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Friday, June 3, 2011

QUEM VAI FICAR COM MARY?

QUEM VAI FICAR COM MARY? (There's something about Mary, 1998, 20th Century Fox, 119min) Direção: Peter Farrelly, Bob Farrelly. Roteiro: Peter Farrelly, Bob Farrelly, Ed Decter, John J. Strauss, história de Ed Decter, John J. Strauss. Fotografia: Mark Irwin. Montagem: Christopher Greenbury. Música: Jonathan Richman. Figurino: Mary Zophres. Direção de arte/cenários: Arlan Jay Vetter/Scott Jacobson. Produção executiva: Peter Farrelly, Bob Farrelly. Produção: Frank Beddor, Michael Steinberg, Bradley Thomas, Charles B. Wessler. Elenco: Cameron Diaz, Matt Dillon, Ben Stiller, Richard Jenkins. Estreia: 15/7/98
 
Às vezes, para se divertir no escurinho do cinema, é preciso abdicar de um senso crítico mais severo e de qualquer resquício de pudores. É o caso de "Quem vai ficar com Mary?", uma comédia tão despudorada e politicamente incorreta que chega a ser difícil de acreditar que tenha rendido mais de 170 milhões de verdinhas nos EUA, um país merecidamente famoso por seus hipócritas pruridos morais. Ao fazer piada com qualquer ser humano que não seja branco, anglo-saxão, protestante, heterossexual ou com uma saúde perfeita, o filme dos irmãos Farrelly não deixa pedra sobre pedra. E é um dos mais divertidos da década de 90.

O filme começa nos anos 80, quando o tímido estudante Ted (Ben Stiller) finalmente consegue realizar seu maior sonho: levar a bela Mary (Cameron Diaz) ao baile de formatura. Porém, depois de um constrangedor acidente no banheiro da casa da garota, ele perde notícias da beldade. Anos depois, ainda sofrendo de saudade e paixão recolhida, ele tem a ideia de contratar um detetive particular para encontrá-la. O escolhido é o mau-caráter Healy (Matt Dillon), que também se apaixona pela moça, um doce de pessoa que não tem sorte no amor. Aos poucos Ted tenta reconquistá-la, lutando contra o atrapalhado detetive e inúmeros outros apaixonados por ela.

Na verdade, a pífia história de "Quem vai ficar com Mary?" serve apenas de pano de fundo para uma sucessão de piadas engraçadíssimas, que variam do sofisticado humor irônico ao mais deslavado pastelão. Ao apelar para praticamente todo tipo de piada, o roteiro dos irmãos Farrelly não deixa absolutamente nada escapar, com tiradas visuais hilárias e diálogos espirituosos e sem o menor temor em ofender as minorias - que, a julgar pelo enorme sucesso do filme, também lotaram as salas de cinema. No entanto, é preciso afirmar que, mesmo que tivesse um roteiro genial, o filme não teria sido tão bem-sucedido se não contasse com o ótimo elenco escolhido pelos cineastas.

Enquanto Ben Stiller exercita seu humor já demonstrado em outras ocasiões, são Cameron Diaz e Matt Dillon (então um casal fora das telas) que surpreendem, exibindo um senso de humor insuspeitos. Dillon, brincando com sua imagem de galã, é quem mais se destaca, utilizando um charme canastrão que conquista o público logo em sua primeira cena. Suas cenas com o cãozinho de Mary são de chorar de rir, assim como seus diálogos absurdos. E que atire a primeira pedra quem nunca riu com a infame sequência do "gel de cabelo" de Mary, destinada a antológica desde sempre. Recomendado para curar qualquer mau-humor, "Quem vai ficar com Mary?" é o antídoto perfeito para a insuportável onda do politicamente correto que tomou conta do planeta nos anos 90.

