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Tuesday, November 29, 2011

A SOMA DE TODOS OS MEDOS

A SOMA DE TODOS OS MEDOS (The sum of all fears, 2002, Paramount Pictures, 124min) Direção: Phil Alden Robinson. Roteiro: Paul Attanasio, Daniel Pyne, romance de Tom Clancy. Fotografia: John Lindley. Montagem: Nicholas de Toth, Neil Travis. Música: Jerry Goldsmith. Figurino: Marie-Sylvie Deveau. Direção de arte/cenários: Jeannine Oppewall/Cindy Carr. Produção executiva: Tom Clancy, Sttarton Leopold. Produção: Mace Neufeld. Elenco: Ben Affleck, Morgan Freeman, James Cromwell, Ken Jenkins, Ron Rifkin, Bridget Monayhan, Liev Schreiber, Philip Baker Hall, Bruce McGill. Alan Bates, Colm Feore. Estreia: 31/5/02

Jack Ryan, fictício analista da CIA criado pelo escritor Tom Clancy apareceu pela primeira vez nas telas de cinema na pele de Alec Baldwin. Era 1990 e o filme "A caçada ao Outubro Vermelho" fez um enorme sucesso. Não demorou para que outros livros de Clancy protagonizados por Ryan chegassem às telas, mas como quem manda em Hollywood é o dinheiro, em "Jogos patrióticos" (1992) e "Perigo real e imediato" (1994) ele tinha o rosto ainda mais popular de Harrison Ford. Em 2002, porém, Ford estava um pouco velho demais para voltar à personagem e saiu de fininho de um novo filme estrelado pela personagem, sem divulgar os seus motivos. A despeito das qualidades e carisma de Ford, porém, sua substituição pelo bem mais jovem Ben Affleck mostrou-se acertada. "A soma de todos os medos" é um belo thriller de ação que joga com os temores de uma guerra nuclear de grandes proporções a seu favor. E é também uma das poucas vezes em que Affleck não consegue estragar um filme com sua costumeira apatia.

Quando a empolgante trama criada por Clancy - que queixou-se depois de inúmeros erros técnicos cometidos pelo roteiro - começa, os EUA estão em sério conflito com a Rússia a respeito da Chechênia. Quando o presidente russo morre repentinamente e é substituído pelo discreto Nemerov (Ciaran Hinds), a paranoia se instala em todos os setores do governo americano. O presidente, Robert Fowler (James Cromwell) logo passa a ser aconselhado por seus assessores diretos, que insistem no fato de que uma guerra nuclear é iminente. Quem não compartilha dessa opinião é o jovem analista Jack Ryan (Ben Affleck), mas quando uma bomba explode em Baltimore ele precisa provar que sua teoria - a de que uma facção terrorista tenciona iniciar uma guerra entre os dois países - é correta, antes que o mundo corra o risco de um holocausto nuclear.



O maior acerto de "A soma de todos os medos" seja justamente o de privilegiar o suspense em detrimento da ação pura e simples. As intrigas político-governamentais assumem relevância crucial na história, assim como as sequências extremamente bem realizadas de explosões e destruição que fazem a glória do gênero. Para isso, é louvável a escalação de um elenco coadjuvante repleto de atores excepcionais como Morgan Freeman, James Cromwell e Liev Schreiber, bem como a escolha certeira do irlandês Ciarán Hinds para o central papel do presidente russo Nemerov. Com seu olhar misterioso e sua voz aterrorizante, o ator rouba as cenas em que aparece e até faz a audiência esquecer que o pretenso protagonista (Jack Ryan) aparece bem menos do que nos outros filmes da série. E para quem questiona o fato de Affleck viver Ryan mesmo sendo bem mais jovem do que Harrison Ford a resposta parece ser uma só: assim como acontece volta e meia no cinema, "A soma de todos os medos" não é nem uma continuação nem um prequel e sim uma espécie de novo início (como aconteceu com "Superman" nos anos 2000).

"A soma de todos os medos" pode não ser o melhor filme do gênero realizado em Hollywood, mas é inegável que tem qualidades redentoras e uma tensão quase palpável. Convenhamos, é muito mais do que se pode esperar de produções comerciais que normalmente só oferecem violência e piadinhas infames.

