquecível" - estrelado pela mesma Linda Fiorentino e Ray Liotta - ele assumiu a direção de "Cartas na mesa", um drama de suspense passado no mundo do pôquer que teve a sorte suprema de contar com dois atores em franca ascensão: Matt Damon e Edward Norton. São os dois, em atuações inspiradas, que transformaram um filme de interesse limitado em um relativo sucesso.

Mike McDermott (vivido por um Matt Damon dando seguimento a  uma carreira consistente) é um jovem estudante de Direito que, após perder fortunas em mesas de pôquer, deixou o jogo de lado e leva uma vida regrada ao lado da namorada Jo (Gretchen Moll), que sabe de seu passado e o incentiva a manter-se na linha. Tudo corre bem em sua vida tranquila até que ele reencontra seu amigo Lester "Worm" Murphy (Edward Norton), que sai da cadeia já completamente endividado e enrascado com o assustador Teddy KGB (John Malkovich), integrante da máfia russa. Para ajudar o amigo, Mike volta às rodas de jogo, redescobrindo seu prazer e sua tensão.


Belamente fotografado por Jean-Yves Escoffier, "Cartas na mesa" sofre do mesmo problema de todos os filmes cujo tema é algo muito específico - a falta de interesse do resto do público - mas tem a seu favor o talento de Dahl e de sua dupla central de atores (além de um elenco coadjuvante que por pouco não rouba a cena). Mesmo que em vários momentos seja atrapalhado por sua lentidão, é um filme que foge das tradicionais reviravoltas do gênero, preferindo contar sua história aos poucos. Se ganha em consistência dramática, perde em ritmo. No entanto, apresenta atuações tão inteligentes que fica difícil desgrudar os olhos da tela.

Se Matt Damon segura muito bem seu papel principal, ele é amparado por um elenco notável. Martin Landau e John Turturro estão irretocáveis em suas participações, mas são as interpretações de Edward Norton e John Malkovich que fascinam a audiência. Aparentemente dono de um talento inesgotável, o jovem Norton cria um Lester Murphy que mescla a arrogância da juventude com o desespero de um ex-presidiário e Malkovich utiliza de detalhes cênicos para construir um vilão apavorante, ainda que bastante verossímil. Seu sotaque russo e seus olhares são o que há de mais marcante no filme, a despeito da qualidade de seus colegas de cena.

"Cartas na mesa" não é um filme genial (e mesmo que não seja crucial o conhecimento das regras de pôquer ele ocupa um lugar de muito destaque no roteiro), mas é entretenimento de qualidade, em especial devido a seu elenco bem dirigido e ao cuidado em não afastar o público para quem jogos de carta não significam absolutamente nada. Ainda que seja razoavelmente previsível em seu terço final, é um belo exemplo de como um cineasta eficiente e atores inspirados podem fazer toda a diferença.

Monday, May 30, 2011

O RESGATE DO SOLDADO RYAN

O RESGATE DO SOLDADO RYAN (Saving Private Ryan, 1998, Amblin Entertainment/DreamWorks Pictures, 169min) Direção: Steven Spielberg. Roteiro: Robert Rodat. Fotografia: Janusz Kaminski. Montagem: Michael Kahn. Música: John Williams. Figurino: Joanna Johnston. Direção de arte/cenários: Tom Sanders/Lisa Dean Kavanaugh. Produção: Ian Bryce, Mark Gordon, Gary Levinsohn, Steven Spielberg. Elenco: Tom Hanks, Edward Burns, Tom Sizemore, Matt Damon, Jeremy Davies, Vin Diesel, Giovanni Ribisi, Dennis Farina, Paul Giamatti, Ted Danson, Adam Goldberg. Estreia: 24/7/98

11 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Steven Spielberg), Ator (Tom Hanks), Roteiro Original, Fotografia, Montagem, Trilha Sonora Original/Drama, Direção de arte/cenários, Som, Efeitos Sonoros, Maquiagem
Vencedor de 5 Oscar: Diretor (Steven Spielberg), Fotografia, Montagem, Som, Efeitos Sonoros
Vencedor de 2 Golden Globes: Melhor Filme/Drama, Diretor (Steven Spielberg)

