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Sunday, December 19, 2010

LUA DE FEL

LUA DE FEL (Lunes de fiel, 1992, Columbia Pictures/Canal +, 139min) Direção: Roman Polanski. Roteiro: Roman Polanski, Gerard Brach, John Brownjohn, romance de Pascal Bruckner. Fotografia: Tonino Delli Colli. Montagem: Herve de Luze. Música: Vangelis. Figurino: Jackie Burdin. Direção de arte/cenários: Willy Holt, Gerard Viard. Produção executiva: Robert Bernmussa. Produção: Roman Polanski. Elenco: Hugh Grant, Peter Coyote, Kristin Scott-Thomas, Emmanuelle Seigner. Estreia: 11/3/94

Talvez tenha a ver com o fato de ele ter passado por alguns horrores quase inacreditáveis - perdeu os pais em um campo de concentração e a esposa grávida de oito meses em um assassinato chocante - mas Roman Polanski não parece ser o mais feliz dos cineastas, nem tampouco acreditar muito na inerente bondade humana. Realizador de obras sufocantes e quase sempre desprovidas do mais simples otimismo, como "Repulsa ao sexo" e "O bebê de Rosemary", Polanski exercita mais uma vez sua peculiar visão de mundo em "Lua de fel", um de seus filmes mais polêmicos, no qual ele concentra sua ironia e seu ceticismo em uma história de amor. Ou quase isso.


Em vias de tornar-se o britânico queridinho de Hollywood, Hugh Grant vive Nigel, um inglês certinho e tenso que tenta salvar seu casamento em crise fazendo um romântico cruzeiro com a esposa, Fiona (Kristin Scott-Thomas). Durante a viagem - que não parece estar ajudando a relação do casal - ele conhece o excêntrico escritor americano Oscar (Peter Coyote), paraplégico, falastrão e sempre com muitas doses de álcool no organismo. Percebendo a atração de Nigel por sua esposa, a silenciosa Mimi (Emmanuele Seigner), Oscar lhe conta, em encontros regados a muito whisky, seu relacionamento com ela - movido principalmente por desejo e entrega absoluta. De seu primeiro encontro em Paris até a tragédia que os uniu inexoravelmente ao mesmo destino, a história de amor/sexo/obsessão entre Oscar e Mimi supreende Nigel, cada vez mais excitado com a possibilidade de consumar sua atração pela dançarina.

Um tanto vulgar e frequentemente à beira do mau-gosto, "Lua de fel" é uma investigação sem maiores rodeios de um relacionamento doentio e obsessivo. Presos a uma fatalidade, Oscar e Mimi são uma espécie de espelho ao contrário de Nigel e Fiona, que não conseguem romper o marasmo e o tédio de um casamento obviamente morno. Polanski não tem medo de ser desagradável e foge da estética convencional das cenas de sexo, aqui bastante cruas e filmadas sem melindres. Ao som de uma trilha sonora que mistura George Michael, o brasileiro Fausto Fawcett e uma música bastante brega composta por Vangelis para o filme, Peter Coyote e Emanuelle Seigner se lambuzam de leite, se vestem de animais e se entregam a um roteiro que, por sua crueza e cinismo, encanta alguns e repugna vários.

Basicamente, "Lua de fel" fala de sexo, pura e simplesmente - do desejo, da repulsa e da obsessão decorrentes dele. Lançado nos EUA dois anos depois de sua estreia mundial, é um filme que, apesar de suas qualidades - um roteiro interessante e um tema forte são as maiores - não alcançou nem perto da quase unanimidade dos trabalhos anteriores de Roman Polanski. E de certa forma não é muito difícil entender certa resistência, tanto da crítica quanto do público, acostumados a obras menos herméticas e corajosas. No entanto, qualquer crítica feita ao desempenho de Seigner (esposa do diretor na vida real) é plenamente compreensível não particularmente bela ou sexy, ela é uma atriz limitadíssima, sem capacidade de interpretar uma personagem tão complexa como Mimi. Por causa dela, muitas sequências perdem sua força, o que logicamente diminui o potencial do filme como um todo.

"Lua de fel" não é um filme para todo tipo de público. Fãs de romances ou filmes de suspense convencionais devem passar-lhe longe. Mas para quem gosta de ser surpreendido com uma história que foge dos padrões - visuais ou morais - é um prato cheio.

Friday, December 3, 2010

VEM DANÇAR COMIGO

VEM DANÇAR COMIGO (Strictly ballroom, 1992, Miramax Films, 94min) Direção: Baz Luhrmann. Roteiro: Baz Luhrmann, Craig Pearce. Fotografia: Steve Mason. Montagem: Jill Bilcock. Música: David Hirschfelder. Figurino: Angus Strathie. Direção de arte/cenários: Catherine Martin, Martin Brown. Casting: Faith Martin, Fiona McConaghy. Produção executiva: Antoinette Albert. Produção: Tristam Miall. Elenco: Paul Mercurio, Tara Morice, Bill Hunter, Pat Thomson. Estreia: 20/8/92

Uma frase repetida constantemente em "Vem dançar comigo" é "Viver com medo é viver pela metade!". A julgar pelo resultado final de seu primeiro longa-metragem, o diretor australiano Baz Luhrmann leva o ditado ao pé da letra. Poucas vezes se viu uma obra tão exagerada em todos os sentidos, desde o visual até a interpretação do elenco, passando por uma trilha sonora que mistura sem pudor música clássica, canções pop e ritmos latinos. O que é mais estranho, no entanto, é que essa mistura toda, ao invés de resultar num samba do crioulo doido, deu muito certo. Despretensioso, alegre e contagiante, "Vem dançar comigo" é um dos mais criativos musicais de sua época, e muito de sua qualidade vem justamente dessa diversidade toda.

Ao contar a velha história do patinho feio, dessa vez tendo como cenário o mundo da dança de salão, Luhrmann abraça com carinho e coragem todos os clichês possíveis e imagináveis, sem medo de ser cafona e redundante. A trama centra-se em Scott Hastings (o dançarino até então desconhecido Paul Mercurio), um jovem que sonha tornar-se campeão do Festival Pan-pacífico de Dança de Salão. Talentoso ele é, mas teimoso também: para desespero de sua mãe (a deliciosamente over Pat Thompson, que morreu antes da estreia do filme), ele insiste em utilizar, durante os concursos, passos inovadores e que fogem das tradições da austera Academia de Dança. Sem parceira para acompanhá-lo no concurso que se aproxima - todas fogem de sua criatividade exarcebada - ele acaba aceitando treinar a novata e feiosa Fran (a também novata e feiosa Tara Morice) e, juntos, o ídolo da escola de dança e a tímida descendente de uma família latina aparentemente rígida mas convenientemente apaixonada por música tentam romper a barreira do preconceito e surpresa... se apaixonam!


Desde as primeiras cenas nota-se que "Vem dançar comigo" irá subverter as regras que carinhosamente apresenta. Com uma fotografia inteligente de Steve Mason, que valoriza as cores quentes da cenografia e dos figurinos, ambos de uma estética kitsch de causar orgulho a Pedro Almodovar, o filme foge do lugar-comum ao evitar paisagens do entardecer e bobagens românticas afins. Os clichês utilizados por Luhrmann ficam por conta do roteiro melodramático e com reviravoltas dignas de novelas mexicanas, com suas personagens maniqueístas e com o esperado final feliz, onde todos se confraternizam em um clímax alto-astral, inclusive os vilões (que, diga-se de passagem, se regeneram como em todo bom e absurdo filme romântico).


Bem-humorado sem ser pateta, romântico sem ser meloso e repleto de clichês mas construído sem levar-se muito a sério, "Vem dançar comigo" ainda conta com uma trilha sonora costurada exemplarmente pelo diretor (que refinaria a receita até o magnífico "Moulin Rouge", oito anos mais tarde): ao lado de "Carmen", de Bizet, pode-se ouvir "Quizás, quizás, quizás" entoada por Doris Day, "Time after time", clássico de Cyndi Lauper em nova gravação e até mesmo a encantadora "Love is in the air" na voz do então sumido John Paul Young. A trama pode até não ser exatamente surpreendente, mas a criatividade do filme de Baz Luhrmann reside majestosa em seu visual e na sua coragem de assumir seu lado brega.

Wednesday, December 1, 2010

O ÓLEO DE LORENZO

O ÓLEO DE LORENZO (Lorenzo's oil, 1992, Universal Pictures, 129min) Direção George Miller. Roteiro: George Miller, Nick Enright. Fotografia: John Seale. Montagem: Marcus D'Arcy, Richard Francis-Bruce. Figurino: Colleen Atwood. Direção de arte/cenários: Kristi Zea/Karen O'Hara. Casting: Canice Kennedy, John S. Lyons. Produção executiva: Arnold Burk. Produção: George Miller, Doug Mitchell. Elenco: Nick Nolte, Susan Sarandon, Peter Ustinov, Zach O'Malley, Laura Linney, James Rebhorn. Estreia: 30/12/92

2 indicações ao Oscar: Atriz (Susan Sarandon), Roteiro Original

Se o filme "O campeão" (1979), de Franco Zefirelli, era o pesadelo de qualquer criança, pode-se considerar este "O óleo de Lorenzo" como o mais aterrador sonho de quaisquer pais. Baseado em uma história real, o filme de George Miller - que apesar do background inusitado que inclui "Mad Max" e "As bruxas de Eastwick" é formado em Medicina - versa sobre o  mais profundo medo que uma mãe ou um pai possa ter em relação aos filhos: uma doença rara e incurável.

