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Thursday, September 15, 2011

AMNÉSIA

AMNÉSIA (Memento, 2000, Newmarket Films, 113min) Direção: Christopher Nolan, conto de Jonathan Nolan. Fotografia: Wally Pfister. Montagem: Doddy Dorn. Música: David Julyan. Figurino: Cindy Evans. Direção de arte/cenários: Patti Podesta/Danielle Berman. Produção executiva: Aaron Ryder. Produção: Jennifer Todd, Suzanne Todd. Elenco: Guy Pearce, Joe Pantoliano, Carrie-Anne Moss, Jorja Fox, Stephen Tobolowski, Mark Boone Jr.. Elenco: 20/01/01 (Sundance Festival)

2 indicações ao Oscar: Roteiro Adaptado, Montagem

Uns bons dez anos antes de dar um nó nas cabeças dos espectadores com “A origem”, o cineasta Christopher Nolan já havia demonstrado, da maneira mais feliz possível, seu fetiche em confundir a plateia. Adaptando um conto nunca publicado de autoria de seu irmão, ele escreveu e dirigiu “Amnésia”, um dos mais criativos filmes policiais da história – e por conseguinte, uma das mais bem-sucedidas produções independentes do cinema americano até hoje. Além de alçar à fama imediata seu diretor – que em seguida embalaria uma carreira das mais íntegras no cinemão mainstrean – “Amnésia” também confirmou o talento deu seu protagonista, o australiano Guy Pearce (que fez uma drag-queen em “Priscilla, a rainha do deserto” e um policial almofadinha em “Los Angeles, cidade proibida”). Sucesso absoluto de público e crítica, o filme de Nolan teve motivos de sobra para tamanho alvoroço.

A história de “Amnésia” até parece fácil: depois de um grave incidente que causou a morte de sua esposa, o investigador de seguros de saúde Leonard Shelby (vivido por um Guy Pearce loiríssimo e melhor ator do que nunca) perdeu a capacidade de manter na memória qualquer fato recente. Uma conversa, um rosto, um acontecimento, por mais importantes que possam ser, são esquecidos minutos depois de seu primeiro contato. Esse problema – já desagradável por si mesmo – não seria tão inconveniente se a intenção de Leonard não fosse tão séria: ele planeja vingar-se do homem que causou sua desgraça, um homem cujo nome ele tem certeza de ser John ou James G., segundo a tatuagem em sua perna. Sim, para não esquecer as pistas que coleta em seu caminho, Leonard tatua-as em seu corpo, além de contar com a ajuda de uma providencial máquina polaróide. Em seu caminho em busca de vingança, ele cruza com o aparentemente bem-intencionado Teddy (Joe Pantoliano) e a misteriosa Natalie (Carrie-Anne Moss), nunca deixando de lembrar-se da triste história de um antigo cliente, Sammy Jankins (Stephen Tobolowski).


O que parece fácil em “Amnésia” na verdade não é. Ao contar a angustiante história de Shelby de trás pra frente, o roteiro de Nolan (merecidamente indicado ao Oscar) acerta justamente em proporcionar ao público a possibilidade de extirpar o que mais o incomoda nas dezenas de filmes policiais que chegam às telas anualmente: é absolutamente impossível – ao menos na primeira sessão – adivinhar os caminhos que a trama irá seguir. Sua imprevisibilidade é tamanha que aqui não se tenta adivinhar o que irá acontecer e sim o que aconteceu, como e porque. Além de criativo, o roteiro ainda se dá ao luxo de reservar uma surpresa até mesmo ao mais atento espectador. E o público, que em certos momentos fica tão perdido quanto seu protagonista, chega ao final da sessão com a sensação de que, sim, é preciso revê-lo. E mais uma vez, e outra e outra.... São necessárias incontáveis sessões de “Amnésia” para que toda a sua complexidade seja absorvida. E mesmo assim, uma única resposta nunca será o bastante.

Provando cabalmente que uma boa ideia e uma equipe competente são muito mais importantes do que orçamentos milionários, Christopher Nolan começou, com “Amnésia”, uma lista de produções absolutamente imperdíveis com sua assinatura. É um dos filmes indispensáveis do começo do século XXI. E um dos melhores policiais já realizados.

