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Tuesday, November 29, 2011

A SOMA DE TODOS OS MEDOS

A SOMA DE TODOS OS MEDOS (The sum of all fears, 2002, Paramount Pictures, 124min) Direção: Phil Alden Robinson. Roteiro: Paul Attanasio, Daniel Pyne, romance de Tom Clancy. Fotografia: John Lindley. Montagem: Nicholas de Toth, Neil Travis. Música: Jerry Goldsmith. Figurino: Marie-Sylvie Deveau. Direção de arte/cenários: Jeannine Oppewall/Cindy Carr. Produção executiva: Tom Clancy, Sttarton Leopold. Produção: Mace Neufeld. Elenco: Ben Affleck, Morgan Freeman, James Cromwell, Ken Jenkins, Ron Rifkin, Bridget Monayhan, Liev Schreiber, Philip Baker Hall, Bruce McGill. Alan Bates, Colm Feore. Estreia: 31/5/02

Jack Ryan, fictício analista da CIA criado pelo escritor Tom Clancy apareceu pela primeira vez nas telas de cinema na pele de Alec Baldwin. Era 1990 e o filme "A caçada ao Outubro Vermelho" fez um enorme sucesso. Não demorou para que outros livros de Clancy protagonizados por Ryan chegassem às telas, mas como quem manda em Hollywood é o dinheiro, em "Jogos patrióticos" (1992) e "Perigo real e imediato" (1994) ele tinha o rosto ainda mais popular de Harrison Ford. Em 2002, porém, Ford estava um pouco velho demais para voltar à personagem e saiu de fininho de um novo filme estrelado pela personagem, sem divulgar os seus motivos. A despeito das qualidades e carisma de Ford, porém, sua substituição pelo bem mais jovem Ben Affleck mostrou-se acertada. "A soma de todos os medos" é um belo thriller de ação que joga com os temores de uma guerra nuclear de grandes proporções a seu favor. E é também uma das poucas vezes em que Affleck não consegue estragar um filme com sua costumeira apatia.

Quando a empolgante trama criada por Clancy - que queixou-se depois de inúmeros erros técnicos cometidos pelo roteiro - começa, os EUA estão em sério conflito com a Rússia a respeito da Chechênia. Quando o presidente russo morre repentinamente e é substituído pelo discreto Nemerov (Ciaran Hinds), a paranoia se instala em todos os setores do governo americano. O presidente, Robert Fowler (James Cromwell) logo passa a ser aconselhado por seus assessores diretos, que insistem no fato de que uma guerra nuclear é iminente. Quem não compartilha dessa opinião é o jovem analista Jack Ryan (Ben Affleck), mas quando uma bomba explode em Baltimore ele precisa provar que sua teoria - a de que uma facção terrorista tenciona iniciar uma guerra entre os dois países - é correta, antes que o mundo corra o risco de um holocausto nuclear.



O maior acerto de "A soma de todos os medos" seja justamente o de privilegiar o suspense em detrimento da ação pura e simples. As intrigas político-governamentais assumem relevância crucial na história, assim como as sequências extremamente bem realizadas de explosões e destruição que fazem a glória do gênero. Para isso, é louvável a escalação de um elenco coadjuvante repleto de atores excepcionais como Morgan Freeman, James Cromwell e Liev Schreiber, bem como a escolha certeira do irlandês Ciarán Hinds para o central papel do presidente russo Nemerov. Com seu olhar misterioso e sua voz aterrorizante, o ator rouba as cenas em que aparece e até faz a audiência esquecer que o pretenso protagonista (Jack Ryan) aparece bem menos do que nos outros filmes da série. E para quem questiona o fato de Affleck viver Ryan mesmo sendo bem mais jovem do que Harrison Ford a resposta parece ser uma só: assim como acontece volta e meia no cinema, "A soma de todos os medos" não é nem uma continuação nem um prequel e sim uma espécie de novo início (como aconteceu com "Superman" nos anos 2000).

