Showing posts with label 2000. Show all posts
Showing posts with label 2000. Show all posts

Wednesday, October 19, 2011

PLATA QUEMADA

PLATA QUEMADA (Plata quemada, 2001, Argentina, 125min) Direção: Marcelo Piñeyro. Roteiro: Marcelo Figueras, Marcelo Piñeyro, livro de Ricardo Piglia. Fotografia: Alfredo Mayo. Montagem: Juan Carlos Macias. Música: Osvaldo Montes. Figurino: Magali Izaguirre. Direção de arte/cenários: Belén Bernuy, Margarita Gomez, Noemí Nemirovsky/Ugo Guzzo. Produção: Diana Frey, Óscar Kramer. Elenco: Leonardo Sbaraglia, Eduardo Noriega, Pablo Echarri, Leticia Bredice, Hector Alterio. Estreia: 11/5/00

Normalmente a crítica, independente de suas origens culturais, tende a comparar - para efeito de facilitar a vida do espectador - filmes com outros que contenham elementos similares, mesmo que isso muitas vezes soe forçado ou limitatório. Felizmente não é o caso de "Plata quemada", excelente drama policial argentino que, em sua estreia, foi taxado imediatamente de um "Bonnie & Clyde gay". Tudo bem, os protagonistas realmente formam um casal homossexual e o ato final lembra o violento desfecho do clássico estrelado por Warren Beatty e Faye Dunaway em 1967. Mas a obra de Marcelo Piñeyro, baseda em um livro de Ricardo Piglia vai muito além de tal definição, sendo um dos mais consistentes filmes argentinos de uma retomada em muitos pontos superior à do cinema brasileiro.

Baseado em uma história real ocorrida na Argentina em 1965, "Plata quemada" começa com o planejamento de um assalto a um carro forte em Buenos Aires. Dois dos contratados para o roubo são um casal que passa por problemas de relacionamento: Nene (o ótimo Leonardo Sbaraglia) e Angel (Eduardo Noriega), que tem se recusado a manter relações sexuais com o parceiro devido a vozes que ouve em sua cabeça. Junto a eles está o motorista do grupo, o falastrão Corvo (Pablo Echarri), que dedica sua vida a mulheres e diversão. Quando o plano dá errado e policiais são mortos em ação, o grupo se vê obrigado a fugir para o Uruguai e esconder-se em um apartamento, enquanto aguarda uma maneira de escapar para o Brasil. Entediado com a clausura e sofrendo com a instabilidade de seu romance, Nene acaba conhecendo e se envolvendo com Giselle (Letícia Brédice), um relacionamento fugaz que acaba precipitando uma tragedia entre os rapazes.



Apesar de suas tensas cenas de ação, "Plata quemada" passa longe de ser um filme policial no sentido mais convencional do termo, com perseguições e planos mirabolantes criados por mentes privilegiadas. Talvez por ser uma história real, suas personagens soam dolorosamente verossímeis, em suas inseguranças e complexos. Na verdade, o filme pode ser lido de duas maneiras: há quem o veja como um filme policial com um triângulo amoroso como subtrama - e visto assim, a obra de Piñeyro funciona às mil maravilhas. Mas há também quem afirme que na realidade é uma história de um amor bandido entre dois homens apaixonados e complicados com uma violenta trama policial como pano de fundo. Sob esse prisma, "Plata quemada" consegue ser ainda mais passional e forte, graças a seu elenco corajoso e viril, que foge dos estereótipos dos gays afetados que povoam o cinema.

Tecnicamente competente - a fotografia e a edição são primorosas, assim como sua trilha sonora - e com um roteiro inteligente e sensível que em nenhum momento apela para cenas de sexo desnecessárias (ainda que conte com algumas quentes sequências eróticas), "Plata quemada" só não agrada àqueles que não conseguem separar seus preconceitos sexuais de um grande filme vindo de um país cuja filmografia não fica nada a dever ao melhor de Hollywood.

Thursday, September 15, 2011

AMNÉSIA

AMNÉSIA (Memento, 2000, Newmarket Films, 113min) Direção: Christopher Nolan, conto de Jonathan Nolan. Fotografia: Wally Pfister. Montagem: Doddy Dorn. Música: David Julyan. Figurino: Cindy Evans. Direção de arte/cenários: Patti Podesta/Danielle Berman. Produção executiva: Aaron Ryder. Produção: Jennifer Todd, Suzanne Todd. Elenco: Guy Pearce, Joe Pantoliano, Carrie-Anne Moss, Jorja Fox, Stephen Tobolowski, Mark Boone Jr.. Elenco: 20/01/01 (Sundance Festival)

2 indicações ao Oscar: Roteiro Adaptado, Montagem

Uns bons dez anos antes de dar um nó nas cabeças dos espectadores com “A origem”, o cineasta Christopher Nolan já havia demonstrado, da maneira mais feliz possível, seu fetiche em confundir a plateia. Adaptando um conto nunca publicado de autoria de seu irmão, ele escreveu e dirigiu “Amnésia”, um dos mais criativos filmes policiais da história – e por conseguinte, uma das mais bem-sucedidas produções independentes do cinema americano até hoje. Além de alçar à fama imediata seu diretor – que em seguida embalaria uma carreira das mais íntegras no cinemão mainstrean – “Amnésia” também confirmou o talento deu seu protagonista, o australiano Guy Pearce (que fez uma drag-queen em “Priscilla, a rainha do deserto” e um policial almofadinha em “Los Angeles, cidade proibida”). Sucesso absoluto de público e crítica, o filme de Nolan teve motivos de sobra para tamanho alvoroço.

A história de “Amnésia” até parece fácil: depois de um grave incidente que causou a morte de sua esposa, o investigador de seguros de saúde Leonard Shelby (vivido por um Guy Pearce loiríssimo e melhor ator do que nunca) perdeu a capacidade de manter na memória qualquer fato recente. Uma conversa, um rosto, um acontecimento, por mais importantes que possam ser, são esquecidos minutos depois de seu primeiro contato. Esse problema – já desagradável por si mesmo – não seria tão inconveniente se a intenção de Leonard não fosse tão séria: ele planeja vingar-se do homem que causou sua desgraça, um homem cujo nome ele tem certeza de ser John ou James G., segundo a tatuagem em sua perna. Sim, para não esquecer as pistas que coleta em seu caminho, Leonard tatua-as em seu corpo, além de contar com a ajuda de uma providencial máquina polaróide. Em seu caminho em busca de vingança, ele cruza com o aparentemente bem-intencionado Teddy (Joe Pantoliano) e a misteriosa Natalie (Carrie-Anne Moss), nunca deixando de lembrar-se da triste história de um antigo cliente, Sammy Jankins (Stephen Tobolowski).


O que parece fácil em “Amnésia” na verdade não é. Ao contar a angustiante história de Shelby de trás pra frente, o roteiro de Nolan (merecidamente indicado ao Oscar) acerta justamente em proporcionar ao público a possibilidade de extirpar o que mais o incomoda nas dezenas de filmes policiais que chegam às telas anualmente: é absolutamente impossível – ao menos na primeira sessão – adivinhar os caminhos que a trama irá seguir. Sua imprevisibilidade é tamanha que aqui não se tenta adivinhar o que irá acontecer e sim o que aconteceu, como e porque. Além de criativo, o roteiro ainda se dá ao luxo de reservar uma surpresa até mesmo ao mais atento espectador. E o público, que em certos momentos fica tão perdido quanto seu protagonista, chega ao final da sessão com a sensação de que, sim, é preciso revê-lo. E mais uma vez, e outra e outra.... São necessárias incontáveis sessões de “Amnésia” para que toda a sua complexidade seja absorvida. E mesmo assim, uma única resposta nunca será o bastante.

Provando cabalmente que uma boa ideia e uma equipe competente são muito mais importantes do que orçamentos milionários, Christopher Nolan começou, com “Amnésia”, uma lista de produções absolutamente imperdíveis com sua assinatura. É um dos filmes indispensáveis do começo do século XXI. E um dos melhores policiais já realizados.

Monday, September 12, 2011

TRAFFIC

TRAFFIC (Traffic, 2000, USA Films, 147min) Direção: Steven Soderbergh. Roteiro: Stephen Gaghan, minissérie escrita por Simon Moore. Fotografia: Steven Soderbergh (como Peter Andrews). Montagem: Stephen Mirrione. Música: Cliff Martinez. Figurino: Louise Frogley. Direção de arte/cenários: Philip Messina/Kristen Toscano Messina. Produção executiva: Cameron Jones, Graham King, Andreas Klein, Mike Newell, Richard Solomon. Produção: Laura Bickford, Marshall Herskovitz, Edward Zwick. Elenco: Michael Douglas, Benicio Del Toro, Catherine Zeta-Jones, Dennis Quaid, Steven Bauer, Miguel Ferrer, Albert Finney, Clifton Collins Jr., Jacob Vargas, Erika Christensen, Amy Irving, Topher Grace, Salma Hayek, Luiz Guzman, Don Cheadle, James Brolin. Estreia: 27/12/00

5 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Steven Soderbergh), Ator Coadjuvante (Benicio Del Toro), Roteiro Adaptado, Montagem
Vencedor de 4 Oscar:Diretor (Steven Soderbergh), Ator Coadjuvante (Benicio Del Toro), Roteiro Adaptado, Montagem
 Vencedor de 2 Golden Globes: Ator Coadjuvante (Benicio Del Toro), Roteiro 

Concorrer consigo mesmo na disputa pelo Oscar não é trabalho para qualquer cineasta, mas Steven Soderbergh não pode ser considerado um qualquer. No mesmo ano em que entregou ao público e à crítica o correto e quadradinho (mas ainda assim bom) “Erin Brockovich”, ele voltou às origens independentes de seu promissor início – vencedor da Palma de Ouro em Cannes com “sexo, mentiras e videotape” – com “Traffic”, um trabalho ousado, corajoso e ambicioso, que tinha como objetivo traçar um painel sobre o tráfico de drogas nos EUA e na sua fronteira com o México. Com base em uma minissérie de TV, adapatada com sucesso por Steve Gaghan, Soderbergh levou aos cinemas uma obra de impacto, que relembra seu inegável talento como cineasta visceral. Não à toa, venceu a si mesmo na disputa do Oscar de diretor – categoria na qual também concorria por “Erin Brockovich”.