Saturday, January 29, 2011

ASSASSINATO EM PRIMEIRO GRAU

ASSASSINATO EM PRIMEIRO GRAU (Murder in the first, 1995, Warner Bros, 122min) Direção: Marc Rocco. Roteiro: Dan Gordon. Fotografia: Fred Murphy. Montagem: Russell Livingstone. Música: Christopher Young. Figurino: Sylvia Vega Vasquez. Direção de arte/cenários: Kirk M. Petruccelli/Greg Grande. Produção executiva: Marc Rocco, David L. Wolper. Produção: Marc Frydman, Mark Wolper. Elenco: Kevin Bacon, Christian Slater, Gary Oldman, Embeth Davidtz, William H. Macy, Stephen Tobolowsky, Brad Dourif, R.Lee Ermey. Estreia: 20/01/95

Um dos mais famosos presídios do mundo, Alcatraz foi o tema central de um dos mais conhecidos filmes de Clint Eastwood, "Alcatraz, fuga impossível", de 1979. Considerado um dos presídios mais seguros do planeta, localizado em uma ilha perto de San Francisco e construída em 1934 (sobreviveu como instituição penal até 1963), Alcatraz passou, ao menos na sétima arte, de cenário a personagem. Em "Assassinato em primeiro grau", ele foi, inclusive, acusado de cumplicidade em um homicídio. Baseado em uma história real, o filme de Marc Rocco - que ficou com um projeto inicialmente pensado para Oliver Stone - tem boas intenções (denunciar o sistema penitenciário e a violação de direitos humanos), mas esbarra na total falta de sutileza de seu diretor.

Nos anos 30, quando Alcatraz estava no auge de sua fama como um local de fuga impossível, o jovem Henry Young (Kevin Bacon) tenta escapar, em companhia de outros presidiários. Capturado em seguida, ele é mandado para a solitária, ficando sem sol, sem luz e sem contato com quaisquer seres humanos pelo absurdo prazo de 3 anos e 2 meses - sendo que o máximo permitido por lei para tal castigo é de apenas 19 dias. Brutalizado pelo superindentente do lugar, o frio Milton Glenn (Gary Oldman), ele sai do buraco onde esteve encarcerado e tenta voltar à vida normal de condenado. No entanto, ele mata violentamente o delator de seu plano de fuga e volta ao banco dos réus, sob risco de ser condenado à morte - sendo que foi preso pela primeira vez por roubar 5 dólares de um posto de correio. Para defendê-lo, é designado o jovem e idealista James Stamphill (Christian Slater), que surpreende a audiência ao afirmar que o principal culpado do crime não é Young, e sim o sistema carcerário de Alcatraz.

Como convém a um filme com pretensões comerciais, "Assassinato em primeiro grau" toma algumas liberdades poéticas para contar sua história, a principal delas em relação a um de seus protagonistas, o apenado Henry Young. Retratado no roteiro de Dan Gordon como uma vítima absoluta do sistema e da sociedade (como normalmente acontece com filmes com intenções de provocar discussões), o verdadeiro Young não era tão desprovido de maldade e nem tão puro assim, tendo cometido roubo a banco, violência contra um refém e até mesmo um assassinato ANTES de ser encarcerado em Alcatraz. Não justifica nenhuma violência cometida contra ele, é claro, mas é um truque um tanto sujo dos produtores, que forçam assim uma empatia óbvia com ele. E talvez seja justamente nesse ponto que a receita desanda.

Dirigindo com mão pesada uma história por si só trágica e absurda, Marc Rocco - que não assinou mais nenhum filme desde então - peca principalmente por não permitir ao público as discussões que tenta suscitar. Não há espaço para argumentos, uma vez que, no maniqueísta roteiro, o bem e o mal estão claramente delineados. Henry Young é puro, virgem, injustiçado e torna-se um herói involuntário da mídia. James Stamphill é idealista, íntegro e corajoso, capaz de lutar contra todo o sistema apenas para ver a justiça prevalecer. E Milton Glenn, que dirige o presídio, é frio, cruel, arrogante e incapaz de um sentimento nobre. Essa pobreza de nuances é o calcanhar de Aquiles do projeto, que se salva da mediocridade graças a seu elenco.