"A soma de todos os medos" pode não ser o melhor filme do gênero realizado em Hollywood, mas é inegável que tem qualidades redentoras e uma tensão quase palpável. Convenhamos, é muito mais do que se pode esperar de produções comerciais que normalmente só oferecem violência e piadinhas infames.

Thursday, September 29, 2011

PEARL HARBOR


PEARL HARBOR (Pearl Harbor, 2001, Touchstone Pictures, 183min) Direção: Michael Bay. Roteiro: Randall Wallace. Fotografia: John Schwartzman. Montagem: Roger Barton, Mark Goldblatt, Chris Lebenzon, Steven Rosenblum. Música: Hans Zimmer. Figurino: Mitzi Haralson, Michael Kaplan. Direção de arte/cenários: Nigel Phelps/Jennifer Williams. Produção executiva: Bruce Hendricks, Chad Oman, Mike Stenson, Barry Waldman, Randall Wallace. Produção: Michael Bay, Jerry Bruckheimer. Elenco: Ben Affleck, Josh Hartnett, Kate Becksinsale, Alec Baldwin, Ewen Bremner, Jennifer Garner, Jon Voight, Cuba Gooding Jr., Michael Shannon, Dan Ayckroyd, Colm Feore, William Fichtner, Tom Sizemore. Estreia: 21/5/01

4 indicações ao Oscar: Canção Original ("There you'll be"), Som, Edição de Som, Efeitos Visuais
Vencedor do Oscar de Edição de Som

“Titanic” faz escola. Inspirado no sucesso de bilheteria e de crítica de James Cameron, o diretor Michael Bay resolveu comandar seu próprio “projeto dos sonhos”, mirando nos cobiçados prêmios da Academia. No entanto, falta a ele e a seu produto final um elemento que Cameron provou ter: talento. “Pearl Harbor”, o tal filme com que Bay, mais conhecido por petardos de adrenalina como “A rocha” e “Con Air” quis fazer sua transição para o rol dos cineastas sérios é assustadoramente competente em termos técnicos, mas uma nulidade dramática poucas vezes vista em produções com suas ambições.
Assim como em “Titanic”, seu irmão mais velho e bem-sucedido, o filme conta uma história de amor tendo como pano de fundo um acontecimento marcante da história americana. O naufrágio ocorrido no início do século dá lugar aqui à invasão japonesa ocorrida na ilha de Pearl Harbor, em 1942, que obrigou os EUA a entrarem na II Guerra Mundial. Amigos desde a infância, os aviadores Raffe (Ben Affleck) e Danny (Josh Hartnett) seguem caminhos quase opostos durante a Guerra. Raffe vai voar na Inglaterra, voluntariamente, e é obrigado a deixar para trás a enfermeira por quem é apaixonado (a bela e apática Kate Beckinsale). Depois que ele é dado como morto em combate, Danny acaba se aproximando da inconsolável namorada do melhor amigo e eles iniciam um idílico romance, interrompido por dois fatos inesperados: o retorno de Raffe e a invasão japonesa à ilha onde todos estão trabalhando.


É inegável a qualidade da produção de “Pearl Harbor”. Da deslumbrante fotografia de John Schwartzman à trilha grandiloquente de Hans Zimmer, tudo funciona à perfeição, com o clima épico pretendido pelo diretor sendo atingido a cada fotograma. As cenas de batalha, especialmente o clímax do filme – a invasão que ocorre depois de uma hora e meia de projeção – são de encher os olhos e os ouvidos, com uma qualidade de som espetacular. Tudo caríssimo e bem cuidado. Mas Michael Bay demonstra seus maiores defeitos onde James Cameron soube sobressair-se inteligentemente: na direção de atores. A cada cena roubada por um ótimo Jon Voigt como Roosevelt existem no mínimo cinco constrangedoras envolvendo justamente aqueles em quem a trama se apóia. É quase inacreditável a falta de talento dos dois protagonistas masculinos do filme, que não emocionam nem em cenas construídas especialmente para arrancar lágrimas do espectador.