A grande sacada do diretor foi a de contar três histórias diferentes, interligadas por pequenos detalhes mas que nunca chegam a se cruzar diretamente, como em outros filmes de sua época. Para não confundir a plateia com tantas personagens que passam pela tela, ele conta cada uma das histórias com um visual diferente, com uma fotografia em cores distintas. A trama que se passa no México, onde o policial Javier Rodriguez Rodriguez (Benicio Del Toro impecável e merecido vencedor do Oscar de ator coadjuvante) tenta resistir ao mar de corrupção que o cerca tem uma tonalidade quente, sufocante, quase em sépia. A luta de Robert Wakefield (um Michael Douglas sério e compenetrado) - juiz da Suprema Corte americana nomeado chefe do combate às drogas - em salvar sua própria filha adolescente do vício (a estreante Érika Christensen) é fotografada em tons azulados. E o drama da socialite Helena Ayala (Catherine Zeta-Jones grávida de verdade durante as filmagens), que tem seu marido – um influente traficante de drogas vivido por Steven Bauer – preso, é narrado sob uma fotografia naturalista. Com uma edição arrojada de Stephen Mirrione (também premiada com uma estatueta da Academia) e um roteiro que em nenhum momento se deixa tornar confuso e/ou redundante, o panorama traçado por Soderbergh choca, angustia e faz pensar.


“Traffic” faz parte de uma estirpe rara de produções cinematográficas. Inteligente, forte e com muito a contar, o filme de Steven Soderbergh e companhia é um entretenimento adulto, para um público sofisticado, que procura substância em meio a um cinema cada vez mais superficial e cínico. Ao expor a enorme teia de interesses escusos que move o tráfico de drogas – e por meio da família do juiz vivido por Michael Douglas aproximá-la do cotidiano da plateia – o roteiro de Gaghan foge do tradicional modelo de contrapor vilões e mocinhos. No mundo retratado pelo filme, cada atitude das personagens é movida por molas outras que não apenas um caráter estereotipado. O juiz que vira czar anti-drogas não consegue deixar que o tóxico entre em sua casa pela porta da frente. O policial incorruptível se deixa amolecer para garantir um futuro menos trágico para os seus. E a socialite fútil torna-se uma mulher forte e ferina para defender seus interesses e de sua família, mesmo que isso a obrigue a ir contra a lei.

“Traffic” é um grande filme. Perdeu o Oscar principal para “Gladiador”, um super-espetáculo grandioso e perfeito em seu objetivo de entreter pura e simplesmente, mas as personagens escritos por Steve Gaghan – dolorosamente reais e humanas – vão permanecer na mente dos espectadores por muito tempo.

Friday, September 9, 2011

O TIGRE E O DRAGÃO

O TIGRE E O DRAGÃO (Crouching tiger, hidden dragon, 2000, Sony Pictures Classic, 120min) Direção: Ang Lee. Roteiro: Hui-Ling Wang, James Schamus, Kuo Jung Tsai, romance de Du Lu Wang. Fotografia: Peter Pau. Montagem: Tim Squyres. Música: Tan Dun. Figurino: Tim Yip. Direção de arte/cenários: Tim Yip/Jian-Quo Wang. Produção executiva: David Linde, James Schamus. Produção: Ang Lee. Elenco: Chow Yun-Fat, Michelle Yeoh, Ziyi Zhang, Pei-pei Cheng, Chen Chang, Sihung Lung. Estreia: 09/10/00

10 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Melhor Filme Estrangeiro, Diretor (Ang Lee), Roteiro Adaptado, Fotografia, Montagem, Trilha Sonora Original, Canção ("A love before time"), Figurino, Direção de Arte/Cenários
Vencedor de 4 Oscar: Melhor Filme Estrangeiro, Fotografia, Trilha Sonora Original, Direção de Arte/Cenários
Vencedor de 2 Golden Globes: Melhor Filme Estrangeiro, Diretor (Ang Lee)

Foi preciso um diretor de Taiwan para devolver aos fãs de cinema a magia com que a sétima arte sempre brindou seu público. Depois de bem sucedidas incursões ao cinema de Hollywood - em especial os belos "Razão e sensibilidade" e "Tempestade de gelo", que captaram com inteligência as culturas inglesa e americana, respectivamente - o cineasta Ang Lee não foi feliz com o pouco visto e muito criticado "Cavalgada com o diabo" e resolveu retornar às origens. Para isso, assumiu as rédeas da adaptação do quarto volume de uma pentalogia chamada Crane/Iron, escrita por Du Lu Wang, um conhecido mestre chinês de kung-fu. Tendo seu habitual parceiro James Schamus entre os roteiristas, Lee construiu uma fábula majestosa e emocionante que recebeu o título ocidental de "Crouching tiger, hidden dragon", ou, como conhecido no Brasil, "O tigre e o dragão".

Não é difícil compreender o porquê da comoção em torno do filme de Lee desde sua estreia, no Festival de Cannes de 2000, quando foi ovacionado por uma legião de críticos deslumbrados. Sua obra simplesmente tira o espectador de sua zona de conforto, jogando-o em um universo particular, em que personagens ignoram a lei da gravidade e onde todas as excepcionalmente bem coreografadas lutas não são apenas desnecessários desvios da ação e sim parte integrante e indispensável da narrativa, repleta de poesia visual - cortesia da magnífica fotografia de Peter Pau, vencedor do Oscar da categoria. Não foi à toa que "O tigre e o dragão" tornou-se o primeiro filme de língua não-inglesa a ultrapassar a barreira dos 100 milhões de dólares de arrecadação em território americano, além de sair vitorioso em 4 categorias na festa do Oscar de 2001. O filme de Ang Lee é uma festa para os olhos e um admirável espetáculo para todos que consideram o cinema como um refúgio.




Passado em uma China antiga, "O tigre e o dragão" começa com o retorno do famoso guerreiro Li Mui Bai (Chow Yun-Fat) à terra de seus antepassados. Aposentado, ele dá de presente a um velho amigo sua poderosa espada, a Destino Verde, que logo em seguida é roubada. Enquanto tenta recuperá-la, ele não consegue deixar de lado o desejo de vingar a morte de seu mestre pelas mãos da temida Jade Fox (Pei-pei Cheng). Contando com a ajuda da mulher que ama em segredo, Shu Lien (Michelle Yeoh), ele também encontra, em seu caminho, a bela Jiao Long Yu (Ziyi Zhang), filha de uma respeitada família e que, mesmo em vias de casar-se, mantém um amor explosivo por um cigano do deserto.

Dirigido com maestria por um Ang Lee extremamente à vontade e no auge de sua criatividade como cineasta, "O tigre e o dragão" tem a seu favor, além de tudo, uma equipe que transmite paixão a cada polegada de celulóide. O elenco é impecável - com destaque para Michelle Yeoh, cujo rosto expressivo casa com naturalidade com uma força física impressionante - e é impossível não admirar a belíssima trilha sonora (composta em apenas duas semanas por Tin Dau, que acabou com uma estatueta do Oscar), a fotografia etérea e a direção de arte caprichada. No fundo uma bela história de amor emoldurada por uma trama que envolve sentimentos como honra, lealdade e amizade à toda prova - e um discreto discurso feminista - "O tigre e o dragão" é uma obra-prima incontestável e um dos melhores filmes já produzidos fora de Hollywood.

Wednesday, September 7, 2011

O DOM DA PREMONIÇÃO

O DOM DA PREMONIÇÃO (The gift, 2000, Paramount Classics, 112min) Direção: Sam Raimi. Roteiro: Billy Bob Thornton, Tom Epperson. Fotografia: Jamie Anderson. Montagem: Arthur Coburn, Bob Murawski. Música: Christopher Young. Figurino: Julie Weiss. Direção de arte/cenários: Neil Spisak/Marthe Pineau. Produção executiva: Sean Daniel, Gregory Goodman, Ted Tannebaum, Rob Talpert. Produção: James Jacks, Gary Lucchesi, Tom Rosenberg. Elenco: Cate Blanchett, Greg Kinnear, Katie Holmes, Giovanni Ribisi, Keanu Reeves, Hilary Swank, J. K. Simmons, Rosemary Harris, Michael Jeter, Kim Dickens. Estreia: 22/12/00

Certas atrizes têm o dom de transformar o que poderia ser apenas um produto rotineiro de entretenimento em algo acima da média. Uma dessas atrizes é Cate Blanchett. Mesmo em papéis ingratos em filmes menores, a australiana consegue sobressair-se incólume e em alguns casos até mesmo salva produções que sem ela mal seriam lembradas pela maioria dos espectadores. É o caso de “O dom da premonição”, um suspense interessante e bem realizado, mas que, sem sua presença luminosa, seria apenas mais um exemplar de um gênero pouco dado a apresentar obras-primas


À frente de um elenco de astros de grandezas variadas – a oscarizada Hilary Swank em um papel inadequado, o péssimo Keanu Reeves surpreendendo positivamente, o desajeitado Giovanni Ribisi com um personagem carismático, a jovem Katie Holmes em papel ousado e diferente do que fez até então e o simpático canastrão Greg Kinnear tentando dar veracidade a um personagem ingrato – Blanchett sobressai-se sem precisar de muito esforço. No filme de Sam Raimi – às vésperas de encarar sua primeira grande super produção, o blockbuster “Homem-aranha” – ela vive Annie Wilson, uma dona-de-casa, viúva e mãe de três filhos que complementa a renda familiar dando consultas como vidente em uma pequena cidade pantanosa do interior dos EUA. Ajudando seus vizinhos e amigos, principalmente o traumatizado mecânico Buddy (Giovanni Ribisi), ela ainda sofre ameaças de Donnie Barksdeale, um violento marido de uma cliente, Valerie (vividos por Keanu Reeves e Hilary Swank). Sua vida sofre uma reviravolta quando uma jovem da alta classe da cidade, Jessica King (a sempre insossa Katie Holmes) desaparece misteriosamente. Procurada por Wayne Collins, o noivo da moça (papel de Greg Kinnear), que é o diretor da escola onde estudam seus filhos, Annie não consegue negar ajuda, mas acaba colocando sua própria vida em risco.



Co-escrito pelo ator Billy Bob Thornton, o roteiro do filme de Raimi não apresenta grandes novidades, principalmente aos aficcionados do gênero. Nem mesmo a surpresa final chega a ser impactante, apesar do final reservado à personagem de Giovanni Ribisi chegar a ser interessante e emocionante. No entanto, graças à direção criativa de Raimi, que tenta fugir sempre que possível do previsível – apesar de nem sempre conseguir -, ao trabalho superlativo de Blanchett e à trilha sonora de Christopher Young, mantém a atenção até o minuto final, o que não pode ser dito de todos seus congêneres.