Depois de ter ganho seus esperados (e merecidíssimos!) Oscar por "A lista de Schindler", era esperado que Steven Spielberg entrasse naquele limbo que muitas vezes aprisiona os escolhidos da Academia. A desnecessária continuação de "Jurassic Park" e o sonolento "Amistad" também acenavam em direção a essa possibilidade. Mas eis que, surpreendendo a todos, o homem que foi chamado de "o Peter Pan do cinema" mostrou que sua maturidade artística ainda estava por vir. Novamente visitando a II Guerra Mundial, mas sob uma nova ótica,  Spielberg lançou "O resgate do soldado Ryan", um dos mais espetaculares filmes de guerra da história. Indicado a 11 Oscar e favorito ao prêmio máximo, o assustador retrato do conflito que matou milhares de pessoas pelo mundo bateu de frente com o bonitinho "Shakespeare apaixonado" e foi relegado apenas a quatro prêmios técnicos e a estatueta de melhor diretor. Ainda que o vencedor do ano seja simpático e inteligente, são as imagens fortes e dolorosas de "Ryan" que vão ficar marcadas na história do cinema.

E essas imagens fortes e dolorosas já atingem a plateia em seus primeiros momentos, contrariando a regra de deixar-se o clímax para o final. São vinte minutos de extrema violência mostrada sem poesia e retoques: um pelotão de soldados americanos desembarca na Normandia em de junho de 1945, no famigerado Dia D, e a câmera nervosa de Spielberg e do diretor de fotografia Janusz Kaminski jogam o público em um confronto onde sangue, suor, mar e areia se confundem. E é nessa sequência impecável que é apresentando o protagonista, o Capitão John Miller, vivido por um intenso e discreto Tom Hanks, merecidamente indicado ao Oscar de melhor ator. É a Miller que caberá a missão que dará origem à verdadeira trama do filme, escrita com precisão por Robert Rodat (também concorrente à estatueta): como uma espécie de jogada de relações públicas, o exército norte-americano resolve tirar do conflito o único sobrevivente de uma família cujos filhos foram todos vitimados na mesma campanha. Para isso, ordena a Miller que, juntamente com um grupo de soldados escolhidos a dedo, saia à procura do jovem James Francis Ryan (Matt Damon). Mesmo questionando a lógica da missão (arriscar a vida de oito homens para salvar apenas um), Miller tem integridade o bastante para cumprí-la. Sendo assim, une-se a o Sargento Mike Horrath (Tom Sizemore) e a outros recrutas em busca do rapaz.



Como normalmente acontece em filmes de guerra, o destino não é tão importante quanto o percurso. Buscando o paradeiro de Ryan, o Capitão Miller e seus subordinados testemunham os horrores da guerra (como se já não o tivessem sofrido na pele, anteriormente), experimentando toda a sua glória e suas mesquinharias, sua grandiosidade e sua covardia. É sintomático que os próprios soldados tenham personalidades paradoxais, o que incentiva o conflito entre eles mesmo que eles precisem desesperadamente de uma união, por mais frágil que ela possa parecer. Sendo assim estão reunidos o fervoroso católico Daniel Jackson (Barry Pepper) e o furioso judeu Stanley Mellish (Adam Goldberg), o beligerante Adrian Caparzo (Vin Diesel em seu primeiro papel de destaque) e o inexperiente Timothy Upham (Jeremy Davies), o médico Irwin Wade (Giovanni Ribisi) e o implicante nova-iorquino Richard Reiben (o diretor e roteirista Edward Burns, muito bem em cena). Unidos como pelotão e sozinhos em suas individualidades, eles apresentam à audiência um retrato fiel e assustador da guerra, deixando pouco espaço para o sentimentalismo típico do cineasta.

A fúria com que "O resgate do soldado Ryan" atinge o espectador é comparável com o enorme sucesso de bilheteria do filme de Spielberg. Apesar de sua violência explícita, o filme arrecadou mais de 200 milhões de dólares somente no mercado americano, tendo mais do que dobrado sua renda ao redor do mundo. Dirigido com um domínio invejável da técnica cinematográfica - sem que a preocupação com as personagens fosse deixada de lado - e dotado de uma força dramática arrebatadora, é um dos filmes indispensáveis dos anos 90 e quiçá o melhor de seu gênero na história do cinema. É, também, o último grande filme de seu diretor até a data. Seu Oscar de direção foi mais do que merecido: foi obrigatório.