Apesar de Christian Slater ser sempre o mesmo, ele divide a cena com dois atores que, de maneiras diferentes, atigem seus objetivos. Enquanto Kevin Bacon luta claramente para dar credibilidade a seu Henry Young, mesmo caindo na armadilha do exagero em alguns momentos (sua entrega ao papel é louvável), Gary Oldman não parece precisar de muito esforço para sobressair-se. Seu olhar impenetrável, seu tom monocórdio e sua expressão de rocha dizem muito mais do que a trilha sonora exagerada e os diálogos empolados e repleto de frases de efeito do roteiro. Nem mesmo a fotografia - aparentemente claustrofóbica mas na verdade apenas escura e sem criatividade - chama a atenção, sendo tão comum quanto o resultado final do filme.

A história de "Assassinato em primeiro grau" é interessante. O elenco convence. Mas o filme é desnecessariamente longo e aborrecido. Um diretor mais talentoso talvez o salvasse de ser tão comum e tão historicamente discutível!

Wednesday, November 24, 2010

HERÓI POR ACIDENTE

HERÓI POR ACIDENTE (Hero, 1992, Columbia Pictures, 117min) Direção: Stephen Frears. Roteiro: David Webb Peoples, história de Laura Ziskin, Alvin Sargent, David Webb Peoples. Fotografia: Oliver Stapleton. Montagem: Mick Audsley. Música: George Fenton. Figurino: Richard Hornung. Direção de arte/cenários: Dennis Gassner/Nancy Haigh. Casting: Howard Feuer, Juliet Taylor. Produção executiva: Joseph M. Caracciolo. Produção: Laura Ziskin. Elenco: Dustin Hoffman, Geena Davis, Andy Garcia, Joan Cusack, Chevy Chase, Stephen Tobolowski, Tom Arnold. Estreia: 02/10/92

"Quando a lenda é mais interessante do que a história, publica-se a lenda." A célebre frase, dita no filme "O homem que matou o facínora", parece ser o lema que orienta o roteiro de "Herói por acidente", ácida e cínica comédia dirigida pelo inglês Stephen Frears que falhou vergonhosamente em suas intenções de arrebatar prêmios nas cerimônias de 1992. Uma espécie de sátira ao estilo Frank Capra - repleto de ironias, mas sem as lições de moral dos filmes deste - o filme escrito por David Webb Peoples (autor de "Os imperdoáveis") não encontrou nem mesmo sua audiência, estacionando em uma bilheteria de menos de 20 milhões de dólares, a despeito de seu cartaz estampar os nomes de Dustin Hoffman e Geena Davis - ela então no auge da carreira depois do sucesso de "Thelma & Louise".

Davis interpreta Gale Gayley, uma repórter dedicada e ambiciosa, capaz de entrevistar suicidas momentos antes de seus atos finais. Durante um vôo de volta de Nova York - onde havia ido para receber um prêmio - seu avião sofre um acidente e os passageiros são resgatados por um homem misterioso, com o rosto sujo de lama e sem um pé de sapato. Não demora para que esse herói receba, na mídia, o apelido de "O anjo do vôo 104" e passe a ser procurado para entrevistas e glórias. Quando uma recompensa de 1 milhão de dólares é oferecida, porém, o novo astro surge: o mendigo John Bubber (Andy Garcia) assume o posto e torna-se ídolo das multidões, chegando inclusive a ensaiar um romance com a repórter. O problema maior é que Bubber não é o verdadeiro salvador: quem realmente merece as honras é Bernie LaPlante (Dustin Hoffman), um homem que vive de expedientes, sem emprego fixo e que foi parar na cadeia logo depois do acidente, acusado de revender objetos roubados. LaPlante tenta provar que ele é o verdadeiro herói, mas tem que lutar contra o fato de que Bubber é bonito, simpático e bem mais apropriado às intenções da mídia.
Um feroz ataque à futilidade da mídia, "Herói por acidente" esbarra, em certos momentos, em um cinismo exagerado. Ainda que a intenção do roteiro seja justamente ampliar os erros cometidos em nome do sucesso - afinal de contas é isso que faz uma comédia - às vezes a coisa parece sair do controle. Excelente diretor, Frears escorrega em carregar nas tintas das personagens, a ponto de nem mesmo o público saber discernir entre o que é verdadeiro ou não em suas personalidades. O romance entre Gale e John Bubber, por exemplo, não encanta justamente por esse motivo. Por melhores atores que sejam, Geena Davis e Andy Garcia saem-se muito melhor nas sequências menos dramáticas do filme - Garcia está sublime em seus momentos de demagogia explícita (ainda que o roteiro nem sempre se decida se ele é honesto ou não em suas intenções).