É justamente uma doença rara e incurável - adrenoleucodistrofia, uma doença degenerativa que mata os pacientes (sempre meninos antes da adolescência) poucos anos após seu diagnóstico - que ataca o pequeno Lorenzo Odone (o impressionante Zack O'Malley Greenburg) aos cinco anos de idade. Filho único da dona-de-casa Michaela (Susan Sarandon) e caçula do professor Augusto (Nick Nolte), ele torna-se agressivo repentinamente e, aos poucos, começa a perder o controle sobre os membros e a capacidade de comunicar-se verbalmente. Desesperados com a falta de conhecimento a respeito do mal que está destruindo o menino, o casal resolve investigar por conta própria e tentar encontrar uma maneira de deter o avanço da enfermidade. Desencorajado por outros pais que lideram uma associação, eles contam com a ajuda de um dedicado médico (Peter Ustinov) para atingir seu objetivo e impedir a morte de Lorenzo.

George Miller não poupa o espectador em sua jornada médico-familiar. Escorado em uma atuação quase miraculosa de Susan Sarandon, "O óleo de Lorenzo" não tenta fugir do dramalhão inerente à sua história: é um filme pesado, triste, sofrido, mas ao mesmo tempo é um conto repleto de esperança, amor e tenacidade. A batalha do casal Odone pela cura inexistente para a doença do filho é narrada de forma clássica pelo cineasta, que utiliza a trilha sonora barroco/religiosa para sublinhar os momentos de maior dramaticidade - um pequeno exagero que não chega a atrapalhar sua paixão pela história. Editado de forma ágil, com cenas curtas mas eficientes, o calvário de Lorenzo conquista a plateia devido principalmente à sua honestidade e extremo senso humano. Tudo coroado por uma Susan Sarandon que mereceria ter ganho o Oscar para o qual foi indicada - ela perdeu para Emma Thompson, em "Retorno a Howards End".


Com total entrega à sua personagem, Sarandon criou uma "mater dolorosa" como poucas vezes se viu no cinema americano nos anos 90, onde imperou o cinismo e a violência exarcebada. Seu estoicismo e sua coragem em encarar de frente uma situação desesperadora seguram o filme no limite do tolerável - afinal de contas, testemunhar um sofrimento como o de Lorenzo (interpretado com surpreendente talento pelo pequeno Zack O'Malley Greenburg) não é programa dos mais palatáveis. E sua performance memorável torna-se ainda mais fantástica quando comparada ao trabalho quase caricato de seu parceiro de cena: como o italiano Augusto Odone, Nick Nolte força a barra em inúmeros momentos, fazendo de sua trágica personagem um quase pastiche: um sotaque equivocado é o um dos defeitos de sua interpretação quase risível. Um ator mais sutil ao lado de Sarandon com certeza faria de "O óleo de Lorenzo" um filme ainda melhor.


Mesmo que não possa ser considerado jamais como um entretenimento agradável ou alto-astral, "O óleo de Lorenzo" é uma ode ao amor paterno e um elogio consagrador à esperança.

Tuesday, November 30, 2010

CHAPLIN

CHAPLIN (Chaplin, 1992, Carolco Pictures, 143min) Direção: Richard Attenborough. Roteiro: William Boyd, Bryan Forbes, William Goldman, história de Diana Hawkins, livros "Chaplin: his life and art", de David Robinson e "My autobiography", de Charles Chaplin. Fotografia: Sven Nykvist. Montagem: Anne V. Coates. Música: John Barry, José Padilla. Figurino: Ellen Mirojnick, John Mollo. Direção de arte/cenários: Stuart Craig/Norman Dorme. Casting: Mike Fenton, Susie Figgis, Valorie Massalas. Produção: Richard Attenborough, Mario Kassar. Elenco: Robert Downey Jr., Geraldine Chaplin, Anthony Hopkins, Moira Kelly, Dan Aykroyd, Marisa Tomei, Penelope Ann Miller, Kevin Kline, Maria Pitillo, Milla Jovovich, Diane Lane, Nancy Travis, James Woods. Estreia: 25/12/92

3 indicações ao Oscar: Ator (Robert Downey Jr.), Trilha Sonora Original, Direção de arte/cenários

Que Charles Chaplin foi um dos maiores gênios da história da humanidade é impossível discordar. Diretor e intérprete de clássicos absolutos como "O garoto", "Luzes da cidade" e "O grande ditador" - apenas para citar alguns de inúmeros títulos sensacionais - o ator inglês é uma das figuras mais reconhecidas da sétima arte, principalmente através de Carlitos, o vagabundo criado por ele e protagonista de muitos de seus filmes. Como a personagem foi criada, como algumas ideias para suas obras surgiram e principalmente como ele foi injustamente expulso dos EUA, acusado de ser simpatizante do comunismo, no entanto, não é material tão conhecido assim. Por isso, o cineasta Richard Attenborough resolveu que era hora de homenagear um de seus maiores ídolos com uma cinebiografia e lançou "Chaplin" no 15º aniversário de sua morte. Porém, ao contrário de sua obra mais famosa  -"Gandhi" - seu filme não apenas ficou aquém do esperado em termos de crítica, mas bombou feio nas bilheterias.

O papel principal de "Chaplin" ficou com o americano Robert Downey Jr., antes que seus problemas com drogas o tirasse das páginas de entretenimento e o colocasse na seção policial. Em uma atuação impressionante, Downey mostra que é, sim, um extraordinário ator, tirando leite de pedra de um roteiro capenga - inspirado em duas biografias do artista - que não ilustra a contento nem a carreira nem a vida pessoal de Charlie. Narrado em flashback, uma vez que a história é contada pelo diretor a um biógrafo (Anthony Hopkins), "Chaplin" começa mostrando a infância miserável do protagonista, que, abandonado pelo pai, substituiu a mãe com problemas mentais (Geraldine Chaplin interpretando sua avó) em um show de vaudeville e conheceu o gosto do sucesso. Contratado para fazer filmes em Hollywood - em saltos temporais que mais prejudicam do que ajudam na compreensão do todo - ele chega à conclusão que precisa de controle total sobre sua obra, entrando em rota de colisão com o então todo poderoso Mack Sennet (Dan Aykroyd) e a cineasta Mabel Normand (Marisa Tomei). De posse de seu talento e de sua fama, ele galga rapidamente os degraus do sucesso, emendando um sucesso atrás do outro. No entanto, sua predileção por mulheres mais jovens - e às vezes menores de idade - e o fato de ter comprado briga com o criador do FBI, J.Edgar Hoover (Kevin Dunn) os leva a ter sérios problemas com a justiça americana, culminando com sua expulsão do país.


"Chaplin" poderia ter sido contado com dois enfoques diferentes e bastante interessantes: Attenborough (que demonstrou um pouco de preguiça na direção) poderia ter explorado os bastidores da Hollywood do início do século XX, com suas brigas por poder, suas fofocas, seu glamour e a construção do cinema mais popular do biografado. Ou poderia ter optado por narrar as aventuras amorosas e sexuais de Chaplin e suas eventuais complicações - o relacionamento com a perturbada Joan Barry (Nancy Travis), o casamento feliz com Paulette Godard (Diane Lane) e a felicidade ao lado de Oona O'Neil (Moira Kelly), por exemplo. Ao tentar reunir tanta informação em um filme de duração comercial - menos de 2 horas e meia - o roteiro impede o espectador de ter um contato mais profundo com qualquer personagem e situação. Fica-se, então, privado do ótimo trabalho de Kevin Kline como Douglas Fairbanks Jr. ou de Diane Lane como Paulette Goddard - sem falar que a simpatia de Chaplin em relação ao povo judeu (e sua subsequente fama de "comunista") tem muita origem em seu casamento com ela. Logicamente seria impossível dentro dos limites do tempo equilibrar tudo que precisa ser contado, mas um pouco de foco não faria mal nenhum e ainda ajudaria na contemplação dos destaques da produção, essa sim, digna de nota.

Não foi à toa que "Chaplin" foi indicado ao Oscar de direção de arte. É visível o capricho na reconstituição da época mostrada no filme, assim como o figurino e a maquiagem. É fascinante a maneira com que Attenborough revela ao público alguns segredos de como eram realizados os filmes nos anos 10 e 20, bem como apresenta de maneira simpática a origem das ideias de Chaplin para resolver - de forma barata e eficiente - seus problemas criativos. Mas nem mesmo esse cuidado todo e a bela e delicada trilha sonora de John Barry - também indicada ao Oscar - não impedem que seja percebido o óbvio: "Chaplin" deve tudo o que é à interpretação arrebatadora de Robert Downey Jr.

Indicado ao Oscar por seu trabalho, Downey entrega uma atuação quase mediúnica. Ele desaparece dentro da personagem, fazendo com que o público esqueça que ali está um ator na pele de uma personalidade real. Para a audiência, Downey e Chaplin são a mesma pessoa, ao menos durante a duração do filme. É uma pena que ele tenha que arrancar essa atuação de dentro de si sem um roteiro que lhe faça jus. É de se imaginar o quão sensacional ele teria sido se tivesse uma base melhor!!!