Wednesday, April 20, 2011

GÊNIO INDOMÁVEL

GÊNIO INDOMÁVEL (Good Will Hunting, 1997, Miramax Films, 126min) Direção: Gus Van Sant. Roteiro: Matt Damon, Ben Affleck. Fotografia: Jean Yves Escoffier. Montagem: Pietro Scalia. Música: Danny Elfman. Figurino: Beatrix Aruna Pasztor. Direção de arte/cenários: Melissa Stewart/Jaro Dick. Produção executiva: Su Armstrong, Jonathan Gordon, Bob Weinstein, Harvey Weinstein. Produção: Lawrence Bender. Elenco: Matt Damon, Robin Williams, Minnie Driver, Stellan Skarsgard, Ben Affleck, Casey Affleck, Cole Hauser. Estreia: 05/12/97

9 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Gus Van Sant), Ator (Matt Damon), Ator Coadjuvante (Robin Williams), Roteiro Original, Montagem, Trilha Sonora Original/Drama, Canção ("Miss Misery")
Vencedor de 2 Oscar: Ator Coadjuvante (Robin Williams), Roteiro Original
Vencedor do Golden Globe de Melhor Roteiro
Vencedor do SAG Awards de Ator Coadjuvante (Robin Williams)

De vez em quando, Hollywood lembra que o público, tão prestimoso em correr às salas exibidoras para testemunhar cenas de ação e violência aos borbotões, também gosta de acompanhar histórias delicadas sobre gente normal cuja maior missão - ao invés de salvar o mundo de uma ameaça terrorista - é definir os rumos que sua vida pessoal irá tomar em relação ao futuro. E é sobre  pessoas normais, comuns, quase invisíveis que trata "Gênio indomável", uma das maiores surpresas da temporada 1997. Escrito por Matt Damon e Ben Affleck, dois atores até então desconhecidos e com pouco mais de 20 anos (que o escreveram como forma de fazer acontecer suas carreiras), o drama produzido pela Miramax Films - o maior fabricante de oscarizáveis da década - é um típico produto feito para encantar os eleitores da Academia e o público adulto fã de boas histórias. Não é inesquecível, mas cumpre muito bem o que promete.

Dando início a uma carreira bem-sucedida, Matt Damon - que concorreu ao Oscar contra veteranos do porte de Dustin Hoffman e Jack Nicholson em uma atuação contida mas muito convincente - vive o protagonista, Will Hunting, um jovem desajustado que, vítima de lares adotivos desfuncionais, expressa toda sua raiva em brigas de rua com seu grupo de amigos. Figurinha fácil nas ocorrências policiais, ele é salvo de ficar na cadeia por Gerald Lambeau (Stelan Skarsgaard), um professor de matemática premiado com medalhas de honra por seu talento. Impressionado com a inteligência extraordinária de Hunting - que trabalha como faxineiro na instituição mas é capaz de resolver os mais complexos problemas matemáticos -  Lambeau se compromete diante do juiz a ajudar o rapaz a encontrar um caminho mais saudável na vida. Para isso, ele conta com a ajuda de Sean Maguire (Robin Williams), um terapeuta que conhece desde a juventude. Viúvo e recluso, Sean tenta fazer com que Will aprenda a lidar com sua fúria inerente e a direcione para uma vida menos sofrida e mais realizada, deixando de lado seus traumas de infância.  Enquanto isso, Will começa a se envolver com a doce Skylar (Minnie Driver), uma jovem estudante de Medicina que tenta romper a barreira emocional que o rodeia.