Friday, September 2, 2011

CORPO FECHADO

CORPO FECHADO (Unbreakable, 2000, Touchstone Pictures, 106min) Direção e roteiro: M. Night Shyamalan. Fotografia: Eduardo Serra. Montagem: Dylan Tichenor. Música: James Newton Howard. Figurino: Joanna Johnston. Direção de arte/cenários: Larry Fulton/Gretchen Rau. Produção executiva: Gary Barber, Roger Birnbaum. Produção: Barry Mendel, Sam Mercer, M. Night Shyamalan. Elenco: Bruce Willis, Samuel L. Jackson, Robin Wright-Penn, Spencer Treat Clark. Estreia: 14/11/00

O pior fardo que um filme pode carregar é uma expectativa errôneas a seu respeito. E o pior que pode acontecer à carreira de um cineasta cujo primeiro real filme rendeu mais de 600 milhões de dólares mundo afora é justamente frustrar essas expectativas – ainda que o faça com as melhores intenções. Pois foi exatamente isso que aconteceu a M.Night Shyamalan Depois do impressionante êxito comercial e crítico de “O sexto sentido”, todos esperavam que o cineasta fosse dar continuidade a seu estilo e fazer uma réplica de seu sucesso maior. Para surpresa de todos, porém, ele lançou “Corpo fechado”, no qual ele se reinventou brilhantemente. Contando com o mesmo Bruce Willis no papel principal, o filme estreou com uma pesadíssima carga nas costas e o resultado decepcionou aos mais afoitos, em termos de bilheteria. Com menos de 100 milhões arrecadados em território americano, não chegou nem perto do impacto causado pela história do menino que via gente morta. No entanto, apesar dos pesares, “Corpo fechado” ganhou fãs incondicionais ao redor do planeta. E se não for jamais lembrado como o melhor filme de Shyamalan é por um simples motivo comercial: um marketing equivocado.

Vendido pelo estúdio quase como se fosse uma continuação de “O sexto sentido” – o mesmo diretor, o mesmo astro, o mesmo clima de suspense – “Corpo fechado” é, na verdade, um excelente filme de super-herói, que conta as origens do mocinho e do bandido como qualquer boa história baseada em quadrinhos. Sim, não se vê Bruce Willis voando nem em uniformes berrantes e nem tampouco o vilão tem planos megalomaníacos de dominar o mundo – ainda que seja doentio o bastante para tentar manipular o destino. Mas, ao gerar suas personagens sobre-humanas em um universo cotidiano, o cineasta criou uma das tramas mais instigantes e fascinantes do gênero (e de quebra imprimiu a ele seu estilo particular e intrigante).
Bruce Willis (em ótima fase) vive David Dunn, um homem aparente normal que realiza a façanha de ser o único sobrevivente de um desastre de trem carregado de centenas de passageiros. Mais impressionante ainda é o fato de ter saído do acidente sem um arranhão sequer. Tentando reconstruir a vida ao lado da esposa Audrey (Robin Wright Penn em papel oferecido a Julianne Moore) e do filho pequeno, ele conhece o milionário Elijah Price (mais um extraordinário desempenho de Samuel L. Jackson), um empresário fanático por histórias em quadrinhos que o procura com uma séria questão: por que somente ele sobreviveu ao acidente? Buscando a resposta em seu passado, Dunn – que trabalha como segurança em um estádio de futebol – relembra que nunca ficou doente na vida e que talvez tenha uma missão muito importante no mundo.


Apesar da premissa um tanto nerd, “Corpo fechado” é, sem dúvida, um trabalho criativo e inteligente de Shyamalan, mais uma vez utilizando seu talento para construir climas e personagens verossímeis apesar de sua natureza fora do normal. O Elijah vivido por Jackson, por exemplo, é chamado de Mr.Glass devido a uma rara doença que lhe quebra facilmente os ossos do corpo – o que dá origem a uma das cenas de abertura mais impressionantes da década e culmina com um final surpresa coerente e empolgante. A construção visual de Jackson (e do filme como um todo) reitera de forma inequívoca o cuidado do cineasta com cada detalhe do filme, o que lembra mais uma vez o refinamento e a sutileza de Alfred Hitchcock – de quem o diretor rouba inclusive a notória característica de fazer uma ponta em seus trabalhos (aqui ele aparece como um traficante de drogas).

“Corpo fechado” é um típico exemplo de filme que foi injustamente criticado por ter despertado as tais expectativas errôneas. Com o tempo fica mais fácil perceber suas inúmeras qualidades dramáticas e admirá-lo pelo que realmente é: um produto pop com uma inteligência muito acima da média.

Thursday, September 1, 2011

CONTE COMIGO

CONTE COMIGO (You can count on me, 2000, Paramount Classics, 111min) Direção e roteiro: Kenneth Lonergan. Fotografia: Stephen Kazmierski. Montagem: Anne McCabe. Música: Lesley Barber. Figurino: Melissa Toth. Direção de arte/cenários: Michael Shaw/Lydia Marks. Produção executiva: Steve Carlis, Donald C. Carter, Martin Scorsese. Produção: Barbara De Fina, Larry Meistrich, Jeffrey Sharp. Elenco: Laura Linney, Matthew Broderick, Mark Ruffalo, Josh Lucas, Rory Culkin, Jon Tenney, Gaby Hoffman, Amy Ryan. Estreia: 17/11/00

2 indicações ao Oscar: Atriz (Laura Linney), Roteiro Original

Em meio a tantos filmes barulhentos e caros que são empurrados garganta abaixo dos espectadores em busca de duas horas de entretenimento, obras como “Conte comigo”, do independente Kenneth Lonergan normalmente são ignorados pelo grande público, ficando restritos àqueles que buscam qualidade indepententemente do orçamento do projeto. Felizmente festivais de cinema, como o Sundance, criado por Robert Redford existem para isso, para chamar a atenção para pequenas pérolas. Graças aos prêmios de Melhor Filme e Roteiro em Sundance 2000 e as indicações para o Oscar de Melhor Atriz e Roteiro Original a bela história familiar criada por Lonergan obteve uma mínima repercussão, que permitiu que fosse descoberto por uma audiência um pouco maior. As poucas pessoas que assistiram a “Conte comigo”, no entanto, foram brindadas com um roteiro inteligente e de emoções reais, sem apelos melodramáticos e com personagens tão polidimensionais que parecem gente de verdade e não criações de um roteirista com preocupações comerciais e concessões absurdas. 

A história de “Conte comigo” começa quando um acidente de carro tira a vida de um casal, pai de dois filhos pequenos. Anos depois, a irmã mais velha, Sammy (Laura Linney na melhor atuação de sua carreira) vive sozinha com o filho único (Rory Culkin, outro irmão de Macaulay) e tem uma vida quase tediosa, o que a leva a se envolver sexualmente com seu novo chefe, Brian (Matthew Broderick) mesmo tendo um relacionamento com outro homem, o apaixonado Bob (John Tenney). Sua vida sofre uma mudança quando ela reencontra seu problemático irmão, o rebelde Terry (Mark Ruffalo em surpreendente trabalho), que, saindo da cadeia, precisa de dinheiro e mesmo que não saiba, do carinho de uma família. As coisas, que pareciam tranquilas começam a dar errado quando Terry faz amizade com o filho de Sammy e acaba o levando a conhecer seu pai (Josh Lucas), um mau-caráter que abandonou Sammy durante a gravidez.


Quem procura um filme repleto de reviravoltas dramáticas, cenas de impacto emocionais e finais redentores não deve experimentar “Conte comigo”. Kenneth Lonergan, inteligentemente passa longe das fórmulas e dos clichês que povoam dramas familiares, preferindo expor as emoções de suas personagens através de seus atos incoerentes e nem sempre acertados – como fazem pessoas de verdade, diga-se de passagem. As cenas entre Laura Linney e Mark Ruffalo – com uma química invejável – comprovam o fato, com uma tensão intrínseca que nem mesmo o amor difícil entre os dois consegue esconder - e que a bela trilha sonora apenas sublinha. A cena em que o próprio diretor, na pele de um pastor tenta ajudar o rebelde Terry em sua busca pela felicidade é um primor de sensibilidade com seu diálogo encantador e comovente que encontra em Mark Ruffalo o ator ideal. Sua atuação como Terry é comovente, mostrando ao público um ator em vias de tornar-se um dos coadjuvantes mais subestimados de Hollywood.

Aplausos a Laura Linney, a Mark Ruffalo e ao produtor executivo Martin Scorsese, que não permitiu interferências supérfulas no trabalho de Lonergan. E, se ao final de "Conte comigo" é possível derramar algumas lágrimas, elas são verdadeiras, vertidas por motivos reais e por pessoas que, mesmo não existindo em carne e osso, existem em alma.

Wednesday, August 31, 2011

A CONSPIRAÇÃO

A CONSPIRAÇÃO (The contender, 2000, Dreamworks SKG, 126min) Direção e roteiro: Rod Lurie. Fotografia: Denis Maloney. Montagem: Michael Jablow. Música: Larry Groupé. Figurino: Matthew Jacobsen. Direção de arte/cenários: Alexander Hammond/Eloise Stammerjohn. Produção executiva: Maurice Leblond, Gary Oldman. Produção: Marc Frydman, James Spies, Douglas Urbanski. Elenco: Joan Allen, Gary Oldman, Christian Slater, Jeff Bridges, Sam Elliott, William Petersen, Saul Rubinek, Philip Baker Hall, Robin Thomas, Mariel Hemingway. Estreia: 13/10/00

2 indicações ao Oscar: Atriz (Joan Allen), Ator Coadjuvante (Jeff Bridges)

Filmes sobre política norte-americana interessam ao público brasileiro quase na mesma proporção que filmes sobre beisebol. Intrigas dos bastidores da Casa Branca e seus arredores, portanto, volta e meia suscitam a atenção, como bem prova a popularidade da série de TV "West Wing" - que mesmo assim fez um sucesso imenso nos EUA e aqui tinha uma audiência bastante selecionada. Por essa razão não é nenhuma surpresa o fato de um filme tão interessante quanto "A conspiração" ter passado quase batido na ocasião de sua estreia, apesar do elenco de prestígio. Se não fosse as indicações ao Oscar - Joan Allen como melhor atriz e Jeff Bridges como ator coadjuvante é bem possível que nem mesmo tivesse passado pelas salas brasileiras.

Escrito e dirigido pelo desconhecido Rod Lurie - que dedica o filme a suas filhas, em sinal de esperança no futuro de seu país - "A conspiração" é um drama político que centra sua atenção mais em suas personagens do que em intrincadas manobras de gabinete (ainda que elas existam em número considerável), o que facilita a assimilação até mesmo por quem não tem familiaridade com os jogos políticos americanos. É elogiável a forma sóbria e direta com que Lurie conta sua história, permitindo a seus atores (todos em excelente forma) momentos de um brilho discreto mas muito eficiente.


