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Monday, December 5, 2011

ESTRADA PARA PERDIÇÃO

ESTRADA PARA PERDIÇÃO (Road to Perdition, 2002, Dreamworks SKG, 117min) Direção: Sam Mendes. Roteiro: David Self, HQ de Max Allan Collins, Richard Piers Rayner. Fotografia: Conrad L. Hall. Montagem: Jill Bilcock. Música: Thomas Newman. Figurino: Albert Wolsky. Direção de arte/cenários: Dennis Gassner/Nancy Haigh. Produção executiva: Joan Bradshaw, Walter F. Parkes. Produção: Sam Mendes, Dean Zanuck, Richard D. Zanuck. Elenco: Tom Hanks, Paul Newman, Jude Law, Tyler Hoechlin, Stanley Tucci, Daniel Craig, Jennifer Jason Leigh, Ciaran Hinds, Dylan Baker, Liam Aiken. Estreia: 12/7/02

6 indicações ao Oscar: Ator Coadjuvante (Paul Newman), Fotografia, Trilha Sonora Original, Direção de Arte/Cenários, Som, Edição de Som
Vencedor do Oscar de Fotografia

Quem achava que o Oscar de direção por "Beleza americana" tinha sido sorte de principiante do inglês Sam Mendes foi obrigado a segurar o queixo com o lançamento de "Estrada para Perdição", seu segundo longa. Enquanto seu filme de estreia analisava com um olhar estrangeiro as entranhas dos subúrbios ianques sua adaptação da HQ de Max Allan Collins investiga a fundo os elementos básicos de outro gênero caro à plateia norte-americana (e a todas aquelas que cultuam o cinema hollywoodiano): os filmes de gângster. Ao lançar um olhar europeu sobre essa história de traição, vingança e violência (vagamente baseada em uma história real ocorrida com o gângster irlandês John Looney nos anos 30), Mendes construiu uma peça rara de ourivesaria visual e dramática, provando que, além de sensibilidade para as mazelas humanas, tem um apuradíssimo senso estético. "Estrada para Perdição" é um dos filmes mais deslumbrantes de seu tempo, e a fotografia do veterano Conrad R. Hall (que morreu logo após as filmagens) não mereceu seu Oscar injustamente.

Não existe nenhum plano ou sequência de "Estrada para Perdição" que não seja claramente planejado para causar um efeito específico na audiência (mesmo que às vezes esse objetivo seja bastante discreto a ponto de não ser percebido em uma primeira sessão) ou reiterar a visão de Mendes do roteiro de David Self (um exemplo disso é a maneira como os closes nos protagonistas vão se tornando frequentes à medida em que a relação entre eles também começa a se estreitar). Esse cuidado extremo do cineasta em encantar pelo visual em detrimento de um ritmo mais ágil e uma violência mais gráfica é, ao mesmo tempo, a qualidade maior de seu filme e seu calcanhar de Aquiles. Aparentemente Mendes nega aos fãs do gênero os tiroteios sangrentos que fizeram a glória de nomes como James Cagney e Paul Muni nos primórdios do cinema (e de banhos de sangue como o hiperbólico "Scarface" de Brian de Palma), porém o que ele faz (com invejável competência) é revestir-lhes com um uma poesia em forma de imagens. E, ao contar mais do que uma simples história de revanche - preferindo focalizar seus trunfos na relação conflitante entre um pai distante e silencioso e um filho pré-adolescente que anseia por uma figura paterna mais acessível e próxima.



A trama de "Estrada para Perdição" se passa em 1931, quando os EUA estão passando pela Grande Depressão causada pela queda da bolsa de valores de 1929. É a época da Lei Seca, onde gente como Al Capone faz fortuna em negócios escusos. Em Illinois, quem manda neste setor é o irlandês John Rooney (Paul Newman em sua última e esplêndida atuação, que lhe rendeu uma indicação ao Oscar de coadjuvante), um homem que não se conforma com a falta de talento e personalidade do único filho, Connor (Daniel Craig) e vê em seu protegido Michael Sullivan (Tom Hanks) a esperança de um substituto à sua altura. Sua atitude em relação a ele irá se transformar radicalmente quando Connor mata um empregado suspeito de roubo e o filho mais velho de Sullivan, Mike (Tyler Hoechlin) testemunha o crime às escondidas. Temendo as consequências que a situação pode trazer, o veterano gângster manda exterminar o menino, mas quem acaba morto por engano é seu irmão caçula, em companhia da mãe. Desesperado pela tragédia, Sullivan une-se ao filho em uma viagem na qual pretende vingar a morte de sua família. No caminho, ele acaba se aproximando do garoto, com quem sempre teve uma relação quase fria e precisa protegê-lo de um matador contratado pelos Rooney, o apavorante fotógrafo Harlen Maguire (Jude Law, irreconhecível).