O roteiro de Damon e Affleck - vencedor de um Oscar questionável, uma vez que o disputou com "Boogie Nights" e "Melhor é Impossível" - não tenta ser espetacular. É redondo, é simples e, acima de tudo, é humano. Mesmo que esbarre em soluções um tanto fáceis e exagere na genialidade de seu protagonista, é um filme que prescinde de elementos outros além de diálogos e atores. Os diálogos são fluentes, inocentes (nas relações entre Will e seus amigos) e por vezes bastante interessantes (como nas cenas entre o protagonista e Sean). Nunca chegam a ser brilhantes, mas são muito superiores à média. E além de tudo, a trama paralela, que envolve a rivalidade entre Lambeau e Maguire é tão poderosa quanto a história principal, graças principalmente às atuações de Stelan Skarsgaard e Robin Williams, o último mais uma vez emprestando um carisma gigantesco a uma personagem - e que lhe rendeu um carinhoso Oscar de ator coadjuvante.
A Academia, aliás, rendeu-se incondicionalmente a "Gênio indomável". Indicado a 9 Oscar - inclusive filme, direção e uma inexplicável lembrança para Minnie Driver como coadjuvante feminina - e premiado com 2 estatuetas (além de Williams o roteiro também foi contemplado), o filme deu ao até então outsider Gus Van Sant a legitimização da indústria. Logicamente, a ousadia presente em filmes como "Drugstore Cowboy" e "Garotos de programa" nem passa perto desse seu filme família, o que incomodou profundamente seus fãs - que ainda teriam que aguentar seu desnecessário remake de "Psicose" e o ultra-meloso "Procurando Forrester". A direção de "Gênio indomável" é quase burocrática, nada inventiva e muito menos corajosa (em sua defesa é preciso dizer que o roteiro também não ajuda nesse quesito...), mas é elegante e dotada de um belo ritmo, além de não atrapalhar no desenvolvimento da história. É um trabalho apenas correto, que não justifica sua indicação ao Oscar (principalmente se levarmos em conta que Paul Thomas Anderson, de "Boogie nights", ficou de fora na categoria).

Enfim, não é preciso ter um cérebro privilegiado para perceber, em "Gênio indomável", uma profusão de clichês. Porém, da forma como colocados pelos roteiristas e pelo experiente Van Sant, eles soam não como lugares-comuns que incomodam e constrangem. Muito pelo contrário, os clichês de certa forma dão unidade ao filme, são como uma espécie de abrigo contra criatividades exageradas. "Gênio indomável" é caloroso, terno e honesto. É um belo conto sobre pessoas corajosas que lutam pelo direito a transformar o seu destino. E por isso emociona tanta gente.

Tuesday, April 12, 2011

O HOMEM QUE FAZIA CHOVER

O HOMEM QUE FAZIA CHOVER (The rainmaker, 1997, American Zoetrope/Constellation Entertainment/Douglas/Reuther Productions, 135min) Direção: Francis Ford Coppola. Roteiro: Francis Ford Coppola, Michael Herr, romance de John Grisham. Fotografia: John Toll. Montagem: Barry Malkin. Música: Elmer Bernstein. Figurino: Aggie Guerard Rodgers. Direção de arte/cenários: Howard Cummings/Barbara Munch. Produção: Michael Douglas, Fred Fuchs, Steven Reuther. Elenco: Matt Damon, Claire Danes, Danny DeVito, Mickey Rourke, Roy Scheider, Virginia Madsen, Mary Kay Place, Jon Voight, Dean Stockwell, Teresa Wright. Estreia: 18/11/97

Francis Ford Coppola é um cineasta de extremos. Ou tem lapsos da mais absoluta genialidade e produz filmes definitivos como "O poderoso chefão" e "Apocalypse now" ou assina fracassos estrondosos como "O fundo do coração" e "Tucker, um homem e seu sonho" (que, a despeito de sua qualidade fazem parte de uma nada lisonjeira lista de prejuízos absolutos). Por isso, não deixa de ser estranho ver seu nome estampado nos créditos de "O homem que fazia chover", mais uma adaptação para o cinema de um livro de John Grisham. Não que o filme tenha sido um erro total ou um furo comercial - mas porque em nenhum momento dos seus longos 135 minutos se percebe o talento visionário e a paixão que imprimiu em seus melhores trabalhos. "O homem que fazia chover" é um ótimo drama de tribunal - que felizmente não se resume somente às cenas do julgamento em si - mas, se é uma das melhores recriações da obra de Grisham para as telas, é apenas um filme correto dentro da filmografia genial de seu diretor.

Como sempre acontece nas histórias de Grisham, o protagonista é um advogado o jovem Rudy Baylor (Matt Damon) acaba de formar-se em Direito e, antes mesmo de passar no exame da Ordem, é contratado pela firma do misterioso Bruiser Stone (Mickey Rourke), para onde leva dois casos dos quais já cuidava; o testamento da velha senhora Birdie (Teresa Wright) - em cujo apartamento dos fundos ele mora, e um importante caso contra uma empresa de planos de saúde, que se recusa a pagar o tratamento de leucemia do jovem Donny Ray Black (Johnny Whitworth). Enquanto tenta levar o poderoso à julgamento - contando com a ajuda do colega Deck Shifflet (Danny DeVito),cujo maior talento é aliciar possíveis clientes em hospitais e delegacias - Baylor se apaixona por Kelly Riker (Claire Danes), uma jovem vítima de um marido abusivo.