Mas Dustin Hoffman, mais uma vez, brilha intensamente. Apesar de manter alguns tiques de seu "Rain Man", ele dá a seu Bernie LaPlante nuances que o fazem driblar as armadilhas do roteiro um tanto maniqueísta. O protagonista criado por David Peoples não tem nada que o faça ser mais do que um ser humano um tanto desagradável, um pai relapso (mas amoroso) e um ex-marido decepcionante. Ainda assim, o carisma de Hoffman contorna as falhas de caráter de sua personagem, levando o público a torcer por sua vitória. A longa sequência em que ele conversa com um suicida John Bubber é um primor de inteligência, e seu diálogo esperto e realista compensa plenamente os percalços do roteiro até então.

Dizer que "Herói por acidente" é ruim é um pecado, bem como incensá-lo como uma obra-prima. É um filme de rara inteligência e sarcasmo, mas que resvala em alguns exageros. Não mereceu ser ignorado e deve ser redescoberto, ao menos para que a crítica furiosa que faz ao quarto poder não caia no vazio.

Monday, November 22, 2010

MULHER SOLTEIRA PROCURA


MULHER SOLTEIRA PROCURA... (Single white female, 1992, Columbia Pictures, 107min) Direção: Barbet Schroeder. Roteiro: Don Roos, romance "SWF Seeks Same", de John Lutz. Fotografia: Luciano Tovoli. Montagem: Lee Percy. Música: Howard Shore. Figurino: Milena Canonero. Direção de arte/cenários: Milena Canonero/Anne H. Ahrens. Casting: Howard Feuer. Produção executiva: Jack Baran. Produção: Barbet Schroeder. Elenco: Bridget Fonda, Jennifer Jason Leigh, Steven Weber, Peter Friedman, Stephen Tobolowski. Estreia: 14/8/92

Houve um tempo em que o cineasta Barbet Schroder gozava de certo prestígio junto à crítica especializada. "Barfly", com Faye Dunaway e Mickey Rourke pode não ter sido um estrondoso sucesso de bilheteria, mas tinha background - era uma adaptação do cultuado escritor Charles Bukowski. E "O reverso da fortuna" lhe deu uma indicação ao Oscar e uma estatueta dourada ao ator Jeremy Irons. Talvez por isso a gritaria contra "Mulher solteira procura...", que de certa forma foi seu primeiro sucesso financeiro. Baseado em um romance fast-food de John Lutz, o filme é um suspense estiloso, com uma trama interessante e boas atrizes em seu elenco, mas não consegue ser mais do que um exemplar apenas correto do gênero a que pertence.

Nova York, charmosa como sempre, é o cenário da história de duplicidade, identidade dividida e carência extrema contada por Schroder. A jovem e bem-sucedida Allison Jones (Bridget Fonda na fase áurea de uma promissora carreira que foi morrendo aos poucos e que merece uma ressurreição) vive em um amplo loft do Upper West Side. Bela e inteligente, ela sofre um revés emocional quando se separa do namorado, Sam Rawston (Steven Weber), por quem é extremamente apaixonada. Sentindo-se solitária, ela publica um anúncio nos jornais, procurando alguém para dividir o apartamento e as despesas. Dentre inúmeras candidatas, ela escolhe a tímida e prestativa Hedra Carlson (Jennifer Jason Leigh, excelente), que logo torna-se a sua amiga mais íntima - e a única. Quando Allison e Sam fazem as pazes, porém, as coisas começam a mudar: sentindo-se excluída, Hedra passa a adotar um comportamento estranho, vestindo-se como Allison, usando suas roupas e até mesmo cortando o cabelo como o dela. Apavorada, Allison não demora a perceber que há algo muito errado com sua colega de apartamento.