Monday, November 29, 2010

PERFUME DE MULHER


PERFUME DE MULHER (Scent of a woman, 1992, Universal Pictures, 157min) Direção: Martin Brest. Roteiro: Bo Goldman, romance de Giovanni Arpino. Fotografia: Donald E. Thorin. Montagem: Harvey Rosenstock, William Steinkamp, Michael Tronick. Música: Thomas Newman. Figurino: Aude Bronson-Howard. Direção de arte/cenários: Angelo Graham/George DeTitta Jr. Casting: Ellen Lewis. Produção executiva: Ronald L. Schwary. Produção: Martin Brest. Elenco: Al Pacino, Chris O'Donnell, Gabrielle Anwar, Philip Seymour Hoffman, Todd Louiso, Bradley Whitford, James Rebhorn, Frances Conroy, Ron Eldard. Estreia: 23/12/92

4 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Martin Brest), Ator (Al Pacino), Roteiro Adaptado
Vencedor do Oscar de Melhor Ator (Al Pacino)
Vencedor de 3 Golden Globes: Melhor Filme/Drama, Ator/Drama (Al Pacino), Roteiro

Em tese, este "Perfume de mulher" é a refilmagem de um já clássico italiano de 1974 dirigido por Dino Risi e estrelado por Vittorio Gassman. Em tese. Na realidade, apenas a ideia central do filme de Risi é aproveitada nessa releitura do americano Martin Brest, que deu o tão esperado e aclamado Oscar de melhor ator a Al Pacino. E é Pacino, do alto de seu talento indiscutível, que faz com que um drama acadêmico e quase previsível caia no gosto da audiência, em mais uma atuação antológica em sua brilhante carreira.

O jovem Chris O'Donnell - que ficou com um papel para o qual até mesmo Chris Rock foi testado - vive Charlie Simms, um jovem e dedicado estudante de uma escola preparatória das mais tradicionais dos EUA. Sem recursos financeiros, ele vê sua bolsa de estudos correr risco de ser cancelada quando testemunha, ao lado de um colega milionário (interpretado por um jovem Philip Seymour Hoffman) um grupo de alunos aprontando um trote contra o diretor da instituição. Pressionado a contar em juízo o que testemunhou - sob pena de ser expulso da escola - Charlie vai passar o feriado de Ação de Graças fazendo um trabalho extra (para juntar dinheiro e passar o Natal com a família). O trabalho, que aparentemente seria fácil, torna-se complicado, porém: contratado para tomar conta de Frank Slade (Al Pacino), coronel do exército aposentado por cegueira, Charlie se vê acompanhando o veterano a uma viagem inesperada a Nova York. Lá, hospedado em um hotel cinco estrelas, Charlie frequenta restaurantes chiques, dirige uma Ferrari, visita a família do irmão do militar e, deslumbrado, o vê dançar tango com uma bela mulher. Fascinado com a maneira de Slade de levar a vida, Charlie fica chocado quando descobre que ele pretende cometer suícídio no final do feriado.

"Perfume de mulher" é inegavelmente um bom filme. Qualquer fã de cinema é obrigado a tirar o chapéu para a performance única de Pacino, entregue de corpo e alma à sua personagem irascível mas ao mesmo tempo apaixonante. O problema maior é que, ao seguir passo a passo a cartilha de como escrever um roteiro, Bo Goldman (também autor do sublime "Um estranho no ninho") não surpreende o espectador em momento algum. Desde o início é bastante óbvio, por exemplo, que a relação entre Slade e o jovem Charlie passará do profissional para o quase paternal e que o clímax, em uma reunião na instituição educacional onde começa o filme, será a grande cena do protagonista, aquela que justifica a premiação da Academia. As engrenagens do roteiro são quase visíveis demais para serem ignoradas e isso, dependendo de cada espectador, é claro, incomoda em grau maior ou menor.


Se essa questão um tanto técnica for deixada de lado, no entanto, "Perfume de mulher" é um espetáculo. Dirigido com sobriedade e interpretado com paixão - até mesmo o normalmente apático Chris O'Donnell entrega uma atuação passional - a versão de Brest do romance de Giovanni Arpino é o típico filme que os membros da Academia adoram: um protagonista com uma deficiência, lições de moral, dramas não muito pesados e um final "feliz". Se não fosse o ano de "Os imperdoáveis", era bem possível que tivesse levado o Oscar principal para casa, tamanha a sua adequação às normas hollywoodianas. Apesar de ter um linguajar barato e ter entre seus últimos desejos uma noite de sexo com uma prostituta, o contato mais erótico de Slade em relação a uma mulher é o belíssimo tango que dança com uma desconhecida - Gabrielle Anwar, que não fez a carreira que prometia aqui. Aliás, a cena do tango - que levou 3 dias para ser filmada - é, sem dúvida, a mais marcante do filme, digna de figurar em qualquer antologia dos momentos mágicos do cinema.

Apesar dos pequenos defeitos - que incomodam somente aos mais críticos, diga-se de passagem, uma vez que o público médio não se importa nem um pouco com detalhes técnicos - "Perfume de mulher" é um drama dos melhores, para se assistir ao lado da família. E é um dos trabalhos mais fascinantes de um dos melhores atores que o cinema americano produziu em sua história.

Sunday, November 28, 2010

QUESTÃO DE HONRA

QUESTÃO DE HONRA (A few good men, 1992, Columbia Pictures/Castle Rock Entertainment, 138min) Direção: Rob Reiner. Roteiro: Aaron Sorkin, peça teatral de Aaron Sorkin. Fotografia: Robert Richardson. Montagem: Robert Leighton, Steve Nevius. Música: Marc Shaiman. Figurino: Gloria Gresham. Direção de arte/cenários: J. Michael Riva/Michael Taylor. Casting: Janet Hirshenson, Jane Jenkins. Produção executiva: William Gilmore, Rachel Pfeffer. Produção: David Brown, Rob Reiner, Andrew Scheinman. Elenco: Tom Cruise, Jack Nicholson, Demi Moore, Kiefer Sutherland, Kevin Bacon, Kevin Pollack, Noah Wyle, Xander Berkeley, Cuba Gooding Jr., James Marshall, J.T. Walsh. Estreia: 11/12/92

4 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Ator Coadjuvante (Jack Nicholson), Roteiro Adaptado, Som
 Não deixa de ser interessante e sintomático notar que, no mesmo ano em que Quentin Tarantino fazia sua estreia nas telas com o agressivo e inovador "Cães de aluguel", a Academia de Hollywood tenha indicado para seu Oscar de Melhor Filme uma produção tão quadradinha quanto "Questão de honra". Baseado em uma peça de teatro de Aaron Sorkin (também autor do roteiro), o filme de Rob Reiner é extremamente bem realizado, bem dirigido e feito com uma competência assustadora. Mas, é, ao mesmo tempo, tão clássico, tão correto e tão tecnicamente admirável - a ponto de acabar com um vintage "The end" - que parece de plástico. Apesar disso - ou talvez por isso - é um filme de tribunal empolgante e que, se não chega a ser uma obra-prima, é um dos trabalhos mais interessantes de Tom Cruise.

Ainda em sua tentativa de fugir do estereótipo de galã, Cruise interpreta aqui, o jovem advogado da marinha Daniel Kaefe, que recebe a incumbência de defender, nos tribunais, dois soldados acusados de matar um colega. Acostumado a resolver todos os seus casos com acordos, logo ele passa a ser pressionado por sua superior, a Tenente JoAnne Galloway (Demi Moore) a insistir em uma defesa mais aguerrida. Certos de que os dois réus cometeram o crime cumprindo ordens superiores - um tal "código vermelho" comum na Marinha americana - eles resolvem arriscar suas carreiras ao chamar para depor como testemunha o poderoso Coronel Nathan Jessep (Jack Nicholson).

É difícil encontrar um defeito técnico em "Questão de honra". A música grandiloquente de Marc Shaiman, a edição concisa de Robert Leighton e o roteiro de Aaron Sorkin não deixam espaço para críticas. O elenco é o melhor que se poderia reunir na época: Cruise e Demi Moore eram astros quentíssimos e Jack Nicholson dispensa comentários (sua atuação lhe rendeu uma indicação ao Oscar). A direção de Rob Reiner é correta, discreta e eficaz, e o clímax é poderoso e interpretado com garra. Por que então "Questão de honra" - apesar do sucesso de bilheteria e das indicações ao Oscar - não é lembrado hoje como o excelente filme que é? Justamente por seu medo de ousar.
Na sua tentativa de agradar a todas as fatias de público possíveis - opção esta que a gorda bilheteria mostrou acertada - Reiner construiu um filme meticulosamente fotografado, com um script escrito com a precisão de um relógio cuco e um visual caprichado, em que desde as primeiras sequências fica evidente o cuidado com a produção. Também é elogiável a escolha em não criar um desnecessário romance entre as personagens de Cruise e Demi Moore, o que enfraqueceria a história e mataria o ritmo cadenciado proposto por Sorkin. Mas, mais do que tudo, o que "Questão de honra" tem de melhor é seu elenco.

Se Cruise convence no papel de Daniel Kaffe e Demi Moore entrega uma atuação correta - sem ter que apelar para sua extrema beleza - são os coadjuvantes que definitivamente roubam a cena. Como um dos vilões Kiefer Sutherland exercita sua veia cruel, e Kevin Bacon se mostra um ator versátil e competente como o promotor que luta contra o protagonista no tribunal. E Jack Nicholson, em um dos desempenhos mais assustadores de sua carreira, engole todos à sua volta, com um trabalho excepcional. E o fato de Tom Cruise ter encarado sem medo o veterano ator em uma sequência empolgante, no capítulo final, reitera a afirmação de que, quando bem dirigido, o galã de "Top Gun" tem seu valor dramático.

Deixando de lado os preconceitos contra filmes "certinhos", é possível se encantar com todas as qualidades de "Questão de honra". Não muda a vida de ninguém, mas prende a atenção e é feito com uma inteligência acima da média.