O que há de melhor em "O homem que fazia chover" é a sua narrativa clássica e linear. Diferentemente do que fez em "Drácula de Bram Stoker", quando abusou de sua veia criativa em sequência de poesia ímpar que expandiam a trama criada pelo autor irlandês, aqui o cineasta se atém a contar a história imaginada por Grisham, sem apelar para efeitos de luz e sombra ou subterfúgios outros. O público que se dispor a assistir ao filme é presenteado com uma história simples de bem contra o mal - um tanto maniqueísta, sim, mas interessante o suficiente para manter a atenção até o final. E é fundamental para que a audiência torça por seu protagonista que ele seja vivido por um ator como Matt Damon. Em vias de tornar-se queridinho de Hollywood por "Gênio indomável" - que lhe deu um Oscar de roteiro original - Damon é a perfeita encarnação do rapaz boa-pinta, de bom coração e sensível com que a plateia pode (e deve) identificar-se. Sua escalação, um golpe de mestre de Coppola, dá o tom exato do que é "O homem que fazia chover": um filme simples, sem maiores sofisticações.

Mas por simples que não se entenda simplório. Apesar de não buscar soluções inéditas ou enquadramentos mirabolantes de câmera, Coppola não se descuida do roteiro - que ele mesmo adaptou. Ainda que as personagens não sejam exatamente multidimensionais, elas proporcionam a seus atores boas oportunidades de demonstrar seu talento. Mary Kay Place dá o tom exato a sua Dot Black, a mãe do jovem Donny Ray, uma mulher determinada a não deixar que o sofrimento de seu filho passe em branco. Danny DeVito brilha como o divertido Deck Shifflet e até mesmo coadjuvantes rápidos - como Dean Stockwell e Virginia Madsen - estão em momentos bastante inspirados. Talvez nesse cuidado com a direção de atores esteja mais claro o envolvimento do cineasta com o projeto, cujo resultado final recebeu a total aprovação de seu criador. De todas as adaptações de livros seus feitos por Hollywood, "O homem que fazia chover" é a preferida de John Grisham.

"O homem que fazia chover" é competente, é extremamente bem feito e tem um elenco exemplar. Não é nem de longe o melhor Francis Ford Coppola da história, mas é entretenimento de primeira linha e é bem capaz de empolgar os fãs do gênero.

Friday, March 4, 2011

CORAGEM SOB FOGO

CORAGEM SOB FOGO (Courage under fire, 1996, Fox 2000 Pictures, 117min) Direção: Edward Zwick. Roteiro: Patrick Sheane Duncan. Fotografia: Roger Deakins. Montagem: Steven Rosenlblum. Música: James Horner. Figurino: Francine Jamison-Tanchuck. Direção de arte/cenários: John Graysmark/Rick Gentz. Produção executiva: Joseph M. Caracciolo, Debra Martin Chase. Produção: John Davis, David T. Friendly, Joseph M. Singer. Elenco: Denzel Washington, Meg Ryan, Lou Diamond Phillips, Michael Moriarty, Matt Damon, Zeljko Ivanek, Sean Astin, Sean Patrick Thomas. Estreia: 12/7/96

O primeiro filme de um grande estúdio hollywoodiano a respeito do conflito do Iraque não foi uma obra exatamente do gênero que todos poderiam esperar. Ao contrário de um convencional filme de guerra, "Coragem sob fogo", dirigido pelo competente Edward Zwick, é um drama sobre pessoas, acima de qualquer outra coisa. Mesmo contando com algumas sequências que retratam com bastante fidelidade as batalhas travadas entre americanos e iraquianos, o cerne do roteiro de Patrick Sheane Duncan - autor do script de "Mr. Holland, adorável professor" - é a dificulade do Tenente Nat Serling (Denzel Washington) em lidar com uma tragédia ocorrida em combate ao mesmo tempo que investiga a verdade sobre a morte da primeira oficial norte-americana cotada para uma Medalha de Honra do exército.