Certamente as primeiras partes de "Mulher solteira procura..." são bem superiores a seu terço final, onde mais uma vez a criatividade dá lugar aos clichês. Todo o clima sufocante impresso pelo cineasta em seus minutos iniciais - com a fotografia caprichada do italiano Luciano Tovoli e a direção de arte impressionante de Milena Canonero colaborando imensamente para isso - conduz o espectador a uma história tensa e psicologicamente interessante. Quando o roteiro apela, no entanto, para a violência escancarada, tudo que foi construído anteriormente com cuidado e delicadeza cai na vala comum, o que talvez tenha sido a principal razão das críticas furiosas contra o filme.

O problema maior de "Mulher solteira procura..." é não dar a devida atenção à psicologia de suas personagens. A doença de Hedra - que perdeu a irmã gêmea na infância - é fascinante por si só, mas é praticamente ignorada pelo roteiro. Quando Allison chega às terríveis conclusões a respeito de sua amiga, a trama não dá espaço para embates melhores do que mortes violentas, agressões físicas e tudo de mais banal que os filmes de suspense oferecem às plateias. É uma pena que as protagonistas não possam dar às atrizes material dramático suficientemente forte para que elas demonstrem todo seu potencial. Bridget Fonda e Jennifer Jason Leigh são atrizes muito boas, e fazem o possível para dar veracidade a suas atuações. Fonda vive uma mulher talentosa, dona do próprio nariz e bem-sucedida, mas que é emocionalmente frágil e delicada. Jason Leigh, ao contrário, interpreta uma mulher tímida mas que esconde dentro de si uma monstruosidade causada por um trauma irreparável. Com um roteiro menos esquemático e mais denso, ambas teriam aqui a grande oportunidade de suas carreiras.

"Mulher solteira procura..." não é um filme ruim. É charmoso, visualmente atraente - a profusão de espelhos pelo cenário diz muito sobre as ideias a respeito da ideia central do filme - e apresenta duas atrizes promissoras em trabalhos caprichados. Poderia ser melhor, mas funciona muito bem e cumpre o que promete: bons sustos e uma vilã ideal para a geração MTV.

Sunday, November 14, 2010

INSTINTO SELVAGEM

INSTINTO SELVAGEM (Basic instinct, 1992, Carolco Pictures, 127min) Direção: Paul Verhoeven. Roteiro: Joe Eszterhas. Fotografia: Jan De Bont. Montagem: Frank J. Urioste. Música: Jerry Goldsmith. Figurino: Ellen Mirojnick. Direção de arte/cenários: Terence Marsh/Anne Kuljian. Produção executiva: Mario Kassar. Produção: Alan Marshall. Elenco: Michael Douglas, Sharon Stone, George Dzunza, Jeanne Tripplehorne, Leilani Sarelle, Wayne Knight, Stephen Tobolowski, Dorothy Malone. Estreia: 20/3/92

2 indicações ao Oscar: Montagem, Trilha Sonora Original

Bissexual, usuária de cocaína, praticante de várias modalidades de sexo, brilhantemente inteligente e suspeita de um violento assassinato. Essas são as características de Catherine Tramell, a improvável heroína de um dos maiores e mais controversos sucessos de bilheteria dos anos 90, o já icônico "Instinto selvagem". Recusado por várias atrizes devido a seu teor potencialmente polêmico, o papel de Tramell acabou nas mãos de Sharon Stone, que já havia trabalhado com o diretor holandês Paul Verhoeven em "O vingador do futuro".
Pode ter sido um desses casos escritos nas estrelas porque o fato é que Catherine Tramell e Sharon Stone parecem, desde o primeiro momento em que a atriz entra em cena, feitas uma para a outra. Devido a seu trabalho como a sedutora e ambígua personagem criada pelo roteirista Joe Ezsterhas - que recebeu de pagamento o então recorde de 1 milhão de dólares - Stone transformou-se, da noite para o dia, no maior símbolo sexual da década, povoando o imaginário masculino - e por que não? - o feminino também.