No final das três horas de duração do filme - que, em mais uma comparação com "Titanic" passam demoradamente frente aos olhos do público - fica uma sensação clara e contundente: "Titanic" pode ter seus detratores, mas pelo tinha um diretor visionário e um par romântico formado por atores de talento. Felizmente a Academia percebeu esse detalhe e ignorou "Pearl Harbor" em sua premiação. Qualidade técnica não significa qualidade emocional e isso fica provado em cada minuto do elefante branco de Michael Bay.

Thursday, June 16, 2011

SHAKESPEARE APAIXONADO

SHAKESPEARE APAIXONADO (Shakespeare in love, 1998, Universal Pictures/Miramax Films, 123min) Direção: John Madden. Roteiro: Marc Norman, Tom Stoppard. Fotografia: Richard Greatrex. Montagem: David Gamble. Música: Stephen Warbeck. Figurino: Sandy Powell. Direção de arte/cenários: Martin Childs/Jill Quertier. Produção executiva: Julie Goldstein, Bob Weinstein. Produção: Donna Gigliotti, Marc Norman, David Parfitt, Harvey Weinstein, Edward Zwick. Elenco: Joseph Fiennes, Gwyneth Paltrow, Judi Dench, Colin Firth, Geoffrey Rush, Tom Wilkinson, Ben Affleck, Rupert Everett, Imelda Staunton, Simon Callow. Estreia: 11/12/98

13 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (John Madden), Atriz (Gwyneth Paltrow), Ator Coadjuvante (Geoffrey Rush), Atriz Coadjuvante (Judi Dench), Roteiro Original, Fotografia, Montagem, Trilha Sonora Original/Comédia ou Musical, Figurino, Direção de arte/cenários, Maquiagem, Som
Vencedor de 7 Oscar: Melhor Filme, Atriz (Gwyneth Paltrow), Atriz Coadjuvante (Judi Dench), Roteiro Original, Trilha Sonora Original/Comédia ou Musical, Figurino, Direção de Arte/Cenários
Vencedor de 3 Golden Globes: Melhor Filme/Comédia ou Musical, Atriz/Comédia ou Musical (Gwyneth Paltrow), Roteiro

Em 1999, quando a comédia "Shakespeare apaixonado" levou o Oscar de Melhor Filme, os fãs de cinema que ainda não estavam acostumados com as idiossincrasias da Academia ficaram chocados e frustrados. Afinal de contas, perguntavam todos, como um filme tão leve e de interesse quase restrito - convenhamos que Shakespeare não é exatamente um nome que atraia audiências em massa para as salas de cinema - poderia ter sido eleito o melhor do ano, batendo obras tão fortes como "O resgate do soldado Ryan" e "Além da linha vermelha" (o supervalorizado filme de Terrence Malick com elenco grandioso e ritmo inexistente)? A maior surpresa, no entanto, advém de um simples fato: com exceção do prêmio de melhor atriz para Gwyneth Paltrow (que tem uma presença luminosa mas nunca espetacular), todas as 7 estatuetas que o filme de John Madden foram absolutamente merecidas. Sim, é uma comédia e é raro que o gênero seja reconhecido em cerimônias de premiação. Sim, seu diretor é correto mas nunca eficiente. E sim, talvez o drama de guerra de Steven Spielberg seja mais marcante. Mas a fictícia história de amor que envolve o maior dramaturgo da história com uma jovem prometida a outro homem é um romance engraçado e inteligente, capaz de estampar sorrisos no rosto do mais cético espectador.