Saturday, November 27, 2010

TRAÍDOS PELO DESEJO

TRAÍDOS PELO DESEJO (The crying game, 1992, Miramax Films, 112min) Direção e roteiro: Neil Jordan. Fotografia: Ian Wilson. Montagem: Kant Pan. Música: Anne Dudley. Figurino: Sandy Powell. Direção de arte/cenários: Jim Clay/Martin Childs. Casting: Susie Figgis. Produção executiva: Nik Powell. Produção: Stephen Wooley. Elenco: Stephen Rea, Miranda Richardson, Forest Whitaker, Jaye Davidson, Jim Broadbent. Estreia: 26/9/92

6 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Neil Jordan), Ator (Stephen Rea), Ator Coadjuvante (Jaye Davidson), Roteiro Original, Montagem
Vencedor do Oscar de Roteiro Original

No biênio 92/93, um dos filmes mais comentados entre os cinéfilos de bom gosto era uma produção irlandesa, realizada com uns trocados, sem astros nos papéis centrais e com uma polêmica reviravolta na sua segunda parte. Dirigido pelo talentoso mas não célebre Neil Jordan, "Traídos pelo desejo" pegou o mundo de surpresa ao provar que, antes de astros musculosos e efeitos visuais, uma história bem contada é o ingrediente mais importante de qualquer produção. Hollywood seria muito mais interessante se seu filme fosse regra e não exceção.


Indicado a 6 importantes Oscar - e vencedor merecido do prêmio de roteiro original - "Traídos pelo desejo" é um dos mais fascinantes estudos sobre lealdade e paixão que o cinema já proporcionou. Imprevisível, forte, adulto e interpretado com garra, o filme de Jordan conduz o público a um labirinto de emoções a que somente um roteiro consistente e um diretor com mão firme conseguem. Tudo começa quando Jody (Forest Whitaker), um soldado inglês, é sequestrado pelo IRA, em represália ao governo. Enquanto espera o desenlace da situação, ele inicia uma espécie de amizade com um dos seus carrascos, o sensível Fergus (Stephen Rea, indicado ao Oscar de melhor ator), e fala a ele sobre sua paixão pela namorada. Depois de um trágico fim para o sequestro, Fergus abandona a luta armada e tenta levar uma vida normal. Consumido pela culpa, ele procura a namorada do soldado, a cabeleireira Dil (Jaye Davidson) e aos poucos eles iniciam um relacionamento. Depois de uma chocante revelação - que muda totalmente a visão de Fergus e da plateia em relação à moça - o passado do rapaz volta a atormentá-lo: sua colega de exército, Judy (Miranda Richardson, absolutamente fabulosa) o procura e exige que ele faça parte de uma nova ação.


As idas e vindas do roteiro de "Traídos pelo desejo" são absolutamente surpreendentes e não parecem forçadas em momento algum, graças principalmente à inteligência de Neil Jordan em não apressar as situações. Tudo acontece no momento certo, da forma correta, e o elenco escalado por ele não poderia estar em melhores dias. Stephen Rea é um ator extraordinário, que consegue dividir suas cenas com generosidade ímpar: ele joga bem com Whitaker, com Richardson e principalmente com Davidson, em um papel cruel e ingrato, mas que lhe dá a oportunidade de uma carreira. E Miranda Richardson rouba qualquer cena em que aparece, equilibrando um ar psicopata com uma determinação ferrenha de cumprir sua missão - e de quebra reconquistar o amor de Fergus.

Mas e quanto ao grande segredo preparado por Jordan? Apesar de ser o divisor de águas do roteiro - e redirecionar a trama de maneira indelével - a reviravolta na história de amor entre Fergus e Dil é apenas um elemento a mais, ainda que importante, de uma história contada com sutileza e sobriedade. Causou controvérsia, e discussões são sempre saudáveis, mas relegar "Traídos pelo desejo" a um nicho específico de cinema é emburrecer a audiência. "Traídos pelo desejo" é um filme que melhora a cada revisão - e na segunda sessão já não há mais a tal surpresa, o que apenas comprova sua enorme qualidade. Humano, sério e fascinante.Como todo bom cinema!

Friday, November 26, 2010

DRÁCULA DE BRAM STOKER

DRÁCULA DE BRAM STOKER (Bram Stoker's Dracula, 1992; American Zoetrope/Columbia Pictures, 128min) Direção: Francis Ford Coppola. Roteiro: James V. Hart, romance de Bram Stoker. Fotografia: Michael Ballhaus. Montagem: Anne Goursaud, Glen Scantlebury, Nicholas C. Smith. Música: Wojciceh Kilar. Figurino: Eiko Ishioka. Direção de arte/cenários: Thomas Sanders/Garrett Lewis. Casting: Victoria Thomas. Produção executiva: Michael Apted, Robert O'Connor. Produção: Fred Fuchs, Francis Ford Coppola, Charles Mulvehill. Elenco: Gary Oldman, Winona Ryder, Anthony Hopkins, Keanu Reeves, Tom Waits, Richard E. Grant, Cary Elwes, Bill Campbell, Sadie FrostMonica Bellucci. Estreia: 13/11/92

4 indicações ao Oscar: Figurino, Direção de Arte/cenários, Maquiagem, Efeitos Sonoros
Vencedor de 3 Oscar: Figurino, Maquiagem, Efeitos Sonoros

Quem tem coragem de dizer que todos os filmes de vampiro são iguais - ou acha que a série "Crepúsculo" tem qualquer qualidade além de ser uma vitrine para a "beleza" de seus astros - provavelmente não assistiu a "Drácula de Bram Stoker", mais uma obra-prima de Francis Ford Coppola. Só mesmo um cineasta de seu porte, que encontrou humanidade nos mafiosos de "O poderoso chefão", que quase foi à falência com o esteticamente ousado "O fundo do coração" e deu uma nova visão à guerra do Vietnã em "Apocalypse now", poderia orquestrar, sem soar repetitivo, essa ambiciosa adaptação quase operística da história do mais famoso vampiro da literatura, escrita pelo irlandês Bram Stoker no século XIII.

O toque de mestre do diretor já dá as caras no prólogo, inédito no livro e que conta as origens do sanguessuga - inspirado em uma personalidade real. O conde Vlad Dracul (o espetacular inglês Gary Oldman) torna-se conhecido como sanguinário devido a sua luta para defender a Igreja católica durante as Cruzadas. Ao retornar para casa, ele descobre que sua amada Elisabeta (Winona Ryder, linda mas quase inexpressiva) havia cometido suicídio, ao acreditar-lhe morto. Revoltado com a Igreja, que se recusa a sepultar suicidas, ele se entrega às trevas. Essas cenas, faladas em romeno e filmadas com criatividade e elegância, dão o tom barroco e épico pretendido pelo cineasta. O que vem pela frente é a mais perfeita tradução do universo gótico e assustador da obra.

Séculos depois da sequência de abertura, o Conde vive isolado em seu castelo na Transilvânia e recebe a visita do agente imobiliário Jonathan Harker (Keanu Reeves, o único elo fraco do filme), que chega disposto a fechar negócio com o idoso e misterioso milionário, depois que seu colega anterior, Reinfield (o cantor Tom Waits em participação especial extremamente eficiente) saiu de cena devido a um grave desequilíbrio mental. As coisas parecem estar indo bem até que o Conde reconhece em uma imagem de Mina, a noiva de Harker, a reencarnação de sua amada. Trancando o jovem em seu castelo, ele embarca para a Inglaterra com a intenção de reconquistar sua felicidade. Em Londres, ele parte em busca de Mina, mesmo que para isso tenha que sacrificar a melhor amiga desta, a desinibida Lucy (Sadie Frost) e enfrentar o conhecido médico Abraham Van Helsing (Anthony Hopkins), estudioso de ocultismo e caçador de vampiros nas horas vagas.

 A atmosfera lúgubre criada por Coppola e seu diretor de fotografia Michael Ballhaus encanta até o mais renitente dos espectadores. Ao utilizar-se de técnicas rudimentares de cinema para contar sua história - contrariando a nascente tendência de CGI - o cineasta parece querer convidar a plateia a entrar em um universo carregado de simbolismos onde a escuridão revela mais que a claridade, onde o vermelho do sangue grita a cada frame, onde cada transição de cena é meticulosamente cuidada. O visual carregado - justamente como se fosse uma ópera - é impecável: a direção de arte e o figurino (premiado com um justíssimo Oscar) não ficam nunca aquém do fantástico. Mais do que pretender assustar, o que Coppola quer é pegar o espectador pela mão e apresentá-lo a uma história de amor que não deixa o tempo, a religião ou a morte lhe diminuir. Ao contrário de outras versões cinematográficas, onde o protagonista era retratado ora como monstro ora como galã, aqui o Conde Drácula tem uma personalidade bem mais complexa: sim, ele é um monstro sanguinário e impiedoso, mas é também um homem traído pela sua fé e acima de tudo, um amante caloroso e dedicado que atravessa séculos em busca de sua amada.


Na pele do exímio Gary Oldman, Drácula é um herói trágico. Oldman não erra o tom de sua personagem em momento algum, equilibrando magistralmente o sarcasmo, o romance e a violência que lhe são características sem deixar que uma anule a outra. Sob a pesada maquiagem (também premiada com um Oscar), Oldman se transforma em ancião, em lobo e em vampiro sem nunca perder a essência, e aproveita cada cena para demonstrar seu grande talento. Destaque absoluto do elenco, ele precisa, no entanto, contracenar com um apático Keanu Reeves e uma Winona Ryder que, apesar de esforçada, não atinge o potencial dramático de sua personagem, ao contrário de uma desconhecida Sadie Frost que pinta e borda com sua fogosa Lucy, dona de algumas das mais belas cenas do filme. Anthony Hopkins, como Van Helsing, também encontra o tom exato de sua atuação, entre o trágico e o cômico, e até mesmo Tom Waits revela-se um ator eficaz, transmitindo a sensação de perigo que a chegada do Conde anuncia.