Tuesday, May 17, 2011

GAROTAS SELVAGENS

GAROTAS SELVAGENS (Wild things, 1998, Mandalay Entertainment, 108min) Direção: John McNaught. Roteiro: Stephen Peters. Fotografia: Jeffrey L. Kimball. Montagem: Elena Maganini. Música: George S. Clinton. Figurino: Kimberly A. Tillman. Direção de arte/cenários: Edward T. McAvoy/Bill Cimino. Produção executiva: Kevin Bacon. Produção: Steven A. Jones, Rodney Liber. Elenco: Matt Dillon, Kevin Bacon, Neve Campbell, Denise Richards, Bill Murray, Theresa Russell, Robert Wagner. Estreia: 20/3/98

"Garotas selvagens" é tão exageradamente cafona e e absurdo que a única maneira de assistí-lo e gostar é deixando de lado todo e qualquer senso crítico. Propositalmente over e excessivo, o filme produzido por Kevin Bacon foi vendido como um suspense, mas no fundo é uma comédia rasgada, repleta de reviravoltas inacreditáveis e um erotismo à la revista Playboy que, com certeza, é capaz de agradar à ala masculina da plateia. Para isso, o diretor John McNaught (outrora respeitado por seu filme de estreia, o violento "Henry, retrato de um assassino") foi feliz em escalar Denise Richards, a perfeita encarnação da Barbie sexy e descerebrada, para um dos papéis centrais. Ao lado da sempre péssima Neve Campbell, ela protagoniza cenas bastante quentes, o que talvez justifique o adjetivo "selvagens" do titulo.

Em sua primeira metade, "Garotas selvagens" tem a aparência de uma telenovela de baixa qualidade. Tanto seus diálogos quanto as atuações são canhestras, tudo envolvido em um cenário perceptivelmente exagerado e/ou cafona (sem a exaltação que diretores como Almodovar fazem do kitsch). Matt Dillon, exercitando sem pudor nenhum sua canastrice, vive Sam Lombardo, o conselheiro escolar de uma escola do sul da Flórida (em um papel recusado por Robert Downey Jr.). Admirado pelos colegas e pelos alunos, o rapaz tem sua vida transformada em um pesadelo quando uma estudante, a milionária Kelly Van Ryan (Denise Richards) o acusa de estupro. Para complicar a situação, outra aluna, a rebelde sem causa Suzie Toller (Neve Campbell) também o denuncia pelo mesmo motivo. Sentindo-se condenado mesmo antes do julgamento (a família de Kelly é praticamente a dona da cidade e sua mãe já passou pela cama do professor), Lombardo conta com o apoio do advogado Ken Bowden (Bill Murray, hilariante como sempre) e do investigador de polícia Ray Duquette (Kevin Bacon), que não parece acreditar muito nas acusações.


Depois da primeira reviravolta do roteiro, "Garotas selvagens" descamba para um samba do crioulo doido. A partir daí, nada é o que parece, ninguém é tão confiável (ou tão mau-caráter) e a impressão que se tem é que o elenco está se divertindo mais do que o público. O que parecia um melodrama transforma-se em um jogo de erotismo e violência, onde tudo pode acontecer. Vítimas transmutam-se em agressores. Agressores posam de vítimas. E resta a Duquette e sua parceira Gloria (Daphne Rubin-Vega) separar o joio do trigo e chegar a uma verdade absoluta. Que talvez não exista.

É justamente o fato de evitar o maniqueísmo que ajuda e ao mesmo tempo atrapalha "Garotas selvagens". Ao mostrar que ninguém é exatamente bom ou ruim o tempo todo, tanto o roteirista Stephen Peters quanto o diretor McNaughton tiram o prazer da audiência de assistir-se a um filme onde se está plenamente claro para quem se deve torcer. Por outro lado, a trama torna-se imprevisível, o que também é uma qualidade rara no cinemão americano (mesmo que essa imprevisibilidade esbarre muitas vezes no nonsense). Depois da terceira reviravolta, fica evidente que tudo não passa de uma grande brincadeira (mesmo porque levar Denise Richards, Matt Dillon e Neve Campbell a sério é difícil...), mas a questão que fica é se o público está disposto a participar dela ou não. Se sim, pode deixar o senso de realidade descansando e se divertir. Se não, é capaz de terminar o filme com um amargo gosto de decepção....

Enfim, "Garotas selvagens" é tão ruim que chega a ser bom. Melhor acreditar nas intenções de McNaughton do que considerá-lo um embuste.