Escrito por Marc Norman e Tom Stoppard, especialistas na obra do dramaturgo - o segundo inclusive é autor da peça teatral "Rosencrantz e Guildenrstern estão mortos" (cujos protagonistas são dois coadjuvantes de "Hamlet", e que virou filme estrelado por Gary Oldman e Tim Roth) - "Shakespeare apaixonado" está recheado de referências a trabalhos do bardo, de forma explícita ou nem tanto e aos costumes da época em que se passa, além de enxertar no texto personagens reais como o teatrólogo Christopher Marlowe (em uma rápida aparição do ótimo Rupert Everett). Apresentando também uma leve crítica à maneira machista como o teatro era tratado (mulheres eram proibidas de atuar, sendo os papéis femininos representados por adolescentes do sexo masculino), o filme brinca de maneira leve com os bastidores teatrais - talvez tenham vindo daí muitos dos votos, afinal boa parte da Academia é formada por atores - e especula a respeito da criação de um dos mais conhecidos textos de Shakespeare, "Romeu e Julieta".

A trama começa mostrando um jovem William Shakespeare (interpretado com graça e leveza por Joseph Fiennes) enfrentando um tremendo bloqueio criativo justamente quando é pressionado pelo aflito Philip Henslowe (Geoffrey Rush, indicado ao Oscar de coadjuvante), que precisa urgentemente de uma nova peça sob pena de sofrer nas mãos de seus credores. Sem saber que rumos dar à sua nova história, intitulada "Romeu e Ethel, a filha do pirata", o autor frequenta analistas, faz simpatias e busca dicas até mesmo de outros dramaturgos. A situação muda quando ele encontra uma musa inspiradora, a bela Viola de Lesseps (Gwyneth Paltrow), por quem se apaixona perdidamente sem saber que ela se disfarça de homem, sob o nome de Thomas Kent, para atuar em segredo em suas peças de teatro. Quando o engano é descoberto, eles iniciam um ardente romance, ameaçado pelo fato de a moça ser prometida ao nobre Lord Wessex (Colin Firth). Sua história de amor acaba influenciando sua obra, que passa de uma comédia ligeira - com um cão, como mandava o público - a uma intensa tragédia.


Inspirado na famosa dúvida sobre a musa para quem Shakespeare escreveu a maior parte de seus sonetos de amor, o filme de John Madden (que nunca chegou a manter o mesmo equilíbrio em seus trabalhos posteriores) se beneficia de um elenco impecável para atingir seu alto grau de entretenimento. Bastou oito minutos em cena para que Judi Dench tenha levado o Oscar de coadjuvante e Gwyneth Paltrow, se ofendeu os fãs de Meryl Streep, Fernanda Montenegro, Emily Watson e Cate Blanchett, não tem culpa nenhuma: seu trabalho é delicado, discreto e carismático, apesar de nunca ser brilhante ou inesquecível. Vale lembrar que, quando "Shakespeare apaixonado" começou a ser produzido, no início da década de 90, era Julia Roberts quem faria seu papel, ao lado de Daniel Day-Lewis. O ator preferiu ir fazer "Em nome do pai", o diretor Edward Zwick pulou fora do projeto e tudo ficou engavetado. Paltrow abocanhou o papel depois da recusa de Kate Winslet - e das prováveis candidatas Winona Ryder, Meg Ryan e Jodie Foster - e realizou um trabalho que lhe garantiu uma estatueta (mas não necessariamente um respeito unânime). Mas é bom também elogiar sua química com Joseph Fiennes, que, seguindo os passos do irmão mais velho, Ralph, esteve em dois filmes de grande visibilidade em 1998 - o outro foi "Elizabeth" - e conseguiu fazê-los de maneira convincente. Pena que o resto de sua carreira não manteve o mesmo nível.

Com uma trilha sonora deliciosa, uma edição extremamente eficaz e uma reconstituição de época impecável - além de um texto saboroso - "Shakespeare apaixonado" é uma pérola de criatividade e inteligência. Mereceu, sim, o Oscar de Melhor Filme.