Monday, September 26, 2011

NA TEIA DA ARANHA

NA TEIA DA ARANHA (Along came a spider, 2001, Paramount Pictures, 104min) Direção: Lee Tamahori. Roteiro: Marc Moss, romance de James Patterson. Fotografia: Matthew F. Leonetti. Montagem: Neil Travis. Música: Jerry Goldsmith. Figurino: Sanja Milkovich Hays. Direção de arte/cenários: Ida Random/Elizabeth Wilcox. Produção executiva: Morgan Freeman, Marty Hornstein. Produção: David Brown, Joe Wizan. Elenco: Morgan Freeman, Monica Potter, Michael Wincott, Dylan Baker, Penelope Ann Miller, Mika Boorem, Anton Yelchin. Estreia: 06/4/01

O surpreendente sucesso do filme “Beijos que matam”, um suspense mediano valorizado pela presença do ator Morgan Freeman rendeu frutos. Novamente baseado em um romance policial escrito por James Patterson e com o mesmo personagem principal, “Na teia da aranha” foi mais um êxito, o que comprova antes de qualquer coisa o carisma de Freeman, um dos mais talentosos atores negros de sua geração, sempre discreto e sutil, mas igualmente sempre competente.
 Desta vez sua personagem, o policial Alex Cross, está aposentado da polícia depois da morte trágica de sua parceira. Disposto a ficar para sempre longe de qualquer tipo de violência, ele logo vê que seus planos não serão respeitados. O sequestrador (Michael Moriarty) da filha pequena de um senador, roubada nas barbas do serviço secreto, o desafia a frustrar  seus planos de cometer o crime do século. Contando com a ajuda de uma agente do governo, Jezzie Flannigan (Monica Potter, fraca como ela só), ele tenta pegar o criminoso, mas acaba se envolvendo em uma trama com muito mais complicações do que ele poderia imaginar.



Dirigido pelo neozelandês Lee Tamahori, "Na teia da aranha" sofreu inúmeras alterações até chegar às telas - a principal delas dizendo respeito à idade do protagonista. Enquanto no romance de James Patterson Alex Cross tinha 38 anos de idade e era casado, aqui ele é vivido por Morgan Freeman, umas boas duas décadas mais velho - fato este que deve ter contado para limar do roteiro o romance entre ele e Jezzie, que, aliás, também tem um final substancialmente diferente no livro. Essas mudanças, porém, não chegam a atrapalhar a diversão daqueles que procuram um bom filme policial, principalmente porque a trama tem reviravoltas em número suficiente para deixar todo mundo ligado do início ao fim da sessão.

No entanto, a bem da verdade, “Na teia da aranha” não apresenta nenhuma novidade ao gênero. Apesar das reviravoltas bastante surpreendentes e o trabalho de Freeman, sempre eficaz, o final chega a ser anti-climático, depois de hora e meia de uma trama construída com cuidado e clima por Tamahori - e isso que o final foi refilmado depois da rejeição de uma exibição-teste nos EUA. Ainda assim, é um entretenimento de extrema competência, que atinge seu objetivo de prender a atenção do público e entregar um trabalho de qualidade acima da média. Mas Morgan Freeman merece coisa melhor para demonstrar seu talento.

Wednesday, August 24, 2011

A ENFERMEIRA BETTY

A ENFERMEIRA BETTY (Nurse Betty, 2000, Gramercy Pictures, 110min) Direção: Neil LaBute. Roteiro: John C. Richards, James Flamberg, estória de John C. Richards. Fotografia: Jean-Yves Escoffier. Montagem: Joel Plotch, Steven Waisberg. Música: Rolfe Kent. Figurino: Lynette Meyer. Direção de arte/cenários: Charles Breen/Jeffrey Kushon. Produção executiva: Moritz Borman, Stephen Pevner, Chris Sievernich, Philip Steuer. Produção: Steve Golin, Gail Mutrux. Elenco: Renée Zellweger, Morgan Freeman, Chris Rock, Greg Kinnear, Aaron Eckhart, Allison Janney, Crispin Glover, Tia Texada, Pruitt Taylor Vince, Elizabeth Mitchell. Estreia: 08/9/00