Belamente concebido - a trilha sonora forte de Wojciech Kilar ajuda a estabelecer também o clima quase surreal da visão de Coppola - e encenado como uma angustiante peça de teatro - e é genial a inserção do cinematógrafo na cena do primeiro encontro entre Drácula e Mina - "Drácula de Bram Stoker" é a visão definitiva de uma das mais duradouras histórias de amor e perda da literatura mundial. É também mais uma poderosa prova do talento visionário de Francis Ford Coppola, em seu, até agora, último trabalho digno de figurar no rol de suas obras-primas.

Thursday, November 25, 2010

CÃES DE ALUGUEL

CÃES DE ALUGUEL (Reservoir dogs, 1992, Miramax Films, 99min) Direção e roteiro: Quentin Tarantino. Fotografia: Andrzej Sekula. Montagem: Sally Menke. Figurino: Betsy Heimann. Direção de arte/cenários: David Wasco/Sandy Reynolds-Wasco. Casting: Ronnie Yeskel. Produção executiva: Richard N. Gladstein, Monte Hellman, Ronna B. Wallace. Produção: Lawrence Bender. Elenco: Harvey Keitel, Tim Roth, Michael Madsen, Lawrence Tierney, Chris Penn, Steve Buscemi, Quentin Tarantino, Edward Bunker. Estreia: 08/10/92

Poucas vezes um filme de estreia causou tanta balbúrdia quanto "Cães de aluguel", primeiro trabalho do ex-balconista de videolocadora Quentin Tarantino por trás das câmeras. Logo de cara o jovem (então com 32 anos) foi comparado a ninguém menos que Martin Scorsese, principalmente devido à sua temática e violência. E o pior (ou melhor, no caso) é saber que todos os elogios que recebeu foram amplamente merecidos. Realizado com pouco mais de um milhão de dólares, o filme de Tarantino em nenhum momento deixa transparecer seu orçamento irrisório. O motivo? Seu foco no texto, nos atores e na tensão constante.

Escrito em três semanas e meia e filmado em 35 dias, "Cães de aluguel" é talvez o mais influente filme independente americano de todos os tempos. Estiloso, cru, empolgante e realista ao extremo, é também um policial excitante e enxuto, que não deixa a plateia respirar nem por um minuto depois de seu hilário texto inicial - onde as personagens discutem teorias a respeito de canções de Madonna. Depois dos créditos de abertura, a ação começa e ganha um doce quem conseguir desgrudar os olhos da tela.


Os "cães de aluguel" do título são um grupo de bandidos reunidos por Joe Cabot (Lawrence Tierney) para o assalto a uma joalheria. Todos chamados por pseudônimos para que não se saiba nada a respeito um do outro, eles armam um plano aparentemente perfeito que dá muito errado. A chegada da polícia, um tiroteio e algumas vítimas fatais - inclusive entre os criminosos - levam os sobreviventes a um galpão abandonado, onde eles haviam combinado de encontrar-se. Lá, o veterano Mr. White (Harvey Keitel) tenta acalmar Mr. Orange (Tim Roth), mortalmente ferido no estômago e, ao lado do nervoso Mr. Pink (Steve Buscemi), tenta descobrir quem, no grupo, é o informante da polícia. A chegada do psicótico Mr. Blonde (Michael Madsen), com um policial de refém, deixa as coisas ainda mais tensas. É somente quando Cabot e seu filho, Nice Guy Eddie (Chris Penn) chegam que tudo se encaminha para um final extremamente violento.


Co-produzido por Harvey Keitel - que leu o roteiro e apaixonou-se à primeira vista - "Cães de aluguel" já demonstra o estilo que caracterizaria a obra de Quentin Tarantino nos anos subsequentes: os diálogos rápidos e espertos (recheados de cultura pop), a edição frenética (a cargo de Sally Menke, morta precocemente este ano), a trilha sonora composta por pérolas trash e principalmente a escolha acertadíssima do elenco. O próprio cineasta atua no filme, como Mr. Brown, mas ambicionava o papel de Mr. Pink, interpretado com propriedade por Steve Buscemi - depois que George Clooney (ainda um ninguém na indústria) foi recusado. É admirável perceber como os atores escolhidos pelo diretor casaram perfeitamente com seus papéis. Tim Roth e Harvey Keitel tem uma química invejável, Chris Penn tem o melhor trabalho da carreira e Michael Madsen merece louvores à parte pela composição inesquecível do psicótico Mr. Blonde, dono da cena mais controversa de toda a obra.

Não houve quem tenha assistido a "Cães de aluguel" sem comentar - ou ao menos se chocar - com a famosa sequência em que Mr. Blonde tortura o policial feito de refém - a ponto de arrancar-lhe uma orelha. Assustadora e quase explícita, ela foi motivo de conversas em mesas de bares, discussões sobre a violência no cinema e proporcionou a Michael Madsen o momento mais marcante de sua carreira. A imagem de sua personagem tomando calmamente um milk-shake antes de partir para a ignorância fria e calculada é de arrepiar qualquer cinéfilo, que tem, inclusive, em "Cães de aluguel" algumas imagens marcadas na retina para sempre.


O grupo de criminosos vestidos de paletó e gravata no início do filme - que virou inclusive parte do logotipo da produtora de Tarantino, A Band Apart - Harvey Keitel dando pontapés em um Steve Buscemi caído no chão e a poderosa imagem de quatro dos "amigos" apontando armas uns para os outros no clímax são cenas de grande impacto visual e uma mostra do talento inegável do diretor já em seu primeiro trabalho - um talento que, apesar de alguns detratores dizerem o contrário, foi apenas se refinando com o tempo e a maturidade. E o roteiro - trabalhado fora de ordem cronológica, outra característica de Tarantino - é conciso, inteligente e verossímil sem, porém, apelar para a previsibilidade.


"Cães de aluguel" é uma das melhores estreias da história do cinema, quer goste-se ou não. Rendeu imitações, homenagens e citações. Mas mantém seu frescor e força apesar da distância do tempo.
 

Wednesday, November 24, 2010

HERÓI POR ACIDENTE

HERÓI POR ACIDENTE (Hero, 1992, Columbia Pictures, 117min) Direção: Stephen Frears. Roteiro: David Webb Peoples, história de Laura Ziskin, Alvin Sargent, David Webb Peoples. Fotografia: Oliver Stapleton. Montagem: Mick Audsley. Música: George Fenton. Figurino: Richard Hornung. Direção de arte/cenários: Dennis Gassner/Nancy Haigh. Casting: Howard Feuer, Juliet Taylor. Produção executiva: Joseph M. Caracciolo. Produção: Laura Ziskin. Elenco: Dustin Hoffman, Geena Davis, Andy Garcia, Joan Cusack, Chevy Chase, Stephen Tobolowski, Tom Arnold. Estreia: 02/10/92

"Quando a lenda é mais interessante do que a história, publica-se a lenda." A célebre frase, dita no filme "O homem que matou o facínora", parece ser o lema que orienta o roteiro de "Herói por acidente", ácida e cínica comédia dirigida pelo inglês Stephen Frears que falhou vergonhosamente em suas intenções de arrebatar prêmios nas cerimônias de 1992. Uma espécie de sátira ao estilo Frank Capra - repleto de ironias, mas sem as lições de moral dos filmes deste - o filme escrito por David Webb Peoples (autor de "Os imperdoáveis") não encontrou nem mesmo sua audiência, estacionando em uma bilheteria de menos de 20 milhões de dólares, a despeito de seu cartaz estampar os nomes de Dustin Hoffman e Geena Davis - ela então no auge da carreira depois do sucesso de "Thelma & Louise".

Davis interpreta Gale Gayley, uma repórter dedicada e ambiciosa, capaz de entrevistar suicidas momentos antes de seus atos finais. Durante um vôo de volta de Nova York - onde havia ido para receber um prêmio - seu avião sofre um acidente e os passageiros são resgatados por um homem misterioso, com o rosto sujo de lama e sem um pé de sapato. Não demora para que esse herói receba, na mídia, o apelido de "O anjo do vôo 104" e passe a ser procurado para entrevistas e glórias. Quando uma recompensa de 1 milhão de dólares é oferecida, porém, o novo astro surge: o mendigo John Bubber (Andy Garcia) assume o posto e torna-se ídolo das multidões, chegando inclusive a ensaiar um romance com a repórter. O problema maior é que Bubber não é o verdadeiro salvador: quem realmente merece as honras é Bernie LaPlante (Dustin Hoffman), um homem que vive de expedientes, sem emprego fixo e que foi parar na cadeia logo depois do acidente, acusado de revender objetos roubados. LaPlante tenta provar que ele é o verdadeiro herói, mas tem que lutar contra o fato de que Bubber é bonito, simpático e bem mais apropriado às intenções da mídia.
Um feroz ataque à futilidade da mídia, "Herói por acidente" esbarra, em certos momentos, em um cinismo exagerado. Ainda que a intenção do roteiro seja justamente ampliar os erros cometidos em nome do sucesso - afinal de contas é isso que faz uma comédia - às vezes a coisa parece sair do controle. Excelente diretor, Frears escorrega em carregar nas tintas das personagens, a ponto de nem mesmo o público saber discernir entre o que é verdadeiro ou não em suas personalidades. O romance entre Gale e John Bubber, por exemplo, não encanta justamente por esse motivo. Por melhores atores que sejam, Geena Davis e Andy Garcia saem-se muito melhor nas sequências menos dramáticas do filme - Garcia está sublime em seus momentos de demagogia explícita (ainda que o roteiro nem sempre se decida se ele é honesto ou não em suas intenções).