A trama de “Instinto selvagem” se passa em San Francisco. Um roqueiro é violentamente assassinado a golpes de picador de gelo durante o ato sexual com uma loura escultural – em uma cena pra lá de excitante. Chamado à cena do crime, o policial Nick Curran (Michael Douglas em um período de bons filmes) logo fica sabendo que a vítima tinha um caso com a bela Catherine Tramell, escritora de livros policiais eróticos. Além de parceira sexual do roqueiro, Tramell também havia descrito um assassinato nos mesmos moldes do ocorrido em um de seus romances. Ao lado do parceiro Gus (George Dzunza), Curran procura a escritora, mas ela, apesar de parecer um tanto fria e racional, passa com louvor no detector de mentiras. Ainda na pele de suspeita, ela seduz o policial, ele mesmo com vários problemas a resolver: ainda se curando de vícios em drogas e bebida, ele é obrigado por seu departamento a ter consultas psicológicas com sua ex-namorada, Beth Garner (Jeanne Tripplehorn), devido à morte acidental de um civil, causada por ele. Envolvido com a bela possível assassina, Curran tenta provar sua inocência, ainda que os fatos comecem a se acumular contra ela.

 Fotografado com requinte e dono de uma parte técnica impecável – edição, trilha sonora, som – “Instinto selvagem” ainda por cima tem uma qualidade que o eleva a vários patamares sobre seus colegas de gênero: a inteligência do roteiro. Repleta de pistas falsas, reviravoltas verossímeis e sequências de tirar o fôlego – sejam elas de ação ou puramente sexuais (e elas são várias e bem desinibidas) – a trama de Ezterhas conquista desde o primeiro minuto, nunca deixando o público antecipar o que virá a seguir. O que é uma regra básica de roteiro policial, mas que é constantemente negligenciado. Só a cena do primeiro interrogatório de Tramell merece figurar em qualquer antologia, tanto de suspense quanto de erotismo. Atire a primeira pedra quem consegue esquecer a famosa cruzada de pernas de Stone...

E erotismo é o que não falta em "Instinto selvagem". Fetiches desfilam pela tela sem pudor - e são dirigidos com visível gosto por Verhoeven. Bondage, lesbianismo, sexo grupal, sexo violento... tudo é permitido no universo do filme, ou ao menos mais comum do que na maioria dos produtos hollywoodianos. Tudo bem que a sofisticação quase exagerada que permeia o longa - carros belíssimos, mansões deslumbrantes, mulheres gostosas - imediatamente o afasta do grosso do público, mas o roteiro e a direção são espertos o bastante para nunca deixar a atenção ser desviada do que realmente importa: a história.

Logo que "Instinto selvagem" estreou - despertando a ira de ativistas homossexuais - Sharon Stone espalhou aos quatro ventos que as cenas de sexo entre ela e Michael Douglas foram reais e o ator declarou ser viciado em sexo. Não é preciso dizer que foi um bom marketing e o filme tornou-se um sucesso enorme no mundo todo. Logicamente um bom boato pode fazer maravilhas por um produto cinematográfico, mas não há como negar que o filme de Verhoeven mereceu todo o auê. Infelizmente, a ganância, como sempre, falou mais alto, e uma intragável e desnecessária continuação estreou anos depois. Merecidamente foi execrado.

Thursday, November 4, 2010

THELMA & LOUISE

THELMA & LOUISE (Thelma & Louise, 1991, MGM Pictures, 130min) Direção: Ridley Scott. Roteiro: Callie Khouri. Fotografia: Adrian Biddle. Montagem: Thom Noble. Música: Hans Zimmer. Figurino: Elizabeth McBride. Direção de arte/cenários: Norris Spencer/Anne Ahrens. Casting: Louis Di Giaimo. Produção: Mimi Polk, Ridley Scott. Elenco: Susan Sarandon, Geena Davis, Harvey Keitel, Michael Madsen, Christopher McDonald, Brad Pitt, Stephen Tobolowsky. Estreia: 24/5/91

6 indicações ao Oscar: Diretor (Ridley Scott), Atriz (Geena Davis, Susan Sarandon), Roteiro Original, Fotografia, Montagem
Vencedor do Oscar de Roteiro Original

Vencedor do Golden Globe de Roteiro

Em uma das cenas de "Thelma & Louise" - excepcional filme de Ridley Scott indicado a 6 Oscar - uma possível testemunha de um violento assassinato faz a seguinte declaração: "Eu sou uma garçonete. Se isso não faz de mim uma especialista na natureza humana então não sei de nada." Pode até parecer uma declaração um tanto exagerada, mas se levarmos em consideração que o roteiro do filme - premiado com uma merecidíssima estatueta - foi escrita por Callie Khouri, uma ex-garçonete, é impossível não deixar de concordar com sua afirmação. Afinal, se há uma qualidade que se destaca no filme de Scott - repleto delas, diga-se de passagem - é a extrema humanidade que emana em cada uma das personagens que desfila pela tela, sejam elas de destaque ou não.