Vencedor do Festival de Cannes - Melhor Roteiro
Vencedor do Golden Globe - Melhor Atriz Comédia/Musical (Renée Zellweger)

Depois da fria recepção - tanto crítica quanto popular - a "Seus amigos, seus vizinhos", o diretor Neil Labute compreendeu que precisava urgentemente se reinventar. Sua tendência à polêmica - que atingiu o ápice em sua estreia, o misógino  "Na companhia de homens" - foi deixada de lado, então, em seu terceiro longa. Disfarçado com um elenco de nomes conhecidos e confiáveis - Morgan Freeman e Renée Zelwegger à frente - "A enfermeira Betty" é uma deliciosa comédia de humor negro recheada de referências pop, uma violência um tanto cruel e diálogos saborosos. Não é o tipo de filme que arranca gargalhadas, mas tem um roteiro brilhante que faz uma crítica mordaz à fuga da realidade provocada pela televisão. Pode-se dizer que "A enfermeira Betty" é um "A rosa púrpura do Cairo" que tomou anfetaminas.

A enfermeira Betty do título não é, na verdade, uma enfermeira. Betty Sizemore (Renée Zelwegger em uma de suas melhores atuações) é uma jovem garçonete do Kansas que leva uma vida medíocre ao lado do marido infiel, o mulherengo Del (Aaron Eckhart, o alter ego do diretor se divertindo a valer em sua rápida participação). A monotonia de seu dia-a-dia só é quebrada com os capítulos de "Uma razão para amar", uma telenovela que lhe afasta da apatia de seu casamento. Fascinada principalmente pelo protagonista do programa, o charmoso médico cirurgião David Ravell (Greg Kinnear), Betty tem sua vida totalmente transformada justamente no dia de seu aniversário, quando testemunha, às escondidas, o violento assassinato de seu marido por uma dupla de criminosos. Em estado de absoluto choque, ela cria uma nova vida em sua mente, pega o LeSabre do casal e parte para a California, onde pretende encontrar seu ex-noivo (na verdade, o personagem da novela). O que ela não sabe é que, além de precisar encontrar alguém que não existe na vida real ela está sendo perseguida pelos assassinos do marido - sendo que o mais velho, Charlie (Morgan Freeman), apaixonou-se por ela através de uma fotografia.


O que há de mais inteligente no roteiro de "A enfermeira Betty" é o fato de LaBute e seus colaboradores jamais utilizarem a situação trágica de sua protagonista como forma de deboche. Apesar de estarem todos em uma comédia, os personagens nunca se comportam como tal e o cineasta respeita a condição especial da encantadora Betty, apenas aproveitando-a em prol de um desenrolar jamais previsível. Para isso, conta com uma interpretação excelente de Renée Zelwegger, que consegue escapar vitoriosamente de todas as armadilhas que o papel oferece. Ela constrói uma carismática e sensível Betty de tal maneira a envolver o espectador incondicionalmente - assim como faz com todos à sua volta, desde a bartender de um bar de beira de estrada até à latina Rosa (Tia Texada), com quem vai morar e que lhe ajuda a chegar até seu grande amor - e o que vem depois disso é que faz do filme tão especial.

Em uma comédia romântica convencional, o romance entre Betty e George assumiria a protagonização da trama assim que eles se encontrassem. No filme de LaBute isso jamais acontece. O romance entre os dois é bizarro, estranho, irreal e até mesmo desconfortável (principalmente porque a audiência sabe do que realmente está acontecendo). E o desfecho da trama - que apela para a violência, ainda que nunca exagere - também não pode ser chamado de convencional, mesmo que sua sequência final seja de uma ironia quase clichê. O roteiro de "A enfermeira Betty" brinca com a vaidade da fama e com os perigos da fantasia excessiva, mas nunca pede para ser levado a sério, e talvez aí resida seu charme maior.