Quando o filme começa, os EUA estão sem um vice-presidente, morto recentemente. A expectativa de todos é que o presidente, o carismático Jackson Evans (Jeff Bridges em uma atuação simpática) nomeie o governador Jack Hathaway (William Petersen) para o cargo, aproveitando sua popularidade em alta, especialmente depois de ter tentado salvar (em vão) uma jovem de morrer afogada após um acidente de carro. O que surpreende a todos - mas não em especial seus assessores mais próximos - é a decisão de Evans de deixar um legado histórico, escolhendo uma mulher para o segundo posto mais importante do país. A escolhida é a senadora Laine Hanson (Joan Allen), uma mulher séria e discreta, filha de um político, que aceita o cargo prontamente. A escolha do presidente desagrada principalmente o líder da oposição, Shelly Ruinon (um Gary Oldman irretocável), que tencionava manipular Hathaway. Para denegrir Hanson e tentar impedir sua posse, ele faz vazar para a imprensa e consequentemente para os eleitores, fotos que mostram a senadora participando de uma orgia sexual em seus tempos de faculdade. Atônita com a situação, ela se vê dividida entre reagir à altura ou manter sua integridade pessoal e privada.

Depois de ter-se consagrado como a coadjuvante perfeita - em filmes como "Nixon", "As bruxas de Salem" e "Tempestade de gelo" - finalmente Joan Allen atinge o status de protagonista, em um papel escrito especialmente para seu talento. Sua Laine Hanson é discreta, honesta e estoica, mesmo quando vê sua vida pessoal ser vasculhada com um microscópio, e o rosto sempre sereno de Allen casa perfeitamente com a personalidade da personagem. Joan trasmite confiabilidade, o que é essencial para que o público fique a seu lado, torcendo contra aqueles que, em nome da moral e dignidade, buscam sujar seu nome, mesmo que não sejam exatamente exemplos de hombridade (um detalhe que lembra perigosamente os políticos brasileiros). Essa definição clara entre o bem e o mal feita pelo roteiro de Lurie caminha perigosamente em direção ao maniqueísmo, mas felizmente o cineasta consegue driblar essa armadilha, mantendo o tom sério e realista da trama, que tem entre seus produtores executivos o excepcional Gary Oldman.

Foi Jeff Bridges quem concorreu ao Oscar de coadjuvante por "A conspiração", mas quem deveria ter sido lembrado - por outros filmes também - é Oldman. Na pele do vil, cínico e cruel Shelly Runion, o ator inglês não apenas está irreconhecível. Ele está visivelmente à vontade, em um papel sob medida para seu talento para o lado obscuro do ser humano - que tanto lhe ajudou em "Drácula de Bram Stoker" e "Sid & Nancy, o amor mata". Seus diálogos com Joan Allen encontram nos dois atores os intérpretes ideais, em um jogo de cena quase minimalista, repleto de silêncios e olhares expressivos. Oldman encarna um político da forma mais abjeta e escorregadia possível, provocando a antipatia imediata da plateia e causando, assim, a torcida incondicional pela heroína. Não é esse o sonho de todo diretor?

"A conspiração" é um filme inteligente, adulto e sério que toca em assuntos pertinentes e relevantes. Depois de juntar a essas qualidades um elenco de grandes atores - que nem Christian Slater consegue estragar - é só correr pro abraço. E ser descoberto pela audiência que lhe interessa.

Tuesday, August 30, 2011

BILLY ELLIOT

BILLY ELLIOT (Billy Elliot, 2000, BBC Films/Studio Canal, 110min) Direção: Stephen Daldry. Roteiro: Lee Hall. Fotografia: Brian Tufano. Montagem: John Wilson. Música: Stephen Warbeck. Figurino: Stewart Meacham. Direção de arte/cenários: Maria Djurkovic/Tatiana Lund. Produção executiva: Charles Brand, Tessa Ross, David M. Thompson, Natascha Wharton. Produção: Greg Brenman, Jon Finn. Elenco:Jamie Bell, Julie Walters, Gary Lewis, Jamie Draven. Estreia EUA: 12/10/00

3 indicações ao Oscar: Diretor (Stephen Daldry), Atriz Coadjuvante (Julie Walters), Roteiro Original

A primeira cena já conquista o público. Ao som de "Cosmic Dancer", da banda T-Rex, um menino de onze anos de idade pula em sua cama, transmitindo uma alegria de viver que é uma lembrança viva da infância do próprio roteirista Lee Hall. O menino, vivido com graça e competência pelo estreante Jamie Bell, é o protagonista de "Billy Elliot", um dos maiores sucessos do cinema inglês do início do século XXI e o belo filme de estreia de Stephen Daldry, merecidamente indicado ao Oscar já em seu primeiro trabalho. Um perfeito exemplo de como um filme pode ser encantador e comovente sem gastar fábulas ou apelar para lágrimas fáceis, "Billy Elliot" seduz a audiência pela sensibilidade e pela honestidade.

Billy é o filho caçula de Jackie Elliot (Gary Lewis), um viúvo que trabalha arduamente para sustentar a sogra doente e os dois filhos. É o ano de 1984, e a família vive em uma pequena cidade do interior da Inglaterra, inflamada por uma polêmica greve dos trabalhadores das minas de carvão. Um dos líderes trabalhistasé justamente o irmão de Billy, Tony (Jamie Draven), que não aceita diálogo e luta por melhores condições de trabalho no governo de Margaret Tatcher. Billy, aos onze anos de idade cuja única diversão é frequentar suas aulas de boxe, as quais encara sem muito entusiasmo. Sua vida dá uma virada inesperada quando ele conhece a Sra. Wilkinson (Julie Walters), que dá aulas de balé no mesmo ginásio onde ele treina - e tem suas aulas pagas com muito suor por seu pai. Encantado com o mundo da dança, Billy desperta a atenção da veterana professora, que o incentiva então a ir embora para Londres, tentar a sorte como bailarino profissional. Para isso, porém, o menino terá que enfrentar o preconceito da cidade e as dificuldades financeiras da própria família, sofrendo com a crise econômica do país.



Conquistando o papel principal ao deixar para trás mais de dois mil candidatos, Jamie Bell provou ser a melhor escolha do diretor Stephen Daldry. Seu físico mirrado, seu olhar que alterna timidez com fúria e seu passado como dançarino (quando era frequentemente vítima de deboche dos colegas) fazem dele o ator ideal para viver Billy Elliot, um dos protagonistas mais encantadores de sua temporada. Mesmo que muitas vezes soe agressivo - em especial em sua relação quase materna com sua professora - o jovem Elliot jamais afasta o público de si, envolvendo-o com sua paixão nascente pela dança. É especialmente tocante a cena em que ele tenta convencer seu pai a respeito de seu talento simplesmente dançando, sem dizer uma única palavra, assim como é necessário aplaudir de pé o resto do elenco escolhido por Daldry.

A escolada Julie Walters arrebatou uma indicação ao Oscar de atriz coadjuvante por sua performance como a Sra. Wilkinson, uma mulher que vê no pré-adolescente arredio uma chance de compensar sua frustração profissional - ao contrário do clichê, no entanto, ela não é nem recalcada nem invejosa e sim uma espécie de mãe que é tão necessária na vida de seu aluno. Mas é Gary Lewis, na pele do pai do protagonista quem quase rouba todas as cenas em que aparece, em uma atuação nunca aquém de soberba. Discreto e econômico, Lewis merecia também ser lembrado pelo Oscar por jamais deixar de transmitir toda a extensão de sentimentos de sua personagem sem que, para isso, precise discursar ao público. A cena final, por exemplo, é um primor de sutileza e emoção: ele nem precisa falar para despertar a empatia, a solidariedade e a emoção de sua audiência. Se é nos pés de Billy que Daldry concentra o corpo de seu filme, é no olhar orgulhoso e marejado de Jackie Elliot que o filme encontra sua alma.

Um dos filmes mais humanos a surgir nas telas em 2000, "Billy Elliot" é, acima de tudo, uma ode à paixão pela arte, à família e à fé nos próprios desejos. É uma pequena obra-prima embalada por uma bela trilha sonora e um roteiro delicioso como uma obra de Tchaikovsky.

Monday, August 29, 2011

TIGERLAND

TIGERLAND, A CAMINHO DA GUERRA (Tigerland, 2000, New Regency Pictures, 101min) Direção: Joel Schumacher. Roteiro: Ross Klavan, Michael McGruther. Fotografia: Matthew Libatique. Montagem: Mark Stevens. Música: Nathan Larson. Figurino: Thomas Stokes. Direção de arte/cenários: Andrew Laws/Shawn R. McFall. Produção executiva: Ted Kurdyla. Produção: Beau Flynn, Steven Haft, Arnon Milchan. Elenco: Colin Farrell, Matthew Davis, Clifton Collins Jr., Tom Guiry, Shea Whigham, Russell Richardson, Michael Shannon, Cole Hauser. Estreia: 06/10/00

Normalmente quando o diretor Joel Schumacher tem dinheiro em mãos comete bombas como os dois “Batman” assinados por ele. Quando conta com estrelas do porte de Julia Roberts entrega obras totalmente dispensáveis como o xaroposo “Tudo por amor”. E quando tem roteiros com a griffe de John Grisham varia entre o correto “O cliente” e o quase ótimo “Tempo de matar”. Mas é quando surge despretensioso, barato e com um elenco de atores – e não astros – que o cineasta que já realizou o sensacional “Um dia de fúria” - com Michael Douglas em seu melhor trabalho - demonstra que de vez em quando ele sabe ser um bom diretor.

“Tigerland, a caminho da guerra” é o melhor exemplo dessa teoria. Feito com um orçamento minúsculo, sem alarde e com um elenco praticamente desconhecido, o filme pode não ter feito um sucesso estrondoso – muito longe disso, aliás – mas recolheu elogios calorosos e o que não é nem um pouco ruim, um prêmio da Associação de Críticos de Boston para seu protagonista, o irlandês Colin Farrell. Farrell, estreante em cinema, mereceu o prêmio e os elogios. Com uma postura rebelde na vida real, ele cabe como uma luva no papel de Roland Bozz, um recruta com sérios problemas disciplinares que, no ano de 1971 vai para um campo de treinamento chamado Tigerland, a última parada dos soldados americanos antes de serem enviados para o Vietnã. Líder por natureza, Bozz imediatamente esbarra na autoridade retratada por seus superiores e na antipatia causada entre alguns colegas, que não aceitam sua maneira de lidar com suas idéias pacifistas. Aos poucos, Bozz transforma-se na esperança dos soldados que querem fugir da guerra.