O roteiro de "Thelma & Louise" é, definitivamente, um primor de concisão, ritmo e - pasmem! - bom-humor. Apesar da premissa um tanto barra-pesada, a história criada por Khouri - que nunca mais teve a mesma sorte em seus projetos posteriores - tem o bom-senso de nunca deixar que tudo caia no depressivo ou no desnecessariamente trágico. Mesmo quando estão nos piores momentos de sua vida, as protagonistas jamais caem na armadilha da auto-compaixão: responsabilidade do script esperto, da trilha sonora marcante de Hans Zimmer, da edição ágil e da direção perfeita de Ridley Scott - que se viu disputando o Oscar com Oliver Stone (por "JFK") e Jonathan Demme (por "O silêncio dos inocentes"). Saiu sem o prêmio nas mãos, mas muitos elogios da crítica e do público: "Thelma & Louise" é um clássico absoluto desde sua estreia, uma espécie de "Butch Cassidy & Sundance Kid" pós-feminista e um dos melhores filmes da década de 90.

Louise (Susan Sarandon, excepcional) é uma garçonete que vive uma relação aberta com Jimmy (Michael Madsen), um músico itinerante. Thelma (Geena Davis no melhor momento de sua carreira) é uma dona-de-casa frustrada e dominada pelo marido troglodita Darryl (Christopher MacDonald, tirando o máximo do potencial cômico de sua personagem). Amigas de longa data, as duas resolvem passar um fim-de-semana na casa de campo de um dos chefes de Louise e partem com o franco objetivo de esquecer, por um mínimo de tempo, suas vidas um tanto tediosas. Sua viagem, que era para ser divertida, esbarra em um grande problema, porém: em sua primeira parada em um bar, Thelma bebe demais e só escapa de ser estuprada quando Louise mata o agressor com um tiro. Apavoradas, elas decidem não recorrer à polícia - por motivos óbvios - e as circunstâncias acabam levando-as a optar para uma fuga para o México. A única pessoa que tenta ajudá-las é o experiente policial Hal (Harvey Keitel).


"Thelma & Louise" é, em seu formato, um road-movie dos melhores. A belíssima fotografia de Adrian Biddle aproveita a beleza árida do Colorado para reiterar a vida deserta das protagonistas, que encontram sentido em sua existência somente quando são obrigadas a embarcar em uma aventura inesperada. Em seu caminho rumo à liberdade (física e interna), a madura Louise e a ingênua Thelma tomam contato com todas as formas possíveis de seres humanos e até mesmo com seus próprios corpos - Thelma chega a envolver-se em uma rápida aventura sexual com um caroneiro mau-caráter, vivido por Brad Pitt estreando no cinema com o pé direito. Apesar de alguns exageros na construção de estereótipos masculinos - que nunca deixam de ser bastante verossímeis, aliás - o roteiro de Callie Khouri encanta também pela ousadia de seu final agridoce - um final que Susan Sarandon exigiu que se mantivesse mesmo com a pressão do estúdio para que fosse alterado.

Mas "Thelma & Louise" é, acima de tudo, Susan Sarandon e Geena Davis. Apesar da extensa lista de atrizes cotadas para viver as personagens em seus vários anos de pré-produção, é impossível imaginar quem traduziria melhor que as duas a gama imensa de sentimentos das protagonistas. Indicadas ao Oscar - que perderam para Jodie Foster - elas são inesquecíveis com suas atuações extraordinárias, carismáticas e poderosas. Seria inconcebível premiar uma em detrimento da outra - ainda que o trabalho de Sarandon seja menos óbvio - mas sem dúvida nenhuma qualquer espectador que tenha tido a oportunidade de assistir ao filme - e foram muitos - sabe que um prêmio é desnecessário nesse caso. O que importa é o sentimento de imortalidade que as duas forjaram em suas inseparáveis e corajosas amigas.