"A enfermeira Betty" é uma das comédias mais inventivas e cruéis do início do século, que prova o talento de Neil LaBute em buscar assuntos diferentes de seus primeiros trabalhos e tratá-los com o devido respeito. E é também um marco definitivo na trajetória de Renée Zelwegger como atriz respeitada e admirada. Depois desse filme ela seria Bridget Jones e o resto é história....

Tuesday, April 19, 2011

AMISTAD

AMISTAD (Amistad, 1997, Dreamworks SKG, 155min) Direção: Steven Spielberg. Roteiro: David Franzoni. Fotografia: Janusz Kaminski. Montagem: Michael Kahn. Música: John Williams. Figurino: Ruth E. Carter. Direção de arte/cenários: Rick Carter/Rosemary Brandenburg. Produção executiva: Laurie MacDonald, Walter Parkes. Produção: Debbie Allen, Steven Spielberg, Colin Wilson. Elenco: Matthew McConaughey, Morgan Freeman, Djimon Hounson, Anthony Hopkins, Nigel Hawthorne, David Paymer, Pete Postletwhaite, Stellan Skarsgard, Anna Paquin, Paul Guilfoyle, Xander Berkeley, Arliss Howard. Estreia: 04/12/97

4 indicações ao Oscar: Ator Coadjuvante (Anthony Hopkins), Fotografia, Trilha Sonora Original/Drama, Figurino

Chega a ser inacreditável que o diretor de "Amistad" seja o mesmo Steven Spielberg que assinou filmes como "Os caçadores da Arca Perdida" e "ET, o extra-terrestre", filmes que, apesar de escapistas e estritamente comerciais, tinham a noção exata de ritmo. Arrastado, monotóno e em muitos momentos simplesmente desinteressante, o longa de Spielberg é uma prova cabal de que até mesmo os aparentemente infalíveis tem seus momentos equivocados.

Feito com a intenção de abocanhar uma penca de Oscar - objetivo que Spielberg nunca deixou de lado mesmo depois do sucesso de "A lista de Schindler" - "Amistad" decepcionou tanto aqueles que esperavam mais uma obra-prima do cineasta quanto os fãs de dramas épicos históricos, uma vez que não atinge o mesmo nível emocional de seus melhores filmes. Inspirado em uma história real - retratada no livro "Echo of lions", cuja autora Barbara Chase-Riboud moveu um processo contra os produtores - é um filme que tinha um enorme potencial, mas que ficou muito aquém de suas possibilidades. Culpa da opção de Spielberg em concentrar-se nas maquinações políticas da trama ao invés de seguir seu habitual caminho de comover o público.

A sequência inicial é poderosa e impressiona pelo cuidado visual (cortesia da belíssima fotografia de Janusz Kaminski e pela forte trilha sonora de John Williams): o ano é 1839 e o navio Amistad, indo de Cuba em direção aos EUA vê sua carga (escravos negros viajando para serem vendidos) iniciar uma violenta rebelião. Liderados por Cinque (Djimon Houson) - que deixou em sua terra natal uma história de crueldade e sofrimento contra sua família - os negros matam a maior parte da tripulação e exigem dos sobreviventes que os levem de volta para casa. Enganados, eles acabam aportando nos EUA, onde são presos acusados de assassinato. Sem falar uma palavra de inglês, eles vem seu caso ser assumido pelo advogado abolicionista Roger Sherman Baldwin (Matthew McConaughey). Aos poucos o caso ganha contornos outros - com vários países alegando a propriedade dos réus - e sofre uma reviravolta com a adesão do ex-presidente John Quincy Adams (Anthony Hopkins), também um fervoroso político anti-escravagista.



Tecnicamente "Amistad" é admirável como qualquer produto com a griffe de Spielberg. Da fotografia espetacular (que vai do escuro claustrofóbico às explosivas cores libertárias) à reconstituição de época detalhista, tudo é de encher os olhos. O elenco super estelar que desfila pela tela também chama a atenção pela diversidade: estão presentes desde veteranos consagrados como Anthony Hopkins (que concorreu ao Oscar por sua pequena participação) e Morgan Freeman até jovens promessas, como é o caso de Matthew McConaughey e de Djimon Houson (modelo sul-africano que ficou com o papel recusado por Denzel Washington e Cuba Gooding Jr. e que impressiona pela expressividade corporal). A trilha sonora de John Williams mais uma vez é adequada e delicada. Mas falta o essencial ao filme: coração.