Talvez uma das maiores qualidades de “Tigerland” seja o fato de ele ser um filme de guerra sem guerra. Toda sua trama se passa antes que suas personagens sejam de fato enviadas ao Vietnã, o que passa uma sensação de tensão que normalmente não se vê em produções do gênero. O treinamento de Bozz e seus colegas geram cenas bastante fortes, que nunca fogem do clichê, mas que o utilizam com inteligência e sensibilidade. Essa sensibilidade fica clara em momentos mais emotivos, como as conversas do protagonista com Cantwell (Tom Guiry), jovem que deixou mulher e quatro filhos em casa e um dos líderes do pelotão, Miter (o ótimo Clifton Collins Jr.) que decidiu ir pra guerra para morrer como um homem e provar à família que é corajoso.

“Tigerland” é um pequeno filme de guerra, sem maiores arroubos de criatividade, com qualidades gritantes. A fotografia de Matthew Libatique, o roteiro surpreendente e conciso e a direção sem tiques de Schumacher contam preciosos pontos para seu resultado geral, mas é a empolgante atuação de Colin Farrell que o eleva ao status de pérola a ser descoberta. Em seu primeiro grande papel, Farrell - uma das maiores promessas do início do século - deita e rola, em uma interpretação na medida exata entre a rebeldia e a doçura. Não fosse o trabalho impecável do ator, era bem provável que esse pequeno drama de guerra passasse absolutamente despercebido. 

Friday, August 26, 2011

RÉQUIEM PARA UM SONHO

RÉQUIEM PARA UM SONHO (Réquiem for a dream, 2000, Artisan Entertainment, 102min) Direção: Darren Aronofsky. Roteiro: Darren Aronofsky, Hubert Selby Jr., romance de Hubert Selby Jr. Fotografia: Matthew Libatique. Montagem: Jay Rabinowitz. Música: Clint Mansell. Figurino: Laura Jean Shannon. Direção de arte/cenários: James Chinlund/Ondine Karady. Produção executiva: Beau Flynn, Stefan Simchowitz, Nick Wechsler. Produção: Eric Watson, Palmer West. Elenco: Ellen Burstyn, Jared Leto, Jennifer Connelly, Marlon Wayans, Christopher McDonald, Dylan Baker. Estreia: 27/10/00

Indicado ao Oscar de Melhor Atriz (Ellen Burstyn)

Filmes sobre viciados em drogas normalmente acabam resvalando nas situações clichês, cedendo à tentação de chocar, mesmo que para isso os roteiristas e diretores deixem de lado profundidades psicológicas em função do choque visual, normalmente escatológico. A cada gloriosa exceção como o criativo “Trainspotting, sem limites” existe dúzias de bombas como o longínquo mas com status de clássico “Christiane F.”, cujo maior mérito foi alertar a respeito do assunto e contar com a participação de David Bowie. Felizmente, gente com talento se interessa em acrescentar qualidade a temas tão batidos como as tragédias junkies. Um desses nomes de talento é Darren Aronofsky, que foi incensado pela crítica já em seu filme de estreia, o pouco visto “Pi” e colecionou mais elogios ainda com “Réquiem para um sonho”, um petardo cinematográfico poucas vezes registrado na história. 
  
Baseado no romance de Hubert Selby Jr. (que colaborou com o roteiro, escrito em parceria com o diretor), “Réquiem para um sonho” é um dos filmes mais ousados do final do século, uma experiência sensorial e emocional respaldada por um elenco excepcional liderado por uma impressionante Ellen Burstyn, injustamente preterida ao Oscar de melhor atriz em favor de Julia Roberts, no correto e nunca genial “Erin Brockovich, uma mulher de talento”. Burstyn vive Sarah Goldfarb, uma viúva solitária e obesa cujas únicas alegrias na vida são as visitas raras do filho Harry (Jared Leto, macérrimo e bom ator como nunca) e os momentos passados em frente à TV. Sua vida dá uma virada quando ela é selecionada para participar de um de seus programas preferidos. Com o objetivo claro de emagrecer e servir no vestido vermelho que era o favorito de seu marido, ela se entrega a uma dieta delirante de comprimidos inibidores de apetite. Aos poucos as anfetaminas passam a fazer efeito e, além de emagrecer assustadoramente, Sarah começa a delirar, ranger dentes e perder o controle sobre seus sentidos. Enquanto isso, seu filho inicia uma sociedade no tráfico de entorpecentes com seu melhor amigo Tyrone(Marlon Wayans). Sua meta é investir o dinheiro ganho em uma confecção, junto com a namorada Marion (Jennifer Connelly, belíssima como sempre e uma atriz cada vez melhor). O problema é que os três são viciados em drogas e o capital investido logo é insuficiente para suprir suas necessidades, o que os leva a uma crescente história de desespero e privação.


“Réquiem para um sonho” não é um filme fácil, o que sua bilheteria minguada nos EUA apenas comprova. Ao investir pesado em uma trama sem concessões sentimentalóides (apesar de algumas cenas de cortar o coração), Aronofsky não deixa pedra sobre pedra, não poupando nenhuma de suas personagens que encontram apenas frustração e desespero em busca de seus sonhos. As impressionantes edições de imagens repetidas e sons distorcidos ajudam na captura da angústia pelas quais passam Sarah, Harry e Marion, pessoas comuns jogadas em meio a um furacão de dor. A trilha impactante de Clint Mansell, que martela mesmo depois dos créditos finais é forte candidata a inesquecível, mas é a qualidade do elenco que fascina mais do que tudo.

Enquanto Jennifer Connelly comprova seu crescimento como atriz e mulher bonita, são os jovens Jared Leto e Marlon Wayans que surpreendem. Leto, até então sem maiores chances de mostrar trabalho agarra com unhas e dentes a oportunidade de atuar ao lado de colegas mais experientes e consagradas. Wayans, saído diretamente de coisas como “Todo mundo em pânico” acena como uma possibilidade que nunca mais foi devidamente explorada. Mas é a indescritível Ellen Burstyn que é a imagem mais característica do filme. Ao viver uma mulher comum, dona-de-casa, viúva e sem maiores interesses na vida e que de repente afunda em um caminho de dor, Burstyn não apenas passa por uma transformação física apavorante mas também demonstra uma coragem e uma segurança que muitas estrelas de Hollywood nem sequer pensam em tentar. Confiando plenamente no talento de seu diretor (que dez anos depois entregaria ao mundo outra obra-prima, o tocante "Cisne negro"), a atriz premiada com o Oscar de 1974 por "Alice não mora mais aqui" apresenta a maior atuação feminina da década.
        
Anfetamínico, impressionante, chocante, deprimente. Todas os adjetivos usados para descrever “Réquiem para um sonho” como um dos mais pesados da história são cabíveis. Mas também o são palavras como genial, criativo, obrigatório. Uma obra-prima em forma de pesadelo.

Thursday, August 25, 2011

QUASE FAMOSOS

QUASE FAMOSOS (Almost famous, 2000, Columbia Pictures/Dreamworks SKG, 122min) Direção e roteiro: Cameron Crowe. Fotografia: John Toll. Montagem: Joe Hutsching, Saar Klein. Música: Nancy Wilson. Figurino: Betsy Heimann. Direção de arte/cenários: Clay A. Griffith/Robert Greenfield. Produção: Ian Bryce, Cameron Crowe. Elenco: Patrick Fugit, Billy Crudup, Jason Lee, Kate Hudson, Frances McDormand, Philip Seymour Hoffman, Anna Paquin, Jimmy Fallon, Fairuza Balk, Noah Taylor, Zooey Deschanel, Rain Wilson. Estreia: 13/9/00

4 indicações ao Oscar: Atriz Coadjuvante(Kate Hudson, Frances McDormand), Roteiro Original, Montagem
Vencedor do Oscar de Roteiro Original
Vencedor de 2 Golden Globes - Melhor Filme Comédia/Musical, Atriz Coadjuvante (Kate Hudson)

“Não fique amigo de roqueiros!” é o mais importante conselho dado pelo crítico musical Lester Bangs (Phillip Seymour Hoffman) ao adolescente William Miller (Patrick Fugit), às vésperas de o garoto embarcar, aos 15 anos, com a banda de rock Stillwater em sua primeira turnê, entitulada “Quase famosos”. Criado pela repressora Elaine (Frances McDormand), uma professora universitária que conseguiu causar a fuga da filha mais velha devido a suas idiossincrasias - como comemorar o Natal em setembro para fugir do caráter comercial da data - Miller tem a chance, proporcionada pela prestigiada revista Rolling Stone (que nem de longe imagina sua real idade), de acompanhar a excursão da banda para uma reportagem exclusiva. Em poucos dias, o adolescente deixa pra trás uma vida sem graça e tem acesso a um mundo de amor livre, drogas, intrigas e até amor verdadeiro, quando se apaixona por Penny Lane (a graciosa Kate Hudson, filha da atriz Goldie Hawn), uma groupie que esconde quilos de romantismo e ingenuidade debaixo de uma casca de liberalidade e auto-confiança.

William Miller, o adolescente que descobre o amor, o sexo e a vida como ela é no meio de uma excursão de rock é o protagonista de “Quase famosos”, deliciosa comédia escrita e dirigida por Cameron Crowe, em seu filme seguinte ao sucesso de “Jerry Maguire, a grande virada”. Notadamente semi-autobiográfico, seu filme é um vencedor em todos os sentidos. Seu roteiro, vencedor do Oscar, é um achado de bom humor e delicadeza, com diálogos brilhantes, recitados por um elenco excepcional. Sua trilha sonora, como não poderia deixar de ser em se tratando de um filme sobre o rock’n’roll é repleta de pérolas como The Who, Elton John e Simon & Garfunkel e é difícil não se envolver com os personagens criados pela mente ágil e humanista de Crowe, que manteve de seu filme anterior a capacidade de fazer rir e emocionar com facilidade e sem maniqueísmos.


Talvez a maior qualidade de seu roteiro seja fazer dos olhos de William Miller os olhos da plateia. É através do olhar ingênuo e romântico de Miller que o público trava conhecimento com o amor do guitarrista Russell Hammond (o ótimo Billy Crudup) pela música; é graças a seus silêncios que somos testemunhas dos bastidores de um grupo em vias de tornar-se grande; e é por seus olhos encantados de paixão que também caímos de amor por Penny Lane, vivida com graça e carisma por uma Kate Hudson impecável, que foi promovida do papel de irmã do protagonista (que ficou com a ótima Zooey Deschannel) para o principal papel feminino do filme (cobiçado por Kirsten Dunst), ganhou o Globo de Ouro e concorreu ao Oscar de atriz coadjuvante, assim como a colega de elenco Frances McDormand, perfeita como a mãe de Miller e roubando as cenas em que aparece.