Wednesday, April 20, 2011

GÊNIO INDOMÁVEL

GÊNIO INDOMÁVEL (Good Will Hunting, 1997, Miramax Films, 126min) Direção: Gus Van Sant. Roteiro: Matt Damon, Ben Affleck. Fotografia: Jean Yves Escoffier. Montagem: Pietro Scalia. Música: Danny Elfman. Figurino: Beatrix Aruna Pasztor. Direção de arte/cenários: Melissa Stewart/Jaro Dick. Produção executiva: Su Armstrong, Jonathan Gordon, Bob Weinstein, Harvey Weinstein. Produção: Lawrence Bender. Elenco: Matt Damon, Robin Williams, Minnie Driver, Stellan Skarsgard, Ben Affleck, Casey Affleck, Cole Hauser. Estreia: 05/12/97

9 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Gus Van Sant), Ator (Matt Damon), Ator Coadjuvante (Robin Williams), Roteiro Original, Montagem, Trilha Sonora Original/Drama, Canção ("Miss Misery")
Vencedor de 2 Oscar: Ator Coadjuvante (Robin Williams), Roteiro Original
Vencedor do Golden Globe de Melhor Roteiro
Vencedor do SAG Awards de Ator Coadjuvante (Robin Williams)

De vez em quando, Hollywood lembra que o público, tão prestimoso em correr às salas exibidoras para testemunhar cenas de ação e violência aos borbotões, também gosta de acompanhar histórias delicadas sobre gente normal cuja maior missão - ao invés de salvar o mundo de uma ameaça terrorista - é definir os rumos que sua vida pessoal irá tomar em relação ao futuro. E é sobre  pessoas normais, comuns, quase invisíveis que trata "Gênio indomável", uma das maiores surpresas da temporada 1997. Escrito por Matt Damon e Ben Affleck, dois atores até então desconhecidos e com pouco mais de 20 anos (que o escreveram como forma de fazer acontecer suas carreiras), o drama produzido pela Miramax Films - o maior fabricante de oscarizáveis da década - é um típico produto feito para encantar os eleitores da Academia e o público adulto fã de boas histórias. Não é inesquecível, mas cumpre muito bem o que promete.

Dando início a uma carreira bem-sucedida, Matt Damon - que concorreu ao Oscar contra veteranos do porte de Dustin Hoffman e Jack Nicholson em uma atuação contida mas muito convincente - vive o protagonista, Will Hunting, um jovem desajustado que, vítima de lares adotivos desfuncionais, expressa toda sua raiva em brigas de rua com seu grupo de amigos. Figurinha fácil nas ocorrências policiais, ele é salvo de ficar na cadeia por Gerald Lambeau (Stelan Skarsgaard), um professor de matemática premiado com medalhas de honra por seu talento. Impressionado com a inteligência extraordinária de Hunting - que trabalha como faxineiro na instituição mas é capaz de resolver os mais complexos problemas matemáticos -  Lambeau se compromete diante do juiz a ajudar o rapaz a encontrar um caminho mais saudável na vida. Para isso, ele conta com a ajuda de Sean Maguire (Robin Williams), um terapeuta que conhece desde a juventude. Viúvo e recluso, Sean tenta fazer com que Will aprenda a lidar com sua fúria inerente e a direcione para uma vida menos sofrida e mais realizada, deixando de lado seus traumas de infância.  Enquanto isso, Will começa a se envolver com a doce Skylar (Minnie Driver), uma jovem estudante de Medicina que tenta romper a barreira emocional que o rodeia.