É difícil de entender como Spielberg - que tem no currículo o sensível "A cor púrpura", que também toca na ferida do racismo - errou tanto a mão em "Amistad". Nem mesmo as cenas com mais potencial dramático (o passado de Cinque e a maneira cruel com que a tripulação tratava os escravos) conseguem emocionar a plateia, sedenta por boas cenas de impacto. Mesmo quando a plateia consegue ser arrebatada, a sensação é tão efêmera que não justifica duas horas e meia de duração. Isso sem falar em longas cenas em que as personagens discutem política americana do século XIX, que, mais do que interesse, desperta somente sono.

Em resumo, "Amistad" é um filme lindamente fotografado, com uma trama socialmente importante, realizado com todos os recursos milionários de Hollywood. Mas lhe falta o essencial: alma. E em um filme que fala sobre um tema tão caro quanto liberdade, isso é um pecado mortal.

Thursday, January 20, 2011

UM SONHO DE LIBERDADE


UM SONHO DE LIBERDADE (The Shawshank Redemption, 1994, Castle Rock Entertainment, 142min) Direção: Frank Darabont. Roteiro: Frank Darabont, conto "Rita Hayworth and the Shawshank Redemption", de Stephen King. Fotografia: Roger Deakins. Montagem: Richard Francis-Bruce. Música: Thomas Newman. Figurino: Elizabeth McBride. Direção de arte/cenários: Terence Marsh/Michael Sierton. Produção executiva: Liz Glotzer, David Lester. Produção: Niki Marvin. Elenco: Tim Robbins, Morgan Freeman, Bob Gunton, Clancy Brown, James Whitmore, Gil Bellows. Estreia: 23/9/94

7 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Ator (Morgan Freeman), Roteiro Adaptado, Fotografia, Montagem, Trilha Sonora Original, Som


Ainda bem que dinheiro não compra tudo, nem mesmo em uma terra tão gananciosa quanto Hollywood. Apaixonado pela adaptação feita por Frank Darabont do conto "Rita Hayworth and the Shawshak redemption", que Stephen King publicou em seu livro "Quatro estações", o cineasta Rob Reiner ofereceu 2,5 milhões de dólares ao roteirista para que pudesse dirigí-lo. Proposta devidamente recusada - o que salvou o mundo de um filme com Harrison Ford e Tom Cruise juntos - o roteiro chegou às telas dirigido pelo próprio Darabont com o nome de "Um sonho de liberdade" e, se não fez um estrondo nas bilheterias, hoje é considerado um dos melhores filmes de prisão de todos os tempos, adorado pela crítica e pelo público, que nem se importa se as sete indicações ao Oscar jamais tenham se convertido em estatuetas - é bom lembrar que concorreu com o incensado "Forrest Gump, o contador de histórias" e com o cultuado "Pulp fiction, tempo de violência".

Realizado com uma competência avassaladora - em especial se for levado em consideração que é o filme de estreia de Darabont - "Um sonho de liberdade" conquista o público por não cair na armadilha de ser apenas "um filme de prisão" e nem tampouco apelar para a violência explícita. Apesar de contar com o nome de Stephen King nos créditos pouca coisa denuncia que o escritor - mais conhecido por suas tramas de terror - seja o autor de uma história tão humana (ainda que do mesmo livro tenha saído o conto que deu origem ao belo "Conta comigo").  Ao deixar de lado criaturas do além, fantasmas e cachorros raivosos, King criou personagens que seduzem a audiência aos poucos e, com a ajuda do belo roteiro de Darabont, de maneira irremediável. Mesmo que chegue perto de duas horas e meia de duração, "Um sonho de liberdade" jamais cansa o espectador, graças principalmente ao enorme talento de todos os envolvidos.