Mas Dustin Hoffman, mais uma vez, brilha intensamente. Apesar de manter alguns tiques de seu "Rain Man", ele dá a seu Bernie LaPlante nuances que o fazem driblar as armadilhas do roteiro um tanto maniqueísta. O protagonista criado por David Peoples não tem nada que o faça ser mais do que um ser humano um tanto desagradável, um pai relapso (mas amoroso) e um ex-marido decepcionante. Ainda assim, o carisma de Hoffman contorna as falhas de caráter de sua personagem, levando o público a torcer por sua vitória. A longa sequência em que ele conversa com um suicida John Bubber é um primor de inteligência, e seu diálogo esperto e realista compensa plenamente os percalços do roteiro até então.

Dizer que "Herói por acidente" é ruim é um pecado, bem como incensá-lo como uma obra-prima. É um filme de rara inteligência e sarcasmo, mas que resvala em alguns exageros. Não mereceu ser ignorado e deve ser redescoberto, ao menos para que a crítica furiosa que faz ao quarto poder não caia no vazio.

Tuesday, November 23, 2010

VIDA DE SOLTEIRO

VIDA DE SOLTEIRO (Singles, 1992, Warner Bros, 99min) Direção e roteiro: Cameron Crowe. Fotografia: Tak Fujimoto, Ueli Steiger. Montagem: Richard Chew. Música: Paul Westerberg. Figurino: Jane Ruhm. Direção de arte/cenários: Stephen J. Lineweaver/Clay A. Griffith. Casting: Owens Hill. Produção executiva: Art Linson. Produção: Cameron Crowe, Richard Hashimoto. Elenco: Matt Dillon, Bridget Fonda, Campbell Scott, Kyra Sedgwick, Sheila Kelley, Bill Pullman, James LeGros, Eric Stoltz, Jeremy Piven, Tom Skerrit, Paul Giamatti. Estreia: 18/9/92

A principal informação que pessoas normais tem a respeito de Seattle é que é a cidade que foi o berço do movimento "grunge", que, no início dos anos 90, legou ao mundo bandas como Pearl Jam e Nirvana (da cidade vizinha Aberdeen). E é justamente nessa Seattle musical e jovem que se passa uma das comédias românticas mais bacanas da década, que, se não tornou-se o êxito comercial esperado, ao menos amealhou fãs fiéis e ardorosos. "Vida de solteiro", escrito e dirigido pelo ex-repórter da revista Rolling Stone, Cameron Crowe, é uma delícia de se assistir e ouvir, mesmo depois de várias revisões.


O filme é, basicamente, uma colagem de pequenas anedotas romântico/sentimentais de um grupo de jovens de vinte e muitos anos que moram no mesmo prédio no subúrbio de Seattle. A garçonete Janet (Bridget Fonda, com ótimo timing cômico) é apaixonada pelo namorado, o músico Cliff (Matt Dillon, de cabelo comprido e visual desgrenhado), líder de uma banda de rock, Citizen Dick. O romance dos dois, porém, é atrapalhado pela absoluta falta de romantismo do rapaz, que prioriza a "carreira" em detrimento à sua relação com a namorada. O ex-namorado de Janet, o engenheiro de trânsito Steve (Campbell Scott) tenta vender o projeto de um supertrem à prefeitura da cidade, enquanto inicia um hesitante romance com a ambientalista Linda (Kyra Sedgwick assumindo com propriedade o papel que foi oferecido a Jodie Foster, Jennifer Jason Leigh e Mary Stuart Masterson), insegura em relação a confiar em homens, depois que foi enganada pelo último amante. E Debbie (Sheila Kelley), cansada da solidão, faz um vídeo procurando um novo amor.


Ao acompanhar a trajetória dessa meia dúzia de personagens simpáticos, humanos e absolutamente verdadeiros, Crowe entrega à plateia um dos mais inteligentes retratos de uma geração normalmente considerada apática. Em sua história, o diretor/roteirista não se contenta apenas em fazer rir ou emocionar com as mancadas sentimentais de seus heróis: eles também buscam o sucesso profissional, também sonham em viver longe de jogos amorosos, também tem dúvidas e inseguranças. Ninguém, em "Vida de solteiro" é totalmente seguro de si: Janet pensa em aumentar os seios para reconquistar o namorado, Cliff é um roqueiro bem medíocre, Steve é dedicado à profissão mas não atinge o sucesso esperado, Linda sofre por não ter certeza de seus sentimentos e Debbie é uma maluquete que não se importa em ceder o pretendente à colega de apartamento em troca de algumas lavadas de louça. São todas personagens escritas com carinho e bom-humor, quase como uma descrição que alguém faz dos melhores amigos.

E está tudo lá, em "Vida de solteiro": as inseguranças ("será que eu devo ligar?"), os conselhos errados ("mulher gosta de mistério..."), as cantadas equivocadas ("não fazer tipo é seu tipo") e as declarações de amor inesperadas ("não me faça ter que lembrar desse cachorro-quente pra sempre..."). Está lá a trilha sonora vibrante e a participação especial de músicos e amigos do diretor (Eddie Vedder e a banda Pearl Jam são os integrantes da Citizen Dick, e Tim Burton faz uma ponta como um cineasta amador de vanguarda). Está lá o elenco de jovens atores em seus melhores dias e está lá, principalmente, a simpatia e o alto-astral que fazem de uma comédia romântica um dos gêneros mais queridos pelo público. Mas, acima de tudo, "Vida de solteiro" é uma celebração ao amor, à amizade, à juventude e, por que não?, à Seattle.

Um dos melhores filmes de Cameron Crowe - que anos depois lançaria o magnífico "Quase famosos" - a história de Janet, Cliff, Debbie, Steve e Linda é para ver e rever sempre. De preferência com um enorme sorriso e o coração aberto.

Monday, November 22, 2010

MULHER SOLTEIRA PROCURA


MULHER SOLTEIRA PROCURA... (Single white female, 1992, Columbia Pictures, 107min) Direção: Barbet Schroeder. Roteiro: Don Roos, romance "SWF Seeks Same", de John Lutz. Fotografia: Luciano Tovoli. Montagem: Lee Percy. Música: Howard Shore. Figurino: Milena Canonero. Direção de arte/cenários: Milena Canonero/Anne H. Ahrens. Casting: Howard Feuer. Produção executiva: Jack Baran. Produção: Barbet Schroeder. Elenco: Bridget Fonda, Jennifer Jason Leigh, Steven Weber, Peter Friedman, Stephen Tobolowski. Estreia: 14/8/92

Houve um tempo em que o cineasta Barbet Schroder gozava de certo prestígio junto à crítica especializada. "Barfly", com Faye Dunaway e Mickey Rourke pode não ter sido um estrondoso sucesso de bilheteria, mas tinha background - era uma adaptação do cultuado escritor Charles Bukowski. E "O reverso da fortuna" lhe deu uma indicação ao Oscar e uma estatueta dourada ao ator Jeremy Irons. Talvez por isso a gritaria contra "Mulher solteira procura...", que de certa forma foi seu primeiro sucesso financeiro. Baseado em um romance fast-food de John Lutz, o filme é um suspense estiloso, com uma trama interessante e boas atrizes em seu elenco, mas não consegue ser mais do que um exemplar apenas correto do gênero a que pertence.

Nova York, charmosa como sempre, é o cenário da história de duplicidade, identidade dividida e carência extrema contada por Schroder. A jovem e bem-sucedida Allison Jones (Bridget Fonda na fase áurea de uma promissora carreira que foi morrendo aos poucos e que merece uma ressurreição) vive em um amplo loft do Upper West Side. Bela e inteligente, ela sofre um revés emocional quando se separa do namorado, Sam Rawston (Steven Weber), por quem é extremamente apaixonada. Sentindo-se solitária, ela publica um anúncio nos jornais, procurando alguém para dividir o apartamento e as despesas. Dentre inúmeras candidatas, ela escolhe a tímida e prestativa Hedra Carlson (Jennifer Jason Leigh, excelente), que logo torna-se a sua amiga mais íntima - e a única. Quando Allison e Sam fazem as pazes, porém, as coisas começam a mudar: sentindo-se excluída, Hedra passa a adotar um comportamento estranho, vestindo-se como Allison, usando suas roupas e até mesmo cortando o cabelo como o dela. Apavorada, Allison não demora a perceber que há algo muito errado com sua colega de apartamento.


Certamente as primeiras partes de "Mulher solteira procura..." são bem superiores a seu terço final, onde mais uma vez a criatividade dá lugar aos clichês. Todo o clima sufocante impresso pelo cineasta em seus minutos iniciais - com a fotografia caprichada do italiano Luciano Tovoli e a direção de arte impressionante de Milena Canonero colaborando imensamente para isso - conduz o espectador a uma história tensa e psicologicamente interessante. Quando o roteiro apela, no entanto, para a violência escancarada, tudo que foi construído anteriormente com cuidado e delicadeza cai na vala comum, o que talvez tenha sido a principal razão das críticas furiosas contra o filme.

O problema maior de "Mulher solteira procura..." é não dar a devida atenção à psicologia de suas personagens. A doença de Hedra - que perdeu a irmã gêmea na infância - é fascinante por si só, mas é praticamente ignorada pelo roteiro. Quando Allison chega às terríveis conclusões a respeito de sua amiga, a trama não dá espaço para embates melhores do que mortes violentas, agressões físicas e tudo de mais banal que os filmes de suspense oferecem às plateias. É uma pena que as protagonistas não possam dar às atrizes material dramático suficientemente forte para que elas demonstrem todo seu potencial. Bridget Fonda e Jennifer Jason Leigh são atrizes muito boas, e fazem o possível para dar veracidade a suas atuações. Fonda vive uma mulher talentosa, dona do próprio nariz e bem-sucedida, mas que é emocionalmente frágil e delicada. Jason Leigh, ao contrário, interpreta uma mulher tímida mas que esconde dentro de si uma monstruosidade causada por um trauma irreparável. Com um roteiro menos esquemático e mais denso, ambas teriam aqui a grande oportunidade de suas carreiras.