Thursday, September 9, 2010

MISSISSIPI EM CHAMAS


MISSISSIPI EM CHAMAS (Mississippi burning, 1988, Orion Pictures, 128min) Direção: Alan Parker. Roteiro: Chris Gerolmo. Fotografia: Peter Biziou. Montagem: Gerry Hambling. Música: Trevor Jones. Figurino: Aude Bronson-Howard. Direção de arte/cenários: Philip Harrison, Geoffrey Kirkland/Jim Erickson. Casting: Howard Feuer, Juliet Taylor. Produção: Robert F. Colesberry, Frederick Zollo. Elenco: Gene Hackman, Willem Dafoe, Frances McDormand, Brad Dourif, R. Lee Ermey, Stephen Tobolowski, Michael Rooker, Pruitt Taylor Vince, Tobin Bell. Estreia: 09/12/88

7 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Alan Parker), Ator (Gene Hackman), Atriz Coadjuvante (Frances McDormand), Fotografia, Montagem, Som

Vencedor do Oscar de Fotografia


Alan Parker não é de brincar em serviço. O inglês que chocou o mundo com "O expresso da meia-noite" e depois transformou Robert DeNiro no demônio encarnado, em "Coração satânico" mostra mais uma vez, em "Mississipi em chamas", porque contundência é uma das características mais marcantes de seu trabalho como cineasta. Inspirado em fatos reais - disfarçados ou, como preferem os puristas, distorcidos -, o roteiro de Chris Gerolmo é forte o suficiente para transformar-se em matéria-prima ideal para um diretor inquieto e feroz. Ao tocar o dedo na profunda ferida do racismo no sul dos EUA em plenos efervescentes anos 60, Parker assinou um de seus filmes mais radicais e elogiados, merecidamente indicado a sete Oscar - inclusive filme e diretor.

A trama do filme se passa em 1964 e começa quando três jovens ativistas dos direitos civis - um deles negro - são violentamente assassinados em uma pequena cidade do Mississipi. Tidos como desaparecidos, eles chamam a atenção do FBI, que manda para a localidade dois agentes com diferentes métodos de trabalho. Alan Ward (Willem Dafoe, em papel desejado por Don Johnson) é relativamente jovem, idealista e crente na aproximação pacífica e civilizada. Anderson (Gene Hackman, genial), criado na região e bem mais cínico e experiente, acredita na força física e não dá muita importância a coisas como ética. Tão logo chegam ao local das investigações, os dois policiais passam a testemunhar o aumento exponencial das atividades da Ku Klux Klan, cuja violência é não apenas vista com condescêndia pelas autoridades locais, mas incentivada. Não demora muito para que Ward autorize Anderson a trabalhar como sabe, o que os envolve em uma guerra declarada.

A fotografia de Peter Biziou, vencedora do Oscar, é um primor. Quente e sólida, ela colabora para passar a sensação de claustrofobia almejada pela história contada sem meio-tons por Gerolmo e Parker. A violência do racismo não é enfeitada ou amenizada pelo diretor, que faz questão de esfregar na cara da plateia a fealdade do preconceito - a começar pela eficaz imagem de abertura do filme, que mostra bebedouros diferenciados para brancos e negros. Não faz parte das ideias do cineasta fugir muito do maniqueísmo, ainda que a forma com que Anderson lida com sua missão esteja longe de ser exemplar. No mundo retratado em "Mississipi em chamas", os vilões tem cara de vilões, falam com tal e não hesitam em espancar as próprias esposas (Frances McDormand concorreu a seu primeiro Oscar na pele da mulher do delegado da cidade, vivido por um eficiente Brad Dourif, cujo embate com Hackman em uma barbearia chega a ser quase antológica).

A história de "Mississipi em chamas" pode até não ter sido exatamente como narrada no filme de Alan Parker. Mas sua força reside mais no que ele quer denunciar do que em verdades absolutas, e assim sendo, é construído como um libelo contra o racismo. Como tal, beira a perfeição.