A história de "Um sonho de liberdade" começa nos anos 40, quando o banqueiro Andy Dufresne (Tim Robbins) é condenado a uma pena dupla de prisão perpétua, acusado de ter assassinado sua esposa e o amante dela. Mesmo dizendo-se inocente, ele vai parar no presídio de Shawshank, no Maine (cenário habitual das histórias de King). Lá, ele faz amizade com Red Redding (Morgan Freeman), que há anos tenta uma liberdade condicional e é conhecido por conseguir levar qualquer coisa para dentro dos muros da prisão. Enquanto o relacionamento entre os dois vai se aprofundando com o passar dos anos - e das décadas - Andy testemunha várias histórias: algumas comoventes, como a do veterano bibliotecário Brooks Hatlen (o sensacional James Whitmore), que não consegue sobreviver em liberdade e outras trágicas, como a do jovem Tommy (Gil Bellows), única pessoa capaz de revelar a verdade sobre o crime que aprisionou Andy.



O impressionante roteiro - e o conto em si - não tem pressa em construir as relações entre as personagens nem tampouco atropela os acontecimentos, que vão se desenrolando frente aos olhos do público de maneira delicada. Todas os detalhes da trama vão sendo apresentadas de forma sutil, para que em seu final absolutamente inesquecível façam todo o sentido. Nada no filme é desnecessário ou supérfluo: cada linha de diálogo, cada cena é extremamente necessária. As surpresas, mais do que simples truques baixos para manter acesa a audiência, são realmente convincentes e utilizadas com parcimônia, nos momentos apropriados e casam com perfeição no clima proposto pela fotografia cinzenta de Roger Deakins e pela edição tranquila de Richard Francis-Bruce.


Talvez a maior qualidade de "Um sonho de liberdade" seja, no entanto, sua opção em brincar carinhosamente com todos os clichês dos filmes de prisão com inteligência ímpar. Estão na receita comandantes sádicos (um Clancy Brown impecável em sua frieza), apenados violentos e ameaçadores, planos mirabolantes de fuga e a crueldade de seu diretor (Bob Gunton). Mas algumas cenas criadas por Darabont e companhia são de lavar a alma e emocionam os espectadores por sua absoluta originalidade, em especial quando Dufresne se tranca na sala do diretor e oferece aos colegas prisioneiros a possibilidade de ouvir alguns minutos de ópera. Também é comovente o desfecho da história de Brooks Hantley, que sai da cadeia depois de décadas e percebe que o mundo fora das grades não lhe pertence.

Como dupla, Tim Robbins e Morgan Freeman não poderiam estar melhores. Freeman - que ficou com uma personagem que no conto de King é irlandês e branco - foi indicado ao Oscar, mas Robbins poderia tranquilamente também ter concorrido à estatueta, uma vez que a delicadeza de sua interpretação tem o tom perfeito exigido por sua personagem silenciosa e contemplativa. Juntos, ele e Morgan Freeman são a cara do filme, dando à história a complexidade e a humanidade que ela precisa. Somados ao roteiro preciso e à trilha sonora discreta mas eficiente de Thomas Newman, eles fazem de "Um sonho de liberdade" a adaptação mais brilhante de uma obra de Stephen King.

Sunday, November 21, 2010

OS IMPERDOÁVEIS

OS IMPERDOÁVEIS (Unforgiven, 1992, Warner Bros, 131min) Direção: Clint Eastwood. Roteiro: David Webb Peoples. Fotografia: Jack N. Green. Montagem: Joel Cox. Música: Lennie Niehaus. Direção de arte/cenários: Henry Bumstead/Janice Blackue-Goodine. Casting: Phyllis Huffman. Produção executiva: David Valdes. Produção: Clint Eastwood. Elenco: Clint Eastwood, Gene Hackman, Morgan Freeman, Richard Harris, Jaimz Woolvett, Saul Rubinek, Frances Fisher. Estreia: 03/8/92

8 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Clint Eastwood), Ator (Clint Eastwood), Ator Coadjuvante (Gene Hackman), Roteiro Original, Fotografia, Montagem, Direção de Arte/Cenários, Som
Vencedor de 4 Oscar: Melhor Filme, Diretor (Clint Eastwood), Ator Coadjuvante (Gene Hackman), Montagem
Vencedor de 2 Golden Globes: Diretor (Clint Eastwood), Ator Coadjuvante (Gene Hackman)