Tuesday, November 23, 2010

VIDA DE SOLTEIRO

VIDA DE SOLTEIRO (Singles, 1992, Warner Bros, 99min) Direção e roteiro: Cameron Crowe. Fotografia: Tak Fujimoto, Ueli Steiger. Montagem: Richard Chew. Música: Paul Westerberg. Figurino: Jane Ruhm. Direção de arte/cenários: Stephen J. Lineweaver/Clay A. Griffith. Casting: Owens Hill. Produção executiva: Art Linson. Produção: Cameron Crowe, Richard Hashimoto. Elenco: Matt Dillon, Bridget Fonda, Campbell Scott, Kyra Sedgwick, Sheila Kelley, Bill Pullman, James LeGros, Eric Stoltz, Jeremy Piven, Tom Skerrit, Paul Giamatti. Estreia: 18/9/92

A principal informação que pessoas normais tem a respeito de Seattle é que é a cidade que foi o berço do movimento "grunge", que, no início dos anos 90, legou ao mundo bandas como Pearl Jam e Nirvana (da cidade vizinha Aberdeen). E é justamente nessa Seattle musical e jovem que se passa uma das comédias românticas mais bacanas da década, que, se não tornou-se o êxito comercial esperado, ao menos amealhou fãs fiéis e ardorosos. "Vida de solteiro", escrito e dirigido pelo ex-repórter da revista Rolling Stone, Cameron Crowe, é uma delícia de se assistir e ouvir, mesmo depois de várias revisões.


O filme é, basicamente, uma colagem de pequenas anedotas romântico/sentimentais de um grupo de jovens de vinte e muitos anos que moram no mesmo prédio no subúrbio de Seattle. A garçonete Janet (Bridget Fonda, com ótimo timing cômico) é apaixonada pelo namorado, o músico Cliff (Matt Dillon, de cabelo comprido e visual desgrenhado), líder de uma banda de rock, Citizen Dick. O romance dos dois, porém, é atrapalhado pela absoluta falta de romantismo do rapaz, que prioriza a "carreira" em detrimento à sua relação com a namorada. O ex-namorado de Janet, o engenheiro de trânsito Steve (Campbell Scott) tenta vender o projeto de um supertrem à prefeitura da cidade, enquanto inicia um hesitante romance com a ambientalista Linda (Kyra Sedgwick assumindo com propriedade o papel que foi oferecido a Jodie Foster, Jennifer Jason Leigh e Mary Stuart Masterson), insegura em relação a confiar em homens, depois que foi enganada pelo último amante. E Debbie (Sheila Kelley), cansada da solidão, faz um vídeo procurando um novo amor.


Ao acompanhar a trajetória dessa meia dúzia de personagens simpáticos, humanos e absolutamente verdadeiros, Crowe entrega à plateia um dos mais inteligentes retratos de uma geração normalmente considerada apática. Em sua história, o diretor/roteirista não se contenta apenas em fazer rir ou emocionar com as mancadas sentimentais de seus heróis: eles também buscam o sucesso profissional, também sonham em viver longe de jogos amorosos, também tem dúvidas e inseguranças. Ninguém, em "Vida de solteiro" é totalmente seguro de si: Janet pensa em aumentar os seios para reconquistar o namorado, Cliff é um roqueiro bem medíocre, Steve é dedicado à profissão mas não atinge o sucesso esperado, Linda sofre por não ter certeza de seus sentimentos e Debbie é uma maluquete que não se importa em ceder o pretendente à colega de apartamento em troca de algumas lavadas de louça. São todas personagens escritas com carinho e bom-humor, quase como uma descrição que alguém faz dos melhores amigos.

E está tudo lá, em "Vida de solteiro": as inseguranças ("será que eu devo ligar?"), os conselhos errados ("mulher gosta de mistério..."), as cantadas equivocadas ("não fazer tipo é seu tipo") e as declarações de amor inesperadas ("não me faça ter que lembrar desse cachorro-quente pra sempre..."). Está lá a trilha sonora vibrante e a participação especial de músicos e amigos do diretor (Eddie Vedder e a banda Pearl Jam são os integrantes da Citizen Dick, e Tim Burton faz uma ponta como um cineasta amador de vanguarda). Está lá o elenco de jovens atores em seus melhores dias e está lá, principalmente, a simpatia e o alto-astral que fazem de uma comédia romântica um dos gêneros mais queridos pelo público. Mas, acima de tudo, "Vida de solteiro" é uma celebração ao amor, à amizade, à juventude e, por que não?, à Seattle.

Um dos melhores filmes de Cameron Crowe - que anos depois lançaria o magnífico "Quase famosos" - a história de Janet, Cliff, Debbie, Steve e Linda é para ver e rever sempre. De preferência com um enorme sorriso e o coração aberto.