Não é sempre que um filme como “Quase famosos” aparece. Lançando um olhar carinhoso à época de ouro do rock (a trama se passa em 1973), Crowe mostra que sabe como poucos onde encontrar material humano no meio de muito som – é dele o roteiro e a direção do subapreciado “Vida de solteiro”, passado em Seattle, berço do movimento grunge do inicio dos anos 90. Não é preciso ser um especialista em rock dos anos 70 para se apaixonar pelo filme – ainda que Crowe tenha espalhado dezenas de referências ao gênero pelo roteiro – nem tampouco ser um roqueiro de fé para se empolgar com o resultado final. Basta gostar de bom cinema. E bom cinema “Quase famosos” é!

Tuesday, August 23, 2011

X-MEN, O FILME

X-MEN (X-Men, 2000, 20th Century Fox/Marvel Enterprises/Donner's Company, 104min) Direção: Bryan Singer. Roteiro: David Hayter, estória de Tom DeSanto, Bryan Singer. Fotografia: Newton Thomas Sigel. Montagem: Steven Rosenblum, Kevin Stitt, John Wright. Música: Michael Kamen. Figurino: Louise Mingenbach. Direção de arte/cenários: John Myhre/James Edward Ferrell. Produção executiva: Avi Arad, Tom DeSanto, Richard Donner, Stan Lee. Produção: Lauren Shuler Donner, Ralph Winter. Elenco: Patrick Stewart, Ian McKellen, Hugh Jackman, Hale Berry, Anna Paquin, James Mardsen, Famke Janssen, Rebecca Romijn-Stamos, Bruce Davison. Estreia: 14/7/00

Até o dia 14 de julho de 2000, o destino dos filmes baseados em histórias em quadrinhos era sempre uma incógnita. Para cada “Superman” de Richard Donner ou “Batman” de Tim Burton surgiam aberrações como os filmes do homem-morcego dirigidos por Joel Schumacher – que humilhavam seu herói impiedosamente com roteiros deploráves e produções vexaminosas. Foi somente quando um grupo de mutantes chegou às telas de cinema sob o comando de um diretor improvável e um elenco desprovido de astros de primeira grandeza que a porta para o sucesso constante do universo dos famigerados comic books foi finalmente aberta (ou seria melhor até dizer, escancarada). “X-Men, o Filme” foi a prova que todo mundo precisava de que, adaptados em um roteiro inteligente e dirigidos por gente criativa e talentosa, os quadrinhos poderiam – e até mesmo deveriam, dada a sua importância dentro do universo pop – ser uma matéria-prima quase infinita para a sétima arte.

Relativamente fiel a suas origens, “X-Men” é um êxito absoluto, principalmente se for levado em conta que seu diretor não era exatamente um fã nem da série nem tampouco do gênero. Revelado por obras fortes e dotadas de grande poder dramático – “Os suspeitos” e “O aprendiz” – Bryan Singer assumiu as rédeas do filme depois que nomes conhecidos dos fãs de ação - como John McTiernan, James Cameron, Richard Donner e Joel Schumacher – foram sendo sistematicamente deixados de lado (até mesmo Danny Boyle, Robert Rodriguez e Tim Burton estiveram na lista de possíveis diretores). Ao sentar na cadeira de diretor, porém, o jovem Singer (na época com apenas 34 anos) não se fez de rogado e criou o filme que todos os fãs dos mutantes esperavam (pelo menos até o segundo capítulo, também dirigido por ele e lançado três anos depois, que expandiu ainda mais as qualidades da história). Levando a trama extremamente a sério, Singer não dirigiu apenas um entretenimento escapista de verão: ele criou um clássico pop que, além de divertir o suficiente, apresenta uma metáfora bastante pertinente a respeito de preconceito e tolerância.

Quando o filme começa, o público fica sabendo que há muitos anos milhares de mutantes transitam pela Terra, convivendo de forma pacífica e discreta com seres humanos convencionais, ainda que muitos escondam seus dons para que possam viver normalmente. O sensato Professor Xavier (Patrick Stewart) comanda uma escola para jovens mutantes (disfarçada como escola para superdotados), onde eles podem aprender a controlar seus poderes e utilizá-los de forma apropriada. Porém, um senador da República (Bruce Davison) dá início a uma campanha nacional que pede a todos os mutantes que se identifiquem. Com medo da discriminação que tal lei poderia causar, Magneto (Ian McKellen), um mutante com poder de manipular metais com o poder da mente, pretende começar uma guerra contra os humanos. Sobrevivente de um campo de concentração na II Guerra, Magneto conhece as conseqüências de ser “diferente” e entra em conflito direto com Xavier, que acredita que a tolerância e o diálogo são os melhores meios para lidar com a situação. Para impedir Magneto de principiar sua sangrenta e violenta guerra, Xavier conta com o auxílio do misterioso Wolverine (Hugh Jackman) – um homem cujas garras de adamantium são apenas uma parte de seu misterioso passado – a belas Tempestade (Hale Berry) e Jean Grey (Famke Janssen), o jovem Ciclope (James Mardsen) e a adolescente Vampira (Anna Paquin) – que une-se ao grupo como forma de auto-aceitação.


Além do roteiro enxuto que apresenta de forma quase didática seus personagens e situações – além de deixar um bela porta aberta para sua brilhante continuação – “X-Men” ainda por cima com um elenco excepcional. Sir Ian McKellen mais uma vez rouba a cena como o vilão Magneto, cuja maldade é compreensível em grande parte pelo talento do ator. As oscarizadas Anna Paquin e Hale Berry (que levaria a estatueta pouco depois de sua atuação como Tempestade) dão estofo artístico ao projeto e Patrick Stewart (fã dos quadrinhos) é a escolha ideal para Xavier. Mas é o então desconhecido Hugh Jackman que mais chama a atenção da plateia, com sua perfeita criação de Wolverine, uma personagem que parece ter sido criada para ele (e no entanto seria de Dougray Scott, que perdeu o papel por estar preso nas atrasadas filmagens de “Missão: Impossível 2”. Mesmo que não parecesse a escolha ideal para os fãs dos quadrinhos (o Wolverine original é baixinho e Jackman tem quase 1,90m), o ator australiano não deixou pedra sobre pedra com seu trabalho impecável – que garantiu inclusive um filme solo para seu personagem, o fraquinho “Wolverine: Origens”, de 2009.

Com efeitos visuais discretos mas eficientes, humor nas horas certas (e em quantidade limitada) e um roteiro esperto mas nunca bobo ou querendo ser alternativo e/ou artístico, “X-Men” conquistou seu público como uma das melhores traduções do universo dos quadrinhos para a tela do cinema, alterando definitivamente – para o bem e para o mal – o panorama do entretenimento no século XXI.

Friday, August 19, 2011

TRAPACEIROS

TRAPACEIROS (Small time crooks, 2000, Dreamworks SKG, 94min) Direção e roteiro: Woody Allen. Fotografia: Zhao Fei. Montagem: Alisa Lepselter. Figurino: Suzanne McCabe. Direção de arte/cenários: Santo Loquasto/Jessica Lanier. Produção executiva: J. E. Beaucaire. Produção: Jean Doumanian. Elenco: Woody Allen, Tracey Ulman, Hugh Grant, Elaine May,  Michael Rapaport, Jon Lovitz. Estreia: 19/5/00

Woody Allen não é um cineasta de polpudas bilheterias, e a comemoração em torno dos 50 milhões de arrecadação de seu recente "Meia-noite em Paris" como seu maior sucesso comercial apenas reitera essa afirmação. Levando-se em conta sua carreira brilhante e sua espetacular média de pelo menos um filme por ano sem nunca cair na mediocridade (até mesmo suas obras menores são dignas de nota) não deixa de ser surpreendente que um de seus maiores êxitos populares tenha sido justamente "Trapaceiros", seu primeiro filme distribuído pela Dreamworks de Steven Spielberg. Talvez tenha sido influência do nome do Midas do cinema, mas o fato é que "Trapaceiros" fez mais sucesso do que se esperava, mesmo que esteja longe de ser um dos melhores trabalhos de Allen.




“Trapaceiros”, na verdade, conta várias histórias em seu desenrolar. Começa como um filme de assalto, ao estilo “Um dia de cão”. Ray Winkler (o mesmo Woody Allen de sempre) é um escroque sem maiores talentos que tem a idéia de roubar um banco através de um túnel subterrâneo. Para isso, ele conta com a ajuda da esposa Frenchy (a ótima Tracey Ullman) para que ela sirva de fachada em uma loja de biscoitos. O que ele não poderia imaginar é que a confeitaria pudesse fazer sucesso, o que os torna milionários em questão de poucos meses. Começa aí a segunda história: cheia da grana mas sem a menor classe, Frenchy contrata os serviços do galante David (Hugh Grant, divertindo-se claramente no papel) para ensiná-la a ser uma dama. Apaixonada por ele, ela não percebe que ele está querendo é seu dinheiro. A terceira trama advém da crise no casamento de Ray e Frenchy: sentindo-se abandonado, ele convence a prima de sua mulher, a desligada May (a cineasta Elaine May roubando a cena) a participar do roubo de um colar caríssimo.

É preciso ser fã da obra de Woody Allen para se gostar de "Trapaceiros", uma vez que as maiores características de suas comédias estão presentes em todo o desenrolar da trama. Calcada basicamente em situações inusitadas e em diálogos inteligentes e sofisticados (ainda que a personagem de Tracey Ullman frequentemente esbarre em um humor mais popular), o filme carece de uma estrutura mais sólida (algumas vezes não se sabe exatamente qual é o foco da história) mas compensa lindamente esse pequeno pecado com as atuações hilárias de Ullman e Elaine May. Apesar de seu ritmo irregular, é um produto típico de seu criador. Para os convertidos é mais um filme acima da média. Para os neófitos, apenas uma comédia com alguns dos diálogos mais engraçados e saborosos de sua época.

Thursday, August 18, 2011

AS VIRGENS SUICIDAS

AS VIRGENS SUICIDAS (The virgin suicides, 2000, American Zoetrope, 97min) Direção: Sofia Coppola. Roteiro: Sofia Coppola, romance de Jeffrey Eugenides. Fotografia: Edward Lachman. Montagem: Melissa Kent, James Lyons. Música: Air. Figurino: Nancy Steiner. Direção de arte/cenários: Jasna Stefanovic/Megan Less. Produção executiva: Willi Baer, Fred Fuchs. Produção: Francis Ford Coppola, Julie Constanzo, Dan Halsted, Chris Hanley. Elenco: Kirsten Dunst, Kathleen Turner, James Woods, Josh Hartnett, Michael Paré, Scott Glenn, Danny DeVito, A. J. Cook, Jonathan Tucker, Hayden Christensen, Hannah Hall, Leslie Hayman, Chelse Swain. Estreia: 12/5/00

Quando o psiquiatra chamado para atender a jovem Cecilia Lisbon - que tentou o suicídio cortando os pulsos aos 13 anos de idade - lhe diz "O que você está fazendo aqui, querida? Você nem é velha o bastante para saber o quão dura é a vida.", nenhuma resposta poderia ser mais certeira e verdadeira do que a disparada pela melancólica paciente: "Obviamente, doutor, você nunca foi uma menina de 13 anos." O diálogo, curto mas direto, talvez seja o norte e uma espécie de bússola para melhor se entender o desenrolar de "As virgens suicidas", estreia de Sofia Coppola como cineasta depois de uma vexaminosa tentativa de ser atriz em "O poderoso chefão parte III", dirigido por seu papai Francis. Adaptado do primeiro romance do americano Jeffrey Eugenides (publicado em 1993), seu filme é um retrato delicado e sensível sobre um período da vida, que, ao contrário do que se costuma dizer por aí, pode ser tenebrosamente traumático, em especial para as garotas.