O roteiro de Damon e Affleck - vencedor de um Oscar questionável, uma vez que o disputou com "Boogie Nights" e "Melhor é Impossível" - não tenta ser espetacular. É redondo, é simples e, acima de tudo, é humano. Mesmo que esbarre em soluções um tanto fáceis e exagere na genialidade de seu protagonista, é um filme que prescinde de elementos outros além de diálogos e atores. Os diálogos são fluentes, inocentes (nas relações entre Will e seus amigos) e por vezes bastante interessantes (como nas cenas entre o protagonista e Sean). Nunca chegam a ser brilhantes, mas são muito superiores à média. E além de tudo, a trama paralela, que envolve a rivalidade entre Lambeau e Maguire é tão poderosa quanto a história principal, graças principalmente às atuações de Stelan Skarsgaard e Robin Williams, o último mais uma vez emprestando um carisma gigantesco a uma personagem - e que lhe rendeu um carinhoso Oscar de ator coadjuvante.
A Academia, aliás, rendeu-se incondicionalmente a "Gênio indomável". Indicado a 9 Oscar - inclusive filme, direção e uma inexplicável lembrança para Minnie Driver como coadjuvante feminina - e premiado com 2 estatuetas (além de Williams o roteiro também foi contemplado), o filme deu ao até então outsider Gus Van Sant a legitimização da indústria. Logicamente, a ousadia presente em filmes como "Drugstore Cowboy" e "Garotos de programa" nem passa perto desse seu filme família, o que incomodou profundamente seus fãs - que ainda teriam que aguentar seu desnecessário remake de "Psicose" e o ultra-meloso "Procurando Forrester". A direção de "Gênio indomável" é quase burocrática, nada inventiva e muito menos corajosa (em sua defesa é preciso dizer que o roteiro também não ajuda nesse quesito...), mas é elegante e dotada de um belo ritmo, além de não atrapalhar no desenvolvimento da história. É um trabalho apenas correto, que não justifica sua indicação ao Oscar (principalmente se levarmos em conta que Paul Thomas Anderson, de "Boogie nights", ficou de fora na categoria).

Enfim, não é preciso ter um cérebro privilegiado para perceber, em "Gênio indomável", uma profusão de clichês. Porém, da forma como colocados pelos roteiristas e pelo experiente Van Sant, eles soam não como lugares-comuns que incomodam e constrangem. Muito pelo contrário, os clichês de certa forma dão unidade ao filme, são como uma espécie de abrigo contra criatividades exageradas. "Gênio indomável" é caloroso, terno e honesto. É um belo conto sobre pessoas corajosas que lutam pelo direito a transformar o seu destino. E por isso emociona tanta gente.

Friday, March 25, 2011

PROCURA-SE AMY

PROCURA-SE AMY (Chasing Amy, 1997, View Askew Productions, 113min) Direção e roteiro: Kevin Smith. Fotografia: David Klein. Montagem: Scott Mosier, Kevin Smith. Música: David Pirner. Figurino: Christopher Del Coro. Direção de arte/cenários: Robert 'Ratface' Holtzman/John Carlucci, Susannah McCarthy. Produção executiva: John Pierson. Produção: Scott Mosier. Elenco: Ben Affleck, Jason Lee, Joey Lauren Adams, Dwight Ewell, Kevin Smith, Jason Mewes. Estreia: 04/4/97

Não se deixe enganar pela singeleza da frase de efeito do cartaz, que diz "Não importa quem ama, mas sim como você ama." Apesar de levantar questões bastante interessantes e ser claramente simpático à causa gay, "Procura-se Amy" não tenta dar lições de moral ou soar como dono da verdade. A comédia romântica do diretor independente Kevin Smith - realizada com uns trocados e relativamente bem-sucedida comercialmente - tem como objetivo simplesmente contar uma história de amor diferente e, de quebra, tentar jogar uma luz nos relacionamentos homem/mulher dos anos 90. Utilizando-se de sua característica ironia e de seu humor calcado nitidamente na cultura pop, o cineasta de Nova Jersey conseguiu criar seu melhor e mais bem acabado filme antes de ingressar de vez no mainstream com o polêmico "Dogma", de 1997.