"Estrada para Perdição" funciona lindamente em todos os seus níveis dramáticos. Enquanto filme de gângster é formalmente tradicional, apesar de evitar ferozmente a violência explícita. Como conflito familiar emociona ao aproximar pai e filho de maneira delicada e melancólica (ainda que sua opção por não exagerar no dramalhão o afaste um pouco de um público desacostumado a sutilezas). Visualmente é um espetáculo (cortesia também da direção de arte e do figurino caprichados). A trilha sonora de Thomas Newman é marcante e adequada e o elenco é de aplaudir de pé: Tom Hanks escapa pela primeira vez de sua persona carismática para viver um Michael Sullivan fechado e sorumbático (mesmo que esteja longe de ser um vilão como parte da mídia pintou è época da estreia do filme) e Jude Law mostra que não precisa mostrar seu sorriso luminoso para chamar a atenção. Mas é, acima de tudo, um belíssimo filme que melhora a cada revisão e marca o adeus de um mito absoluto, o grande Paul Newman. Convenhamos, não é pouca coisa!!!

Monday, November 22, 2010

MULHER SOLTEIRA PROCURA


MULHER SOLTEIRA PROCURA... (Single white female, 1992, Columbia Pictures, 107min) Direção: Barbet Schroeder. Roteiro: Don Roos, romance "SWF Seeks Same", de John Lutz. Fotografia: Luciano Tovoli. Montagem: Lee Percy. Música: Howard Shore. Figurino: Milena Canonero. Direção de arte/cenários: Milena Canonero/Anne H. Ahrens. Casting: Howard Feuer. Produção executiva: Jack Baran. Produção: Barbet Schroeder. Elenco: Bridget Fonda, Jennifer Jason Leigh, Steven Weber, Peter Friedman, Stephen Tobolowski. Estreia: 14/8/92

Houve um tempo em que o cineasta Barbet Schroder gozava de certo prestígio junto à crítica especializada. "Barfly", com Faye Dunaway e Mickey Rourke pode não ter sido um estrondoso sucesso de bilheteria, mas tinha background - era uma adaptação do cultuado escritor Charles Bukowski. E "O reverso da fortuna" lhe deu uma indicação ao Oscar e uma estatueta dourada ao ator Jeremy Irons. Talvez por isso a gritaria contra "Mulher solteira procura...", que de certa forma foi seu primeiro sucesso financeiro. Baseado em um romance fast-food de John Lutz, o filme é um suspense estiloso, com uma trama interessante e boas atrizes em seu elenco, mas não consegue ser mais do que um exemplar apenas correto do gênero a que pertence.

Nova York, charmosa como sempre, é o cenário da história de duplicidade, identidade dividida e carência extrema contada por Schroder. A jovem e bem-sucedida Allison Jones (Bridget Fonda na fase áurea de uma promissora carreira que foi morrendo aos poucos e que merece uma ressurreição) vive em um amplo loft do Upper West Side. Bela e inteligente, ela sofre um revés emocional quando se separa do namorado, Sam Rawston (Steven Weber), por quem é extremamente apaixonada. Sentindo-se solitária, ela publica um anúncio nos jornais, procurando alguém para dividir o apartamento e as despesas. Dentre inúmeras candidatas, ela escolhe a tímida e prestativa Hedra Carlson (Jennifer Jason Leigh, excelente), que logo torna-se a sua amiga mais íntima - e a única. Quando Allison e Sam fazem as pazes, porém, as coisas começam a mudar: sentindo-se excluída, Hedra passa a adotar um comportamento estranho, vestindo-se como Allison, usando suas roupas e até mesmo cortando o cabelo como o dela. Apavorada, Allison não demora a perceber que há algo muito errado com sua colega de apartamento.


Certamente as primeiras partes de "Mulher solteira procura..." são bem superiores a seu terço final, onde mais uma vez a criatividade dá lugar aos clichês. Todo o clima sufocante impresso pelo cineasta em seus minutos iniciais - com a fotografia caprichada do italiano Luciano Tovoli e a direção de arte impressionante de Milena Canonero colaborando imensamente para isso - conduz o espectador a uma história tensa e psicologicamente interessante. Quando o roteiro apela, no entanto, para a violência escancarada, tudo que foi construído anteriormente com cuidado e delicadeza cai na vala comum, o que talvez tenha sido a principal razão das críticas furiosas contra o filme.

O problema maior de "Mulher solteira procura..." é não dar a devida atenção à psicologia de suas personagens. A doença de Hedra - que perdeu a irmã gêmea na infância - é fascinante por si só, mas é praticamente ignorada pelo roteiro. Quando Allison chega às terríveis conclusões a respeito de sua amiga, a trama não dá espaço para embates melhores do que mortes violentas, agressões físicas e tudo de mais banal que os filmes de suspense oferecem às plateias. É uma pena que as protagonistas não possam dar às atrizes material dramático suficientemente forte para que elas demonstrem todo seu potencial. Bridget Fonda e Jennifer Jason Leigh são atrizes muito boas, e fazem o possível para dar veracidade a suas atuações. Fonda vive uma mulher talentosa, dona do próprio nariz e bem-sucedida, mas que é emocionalmente frágil e delicada. Jason Leigh, ao contrário, interpreta uma mulher tímida mas que esconde dentro de si uma monstruosidade causada por um trauma irreparável. Com um roteiro menos esquemático e mais denso, ambas teriam aqui a grande oportunidade de suas carreiras.

"Mulher solteira procura..." não é um filme ruim. É charmoso, visualmente atraente - a profusão de espelhos pelo cenário diz muito sobre as ideias a respeito da ideia central do filme - e apresenta duas atrizes promissoras em trabalhos caprichados. Poderia ser melhor, mas funciona muito bem e cumpre o que promete: bons sustos e uma vilã ideal para a geração MTV.