Seguindo a estrutura do clássico "Rashomon", de Akira Kurosawa, "Coragem sob fogo" começa quando o Tenente Serling, por engano, vitima alguns colegas durante uma batalha no deserto. Extremamente abalado pelo trágico acontecimento, ele recebe a missão de apurar as circunstâncias da morte de Karen Walden (Meg Ryan), uma capitã que morreu depois de ter salvo a vida de soldados ameaçados pelos inimigos. Indicada para receber a maior homenagem do exército americano, ela torna-se objeto de uma dedicada investigação por parte do oficial em crise de consciência. Serling acaba se vendo diante de subordinados de Walden contando histórias diferentes da morte de sua líder: enquanto o jovem Ilario (Matt Damon, quase vinte quilos mais magro do que o normal) a considera uma mulher corajosa e heróica, o rebelde Monfriez (Lou Diamond Phillips, de "La Bamba") a vê como uma covarde que arriscou a vida de seu pelotão. Cabe a Sterling definir o que é verdade e o que não é.


"Coragem sob fogo" estreou nos EUA cercado de muita expectativa e um burburinho que o classificava como o primeiro filme do ano "com cara de Oscar". No entanto, fazendo um sucesso apenas relativo nas bilheterias, acabou sendo ignorado em todas as cerimônias importantes. Antes que seja taxado de injustiçado, porém, é preciso que se tenha a frieza de perceber que, apesar dos talentos envolvidos e do tema momentoso, é um filme que fica longe de ser tão empolgante quanto promete. Longe de ser ruim - tem qualidades gritantes, tanto técnica quanto artisticamente - também não consegue impressionar sua audiência, ao contrário do filme anterior do cineasta, o dramaticamente superior "Lendas da paixão".

Talvez o maior problema no roteiro de "Coragem sob fogo" seja a decisão de contar duas histórias simultaneamente. Provavelmente para não deixar que Denzel Washington fosse apenas um coadjuvante da trama bem mais interessante que cerca a morte de Karen Walden, inventaram para sua personagem uma tragédia inicial que pouco acrescenta ao resultado final. Já iniciando sua fase de ser mais Denzel Washington do que qualquer personagem, o oscarizado ator mesmo assim tem pouco a fazer, sendo eclipsado pelo elenco coadjuvante. Se Matt Damon pouco foi percebido pela crítica por seu belo trabalho - mas não por Francis Ford Coppola, que o escalou para "O homem que fazia chover" - toda a mídia não se furtou a tecer loas encantadas com a atuação de Lou Diamond Phillips, como o quase psicótico soldado Monfriez. Os elogios a Phillips não foram exagerados: sua interpretação é forte, com uma potência dramática que se avoluma a cada cena, até explodir em uma climática sequência que esclarece todas as dúvidas - tanto do Tenente Serling quanto da audiência.

Mas é inegável que o grande diferencial de "Coragem sob fogo" - além de ter inaugurado o filão de filmes sobre o Iraque - é a escalação de Meg Ryan para o papel crucial da Capitã Karen Walden. Conhecida do grande público por seus papéis de mocinha em comédias românticas como "Sintonia de amor", Ryan tentou uma guinada na carreira, na pele de uma complexa líder militar. Não apenas por ser uma soldada - com toda a preparação física que o papel exige - Karen Walden proporcionou a ela a chance de mostrar todas as nuances de seu trabalho. Nem sempre ela consegue, mas é bem sucedida ao fazer com que todos esqueçam que ela é a mesma atriz responsável pelo orgasmo falso mais conhecida da história do cinema, em "Harry & Sally, feitos um para o outro". Esforçada, ela não tem culpa se o roteiro não explora a contento todas as probabilidades que poderia.

Fotografado com maestria por Roger Deakins - um dos melhores profissionais em sua área - e editado com competência ímpar (além de utilizar os efeitos de som com inteligência), "Coragem sob fogo" é um filme que prende a atenção do espectador até seus momentos finais, podendo até mesmo surpreendê-lo com suas viradas. Não é um petardo como "O resgate do soldado Ryan", por exemplo, mas é um filme que reitera o talento de Edward Zwick em transitar entre diversos gêneros sem nunca perder a elegância.