Conhecido como diretor dos cultuados "O balconista" e "Barrados no shopping", Kevin Smith - uma figura bizarra, tipicamente nerd e também ator em seus projetos - caiu nas graças da crítica justamente por conseguir fazer filmes ridiculamente baratos e donos de uma personalidade própria. Em "Procura-se Amy" ele atinge o perfeito equilíbrio entre seus diálogos engraçadíssimos, suas referências culturais (quadrinhos, filmes e música) e sua alma de cineasta independente. Deixando de lado sua tendência a piadas escatológicas, ele criou um retrato acurado sobre as relações amorosas da juventude classe média anos 90, com todas a sua diversidade sexual. Longe de ser um filme cujo público-alvo seja a plateia gay, "Amy" é a prova perfeita de que um bom roteiro pode fazer milagres. Até mesmo arrancar uma atuação decente de Ben Affleck.



Ainda antes de tornar-se um astro conhecido, vencedor do Oscar - de roteiro, por "Gênio indomável" - e cineasta, Affleck até convencia como ator. Pelo menos em "Procura-se Amy" ele dá o melhor de si, em uma interpretação senão espetacular, ao menos bastante convincente. Ele vive Holden McNeil, autor de uma popular revista em quadrinhos chamada "Bluntman and Chronic" que tem uma relação de amizade e confiança há mais de vinte anos com seu sócio Banky Edwards (Jason Lee). A estreita relação entre os dois sofre um abalo quando ele se apaixona por outra quadrinista, Alyssa Jones (Joey Lauren Adams), que além de jovem, bela e talentosa, é lésbica. Banky não acredita que a relação entre o novo casal vai dar certo - por pelo menos uma boa razão - e isso acaba atrapalhando inclusive o equilíbrio profissional entre os dois. As coisas se complicam quando seu medo de ver Holden machucado torna-se real: compreensivo a respeito das aventuras gays da namorada, o rapaz tem a incapacidade de aceitar seu passado heterossexual.

Kevin Smith tem um rasgo de inteligência ao colocar como maior empecilho à felicidade entre Holden e Alyssa não sua preferência sexual, e sim seu passado. É como se ele dissesse que em toda relação sempre existe algo imperdoável, seja essa relação hetero ou homossexual, e que cabe aos maiores interessados a decisão de relevar ou não tais "erros". O roteiro, recheado de diálogos saborosos a respeito de sexo (alguns até mesmo bastante contundentes) consegue manter-se neutro, sem julgar Holden e seus preconceitos, levando a plateia a entender suas dúvidas - mesmo que provavelmente vá achá-las um tanto exageradas. São nessas horas que Ben Affleck demonstra que, quando bem dirigido, pode ser um ator razoável. É exemplar a cena em que seu Holden declara-se à Alyssa, quando fica claro até ao mais otimista espectador que relacionamentos não são exatamente fáceis e que seres humanos são mais do que simplesmente gays ou heteros. Aliás, é preciso destacar também o trabalho do ótimo Dwight Ewell, que, em suas poucas interferências na trama, dispara as melhores e mais cáusticas piadas, normalmente a respeito de homossexualidade e racismo, citando inclusive a saga "Star Wars" (o que trai a influência nerd na carreira de Smith).

De certa forma valorizado pelo ótimo timing cômico de Jason Lee e prejudicado pela voz irritante de sua protagonista Joey Laurel Adams - namorada do cineasta à época das filmagens - "Procura-se Amy" é, no entanto, uma pérola a ser descoberta. Hilariante e romântico, é recomendável a qualquer público que estiver disposto a fugir dos lugares-comuns das comédias românticas e dar boas risadas. Ao quebrar a certeza de que "gay é gay e hetero é hetero", o diretor embaralha as cartas da sexualidade humana sem pretender dar nenhuma palavra final. O que ele quer dizer mesmo é que todos, independente de quem leva para a cama, procura sua cara-metade (e a longa e brilhante fala de Alyssa a respeito disso reitera essa afirmação). De quebra, tem uma discreta profundidade que seu diretor nunca mais conseguiu atingir - com a possível exceção do já citado "Dogma". Um filme com aura de cult!