Tudo bem que “Dança com lobos” pode ser considerado o filme que de certa forma ressuscitou o gênero faroeste dentro da indústria hollywoodiana, com seu sucesso de bilheteria e seus inacreditáveis 7 Oscar. Mas, justiça seja feita, é com “Os imperdoáveis”, o sensacional trabalho de Clint Eastwood, que o gênero atingiu uma maturidade com que Kevin Costner e suas tediosas e cenas contemplativas podem apenas sonhar. Espécie de réquiem a um gênero antes caro à indústria, "Os imperdoáveis" é melancólico e profundo como poucos ousaram ser. E por isso mesmo, ultrapassa a barreira que o relegaria apenas a fãs do western, atingindo um público mais amplo: os cinéfilos de bom gosto.

Tudo já começa extraordinariamente bem, com um texto explicativo apresentando, em 1880, o anti-herói do filme, William Munny (o próprio Eastwood em seu melhor momento como ator), um conhecido matador - "já matei mulheres e crianças. Uma vez ou outra, eu já matei tudo que anda e se arrasta nesse mundo..." - que abandonou a vida errática e criminosa para casar-se e formar família. Envelhecido, aposentado e viúvo, ele vê a chance de pagar suas dívidas e dar uma vida melhor para os filhos pequenos quando é procurado por Schofield Kid (Jaimz Woolvett), um jovem que lhe propõe sociedade em um trabalho ideal: matar dois homens que retalharam o rosto de uma prostituta na pequena cidade de Big Whisky. Munny reluta em aceitar o trabalho - o pagamento generoso será feito pelas próprias meretrizes da cidade - e o aceita com a condição de poder contar também com o velho parceiro Ned Logan (Morgan Freeman). Juntos, os três homens partem para cumprir a missão, mas esbarram no cruel e sádico xerife do lugar, Little Bill Daggett (Gene Hackman, vencedor do Oscar de coadjuvante).


Eastwood utiliza todos os elementos que fizeram a glória do gênero a seu favor. Xerifes sanguinários, saloons, descampados fotografados com maestria, anti-heróis solitários, tiroteios... Tudo está presente em "Os imperdoáveis", mas de uma maneira tão própria que é difícil entender porque o discípulo de Sergio Leone e Don Siegel - a quem o filme é dedicado - demorou tanto tempo para dirigir um filme no gênero que o consagrou. Dono de uma concisão e uma precisão absolutas, Eastwood constrói seu filme com cuidado, dando a cada cena, a cada diálogo e a cada enquadramento a atenção necessária. Mesmo tendo realizado o filme em apenas 39 dias, é patente sua qualidade autoral e artística. A direção de arte impecável e a fotografia são excepcionais, assim como a trilha sonora - cujo tema principal também foi composto pelo diretor - que equilibra a grandiloquência com a melancolia. 


E o elenco escolhido por Eastwood é excepcional. O diretor/produtor/compositor foi indicado ao Oscar de melhor ator por sua performance discreta e raivosa de William Munny, um homem marcado por um passado violento que tenta a redenção, ainda que por meios tortuosos. Morgan Freeman e Richard Harris pontuam com a competência habitual - o segundo na pele de um inglês famoso por seus dotes de atirador. E Gene Hackman deita e rola com seu torpe Little Bill, um homem pra quem a violência, mais do que um meio de vida, é quase um prazer. Suas cenas ao lado de Saul Rubinek (que vive um escritor que é tentado a escrever a biografia do xerife) são magistralmente dirigidas, ficando a um passo entre a tensão e o humor.

"Os imperdoáveis" mereceu os 4 Oscar que levou e talvez merecesse até mais. Forte e triste, é um entretenimento adulto do mais alto gabarito, que encanta em todos os níveis possíveis. E foi através dele que Eastwood renasceu como cineasta comercialmente viável e altamente oscarizável. Precisa dizer mais?