Tanto o livro de Eugenides quanto o roteiro de Sofia, bastante fiel à sua origem, não são explícitos em culpar a sociedade ou a família ou o capitalismo ou qualquer outro vilão que psicólogos e pretensos entendidos em adolescência tentam criar. Ao invés disso, tudo é visto de forma imparcial, quase documental. É sintomático que a trama seja narrada por gente de fora, como Tim Weiner (Jonathan Tucker) e Trip Fontaine (Josh Hartnett na juventude e Michael Paré na maturidade), que contam ao público a sua percepção (e a de seus amigos) da tragédia que envolveu as cinco meninas Lisbon em uma pequena cidade do Michigan no ano de 1974. Assim como Fontaine, a audiência não sai da sessão com certezas definitivas e sim com a sensação de pesar e tristeza, para a qual contribui a bela trilha sonora do Air. Talvez por também ser mulher - e logicamente ter passado pela adolescência - Sofia Coppola não aponta dedos para suas jovens protagonistas, mesmo que em muitos momentos elas não sejam exatamente exemplares (em especial Lux, vivida por Kirsten Dunst, de certa forma a personagem central da história e catalisadora dos surpreendentes eventos do roteiro).


As meninas Lisbon são filhas de um casal superprotetor, autoritário e religioso: a dona-de-casa Sara (Kathleen Turner deixando de lado sua persona sexy) e o professor Ronald (James Woods à vontade em um papel longe dos marginais com os quais acostumou seu público). Criadas quase isoladas das pessoas de sua idade - o que aumenta o clima de mistério a seu respeito entre os meninos da vizinhança - elas sofrem um baque quando a caçula, Cecilia (Hanna R. Hall), atenta contra a própria vida. O fato faz com que o casal repense a rigidez de suas normas, mas uma tragédia inesperada novamente afasta a família do convívio social, ao qual só retornarão alguns meses depois, quando Lux é convidada pelo bonitão Trip Fontaine a acompanhá-lo ao baile de formatura. Um impulso de Lux acaba deixando seus pais ainda mais tensos e, retiradas da escola e trancadas em casa, elas passam a comunicar-se com os vizinhos através de música. O mais importante desses amigos é Tim Weiner (Jonathan Tucker) - que narra a história através de suas lembranças afetivas em relação a ela.

"As virgens suicidas" é singelo, é quase etéreo. Sofia Coppola acompanha com carinho e delicadeza a trajetória de Lux e suas irmãs sem apressar o ritmo, sem apelar para o grotesco, sem explorar a sensualidade reprimida e pulsante de sua protagonista (que se transforma de menina de família em ninfa vingativa em um trabalho excelente de Kirsten Dunst). Sofia também surpreende ao explorar em Kathleen Turner e James Woods traços de suas personalidades pouco vistas nas telas (e é fascinante perceber como não é preciso muito destaque para que tanto Turner quanto Woods brilhem em seus papéis de pais impotentes diante da desgraça de seu núcleo familiar). E é comovente a forma com que a cineasta - então estreante - consegue dizer tanto em tão poucas (e belamente fotografadas) imagens. Não é preciso que os corpos das virgens suicidas sejam mostrados para que o público se sinta tocado e emocionado. De uma certa forma suas almas já haviam sido desnudadas pouco antes - e isso é bem mais chocante e arrasador.

"As virgens suicidas" é o primeiro e paradoxalmente o mais maduro trabalho de Sofia Coppola como cineasta. Depois dele ela assinaria o bem-sucedido "Encontros e desencontros" (que lhe deu o Oscar de roteiro original) e os polêmicos "Maria Antonieta" e "Em qualquer lugar". Nenhum deles atingiu a medida certa entre melancolia e nostalgia de sua estreia.

Wednesday, August 17, 2011

AMOR MAIOR QUE A VIDA

AMOR MAIOR QUE A VIDA (Waking the dead, 2000, Polygram Filmed Entertainment, 105min) Direção: Keith Gordon. Roteiro: Robert Dillon, romance de Scott Spencer. Fotografia: Tom Richmond. Montagem: Jeff Wishengrad. Música: Scott Shields, Tomadandy. Figurino: Renée April. Direção de arte/cenários: Zoe Sakellaropoulo/Simon La Haye, Joelle Turenne. Produção executiva: Jodie Foster. Produção: Keith Gordon, Stuart Kleinman, Linda Reisman. Elenco: Billy Crudup, Jennifer Connelly, Hal Holbrook, Ed Harris, Janet McTeer, Molly Parker, John Carroll Lynch, Paul Hipp, Sandra Oh. Estreia: 24/3/00

Histórias de amor no cinema seguem quase sempre a mesma métrica. Rapaz e moça se conhecem, se apaixonam, vivem um romance idílico, são forçados a enfrentar problemas de vários tipos e têm uma variante final: ou se acertam de vez e ficam felizes para sempre ou sofrem uma perda irreparável (leia-se uma morte dramática e piegas). Felizmente de vez em quando aparece alguém com algo mais a acrescentar do que simplesmente uma história vazia de amor irreal e plástico. E é isso que o ator e diretor Keith Gordon faz com “Amor maior que a vida”, um romance interessante e consistente que mostra que o amor tem razões que a própria razão desconhece.

“Amor maior que a vida” foge como o diabo da cruz dos clichês do gênero, mas agrada a quem procura um bom romance, assim como acrescenta inteligência na receita e faz a platéia pensar até mesmo depois dos créditos finais graças a um roteiro forte e que emociona sem apelar para lágrimas fáceis. A trama começa em 1972, quando o jovem Fielding Pierce (Billy Crudup), que trabalha na Guarda Costeira de Nova York e sonha ser Presidente da República conhece e se apaixona pela bela e idealista Sarah Williams (Jennifer Connelly), secretária de seu irmão editor. O romance dos dois engrena, e apesar de seu amor evidente, suas personalidades diferentes começam a afastá-los. Enquanto Fielding começa sua ascensão política no Partido Republicano, Sarah envolve-se com a Igreja e com refugiados de países sob ditadura. Em uma de suas viagens, a jovem morre tragicamente, deixando seu namorado inconsolável. Dez anos depois, às vésperas de sua eleição para senador, Fielding passa a ter visões da jovem e começa a desconfiar que sua amada está viva e forjou a própria morte para não atrapalhar sua carreira política. Por ironia, seu desequilíbrio começa a pôr em risco seu futuro.      


Nada é banal e corriqueiro no filme de Gordon. A edição, repleta de vai e voltas no tempo, mais que demonstrar um estilo vazio, ajuda na forma de contar a história, forte por si mesma ao levantar questões importantes e não julgar seus personagens, bem construídos e interpretados por um casal em dias de graça. Jennifer Connelly brilha com sua beleza etérea – em um papel disputado por nomes tão díspares quanto Drew Barrymore, Cameron Diaz, Brittany Murphy, Winona Ryder e até mesmo Britney Spears - mas é o jovem Billy Crudup que entrega uma atuação corajosa e enérgica, com uma personagem complexa e apaixonante. A cena em que Fielding perde a cabeça em um restaurante diante da família comprova que Crudup foi uma escolha acertada, ao invés das figurinhas marcadas que foram consideradas para o papel – pasmem, Tom Hanks, Tom Cruise e Kevin Spacey estiveram cotados... Felizmente o talento falou mais alto do que a ganância (talvez influência da produtora executiva Jodie Foster) e “Amor maior que a vida” é um filme fascinante justamente por suas opções certeiras.

Baseado em um livro de Scott Spencer - cujo título original traduzido literalmente seria algo como "Despertando os mortos", o que provavelmente sugeriria um filme de horror aos desavisados frequentadores de multiplexes - "Amor maior que a vida" faz bem em deixar o espectador tão aturdido e tão em dúvida quanto seu protagonista a respeito da morte (ou não) de Sarah. Nem mesmo quando o filme acaba pode-se dizer com certeza absoluta o que realmente aconteceu e o que não passa da imaginação de um homem loucamente apaixonado. A belíssima trilha sonora - que pega emprestado a linda "Mercy Street" - dá o clima perfeito à introspecção fantasmagórica da trama, que ainda encontra espaço para discussões sociais de suma importância sem nunca soar panfletária ou didática. Os diálogos entre Fielding e Sarah tem o equilíbrio certo entre o romântico e o idealista, entre a ilusão e a realidade, entre o que se sonha e o que realmente se consegue atingir. Nas mãos de atores fracos tudo seria risível. Com Billy Crudup e Jennifer Connelly tudo fica nunca aquém de fascinante.


Dono de diálogos revelantes, atuações viscerais e uma química rara entre seus dois belos protagonistas, "Amor maior que a vida" é um dos dramas românticos mais interessantes do final do século XX. Pode não ter feito bonito nas bilheterias - nem mesmo pagou seu orçamento ínfimo de 8 milhões e meio de dólares - mas é uma experiência enriquecedora. Quem dera mais fracassos assim fossem lançados, para o deleite da plateia mais sensível...

Monday, August 15, 2011

ERIN BROCKOVICH, UMA MULHER DE TALENTO

ERIN BROCKOVICH, UMA MULHER DE TALENTO (Erin Brockovich, 2000, Jersey Films, 130min) Direção: Steven Soderbergh. Roteiro: Susanna Grant. Fotografia: Ed Lachman. Montagem: Anne V. Coates. Música: Thomas Newman. Figurino: Jeffrey Kurland. Direção de arte/cenários: Philip Messina/Kristen Toscano Messina. Produção executiva: John Hardy, Carla Santos Shamberg. Produção: Danny DeVito, Michael Shamberg, Stacey Sher. Elenco: Julia Roberts, Albert Finney, Aaron Eckhart, Peter Coyote, Marg Helgenberger. Estreia: 17/3/00

5 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Steven Soderbergh), Atriz (Julia Roberts), Ator Coadjuvante (Albert Finney), Roteiro Original
Vencedor do Oscar de Melhor Atriz (Julia Roberts)
Vencedor do Golden Globe de Melhor Atriz/Drama (Julia Roberts)

Depois que voltou ao patamar de estrela absoluta graças ao sucesso de filmes como “O casamento do meu melhor amigo” e “Um lugar chamado Notting Hill”, faltava a Julia Roberts provar que além de ímã de bilheteria ela também sabia atuar e que as indicações ao Oscar por filmes tão díspares como o açucarado “Flores de aço” e o romântico “Uma linda mulher” não haviam sido acidentais. A chance de mostrar à crítica e ao público que ela era acima de tudo uma atriz capaz chegou com “Erin Brockovich, uma mulher de talento”, dirigido pelo conceituado Steven Soderbergh. O resultado? Ela acrescentou mais um sucesso comercial à sua bem-sucedida carreira (o filme rendeu mais de 125 milhões de dólares só mercado americano) e de quebra levou quase todos os prêmios de interpretação do ano, incluindo aí um Globo de Ouro e o Oscar. 