"Mulher solteira procura..." não é um filme ruim. É charmoso, visualmente atraente - a profusão de espelhos pelo cenário diz muito sobre as ideias a respeito da ideia central do filme - e apresenta duas atrizes promissoras em trabalhos caprichados. Poderia ser melhor, mas funciona muito bem e cumpre o que promete: bons sustos e uma vilã ideal para a geração MTV.

Sunday, November 21, 2010

OS IMPERDOÁVEIS

OS IMPERDOÁVEIS (Unforgiven, 1992, Warner Bros, 131min) Direção: Clint Eastwood. Roteiro: David Webb Peoples. Fotografia: Jack N. Green. Montagem: Joel Cox. Música: Lennie Niehaus. Direção de arte/cenários: Henry Bumstead/Janice Blackue-Goodine. Casting: Phyllis Huffman. Produção executiva: David Valdes. Produção: Clint Eastwood. Elenco: Clint Eastwood, Gene Hackman, Morgan Freeman, Richard Harris, Jaimz Woolvett, Saul Rubinek, Frances Fisher. Estreia: 03/8/92

8 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Clint Eastwood), Ator (Clint Eastwood), Ator Coadjuvante (Gene Hackman), Roteiro Original, Fotografia, Montagem, Direção de Arte/Cenários, Som
Vencedor de 4 Oscar: Melhor Filme, Diretor (Clint Eastwood), Ator Coadjuvante (Gene Hackman), Montagem
Vencedor de 2 Golden Globes: Diretor (Clint Eastwood), Ator Coadjuvante (Gene Hackman)

Tudo bem que “Dança com lobos” pode ser considerado o filme que de certa forma ressuscitou o gênero faroeste dentro da indústria hollywoodiana, com seu sucesso de bilheteria e seus inacreditáveis 7 Oscar. Mas, justiça seja feita, é com “Os imperdoáveis”, o sensacional trabalho de Clint Eastwood, que o gênero atingiu uma maturidade com que Kevin Costner e suas tediosas e cenas contemplativas podem apenas sonhar. Espécie de réquiem a um gênero antes caro à indústria, "Os imperdoáveis" é melancólico e profundo como poucos ousaram ser. E por isso mesmo, ultrapassa a barreira que o relegaria apenas a fãs do western, atingindo um público mais amplo: os cinéfilos de bom gosto.

Tudo já começa extraordinariamente bem, com um texto explicativo apresentando, em 1880, o anti-herói do filme, William Munny (o próprio Eastwood em seu melhor momento como ator), um conhecido matador - "já matei mulheres e crianças. Uma vez ou outra, eu já matei tudo que anda e se arrasta nesse mundo..." - que abandonou a vida errática e criminosa para casar-se e formar família. Envelhecido, aposentado e viúvo, ele vê a chance de pagar suas dívidas e dar uma vida melhor para os filhos pequenos quando é procurado por Schofield Kid (Jaimz Woolvett), um jovem que lhe propõe sociedade em um trabalho ideal: matar dois homens que retalharam o rosto de uma prostituta na pequena cidade de Big Whisky. Munny reluta em aceitar o trabalho - o pagamento generoso será feito pelas próprias meretrizes da cidade - e o aceita com a condição de poder contar também com o velho parceiro Ned Logan (Morgan Freeman). Juntos, os três homens partem para cumprir a missão, mas esbarram no cruel e sádico xerife do lugar, Little Bill Daggett (Gene Hackman, vencedor do Oscar de coadjuvante).


Eastwood utiliza todos os elementos que fizeram a glória do gênero a seu favor. Xerifes sanguinários, saloons, descampados fotografados com maestria, anti-heróis solitários, tiroteios... Tudo está presente em "Os imperdoáveis", mas de uma maneira tão própria que é difícil entender porque o discípulo de Sergio Leone e Don Siegel - a quem o filme é dedicado - demorou tanto tempo para dirigir um filme no gênero que o consagrou. Dono de uma concisão e uma precisão absolutas, Eastwood constrói seu filme com cuidado, dando a cada cena, a cada diálogo e a cada enquadramento a atenção necessária. Mesmo tendo realizado o filme em apenas 39 dias, é patente sua qualidade autoral e artística. A direção de arte impecável e a fotografia são excepcionais, assim como a trilha sonora - cujo tema principal também foi composto pelo diretor - que equilibra a grandiloquência com a melancolia. 


E o elenco escolhido por Eastwood é excepcional. O diretor/produtor/compositor foi indicado ao Oscar de melhor ator por sua performance discreta e raivosa de William Munny, um homem marcado por um passado violento que tenta a redenção, ainda que por meios tortuosos. Morgan Freeman e Richard Harris pontuam com a competência habitual - o segundo na pele de um inglês famoso por seus dotes de atirador. E Gene Hackman deita e rola com seu torpe Little Bill, um homem pra quem a violência, mais do que um meio de vida, é quase um prazer. Suas cenas ao lado de Saul Rubinek (que vive um escritor que é tentado a escrever a biografia do xerife) são magistralmente dirigidas, ficando a um passo entre a tensão e o humor.

"Os imperdoáveis" mereceu os 4 Oscar que levou e talvez merecesse até mais. Forte e triste, é um entretenimento adulto do mais alto gabarito, que encanta em todos os níveis possíveis. E foi através dele que Eastwood renasceu como cineasta comercialmente viável e altamente oscarizável. Precisa dizer mais?

Thursday, November 18, 2010

ALIEN 3

ALIEN 3 (Alien 3, 1992, 20th Century Fox, 114min) Direção: David Fincher. Roteiro: David Giler, Walter Hill, Larry Ferguson, história de Vincent Ward. Fotografia: Alex Thomson. Montagem: Terry Rawlings. Música: Elliot Goldenthal. Figurino: David Perry, Bob Ringwood. Direção de arte/cenários: Norman Reynolds/Belinda Edwards. Produção executiva: Ezra Swerdlow. Produção: Gordon Carroll, David Giler, Walter Hill. Elenco: Sigourney Weaver, Charles S. Dutton, Charles Dance, Paul McGann, Lance Henriksen, Pete Postletwhaite. Estreia: 22/5/92

Indicado ao Oscar de Efeitos Visuais

Depois que James Cameron continou o tenso "Alien, o oitavo passageiro" com o espetaculoso e adrenalínico "Aliens, o resgate", era bastante esperado o retorno da Tenente Ripley em sua tentativa de exterminar o alienígena que aniquilou sua equipe inteira nos dois primeiros filmes. Depois de anos de negociações - em que estrela da série, Sigourney Weaver hesitava em voltar à personagem - finalmente o terceiro capítulo chegou às telas, dirigido por David Fincher, um novato que tinha no currículo alguns dos melhores videoclipes de Madonna e George Michael, por exemplo. Ao optar pelo caminho claustrofóbico do primeiro em detrimento da ação desenfreada do segundo, Fincher arrumou detratores furiosos. Depois de brigas homéricas com os produtores, o cineasta não supervisionou a edição final e "Alien 3" chegou às telas quase órfão. O resultado é visível: apesar de muitas boas ideias, a terceira parte da saga de Ripley não empolgou nem o público nem a crítica. Mas não é tão ruim quanto se falou à época de seu lançamento. 

A história dessa nova aventura começa logo após o final do segundo filme. Sem saber que não está a salvo da ameaça alienígena dos capítulos anteriores, Ripley acorda em Fiorina 161, um planeta-prisão, onde ficam encarcerados prisioneiros sexualmente agressivos e violentos. Informada por Clemens (Charles Dance), o médico local, de que toda sua tripulação morreu, ela imediatamente percebe que tudo está para acontecer novamente. Única mulher em meio a homens carregados de testosterona, ela precisa convencê-los do perigo que correm, proteger-se deles e lutar, mais uma vez, para matar seu inimigo. Dessa vez, no entanto, ela não tem nenhuma arma.


Com a cabeça raspada - o presídio está passando por uma epidemia de piolhos - Sigourney Weaver segura, novamente, toda a responsabilidade de carregar o filme nas costas. Ao contrário das ocasiões anteriores, porém, dessa vez Ripley tem mais cenas dramáticas do que de ação, consequência da opção de David Fincher em privilegiar o aspecto mais tenso da trama. Até mesmo um arremedo de romance surge entre Ripley e Clemens, ousadia que pegou os fãs de surpresa - ainda que tudo seja extremamente discreto. E discreto também é o ritmo do filme: demora quase uma hora para que a ação realmente comece e o sangue jorre em Fiorina 161. Na verdade, a lentidão é parte da personalidade do filme, que prefere estabelecer sua história antes da violência. Pouca gente compreendeu isso e se recusou a perceber suas qualidades.



Sim, apesar da gritaria contra si - e da saída de David Fincher do projeto em seu estágio de finalização - "Alien 3" tem qualidades. A ousadia talvez seja a maior delas. Ao praticamente lutar por suas ideias e com isso renegar a receita que estava fazendo sucesso há quinze anos, David Fincher começou uma carreira marcada pela personalidade. Visualmente impecável - a fotografia escura e pesada unida à agressividade estética das personagens - o filme de Fincher transmite a exata sensação de claustrofobia pretendida e, se não busca atingir seu público com efeitos visuais exagerados, tenta (às vezes com sucesso, outras nem tanto) assustar sem apelar para o fácil e o corriqueiro. Talvez por isso tenha afastado a audiência fiel das primeiras partes.