 Vestida em roupas provocantes e com um vocabulário quase chulo, Roberts é a alma do filme de Soderbergh. Na pele da personagem-título, que existe de verdade e faz uma ponta como garçonete logo no início da projeção, ela demonstra porque é o maior salário feminino de Hollywood, exibindo seu vasto sorriso em momentos-chave e proferindo frases de um roteiro enxuto, escrito por Susanna Grant, que mistura termos legais americanos com bioquímica. Erin Brockovich, a personagem de Julia Roberts é uma mulher duas vezes divorciada, mãe de três filhos pequenos que, em busca de dinheiro para pagar as inúmeras contas que batem à sua porta vai trabalhar no escritório de seu advogado Ed Mesrey (um ótimo Albert Finney, indicado ao Oscar de coadjuvante masculino). A príncipio relegada a segundo plano, logo ela está metida até o pescoço em uma investigação complicadíssima que envolve carbono 6, um elemento altamente prejudicial à saúde que acaba levando seu escritório a desafiar uma empresa milionária.


Apesar da premissa um tanto absurda – uma mulher sozinha e sem educação formal desvendando um caso grave de negligência – a história contada por Soderbergh & cia. é real. E mesmo que não fosse, o carisma de sua protagonista é tão grande que provavelmente o público acreditaria nela mesmo assim. Mostrando todas as facetas de seu talento, Roberts parece estar em um daqueles filmes clássicos onde as estrelas tinham à sua disposição projetos para mostrar sua versatilidade. Ela consegue com louvor, sendo melhor que o filme, que, diferentemente das obras anteriores do diretor, sempre ousadas e criativas, usa e abusa do academicismo, o que talvez explique suas várias indicações ao Oscar, inclusive de Melhor Filme e Diretor.

Dirigido sem maiores arroubos de criatividade por Steven Soderbergh (que no mesmo ano dirigou “Traffic”, que lhe rendeu o Oscar), “Erin Brokovich” segue a cartilha dos filmes do gênero a que pertence. O roteiro, fluente e por vezes bastante divertido, garante o ritmo agradável do filme, que foge do didatismo quase inerente a um projeto que fala de coisas como cromo hexavalente e faz uso de termos legais que são desconhecidos do grande público. Mas apesar das inúmeras qualidades que o filme de Soderbergh possa ter, o show é de Julia Roberts.Exibindo seu famoso sorriso e suas curvas generosas, Roberts esbanja carisma em um papel feito sob medida para explorar todas as nuances de seu trabalho como atriz. Desenvolta em cenas mais leves, esforçadas em momentos de maior carga dramática, a estrela mais bem paga do cinema americano faturou o Oscar apesar da feroz concorrência de Ellen Burstyn em "Réquiem para um sonho", um trabalho bastante superior mas sem chances frente ao poder desfrutado por Julia, um dos nomes mais populares do cinema americano. Mais uma vez o comercial falou mais alto aos eleitores da Academia.

"Erin Brockovich, uma mulher de talento" é um bom filme, sim, feito com competência e seriedade. Tanto Roberts quanto Albert Finney estão ótimos (assim como o pouco aproveitado Aaron Eckhart) e o tempo passa sem que seja preciso maiores esforços. Mas Steven Soderbergh já foi mais ousado...

Thursday, August 11, 2011

GLADIADOR

GLADIADOR (Gladiator, 2000, Dreamworks SKG/Universal Pictures, 155min) Direção: Ridley Scott. Roteiro: David Franzoni, John Logan, William Nicholson, estória de David Franzoni. Fotografia: John Mathieson. Montagem: Pietro Scalia. Música: Hans Zimmer, Lisa Gerrard. Figurino: Janty Yates. Direção de arte/cenários: Arthur Max/Crispian Sallis. Produção executiva: Laurie MacDonald, Walter F. Parkes. Produção: David Franzoni, Branko Lustig, Douglas Wick. Elenco: Russell Crowe, Joaquin Phoenix, Connie Nielsen, Oliver Reed, Richard Harris, Derek Jacobi, Djimon Hounson, Tomas Arana, Spencer Treat Clark. Estreia: 05/5/00

12 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Ridley Scott), Ator (Russell Crowe), Ator Coadjuvante (Joaquin Phoenix), Roteiro Original, Fotografia, Montagem, Trilha Sonora Original, Figurino, Direção de Arte/Cenários, Efeitos Visuais, Som
Vencedor de 5 Oscar: Melhor Filme, Ator (Russell Crowe), Figurino, Efeitos Visuais, Som
Vencedor de 2 Golden Globes: Melhor Filme/Drama, Trilha Sonora Original

Houve uma época em que Hollywood adorava filmes de gladiadores, que constituíam uma espécie de gênero próprio dentro da indústria. Filmes como "Ben-hur", o recordista em número de Oscar por quarenta anos, lotavam salas e mais salas de cinema, criavam astros e solidificavam carreiras (ainda que Paul Newman tenha renegado eternamente sua estreia em "O manto sagrado"). Com o tempo, heróis vestindo sandálias deixaram de agradar a audiência, que ansiava por personagens mais próximos à sua realidade. Foi somente às vésperas do século XXI, com todos os recursos tecnológicos disponíveis, que um estúdio resolveu ressuscitar o gênero. Aliás, um estúdio não, e sim dois: assustados com o orçamento, que ultrapassou os 100 milhões de dólares, os executivos da DreamWorks (Steven Spielberg entre eles) resolveram unir-se à Universal Pictures para produzir o arriscado "Gladiador".

Arriscado? Sim. Décadas separavam "Gladiador" de seus antecessores bem-sucedidos e, a bem da verdade, pouca gente acreditava que o filme, dirigido por Ridley Scott e estrelado por Russell Crowe (no auge da carreira graças ao sucesso de "Los Angeles, cidade proibida" e "O informante") pudesse tornar-se um êxito. Com mais de 450 milhões de dólares arrecadados pelo mundo e cinco Oscar na prateleira, incluindo Melhor Filme e Ator (mas não de diretor, em mais uma injustiça histórica), hoje é difícil não admirar e se apaixonar pela história concebida pelo roteirista David Franzoni nos anos 70. Grandiloquente, fascinante e emocionante, "Gladiador" é uma das obras-primas com que Hollywood brindou seu público no final dos anos 90, um espetáculo para os olhos e a alma.


Russell Crowe - substituindo Mel Gibson e Antonio Banderas, que foram sondados para o papel - vive Maximus Decimus Meridius, um poderoso e bem-quisto general que é escolhido pelo Imperador Marcus Aurelius (Richard Harris) como seu substituto para governar Roma. Sentindo-se traído, o filho do imperador, Commodus (Joaquin Phoenix) toma atitudes radicais: asfixia o próprio pai e manda executar Maximus e sua família. Sobrevivendo ao plano do ambicioso novo governante, o ex-general caído em desgraça é capturado e transformado em um escravo utilizado para lutar em arenas espanholas. Com o codinome de "Espanhol", ele torna-se um dos mais populares astros do entretenimento mais adorado pelo povo, enquanto planeja vingar-se do homem que destruiu sua vida. A chance acontece quando seu treinador, Proximus (Oliver Reed, que morreu antes do término das filmagens) recebe o convite para participar de um torneio na Itália. Maximus tem, então, a possibilidade de encarar seu maior inimigo frente a uma plateia de centenas de pessoas.

O roteiro de Franzoni (co-escrito por John Logan e William Nicholson) é um achado de simplicidade e fluência. Direto e sem firulas, ele consegue ser ágil sem parecer apressado, ser contemplativo sem parecer monótono e empolgante sem deixar de lado cenas mais emotivas, em especial quando o foco da narrativa passa a ser a relação entre Maximus e Lucilla (Connie Nielsen), irmã de Commodus que teve uma história de amor com o gladiador (e que tem um filho pequeno cuja paternidade nem chega a ser exatamente dúbia). Crowe e Nielsen transmitem uma paixão reprimida que impulsiona o lado mais romântico e sexy da trama, sem que isso prejudique o desenvolvimento daquilo que mais impressionou as multidões: as espetaculares cenas de ação, desde a batalha que dá início ao filme até as sangrentas lutas nas arenas, filmadas com competência absurda por um Ridley Scott no auge de seu vigor criativo. Scott comanda com firmeza milhares de figurantes, efeitos visuais premiados com o Oscar e um elenco de atores em dias inspirados. Se apenas Crowe ganhou sua estatueta - como prêmio de consolação por ter perdido no ano anterior por "O informante" e que lhe impediu de vencer no ano seguinte por "Uma mente brilhante" - tudo não passa de injustiça. Joaquin Phoenix está perfeito como o venal e covarde Commodus, Richard Harris brilha nas poucas cenas em que aparece como Marcus Aurelius e Oliver Reed comove com seu último trabalho na pele do amigo e protetor Proximus. Atuando em um cenário nunca aquém de deslumbrante e sob a trilha sonora inesquecível e arrepiante de Hans Zimmer e Lisa Gerrard - cuja canção final é de uma beleza tocante - o elenco escolhido por Ridley Scott não tem sequer uma falha, um exemplo que deveria ter sido seguido por todos os subprodutos que vieram no rastro do sucesso do filme.

"Gladiador" é um exemplo perfeito de tudo que Hollywood tem de bom a oferecer em termos de entretenimento. Funciona como aventura, como drama, como romance e como uma aula de narrativa clássica. Seu protagonista é carismático e convence como herói, dono de uma verdade que a estampa viril de Russell Crowe apenas confirma - que atire a primeira pedra quem não se arrepia com seu reencontro com Commodus. Seu vilão é cruel, cínico e vil como todos os bons antagonistas. E seu visual acachapante (e seu desenho de som sensacional) são uma festa para os sentidos. Uma obra-prima que dá muito orgulho a seus (bons) antecessores.