Tudo bem que "Alien 3" não passa a sensação de terror do primeiro nem empolga em termos de aventura do segundo. Tudo bem também que seu terço final não acrescenta muito à saga - apesar de antes de chegar a ele algumas cenas sejam sensacionais. E tudo bem que não ver Ripley empunhando armas é um tanto frustrante. Mas, mesmo que seja rejeitado por David Fincher, é um exemplar bastante - BASTANTE! - decente da série. Digam o que quiserem, "Alien 3" me agrada.

Sunday, November 14, 2010

INSTINTO SELVAGEM

INSTINTO SELVAGEM (Basic instinct, 1992, Carolco Pictures, 127min) Direção: Paul Verhoeven. Roteiro: Joe Eszterhas. Fotografia: Jan De Bont. Montagem: Frank J. Urioste. Música: Jerry Goldsmith. Figurino: Ellen Mirojnick. Direção de arte/cenários: Terence Marsh/Anne Kuljian. Produção executiva: Mario Kassar. Produção: Alan Marshall. Elenco: Michael Douglas, Sharon Stone, George Dzunza, Jeanne Tripplehorne, Leilani Sarelle, Wayne Knight, Stephen Tobolowski, Dorothy Malone. Estreia: 20/3/92

2 indicações ao Oscar: Montagem, Trilha Sonora Original

Bissexual, usuária de cocaína, praticante de várias modalidades de sexo, brilhantemente inteligente e suspeita de um violento assassinato. Essas são as características de Catherine Tramell, a improvável heroína de um dos maiores e mais controversos sucessos de bilheteria dos anos 90, o já icônico "Instinto selvagem". Recusado por várias atrizes devido a seu teor potencialmente polêmico, o papel de Tramell acabou nas mãos de Sharon Stone, que já havia trabalhado com o diretor holandês Paul Verhoeven em "O vingador do futuro".
Pode ter sido um desses casos escritos nas estrelas porque o fato é que Catherine Tramell e Sharon Stone parecem, desde o primeiro momento em que a atriz entra em cena, feitas uma para a outra. Devido a seu trabalho como a sedutora e ambígua personagem criada pelo roteirista Joe Ezsterhas - que recebeu de pagamento o então recorde de 1 milhão de dólares - Stone transformou-se, da noite para o dia, no maior símbolo sexual da década, povoando o imaginário masculino - e por que não? - o feminino também.

A trama de “Instinto selvagem” se passa em San Francisco. Um roqueiro é violentamente assassinado a golpes de picador de gelo durante o ato sexual com uma loura escultural – em uma cena pra lá de excitante. Chamado à cena do crime, o policial Nick Curran (Michael Douglas em um período de bons filmes) logo fica sabendo que a vítima tinha um caso com a bela Catherine Tramell, escritora de livros policiais eróticos. Além de parceira sexual do roqueiro, Tramell também havia descrito um assassinato nos mesmos moldes do ocorrido em um de seus romances. Ao lado do parceiro Gus (George Dzunza), Curran procura a escritora, mas ela, apesar de parecer um tanto fria e racional, passa com louvor no detector de mentiras. Ainda na pele de suspeita, ela seduz o policial, ele mesmo com vários problemas a resolver: ainda se curando de vícios em drogas e bebida, ele é obrigado por seu departamento a ter consultas psicológicas com sua ex-namorada, Beth Garner (Jeanne Tripplehorn), devido à morte acidental de um civil, causada por ele. Envolvido com a bela possível assassina, Curran tenta provar sua inocência, ainda que os fatos comecem a se acumular contra ela.

 Fotografado com requinte e dono de uma parte técnica impecável – edição, trilha sonora, som – “Instinto selvagem” ainda por cima tem uma qualidade que o eleva a vários patamares sobre seus colegas de gênero: a inteligência do roteiro. Repleta de pistas falsas, reviravoltas verossímeis e sequências de tirar o fôlego – sejam elas de ação ou puramente sexuais (e elas são várias e bem desinibidas) – a trama de Ezterhas conquista desde o primeiro minuto, nunca deixando o público antecipar o que virá a seguir. O que é uma regra básica de roteiro policial, mas que é constantemente negligenciado. Só a cena do primeiro interrogatório de Tramell merece figurar em qualquer antologia, tanto de suspense quanto de erotismo. Atire a primeira pedra quem consegue esquecer a famosa cruzada de pernas de Stone...

E erotismo é o que não falta em "Instinto selvagem". Fetiches desfilam pela tela sem pudor - e são dirigidos com visível gosto por Verhoeven. Bondage, lesbianismo, sexo grupal, sexo violento... tudo é permitido no universo do filme, ou ao menos mais comum do que na maioria dos produtos hollywoodianos. Tudo bem que a sofisticação quase exagerada que permeia o longa - carros belíssimos, mansões deslumbrantes, mulheres gostosas - imediatamente o afasta do grosso do público, mas o roteiro e a direção são espertos o bastante para nunca deixar a atenção ser desviada do que realmente importa: a história.

Logo que "Instinto selvagem" estreou - despertando a ira de ativistas homossexuais - Sharon Stone espalhou aos quatro ventos que as cenas de sexo entre ela e Michael Douglas foram reais e o ator declarou ser viciado em sexo. Não é preciso dizer que foi um bom marketing e o filme tornou-se um sucesso enorme no mundo todo. Logicamente um bom boato pode fazer maravilhas por um produto cinematográfico, mas não há como negar que o filme de Verhoeven mereceu todo o auê. Infelizmente, a ganância, como sempre, falou mais alto, e uma intragável e desnecessária continuação estreou anos depois. Merecidamente foi execrado.

Saturday, November 13, 2010

A MÃO QUE BALANÇA O BERÇO

A MÃO QUE BALANÇA O BERÇO (The hand that rocks the cradle, 1992, Hollywood Pictures, 110min) Direção: Curtis Hanson. Roteiro: Amanda Silver. Fotografia: Robert Elswit. Montagem: John F. Link. Música: Graeme Revell. Figurino: Jennifer von Mayrhauser. Direção de arte/cenários: Edward Pisoni/Sandy Reynolds Wasco. Casting: Junie Lowry-Johnson. Produção executiva: Robert W. Cort, Ted Field, Rick Jaffa. Produção: David Madden. Elenco: Rebecca De Mornay, Annabella Sciorra, Matt McCoy, Ernie Hudson, Julianne Moore, Madeline Zima. Estreia: 10/01/92

No início dos anos 80, Tom Cruise revelou-se ao mundo dançando só de cuecas no filme "Negócio arriscado", uma comédia divertida onde ele contracenava com uma bela loura que parecia tão promissora quanto ele. O tempo passou, Cruise tornou-se um dos maiores astros de Hollywood e a loura desapareceu dentre as dezenas de promessas que surgem a cada ano. Em 1992, no entanto, ela voltou. Má, vingativa e cruel, a protagonista de "A mão que balança o berço" devolveu à bela Rebecca de Mornay a chance de brilhar - e por que não? - assustras plateias mundo afora.

Não que a obra de Curtis Hanson (que anos depois deixaria os cinéfilos de queixo caído com o sensacional "Los Angeles, cidade proibida") seja um filme para marcar a história do cinema, ou que a atuação de Rebecca seja digna de um Oscar (apesar de um prêmio da MTV americana como Melhor Vilã), mas os quase 90 milhões de dólares arrecadados somente nos EUA demonstraram sem sombra de dúvida a boa vontade do público de abraçar uma história que deixa de lado monstros mascarados e sangue aos borbotões para dar mais atenção à tensão psicológica que surge entre o bem e o mal, aqui divididos clara e maniqueistamente entre a dona de casa vivida por Annabella Sciorra e a insidiosa babá interpretada por De Mornay.



Sciorra vive Claire Bartel, uma mulher que divide seu tempo entre o trabalho e a família, formada por um marido apaixonado, uma filha encantadora e um bebê recém-nascido. É justamente para ajudá-la a cuidar de tudo isso que ela contrata a dedicada e angelical Peyton Flanders como babá de seu filho caçula. Aparentemente perfeita, aos poucos a nova funcionária começa a mostrar as garrinhas, tentando destruir a paz da casa, mesmo que tenha que prejudicar todas as pessoas que lhe pareçam ameaçadoras a seu objetivo. A razão para tamanho ódio? Ela é a viúva do ginecologista de Claire, que suicidou-se depois de ter sido acusado de abuso sexual pela própria. Após a morte do marido e a subseqüente perda do bebê que esperava, a loira tem certeza que vingar-se da família Bartel é a única coisa certa a fazer.

A partir daí é esperar a baixaria: Peyton dá em cima do marido de Claire, forja um relacionamento dele com a melhor amiga da esposa (uma Julianne Moore em início de carreira), amamenta o filho da inimiga e chega ao extremo de tentar mandar pra cadeia o empregado com problemas mentais contratado para serviços de jardinagem (o bom Ernie Hudson). A absoluta falta de remorso ou hesitação da protagonista é comparável a vilãs de novelas globais, que não permitem que ninguém ou nada atrapalhe seus objetivos - e o roteiro tampouco se preocupa em buscar profundidade em seus atos, tendo como finalidade absoluta levar a história a um clímax como manda qualquer curso para escritores de cinema. A escalada de maldades de Peyton é interpretada com visível gosto por Rebecca, que acaba sendo o destaque absoluto de um filme interessante mas que nunca ultrapassa as limitações do gênero a que pertence. Não deixa de ser um correto currículo para Hanson - que atingiria estágios extremamente superiores em seu ofício - e o destaque maior da carreira de De Mornay, que apesar do sucesso do filme não atingiu o patamar de estrela que prometia.

"A mão que balança o berço" é um suspense mediano, construído corretamente pelo talentoso diretor Cutis Hanson. Prende a atenção, mas não muda a vida de ninguém.